As formas e os fins de uma homenagem. Tradução de “Memória Fantasma”, de Juan Pablo Villalobos

The Forms and The Ends of a Tribute. The Translation of “Memoria Fantasma” by Juan Pablo Villalobos

Resumo

Conhecido no Brasil pelos romances Festa no covil (2012), Se vivêssemos em um lugar normal (2013), Te vendo um cachorro (2015) e Ninguém precisa acreditar em mim (2018), todos editados por Companhia das Letras, o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos chega às páginas da Revista Alea, nesta oportunidade, através da tradução do seu relato “Memória fantasma”. Nessa pequena peça narrativa, Juan Pablo Villalobos, o narrador desta homenagem a Juan Rulfo, se desloca entre mortes suspeitas, um doutorado interrompido, teorias da conspiração, o mundo acadêmico e editorial. A capacidade humorística do escritor consegue unir estas peças aparentemente tão distantes entre si, arrastando o leitor, por vezes em um mesmo parágrafo, do riso despretensioso às reflexões sobre a literatura e suas relações com a tradição e a filiação. Afinal de contas, se pergunta o próprio narrador, como pode um escritor de Jalisco escrever sob a sombra de uma figura como Rulfo?

Palavras-chave
Juan Pablo Villalobos; Homenagem; Juan Rulfo; Memória

Abstract

Known in Brazil for the novels Festa no covil (2012), Se vivêssemos em um lugar normal (2013), Te vendo um cachorro (2015) e Ninguém precisa acreditar em mim (2018), all edited by Companhia das Letras, the Mexican writer Juan Pablo Villalobos now reaches the pages of Revista Alea through this translation of his story “Memoria Fantasma”. In this short story, Juan Pablo Villalobos, the narrator of this tribute to Juan Rulfo, moves around suspicious deaths, an interrupted PhD, conspiracy theories, and the academic and editorial worlds. Villalobos’ humorous ability puts together these seemingly distant matters, dragging the reader, sometimes in only one paragraph, from a light laughter to speculations on literature and its relations with tradition and filiation. After all, as the short story’s narrator wonders, how can a writer from Jalisco write under the shadow of an image like Juan Rulfo’s?

Keywords
Juan Pablo Villalobos; Tribute; Juan Rulfo; Memory

Resumen

Conocido en Brasil por las novelas Festa no covil (2012), Se vivêssemos em um lugar normal (2012), Te vendo um cachorro (2015) e Ninguém precisa acreditar em mim (2018), todas editadas por Companhia das Letras, el escritor mexicano Juan Pablo Villalobos llega en esta oportunidad a las páginas de la Revista Alea a través de la traducción de su relato “Memoria fantasma”. En esta pequeña pieza narrativa, Juan Pablo Villalobos, el narrador de este homenaje a Juan Rulfo, se desplaza entre muertes sospechosas, un doctorado interrumpido, teorías de la conspiración, el mundo académico y editorial. La capacidad humorística del autor reúne estas piezas aparentemente tan alejadas, arrastrando al lector, por veces en un mismo párrafo, de la risa despreocupada a reflexiones sobre la literatura y sus relaciones con la tradición y la filiación. A fin de cuentas, se pregunta el propio narrador, ¿cómo puede un escritor de Jalisco escribir bajo la sombra de una figura como Rulfo?

Palabras clave
Juan Pablo Villalobos; Homenaje; Juan Rulfo; Memoria

Apresentação

É preciso construir um monumento a um autor se queremos homenageá-lo? Seria possível fazer uma homenagem a uma obra que parece rejeitar qualquer monumentalização? “Memória fantasma” (2017VILLALOBOS, J.P. Memoria fantasma. Revista de la Universidad de México, n. 159, 2017. Disponível em: <Disponível em: https://www.revistadelauniversidad.mx/download/ffab5d50-5ed2-4875-93fe-19b3715bd3e7?filename=memoria-fantasma > Acesso em: 15/01/2020
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), de Juan Pablo Villalobos, parece lidar com essas questões. O conto ocupa um lugar de destaque na produção literária de Villalobos, já que retoma e desloca algumas questões recorrentes em suas obras. A filiação e a tradição, que aparecem como problemas em vários de seus romances - Festa no covil (2012VILLALOBOS, J.P. Festa no Covil. São Paulo: Cia das Letras, 2012.), Te vendo um cachorro (2015VILLALOBOS, J.P. Te vendo um cachorro. São Paulo: Cia das Letras, 2015.) e Ninguém precisa acreditar em mim (2018VILLALOBOS, J.P. Ninguém precisa acreditar em mim. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.), para mencionar alguns - pela primeira vez são vinculadas explicitamente a uma tradição literária. Com a publicação, Villalobos entra enviesadamente no hall de escritores do porte de Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes que frequentemente tratam da relação fundamental entre a obra de Rulfo e o desenvolvimento de suas próprias obras. No entanto, à diferença de certa crítica grandiloquente, já em suas primeiras páginas, “Memória fantasma” parece recusar-se a se curvar frente ao monumento a Juan Rulfo.

