Latinos 'versus' Anglo-Saxões: projeções identitárias nos relatos de viagem de hispano-americanos pelos Estados Unidos no século XIX

Stella Maris Scatena Franco Sobre o autor

Resumo

Este artigo procura analisar aspectos da construção da identidade latino-americana no século XIX, defendendo que este processo se apoiou numa oposição entre uma idealizada particularidade que vigoraria entre os povos de origem latina, especialmente os hispano-americanos, e uma também imaginada visão sobre o caráter anglo-saxão, que seria marcante entre os estadunidenses. Esta oposição, muito estudada no contexto de finais do século XIX, já estava presente nos primórdios deste mesmo século, tendo ganho, ao longo do tempo, contornos particulares de acordo com os atores e as conjunturas específicas. Os relatos de viagem - principais fontes utilizadas neste artigo - foram fundamentais para a circulação, apropriação e seleção dessas concepções.

Palavras-chave:
Identidades; relatos de viagem; latinos versus anglo-saxões; caráter nacional.

Abstract

This article analyzes aspects of the construction of Latin American identity in the nineteenth century and argues that this process was based on the contrast between an idealized personality, which circulated among peoples of Latin origin, particularly Hispanics, and an imagined vision of the Anglo-Saxon character that was especially strong in the United States. This opposition, which has been much studied in the context of the late nineteenth century, was already present in the early part of the same century and over time it gained particular dimensions depending on specific conceptions. These travel accounts - which were the main sources used in this article - were instrumental in the circulation, appropriation and selection of these conceptions.

Keywords:
- Identities; travel accounts; national character; Latinos versus Anglo-Saxons.

Introdução

A formação política de figuras expressivas do pensamento hispano-americano do século XIX muito frequentemente incluía viagens à Europa, com o fim de conhecer o berço da civilização ocidental. Os Estados Unidos, embora recentes em sua constituição nacional, também despontaram como lugar de interesse para os povos do continente até pouco tempo colonizados pelos espanhóis e que, recém-independentes, buscavam então caminhos e referências para suas construções nacionais. Especialmente em relação aos norte-americanos, esses vizinhos “latinos” registraram em seus relatos de viagem algumas percepções que acabavam por demarcar uma afirmação identitária. Via de regra, desde primórdios do século XIX, ela se deu a partir da comparação entre os traços de uma cultura latina, que imperaria na porção colonizada pelos espanhóis, e o caráter dos norte-americanos. Era comum refletirem sobre o “modo de ser” dos americanos do Norte, povo concebido como portador de um caráter peculiar, influenciado pelo protestantismo, marcado pela sobriedade e pelo espírito pragmático, tudo isso herdado da origem anglo-saxã e adaptado às condições locais. Na contramão dessa visão, o comportamento dos povos hispano-americanos refletiria uma tendência à alegria e à festividade, um interesse pela arte e pelas ideias e uma certa indolência.

Este artigo pretende dar um passo além em relação a algumas reflexões já existentes sobre o tema, mostrando que as afirmações identitárias a partir das oposições entre norte-americanos e hispano-americanos já vinham sendo correntemente divulgadas desde os primórdios do século XIX nos relatos dos que viajaram da porção “latina” do continente aos Estados Unidos. Assim, a primeira fonte aqui analisada, na qual já é possível perceber este aspecto, data de 1815. A maior parte dos trabalhos que lidam com a temática focam sobretudo dois contextos, bastante posteriores a esse nosso marco. Alguns procuram abordar a temática da identidade latino-americana oposta à norte-americana em meados do século XIX, na conjuntura da guerra dos Estados Unidos contra o México (1846-48), que resultou na perda de aproximadamente metade do território mexicano, o que teria sido decisivo para a definição de fronteiras identitárias e a separação entre “eles” e “nós”. Foi justamente na década seguinte que o termo “América Latina” viria a ser cunhado e utilizado por autores deste continente.1 1 O objetivo deste artigo não é analisar o “conceito” de América Latina, tema amplamente estudado pela historiografia. Entre os “clássicos”, consultar ARDAO, Arturo. América Latina y la latinidad. México: UNAM, 1993. Para um resumo dos debates, vide: QUIJADA, Mónica. Sobre el origen y difusión del nombre ‘América Latina’ (o una variación heterodoxa en torno al tema de la construcción social de la verdad). Revista de Indias, Madrid, vol. LVIII, n. 214, 1998, p. 595-615. Outros trabalhos se concentram mais na produção letrada de finais do século XIX, momento em que a questão identitária se encontrava acirrada em função de outra guerra, a Hispano-Americana. O ano da Guerra, 1898, tornou-se um marco simbólico para espanhóis e latino-americanos, pelo significado que a perda das últimas possessões coloniais pela Espanha evocava: o fim de uma dominação que durara três séculos e a emergência dos Estados Unidos como um novo centro de influência na América Latina. Este cenário propiciou uma aproximação entre intelectuais da Espanha e da América Latina, ao mesmo tempo em que contribuía para aumentar os distanciamentos entre americanos do Norte e os das nações de colonização ibérica.2 2 CAPELATO, Maria Helena R. A data símbolo de 1898: o impacto da independência de Cuba na Espanha e Hispanoamérica. História, São Paulo, v. 22, n. 2, 2003, p. 35-58. Alguns intelectuais se tornaram paradigmáticos para a compreensão da questão identitária neste contexto, tais como o cubano José Martí, o nicaraguense Rubén Darío e, principalmente, o uruguaio José Enrique Rodó.3 3 Para a questão identitária na virada do século XIX para o XX, ver ZANETTI, Susana. Modernidad y religación: una perspectiva continental (1880-1916). In: PIZARRO, Ana (org). América Latina: palavra, literatura e cultura. v. 2: Emancipação do discurso. São Paulo: Memorial da América Latina: Campinas: Ed Unicamp, 1994, p. 489-534. Para uma interessante interpretação da obra de Rodó, vide: MITRE, Antonio. Fenômenos de massa na sociedade oligárquica. O despontar da modernidade em Ariel de Rodó”. In: ___(org). O dilema do centauro. Ensaios de teoria da história e pensamento latino-americano. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003, p. 103-121.

