A CONJUGAÇÃO DE VERBOS IRREGULARES POR CRIANÇAS FALANTES NATIVAS DE PORTUGUÊS BRASILEIRO: UM ESTUDO SOB O VIÉS DA FONOLOGIA E MORFOLOGIA LEXICAL

Tamires Pereira Duarte GOULART Carmen Lúcia Barreto MATZENAUER Sobre os autores

RESUMO

Este estudo investiga o processo de aquisição de verbos irregulares do Português Brasileiro (PB), quando conjugados nos tempos Presente do Indicativo, Presente do Subjuntivo e Pretérito Perfeito do Indicativo, por crianças falantes nativas da língua, com o objetivo de descrever e analisar, sob o enfoque da Fonologia e Morfologia Lexical (Lexical Phonology and Morphology - LPM), a relação morfofonológica presente nas flexões dos verbos irregulares. Os dados revelam que os fenômenos linguísticos de origem morfofonológica são de alta complexidade para os falantes e podem ser considerados como processos de aquisição tardia pelas crianças brasileiras. Por meio da LPM compreendemos que a regularização verbal, uma das manifestações das conjugações irregulares, pode ser explicada pela não-correspondência entre os níveis fonológico e morfológico da língua.

Aquisição morfofonológica; Verbos irregulares; Fonologia e Morfologia Lexical

ABSTRACT

This study investigates the acquisition of irregular verbs in Brazilian Portuguese (BP) when conjugated in the Indicative Present, Subjunctive Present and Simple Past tenses by native BP speaking children. It aims at describing and analyzing the interaction between Morphology and Phonology which is found in the inflection of irregular verbs, in the light of Lexical Phonology and Morphology (LPM). Data show that linguistic phenomena of morphophonological origin, which are highly complex, can be considered processes of late acquisition by Brazilian children. LPM leads to the understanding that verb regularization, one of the manifestations of irregular conjugations, can be explained by the non-correspondence between the phonological and morphological levels of the language.

morphophonological acquisition; irregular verbs; Lexical Phonology and Morphology

Considerações iniciais

No processo de aquisição da linguagem, a partir do input que recebe, a criança precisa abstrair a gramática da língua, ou seja, as unidades que constituem cada componente do sistema linguístico, por exemplo, a fonologia, a morfologia e a sintaxe, bem como as relações entre essas unidades. A tais relações podem ser atribuídas duas naturezas: as relações podem dar-se entre unidades dentro de um mesmo componente, ou podem ocorrer entre unidades de diferentes componentes. As relações do segundo tipo implicam interfaces entre os componentes que compõem a gramática de uma língua.

Diante das relações existentes entre os componentes da gramática, o presente estudo focaliza a interface que se estabelece entre Fonologia e Morfologia, voltando a atenção para o comportamento, em fase da aquisição da linguagem, da adjunção de morfemas flexionais a formas verbais irregulares do Português Brasileiro (PB) em casos com a presença de alternâncias no plano fonológico da língua.

O objetivo deste artigo é discutir o emprego de formas do Presente do Indicativo, do Pretérito Perfeito do Indicativo e do Presente do Subjuntivo, que, em verbos classificados como ‘irregulares’, apresentam alternância de fonemas consonantais. São exemplos desse tipo os verbos fazer, trazer e medir, os quais, nos tempos aqui mencionados, apresentam as seguintes alternâncias: [s] alterna-se com [z], como em faço, fazes; [g] alterna-se com [z] e [s], como em trago, trazes, trouxe; [s] alterna-se com [d], como em meço, medes.

Os dados desta investigação, obtidos a partir da aplicação de instrumento que eliciou o emprego de formas nos tempos verbais estudados, foram analisados e formalizados com o suporte da Fonologia e Morfologia Lexical, por ser teoria que prevê a interação entre Morfologia e Fonologia, apontando as relações entre a estrutura morfológica de uma palavra e as regras fonológicas que a ela se aplicam.

Verbos irregulares e alternâncias fonológicas consonantais

O componente morfológico do português brasileiro licencia verbos regulares e irregulares. Para a caracterização de um e de outro, preliminarmente salienta-se, seguindo-se Câmara Jr. (1970), que um vocábulo verbal é composto por um tema (T), formado por um radical (R) e uma vogal temática (VT), acrescido dos sufixos flexionais (SF), que podem ser de modo e tempo (SMT) e de número e pessoa (SNP). Diante dessa estrutura, dizem-se regulares os verbos que mantêm inalterado o radical e que seguem o padrão geral na adjunção de morfemas flexionais, é o caso do verbo amar em toda a sua conjugação, amo, amava, amarei, amasse.

Já os verbos irregulares, foco deste artigo, são aqueles em que, na conjugação, há mudança no radical, como ocorre com o verbo dizer e suas flexões digo e dizes, ou, ainda, são verbos que se desviam do paradigma imposto pela gramática da língua, mostrando alterações nos morfemas flexionais. O verbo saber, cuja conjugação no Presente do Indicativo apresenta as formas: sei, sabes, sabe é um exemplo desse tipo de irregularidade. A forma verbal “sei” afasta-se do paradigma da primeira pessoa do singular, conjugada no Presente do Indicativo, que se manifesta, em sua maioria, com a desinência número-pessoal -o, como em canto, danço, escrevo, faço, estudo.

Nos verbos irregulares, seja por mudança no radical ou por fuga ao paradigma, podem ocorrer alternâncias. No funcionamento da língua, o fenômeno de alternância caracteriza-se pela mudança de um fonema por outro, sendo que existem dois tipos de alternâncias: a alternância vocálica, que implica a troca de vogais, por exemplo, [o]vo ~ [ɔ]vos, e a alternância consonantal, entendida como a alteração de um fonema consonantal por outro. São exemplos, desse tipo, as mudanças de consoantes finais dos radicais dos verbos quando conjugados, como em fazer ~ faço ~ fazes; trazer ~ trouxe ~ traz.