Se pensamos na famosa homenagem de García Márquez ao autor mexicano - “Breves nostalgias sobre Juan Rulfo” (1980) - vemos que o autor colombiano atribui a Pedro Páramo (2014RULFO, J. Pedro Páramo. México D.F.: Editorial RM, 2014.) um papel basilar no caminho que iria seguir o desenvolvimento de suas obras ao afirmar que “o escrutínio a fundo da obra de Juan Rulfo me deu por fim o caminho que buscava para continuar meus livros” (MÁRQUEZ, 1980GARCÍA MÁRQUEZ, G. Breves nostalgias sobre Juan Rulfo. Proceso, 27 de septiembre, 1980. Disponível: <Disponível: http://www.proceso.com.mx/129532/breves-nostalgias-sobre-juan-rulfo >. Acesso em 15/01/2020.
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)1 1 As traduções de “Breves nostalgias sobre Juan Rulfo” são todas minhas. . Para isso, o texto assume um caráter excessivo e grandiloquente. É o caso do relato da obsessão que a leitura de Pedro Páramo gerou em García Márquez. Ainda no começo de seu curto texto, ele diz que na noite em que conheceu o romance de Rulfo, não conseguiu dormir até ter terminado não apenas a leitura do romance, mas também uma segunda leitura e que, no resto daquele ano, não conseguiu ler nenhum outro autor, porque “todos pareciam menores”. A obsessão narrada é tanta que ele chega a afirmar que “conseguia recitar o livro inteiro, de trás para frente, sem nenhum erro considerável, e conseguia dizer em que página da minha edição se encontrava cada episódio, e não havia um só traço do caráter dos personagens que não conhecesse a fundo” (MÁRQUEZ, 1980GARCÍA MÁRQUEZ, G. Breves nostalgias sobre Juan Rulfo. Proceso, 27 de septiembre, 1980. Disponível: <Disponível: http://www.proceso.com.mx/129532/breves-nostalgias-sobre-juan-rulfo >. Acesso em 15/01/2020.
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). Essa obsessão com a obra vem acompanhada de outras formas de engrandecer tanto a Rulfo como a si mesmo. O contexto da Cidade do México na segunda metade do século XX, por exemplo, aparece carregado de nomes - Carlos Fuentes, Carlos Velo, Elena Poniatowska, entre outros - que ajudam a construir a imagem de um jovem autor na iminência de tornar-se o grande Gabriel García Márquez, que presta tributo a Rulfo como uma forma de engrandecer-se enquanto autor. Como sugere Pineda Buitrago (2017PINEDA BUITRAGO, S. Literatura y poder: García Márquez en México (1961-2014). Latinoamérica, n. 65, p. 11-33, 2017.), nesse texto “mais que de Rulfo, García Márquez falou de si mesmo”2 2 Tradução minha (p. 18). A transformação de Rulfo em um monumento literário contribui, assim, para a construção da grandiosidade que ronda não só a própria figura de autor de García Márquez, mas também de suas obras grandiosas.

Nada mais distante dessa grandiosidade que a homenagem de Juan Pablo Villalobos. Não é acaso, por exemplo, que a figura de Carlos Fuentes, que aparece em “Breves nostalgias sobre Juan Rulfo” como uma forma de enaltecer o contexto em que o autor colombiano estava inserido, apareça em “Memória fantasma” de forma sarcástica como alguém de quem o narrador - também Juan Pablo Villalobos - deseja se afastar. Além disso, o narrador comenta, ainda no princípio, que Pedro Páramo talvez nem seja seu livro preferido, mas simplesmente “uma forma de ostentar a potência” da sua tradição literária. Esse tipo de ressalva já coloca em questão a própria lógica da homenagem e, a partir desse ponto, o texto já deixa claro que o que se segue não se tratará simplesmente de elogios incondicionais, como os de García Márquez. O caminho que o conto percorre é muito mais o de uma subversão dessa submissão através do humor irônico tão característico da maior parte das obras de Villalobos. Tal qual Ninguém precisa acreditar em mim, em “Memória fantasma” se desenvolve uma complexa conspiração acadêmica que coloca em risco a vida do narrador. Mortes suspeitas de acadêmicos rulfistas aos poucos vão revelando uma trama em que as disputas pelo poder acadêmico ultrapassam os muros das universidades e ganham contornos mafiosos surpreendentes. O narrador - que parece uma espécie de Juan Preciado do mundo acadêmico e literário - vai aos poucos vendo-se atraído para o centro da perigosa trama, por mais que busque se afastar dela.

A homenagem, assim, se desloca dos meros elogios e enaltecimentos das qualidades da obra de Rulfo. Este exercício faz lembrar o movimento que Jaques Lacan leva a cabo em sua “Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein” (2003LACAN, J. “Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein”. In: Outros escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003, p. 198-205). Neste texto, o psicanalista procura, através da homenagem, definir um método. Não tanto o método do homenageado, mas um método próprio do homenageador. Diz ele, referindo-se ao seu próprio texto, que “isso não é um madrigal, mas uma baliza de método”. A grande homenagem, a partir do que afirma Lacan e do que coloca em ato Juan Pablo Villalobos em “Memória fantasma”, não é feita através do significado do texto ao qual se presta tributo, mas sim através do desenvolvimento de uma outra forma a partir da leitura do texto homenageado. Por isso acredito que o conto que traduzo aqui seja o momento em que se mostrem mais claramente as engrenagens narrativas de Juan Pablo Villalobos.

Tradução: “Memória FantamasVILLALOBOS, J.P. Memoria fantasma. Revista de la Universidad de México, n. 159, 2017. Disponível em: <Disponível em: https://www.revistadelauniversidad.mx/download/ffab5d50-5ed2-4875-93fe-19b3715bd3e7?filename=memoria-fantasma > Acesso em: 15/01/2020
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”, de Juan Pablo Villalobos

I

Em janeiro de 2005, enquanto eu fazia meu doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona, conheci Andreia, agora mãe dos meus dois filhos. Como éramos ambos de letras (acho que ainda somos), o ritual de intercâmbios afetivos com que nos descobrimos incluiu livros. Uma madrugada, bem no começo, falando de literatura, prometemos dar de presente um para o outro nosso livro preferido. Ela, que é brasileira, me deu as Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, na edição de bolso da Alianza. Eu dei Pedro Páramo numa edição que nunca tinha visto no México, a edição de bolso da Anagrama (nossas bolsas não permitiam luxos bibliográficos).

Nenhum de nós dois achou que era um sinal de mau agouro o fato de termos escolhido livros do além-túmulo. Afinal de contas, eram clássicos. Talvez nem fossem nossos livros preferidos, mas eram uma forma de ostentar a potência das nossas respectivas tradições literárias. Como se fosse pouco, tínhamos nos conhecido em um seminário sobre literatura do Holocausto. Mais romântico impossível.