Defendemos que as imagens mais amplamente divulgadas a partir desses dois marcos - as décadas de 1840 e 1890 - já estavam em uso anteriormente. Se é possível assegurar que sua divulgação foi intensificada nesses momentos, não se pode asseverar que elas correspondam propriamente a uma invenção ou a uma novidade, pois já estavam em circulação muito antes, apresentando-se disseminadas no imaginário social.4 4 Bronislaw Baczko concebe os imaginários sociais como pontos de referência num sistema simbólico produzido por uma coletividade, para designar identidade, elaborar representação de si, estabelecer diferenciações de papeis e posições sociais, compartilhar crenças e construir códigos de comportamento. BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: LEACH, Edmund et Alii (org). Anthropos-Homem. Enciclopédia Einaudi, vol. 5. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1985, p. 309. Com o tempo, essas contraposições foram reiteradamente reproduzidas e estigmatizadas, acabando por se aproximarem da dimensão de um mito político.5 5 Segundo Raoul Girardet, os mitos políticos se constroem a partir de um ordenamento sucessivo de imagens carregadas de significados, que tendem a se repetir e a se processar dentro de uma lógica que ele chama de “dialética dos contrários”, na qual os mitos podem sofrer inversões e recaracterizações. GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 17. Em nossa concepção, elas devem ser submetidas ao exame crítico para a necessária desconstrução de seu suposto caráter imanente. Para tanto, procuramos analisar a questão levando em conta os contextos políticos em que nossas fontes foram produzidas, a circulação de ideias e os viéses político-ideológicos professados por seus autores. Acreditamos com isso contribuir para dar historicidade ao processo de elaboração das identidades no continente americano no século XIX.

Tendo em vista esses objetivos, serão abordadas aqui algumas representações de hispano-americanos sobre os Estados Unidos. O corpo documental é composto por relatos de viagem escritos e/ou publicados entre 1815 e 1898.6 6 A lista com as referências bibliográficas das edições utilizadas encontra-se ao final do artigo. As citações respeitaram a grafia original, tal como aparece nos relatos utilizados. Tendo em vista a grande quantidade de relatos, torna-se inviável uma análise mais particularizada das trajetórias biográficas dos autores. Eles têm em comum o fato de terem sido produzidos por autores oriundos de países hispano-americanos, que viajaram aos Estados Unidos no século XIX e abordaram a temática das identidades nas Américas.

Definindo identidades: imagens em contraste

No curso das independências na América Espanhola, no início do século XIX, alguns hispano-americanos já identificavam o que seria uma maneira peculiar de pensar e agir dos norte-americanos. Em meados da década de 1810, em meio às incertezas políticas abertas pela crise das monarquias ibéricas, encontramos textos de personagens que viajaram aos Estados Unidos, indicando os aspectos que demarcariam uma natureza específica das populações que habitavam aquele país. Estes eram ecos do processo de reformulações identitárias vivido pelas figuras envolvidas com os movimentos que levaram à ruptura com a antiga metrópole.7 7 Como mostra Jorge Myers, os textos de viagem deste período são fontes interessantes para visualizar as conturbadas guinadas identitárias que se processam na passagem da colônia para a independência. MYERS, Jorge (selección y prólogo). Rumbos pátrios. La cultura del viaje entre fines de la Colonia y la Independencia. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011, p. 10.

Esboçava-se aí a diferenciação entre um “nós” professado pelos hispano-americanos e um “eles” associado aos estadunidenses, numa relação de afirmação e oposição que podemos compreender como parte de um jogo que contempla o binômio identidade-alteridade. É intrínseco a este processo o exercício da comparação, artifício fortemente utilizado nos relatos de viagem. De acordo com François Hartog, comparar implica classificar, postulando semelhanças, ao mesmo tempo em que os desvios são remarcados. Para este autor, ainda, a comparação se estabelece muito frequentemente por meio da descrição dos costumes.8 8 HARTOG, François. O Espelho de Heródoto. Ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999, p. 241.

As oposições mais frequentes nos relatos dos hispano-americanos nos Estados Unidos giraram em torno de temas ligados à política, à religião, à formação mental de cada povo. Assim, temos uma série de pares de opostos que despontam de forma reiterada para designar, respectivamente, os Estados Unidos e a América Latina. Destacamos os seguintes: democracia versus aristocracia; protestantismo versus catolicismo; materialismo e antiintelectualismo versus idealismo. As repetições dessas tópicas sugerem que os autores leram uns aos outros, ou ao menos comentaram sobre suas viagens, de forma que os conteúdos circulassem de maneira expressiva, constituindo convenções que passavam a ser quase que obrigatoriamente reproduzidas nos textos. Muito embora tenham ficado mais frequentes com as interferências políticas dos Estados Unidos na América Latina, sobretudo a partir da década de 1840, as imagens opostas já eram veiculadas muito anteriormente, pretendendo informar sobre as diferenças culturais entre as duas partes. Cada autor podia agregar suas apreciações particulares, chegando por vezes a inverter a posição de valorativa a depreciativa ou vice-versa, mas raramente desconstruindo a oposição.

Democracia 'versus' aristocracia

A democracia norte-americana foi um dos temas de maior interesse para os viajantes hispano-americanos que se dirigiram aos Estados Unidos no século XIX. Isso não era, evidentemente, exclusividade deste grupo. Um dos mais significativos trabalhos voltados a explorá-lo foi a obra do francês Alexis de Tocqueville (1805-59), resultante de uma viagem realizada aos Estados Unidos no início da década de 1830. Embora críticas, suas reflexões ocuparam um lugar importante na divulgação da ideia de que a democracia norte-americana despontava como um novo paradigma na moderna política no Ocidente.9 9 Como mostraremos adiante, Tocqueville foi lido pelos viajantes hispano-americanos. Segundo François Furet, com a viagem aos Estados Unidos ele passou a entender a democracia como uma espécie de destino inexorável para as sociedades, buscando compreender de que maneira ela se compatibilizava com a liberdade. Para Furet, o autor era ao mesmo tempo admirador e crítico da democracia norte-americana. Considerava a educação política prática um de seus pontos fundamentais, pois isso dava um caráter particular àquele povo que ele entendia como “vulgar”, “grosseiro” e “obcecado pelo dinheiro”, ainda que civilizado. FURET, François. Prólogo. In: TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Leis e costumes. De certas leis e certos costumes políticos que foram naturalmente sugeridos aos americanos por seu estado social democrático. São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. XI. Esta noção não escapou aos hispano-americanos que, admirados ou espantados, revelavam seu sentimento de alteridade e passavam a refletir sobre o funcionamento da política em seus próprios países de origem. Desta maneira, frequentemente a imagem projetada sobre a democracia nos Estados Unidos era contrastada com o caráter aristocrático que preponderaria entre os hispano-americanos. Esta oposição aparecia retratada a partir de descrições de práticas da vida cotidiana do povo visitado. Sendo assim, para explorarmos esta projeção dos Estados Unidos como lugar de um novo modelo democrático, optamos por abarcar representações de um aspecto da vida ordinária dos norte-americanos, que era muito comum nos relatos pesquisados. Trata-se da imagem dos meios de transportes coletivos sem divisões por classes como metáfora desse sistema. Embora seja um ponto à primeira vista banal, subjaz à narração sobre este aspecto do cotidiano uma tentativa de traduzir a forma de funcionamento político dos grupos descritos, tendo como foco a democracia.