A alternância consonantal descrita acima parece ser de alta complexidade para os falantes de PB, por isso sustenta-se aqui que sua aquisição pode ser considerada um processo de natureza tardia, em se tratando de aquisição do sistema verbal irregular do PB, estendendo-se no mínimo até os 10 anos de idade.

O processo de regularização dos verbos irregulares

A tendência à regularização e ao menos marcado, no funcionamento da gramática das línguas, é reconhecida como parte do processo evolutivo dos sistemas linguísticos, assim como do processo de aquisição da linguagem. Nesse contexto, insere-se a regularização de formas verbais.

Tem-se, portanto, a regularização de verbos irregulares quando o falante produz um verbo irregular de acordo com o padrão do verbo regular; são exemplos a produção de “fazi” para “fiz”, “trazi~ trazei” para “trouxe”.

Fonologia e Morfologia Lexical (FML)

A Fonologia e Morfologia Lexical (FML ou LPM) é uma teoria que permite olhar para a língua atentando à relação existente entre a morfologia e a fonologia, captando, de forma singular, generalizações e padrões de ocorrências morfofonológicas.

Os sistemas linguísticos apresentam casos de interface entre esses componentes da língua, de modo que, em âmbito apenas fonológico ou apenas morfológico, não seria possível explicá-los. Um exemplo, nesse contexto, é o fenômeno aqui estudado, o qual coloca em análise a produção dos verbos irregulares, que exibem em suas conjugações alternâncias fonológicas motivadas pela adjunção de unidades da morfologia.

Na década de 80, a Fonologia Lexical ganhou relevante destaque, tendo seu início com Kiparsky (1982KIPARSKY, P. Lexical morphology and phonology. In: YANG, S. (Ed.). Linguistic in the morning Calm. Seoul: Hanshin Publishing Co, 1982., 1985KIPARSKY, P. Some consequences of lexical phonology. Phonology yearbook 2. London: Cambridge University Press, 1985.) e Mohanan (1982)MOHANAN, K. P. Lexical Phonology. 1982. 218 f. Doctoral dissertation – Massachusetts Institute of Technology, Cambridge, 1982., conquistando rapidamente muitos fonólogos por possuir alto nível de explicação teórica e, especialmente, por ser responsável pelo retorno da morfologia ao cenário dos estudos linguísticos (SCHWINDT, 2006SCHWINDT, L. C. A relação entre Morfologia e Fonologia na História dos Estudos Linguísticos. In: MARTINS, E. S.; CANO, W. M.; MORAES FILHO, W. B. (Org.). Léxico e morfofonologia: perspectivas e análises. Uberlândia: EDUFU, 2006.).

A FLM dedica-se a olhar para o léxico não só como detentor de estruturas, mas como um conjunto de regras fonológicas que se comunicam com regras morfológicas. Uma de suas maiores contribuições é o entendimento de que o léxico de uma língua está organizado em uma série de níveis ou estratos, sendo estes, assim, responsáveis pelo domínio das ocorrências dessas regras.

Dentro de cada um desses estratos aplicam-se, par a par, tanto as regras morfológicas de formação de palavras, quanto processos de ordem fonológica. Os estratos estão dispostos de modo a refletir a ordenação dos processos de formação de palavras, conforme exposto naFigura 1.

Figura 1
– Modelo proposto por Kiparsky (1982)KIPARSKY, P. Lexical morphology and phonology. In: YANG, S. (Ed.). Linguistic in the morning Calm. Seoul: Hanshin Publishing Co, 1982.: representação da estrutura do léxico.

O modelo exposto na figura (1) introduzido por Kiparsky (1982)KIPARSKY, P. Lexical morphology and phonology. In: YANG, S. (Ed.). Linguistic in the morning Calm. Seoul: Hanshin Publishing Co, 1982. considera a entrada do léxico pelo módulo da fonologia sendo que, a partir daí, começam a ser estabelecidas as relações entre os estratos fonológicos e morfológicos. Por fim, a palavra sai do nível lexical por intermédio da fonologia, indo diretamente para a sintaxe, no nível pós-lexical.

Lee (1995)LEE, S. Morfologia e Fonologia Lexical do Português do Brasil. 1995. 201 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995. destaca que os componentes da fonologia e da morfologia se misturam, de forma que as regras fonológicas relevantes se aplicam à saída de toda regra morfológica, determinando a entrada para outra regra fonológica, e assim por diante.

Bisol (2010)BISOL, L. Introdução e estudos de fonologia do português brasileiro. 5. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. propõe para a análise do português a divisão do léxico em dois níveis, o da raiz e o da palavra, identificados respectivamente como nível 1 e nível 2. Essa estrutura, mostrada na figura (2), é a utilizada na maioria das propostas para FML, embora seja opção de cada língua a divisão do léxico em diferentes níveis.

Figura 2
– Modelo sugerido por Bisol (2010)BISOL, L. Introdução e estudos de fonologia do português brasileiro. 5. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. para o português.

A proposta de Bisol (2010)BISOL, L. Introdução e estudos de fonologia do português brasileiro. 5. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. apresenta o modelo de FML com duas possibilidades a partir da estrutura subjacente: a entrada tanto pode ocorrer pelo módulo da morfologia, quanto pelo módulo da fonologia; a saída da palavra do módulo lexical para o módulo pós-lexical é facultada diretamente pela fonologia e segue caminho para a sintaxe, nível em que sofrerá as regras fonológicas pós-lexicais.

