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Editorial

Editorial

A proposta temática do presente volume - "Desacordos no tempo" - partiu de um projeto de pesquisa envolvendo a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a PUC-Rio e a Universidade de Paris 7 - Denis Diderot, coordenado pelos professores Christophe Bident (Paris 7) e Ana Kiffer (PUC-Rio) e apoiado financeiramente pelo programa Capes-Cofecub no âmbito do acordo de cooperação internacional entre a França e o Brasil.

O projeto visa a investigar em particular, em determinadas estéticas modernas e contemporâneas de autores brasileiros e franceses, as relações estabelecidas com as noções de identidade e de alteridade. A perspectiva inovadora deste projeto em seu conjunto consiste em entrecruzar autores franceses e brasileiros, procurando ler em suas respectivas obras as noções acima referidas em sua dinâmica própria de deslocamentos e efeitos recíprocos.

São muitos os tropismos que determinam a atenção e a atração recíprocas entre a cultura brasileira e a cultura francesa. Essas relações particulares têm resistido às provas que o tempo e a história lhes impõem há mais de um século. De todos os pontos de vista, político, econômico e cultural, os dois países não viveram verdadeiramente na mesma época. Não mantiveram os mesmos laços com as outras culturas do mundo. Não aderiram de acordo com os mesmos ritmos aos processos de mundialização ou de globalização. Não desenvolveram da mesma maneira, nem conceitualmente, nem pragmaticamente, nem esteticamente os conceitos de modernidade e de pós-modernidade.

Desses desacordos, dessas diferenças, as criações culturais (literatura, teatro, cinema, artes plásticas, música) portam as marcas.

Não se poderia negligenciar uma questão que nos parece crucial nas teorias estéticas modernas e contemporâneas: a do confronto entre identidade e alteridade. A identidade e a alteridade, precisamente, é aquilo que se problematiza no mundo atual. Identidades plurais, mescladas, perturbadas, desfeitas, superestimadas, divididas, suspensas. Alteridades desejadas, transformadas, suspeitas, denegridas, recusadas, exiladas. Essas questões nunca foram tão abertamente sensíveis nesta época de globalização. Em um mundo saturado de identidades, tanto mais petrificadas quanto ameaçadas, não seria a desidentidade, para retomar o termo de Evelyne Grossman, o desafio dominante dos movimentos estéticos minoritários, aqueles que tentaremos interrogar? "Como inventar a cada instante as figuras em movimento da representação de si e do outro sem nelas perder toda identidade?"

É só assim, parece-nos, que o projeto poderia visar, em última instância, ao questionamento dos limites que fundam as próprias noções de corpo (nacional e subjetivo), de palavra (estética ou literária) e de voz (identitária ou estrangeira). Seria, portanto, estimulando a reflexão contemporânea sobre as questões da identidade/alteridade, no âmbito das relações entre a França e o Brasil, que se poderia questionar essa zona-limite onde tanto o eu quanto o outro vacilam ao perceberem suas etéreas e frágeis aparições.

A partir dessa temática relativamente ampla, compusemos o volume com textos de cinco pesquisadores franceses e cinco brasileiros, numa amostra bastante interessante dos trabalhos gerados no âmbito de um projeto de cooperação internacional. Ao longo dos textos veremos em diálogo mais ou menos evidente, predominantemente entre a França e o Brasil, escritores, críticos, teóricos, filósofos, dramaturgos, cineastas, pintores, compositores, músicos, coreógrafos. Assim terá o leitor reflexões envolvendo Maurice Blanchot, Roland Barthes, Clarice Lispector, Nuno Ramos, Jean-Luc Nancy, Jacques Lacan, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Antonin Artaud, Glauber Rocha, Marcel Proust, Tom Jobim, Claude Debussy, Claude Monet, Samuel Beckett, Bernard-Marie Koltès, Yvonne Rainer...

  • * (évelyne Grossman. La défiguration Paris: Minuit, 2004:113)
  • *
    Como conjugar desfiguração formal e figura identitária? Como reapropriar-se dos movimentos de deformação da identidade e da alteridade sem necessariamente conjurá-los? O reconhecimento do outro passaria por um desconhecimento, sustentando-se apenas em um mal-entendido contrariado? O reconhecimento de si se afirmaria apenas alterado, pluralizado ou extasiado?
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    Os Editores e os Coordenadores do Projeto
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      22 Out 2010
    • Data do Fascículo
      Jun 2010
    Programa de Pos-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras -UFRJ Av. Horácio Macedo, 2151, Cidade Universitária, CEP 21941-97 - Rio de Janeiro RJ Brasil , - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
    E-mail: alea.ufrj@gmail.com