O tema já aparece nos relatos desde os primórdios do século XIX. Está presente no diário do general chileno José Miguel Carrera, escrito entre 1815 e 1816.10 10 José Miguel Carrera (1785-1821) viajou para os Estados Unidos para adquirir material bélico para a luta de independência, no mesmo momento em que o governo norte-americano declarava neutralidade em relação ao processo. CARRERA, José Miguel. Diario de viaje a Estados Unidos de América. Santiago: Editorial Universitária, 1996. Para a biografia do autor, consultar BRAGONI, Beatriz. José Miguel Carrera. Un revolucionario chileno en el Río de la Plata. Buenos Aires: Edhasa, 2012. Seu diário é mais objetivo do que em geral costumam ser os relatos de impressões, mas mesmo assim é possível perceber comentários significativos em relação à identidade do povo visitado, ressaltando traços que demarcavam a alteridade em relação aos hispano-americanos. Retratou de forma anedótica um trecho de sua viagem, no qual se dirigia de New Haven a Nova York. A embarcação, segundo sua descrição, tinha mais passageiros do que assentos. Diante do impasse sobre como resolver o problema das acomodações, conta que os passageiros optaram por uma solução prática: o sorteio. Narra que, excetuando-se as mulheres, que tinham o privilégio de ter um assento, todos os demais passageiros deviam se submeter ao “método democrático”, não importando suas posições sociais: “Marineros, cocheros, oficiales militares, etc., todos son muy iguales y nadie se queja”.11 11 CARRERA, José Miguel. Op. Cit., p. 59. O tom de chiste revela seu desconforto e assinala sua restrição ao método adotado.12 12 A posição crítica ao “método democrático” pode ser atrelada à sua posição social. Embora boa parte dos trabalhos sobre o autor se apoie numa “leitura populista” do personagem, sustentando que ele governou com amplo apoio das camadas populares, uma bibliografia recente contesta esta interpretação, aludindo a outras formas de apoio, mais tradicionais, como as conexões familiares e o aparato militar, bem como discutindo o significado de “povo” em seu discurso, que não se remetia ao “baixo povo”, mas a uma noção abstrata do mesmo. PINTO VALLEJOS, Julio y ORTÍZ DE ZÁRATE, Verónica Valdivia. ¿Chilenos todos? La construcción social de la nación (1810-1840). Santiago: LOM Ediciones, 2009.

Outro crítico do nivelamento social identificado especialmente nos meios de transporte foi o argentino Juan B. Alberdi, que viajou aos Estados Unidos a cargo da Confederação argentina na década de 1850. Circulando de trem pelo país, esbravejou contra o que entendia ser uma falta de distinção entre as camadas sociais dentro do vagão. Narrou, de forma não muito bem-humorada, que precisou compartilhar o espaço com mineiros que se dirigiam à Califórnia, durante o ciclo de exploração do ouro. Revelando uma postura bastante aristocrática, confessou sentir incômodo em meio a uma população que dizia ter aspecto grosseiro. Sem alternativa, teve que se submeter à situação e sucumbir à “democracia yankee”: “Mezclarnos a ellos; tomar lo que se pueda. En efecto, se abrieron los coches de delante, me metí entre la democracia yanqui; columbré un asiento vacante; lo ocupé al lado de un yanqui joven y agradable, aunque sucio”.13 13 ALBERDI, Juan Bautista. Obras Selectas. Tomo 3: Memorias y Impresiones de viaje. Buenos Aires: La Facultad, 1920, p. 355. A ironia e o mau humor desses dois relatos revelam a indisposição de seus autores para com um modelo que percebiam como ameaçador à prevalência de marcos distintivos que separavam uma elite privilegiada, da qual faziam parte, da população comum, que colocavam em lugar inferior.

No avesso dessa moeda estavam aqueles que percebiam o novo sistema de forma positiva. Adeptos de um discurso de matiz modernizante, saudaram a democracia norte-americana, supostamente mais abarcadora no sentido social; abraçaram a ideia do progresso e criticaram o que para eles era considerado um ranço senhorial hispânico. Mas esse otimismo implicava uma leitura muito parcial da realidade, já que a concepção de igualitarismo que difundiam, ocultava as exclusões sociais presentes em solo norte-americano, marcadamente resultantes do sistema escravista.14 14 Estudar as particularidades da democracia norte-americana foge ao escopo deste artigo. Cabe ressaltar apenas um traço que impactou os viajantes estudados. Trata-se da noção de que a democracia norte-americana propiciava certo nivelamento social. É preciso relativizar esta noção, pois paralelamente ao seu desenvolvimento, a escravidão imperava no país. A despeito disso, espraiou-se uma ideia de promoção igualitária que seria propiciada pela democracia norte-americana. Uma possibilidade de se entender esta ideia é relacioná-la à expansão de direitos políticos nos Estados Unidos no contexto pós-independência. Segundo Gordon S. Wood, já na década de 1780 era possível identificar reivindicações de homens comuns a participar da política. A aristocracia rural seria contestada como necessariamente virtuosa e naturalmente mais apta ao poder por não ter que se preocupar com os problemas da sobrevivência. A abertura do processo político para homens médios trazia à tona a necessidade de que os ocupantes de cargos públicos recebessem salário, como em qualquer outra profissão, o que era uma mudança no clássico ideal republicano que concebia os governantes como pessoas “desinteressadas”. Este processo foi respaldado pela crítica à ociosidade e pela valorização do trabalho como meio de garantir a sobrevivência. Em última instância, isso abria oportunidade para que “pessoas ordinárias” alcançassem esses lugares, o que, podemos pensar, em última instância, fomentava a associação entre democracia e nivelamento social. WOOD, Gordon S. Democracy and the American Revolution. In: DUNN, John (Ed). Democracy: The Unfinished Journey, 508 BC to AD 1993. Oxford: Oxford University Press, 1992, p. 91-105. De toda maneira, era novamente na metáfora dos meios de transporte que a ideia da democracia se projetava.