A fim de analisar os dados deste estudo, os resultados da presente pesquisa serão formalizados com o suporte da FLM, considerando essencialmente a proposta de Lee (1995)LEE, S. Morfologia e Fonologia Lexical do Português do Brasil. 1995. 201 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995. para o PB. Com essa base, sustenta-se a ideia de que o processo de regularização de formas verbais na fala de crianças brasileiras com idades entre 06 e 09 anos se dá pela falta de correspondência entre estratos da Fonologia e estratos da Morfologia.

Metodologia

O estudo realizado com um grupo de crianças falantes nativas do PB1 1 A variedade dialetal do PB da comunidade a que pertencem as crianças deste estudo utiliza o pronome ‘tu’ para o tratamento da 2ª pessoa do singular, com a respectiva flexão verbal. , entre 06 e 09 anos de idade, centrou-se na produção dos verbos irregulares, buscando identificar se ainda existe o processo de regularização de tais verbos nessa faixa etária e, em ocorrendo esse processo, investigar qual é a motivação do fenômeno dentro dos pressupostos da Morfologia e Fonologia Lexical.

O corpus foi constituído por dados de oito crianças falantes nativas do PB, alfabetizadas e monolíngues, sendo duas de cada uma das faixas etárias discriminadas no Quadro 1. Além disso, a idade das crianças foi atrelada ao seu nível de escolaridade. O Quadro 1esboça a seleção dos informantes quanto à escolaridade e à idade2 2 Este artigo, por ser um recorte de Dissertação de Mestrado, conta com apenas alguns dos dados do corpus da pesquisa original, assim como a descrição de apenas um dos instrumentos criados para a obtenção dos dados. .

Quadro 1
– Faixas etárias e escolaridades dos sujeitos da pesquisa.

Em cada uma das idades selecionadas, as crianças foram subdivididas com relação ao sexo, sendo que optamos por uma menina e um menino em cada uma das faixas etárias, a fim de podermos estabelecer relações quanto ao gênero e suas possíveis particularidades e/ou semelhanças no processo de aquisição da morfologia verbal irregular do PB.

Para a obtenção dos dados, criou-se um instrumento, o qual focalizou a produção de morfemas verbais irregulares na 1ª e na 2ª pessoa do singular do Presente e do Pretérito Perfeito do Indicativo e na 1ª e na 2ª pessoa do singular do Presente do Subjuntivo. O instrumento foi constituído de frases com lacunas a serem completadas pelos informantes com o verbo destacado pela cor vermelha, conforme mostra a Figura 3.

Figura 3
– Modelo do instrumento I.

Todas as frases levavam à produção do tempo verbal esperado. O teste foi apresentado em slides, através da tela de um laptop, conforme modelo exposto na Figura 3, que mostra dois tipos de slides: um que traz em destaque o verbo a ser conjugado, e o outro com frases cujas lacunas devem ser completadas pelo verbo flexionado.

Inicialmente, a pesquisadora apresentava o primeiro slide, contendo a frase com o verbo a ser utilizado e convidava a criança a ler a frase e, após, passando para o slide seguinte, convidava a criança a ler e a completar as lacunas das frases. Ao longo da aplicação, a pesquisadora procurou interagir constantemente com os informantes. Preliminarmente, foi aplicado um teste de familiarização com a tarefa, muito semelhante à do instrumento, mas com frases contendo apenas verbos regulares.

Esse instrumento também contou com slides distratores, ou seja, com frases distratoras, compostas por verbos regulares. Além disso, destacamos que a disposição das frases no teste foi feita de forma aleatória, para evitar a sequência das conjugações de verbos de acordo com as pessoas gramaticais, como: eu faço, tu fazes; que eu faça, que tu faças. Quando, no ordenamento das frases, apareceu a sequência eu – tu, o tempo verbal era alternado.

Esse instrumento contou com 10 slides com a exposição de verbos irregulares, sendo que, em cada um deles, foram apresentadas 06 diferentes sentenças com lacunas a serem preenchidas, o que totalizou 60 espaços a serem completados com o uso oral de verbos irregulares por cada informante. Já os verbos regulares, cuja presença no instrumento se deu apenas com caráter de distração do foco da pesquisa, totalizaram 48 produções verbais regulares, distribuídas em 08 slides. O Quadro 2 aponta os verbos irregulares selecionados para a investigação proposta neste artigo.

Quadro 2
– Verbos irregulares analisados na dissertação e suas alternâncias.

Nos verbos irregulares, seja por mudança no radical ou por fuga ao paradigma, podem ocorrer alternâncias fonológicas (expostas no Quadro 2), as quais se caracterizam pela troca de um fonema por outro. Sendo motivadas pela morfologia, tais alternâncias apresentam natureza morfofonológica.

A alternância consonantal, por sua vez, constitui-se de uma variação do radical, que contribui, de acordo com Câmara Júnior (1970), para expressar as noções gramaticais de tempo, modo e pessoa, as quais são primordialmente representadas por sufixos. Para as autoras Souza & Silva e Koch (2009), é esse tipo de irregularidade que permite distinguir “padrões” morfológicos desviantes, já que uma das características dos verbos regulares é justamente a imutabilidade do radical.

Resultado e análise dos dados

Para a descrição dos dados, primeiramente esboçamos quadros descritivos, contendo as informações das coletas de cada um dos informantes. Faz-se necessário destacar que consideramos, nesse momento, as formas analisadas como padrão e não padrão de acordo com a conjugação verbal irregular do PB. Nosso foco, nesse sentido, é identificar as formas não-padrão, as quais se manifestam por meio do processo de regularização e, portanto, não apresentam as alternâncias consonantais necessárias às flexões dos verbos irregulares, especialmente no Presente do Indicativo e no Presente do Subjuntivo.