Naquela época me inscrevi em outro seminário na universidade, chamado “Dante e a pós-modernidade”. A ideia era rastrear a influência da Divina Comédia na literatura, no cinema, no teatro e na arte do século vinte. Não tinha muito a ver com o meu projeto de tese sobre escritores excêntricos latino-americanos: na verdade não tinha nada a ver. Mas eu precisava de créditos e os seminários eram a forma mais eficaz de consegui-los (mediante a simples presença e a redação de um breve ensaio). Como eu tinha relido recentemente o Pedro Páramo com a Andreia, para lhe sussurrar ao ouvido notas de pé de página, o tema do ensaio me pareceu óbvio. Intitulei meu trabalho “Pedro Páramo e a Divina Comédia: duas versões da escatologia”.

Estávamos, como já disse, em 2005, e era o aniversário de cinquenta anos de publicação de Pedro Páramo. Havia, como era de se esperar, uma avalanche de artigos que, ou insistiam nas mesmas leituras de sempre (a exegese do status animarum post mortem) ou se esforçavam em propor novas interpretações do romance (falhando, na maioria das vezes). Ao mergulhar na internet quase que me afogo e me arrependi imediatamente. No entanto, não podia voltar atrás, porque de uma maneira bastante irresponsável tinha comunicado ao professor o tema do ensaio antes de começar a pesquisá-lo.

Durante as leituras para a escrita, como um predador à caça de citações que engordassem meu ensaio, descobri que Carlos Fuentes defendia a conexão entre a Divina Comédia e Pedro Páramo e que Carlos Monsiváis a negava, argumentando que era uma estratégia da “ignorância ilustrada” para subtrair o caráter social do romance, para reduzi-lo à esfera mítica. Leia-se nas entrelinhas: uma apropriação do neoliberalismo. “Tudo é mítico”, escreve Monsiváis, “o que ao pé da letra quer dizer: incompreensível, longínquo, selado”.

Com estupefação tive que afrontar a terrível realidade: se eu quisesse escrever o ensaio (e conseguir os créditos) teria que me colocar do lado de Carlos Fuentes.

“É como se para Rulfo Cristo não tivesse ressuscitado”, escrevi naquele ensaio, “o que faz lembrar a admoestação de São Paulo aos incrédulos: se Cristo não ressuscitou, nossa fé é vã e estamos ainda em nossos pecados (Cor 1: 15-17). Os personagens de Pedro Páramo realizam uma interpretação negativa da escatologia cristã: Cristo padeceu um martírio sem sentido, sem salvação, sem ressurreição”.

Entreguei o ensaio e obtive os créditos sem que o professor fizesse maiores comentários (uma prática habitual na mediocridade das universidades espanholas). Me esqueci do ensaio. Me esqueci de Rulfo. Andreia ficou grávida. Abandonei o doutorado (estava acabando a bolsa e eu precisava de um trabalho). Nasceu Mateo em setembro de 2006. Escrevi um romance, Festa no covil, que só consegui publicar em 2010. O romance foi traduzido ao francês mais tarde e Dominique Deruelle, um professor aposentado de Saint-Étienne, me convidou ao Letras Latinas, o festival de literatura latino-americana de Lyon. Era novembro de 2012.

II

- Morreu Martín Acuña de la Torre - me disse André Feraud, da Universidade Stendhal de Grenoble, durante um dos jantares do festival.

Em um primeiro momento, distraído pela perícia que me exigiam as pinças e o garfo para comer caracóis, não dei atenção. Como o nome não me soou conhecido, cheguei a pensar que o comentário não era dirigido a mim, mas a outro companheiro de mesa.

- Martín Acuña de la Torre - insistiu André, e dessa vez levantei o olhar do prato e me dei conta de que ele examinava fixamente minha torpeza manual -, o grande rulfista paraguaio.

Me apressei em meter na boca o caracol que eu tinha pescado, ao mesmo tempo que ensaiava uma cara de pena incerta, protocolar. Confesso inclusive que me dominou passageiramente a chateação de confirmar que, mais uma vez, por ter nascido em Jalisco estava condenado a ser, quando muito, um escritor da terra de Juan Rulfo.

- Morreu aqui, na França - continuou André -, veio viver aqui depois de se aposentar na Universidade de Indiana.

Então alguma coisa ressoou na minha memória, talvez a menção à universidade norte-americana: eu tinha citado profusamente Martín Acuña de la Torre no meu ensaio sobre Rulfo e Dante. Uma de suas ideias, sobre o tempo no além-túmulo, e sua distinção entre o que para Rulfo é filosófico e para Dante moral, foram as bases da escrita daquele ensaio. Transcrevo agora um fragmento, copiado dos meus arquivos: “As in Dante, the pained shades of Rulfo have a kind of ghostly body, a phantom appearance, and they talk, they move, they complain, they grieve, and, deprived of any possibility of charge, incapable of bettering their condition in any way, they find themselves outside of time”.

Imaginei uma história triste e estereotipada: a do acadêmico latino-americano que, depois de viver por longos anos nos Estados Unidos, volta ao seu país e não consegue reintegrar-se. A do expatriado que perdeu seu lugar no mundo e, velho e cansado, escolhe um lugar novo, alheio, para ir morrer. André interrompeu meu devaneio melodramático:

- Assassinaram ele, dizem que foi uma morte natural, mas eu sei que assassinaram ele.

