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O romance africano e o problema da world literature. Notas para um roteiro conceitual

The African Novel and the Problem of World Literature. Notes for a Conceptual Itinerary

Resumo

O artigo apresenta um panorama conceitual sobre weltliteratur e world literature - em suas diversas articulações -, evidenciando a diversidade conceitual e metodológica que pauta estes conceitos a serem entendidos como paradigmas discursivos historicamente determinados (Pizer, 2006). Observando as transformações destes discursos, a partir de uma perspectiva diacrónica, é possível estabelecer um contraponto com os mais recentes desenvolvimentos do debate em torno da world literature, evidenciando suas potencialidade críticas e metodológicas para o estudo do romance africano contemporâneo.

Palavras-chave:
weltliteratur; world literature; literatura mundo; literatura-mundial; romance africano

Abstract

The article presents a conceptual overview of weltliteratur and world literature, highlighting the conceptual and methodological diversity that guides these categories to be understood as a discursive paradigm historically determined (Pizer, 2006). Observing the transformations of weltliteratur and world literature from a diachronic perspective, it is possible to establish a counterpoint with the most recent debates around world literature, underlining its critical and methodological potential for the study of contemporary African novel.

Keywords:
weltliteratur; world literature; world-literature; African novel

Résumé

L'article présente un aperçu conceptuel de la weltliteratur et de la littérature mondiale, soulignant la diversité conceptuelle et méthodologique qui guide ces catégories à comprendre comme un paradigme discursif historiquement déterminé (Pizer, 2006). En observant les transformations de la weltliteratur et de la littérature mondiale dans une perspective diachronique, il est possible d'établir un contrepoint avec les débats les plus récents autour de la littérature-mondiale, soulignant son potentiel critique et méthodologique pour l'étude du roman africain contemporain.

Mots clés:
weltliteratur; world literature; littérature mondiale; littérature-mondiale; roman africain

No dia 15 de Março de 2007, 44 escritores e escritoras de língua francesa assinaram e publicaram, no suplemento literário do jornal francês Le Monde - Le Monde de Livres -, um texto intitulado “Pour une « littérature-monde » en français”, traduzido para o português em 2012 por Marie-Manuelle Silva com o título “Para uma ‘literatura-mundo’ em francês”.1 1 Os signatários do manifesto são: Muriel Barbery, Tahar Ben Jelloun, Alain Borer, Roland Brival, Maryse Condé, Didier Daeninckx, Ananda Devi, Alain Dugrand, Edouard Glissant, Jacques Godbout, Nancy Huston, Koffi Kwahulé, Dany Laferrière, Gilles Lapouge, Jean-Marie Laclavetine, Michel Layaz, Michel Le Bris, JMG. Le Clézio, Yvon Le Men, Amin Maalouf, Alain Mabanckou, Anna Moï, Wajdi Mouawad, Nimrod, Esther Orner, Erik Orsenna, Benoît Peeters, Patrick Rambaud, Gisèle Pineau, Jean-Claude Pirotte, Grégoire Polet, Patrick Raynal, Jean-Luc V. Raharimanana, Jean Rouaud, Boualem Sansal, Dai Sitje, Brina Svit, Lyonel Trouillot, Wilfried N’Sondé, Anne Vallaeys, Jean Vautrin, André Velter, Gary Victor, Claude Vigée, Abdourahman A. Waberi. Tendo em conta a reflexão que pretendo desenvolver neste artigo, merecem ser citadas ao menos duas passagens do texto:

Mais tarde, talvez se venha a dizer que foi um momento histórico: o Goncourt, o Grand Prix du roman da Académie française, o Renaudot, o Femina, o Goncourt des lycéens atribuídos, no mesmo Outono, a escritores do ultra-mar francês. Mero acaso de uma rentrée editorial que, excepcionalmente, concentra talentos oriundos da “periferia”, mero desvio vagabundo antes do rio voltar ao leito? Pensamos o contrário: revolução copernicana. Copernicana porque revela o que o meio literário já sabia, embora não o admitisse: o centro, esse ponto a partir do qual supostamente irradiava uma literatura franco-francesa, já não é o centro. O centro tinha até agora - embora cada vez menos -, uma capacidade de absorção que forçava os autores alheios a se despojarem da sua bagagem, antes de se fundirem no boião da língua e da história nacional: o centro, é o que revelam os prêmios do Outono, está agora em qualquer sítio, nos quatro cantos do mundo. Fim da francofonia. E nascimento de uma literatura-mundo em francês (Brugioni et al., 2012BRUGIONI, Elena et al. Manifesto para uma ‘literatura-mundo’ em francês. In: BRUGIONI, Elena et al. (org.). Itinerâncias: Percursos e Representações da Pós-colonialidade. Braga: Húmus Edições, 2012. p. 243-250., p. 243).

Sejamos claros: a emergência de uma literatura-mundo em língua francesa conscientemente assumida, aberta ao mundo, transnacional, assina a certidão de óbito da francofonia. Ninguém fala nem escreve francófono. A francofonia não é mais de que brilho de estrela morta. De que maneira poderia o mundo interessar-se pela língua de um país virtual? Ora foi o mundo quem se convidou para o banquete dos prémios do Outono. Pelo que percebemos que chegou o tempo da revolução (Brugioni et al., 2012BRUGIONI, Elena et al. Manifesto para uma ‘literatura-mundo’ em francês. In: BRUGIONI, Elena et al. (org.). Itinerâncias: Percursos e Representações da Pós-colonialidade. Braga: Húmus Edições, 2012. p. 243-250., p. 246).

O alvo desse Manifesto é, sem dúvida, a francofonia como projeto ideológico, político e estético,2 2 A este propósito ver Brugioni (2017; 2018). mas também como um campo literário e cultural, em sentido abertamente bordeusiano, assombrado pelos dilemas da assimilação e do exótico; isto é, uma construção simbólica e política na qual, como haveria de afirmar a escritora franco-camaronesa Calixthe Beyala, “o Francês é francófono mas a francofonia não é francesa” (1996BEYALA, Calixthe. Les Honneurs perdus. Paris: Albin Michel, 1996.), e na qual, sobretudo, o conceito de universal - tão caro ao discurso republicano francês - esbarra com seu matricial etnocentrismo. Esta dimensão é reiterada com clareza no próprio texto do Manifesto, que, ao tecer suas reflexões, mobiliza um conjunto de imagens, questões e referências que embasam os discursos identitários e culturais que pautam a república francesa das letras, especialmente em seu discurso universalista, frequentemente encoberto de uma ideologia abertamente colonial e imperial.

