O espectro do nome: notas sobre a questão lexical de uma língua filosófica1 1 A primeira publicação desse texto, em francês, ocorreu na revista Rue Descartes, n. 28, (In)actualités de Derrida, mar. 2014.

The Specter of the Name: Notes on the Lexical Question of a Philosophical Language

Serge Margel

Resumos

Este breve texto celebra a relação do pensamento de Jacques Derrida com a linguagem, no sentido de uma afirmação do poder abissal, espectral das palavras de se tornarem lexemas filosóficos em constante movimento.

Filosofia; léxico; Jacques Derrida


Ce bref texte célèbre le rapport de la pensée de Jacques Derrida au langage, dans le sens d'une affirmation du pouvoir abyssal, spectral des mots de devenir des lexèmes philosophiques en mouvement incessant.

Philosophie; lexique; Jacques Derrida


This short text celebrates the relationship of Jacques Derrida's thought with language, in the sense of an affirmation of the abyss power, spectral of words to become philosophical lexeme in constant movement.

Philosophy; lexicon; Jacques Derrida


O verso que de vários vocábulos refaz um mote2 total, novo, estrangeiro à língua e como que encantatório, consuma este isolamento da palavra (parole): negando, num traço soberano, o acaso remanescente nos termos apesar do artifício de sua retêmpera alternada entre o sentido e a sonoridade, e vos causa esta surpresa de não ter jamais ouvido esse fragmento ordinário de elocução, ao mesmo tempo que a reminiscência do objeto nomeado mergulha numa nova atmosfera (Mallarmé, Crise de verso).

É preciso constituir um léxico. Não um dicionário de termos eruditos, um florilégio de palavras escolhidas, que determina um pensamento, que canoniza uma escola, mas um conjunto de enunciados, que permite à língua ordinária ou natural erigir-se em língua filosófica. Segundo certa leitura de Derrida, repensar a filosofia, sua história, seus textos, seus autores, repensar o discurso metafísico da filosofia equivaleria a constituir para si um novo léxico, como dizemos conseguir novas armas, ou novos instrumentos, para avançar, para agir ou para escrever. Esse léxico é aberto, certamente, ele pode ir de uma palavra até uma frase, de "desconstrução" a "totalmente diferente é um outro"4 4 Derrida joga, nessa frase, com a ambivalência do termo autre em francês, que significa outro, mas também diferente. A palavra tout, por sua vez, sugere seja uma intensificação, seja uma referenciação generalizada (totalmente/todo). [N. do T.] , por exemplo, mas também de uma argumentação, como aquela sobre "o suplemento de origem", a um texto inteiro. Ora, o que me importa na construção de um léxico é o poder que ele dá à palavra, ou mais ainda, diria o próprio Derrida, é o reconhecimento do poder das palavras. Poder de dizer, evidentemente, poder de fazer, poder de desfazer também, de maldizer, de contradizer e, sobretudo, esse poder quase fantasmal de fazer vir.

Há sempre uma dimensão espectral no nome, na palavra que nomeia alguma coisa ou alguém. Antes de designar uma coisa, um objeto já aqui, já pensado ou representado, a palavra convoca, chama ou faz alguma coisa vir à existência. E o que me interessa nesse gesto de convocação, nessa espectralidade do nome, é que ele ocupa sempre um espaço paradoxal, ou liminar, "abissal", diz Derrida. É um espaço intermediário, que confere todo seu sentido à função lexical de uma língua filosófica. É preciso empreender a construção lexical do poder das palavras. A partir do momento em que esse poder, essa força, essa dynamis opera e age entre as categorias da realidade, entre as palavras e as coisas, o logos e o mythos, a literatura e a filosofia, mas também entre o humano e o divino, o homem e o animal, o homem e a máquina, ou ainda entre os sexos, entre os gêneros, a partir do momento em que esse poder de convocar, de fazer vir à existência, ou de invenção, não tem lugar próprio, nem baliza fixada, não recebeu a lei de um gênero nem a legitimidade de um discurso, é preciso traduzir sua força espectral em regime lexical. O que faz a especificidade desses lugares não-fixados da nominação repousa, de certo modo, sobre a natureza abissal dos limites entre um campo e outro, um discurso e outro discurso.