O mexicano Lorenzo de Zavala, que viajou aos Estados Unidos no início da década de 1830, está entre os que valorizaram os norte-americanos por muitas qualidades, inclusive pela questão da democracia, entendida como promotora do nivelamento social.15 15 Lorenzo de Zavala (1788-1836) viajou aos Estados Unidos em 1830 fugindo de problemas políticos enfrentados no México. Em 1831, transladou-se à Europa e em 1834 publicou seu relato sobre os Estados Unidos em Paris. Neste mesmo ano voltou à América e estabeleceu-se no Texas, onde operava com concessão de terras para colonos norte-americanos e onde participou da insurreição pela independência em relação ao México. Foi eleito deputado em 1835 e, com a independência, em 1836, tornou-se o primeiro vice-presidente do Texas, tendo renunciado em seguida, por dissenções políticas e morrido no mesmo ano. Envolvido na questão da independência do Texas, que posteriormente, viria a ser integrado como estado norte-americano, era de se esperar um retrato favorável dos Estados Unidos. SIERRA O´REILLY, Justo. Notícia sobre la vida y escritos de Lorenzo de Zavala. In: ZAVALA, Lorenzo de. Obras. México, Editorial Porrúa, 1976, p. 222-223. ZAVALA, Lorenzo de. Viaje a los Estados Unidos del Norte de América. Texas: Arte Público Press, 2005. Em sua viagem, ao se encontrar próximo a Louisville, no Kentuchy, descreve uma embarcação onde se juntavam à mesa pessoas de diferentes camadas sociais, vivenciando o que chamou de “uma simplicidade verdadeiramente republicana”. Seu diagnóstico era de que os ricos perdiam em civilidade, mas que, em contrapartida, os mais humildes ganhavam com a situação.16 16 Ibidem, p. 234-235. Considerava o modelo norte-americano um dos grandes inventos da humanidade, tão importante quanto a imprensa, a bússola e o vapor. Para ele, a democracia nos Estados Unidos não se comparava a qualquer outro sistema político, sendo inclusive superior à democracia ateniense e à república romana, que foram seus “meros e úteis ensaios”.17 17 Ibidem, p. 385. Zavala recorre à descrição pelas ausências, como era comum aos relatos de viagem para a realização da crítica aos povos visitados. No entanto, o autor utiliza-se desse artifício para tratar do tema positivamente. Para ele, os norte-americanos eram considerados um povo sem “privilégios hereditários, rendas vitalícias e personagens sagrados”.18 18 Ibidem, p. 308. Afirmava que os norte-americanos eram simples e repudiavam o luxo, sendo o presidente Andrew Jackson uma grande inspiração neste quesito. Os mexicanos, ao contrário, ostentavam a riqueza de poucos, sobretudo os que ocupavam o poder, hábito herdado do passado Vice-reinal.19 19 Ibidem, p. 337.

Outro entusiasta do modelo democrático norte-americano foi o argentino Domingo F. Sarmiento, que viajou à Europa e aos Estados Unidos, no final da década de 1840, a cargo do governo chileno, onde se encontrava exilado. Em seu relato, intitulado Viajes, descreve positivamente a sociedade norte-americana.20 20 SARMIENTO, Domingo F. Viajes por Europa, Africa i América. 1845-1847. Madrid: ALLCA XX; São Paulo: EDUSP, 1996. Não fugiu à regra e também associou o nivelamento social aos meios de transporte coletivos, ressaltando que nos trens não havia, como na Europa, diferença entre os vagões de acordo com poder aquisitivo.21 21 Ibidem, p. 302. Para Sarmiento, um dos aspectos fundantes do país era a democracia, sem classes privilegiadas, sem mandonismo e servidão. Diante de uma leitura tão otimista, como entender a presença da escravidão, que podia desmentir todo esse fascínio? Precavendo-se a possíveis críticas, tece considerações sobre o tema, tratando-o, como algo localizado, um fenômeno restrito ao sul do país, e como uma saída econômica que ele considerava equivocada, mas da qual os norte-americanos ainda não teriam conseguido se livrar.22 22 Ibidem, p. 426-427. De forma extremamente idealizada, descrevia os Estados Unidos como lugar da “igualdade absoluta”, o que era perceptível no modo de se vestir, de se portar e de pensar:

La igualdad es, pues, absoluta en las costumbres i en las formas. Los grados de civilización o de riqueza no están espresados como entre nosotros por cortes especiales de vestido. No hai chaqueta, ni poncho, sino un vestido común i hasta una rudeza común de modales que mantiene las apariencias de igualdad en la educación.23 23 Ibidem, p. 301.

Vários outros ainda recorreram à mesma ideia dos meios de transporte como metáfora da democracia, defendendo que este sistema, nos Estados Unidos, tinha potencial para equalizar as diferenças sociais.24 24 Destacamos aqui os seguintes relatos: BLEST GANA, Alberto. De Nueva York al Niágara. Santiago de Chile, Imp. Nacional, 1868. p. 29; VARELA, José Pedro. Impresiones de viaje en Europa y América. Correspondencia literaria y crítica, 1867-1868. Montevideo: Editorial Liceo, 1945, p. 110.

Como é possível perceber, as apreciações apresentadas são opostas. Algumas revelam uma postura mais aristocrática, sendo críticas ao nivelamento social; outras são mais adeptas do modelo democrático norte-americano. No entanto, até aqui, nenhuma chega a questionar que ele propiciava um convívio maior entre pessoas de diferentes grupos sociais. Uma leitura discrepante só desponta em nossas fontes no fim do século XIX, nas ponderações do socialista argentino Juan B. Justo, que esteve nos Estados Unidos em 1895.25 25 Juan B. Justo (1865-1928) foi fundador do Partido Socialista na Argentina em 1895, mesmo ano em que viajou aos Estados Unidos. Seu relato foi primeiramente publicado nas páginas do La Vanguardia, jornal de seu Partido. Em 1898, esses textos foram compilados em forma de livro, na edição aqui utilizada. Ele compreende a questão do nivelamento social como um discurso criado e explorado pelos próprios norte-americanos como forma de valorizarem sua nação e é crítico à visão de que existia uma espécie de “harmonia social”, refletida na metáfora dos meios de transporte ocupados pelos diferentes grupos. Segundo Justo, esta informação não correspondia à realidade, sendo a ideia dos “vagões multi-classistas” uma completa farsa:

Por supuesto que en ciertas ocasiones, cuando se trata de hacer creer al pueblo que ocupa el primer puesto en la nación, la expresión de ‘pueblo’ es muy honrada. Con la misma verdad con que en los trenes, para que todo el mundo vaya contento, no hay coches de segunda clase en los Estados Unidos, pero los peores son los llamados de primera. Los grandes coches palacios no entran en la cuenta.26 26 JUSTO, Juan B. En los Estados Unidos. Buenos Aires: Imprenta, Litog. y Encuadernación de Jacobo Peuser, 1898, p. 29.