Por fim, se vemos em todo o lado esta efervescência criadora, é porque qualquer coisa, na própria França, se pôs outra vez em marcha, onde a nova geração se desfez da era da suspeita e agarrou sem complexos os ingredientes da ficção para abrir novas vias romanescas. Assim, parece-nos ter chegado a hora de um renascimento, de um diálogo no seio de um vasto conjunto polifónico, sem preocupação de luta contra ou a favor da preeminência de uma ou outra língua ou de qualquer “imperialismo cultural”. Uma vez que o centro foi remetido para outros centros, assistimos à formação de uma constelação, onde a língua, liberta do seu pacto exclusivo com a nação, fora do alcance de qualquer poder para além daqueles que exercem a poesia e o imaginário, apenas terá como fronteiras as do espírito (Brugioni et al., 2012BRUGIONI, Elena et al. Manifesto para uma ‘literatura-mundo’ em francês. In: BRUGIONI, Elena et al. (org.). Itinerâncias: Percursos e Representações da Pós-colonialidade. Braga: Húmus Edições, 2012. p. 243-250., p. 247).

No entanto, não deixa de ser curioso que os 44 signatários do Manifesto elejam os mais franceses - ou melhor, os mais parisienses - dos prêmios literários para decretar a morte da francofonia e o surgimento da literatura-mundo em francês. A este propósito cabe lembrar o que Pascale Casanova, em seu estudo sobre espaço literário internacional (1999CASANOVA, Pascale. La république mondiale des lettres. Paris: Éditions du Seuil, 1999. ; 2004CASANOVA, Pascale. The World Republic of Letters. Cambridge: Harvard University Press, 2004.), nota sobre os prêmios:

Os prêmios literários são a forma menos literária da consagração literária: na maioria das vezes sua função é revelar os veredictos das instâncias específicas fora dos limites da República das Letras. São portanto a parte emersa e mais aparente dos mecanismos de consagração, uma espécie de confirmação para uso do grande público (Casanova, 2004CASANOVA, Pascale. The World Republic of Letters. Cambridge: Harvard University Press, 2004., p. 147, tradução minha).

Ao mesmo tempo, se torna claro como no Manifesto os prêmios do outono parisiense sejam estrategicamente escolhidos para tornar evidente a importância dessa consagração na acumulação de um capital literário - a ser despendido como universal - e que, deste modo, caracteriza obras literárias, autores e autoras que se situam nas periferias da república das letras em língua francesa, se apresentando como o ponto de partida para uma revolução que parece se caracterizar por uma estratégia não tanto de oposição e resistência (Said, 1993SAID, Edward W. Culture and Imperialism. New York: Vintage Books, 1993. ), mas, sim, de substituição. Isto é, a ocupação de lugares hegemônicos até então reservados aos letrados franceses - mas não francófonos - por autores e autoras “periféricos(as)” cujas obras, no entanto, chegam às mãos do público francês - e francófono - através de chancelas editoriais de alto impacto consagratório e mercadológico como Gallimard, Albin Michel, La Pléiade, Seuil, entre outras. Uma revolução que, portanto, se realiza sobretudo através de sua parisanização, como afirma Casanova que a respeito do caso francês salienta:

Para chegar ao reconhecimento literário, os escritores dominados devem portanto dobrar-se às normas decretadas universais justamente por aqueles que detêm o monopólio do universal. E sobretudo encontrar a "distância correta" que irá torná-los visíveis. Se querem ser percebidos, precisam produzir e exibir alguma diferença, mas não mostrar, nem reivindicar uma distância grande demais que também os tonaria imperceptíveis. Nem estar perto, nem longe demais. Todos os escritores dominados linguisticamente pela França tiveram essa experiência (Casanova, 2004CASANOVA, Pascale. The World Republic of Letters. Cambridge: Harvard University Press, 2004., p. 156; tradução minha).

Não cabe aqui entrar no mérito das discussões suscitadas pelo Manifesto, cujas leituras críticas sobretudo no campo dos chamados estudos franceses - ou French studies - determinou o surgimento de uma pequena biblioteca de respostas,3 3 Entre uma vasta bibliografia suscitada pela publicação do manifesto, veja-se o dossiê organizado por Roger Célestin, William J. Cloonan, Eliane DalMolin & Alec G. Hargreaves, Littérature-monde: New Wave or New Hype? (2010). especialmente nos contextos acadêmicos de língua francesa e nos Estados Unidos, não sendo esse o caso do universo crítico de língua portuguesa no qual o Manifesto passou quase despercebido. No entanto, algumas das posições expressas no Manifesto nos permitem refletir sobre a relação entre a literatura e (a ideia d)o mundo, desdobrando alguns dos conceitos - universal, sub e transnacional, alteridade, entre outros - em parte ocultados pela mesma categoria de world literature em sua designação múltipla e desigual de weltliteratur, literatura mundo (world literature), literatura mundial (world literature), literatura-mundo (literature-monde) e literatura-mundial (world-literature), procurando definir de forma um pouco mais clara as diferenças conceituais - e metodológicas - que pautam estas diversas definições, bem como os pressupostos e empasses que a world literature como problema (Moretti, 2013MORETTI, Franco. Distant Reading. London: Verso, 2013., p. 46) tem suscitado no campo dos estudos literários comparatistas.

Como é sabido, a relação entre literatura comparada e world literature (literatura mundo ou literatura mundial; com ou sem hífen) tem suscitado grandes debates - quando não autênticas brigas - entre estudiosos(as) que se situam neste campo de atuação acadêmica e intelectual. In primis, cabe sublinhar o óbvio: weltliteratur, literatura mundo (world literature), literatura mundial (world literature), literatura-mundo (literature-monde) e literatura-mundial (world-literature) são nomes similares que designam - semântica e conceitualmente - objetos de estudos e métodos muito distintos - quando não opostos ou pelo menos em aberta contradição, como pretendo, ainda que parcialmente, mostrar neste artigo. Deste modo, é possível afirmar com alguma segurança que esses termos não se relacionam por uma lógica sinonímica e portanto não apontam para objetos e campos de estudos ou problemas idênticos, especialmente quando observados em suas perspectivação histórica. Aliás, a partir de uma perspectiva diacrónica, é possível notar de imediato que a categoria de world literature não é certamente algo novo e, ao fazermos isso, desmontamos uma ideia recorrente - e equivocada - que pressupõe a emergência do termo - e seus debates -, no âmbito da guinada multiculturalista e dos hibridismos pós-coloniais que ocorrem no campo dos estudos literários na década de 90 do século XX.

