Observações

Charles-Ferdinand Ramuz

TRADUÇÃO

Observações* * Nota do tradutor: as traduções que se seguem obedecem acima de tudo a um critério técnico de fidelidade textual strictu sensu, minimizando critérios de natureza estética. Vale ressaltar a dificuldade de traduzir um autor que, na contramão de uma certa tradição da literatura francesa, despreza na língua a "elegância", e faz questão de utilizá-la poeticamente transpondo nela o caráter "pesado" da condição humana, telúrica, como o barro na sola do pé...

Charles-Ferdinand Ramuz

Edição comemorativa, vol. 18. Lausanne: Rencontre, 1967, p. 237-346.

Não somos indiferentes ao mundo externo; logo, não podemos suportar que o mundo externo seja indiferente conosco. Parece, infelizmente, que esse é o caso; aí está a grande tragédia. Nós amamos a vida, ela não nos ama.

A poesia está na extrema precisão. Diz-se "abraçar os contornos": é pudor demais. É preciso infringir; é preciso abraçar tout court.

É preciso que a beleza não intervenha como elemento separado na elaboração daquilo que se chama obra de arte. Ela não deve ser usada como o açúcar na confecção de um doce. Não deve vir de fora em quantidades e doses sucessivas que seriam incorporadas aos poucos à massa. Muitos artistas tendem a pensar assim. Chegam aqui com uma imagem, ali com uma prosopopéia (vide os tratados de retórica), e assim "acrescentam" o belo à sua obra, gota a gota. Ou, ao menos, pensam que acrescentam; mas, no máximo, apenas enfeitam. Ao contrário, é preciso que a beleza seja produzida pela própria massa e como massa; a beleza não é uma meta, é um resultado. [...]

Os erros que se cometem na máquina de escrever são de uma espécie completamente diferente dos cometidos quando se escreve à mão; estes traem a nossa natureza, enquanto aqueles traem a natureza da máquina. Que sonoridade engraçada, aliás, nesta frase: escrever à máquina!

Nada mais alegre do que as máquinas agrícolas. [...] São o adorno dos campos, a sua alegria. São as únicas máquinas que fazem esquecer que são máquinas. E é verdade que o gesto do homem tem mais grandeza, mas, sem essa grandeza, elas ao menos tratam de ser divertidas, e conseguem, até mesmo nos seus movimentos. Ei-las em ação; e elas saltitam, elas bamboleiam, elas tremulam, elas brilham com os seu aços; elas viram, elas giram, elas se inclinam: parecem ora imitar os campos cortados com o seu tremor causado pela brisa, ora imitar as grandes ondas e o balanço das searas maduras.

O homem se enfeitou antes de se vestir.

Tradução: Pierre Guisan

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    Nota do tradutor: as traduções que se seguem obedecem acima de tudo a um critério técnico de fidelidade textual
    strictu sensu, minimizando critérios de natureza estética. Vale ressaltar a dificuldade de traduzir um autor que, na contramão de uma certa tradição da literatura francesa, despreza na língua a "elegância", e faz questão de utilizá-la poeticamente transpondo nela o caráter "pesado" da condição humana, telúrica, como o barro na sola do pé...

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jul 2005
  • Data do Fascículo
    Dez 2004
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