Desse modo, pontuamos que o acerto da alternância consonantal corresponde à forma aqui referida como Padrão (P)4 4 Consideraram-se como acerto as formas produzidas sem morfema -s, marcador de 2ª pessoa do singular (tu), devido ao fato de encontrarmos essas manifestações no uso frequente da língua, mesmo em se tratando de falantes de alta escolaridade. Assim, julgamos como variantes da manifestação padrão as formas tu me[d]es ~ tu me[d]e, por exemplo, já que o foco da descrição recaiu sobre a consoante que é alvo da alternância morfofonológica nas formas verbais estudadas. , enquanto que a não ocorrência da alternância, a qual corresponde à produção da forma verbal regularizada, é interpretada como Não Padrão (NP). Quando exibimos nos quadros as produções NP, identificamos também a transcrição fonética do segmento consonantal que evidencia o emprego da forma verbal em desacordo com o alvo da língua, ou seja, que implica a fuga da alternância morfofonológica que a conjugação verbal considerada padrão apresenta5 5 Faz-se necessário destacar algumas abreviações mantidas nas descrições feitas nos quadros dos informantes: FE (faixa etária); F e M (feminino e masculino); P (forma padrão, ou seja, conjugada de acordo com a norma padrão da língua); NP (forma não-padrão, ou seja, conjugada de forma regularizada). .


Informante 1

A informante 1, 06 anos de idade, sexo feminino, apresentou regularizações nas conjugações dos verbos irregulares “fazer, satisfazer, trazer, perder, medir, ouvir e pedir”. No verbo “fazer” e seu derivado “satisfazer”, notamos que a informante produziu morfemas regularizados fiéis ao radical do verbo faz-; nesse sentido, observamos as conjugações fa[z]o, fa[z]a, satisfa[z]o e satisfa[z]a. Assim, a menina não realizou a conjugação irregular, que se daria pela produção das alternâncias com [s], presente em fa[s]o, fa[s]a], fi[s], tanto para o Indicativo, como para o Subjuntivo.

As regularizações, as quais também mantêm fidelidade ao morfema base do verbo, como, por exemplo, tra[z]o, tra[z]i, tra[z]eu, foram algumas das conjugações que esta informante realizou. Desse modo, o fonema /z/ não se alternou com [g] e com [s] no modo indicativo, mas alternou-se com [g] no modo subjuntivo. Por ser o modo subjuntivo o de uso menos frequente, o emprego padrão pode ser interpretado como decorrente de forma não analisada. Percebemos, ainda, a construção das formas per[d]o e per[d]a, ao invés de per[k]o e per[k]a.

A alternância esperada para o verbo “ouvir”, da forma [v] com [s], não foi realizada pela criança. Ao contrário, o que predominou foi a regularização e a fidelidade à forma base do radical ouv-. Notamos tal fenômeno através dos exemplos de fala da informante ou[v]o e ou[v]a.


Informante 2

O informante 2, 06 anos de idade, sexo masculino, conjugou os verbos “dizer, fazer, trazer, poder e ter” de acordo com a gramática padrão da língua, alternando os fonemas consonantais. Porém, em relação aos verbos “satisfazer, perder, medir, ouvir e pedir” o sujeito produziu conjugações regularizadas.

Nas conjugações do verbo “perder”, encontramos per[d]o e per[d]a, formas regularizadas pela criança tanto no Indicativo como no Subjuntivo. No que diz respeito ao verbo “ouvir”, observamos que foram construídas as formas ou[v]o, ou[v]a e o[v]a. Para o verbo “medir”, o informante 2 apresentou mi[d]o e mi[d]a, com elevação da vogal [e → i]. No que tange ao verbo “pedir”, o sujeito operou com as alternâncias características ao presente do Subjuntivo e produziu, para o presente do Indicativo pε[d]o, uma regularização que sofreu o processo de alternância vocálica, porém sem efetivar a alternância consonantal referente a /d/ por [s].

Os informantes 3, 4, 5, 6, 7 e 8, cujos dados estão expostos a seguir, apresentaram formas verbais regularizadas que mostram a mesma natureza daquelas já acima comentadas.


Informante 3

A informante 3, 07 anos de idade, sexo feminino, realizou regularizações para os verbos “satisfazer, trazer, poder, perder, medir, ouvir e pedir”, somente não apresentou o fenômeno para os verbos “dizer, fazer e ter”.


Informante 4

O informante 4, 07 anos de idade, sexo masculino, teve em suas produções a regularização de morfemas verbais para os verbos “satisfazer, trazer, poder, perder, medir, ouvir e pedir”.


Informante 5

A informante 5, 08 anos de idade, sexo feminino, não atendeu às regras morfofonológicas que as conjugações irregulares dos verbos “medir, ouvir e pedir” exigem.


Informante 6

O informante 6, 08 anos de idade, sexo masculino, conjugou integralmente de acordo com o padrão da língua apenas os verbos “dizer, poder e ter”.

Quanto aos demais verbos do estudo, o informante distanciou-se do padrão na produção de algumas flexões, as quais se apresentaram sob a forma regularizada, sem o emprego da regra morfofonológica. Os dados do informante 6, assim como os dados dos outros sujeitos, indicam que a criança, ainda em fase de aquisição da morfofonologia da língua, revela traços morfofonológicos flutuantes comparados à gramática padrão da língua alvo. São traços que ora se manifestam adequadamente, ora são empregados pelo falante afastando-se do padrão.


Informante 7

A informante 7, 09 anos de idade, sexo feminino, apresentou conjugações verbais regularizadas para o verbo “medir” no Presente do Subjuntivo; as formas produzidas mi[d]a, e mε[d]a mostram que, embora a gramática dessa criança esteja quase alcançando o sistema alvo da língua padrão, ainda se faz presente, aos 09 anos de idade, a instabilidade gerada pela complexidade da aquisição da morfofonologia do PB. São conjugações que se encontram de forma regularizada, sobretudo nas flexões que envolvem o modo Subjuntivo do sistema verbal.