Para corroborar sua afirmação o autor citou os coches palacios. Trata-se de uma referência ao então conhecido Pullman Sleeping Car, um vagão-dormitório produzido por George Mortimer Pullman (1831-1897), para deixar as viagens de trem noturnas mais confortáveis - ao menos aos que podiam pagar pela luxuosa acomodação.27 27 Este modelo luxuoso foi colocado em funcionamento em 1865 e usado para transportar o corpo de Abraham Lincoln após sua morte. George Pullman era um emergente. Filho de um carpinteiro, enriqueceu entrando para o ramo de construção de estradas de ferro em um momento de franca expansão deste tipo de negócio, no pós-Guerra Civil. Em 1867, tornou-se presidente da Pullman´s Palace Car Company e, em 1881, construiu uma vila operária para os funcionários da empresa nas proximidades de Chicago, cuja maquete foi uma das atrações da Exposição de Chicago, de 1893. Sob pretexto de contribuir para o bem-estar da população que ali habitava, trabalhadores passavam a viver sob as mais diversas formas de controle. Sobre a forma como as ferrovias transformaram os Estados Unidos no pós-Guerra Civil, vide: WHITE, Richard. Railroaded: The transcontinentals and the making of modern America. New York: W. W. & Co., 2011. O fato de Justo ter usado este exemplo para questionar a afirmação de que os meios de transporte refletiam o nivelamento social não era fortuita. Um ano antes de sua viagem, em 1894, os trabalhadores da empresa fabricante, a Pullman´s Palace Car Company, levaram a cabo uma greve de grandes proporções, empreendendo boicotes e parando a circulação dos trens no Meio-Oeste norte-americano.28 28 SCHNEIROV, Richard; STROMQUIST, Shelton; SALVATORE, Nick (Eds.). The Pullman Strike and the Crisis of the 1890s: Essays on Labor and Politics. Urbana; Chicago: University of Illinois Press, 1999.

A argumentação do argentino é coerente com sua posição socialista. Busca alertar para as desigualdades sociais nos Estados Unidos, o que muitos autores mais otimistas negaram, tentando provar a novidade do modelo norte-americano, calcado na democracia, onde todos supostamente se misturavam. Para Justo essa leitura era uma falácia:

Hoy es evidente en los Estados Unidos la existencia de clases, tan distintas como en las viejas. Entre el West side y el East side de Nueva York, no hay menos diferencia que entre el West end y el East end de Londres, la ciudad de los lores. De un lado están las inmensas mansiones, los espléndidos hoteles, las grandes avenidas, los parques y los museos de arte; ésta es la ciudad de los señores y de

los lacayos. Del otro, la población trabajadora vive hacinada en habitaciones estrechas y oscuras, separadas por calles sucias, donde los muchachos toman su recreo entre los rieles del ferrocarril o del tranvía. Hacia este barrio gravita también naturalmente todo lo que hay de miserable en lo abyeto.29 29 JUSTO, Juan B. Op. Cit. p. 28.

As observações de Justo sobre os meios de transporte, que eram usados como metáfora da democracia norte-americana, ou mais diretamente sobre o próprio sistema político, refletem tanto um dado tangível da realidade norte-americana no momento em que viajava pelo país, isto é, um momento de crise econômica e conflitos sociais, como mostram sua particular sensibilidade - afetada por sua afinidade com o socialismo -, para representar a realidade de forma bastante diferente dos viajantes que o precederam.

Mais que tratar pontualmente da utilização dos meios de transportes envolvendo variados setores, e mais que abordar a existência de divisões por classes no sistema ferroviário, o debate que se estabelecia era, em verdade, sobre a própria democracia. As representações dominantes eram as de que aquele sistema aproximava os diferentes grupos, possibilitando uma saída alternativa e inspiradora para as aristocráticas repúblicas da América Latina. Mas, como notamos, nem todos estavam satisfeitos com essas possibilidades. As restrições, ainda que minoritárias, foram manifestadas e expressadas de diferentes formas, desde antipáticos queixumes até críticas mais contundentes.

Protestantismo 'versus' catolicismo

As representações dos Estados Unidos também passavam pelas comparações entre duas das principais religiões predominantes em cada um dos espaços americanos. Os norte-americanos, formados historicamente por grupos ligados a diferentes ramos do protestantismo, seriam portadores de um caráter herdado dessas crenças religiosas. Este seria constituído pela sobriedade, pela concentração no trabalho, pela contenção. Na contramão, os hispano-americanos, influenciados pelo catolicismo, seriam um povo festivo, alegre, expansivo, pouco reservado, esbanjador.

Como no caso da democracia, projetada nos meios de transporte coletivos, no quesito relacionado à vida religiosa, as leituras também se deram por meio da eleição de uma metáfora identificada nas práticas cotidianas, para se estabelecer as diferenciações entre “eles” e “nós”. Trata-se do costume dos norte-americanos, especialmente os protestantes, de “guardar” o domingo, evitando todo tipo de excesso, o que é contrastado com o hábito dos hispano-americanos, sobretudo os católicos, de aproveitar a data para festejar.

Em relação a este ponto, viajantes dos mais diversos matizes político-ideológicos expressaram suas críticas, declarando abertamente preferirem a animação reinante entre os povos latinos. Nos relatos compulsados, a crítica revelava uma insatisfação com o fastio que recaía sobre as cidades e seus habitantes no dia sabático. O já citado José Miguel Carrera reclamava da tristeza dominical em Nova Iorque dizendo que a cidade ficava deserta e sem viaturas.30 30 CARRERA, J. M. Op. Cit., p. 46. Segundo Lorenzo de Zavala, para os norte-americanos o domingo representava o retiro, e para os mexicanos, a alegria: “El domingo, que entre nosotros es un día de placer y de fiesta, en estos lugares se dedica a la oración, al recogimiento y al descanso. Este es uno de los muchos aspectos en que difiere el pueblo angloamericano del mexicano”.31 31 ZAVALA, L. Op. Cit., p. 354. O chileno Isidoro Errázuriz (1835-98), que viajou para os Estados Unidos quando tinha 16 anos, tendo sido aluno interno do colégio jesuítico de Georgetown, nos arrabaldes de Washington, comentou: “El domingo no sólo es triste en las ciudades de los países protestantes, sino aún en lo despoblado, en donde todo parece revestirse con el manto de muerte”.32 32 ERRÁZURIZ, Isidoro. Diario de Don Isidoro Errázuriz 1851-1856. Santiago de Chile: Editorial Nascimento, 1947, p. 9.

Ainda no fim do século, a mesma perspectiva era reiterada, como podemos observar no relato do mexicano Justo Sierra. 33 33 Justo Sierra (1848-1912) foi um homem de letras relevante na história mexicana. Intimamente ligado ao governo de Porfírio Díaz (1876-1910), destacou-se sobretudo por seu papel no âmbito da Educação. Foi Ministro da Suprema Corte de Justiça, Subsecretário de Justiça e Instrução Pública, Secretário de Educação Pública e Belas Artes. Defendeu a educação pública e laica. Viajou aos Estados Unidos em 1895, a convite de seu tio materno, que lá morava. Entre 1897 e 1898, publicou seu relato na Revista El Mundo, intitulando-o Em tierra yankee (Notas a todo vapor). Em 1900 foi à Europa como chefe de delegação mexicana em um congresso, conhecendo a França, a Espanha e a Itália. Ao relato daí oriundo, publicado entre 1901 e 1903 no periódico El Mundo Ilustrado, deu o título de La Europa Latina. Posteriormente, as duas obras foram publicadas conjuntamente em forma de livro: SIERRA, Justo. Viajes. En tierra yankee, en la Europa latina. México: UNAM, 1948. Sobre os seus projetos educacionais, vide: OCAMPO LÓPEZ, Javier. Justo Sierra ‘el Maestro de América’. Fundador de la Universidad Nacional de México. Revista Historia de la Educación Latinoamericana, v. 15, p. 13-38, 2010. Sem negar o sentimento de tédio ao relatar sobre os domingos em Nova Iorque, acrescenta um tom irônico à descrição:

¡Y qué soledad! (…) ¿Qué ha sucedido? ¿Por qué está abandonada esta ciudad? ¿En dónde están los habitantes? preguntaba en ton elegíaco. ¿Se los ha tragado la tierra? No, respondía mi compañero: la cuarta parte de la población está en el campo, la segunda cuarta parte está en el templo, la tercera en su casa y el resto en las cantinas (que están cerradas). Es domingo.34 34 Ibidem, p. 54. Com esta observação, o autor questiona, ainda que de forma velada, a famigerada contenção dos norte-americanos. O mexicano Manuel Payno (1810-94), cuja viagem antecedeu à de Justo em algumas décadas, também apontava o alcoolismo como elemento que contrastava com a ideia de uma sobriedade dominante entre os norte-americanos. Considerava que os homens bebiam exageradamente nos bar rooms e a razão desse desregramento era justamente o caráter norte-americano. Pouco comunicativos, desconfiados e ásperos, viviam apenas dedicados ao trabalho e à religião, podendo por isso tanto pender para o excesso de moralismo ou, ao contrário, ao alcoolismo e à agressividade. Frequentariam mais os bares, pois era onde encontravam algum ambiente de sociabilidade, uma válvula de escape à “monotonia desconsoladora” em que viviam. As críticas de Payno se deviam claramente a razões de cunho político. Ele visitou o país em 1845, tendo viajado para Nova Iorque e Filadélfia, a mando do presidente Antonio López de Santa Anna. Politicamente, ambos eram contrários ao que os Estados Unidos representavam, sobretudo em termos da política de expansão de suas fronteiras. O ano de sua viagem -1845 - era o mesmo da incorporação do Texas como estado norte-americano. Em 1846, dar-se-ia início à Guerra Mexicano-Americana, que terminaria com a derrota do México e a perda de praticamente metade de seu território. PAYNO, Manuel. Crónicas de viaje. V. I. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 1996.

Ainda sobre este tópico do resguardo dominical, é preciso destacar um relato que chama a atenção por fornecer indícios sobre os fundamentos subjacentes à ideia. Trata-se do texto do uruguaio José Pedro Varela, que também associou a questão dos domingos maçantes à religião protestante, opondo os povos anglo-americanos aos latino-americanos e mostrando as diferenças de suas tradições. Nisso não se diferenciava dos outros viajantes citados. No entanto, complementa sua explicação sustentando que os latino-americanos consagravam toda a sua existência à diversão e que se dedicavam à fé cristã somente quando percebiam que a vida estava por terminar.35 35 VARELA, J. P. Op. Cit., p. 108. Se considerarmos o marcado anticlericalismo desse autor, a mensagem soa muito mais como uma crítica à hipocrisia religiosa praticada entre os seus conterrâneos do que como um juízo negativo sobre os norte-americanos, os quais admirava profundamente. Mas, para além deste objetivo mais direto, há um aspecto interessante nesta afirmação, que se relaciona à questão dos fundamentos doutrinários das correntes religiosas em jogo. O fato de narrar que, diferentemente dos protestantes, os seus conterrâneos, católicos, se tornavam introspectivos apenas no final da vida, nos faz pensar na questão da crença na salvação para essas diferentes vertentes do cristianismo. No catolicismo, situações como a narrada são possíveis de ser concebidas, uma vez que se pode apelar aos recursos como o arrependimento e a penitência, além da salvação pelas obras. De acordo com Max Weber, as “boas ações” muitas vezes eram executadas pelos católicos “para compensar pecados concretos ou, sob influência dos padres ou então perto do fim da vida, como se fosse um prêmio de seguro”.36 36 WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Edição comemorativa do centenário da primeira publicação da obra. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 106. À diferença dos católicos, na religiosidade protestante, sobretudo puritana, as “obras”, embora não totalmente descartadas, não deviam ser realizadas de forma isolada, mas sim “erigidas em sistema”, isto é, observando-se uma ética sistemática e metódica “coerente com o modo de condução da vida como um todo”.37 37 Ibidem, p. 107. A conduta moral dos puritanos, marcada pela ascese, estava ligada à doutrina da predestinação, pela qual a salvação estaria determinada por Deus, não cabendo ao fiel questioná-la. A este caberia simplesmente ter fé e viver de forma ascética, renunciando ao ócio, ao luxo, ao prazer e às festas. É a discussão sobre esse modo de vida que subjaz ao relato dos viajantes latino-americanos nas críticas aos domingos enfadonhos.38 38 A eleição do domingo para tecerem seus comentários não é desprovida de historicidade. O tema das diversões aos domingos já era, desde o século XVII, foco de disputa, na Inglaterra, entre os puritanos e os reis Jaime I e Carlos I. Condenando a ascese da religiosidade puritana, estes reis decretaram um código, chamado Book of Sports, por meio do qual se permitia a prática de algumas modalidades esportivas no dia de domingo, punindo aqueles que atacavam a legitimidade do decreto com o discurso de que prática desestabilizava a organização rotineira da vida. Ibidem, p. 152.

Essas questões subjazem às observações aparentemente banais sobre os domingos entediantes dos norte-americanos e festivos dos hispano-americanos que aparecem nos relatos analisados. O nosso objetivo não é legitimar essas diferenças. A ideia é desnaturalizá-las e historicizá-las. E nesse sentido, é revelador o fato de que os relatos expressassem em uníssono um tom crítico a esta conduta ascética no comportamento. Mesmo que louvassem a tolerância religiosa nos Estados Unidos, não se mostravam aclimatados à austeridade imposta pelo protestantismo, pelo que se pode deduzir que, mesmo os mais entusiasmados admiradores da “América”, pouco se identificavam com ela no que diz respeito às práticas culturais oriundas daquele universo religioso.

Materialismo e antiintelectualismo 'versus' idealismo

Procuramos mostrar como os comentários sobre a tristeza dominical estavam atrelados à ascese puritana. No leque de atitudes que compunham essa moral figuraria também a concentração das energias dos indivíduos no trabalho - outro meio de afastar a dúvida sobre a eleição divina. Isso os colocaria em posição contrária à dos hispano-americanos, retratados como mais negligentes em relação a hábitos que responderiam à pretensão de acumulação financeira.

