Derborence

Charles-Ferdinand Ramuz

TRADUÇÃO

Derborence

Charles-Ferdinand Ramuz

Edição comemorativa, vol. 14. Lausanne: Rencontre, 1967, p. 219-222.

Derborence, a palavra é canto suave; canto suave e um tanto triste na cabeça da gente. Começa bastante dura e marcada, depois hesita. Torna-se indecisa, fica suspensa no ar, enquanto a gente continua a cantá-la, Derborence; enfim, de repente, se quebra, como se quisesse assim significar a ruína, o isolamento, o esquecimento.

Pois a ruína ficou agora nos lugares que Derborence designa; nenhuma manada sobe mais, o próprio homem passou a evitar o local. Fica a cinco ou seis horas da planície, quando se chega pelo oeste, isto é, pelo País de Vaud. Derborence, onde fica? Dizem a você: "Fica ali atrás." É preciso subir durante muito tempo na contramão de um córrego de bela água, parecida com ar cobrindo as pedras do seu leito, de tanta transparência. Derborence, é preciso primeiramente se elevar entre duas arestas compridas e irregulares; elas são como duas navalhas cujo dorso teria se fincado na terra, e a lâmina corroída mostra o seu aço que brilha em algumas partes, comida pela ferrugem em outras. E, na esquerda como na direita, elas aumentam em altitude, essas arestas; à medida que se sobe, elas sobem também; e a palavra continua cantando suavemente na cabeça da gente enquanto se passa perto dos belos chalés daqui, que são compridos, bem caiados de branco, com um telhado coberto de telhas de madeira parecidas com as escamas dos peixes. Há estábulos para os animais, há fontes abundantes.

Continua-se subindo; o caminho se torna mais íngreme. Chegou-se agora aos grandes pastos, recortados de saliências pedregosas, que parecem uma sucessão de andares. Passa-se de um andar para o outro. Já não se está bem longe de Derborence; também não se está bem longe da região das geleiras, porque, ao subir assim, chega-se finalmente a um lugar que forma uma passagem, apertada entre as cordilheiras, logo acima dos pastos e das casinhas de Anzeindaz, que ali formam uma espécie de aldeia, um pouco abaixo da altitude onde até mesmo a grama acaba, ali onde as árvores há muito não crescem mais.

Derborence, o lugar fica logo ali. É só andar reto, em frente.

E, de repente, o chão desaparece sob os pés.

De repente. A linha do pasto, que afunda no meio, começa a traçar no vácuo, no nada, a sua curva oca. E você percebe que já chegou porque um imenso buraco se abre bruscamente à sua frente, um buraco de forma oval, como uma vasta cesta com paredes verticais, sobre a qual é preciso se debruçar, porque se está numa altitude de cerca de dois mil metros, e o fundo fica quinhentos ou seiscentos metros abaixo.

Você se debruça, você estica o pescoço. Ou então você se deita de barriga para baixo, deixando o rosto no abismo, virado para baixo.

Um sopro frio bate na sua cara.

Derborence, em primeiro lugar um pouco de inverno que bate na sua cara em pleno verão, porque a sombra mora lá quase o dia todo, lá ficando mesmo com o sol a pique. E se pode ver que lá não há mais nada além de pedras, pedras, pedras e mais pedras.

Os paredões despencam verticalmente por todos os lados, mais ou menos altos, mais ou menos lisos, enquanto a trilha se insinua naquele que fica abaixo de você, girando sobre si mesma feito uma minhoca; e, por todos os lados avistados, à sua frente como à sua esquerda ou à sua direita, ficando em pé ou deitada, suspensa no ar ou caída, em esporas avançadas ou na retranca, ou ainda em dobras que são desfiladeiros estreitos – em toda parte está a rocha, apenas a rocha, uma única desolação.

O sol que está acima dela a colore parcialmente de diversos modos, porque uma das cordilheiras projeta a sombra sobre a outra, e a sombra das cordilheiras do sul se projeta sobre a do norte; e se pode ver o alto dos paredões ficando amarelo como a uva madura, ou rosa como a flor.

Mas a sombra já vem subindo, subindo cada vez mais; ela sobe com pequenos movimentos, irresistivelmente, assim como a água numa bacia; e, à medida que vai subindo, tudo se apaga, tudo esfria, tudo se cala, tudo esvaece e morre; enquanto uma única cor triste, uma única matiz azulada se espalha como um nevoeiro fino em cima de você, através do qual se vêem dois pequenos lagos melancólicos ainda um pouco reluzentes, que cessam de reluzir, deitados horizontalmente como telhados de zinco.

Pois ainda tem esse fundo, mas olhe bem: nada se move. Por mais que você olhe, sem pressa e com atenção: tudo fica imóvel. Olhe: dos altos paredões do norte aos do sul, em nenhum lugar há espaço para a vida. Tudo está recoberto por aquilo que é o contrário da vida, que é o seu impedimento.

Há alguma coisa que existe entre o que está vivo e nós. Em primeiro lugar, é como uma espécie de areia, com um cone cuja ponta fica encravada pela metade no paredão do norte; e de lá, espalhados por todos os lados, como se fossem dados fora do copo, dados de todos os tamanhos, um bloco que é quadrado, um outro bloco que é quadrado, superposições de blocos, e sucessões de blocos, pequenos e grandes, tapando e recobrindo esse fundo a perder de vista.

Tradução: Pierre Guisan

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jul 2005
  • Data do Fascículo
    Dez 2004
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