Informante 8

O Informante 8, 09 anos de idade, sexo masculino, produziu flexões, cujos radicais não atenderam às regras de alternâncias consonantais exigidas pelo padrão dos verbos irregulares da Língua Portuguesa para os verbos “satisfazer, medir, ouvir e pedir”.

Da mesma forma que os demais sujeitos deste estudo, esse informante regularizou algumas conjugações, guiando-se pelo radical do verbo irregular no infinitivo, conjugação essa pertencente ao padrão dos verbos regulares do PB. As formas satisfa[z]o, satisfa[z]a, m[εd]o, m[id]a, m[εd]a, o[v]o, o[v]a e p[εd]a são exemplos dessa regularização.

Os dados sob o viés da Fonologia e Morfologia Lexical

Todos os informantes realizaram alguma flexão verbal em desacordo com a norma padrão da conjugação da categoria verbal irregular. Nesse sentido, o Quadro 3 expõe o número de vezes em que as regularizações de cada verbo testado foram produzidas pelos sujeitos.

Quadro 3
– Estimativa do processo de regularização

Os dados evidenciam que as regularizações mais recorrentes nas conjugações dos informantes foram nas formas per[d]o, per[d]a (verbo - perder), m[id]a (verbo - medir), p[εd]a, p[id]a (verbo - pedir),ou[v]a (verbo - ouvir) e satisfa[z]a (verbo –satisfazer), sendo que o modo Subjuntivo (Presente do Subjuntivo) apresenta maior instabilidade quanto à sua flexão, em um percentual mais alto se comparado ao das produções para o Presente do Indicativo. Acreditamos estar esse fato relacionado à complexidade que envolve a aquisição da morfofonologia do PB e ao fato de serem o tempo e o modo verbais (Presente do Subjuntivo) considerados marcados na língua. O modo verbal mais marcado na língua, nesse sentido, é suscetível de maior possibilidade de variação, pelo sujeito, em relação à forma padrão. O modo Subjuntivo é, também, empregado em orações subordinadas, o que implica a construção de um período composto por subordinação e que exige maior complexidade sintática a tal ponto que, no uso oral da língua, mesmo por adultos, é de baixa frequência.

O Pretérito Perfeito do Indicativo apresentou baixo índice de regularização, o que se atribui ao fato de que este é um tempo que pede poucas alternâncias consonantais em suas flexões no modo Indicativo. Além disso, seu emprego também não exige complexidade sintática, já que pode ser empregado em períodos simples ou compostos por coordenação, os quais têm alta frequência no uso da língua.

Para o Presente do Indicativo, os dados podem ser considerados relevantes, baseando-se em estudos já realizados (YAVAS; CAMPOS, 1988YAVAS, F.; CAMPOS, J. Aquisição da Morfologia Verbal do Português como L1 e L2. Letras de Hoje, Porto Alegre: PUCRS, n.74, p.81-95, 1988.; SANTOS; SCARPA, 2003SANTOS, R. S.; SCARPA, E. M. A aquisição da morfologia verbal e sua relação com o acento primário. Letras de Hoje, Porto Alegre: EDIPUC, v.38, n.4, p.249-260, 2003.), que consideram esse tempo verbal como um dos primeiros a ser adquirido pelos falantes nativos de PB. Dito isso, podemos inferir que, embora seja um tempo precocemente empregado pelos sujeitos, sobretudo na classe regular dos verbos, as formas verbais irregulares do Presente do Indicativo que se realizam com alternâncias consonantais são complexas para as crianças em fase de aquisição, o que contribui para a sua emergência tardia6 6 Os dados deste artigo apontam, ainda, que o fenômeno da regularização verbal ocorre com maior porcentagem considerando os verbos da terceira conjugação (ir). Não se investigou detalhadamente qual seria o fator condicionante para explicar essas ocorrências, mas salienta-se que estão sendo desenvolvidos instrumentos para investigar essa influência, bem como para evidenciar as possíveis diferenças que existem entre a aquisição verbal irregular, em se tratando dos diferentes modos verbais. .

A diferença da produção não padrão entre meninos e meninas foi menor que 1%, por isso constatamos que a realização de regularizações verbais não está relacionada ao sexo dos sujeitos. À vista disso, evidenciamos que o emprego de eventos morfofonológicos na conjugação de verbos irregulares está presente no desenvolvimento linguístico de todas as crianças da amostra, independentemente da variável sexo, diferentemente de outros processos de aquisição da linguagem que podem apresentar comportamento diferenciado às meninas e aos meninos, como a aquisição do inventário segmental da fonologia da língua, por exemplo.

O corpus analisado ainda revela que há um desenvolvimento gradual da aquisição verbal irregular em relação à idade, aqui sobreposta, também, à escolaridade dos sujeitos. À medida que a faixa etária aumenta (bem como o nível de escolaridade), o processo de produção das formas diferentes do padrão (NP) diminui.

Tal relação propõe que as formas verbais irregulares do PB são adquiridas conforme aumenta a exposição da criança ao sistema linguístico, por isso, quanto maior for a idade, menor será o índice de regularizações produzido pelos sujeitos.

A frequência de uso dos verbos foi fator que se mostrou de particular relevância às nossas análises. Nesse contexto, os dados evidenciam que a não alternância consonantal se dá, de forma prevalente, em se tratando dos verbos menos frequentes no input linguístico dos informantes, conforme já apontava a pesquisa de Andersen (2008)ANDERSEN, E. M. L. Representações Lexicais Subjacentes: verbos e léxico inicial. ReVEL, v.6, n.1, p.1-31, 2008.. A autora destacou que os verbos “ter, poder, dizer e fazer” estão entre os dez verbos mais frequentes do PB. De fato, esses foram os verbos que menos sofreram, nesta pesquisa, o processo de regularização verbal; indo-se além, verificamos, por exemplo, que os verbos “ter e dizer” não foram flexionados nenhuma vez de forma não padrão, enquanto que os verbos “poder e fazer” foram alvos de um número muito baixo de produções regularizadas.