No início do século XIX, José Miguel Carrera teceu considerações sobre a habilidade dos norte-americanos para ganhar dinheiro. Entre admirado e sarcástico registrou o fato de um templo protestante de New Haven cobrar aos fiéis a venda de assentos, obtendo com isso lucros expressivos.39 39 CARRERA, J. M. Op Cit., p. 57. Também foi irônico ao comentar que pagou mais do que o devido por um mapa encomendado, fazendo jus à “liberdade republicana”, que permitia a livre iniciativa. No início de 1830, Lorenzo de Zavala elevava à dimensão de caricatura a oposição entre as naturezas contrárias dos dois povos, estabelecendo um quadro nítido de diferenças. Os norte-americanos são representados como dedicados ao trabalho, capazes de poupar dinheiro, tolerantes e defensores da liberdade; os mexicanos são taxados de preguiçosos, generosos e supersticiosos:

[El norteamericano es] un pueblo laborioso, activo, reflexivo, circunspecto, religioso en medio de la multiplicidad de sectas, tolerante, avaro, libre, orgulloso y perseverante. El mexicano es ligero, perezoso, intolerante, generoso y casi pródigo, vano, guerrero, supersticioso, ignorante y enemigo de todo yugo. El norteamericano trabaja, el mexicano se divierte; el primero gasta lo menos que puede, el segundo hasta lo que no tiene; aquél lleva a efecto las empresas más arduas hasta su conclusión, éste las abandona a los primeros pasos: el uno vive en su casa, la adorna, la amuebla, la preserva de las inclemencias; el otro pasa su tiempo en la calle, huye la habitación, y en un suelo donde no hay estaciones poco cuida del lugar, de su descanso. En los Estados del Norte todos son propietarios y tienden a aumentar su fortuna; en México los pocos que hay la descuidan y algunos la dilapidan.40 40 ZAVALA, L. Op. Cit., p. 201.

Este autor desenvolve seus argumentos definindo o caráter do norte-americano como rígido e tolerante ao mesmo tempo. Esse está em contraste frontal com o caráter dos hispano-americanos, descendentes dos povos latinos, marcados concomitantemente pela elasticidade da religião católica e pela imposição da exclusividade em termos da fé. Para ele, ordem e liberdade eram princípios imprescindíveis às repúblicas, sendo que na América Latina apenas o primeiro destes traços era valorizado.41 41 Ibidem, p. 354. Essas reflexões são feitas tendo em mente a cidade fabril de Lowell, em Massachusetts42 42 Lorenzo de Zavala viajou aos Estados Unidos durante o governo de Andrew Jackson (1829-37), quando as fábricas, sobretudo têxteis, começaram a ganhar importância devido a medidas protecionistas. Os trabalhadores dessas fábricas passaram a se concentrar em cidades, como Lowell, que em 1830 tinha por volta de cinco mil operários. NEVINS, Allan; COMMANGER, Henry S. Breve historia de los Estados Unidos. México: Fondo de Cultura Económica, 1994, p. 173. . Zavala compara essa cidade de trabalhadores com as sociedades hispano-americanas, procurando mostrar duas formações oposta. Em suas palavras, de um lado, uma população disciplinada para o trabalho, que não usufrui de passatempos e diversões, que é pacífico, bem vestido e decente; de outro, pessoas que se esbaldam, cultuam santos e pedem esmolas.43 43 ZAVALA, L. Op. Cit., p. 355.

Entre 1848 e 1849, o chileno Vicente Pérez Rosales (1807-86) reforçaria a descrição, empregando termos similares. Ele empreendera uma viagem à Califórnia, participando do ciclo de exploração do ouro, recém descoberto na região. Em seu texto, reserva um espaço (os Apêndices) para tecer considerações sobre o “espírito yankee”.44 44 PEREZ ROSALES, Vicente. Diario de un viaje a California. 1848-1849. Santiago: Tajamar Editores, 2007. A divisão entre “raças” anglo-saxã e hispano-americana, marcadas, respectivamente, pelas noções antitéticas de empreendedorismo e inércia, é traço constitutivo de seu discurso.45 45 O autor utiliza esta designação - “raça” - para descrever hábitos culturais dos diferentes povos em questão, não aludindo a uma caracterização do termo no sentido biológico. As viagens aqui analisadas não são de cunho científico. Sobre o significado histórico do termo “raça anglo-saxônica”, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, remetemos à leitura de: JUNQUEIRA, Mary A. Velas ao mar. U. S. Exploring Expedition (1838-1842). A viagem científica de circum-navegação dos norte-americanos. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2015 (Cap. 06). Defende a ideia de que o norte-americano era marcado por um temperamento determinado, individualista. Os yankees não olhavam para o que não podia dar certo, mas, ao contrário, concentravam-se nas conquistas, não importando o que estivesse do lado, passando por cima do que entrasse no seu caminho para impedir seus objetivos:

La prenda que más campea el carácter emprendedor del yanqui es sin duda su actividad sin límites (...). El yanqui nunca mira a sus pies cuando camina. Fija la vista y la imaginación en el objeto de sus deseos, marcha a él en línea recta, y atropella cuanto se le opone en su tránsito. Si cae, su caída no intimida al que va en pos de él, antes bien, aprovechándose de las dificultades vencidas, hace del caído puente y prosigue embellezando su carrera.46 46 PEREZ ROSALES, Vicente. Diario de un viaje a California. 1848-1849. Santiago: Tajamar Editores, 2007, p. 137.

Os hispano-americanos, ao contrário, seriam inoperantes e passivos; não se interpunham diante das situações para promoverem a prosperidade; deixavam-se levar pelo destino e saíam da inércia somente quando uma situação era inevitável. Isso tudo acarretava consequências negativas para o desenvolvimento material de seus países.47 47 Ibidem, p. 127.

O antiintelectualismo, destacado como traço marcante da cultura norte-americana, também dividiu a opinião dos viajantes. Podemos entender este aspecto como atrelado ao materialismo, já que a atenção ao trabalho levaria à necessidade dos norte-americanos se concentrarem na ação, no que é útil, desprezando o refinamento intelectual, para o que era preciso despender muito tempo, sem que a recompensa material retornasse necessariamente na mesma medida.

A questão do antiintelectualismo foi analisada por importantes estudiosos norte-americanos. O historiador Richard Hofstadter procura entender como uma nação fundada por uma elite intelectual, isto é, a geração de homens que fizeram a independência e a Constituição, acabou por desvalorizar tanto os atributos intelectuais a ponto destes se transformarem em um “defeito político”.48 48 De acordo com o autor, este ponto de virada teria se dado ainda no final do século XVIII, numa época de paixões partidárias exacerbadas, quando o Partido Federalista passou a atacar os proprietários e intelectuais aristocráticos, focando sobretudo na figura de Thomas Jefferson, do partido rival, o Democrata-Republicano. As noções do antiintelectualismo teriam sido incorporadas por escritores populares ainda em fins do século XVIII, que nutriam desconfiança em relação aos homens cultos e proprietários. Essas críticas ganharam corpo neste momento, mas não chegaram a impedir que Jefferson fosse eleito presidente em 1800. O antiintelectualismo viria a ganhar maior espaço na política americana, com o governo de Andrew Jackson (1829-37), eleito com a propaganda de ser homem comum, do Oeste. HOFSTADTER, Richard. Antiintelectualismo nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 182.