Procurando situar possíveis começos - beginningsSAID, Edward W. Beginnings: Intention & Method. London: Granta, 2012 [1975]., de acordo com a reflexão proposta por Edward W. SaidSAID, Edward W. Humanism and Democratic Criticism. New York: Columbia University Press, 2004. - e, portanto, inícios mas não origens,4 4 Neste sentido, minha reflexão se coloca numa perspectiva conceitual distinta daquela proposta por David Damrosch em seu ensaio World Literature in Theory (2014), no qual o crítico define alguns dos textos inaugurais da world literature como origens (origin). No entanto, a seleção de textos que apresento neste ensaio coincide, parcialmente, com a seleção também proposta por Damrosch. sobressai o termo weltliteratur, cujo significado não é certamente correspondente ao de world literature, mas que de certo modo inaugura um discurso sobre a relação entre a literatura e a(s) ideia(s) de mundo. Trata-se, como é obvio, daquela weltliteratur citada em 1827 por Goethe em suas cartas ao amigo Johann Peter Eckermann, acessíveis em língua portuguesa na tradução de Mário Frungillo e publicadas pela Editora da Unesp em 2016 com o título Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida - 1823/1832 (Eckermann, 2016ECKERMANN, Johann Peter. Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida: 1823-1832. Tradução Mário Luiz Frungillo. São Paulo: Editora da Unesp, 2016.). Após a leitura do romance chinês em tradução francesa, lu-kiao-li ou As duas primas, de 1826, Goethe afirma: “A literatura nacional hoje já não significa grande coisa; é chegada a época da literatura mundial - weltliteratur - e todos devem trabalhar no sentido de apressa-la” (Eckerman, 2016ECKERMANN, Johann Peter. Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida: 1823-1832. Tradução Mário Luiz Frungillo. São Paulo: Editora da Unesp, 2016., p. 228). Ainda que desde o final dos anos 1980 saibamos que a suposta “paternidade” do termo já não cabe ao poeta e romancista alemão mas sim a Christoph Martin Wieland - expoente da corrente classicista de Weimar -,5 5 Veja-se, a este propósito, a reflexão proposta por John Pizer em The idea of world literature: history and pedagogical practice (2006). o que mais importa destacar na reflexão sobre weltliteratur formulada por Goethe é a relação - ou melhor, a dialética - entre sub-nacional e transnacionalismo e, portanto, entre particular e universal, ambas irremediavelmente ligadas à questão da tradução e da alteridade a serem entendidas como dois paradigmas matriciais nos discursos críticos que pautam o que virá a se configurar como world literature. Em linha com a leitura de Goethe proposta por Fawzi Boubia em seu ensaio “Universal Literature and Otherness” (1988BOUBIA, Fawzi. Universal Literature and Otherness. Translated by Jeanne Ferguson. Diogenes, v. 36, n. 141, p. 76-101, 1988. ) é possível notar, tal como sublinha John Pizer:

Boubia noted that Weltliteratur is "other" directed. That is to say, Goethe's belief that translation in its highest, third, stage must approximate the rhythmic and grammatical nuances of the original language demonstrates that Goethe's paradigm sets as its highest ideal the movement of the self toward the Other, not a dominion over the Other or a leveling of the Other. This embrace of alterity, grounded in a unique principle of estrangement that forces the self to become foreign to itself: serves the twin causes of intercultural dialogue and respect for the foreign (Pizer, 2006PIZER, John. The Idea of World Literature: History and pedagogical practice. Baton Rouge: LSU Press, 2006., p. 28).

(…)

This is not to say that Goethe regarded transnationalism and sub- nationalism as simply two sides of one dialectically productive coin. Goethe realized that the average German's lifetime confinement within the narrow boundaries of one of its multitude of petty states tended to result in pedantic narrow-mindedness among the citizenry (Pizer, 2006PIZER, John. The Idea of World Literature: History and pedagogical practice. Baton Rouge: LSU Press, 2006., p. 35).

A weltliteratur como paradigma discursivo goethiano parece apontar para um conjunto de questões centrais no âmbito do debate sobre world literature, ressoando inevitavelmente naquilo que muito mais tarde virá a se tornar, como afirma Franco Moretti, “o problema da literatura mundial” (2013MORETTI, Franco. Distant Reading. London: Verso, 2013., p. 46) em suas distintas designações conceituais - literatura mundo, literatura mundial, com ou sem hífen - e seus respectivos desdobramentos metodológicos.

Em 1848, 20 anos após as conversações entre Eckermann e Goethe, Karl Marx e Frederick Engels, numa passagem daquilo que será porventura o mais importante manifesto da historia da humanidade - Manifest der Kommunistischen Partei -, afirmam: “A unilateralidade e a obtusidade ficam cada vez mais improváveis, e das muitas literaturas nacionais e locais emerge uma literatura mundial” (Marx; Engels, 1998MARX, Karl; ENGELS, Frederic. The communist manifesto. London; New York: Verso, 1998., p. 35-36, tradução minha). Já no início do século XX, precisamente em 1907, o poeta bengali Rabindranath Tagore, laureado em 1913 com o Prêmio Nobel de Literatura - primeiro autor asiático a receber o prêmio dos prêmios -, em um dos seus mais célebres textos ensaísticos, afirma:

Literatura Comparada é o título em inglês que você deu ao assunto que me pediram para discutir. Em bengali, eu chamo isso de Literatura Mundial. (…) o que realmente vale a pena ver na literatura mundial é a maneira como os seres humanos expressam sua alegria na literatura e a forma permanente em que a alma humana deseja se revelar através da diversidade dessa expressão (Tagore, 2001TAGORE, Rabindranath. Selected Writings on Literature and Language. New Delhi: Oxford University Press, 2001. , p. 138-150; tradução minha).

Os exemplos são apenas alguns - dos muitos a nosso dispor - e cada um deles mereceria uma mais ampla e demorada contextualização. Vale, no entanto, a pena destacar certo cosmopolitismo burguês ao qual o Manifesto do Partido Comunista alude, bem como uma clara reivindicação de humanidade direccionada ao Raj - o Império Britânico na Índia -, do qual o texto de Tagore dá conta. No entanto, os três exemplos se tornam, de certo modo, emblemáticos daquilo que John Pizer, citando o historiador americano Martin Jay em sua reflexão sobre o conceito de totalidade, designa como “as aventuras de um conceito” (Pizer, 2006PIZER, John. The Idea of World Literature: History and pedagogical practice. Baton Rouge: LSU Press, 2006.)6 6 JAY, Martin. Marxism and Totality: The Adventures of a Concept from Lukacs to Habermas. Berkeley: University of California Press, 1984. , cujos começos nos ajudam a definir a weltliteratur, bem como a world literature, na perspectiva daquilo que ainda John Pizer - em seu importante ensaio The idea of world literature: history and pedagogical practice (2006) - define como um “paradigma ou um conceito discursivo historicamente determinado”.7 7 A este propósito vale frisar o que afirma Pizer: “Weltiteratur” (“literatura mundial”) não é um significante autocompreendido. Denota um conceito com sua própria genealogia específica, seu desenvolvimento histórico único e circunscrito, um desenvolvimento até então não exaustivamente explorado. Sem dúvida, muito já foi escrito sobre a literatura mundial como paradigma discursivo (Pizer, 2006, p. 2; tradução minha).

Ao definirmos a world literature como um paradigma discursivo é possível (re)definir de um modo mais preciso algumas das constelações conceituais a esta subjacentes, tais como a tensão - dialética ou não - entre sub-nacional e transnacional, e portanto os dilemas da homogeneização, da multiplicidade, da tradução e da alteridade que assombram a categoria de weltliteratur, bem como os mais recentes debates sobre world literature em sua dimensão pelo menos bipartida de literatura mundo e literatura mundial.