Depositei o comprido garfo com que perseguia os caracóis no prato. Levantei a taça de vinho tinto e, lentamente, dei um gole. Olhei para os outros escritores na mesa (Alejandro Zambra, Alberto Barrera, Guillermo Fadanelli), absortos numa conversação paralela com Dominique Deruelle e com o diretor do festival, Alonso Morales. Seguindo a lógica do diálogo, correspondia a mim perguntar como era que ele sabia que ele tinha sido assassinado, e a curiosidade, fulminante, me compelia, mas eu intuía que fazer isso seria um caminho sem volta. André resolveu o dilema respondendo à pergunta sem que eu a formulasse:

- Ele me disse. Falo com ele todas as noites.

André Feraud devia ter uns sessenta anos e era também um rulfista de carreira. Não era um dos mais notáveis, ou notórios, talvez porque tinha se dedicado aos estudos comparativos entre a obra de vários escritores telúricos - Jorge de Icaza, Ciro Alegría, Manuel Scorza- e a obra de Rulfo. Nos meios acadêmicos mexicanos era mais conhecido por ser um dos poucos que reivindicavam o lugar fundamental que deveria ocupar um livro de contos esquecido, Trópico, de Rafael Bernal, dentro de uma tradição da narrativa indigenista e da terra. Era considerado um acadêmico menor, um julgamento arbitrário baseado em um ditado popular: quem muito abarca pouco aperta.

Quando os garçons retiraram os pratos com as conchas vazias dos caracóis, a metade das minhas ainda habitadas, vi que Dominique se levantava para ir ao banheiro e me apressei a segui-lo.

- Mas que figura esse André Feraud, né? - eu disse ao Dominique enquanto urinávamos, um ao lado do outro, nos mictórios.

- Um pouco excêntrico, sim - respondeu Dominique.

Terminamos a micção em silêncio. Pensei que tinha que compartilhar com Dominique o que o André tinha acabado de me relatar, ao menos para fazer dele cúmplice da incomodidade quando voltássemos para a mesa.

- André me contou que - comecei a dizer enquanto lavávamos as mãos.

- Ele ficou muito afetado com a morte de Martín - me interrompeu Dominique -, eles eram muito amigos, estavam há anos trabalhando em um livro sobre Rulfo que estavam pensando em publicar no centenário.

- Que centenário? - perguntei confuso, naquele 2012.

- Em 2017 - respondeu Dominique - em cinco anos é o centenário de nascimento de Rulfo.

- Martín morreu de quê? - perguntei.

- Sempre teve problemas com a bebida - me disse Dominique - vinha deprimido há um tempo.

Secou as mãos e abandonou o banheiro sem terminar de responder à pergunta.

Ao voltar para a mesa, consegui me integrar em uma conversa sobre futebol com Alejandro Zambra e Alonso Morales, que especulavam sobre a demissão do treinador da seleção chilena logo depois de perderem nessa mesma noite de 3 a 1 para a Sérvia. Fingi ignorar André durante o resto do jantar, mas na verdade me mantive muito atento a sua maneira de se comportar. Isolado entre duas conversas, permaneceu calado, taciturno, vagamente triste, seria possível dizer, embora talvez estivesse paulatinamente mais e mais bêbado. Eu estava morto de fome, porque entre o fiasco com os caracóis e a raquítica porção de costelinhas de cordeiro (literalmente “costelinhas”), era como se eu não tivesse jantado. O vinho, esse sim em quantidades generosas, estava obrando seu efeito. E logo chegou a coroação intoxicante: o carrinho de queijos, esses queijos podres, maravilhosos, que são autênticas drogas que abrem as portas à percepção de múltiplos delírios gástricos.

Fizemos a caminhada de volta ao hotel onde todos nos hospedávamos e o torpor que me dominava enalteceu, ingenuamente, minha capacidade empática. Me aproximei de André, que tropeçava nas próprias pernas, e o peguei pelo braço, como se fosse meu pai. Resmungava frases em francês, que meu medíocre domínio da língua me impediu de entender. Ao chegar ao hotel, Dominique pediu para que eu me assegurasse de que André chegaria bem ao seu quarto.

Subimos todos no elevador e eu desci com André no segundo andar. Atravessamos o corredor, encontramos o quarto e quando eu me despedia, André me puxou para dentro.

- Tenho um conhaque muito bom - me disse, com a língua enrolada - vamos tomar um gole antes de dormir.

Me dei conta de que ele estava tão bêbado que já tinha alcançado o nível da impertinência e que o melhor seria seguir a onda dele para evitar um escândalo e fugir para o meu quarto assim que eu pudesse.

André serviu dois copos de uma garrafa de conhaque que extraiu da mala. Me entregou um e se jogou na única poltrona do quarto. Eu me sentei na beira da cama e comecei a fingir que dava golinhos, temendo a ressaca do dia seguinte em que eu teria que pegar um avião de volta para casa.

- Já está chegando - disse André de repente.

- Quem? - Perguntei, receoso, vigiando a porta de entrada, que também era minha via de escape.

- O Martín - respondeu André -, temos que terminar o livro.

Eu estava tão bêbado que tive medo de que a qualquer momento pudesse aparecer o espectro de Martín, representado na forma que ele mesmo tinha descrito em seu ensaio sobre Rulfo e Dante: “a ghostly body, a phantom appearance”.

- Quem matou o Martín? - perguntei, absurdamente, os queijos eram mesmo alucinógenos.

- Quem matou o Martín - repetiu André -, quem matou o Martín.

Ele serviu para si mesmo um segundo copo de conhaque e me ofereceu a garrafa, que eu recusei com um gesto que sugeria prudência.

- Ele gostou muito do seu ensaio, o Martín - disse André depois de esvaziar o copo com um gole -, essa leitura herege entusiasmava ele, essa conexão satânica do Pedro Páramo é muito interessante.

Eu estaria mentindo se dissesse que por estar bêbado fiquei menos surpreso, comigo isso nunca acontece. A surpresa, de fato, se somou à confusão que me turvava a cabeça. Como Martín Acuña de la Torre podia ter lido meu ensaio se eu não tinha publicado? Fiquei de pé pronto para fugir como se tivesse acabado de descobrir uma trama conspiratória na qual pretendem me enredar. Mas a curiosidade foi maior que a cautela.

