Editorial

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A revista Alea 10.1 apresenta à comunidade de Letras uma seleção de artigos em torno do tema "Atualidade da crítica". Com efeito, nosso intento era provocar um debate sobre as possibilidades de leitura do texto literário que vêm surgindo ao longo dos anos. Surgindo e transformando-se; impondo-se e sendo destronadas por novas tendências que rechaçam e recuperam, a um tempo, características de movimentos anteriores.

O artigo introdutório, "Maurice Blanchot: de la chronique à la théorisation", de autoria de Christophe Bident, oferece-nos uma arguta reflexão sobre as crônicas literárias que Maurice Blanchot publicou entre 1941 e 1944 no "Journal des Débats", só editadas em 2007 pela Gallimard, e que já anunciavam o crítico que os ensaios posteriores haveriam de revelar. O artigo seguinte, "Linguagem e interdisciplinaridade", da pena de José Luiz Fiorin, traz à baila uma questão que há muito nos vem interessando, e que o autor discute com bastante clareza, a saber, a relação que se poderia estabelecer entre a lingüística e a literatura, tão próximas no estudo da língua e tão distantes em nossas práticas institucionais. "Giros em falso no debate da Teoria", reflexão proposta por Fábio Akcelrud Durão, aborda a transição dos estudos de teoria literária para os estudos de "Teoria" como o sintoma de uma crise atual da área, manifesta sobretudo em solo americano, que tende a transformar a teoria em um campo autônomo desvinculado da sociedade. Ettore Finazzi-Agrò, em seu "O comum e o disperso: história (e geografia) literária na Itália contemporânea", trata das reflexões teóricas que se elaboraram, na Itália, na passagem entre o século XX e o XXI. Insiste no resgate da história e da memória, que a literatura pode representar, como linha de resistência contra a máquina governamental que gira em falso e leva à "catástrofe". Regina Zilberman, em "Recepção e leitura no horizonte da literatura", faz um recuo no tempo que, situando a recepção nos pressupostos de Aristóteles, examina as transformações históricas, ideológicas e comportamentais por que ela passa. Jaime Ginzburg, por seu turno, no artigo "O valor estético: entre universalidade e exclusão", discute os critérios de valor das obras no mundo contemporâneo, uma vez que a violência que nos circunda poderia levar o leitor a procurar esquecer sua insegurança e seu medo em obras que recriam uma realidade ilusória e mais confortável. O ensaio de Guilherme Gutman, "Freud, Lear & Bloom: algumas notas sobre leitura e psicanálise", tomando por base a análise que fazem Freud e Bloom da obra de Shakespeare, destaca e justifica, de forma clara e convincente, os processos e o interesse de um estudo literário de cunho psicanalítico. Os três ensaios que encerram o volume mantêm entre si, embora com temas e aspectos diferentes, uma certa relação de parentesco no que se refere às pesquisas das fontes primárias. Eneida Maria de Souza propõe, em seu artigo "A biografia, um bem de arquivo", resgatar a figura por vezes injustiçada do autor através da análise genética dos bastidores da obra, objeto de estudo dos pesquisadores do Acervo de Escritores Mineiros da UFMG. Por outro lado, Philippe Willemart, membro da Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética, faz um panorama da "Crítica genética hoje" e, sobretudo, de sua consolidação no Brasil. E, por fim, o pesquisador tunisiano Moncef Khémiri, em seu "Baudelaire au miroir de Malraux", tendo por base as consultas minuciosas dos manuscritos da Metamorfose dos deuses de André Malraux, mostra a presença de Baudelaire na obra do escritor-ensaísta, não só através de textos conhecidos, mas, o que é enriquecedor, com referências a cartas e manuscritos ainda inéditos.

Este número da revista traz uma rubrica nova que intitulamos "Conferência", que nos vai permitir publicar doravante a palavra de professores, pesquisadores e escritores de reconhecida competência em visita às Universidades do país. Desta vez, acolhemos a voz de Horácio González, professor universitário e Diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, que nos fala sobre "Políticas de la lectura".

Se não nos foi possível contemplar a totalidade da crítica, há, ao menos, aqui, um leque de propostas que, com certeza incompletas, e muitas vezes polêmicas, hão de provocar nossa reflexão e alimentar a interlocução universitária. Esperemos que tragam retorno.

Os Editores

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2008
  • Data do Fascículo
    Jun 2008
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