Ao observamos os fenômenos de homogeneização e multiplicidade, também não lidamos com problemas novos. Entre os muitos textos que seria possível escolher para demostrar como esses problemas assombram os quadros críticos e metodológicos dos estudos literários comparatistas há mais de um século - e especialmente a questão da weltliteratur e da literatura mundo ou mundial -, é possível escolher o célebre - e, de certo modo, fundamental - texto de Erich Auerbach, “Filologia e ‘Weltliteratur’”.8 8 Texto originalmente publicado em 1952 em língua alemã, em ocasião do septuagésimo aniversário do estudioso Fritz Strich, autor do célebre ensaio Goethe und die Weltliteratur. O texto de Auerbach virá a ser traduzido para o inglês por dois prestigiosos tradutores - Maire e Edward W. Said - e publicado em 1969 na The Centennial Review.9 9 The Centennial Review, v. 13, n. 1, Winter, p. 1-17, 1969. Nesta versão se lê, na nota introdutória dos tradutores, uma importante questão, que nos ajuda a definir com mais precisão a fundamental distinção conceitual entre os termos weltliteratur e world literature, sobretudo no que tange ao significado do termo em língua inglesa:

Em nossa tradução do artigo de Auerbach, optamos por não traduzir Weltliteratur em inglês. Um expediente como a “world literature” trai as tradições bastante singulares por trás da palavra alemã. É, naturalmente, a palavra do próprio Goethe que ele usou cada vez mais depois de 1827 para literatura universal, ou literatura que expressa Humanität, humanidade, e essa expressão é o propósito último da literatura. Weltliteratur é, portanto, um conceito visionário, pois transcende as literaturas nacionais sem, ao mesmo tempo, destruir suas individualidades (Edward e Maire Said In: Auerbach, 1969AUERBACH, Erich. Philology and “Weltliteratur”. The Centennial Review, v. 13, n. 1, p. 1-17, 1969 [1952]., p. 1, tradução minha).

No entanto, a partir da tradição filológica alemã, Auerbach de modo um tanto pessimista e, simultaneamente, visionário, ao discutir a validade da conceito de weltliteratur, toca, ainda que parcialmente, algumas das questões que de forma mais profunda e persistentes pautam o debate sobre literatura mundo e literatura mundial hoje em dia. Isto é, prevendo uma inevitável homogeneização decorrente daquilo que mais tarde virá a ser o fenômeno da globalização e tendo em conta a multiplicidade de culturas e literaturas ao nosso dispor, qualquer estudioso e estudiosa que se dedique a weltliteratur se depara inevitavelmente com um universo de obras, autorias, tradições e periodizações de alcance incomensurável e, portanto, como haveria de afirmar Franco Moretti mais de meio século depois, a literatura mundial não pode ser entendida como “a mesma literatura, só que maior” (Moretti, 2013MORETTI, Franco. Distant Reading. London: Verso, 2013., p. 46). Para além disso, Auerbach coloca questões que se tornaram particularmente relevantes para a formulação de novas teorias sobre literatura mundial, isto é, a questão da sua materialidade bem como dos pressupostos metodológicos necessário para o seu estudo. Como não poderia deixar de ser, é na filologia que Auerbach encontra as respostas para suas inquietações disciplinares, pois, como habilmente notam Maire e Edward Said:

A filologia, nesse papel, dominou todas as disciplinas históricas porque, diferentemente da filosofia, que trata das verdades eternas, a filologia trata as verdades históricas contingentes em seu nível básico: ela concebe o homem dialeticamente, não estaticamente. Neste artigo, Auerbach se preocupa com a filologia estritamente literária, mas deve-se sempre ter em mente que o “material” da filologia precisa não apenas ser literatura, mas pode ser também a escrita social, jurídica ou filosófica (Edward e Maire Said In: Auerbach, 1969AUERBACH, Erich. Philology and “Weltliteratur”. The Centennial Review, v. 13, n. 1, p. 1-17, 1969 [1952]., p. 2, tradução minha).

É, portanto, a partir destes horizontes, por um lado de caráter disciplinar e por outro de pendor mais espiritual - isto é, idealista -, que Auerbach avança suas dúvidas acerca das possibilidades oferecidas pela weltliteratur, propondo, ao mesmo tempo, uma possível redefinição da própria noção de filologia:

Em todo o caso, a nossa casa filológica é a terra: pode não ser mais a nação. A parte mais inestimável e indispensável da herança de um filólogo ainda é a herança de sua própria nação, cultura e linguagem. Somente quando ele é separado pela primeira vez desta herança, no entanto, e for capaz de transcende-la, é que esta se torna verdadeiramente eficaz. Devemos retornar, em circunstâncias evidentemente alteradas, aos conhecimentos que a cultura da Idade Média pré-nacional já possuía: o conhecimento de que o espírito [Geist] não é nacional (Auerbach, 1969AUERBACH, Erich. Philology and “Weltliteratur”. The Centennial Review, v. 13, n. 1, p. 1-17, 1969 [1952]., p. 17, tradução minha).

Ressalvando a tradição e o tempo em que Auerbach se situa e escreve - um filólogo da velha tradição, um texto publicado durante o exílio e no auge da divisão do mundo decorrente da Guerra Fria -, o texto de Auerbach, como habilmente nota John Pizer (2006PIZER, John. The Idea of World Literature: History and pedagogical practice. Baton Rouge: LSU Press, 2006.), não deixa de nos oferecer chaves de leituras - ou melhor, pontos de partidas, como o mesmo Auerbach afirma - produtivas e, simultaneamente, de certa atualidade para enfrentarmos e refletirmos sobre as categorias e os discurso em torno da world literature. É especialmente na sua reflexão de pendor metodológico que o texto de Auerbach se coloca numa perspectiva visionária - para não dizer profética - a respeito daqueles que serão os grande debates que pautam a world literature hoje. Aliás como haveria de afirmar Franco Moretti:

Ler “mais” é sempre bom, mas não é a solução (…) Mas acho sinceramente que esta é a nossa maior oportunidade, porque a pura enormidade da tarefa deixa claro que a literatura mundial não pode ser literatura, só que maior; e isso já estamos fazendo, só que mais. Ela tem de ser diferente. As categorias têm de ser diferentes. “Não é a ‘efetiva’ interconexão de ‘coisas’”, escreveu Max Weber, “mas a interconexão conceitual de problemas que define o escopo das várias ciências. Uma ‘ciência’ nova emerge onde um novo problema é abordado com um novo método”. Esta é a questão: a literatura mundial não é um objeto, é um problema, e um problema que reclama um novo método crítico: e ninguém terá achado um método simplesmente por ler mais textos. Não é assim que as teorias vêm à luz; elas precisam de um salto, de uma aposta - de uma hipótese, para se porem em movimento (Moretti, 2013MORETTI, Franco. Distant Reading. London: Verso, 2013., p. 46, tradução minha).