Em conformidade com a Fonologia e Morfologia Lexical, lidamos com a possibilidade de no mínimo três explicações para o processo que acomete as conjugações NP, ou seja, as conjugações regularizadasdas formas verbais, evidenciadas neste artigo:

  1. pressuposição de que os sujeitos ainda não tenham adquirido plenamente a Morfologia Verbal da língua e, devido a isso, apresentem bloqueio no nível morfológico;

  2. pressuposição de que a falta de alternâncias na conjugação dos radicais irregulares seja motivada por uma lacuna fonológica, ligada diretamente ao nível fonológico;

  3. pressuposição de que a criança já tenha adquirido tanto a Morfologia Verbal do PB, como sua Fonologia e, dessa forma, regularize os morfemas verbais devido à motivação exigida pela inter-relação morfofonológica que, no componente lexical, requer a interação entre a Morfologia e a Fonologia.

Tomemos, primeiramente, o tópico em (b): não parece responder pelas formas verbais produzidas diferentemente do padrão, uma vez que o inventário segmental e silábico da criança com desenvolvimento típico e as regras que determinam seu funcionamento na língua é adquirido, majoritariamente, até os 05 anos de idade (LAZZAROTTO-VOLCÃO, 2009LAZZAROTTO-VOLCÃO, C. Modelo Padrão de Aquisição de Contrastes: uma proposta de avaliação e classificação dos Desvios Fonológicos. 2009. 218 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Católica de Pelotas, Pelotas, 2009.).

Considerando-se o tópico em (a), parece poder ser descartado, porque os dados deste estudo evidenciam que os informantes já adquiriram a morfologia verbal, visto que apresentam, em consonância com o padrão da língua, os morfemas de tempo e modo e de número e de pessoa, ou seja, todas as flexões verbais, incluindo o paradigma verbal. São exemplos, as flexões satisfa[z]o e per[d]a, as quais revelam que os informantes conservam, nas formas diferentes do padrão, os morfemas indicadores de tempo, bem como os de número e pessoa e, devido a isso, compreendemos, aqui, que a Morfologia Verbal em todas as faixas etárias aqui estudadas já está adquirida. Parece, portanto, que os morfemas flexionais da classe dos verbos, correspondentes às categorias testadas no presente estudo, já estão adquiridos. Além disso, todas as crianças, desde a primeira faixa-etária pesquisada, empregaram com 100% de adequação às formas do verbo ter.

A alternativa proposta em (c) é capaz de explicar o fenômeno das ocorrências não padrão, demonstrando, por meio da LPM (Figura 3), que as regularizações são motivadas pela falta da correlação que deve ser mantida entre a Morfologia e a Fonologia para que o processo de alternâncias em verbos irregulares se manifeste de acordo com o padrão da língua; a regra fonológica da alternância não é aplicada na conjugação de alguns verbos, porque não há a devida correspondência entre os componentes morfológico e fonológico e, com isso, não se concretiza a interação morfofonológica.

A Figura 4 mostra a falta de correspondência entre o componente Fonológico e o Morfológico, a partir da proposta de Kiparsky (1982KIPARSKY, P. Lexical morphology and phonology. In: YANG, S. (Ed.). Linguistic in the morning Calm. Seoul: Hanshin Publishing Co, 1982., 1985KIPARSKY, P. Some consequences of lexical phonology. Phonology yearbook 2. London: Cambridge University Press, 1985.), a fim de se entenderem as formas produzidas pelos sujeitos desta pesquisa.

Figura 4
– Proposta para as formas não padrão, em consonância com Kiparsky (1982KIPARSKY, P. Lexical morphology and phonology. In: YANG, S. (Ed.). Linguistic in the morning Calm. Seoul: Hanshin Publishing Co, 1982., 1985KIPARSKY, P. Some consequences of lexical phonology. Phonology yearbook 2. London: Cambridge University Press, 1985.).

No modelo proposto por Lee (1995)LEE, S. Morfologia e Fonologia Lexical do Português do Brasil. 1995. 201 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995. 7 7 De acordo com Lee (1995), no nível 1 (também identificado como (α)) estão a flexão irregular, a Derivação e a Composição I; no nível 2 (β) ocorre a formação produtiva do PB, juntamente às flexões verbais regulares da língua; no nível pós-lexical encontra-se a Composição II. Para maior detalhamento, consultar Lee (1995). para o Português Brasileiro, a flexão irregular encontra-se no nível 1(α), enquanto que a flexão regular se manifesta no nível 2 (β).

As produções verbais que as crianças deste estudo realizaram indicam que, com a idade de 06 anos, o sujeito já opera com formas irregulares, tendo em vista que produz adequadamente as alternâncias fonológicas consonantais de determinados verbos, principalmente daqueles cuja frequência se mostra alta no input linguístico.

Todavia, os dados também apontam que, em todas as faixas etárias estudadas, as crianças ainda regularizam formas verbais irregulares, evidenciando, assim, a tardia aquisição dos processos de natureza morfofonológica do sistema verbal do PB, especialmente dos verbos menos frequentes (como já foi salientado) e do tempo verbal menos frequente: Presente do Subjuntivo. O simultâneo emprego de formas irregulares para alguns verbos e o não emprego para outros leva a interpretar-se que a aquisição desses verbos exige a incorporação à gramática da criança:

  1. dos morfemas verbais flexionais regulares (modo e tempo, número e pessoa);

  2. dos morfemas verbais flexionais irregulares (irregularidades em razão do paradigma);

  3. das alternâncias dos radicais irregulares (irregularidades em razão do radical).