- Como é que o Martín leu meu ensaio? - perguntei -, era só um trabalho de faculdade, escrevi para uma disciplina do doutorado.

- Nós rulfistas ficamos sabemos de tudo - respondeu -, ele leu em uma revista da Universidade Veracruzana, não lembro o nome, estou um pouco bêbado.

A teoria conspiratória se desmontou porque entendi a lógica narrativa: eu tinha enviado todos os ensaios que tinha escrito no doutorado para Teresa García Díaz, a orientadora com quem eu tinha trabalhado como bolsista no Instituto de Pesquisas Linguístico-Literárias da Universidade Veracruzana, e tinha pedido que ela tentasse publicar. Depois perdemos contato e como eu tinha abandonado minhas pretensões acadêmicas não fiquei sabendo se ela conseguiu.

- Em La palabra y el hombre? - perguntei.

- Isso, isso - respondeu.

E dormiu. Fiquei em dúvida se eu deveria deitar ele na cama antes de ir embora. Cheguei perto da mesa de cabeceira e vi o manuscrito.

Para dizer a verdade, o livro de Martín e André não era sobre Rulfo. Era sobre os rulfistas. Era um retrato implacável, hilariante, do mundo acadêmico. Estava escrito em um espanhol inconstante (se notava a diferença entre as passagens escritas no espanhol nativo de Martín e aquelas redigidas no espanhol acadêmico de André) que pedia urgentemente uma revisão de estilo profunda, e talvez tivesse o “defeito” de parecer um livro de Roberto Bolaño. Mas isso não é necessariamente um defeito: às vezes alguém tenta contar a verdade e termina parecendo alguma coisa escrita por Bolaño.

Tinha especulações deliciosas sobre a origem dos fundos que financiavam as distintas pesquisas rulfianas. Essas sim verdadeiras teorias da conspiração que incluíam universidades europeias e norte-americanas, obscuras dependências governamentais do México, Estados Unidos ou da União Soviética, editoras das Bahamas, revistas impressas em Liechtenstein. Tinha um capítulo sobre um congresso em Bratislava, nos anos noventa, dedicado exclusivamente a determinar quem dormia com quem no mundo dos rulfistas, que parecia um clube de swingers. E outro que sugeria existir uma relação entre os lugares onde havia maior concentração de rulfistas e os fluxos de investimento estrangeiro direto no México. Ao longo do livro se acusava reiteradamente os tradutores de Rulfo de serem na verdade espiões a serviço do imperialismo.

No último capítulo, intitulado “Rulfo e Satanás”, se citava meu ensaio. E aqui era onde Martín e André tinham levado seu delírio até o limite: descreviam os fundamentos teológicos de uma seita inspirada na escatologia de Pedro Páramo. Falavam de rituais. Entre eles, sacrifícios humanos nos quais se prometia ao sacrificado que sua alma habitaria Comala.

Eu ri, não sei se de nervoso ou de verdade, o álcool confundia tudo. Mas o tema do último capítulo sim me impôs um respeito macabro que me fez abandonar o quarto de André de uma vez por todas. Fui dormir e tive muitos pesadelos.

Voltei para casa. Me esqueci de André e de Martín, mesmo que ocasionalmente eles aparecessem nos meus pesadelos. Me esqueci também de Rulfo (um escritor de Jalisco tem que se esquecer de Rulfo se quer escrever qualquer coisa). Em 2014, meu segundo romance foi publicado na França e então Dominique reapareceu, por e-mail, perguntando se eu estaria disponível para ir de novo ao festival. Desta vez as datas não me convinham, por isso acabei não indo, mas aproveitei o intercâmbio de e-mails para perguntar a Dominique como estava André Feraud, “nosso amigo excêntrico”. “Oh”, me escreveu Dominique, “achei que você já sabia. André morreu ano passado”. Respondi lamentando a notícia e perguntando se André tinha conseguido terminar o livro que tinha escrito com Martín sobre Rulfo, se tinha publicado. “Não existe tal livro”, me respondeu, “falava muito sobre este livro, mas não existe nada, ninguém encontrou nada em suas coisas, você sabe, ele gostava muito de beber”.

Eu sabia que estava sendo impertinente, mas depois de dois ou três dias com a dúvida me carcomendo decidi perguntar como o André tinha morrido. Dominique me respondeu uma linha só, sucinta, dura, no último e-mail dessa série: “Tirou a própria vida”.

Na sexta-feira 13 de novembro de 2015 voltei a Lyon para participar outra vez do festival. Desta vez me acompanhavam Andreia e nossos dois filhos, planejávamos aproveitar o fim de semana para passear pela região. A falta de sorte quis que o trem em que tínhamos partido de Barcelona quebrasse e tivéssemos que cancelar meu primeiro evento. Chegamos com o tempo apertado para nos deslocarmos até Saint-Étienne para uma palestra na biblioteca municipal. Quem mediava a mesa era Dominique.

Quando acabou tivemos que correr até a estação para tomar o último trem que nos mandaria de volta a Lyon. Praticamente não tive tempo de falar com Dominique, e ao chegar a Lyon ficamos sabendo do ataque terrorista em Paris, que transtornou os planos de férias da família e minha participação nos eventos do festival na segunda e terça-feira, que acabaram sendo cancelados.

Por conta do ambiente estranho da cidade, subitamente repleta de policiais, Andreia e eu decidimos ficar em Lyon só até o domingo e voltar a Barcelona. No sábado levamos as crianças ao Parc de la Tête D’Or, que tem um maravilhoso zoológico de espécies raras e protegidas. Estávamos percorrendo a seção dos macacos quando um sujeito se aproximou e me dirigiu a palavra.

Você é Villalobos, não é? - ele me perguntou.