Em suma, é possível dizer que o embate entre world literature e método é o que informa as maiores publicações da área a partir dos anos 2000. Vale aqui mencionar pelo menos três ensaios paradigmáticos, em meu entender, a este respeito, e me refiro ao ensaio de David Damrosch, What is World Literature?10 10 DAMROSCH, David. What is World Literature? Princeton: Oxford: Princeton University Press, 2003. , ao livro de Gayatri C. Spivak, Death of a Discipline11 11 SPIVAK, Gayatri C. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003 e ao mais recente ensaio publicado pelo Coletivo de Pesquisa de Warwick, Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature12 12 WReC - Warwick Research Collective. Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature. Liverpool: Liverpool University Press, 2015. .

Ao longo de mais de 300 páginas, David Damrosch, através de exemplos de diversas tradições, línguas e contextos - mas de certo modo familiares ao cânones da chamada literatura universal, o Poema de Gilgamesh, Os cantares mexicanos, entre outros -, providencia definições bastante precisas - embora algo esdrúxulas de um ponto de vista sobretudo conceitual e, portanto, metodológico - sobre o que é world literature:

Minha afirmação é que a literatura mundo não é um cânone infinito e inapreensível de obras, mas sim um modo de circulação e de leitura, um modo que é aplicável tanto a obras individuais quanto a corpus de material, disponíveis para leitura de clássicos estabelecidos e novas descobertas. Este livro pretende explorar esse modo de circulação e as maneiras pelas quais as obras da literatura mundo podem ser melhor lidas. É importante desde o início perceber que, assim como nunca houve um único cânone da literatura mundo, também nenhuma maneira única de leitura pode ser apropriada para todos os textos, ou mesmo a qualquer texto em todos os momentos (Damrosch, 2003DAMROSCH, David (ed.). What is World Literature? Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2003. , p. 5, tradução minha).

Uma literatura mundo - distinta da literatura global, que, de acordo com o autor, seria a literatura que se encontra em aeroportos ou aquela impulsionada sob este mesmo rótulo por grandes multinacionais do e-commerce - é a que encontra na variabilidade, na tradução e na leitura sua maior característica distintiva. Ao contrastar as definições com o corpus escolhido por Damrosch permanece, no entanto, a sensação de que a world literature seja aquela que o estudioso americano considera como tal, apontando para uma prática que muito se aproxima aos preceitos da nova crítica americana. Em suma, para Damrosch a world literature (literatura mundo) é um conjunto de obras (um cânone, ainda que variável) fundamentado nas lógicas de circulação, tradução e recepção.

No mesmo ano de 2003 é publicado o célebre - e também problemático - ensaio de Gayatri Spivak, Death of a Discipline (2003SPIVAK, C. Gayatri. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003. ). Enfrentando a crise da literatura comparada após o fim da Guerra Fria e a queda do muro de Berlim, e portanto após a guinada multiculturalista e o advento dos chamados cultural studies, Spivak advoga umas necessárias e urgentes mudanças no campo de estudo de uma literatura comparada, por assim dizer, moribunda e inevitavelmente assombrada pelo “problema” da literatura mundo/mundial e afirma:

O que estou propondo não é uma politização da disciplina. Estamos na política. Estou propondo uma tentativa de despolitização para sair de uma política de hostilidade, medo e meias soluções (Spivak, 2003SPIVAK, C. Gayatri. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003. , p. 4, tradução minha).

No campo da literatura, precisamos ultrapassar as noções de Anglofonia, Lusofonia, Teutofonia, Francofonia, etc. Devemos tomar as línguas do Hemisfério Sul como mídia cultural ativa e não como objetos de estudo cultural fundamentado na ignorância sancionada do migrante metropolitano. Não podemos ditar um modelo para isso a partir dos escritórios da American Comparative Literature Association. Podemos, no entanto, qualificar a nós mesmos e nossos alunos para atender a isso como acontece em outros lugares (…) Na verdade, estou convidando para o tipo de treinamento linguístico que revelaria o hibridismo irredutível de todas as línguas. Como já disse em outro lugar: “O texto verbal é ciumento de sua assinatura linguística, mas impaciente com a identidade nacional. A tradução floresce em virtude desse paradoxo (Spivak, 2003SPIVAK, C. Gayatri. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003. , p. 9, tradução minha).

Num movimento um tanto ambíguo, mas em linha com as proposições algo subversivas que caracterizam o movimento crítico e filosófico de Spivak em outros lugares de sua obra, é possível decifrar alguns dos horizontes para os quais o texto de Spivak parece apontar, tomando como ponto de partida os títulos dos capítulos que estruturam o ensaio: crossing borders (atravessar fronteiras), collectivities (coletividades) e planetarity (planetariedade). Apesar da densidade de uma reflexão que, por vezes, resvala numa exorbitação discursiva de difícil decifração, a proposta de Spivak pode ser resumida a três movimentos fundamentais: a necessidade de ultrapassar fronteiras entre disciplinas como produtos artificias e mercadológicos da instituição universitária; a necessidade de se (re)pensar e se (re)definir a noção de coletividade indispensável para desfazer as dinâmicas de objetificação do outro com base na cultura - “quem somos nós?” é a pergunta que repetidamente pauta este capítulo do ensaio -; e, por fim, a urgência de reativar uma pertença planetária (não global ou mundial) que só é possível tornando explícito o estranhamento e a não-familiaridade - Unheimlich - que embasa a constituição de qualquer sujeito. As mudanças que se fazem necessárias para ressuscitar a literatura comparada parecem coincidir com as necessárias transformações - metodológicas e conceituais - que configuram também a world literature, apresentando-se como possíveis soluções para a literatura mundial como problema.

O último exemplo que quero trazer é o ensaio publicado em pelo Coletivo de Pesquisa de Warwick, Desenvolvimento combinado e desigual. Por uma nova teoria da literatura-mundial.13 13 O ensaio, originalmente publicado em língua inglesa (2015), encontra-se publicado no Brasil pela Editora da Unicamp com tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice (WReC, 2020).

A autoria coletiva do ensaio e as posições nele contidas provocaram reações bastante animosas por parte de críticos e estudiosos que se movimentam no campo da literatura comparada e do debate sobre world literature. No entanto, algumas das propostas avançadas pelo Coletivo nos permitem definir de modo um pouco mais preciso alguns dos conceitos até agora analisados, alcançando uma apreensão mais clara da noção de literatura mundial como paradigma discursivo; tal como se lê no ensaio, é possível dizer que: “a literatura mundial é, em primeiro lugar, uma extensão da literatura comparada, e pode ser entendida como a reconstituição da literatura comparada após os debates multiculturais e da crítica disciplinar ao eurocentrismo” (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 22).