Os fatos em (II) e em (III) são irregulares; portanto, são imprevisíveis e têm de ser aprendidos pela criança com o uso (a frequência) da língua; além disso, exigem interação entre Morfologia e Fonologia. Por essa razão, a frequência do uso dos verbos na língua é fator condicionador da aquisição dos verbos irregulares: quanto mais frequente for o uso de um verbo irregular, mais facilmente sua estrutura vai ser adquirida.

Com base nesses argumentos, defendemos que a proposta em (c) é a que parece mais adequada para explicar o corpus deste estudo, levando-se em consideração, sobretudo, a natureza morfofonológica do processo, a qual é essencial para a conjugação irregular padrão do PB, e que, por ser complexa na língua, contribui para a aquisição tardia de formas verbais, cujo radical envolve alternâncias consonantais em suas conjugações.

Segundo a proposta de Lee (2005), ao olharmos os dados aqui descritos, temos a não comunicação dos componentes morfológico e fonológico da língua apenas ao se considerarem as formas verbais irregulares, que são flexionadas na fala da criança de maneira regularizada; essas, então, dirigem-se ao nível 2 (β) sem sofrer as regras da flexão irregular, e, no nível 2 (β), são submetidas ao tratamento dado aos verbos regulares. Essa divisão da flexão verbal, irregular e regular, em PB em diferentes níveis ocorre em atendimento ao Princípio do Elsewhere Condition, em que regras mais restritas se aplicam antes das mais gerais, ou seja, a flexão irregular, que é a mais marcada e mais restrita, acontece anteriormente à flexão regular, cujas regras são menos marcadas e mais universais, não apenas no PB, mas nas línguas do mundo.

Na passagem para o nível 2 (β), o verbo que não sofreu a flexão irregular, pois, apesar de consumar as regras morfológicas, não atingiu as alternâncias consonantais no nível fonológico8 8 O lócus da ausência da alternância consonantal, como parte do processo de aquisição de formas verbais irregulares, está representado à direita da Figura 4. pela falta de correlação entre os componentes, sofre, então, a flexão regular exclusiva do nível 2(β), conservando-se de maneira regularizada e fiel ao radical do verbo, cuja raiz é um morfema que se encontra no léxico profundo, integrando as representações subjacentes dos falantes da língua.

Segundo Lee (1995)LEE, S. Morfologia e Fonologia Lexical do Português do Brasil. 1995. 201 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995., é também no nível 2 (β) que ocorre a formação produtiva do PB, juntamente às flexões verbais regulares da língua. Isso salienta a razão pela qual os verbos regulares são compreendidos como a classe produtiva do português e, por isso, de caráter não marcado na língua. Nesse sentido, a regularização no processo de aquisição verbal mostra que a criança opera em conformidade com o padrão não marcado, tornado o fenômeno mais natural, quando ainda não tem adquiridas, em sua gramática, as irregularidades do sistema linguístico.

Além disso, esse fato pode mostrar ainda que, quando o falante produz as regularizações – formas não padrão –, está lidando com uma única gramática internalizada, ao contrário da proposta de estudos (LORANDI, 2006LORANDI, A. Formas Morfológicas na Gramática Infantil: um estudo à luz da Teoria da Otimidade. 2006. 185 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Pontifícia Universidade Católica, Porto Alegre, 2006.; AVELEDO, 2006AVELEDO, F. El processamento de verbos regulares e irregulares en el español infantil: mecanismo dual vs. Conexionismo. Boletín de Linguística, v.18, n.26, p.5-32, jul. 2006.) que postulam duas gramáticas operando no sistema verbal: uma responsável para a conjugação dos verbos regulares e outra para a conjugação dos verbos irregulares. A regularização, nessas pesquisas, é entendida como sendo uma flexão estabelecida pela gramática dos verbos regulares e, por consequência disso, mantida na fala dos sujeitos com a fidelidade ao radical do verbo.

Mediante estudo da Teoria Lexical, observamos que o processo das formas não padrão se dá por meio das relações estabelecidas entre os componentes e os estratos que constituem a gramática da língua; sendo assim, o fenômeno da regularização está situado no campo que estabelece o intercâmbio entre os componentes para que se formem os vocábulos do PB e, devido a isso, é um processo que opera com uma única gramática, capaz de explicar tanto a flexão padrão, como a não padrão, buscando, para isso, parâmetros linguísticos para eventos que marcam o desenvolvimento da aquisição da linguagem, aqui especificamente da aquisição dos verbos irregulares do PB.

Considerações finais

A criança em fase de aquisição verbal opera com, no mínimo, duas possibilidades de flexão para os verbos irregulares: de acordo com o alvo da língua, realizando as alternâncias fonológicas em consonância com o padrão; ou em desacordo com o alvo, realizando o fenômeno que é entendido na literatura da área como regularização (LORANDI, 2006LORANDI, A. Formas Morfológicas na Gramática Infantil: um estudo à luz da Teoria da Otimidade. 2006. 185 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Pontifícia Universidade Católica, Porto Alegre, 2006.); a flexão que se dá sem as alternâncias próprias da conjugação irregular mantém, na fala do sujeito, o radical do verbo e, por isso, flexiona a classe irregular em conformidade com a conjugação dos verbos regulares.

Levando-se em consideração que os estudos brasileiros realizados até o presente momento atestam que o fenômeno da regularização verbal ocorre não mais que até os 05 anos de idade, os dados da pesquisa aqui relatada deles discordam, pois apresentam evidências de que crianças com idade superior a 05 anos produzem, em suas conjugações, formas verbais regularizadas para determinados verbos irregulares.