Não respondi nada, mas olhei para ele desconfiado. Deveria ter uns quarenta anos e tinha aparência de latino-americano, de quem a Europa mudou o estilo, mas não os traços. Andreia e as crianças, que não tinham se dado conta, caminharam até a jaula seguinte.

Te vi há uns anos no festival de Letras Latinas - ele disse, e consegui identificar seu sotaque mexicano -, faz dois anos? em La Ópera com Fadanelli.

Faz três anos - respondi, admirado pela coincidência -, foi em 2012.

Ele me contou que era de Guadalajara e que estava fazendo um doutorado em Grenoble, mas que sempre que podia fugia para Lyon, que agora tinha uma namorada francesa que morava em Lyon e passava mais tempo lá do que na universidade. Ficamos calados e ao invés de me despedir, para não parecer grosseiro, disse uma dessas frases inócuas de cortesia (sempre tenho medo de parecer grosseiro, de pensarem que sou arrogante).

Que coincidência - eu disse.

O sujeito olhou para todos os lados. Então disse:

Não é coincidência, eu queria falar com você.

Antes de eu conseguir construir mentalmente uma narrativa paranoica, o sujeito foi se explicando:

Eu pedi a Alonso para agendar uma entrevista com você, e estava tudo certo para conversarmos na segunda; eu escrevo para uma revista digital, mas Alonso me ligou ontem para cancelar a entrevista, e me disse que se eu quisesse falar com você teria que ser hoje porque você ia voltar antes. Fui ao hotel e vi você sair, mas fiquei com vergonha de interromper porque você estava com a sua família.

Você seguiu a gente? - perguntei.

Na verdade, não - respondeu -, eu escutei quando você perguntou na recepção como se chegava no parque e vim aqui procurar você.

Olhei com desespero para onde Andreia e as crianças estavam.

André era meu orientador - disse o sujeito.

Como é? - eu disse, surpreso.

André Feraud, você conheceu ele; ele também era um dos organizadores do festival.

Ficamos contemplando um momento um macaquinho calvo do Amazonas que se balançava na nossa frente.

Você ficou sabendo do que aconteceu com ele? - ele disse.

Sim, que morreu - eu disse -, me contaram.

Não morreu - Ele disse, cravando um olhar vacilante nos meus olhos - André foi morto, igual Martín Acuña.

Me disseram que ele tinha se suicidado - eu disse.

É o que dizem - replicou - é o que dizem.

Andreia se aproximou, estranhando. Me vi obrigado a fazer as apresentações, sem saber como se chamava o indivíduo, que brincou com as crianças para não ter que revelar seu nome.

Um minuto e não te perturbo mais - ele me disse, ou melhor, disse à Andreia, para que ela deixasse a gente a sós.

Esperou até que minha família estivesse a uma distância suficiente.

Preciso falar com você - ele me disse. Eu falei que tinha que ir embora.

Me dá meia hora e te explico tudo. Você pode ajudar a fazer com que fiquem sabendo a verdade.

Não posso - me desculpei -, vim com minha família para compensar pelos últimos tempos, porque tenho viajado muito; não vou deixá-los sozinhos no hotel.

Tem mais - ele me interrompeu.

Mais o quê? - perguntei.

Sánchez Cuesta de Salamanca, Eske Rohde da Universidade de Leiden. Sobre Inga em Austin não está claro, mas eu apostaria que é a mesma coisa.

A mesma coisa o quê?

Passo no seu hotel e te explico - me respondeu - na hora que você disser.

Ele me obrigou a fazer uma chamada perdida para guardar meu telefone.

Te ligo daqui a pouco e combinamos - ele me disse.

Qual é seu nome? - eu perguntei.

Te digo essa noite.

Mas a próxima vez que soube dele foi pelas notícias.

Esta é a parte mais fácil de escrever, a mais desnecessária, porque todo mundo conhece: aquele estudante de doutorado de Guadalajara era o mexicano que se jogou da Pont de la Guillotière na madrugada do domingo 15 de novembro de 2015.

III

De volta a Barcelona, reconstruí pela primeira vez, para Andreia, o relato completo de tudo que tinha acontecido até então.

Promete que não vai se meter mais nisso - ela me pediu.

Eu não me meti em nada - eu respondi.

Promete pra mim - ela insistiu.

Eu falei que sim, que não estava pensando em tocar nesse assunto.

E promete pra mim que não vai escrever sobre isso - me pediu, assustada de verdade.

Prometo - eu disse -, prometo.

Para espantar os fantasmas, nunca melhor dito, recorri ao único colega que eu achava que não ia rir da minha ingenuidade, do meu provincianismo, se eu pedisse a opinião sobre o que tinha acontecido. Ao contrário do que eu esperava, Santiago Roncagliolo acabou rindo de mim, gargalhando, mas, tal como eu imaginava, ficou fascinado pela história.

Você procurou na internet, cara? - ele me perguntou enquanto a gente jogava ping pong na Gala Placidia.

Os três morreram - eu respondi -. Sánchez Cuesta e Eske Rohde em 2014. Inga Berg em 2013.

Morreram de quê?

Não sei - respondi -, os obituários universitários não costumam dar esse tipo de detalhe.

Mas se o que você está me contando é verdade, a internet deve estar cheia de informação, pensa bem, cara.

Não encontrei nada - eu confessei.

Porque você tá procurando errado.

Ele deixou a raquete na mesa, fez um sinal para o filho o substituir e saiu com o telefone no ouvido.

Aonde você tá indo? - eu perguntei.

Tenho um conhecido que pode ajudar a gente.

O que a gente está buscando? - perguntou o “conhecido” de Santiago no seu sótão de Poble Nou.

Santiago fez um resumo, exageradíssimo, como num filme de terror, como se a história, em vez de parecer um livro de Bolaño, fosse um romance dele. Deu logo uma folha de papel onde tínhamos anotado todos os nomes envolvidos, alguns endereços de email que tínhamos conseguido nos sites das universidades na internet.