A dimensão reconstitutiva atribuída pelo Coletivo à literatura-mundial se prende principalmente com a definição desta como sistema e não como um cânone. Aqui as referências às teorizações sobre sistema-mundo propostas por Fernand Braudel (1985BRAUDEL, Fernand. Civilisation and capitalism, 15th-18th century. London: Fontana, 1985. 3 v.) e por Immanuel Wallerstein (1974WALLERSTEIN, Immanuel. The modern world-system: Capitalist agriculture and the origins of the European world-economy in the sixteenth century. New York; London: Academic Press, 1974.;1980WALLERSTEIN, Immanuel. The modern world-system II: Mercantilism and the consolidation of the European world-economy, 1600-1750. New York: Academic Press, 1980.;1989WALLERSTEIN, Immanuel. The modern world-system III: The second era of great expansion of the capitalist world-economy, 1730-1840s. San Diego; London; Boston; New York; Sydney; Tokyo; Toronto: Academic Press, 1989. ) são fundamentais. É a partir destas teorias, que embasam também a reflexão proposta por Franco Moretti mais de 10 anos antes em suas Conjeturas14 14 Os artigos “Conjectures on World Literature” e “More Conjectures” foram originalmente publicado na New Left Review, respectivamente em 2000 e 2003, e se encontram agora publicados no ensaio Distant Reading (Moretti, 2013). , que o Coletivo desenvolve sua definição de sistema literário mundial, todavia avançando mais um passo no que tange a filiação crítica, apresentando o termo de literatura-mundial - world-literature -, pela primeira vez grafado com hífen.

Em acordo com Braudel (1985), Wallerstein (1974, 1980, 1989), e outros, utilizamos o termo [sistema-mundo] para indicar um universo social limitado, cujo funcionamento é mais ou menos (ou seja, relativamente) autônomo, mais ou menos integrado. Em geral, “sistemas-mundo”, nestes termos, não são coexistentes com o “mundo” em si e, consequentemente, não são sistemas “globais” ou “globalmente dispersos”. A exceção significativa é o “sistema-mundial” capitalista moderno, cujo índice de ineditismo histórico consiste precisamente no fato de ser um sistema-mundo que é também, excepcionalmente e, pela primeira vez, um sistema mundial. Propomos, nestes termos, definir a “literatura mundial” como a literatura do sistema-mundial - isto é, do sistema-mundial capitalista moderno. Esta é, categoricamente, nossa hipótese, apresentada sob a forma de uma lex parsimoniae. Talvez, então, devêssemos começar a falar de “literatura-mundial” com um hífen, derivado daquele do “sistema-mundial” (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 28).

No âmbito desta reflexão, a proposta do WReC renova e adensa as propostas avançadas por Franco Moretti, também se apoiando na teorização formulada por Frederic Jameson sobre sistema capitalista entendido como uno e desigual. No entanto, para o Coletivo é fundamental resgatar sua genealogia, notadamente a partir das obras de Engels, Lenin e de Leon Trotsky. É especialmente sobre a aplicação do conceito de desigualdade elaborado por Trotsky que a proposta do Coletivo se embasa, notando como, parafraseando os textos de Trotsky, as forças de produção capitalistas e as relações de classe impostas tendem a não suplantar (ou não podem suplantar) as forças e as relações preexistentes, mas se unem forçosamente a elas, resultando numa “amálgama de formas arcaicas com outras mais contemporâneas”, uma situação na qual relações e formas capitalistas existiam ao lado de “formas arcaicas de vida econômica” e relações sociais e de classe preexistentes”.15 15 Veja-se a este propósito: TROTSKY, Leon. History of the Russian Revolution, vol. 1. Tradução de Max Eastman. London: Sphere Books, 1967 [1932-1933]. TROTSKY, Leon. Literature and revolution. Ed. W. Keach. Tradução de Rose Strunsky. Chicago: Haymarket, 2005 [1925] .

De acordo com o Coletivo de Pesquisa de Warwick, quem registra com maior intensidade e vigor a teoria do desenvolvimento combinado e desigual no campo dos estudos literários, no qual estas teorias econômicas não tem beneficiados de grande fortuna, é Fredric Jameson, sobretudo em sua definição da modernidade como o sensorium espaçotemporal correspondente à modernização capitalista e como um fenômeno singular (Jameson, 2022JAMESON, Fredric. A Singular Modernity: Essay on the ontology of the present. London; New York: Verso, 2002.). Uma singularidade que, no entanto, não implica determinantes de pendor geográficos, como às vezes leituras equivocadas do texto de Jameson tem levado a crer; a modernidade, como modo pelo qual as relações sociais capitalistas são “vividas”, é diferente em todo lugar pois não existem, no mundo, instancias sociais exatamente idênticas. E aqui a noção de singularidade se alia àquela de simultaneidade numa fórmula tributária do pensamento de Ernst Bloch (1991BLOCH, Ernst. Heritage of our times. Berkeley: University of California Press, 1991.) sobre a “simultaneidade do não simultâneo” - Gleichzeitigkeit des Ungleichzeitigen.

Essa formulação representa um forte repúdio às várias tentativas recentes de pluralizar o conceito de modernidade por meio da evocação de modernidades “alternativas”. Na medida em que essas tentativas derivam invariavelmente de uma suposição inicial sobre a origem “ocidental” da modernidade - em vez de situá-la no contexto do capitalismo como um sistema-mundial -, elas são tão equivocadas quanto desnecessárias. Evidentemente, se acreditarmos que a modernidade é um fenômeno “ocidental”, só é possível compreender sua dispersão global em termos da “universalização” do “Ocidente” - a ser celebrada ou, como no caso da atual concepção reconhecidamente antieurocentrica tão influente nos estudos pós-coloniais, deplorada como imperialista (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 38).

A partir desses pressupostos teóricos, o Coletivo propõe observar a registração literária e a codificação da modernidade enquanto uma lógica social e operando através de “uma conceitualização tripartida: sistema-mundial moderno/modernidade/literatura-mundial - em que esta última é entendida, no mais amplo sentido, como a literatura do sistema-mundial capitalista moderno” (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 40).

A literatura-mundial, com hífen e de acordo com o Coletivo de Pesquisa de Warwick, não seria, portanto, um conjunto de obras - um cânone, ainda que variável - de textos que circulam e são traduzidos e lidos como a literatura do mundo. Longe das ideias que informam as reflexões sobre circulação e cânone - embora reconhecendo as forças que operam no espaço literário internacional, seu valor e suas instâncias consagratórias, tal como demonstrado no estudo de Casanova -, o Coletivo refuta a noção de cânone através da noção de sistema e elege a categoria da desigualdade em detrimento da noção de diferença como categoria produtora de alteridades esvaziadas de seu arsenal político. No âmbito deste discurso, os impasses decorrentes da tradução são habilmente ultrapassados, reconhecendo que ler é sempre também traduzir, e encarando a leitura e a tradução como “processos sociais, em vez de solitários, (…): a escrita enquanto trabalho mercadorizado, a elaboração de livros, a publicação e o marketing, o “destino” social de uma publicação (resenhas, crítica, a procura por, criação e cultivação de um público leitor etc.)” (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 62).