Nesse sentido, reafirmamos a importância da variável escolaridade, aqui atrelada à idade, para a estabilização da flexão irregular do PB. Além disso, percebemos, por meio das análises, que:

  1. o corpus deste estudo mostra, por meio das conjugações em análise, que os sujeitos aqui acompanhados já possuem a Morfologia da língua, visto que produzem os morfemas de modo e tempo, de número e pessoa e os marcadores do paradigma verbal do PB;

  2. as regularizações na conjugação de verbos irregulares na visão deste estudo, que é fundamentado pela LPM, são de ordem morfofonológica no sistema linguístico do PB, pois estão associadas às relações condicionadas pela não correspondência entre o componente fonológico e o componente morfológico da língua;

  3. por implicar fenômeno de ordem morfofonológica, a aquisição do sistema verbal irregular é tardia, em se tratando de falantes nativos de PB, podendo estender-se, no mínimo, até os 09 anos de idade; no presente estudo, a variável escolaridade atrelada à idade aponta que, quanto maior for a experiência linguística da criança, maior também será o número das conjugações irregulares que produz de acordo com a forma padrão da língua;

  4. os verbos que se mantêm em alta frequência na língua são adquiridos, com suas flexões, mais precocemente do que aqueles que mostram baixa frequência.

Sob o viés dos pressupostos da Fonologia e Morfologia Lexical, o emprego de formas verbais diferentes do padrão, sem a presença de alternâncias consonantais, pode ser explicado em razão da não articulação entre os módulos da Morfologia e da Fonologia da língua. A falta de correspondência entre esses componentes na construção de determinadas conjugações irregulares, especialmente na 1ª pessoa do Presente do Indicativo e na 1ª e na 2ª pessoas do Presente do Subjuntivo, aponta para a alta complexidade que permeia a aquisição da classe verbal irregular do PB. Considerando que os sujeitos do presente estudo já operam com essa relação, atentando para o fato de que já produzem alternâncias consonantais, principalmente para os verbos de alta frequência no input linguístico, entendemos que ainda estão em fase de aquisição da morfofonologia da língua pela coexistência das formas padrão (P) e não padrão (NP) em suas produções.

Com essa análise, temos uma evidência da complexidade de fenômenos morfofonológicos e, nesse fato, podemos ver uma justificativa para o estágio tardio de sua aquisição: a aquisição da morfologia dos verbos já se mostra complexa pelos diferentes afixos que envolve, sendo que se vê gradualmente aumentada a dificuldade quando os tempos são do modo subjuntivo (do ponto de vista sintático e semântico, o emprego desse modo verbal implica exigente operação nas relações entre as orações e entre os sentidos); e a complexidade se torna ainda maior quando está presente a interação entre os níveis morfológico e fonológico da língua, exigindo alternâncias vocálicas e consonantais no processo de flexão dos verbos.

Por meio dos resultados alcançados, o presente estudo vem, portanto, atestar que, ao serem considerados fenômenos de natureza morfofonológica, o processo de aquisição da linguagem pelas crianças pode estender-se até a idade de 09 anos ou mais, incluindo-se o emprego de verbos irregulares.

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  • 1
    A variedade dialetal do PB da comunidade a que pertencem as crianças deste estudo utiliza o pronome ‘tu’ para o tratamento da 2ª pessoa do singular, com a respectiva flexão verbal.
  • 2
    Este artigo, por ser um recorte de Dissertação de Mestrado, conta com apenas alguns dos dados do corpus da pesquisa original, assim como a descrição de apenas um dos instrumentos criados para a obtenção dos dados.
  • 3
    As alternâncias consonantais relativas ao verbo “ter” são de natureza diferenciada nessa lista de verbos, uma vez que dizem respeito ao paradigma flexional, enquanto as alternâncias registradas para os outros verbos ocorrem no radical da palavra.
  • 4
    Consideraram-se como acerto as formas produzidas sem morfema -s, marcador de 2ª pessoa do singular (tu), devido ao fato de encontrarmos essas manifestações no uso frequente da língua, mesmo em se tratando de falantes de alta escolaridade. Assim, julgamos como variantes da manifestação padrão as formas tu me[d]es ~ tu me[d]e, por exemplo, já que o foco da descrição recaiu sobre a consoante que é alvo da alternância morfofonológica nas formas verbais estudadas.
  • 5
    Faz-se necessário destacar algumas abreviações mantidas nas descrições feitas nos quadros dos informantes: FE (faixa etária); F e M (feminino e masculino); P (forma padrão, ou seja, conjugada de acordo com a norma padrão da língua); NP (forma não-padrão, ou seja, conjugada de forma regularizada).
  • 6
    Os dados deste artigo apontam, ainda, que o fenômeno da regularização verbal ocorre com maior porcentagem considerando os verbos da terceira conjugação (ir). Não se investigou detalhadamente qual seria o fator condicionante para explicar essas ocorrências, mas salienta-se que estão sendo desenvolvidos instrumentos para investigar essa influência, bem como para evidenciar as possíveis diferenças que existem entre a aquisição verbal irregular, em se tratando dos diferentes modos verbais.
  • 7
    De acordo com Lee (1995)LEE, S. Morfologia e Fonologia Lexical do Português do Brasil. 1995. 201 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995., no nível 1 (também identificado como (α)) estão a flexão irregular, a Derivação e a Composição I; no nível 2 (β) ocorre a formação produtiva do PB, juntamente às flexões verbais regulares da língua; no nível pós-lexical encontra-se a Composição II. Para maior detalhamento, consultar Lee (1995)LEE, S. Morfologia e Fonologia Lexical do Português do Brasil. 1995. 201 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995..
  • 8
    O lócus da ausência da alternância consonantal, como parte do processo de aquisição de formas verbais irregulares, está representado à direita da Figura 4.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2018

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2017
  • Aceito
    01 Set 2017
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