Isto não serve de nada - ele disse - acham que estes homens usariam seus nomes verdadeiros na deep web?

Sugerimos que ele procurasse fóruns onde se falasse de Juan Rulfo.

Vamos ver se encontramos - ele disse, com as mãos suspensas sobre o teclado do computador como se fosse começar a tocar piano -. Tudo na deep web está cifrado, codificado, encriptado. Deem-me palavras relacionadas a Rulfo, quanto mais melhor.

Começamos pelo óbvio, “Macario”, “Luvina”, “Comala”, sem resultados relevantes, e continuamos assim um pouco mais, até que o conhecido de Santiago, irritado, baixou Pedro Páramo e Chão em chamas e colocou para funcionar um programa de busca que relacionava todas as palavras dos dois livros, exceto preposições e advérbios.

Vai demorar - ele disse - desçam para tomar uma cerveja e voltem em meia hora.

Obedecemos e ao regressar, quando abriu a porta de volta, sua indiferença me fez temer que a busca tivesse fracassado. No entanto, tinha sim encontrado algo; acho que esse mundo de conspirações era a vida cotidiana para ele, seu pão de cada dia.

Havia um fórum, criado e administrado em Guadalajara, em Tlajomulco, para ser exato, com participantes de distinto lugares da Europa, Estados Unidos e América Latina. Era o meio de comunicação de uma seita satânica, fundada por acadêmicos rulfistas do mundo inteiro, sob os preceitos de Pedro Páramo.

É o típico fórum de uma organização clandestina - comentou o conhecido de Santiago -, a deep web está cheia destes: terroristas, infratores, partidos políticos extremistas, seitas apocalípticas, corretores da bolsa.

Santiago pediu para ele imprimir as trocas de mensagens do fórum.

Você vê muitos filmes, Santi - ele respondeu - não perca tempo com isso. Tenho algo melhor. Alguém teve um descuido. Sempre há um idiota que se distrai e deixa uma pista. Assim é como a polícia os encontra.

Entregou para a gente um pedaço de papel com uma informação escrita a lápis.

Memorizem - ele ordenou - ninguém sai daqui com nada.

Li o nome, um email, um endereço em Colonia Las Águilas, em Zapopan.

Te lembra alguma coisa? - Santiago me perguntou.

Eu conheço - respondi.

Aquilo tinha acontecido em outra vida, quando eu morava em Guadalajara, há mais de vinte anos, vinte e dois, para ser exato. Eu estudava administração de empresas, ainda não tinha descoberto minha “verdadeira vocação”, e tentava impressionar uma colega de universidade de quem eu gostava. Parte da minha estratégia de sedução, naquela época, incluía livros, e o que eu escolhi nessa ocasião foi Las enseñanzas de don Juan, de Carlos Castaneda, com o qual eu tentava me dar um ar místico e misterioso, me fazer de interessante. Mas o tiro me saiu pela culatra.

Quando fizemos seis meses de namoro, ela me disse que tinha um presente especial, que tinha inscrito a gente num curso sobre os ensinamentos de Carlos Castaneda. Eu quis corrigir dizendo que na verdade os ensinamentos eram de don Juan, o bruxo yaqui, mas ela me informou que o curso era dado por um discípulo de Castaneda, e consistia em quatro sessões de aula na cidade, de segunda a quinta, e um acampamento no final de semana no bosque da Primavera. Para mim tudo pareceu uma armação fraudulenta para tirar dinheiro dos incautos e tentei me negar a ir. Impossível, a menos que quisesse terminar o namoro. E, para dizer a verdade, eu não queria que isso acontecesse; estava apaixonado.

O suposto discípulo de Castaneda se chamava Salvador Barba e, tal qual se esperava, se revelou um manipulador de carteirinha. Em outras palavras, estava se preparando para dirigir uma seita. Os fiéis, claro, seriam os alunos dos cursos, que funcionavam, na realidade, como uma estratégia de recrutamento. Nunca entendi bem como eles faziam para identificar suas “vítimas”, mas o sistema era preciso: lá só chegava gente desesperada, solitária, viciada, desabrigada, que tinha sofrido alguma tragédia ou que não encontrava o sentido da existência. Ainda me tomaria muito tempo descobrir por que minha namorada tinha acabado ali, e eu de tabela.

Desenganado desde o começo, assumindo uma postura de superioridade cínica, o curso me pareceu uma encenação ridícula, uma mistura de ioga e técnicas de relaxamento orientais, calistenia, magia branca, indigenismo apropriado, atividades de exploração tiradas de um manual de escoteiros e uma deturpação do legado de Jung e, claro, de Castaneda. Tudo isso formulado em um discurso motivacional que ia criando laços de dependência entre os alunos do curso e, acima de tudo, entre eles e o líder. O pior de tudo é que fazia efeito: quando acabou o acampamento, todos os participantes, todos, aceitaram continuar o “treinamento”, expressaram publicamente seu compromisso de ser fiéis ao grupo e manter em segredo tudo o que acontecia entre eles. Todos menos eu, claro.

Frente a minha negação, Salvador tentou me convencer e, vendo que seria impossível, se dedicou a me humilhar. Eu me mantive firme, assustado pela violência que se ocultava por trás desse exercício de manipulação das emoções. Me expulsaram dali como se eu fosse um traidor, tive que voltar caminhando até a cidade, sozinho, deixando para trás minha namorada, que eu tinha perdido para sempre.

No começo do mês de dezembro viajei ao México para participar da Feira do Livro de Guadalajara. Tinha prometido para mim mesmo, e tinha prometido para a Andreia, não fazer nada, cortar de uma vez essa narrativa absurda que já estava ficando grande demais. Mas tudo mudou assim que eu aterrissei na cidade e tive certeza da presença próxima de Salvador, sua influência perversa, de repente me veio a urgência das histórias inacabadas, a necessidade de saber, de entender, e, sobretudo, de encerrar uma etapa da minha vida que tinha ficado inconclusa aquele domingo no bosque da Primavera. Uma das minhas vidas possíveis tinha sido interrompida aquela tarde, e ainda que não me arrependesse, também não me resignava ao fato de que alguém tivesse se intrometido de uma forma tão arbitrária para me excluir daquela trama.