Voltando ao começo deste texto, não se trataria, portanto, de substituir autores ou obras hegemônicas com autorias e tradições periféricas - à semelhança daquilo que propõe o Manifesto por uma literatura-mundo em francês -, mas sim de observar como os romances (semi-)periféricos - num sentido não geográfico mas sim relacional - dão conta das combinações de desigualdade que pautam a existência social e política no âmbito do sistema capitalista mundial. Decorre desse pressuposto a possibilidade de renovar os significados críticos e analíticos da literatura-mundial na perspectiva de um paradigma discursivo e portanto a ser entendida como “uma categoria de questionamento teórico (…) não centrada em julgamentos estéticos” (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 97), um dispositivo crítico e conceitual capaz de ultrapassar barreiras disciplinares de certa artificialidade e que nos permite observar a literatura na perspectiva de um testemunho, diversificado tanto na forma quanto no conteúdo “do ‘choque do novo’, da ruptura maciça efetuada nos níveis do continuum espaço-temporal, do mundo da vida, da experiência e do sensorium humano pela modernização capitalista” (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. , p. 99).

A literatura-mundial como categoria analítica e paradigma discursivo se torna um ponto de partida para um (novo) método que, como afirma Edward Said, seja capaz de revisar, melhorar e derrubar interpretações erradas do presente e do passado, “de desmascarar, explicar e criticar as injustiças secretas e vergonhosas, os castigos coletivos e cruéis e os planos manifestamente imperiais de dominação” (Said, 2007SAID, Edward W. Humanismo e Crítica Democrática. São Paulo: Companhia das Letras, 2007., p. 22) que o romance africano, sempre e inevitavelmente, registra e torna visíveis. Não se trata, portanto, de incluir um corpus de literaturas africanas num possível cânone ou campo literário de valor ou escala mundial, nem de ler o romance africano como grande obra da literatura (do) mundo, mas sim de observar como esta forma literária é capaz de registrar e dar conta das combinações de desigualdade que pautam o sistema capitalista mundial em que todo o universo literário se encontra inevitavelmente inscrito. Tal como afirma Casanova: “não é suficiente alargar geograficamente o corpus de obras que precisam ser estudadas (…) É necessário, ao invés disso, mudar nosso modo habitual de olhar para o fenômeno literário” (Casanova, 2004CASANOVA, Pascale. The World Republic of Letters. Cambridge: Harvard University Press, 2004., p. XI). A proposta que encara a literatura-mundial como uma categoria de questionamento teórico, tal como apontam as reflexões desenvolvidas pelo Coletivo de Pesquisa de Warwick, parece se configurar como um ponto de partida capaz de promover uma necessária e urgente mudança nos modos de ler e pensar o fenômeno literário e, portanto, também o romance africano contemporâneo, lembrando, como haveria de afirmar Franco Moretti, que “o universo é o mesmo, as literaturas são as mesmas, apenas as olhamos de um ponto de vista diverso; e a pessoa vira um comparatista por uma razão bem simples: porque está convencida de que esse ponto de vista é melhor” (Moretti, 2013MORETTI, Franco. Distant Reading. London: Verso, 2013., p. 61). O que se verifica hoje no âmbito disciplinar dos estudo de literaturas africanas é uma aparente urgência de re-definição e re-orientação dos paradigmas críticos que pautam esse campo do saber. Uma mudança que é primeiramente sugerida pelas características que se detectam nessas literaturas, ou seja, pelas formas através das quais as escritas africanas do contemporâneo registram suas perguntas, respostas e propostas. A este propósito, pense-se especialmente no significado que possui ainda hoje a observação dessas literaturas na perspetiva de sistema literários nacionais, enquadramento esse que parece mais determinado pela necessidade de encarar a nação como momento libertador do colonialismo - isto é: reiterar a afirmação de uma nação literária - mais de que para observar as modalidades através das quais a literatura registra o social, presente e passado. Social este que só parcialmente poderá ser observado como uma estratégia de resistência e oposição à dominação colonial, devido a acumulação de transformações sócio-históricas determinadas, por exemplo, pelo multipartidarismo, por conflitos armados e civis pós-independência, pelas mudanças determinadas pelos capitais financeiros internacionais e, mais em geral, pela fases e transformações do sistema capitalista nos contextos sócio-econômicos de inúmeros países do continente africano de que o romance africano contemporâneo inevitavelmente dá conta. No que concerne ao campo de estudo de literaturas africanas hoje - no Brasil bem como no exterior -, cabe salientar a urgência de uma prática crítica e disciplinar pautada por pressupostos conceituais que, parafraseando de novo o texto de Gayatri C. Spivak (2003SPIVAK, C. Gayatri. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003. ), encaram o romance africano como um meio cultural ativo e não como um objeto para o estudo cultural, pensado e concebido a partir da ignorância metropolitana sobre seu significado (Spivak, 2003SPIVAK, C. Gayatri. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003. ). Particularmente emblemático a este respeito é o recurso ao conceito de tradição no que tange à observação do romance africano contemporâneo, apontando para significados críticos e interpretativos que subentendem uma dimensão de exotismo antropológico (Huggan, 2001HUGGAN, Graham. The Postcolonial Exotic. London: Routledge, 2001. ) que caracterizou a recepção das literaturas africanas, sobretudo no auge da afirmação das então chamadas literaturas pós-coloniais, especialmente nos contextos académicos norteamericanos e britânicos.16 16 Ver a reflexão proposta por Gram Huggan (2001) e, numa perspectiva bastante distinta, por Aijaz Ahmad (2002). Em conclusão, no âmbito da (re-)orientação conceitual e metodológica esboçada neste artigo, cabe destacar, ainda que em síntese, uma categoria crítica que surge na intersecção entre estudos literários africanos, comparatismo e literatura-mundial e que corresponde à designação de romance africano (semi-)periférico,17 17 Ver a este propósito Brugioni (2022). cuja estética se afasta do que vem sendo definido como realismo de tipo ideal (Löwy, 2007LÖWY, Michel. The Current of Critical Irrealism: “A moonlit enchanted night”. In: BEAUMONT, Matthew (org.). Adventures in Realism. Oxford: Blackwell, 2007. p. 193-206.), oferecendo a possibilidade de se reflectir sobre formas e estéticas que pela sua periferalidade oferecem registros literários - políticos e sociais - paradigmáticos das combinação de desigualdade (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. ) que cada vez mais (se) aprofundam e (se) intensificam (em) nossa contemporaneidade tardo capitalista.