Esses limites não têm borda. Essas fronteiras não são lineares, não são bordeadas por uma linha bem definida, discernível, visível. Não se pode objetivar esses limites, nem descrevê-los rigorosamente, nem mesmo, sobretudo, controlá-los politicamente. Esses limites são linhas rompidas, interrompidas, cujo momento de ruptura produz indefinidamente outras rupturas. Daí a ideia derridiana de uma "ruptura abissal", que eu ligarei aqui ao poder espectral das palavras. Com efeito, é daí, dessa ruptura sempre em abismo, dessa ruptura das rupturas, que as palavras finalmente tirariam seu poder de nominação, sua força de convocação e de chamada, ou sua capacidade de fazer algo vir à existência. E, se essa ruptura é sempre abissal, não fixável em termos de conceito, essa ruptura, apesar de tudo, tem uma história, ou provém de um conjunto de narrativas e de discursos dos quais se pode fazer a gênese. Nesse sentido, que seria preciso declinar com prudência, pode-se falar aqui da gênese das forças ou do poder das palavras, cujo léxico a língua filosófica teria como tarefa elaborar. Cada força põe em cena a gênese abissal de uma palavra, que diz o homem, que diz mulher, o divino ou o animal. Cada força contém essa gênese, essa história, sob a forma lexical dos usos das palavras, dos maus usos e dos abusos.

Eu gostaria então de pensar, com Derrida, a língua filosófica como um léxico do poder das palavras, eu gostaria de pensar essa língua como um léxico, cujas palavras operam a força, abrem o abismo, traçam sua gênese. Seria para mim a ocasião, a possibilidade ou a chance de repensar, isto é, de pensar diferentemente o estatuto dos conceitos, o valor das argumentações, o efeito das demonstrações e, de novo, a função que desempenha o texto no discurso filosófico, ou na história da metafísica. Seria a melhor ocasião para refazer a metafísica. Pensar a metafisica pelo viés do léxico, pensar o que resta de metafísico, ou da metafísica, na filosofia, pelo poder que as palavras têm de fazer vir aquilo que existe, que existiu, que existirá, a partir do lugar de uma ruptura abissal. Esse léxico seria simples, e simultaneamente complexo. Cada palavra pode tornar-se um lexema filosófico, a partir do momento em que ele põe em cena esse jogo das fronteiras, que o abismam e que o habitam. Mas esse jogo é complexo, a partir do instante em que ele opera na multiplicidade dos limites inerentes às fronteiras. Esse léxico deveria ser incessantemente refeito, na medida das forças que devolvem à palavra suas virtualidades, ou que farão a palavra, como o verso, para Mallarmé, citado como exergo, "que de vários vocábulos refaz um mote total, novo, estrangeiro à língua e como que encantatório, consuma este isolamento da palavra (parole)".

Tradução de Paula Glenadel

  • 1
    A primeira publicação desse texto, em francês, ocorreu na revista Rue Descartes, n. 28, (In)actualités de Derrida, mar. 2014.
  • 2
    Esta nota é dos tradutores, e contém a explicação para a sua opção: "Etimologicamente, mote vem do provençal mot: palavra, sentença breve. É uma forma possível, nesse contexto, de se manter a variação semântica: mot-parole-terme, com a qual Mallarmé trabalha nesse parágrafo final". MALLARMÉ, Stéphane. Crise de verso. Trad. e notas: Luiz Carreira e Álvaro Faleiros. A tradução foi realizada como exercício em uma disciplina e encontra-se disponível em ambiente MOODLE da USP.
  • 3
    Há outras traduções brasileiras, como a de Ana Maria Alencar (publicada como "Crise do verso" na revista Inimigo Rumor, n. 20, 2011) e a de Fernando Scheibe (publicada como "Crise de verso em MALLARMÉ, Stéphane. Divagações. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010). Optei por citar uma versão mais recente, ainda que não tenha sido publicada, para saudar o retorno periódico e incessante das traduções desse texto. [N. do T.]
  • 4
    Derrida joga, nessa frase, com a ambivalência do termo autre em francês, que significa outro, mas também diferente. A palavra tout, por sua vez, sugere seja uma intensificação, seja uma referenciação generalizada (totalmente/todo). [N. do T.]

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Jun 2015

Histórico

  • Recebido
    15 Ago 2014
  • Aceito
    05 Set 2014
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