Pedi para Rolando, meu amigo de longa data, me levar ao endereço em Las Águilas, me esperar do lado de fora e para ficar alerta caso eu demorasse a sair. Eram dez da manhã da quinta-feira 3 de dezembro de 2015.

Você demorou a voltar - me disse Salvador quando abriu a porta -, mas voltou, isso que importa.

Deixou a porta aberta e entrou, convidando-me a segui-lo. Eu tinha certeza de que era impossível que ele tivesse me reconhecido, tinham passado mais de vinte anos, eu tinha engordado alguns quilos, tinha barba, tinha mudado completamente meu penteado e minha maneira de me vestir. Era, imaginei, o que Salvador dizia todas as vezes que abria a porta e não encontrava um dos seus discípulos. Na sua mentalidade arrogante de líder de seita, todo aquele que não era um fiel era um arrependido.

Atravessei o hall de entrada e a sala em penumbras, as cortinas estavam fechadas, e saí para a varanda dos fundos, onde Salvador tinha acabado de sentar em uma cadeira de balanço sob o sol radiante. Não havia outro lugar para sentar-se, me encostei na parede e o observei atentamente. Ele estava com óculos escuros e um rabo de cavalo grisalho feito com os fiapos de cabelo que ainda restavam. Usava uma calça que mais parecia um pijama. Estava descalço. Calculei que devia ter uns sessenta anos.

Você se converteu ao satanismo - eu disse, me poupando do prólogo -, mas acho que também não é tão difícil de entender, você sabe o que dizem: quem dinheiro quer ganhar, muitas voltas há de dar.

Do que você está falando? - ele perguntou, sem se distrair da insolação.

Do inferno de Pedro Páramo.

Tirou os óculos escuros para poder examinar meu rosto sem interferências e se inclinou para frente para focar seu interesse.

Quem te mandou aqui? Você é jornalista? - ele me perguntou.

Você não lembra de mim, não é?

E deveria?

Na verdade, não importa - eu respondi.

Colocou os óculos e se encostou na cadeira de balanço de novo.

Esses filhos da puta ficaram me devendo uma puta grana - ele disse.

Morreu gente - eu disse, e me aproximei dele para analisar sua reação -, pessoas foram sacrificadas.

Eu não tive nada a ver com isso - se defendeu -, eu só organizava o circo.

Inclinou o corpo para frente, se levantou e arrastou a cadeira de balanço para a sombra, fugindo de mim.

Você faz o que da vida? - ele perguntou.

Falei para ele que eu era escritor. Ele riu sinceramente, sem forçar. Atravessei a varanda para ficar na sombra também, o sol queimava com força.

Você está pesquisando para escrever um livro? - ele perguntou -. Não vai achando que a verdade é tão interessante, é muito mais mundana do que você poderia imaginar. Mas escreve o livro, tomara que se fodam esses filhos da puta.

E qual é a verdade?

E qual seria? - ele disse -. Adivinha, escritor, usa a imaginação.

Estalei a língua, forte, para deixar claro que eu detestava charadas.

Agora some daqui que já me lembrei de você.

IV

Chegou 2017, o ano do centenário de Juan Rulfo, e por alguma estranha razão, talvez, de novo, por ter nascido em Jalisco, ou talvez porque meu último romance tinha ganhado um prêmio importante, várias revistas e periódicos do México, da Espanha e de outros países solicitaram que eu escrevesse textos de homenagem. Rejeitei a maioria dos pedidos, evitei falar sobre o tema, especialmente quando pareceu evidente que havia uma espécie de censura contra toda exegese ou leitura que fugisse do que é “autorizado”.

Referências

  • GARCÍA MÁRQUEZ, G. Breves nostalgias sobre Juan Rulfo. Proceso, 27 de septiembre, 1980. Disponível: <Disponível: http://www.proceso.com.mx/129532/breves-nostalgias-sobre-juan-rulfo >. Acesso em 15/01/2020.
    » http://www.proceso.com.mx/129532/breves-nostalgias-sobre-juan-rulfo
  • LACAN, J. “Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein”. In: Outros escritos Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003, p. 198-205
  • PINEDA BUITRAGO, S. Literatura y poder: García Márquez en México (1961-2014). Latinoamérica, n. 65, p. 11-33, 2017.
  • RULFO, J. Pedro Páramo México D.F.: Editorial RM, 2014.
  • VILLALOBOS, J.P. Festa no Covil São Paulo: Cia das Letras, 2012.
  • VILLALOBOS, J.P. Se vivêssemos em um lugar normal São Paulo: Cia das Letras, 2013.
  • VILLALOBOS, J.P. Te vendo um cachorro São Paulo: Cia das Letras, 2015.
  • VILLALOBOS, J.P. Memoria fantasma. Revista de la Universidad de México, n. 159, 2017. Disponível em: <Disponível em: https://www.revistadelauniversidad.mx/download/ffab5d50-5ed2-4875-93fe-19b3715bd3e7?filename=memoria-fantasma > Acesso em: 15/01/2020
    » https://www.revistadelauniversidad.mx/download/ffab5d50-5ed2-4875-93fe-19b3715bd3e7?filename=memoria-fantasma
  • VILLALOBOS, J.P. Ninguém precisa acreditar em mim São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

  • 1
    As traduções de “Breves nostalgias sobre Juan Rulfo” são todas minhas.
  • 2
    Tradução minha

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2020
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2020

Histórico

  • Recebido
    15 Jan 2020
  • Aceito
    30 Abr 2020
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