Referências

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  • WReC - Warwick Research Collective. Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature Liverpool: Liverpool University Press, 2015.
  • WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020.
  • 1
    Os signatários do manifesto são: Muriel Barbery, Tahar Ben Jelloun, Alain Borer, Roland Brival, Maryse Condé, Didier Daeninckx, Ananda Devi, Alain Dugrand, Edouard Glissant, Jacques Godbout, Nancy Huston, Koffi Kwahulé, Dany Laferrière, Gilles Lapouge, Jean-Marie Laclavetine, Michel Layaz, Michel Le Bris, JMG. Le Clézio, Yvon Le Men, Amin Maalouf, Alain Mabanckou, Anna Moï, Wajdi Mouawad, Nimrod, Esther Orner, Erik Orsenna, Benoît Peeters, Patrick Rambaud, Gisèle Pineau, Jean-Claude Pirotte, Grégoire Polet, Patrick Raynal, Jean-Luc V. Raharimanana, Jean Rouaud, Boualem Sansal, Dai Sitje, Brina Svit, Lyonel Trouillot, Wilfried N’Sondé, Anne Vallaeys, Jean Vautrin, André Velter, Gary Victor, Claude Vigée, Abdourahman A. Waberi.
  • 2
    A este propósito ver Brugioni (2017BRUGIONI, Elena. Writing from Other Margins. Difference, Exception, and Translation in the Portuguese-speaking World: Counterpoints between literary representations and critical paradigms. Cadernos de Tradução, v. 37, p. 65-89, 2017.; 2018BRUGIONI, Elena. Who Speaks the Postcolonial Community? Reflections on Language, Community, and Imperial Nostalgia within the European Continent. In: JENSEN, Lars et al. (org.). Postcolonial Europe: Comparative Reflections after the Empires. Londres: Rowman & Littlefield, 2018. p. 103-114.).
  • 3
    Entre uma vasta bibliografia suscitada pela publicação do manifesto, veja-se o dossiê organizado por Roger Célestin, William J. Cloonan, Eliane DalMolin & Alec G. Hargreaves, Littérature-monde: New Wave or New Hype? (2010CÉLESTIN, Roger; CLOONAN, William J.; DALMOLIN, Eliane; HARGREAVES Alec G. (ed.). Littérature-monde: New wave or new hype? Contemporary French and Francophone Studies, v. 14, n. 1, 2010.).
  • 4
    Neste sentido, minha reflexão se coloca numa perspectiva conceitual distinta daquela proposta por David Damrosch em seu ensaio World Literature in Theory (2014DAMROSCH, David (ed.). World Literature in Theory. Oxford: Wiley Blackwell, 2014.), no qual o crítico define alguns dos textos inaugurais da world literature como origens (origin). No entanto, a seleção de textos que apresento neste ensaio coincide, parcialmente, com a seleção também proposta por Damrosch.
  • 5
    Veja-se, a este propósito, a reflexão proposta por John Pizer em The idea of world literature: history and pedagogical practice (2006PIZER, John. The Idea of World Literature: History and pedagogical practice. Baton Rouge: LSU Press, 2006.).
  • 6
    JAY, Martin. Marxism and Totality: The Adventures of a Concept from Lukacs to Habermas. Berkeley: University of California Press, 1984JAY, Martin. Marxism and Totality: The adventures of a concept from Lukacs to Habermas. Berkeley: University of California Press, 1984..
  • 7
    A este propósito vale frisar o que afirma Pizer: “Weltiteratur” (“literatura mundial”) não é um significante autocompreendido. Denota um conceito com sua própria genealogia específica, seu desenvolvimento histórico único e circunscrito, um desenvolvimento até então não exaustivamente explorado. Sem dúvida, muito já foi escrito sobre a literatura mundial como paradigma discursivo (Pizer, 2006PIZER, John. The Idea of World Literature: History and pedagogical practice. Baton Rouge: LSU Press, 2006., p. 2; tradução minha).
  • 8
    Texto originalmente publicado em 1952 em língua alemã, em ocasião do septuagésimo aniversário do estudioso Fritz Strich, autor do célebre ensaio Goethe und die Weltliteratur.
  • 9
    The Centennial Review, v. 13, n. 1, Winter, p. 1-17, 1969.
  • 10
    DAMROSCH, David. What is World Literature? Princeton: Oxford: Princeton University Press, 2003DAMROSCH, David (ed.). What is World Literature? Princeton; Oxford: Princeton University Press, 2003. .
  • 11
    SPIVAK, Gayatri C. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003SPIVAK, C. Gayatri. Death of a Discipline. New York: Columbia University Press, 2003.
  • 12
    WReC - Warwick Research Collective. Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature. Liverpool: Liverpool University Press, 2015WReC - Warwick Research Collective. Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature. Liverpool: Liverpool University Press, 2015..
  • 13
    O ensaio, originalmente publicado em língua inglesa (2015WReC - Warwick Research Collective. Combined and Uneven Development. Towards a New Theory of World-Literature. Liverpool: Liverpool University Press, 2015.), encontra-se publicado no Brasil pela Editora da Unicamp com tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice (WReC, 2020WReC - Warwick Research Collective. Desenvolvimento Combinado e Desigual. Por uma nova teria da literatura-mundial. Tradução de Gabriela Beduschi Zanfelice. Campinas: Editora Unicamp, 2020. ).
  • 14
    Os artigos “Conjectures on World Literature” e “More Conjectures” foram originalmente publicado na New Left Review, respectivamente em 2000 e 2003, e se encontram agora publicados no ensaio Distant Reading (Moretti, 2013MORETTI, Franco. Distant Reading. London: Verso, 2013.).
  • 15
    Veja-se a este propósito: TROTSKY, Leon. History of the Russian Revolution, vol. 1. Tradução de Max Eastman. London: Sphere Books, 1967 [1932-1933]TROTSKY, Leon. History of the Russian Revolution. Vol. 1. Tradução de Max Eastman. London: Sphere Books, 1967 [1932-1933].. TROTSKY, Leon. Literature and revolution. Ed. W. Keach. Tradução de Rose Strunsky. Chicago: Haymarket, 2005 [1925] TROTSKY, Leon. Literature and revolution. Chicago: Haymarket, 2005 [1925]. .
  • 16
    Ver a reflexão proposta por Gram Huggan (2001HUGGAN, Graham. The Postcolonial Exotic. London: Routledge, 2001. ) e, numa perspectiva bastante distinta, por Aijaz Ahmad (2002AHMAD, Aijaz. Linhagens do Presente. Ensaios. Tradução Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002. ).
  • 17
    Ver a este propósito Brugioni (2022BRUGIONI, Elena. Combined and Uneven Comparisons. Rethinking the Fields of African and Postcolonial Literary Studies within the debate on world-literature. Notes for new comparatist avenues. Revista Gragoatá, v. 27, e53665, 2022. ).
  • Parecer Final dos Editores

    Ana Maria Lisboa de Mello, Elena Cristina Palmero González, Rafael Gutierrez Giraldo e Rodrigo Labriola, aprovamos a versão final deste texto para sua publicação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Abr 2024
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2024

Histórico

  • Recebido
    21 Jun 2023
  • Aceito
    16 Set 2023
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