Entre os viajantes estudados as posições se dividem. Há aqueles que tendem a minimizar a questão, protegendo os norte-americanos das críticas, e os que supervalorizam este aspecto para atacar o povo retratado. Para o mexicano Manuel Payno, os norte-americanos, ambiciosos e focados no trabalho, não cultivaram o saber. Os povos latinos da América, originários dos espanhóis, teriam herdado o espírito da Ilustração.49 49 PAYNO, M. Op. Cit. p. 182. Afirmava, ao visitar as Cataratas do Niágara, que os norte-americanos não tinham sequer olhos para contemplar devidamente sua própria natureza, pois só pensavam em dinheiro: “hombres tan estoicos y tan mercantiles por lo general, que ni aun el Niagara los distrae un instante de sus conversaciones de dollars y de cottons”.50 50 Ibidem, p. 236. A condenação aos norte-americanos por sua incapacidade de observar a natureza com olhos românticos também está presente no relato do mexicano Luis de La Rosa, que realizou sua viagem em 1848. DE LA ROSA, Luis. Impresiones de un viaje de México a Washington en octubre y noviembre de 1848. Toluca: Instituto Mexiquense de Cultura, 2002. p. 76.

O chileno Benjamín Vicuña Mackenna (1831-86) também é enfático ao negar a “vocação erudita” dos norte-americanos.51 51 Sua viagem está relacionada a uma temporada de exílio político, quando, em 1851, teve de retirar-se do Chile por ter se envolvido com uma revolta de oposição ao governo conservador de Manuel Montt. Partiu primeiramente para os Estados Unidos e depois para a Europa. Viveu este exílio político entre 1853 e 1855, dos 22 aos 24 anos, publicando seu relato em 1856. VICUÑA MACKENNA, Benjamín. Páginas de mi diario durante tres años de viaje (1853-54-55). Santiago: Universidad de Chile, 1936. Em seu texto, comenta as oposições entre latinos e anglo-saxões, protegendo os primeiros: “Gente ligera de sangre, francos, desinteresados, caballerescos hasta la fatuidade y generosos hasta el non plus ultra de la disipación. Son excelentes y espirituales compañeros en sociedad y muy fáciles para olvidar agravios...”.52 52 Ibidem, p. 84. Cabe ressaltar que esta concepção não incluía entre os “latinos” a parte indígena da população. Ao tratar do México, destaca a grande quantidade de população indígena em relação aos brancos e os considera parte das desgraças do país, compondo uma “masa ingovernable”.53 53 Ibidem, p. 84. Ao afirmar que os povos latinos eram generosos, cerimoniosos e pouco ambiciosos, estava subentendido que se comportavam de forma contrária à dos norte-americanos, que, de acordo com sua apreciação, possuíam uma personalidade mercantil, calculista, interesseira e individualista. Vicuña Mackenna comenta que entre os norte-americanos a força do dinheiro era o que predominava, não havendo valores morais que se interpusessem aos bens pecuniários. Isso levaria a ações imorais, como a prática dos editores de periódicos de alterarem a data dos mesmos para prolongarem as vendas. A falta de escrúpulos era generalizada e o que importava era o lucro: “Todo se contamina aquí con este vírus sacrus de la ganancia y del money making, como los americanos dicen. (...) Yo no acuso, cito hechos que he visto por mis ojos; todo es plata aquí, negocio, egoísmo, amor por lo mío y codicia o menosprecio por lo ajeno, según valga o no dinero!”54 54 Ibidem, p. 251.

Ganância material e comportamento anti-intelectual apareciam juntos nessas representações. O exemplo paradigmático da exploração financeira aliada à falta de gosto artístico dos norte-americanos era a figura de Phineas Taylor Barnum, empresário do ramo dos entretenimentos que fez fortuna com espetáculos de fácil apreensão, a quem Vicuña Mackenna chamava de “el rei del humbug”.55 55 Ibidem, p. 164. Esta palavra, usada por diferentes viajantes, pode ser traduzida como farsa, tapeação ou charlatanice. Em Nova Iorque, Vicuña Mackenna identifica dois símbolos do humbug, ambos relacionados a Barnum. O primeiro, o Palácio de Cristal, inaugurado em 1853, ano em que o viajante visitava os Estados Unidos. Nele, o proprietário mandou construir uma torre de madeira, na qual se subia pagando-se uma bagatela, e de onde era possível contemplar o panorama da cidade. Nos arredores do Palácio, uma série de espetáculos, todos pintados pelo autor como grotescos.56 56 Ibidem, p. 232. O outro edifício paradigmático do humbug era o Museu de Barnum, erigido no centro da Broadway. Dentre as excentricidades, figuravam objetos de ilusão de ótica - como um cenário da América do Sul no qual um indígena a cavalo era engolido por uma cobra, sendo todos, depois, transformados em pedra.57 57 Ibidem, p. 221-222.

Nota-se ainda a tentativa de persuadir o leitor de que o caráter do norte-americano estava ligado à falta de esmero intelectual ao comentar que o número de autores relevantes era limitado no país, e que isso se relacionava à vocação comercial e industrial dos norte-americanos.58 58 Ibidem, p. 162. Quanto à educação formal, concorda que existiam muitas escolas nos Estados Unidos, mas que os conteúdos não eram ministrados de forma a cultivar a inteligência, e sim o espírito prático; ao passo que na América Espanhola, os estabelecimentos eram poucos, mas os ensinamentos mais profundos.59 59 Ibidem, p. 236.

É interessante observar, neste quadro, as observações críticas de uma mulher viajante. A argentina Eduarda Mansilla (1834-92), que visitou os Estados Unidos na década de 1860 acompanhando seu marido diplomata, faz considerações sobre o caráter daquele povo, comparando-o com os ingleses e com os latino-americanos. Pretende mostrar que traços da “raça saxônica”, como o materialismo, por exemplo, eram uma herança da mãe pátria, que marcava essencialmente o jeito de ser dos norte-americanos: “el fariseismo político de los Sajones ha hecho su camino, y la gran nación va adelante con su go ahead, destruyendo, pillando, anexando”.60 60 MANSILLA, Eduarda. Recuerdos de viaje. Madrid: Ediciones El Viso, 1996. p. 62. Sua perspectiva é de quem está no outro polo e destaca os contrastes de sua cultura em relação àquela que descreve. Como “latina”, apresenta-se como alguém que lida muito melhor com os sentimentos do que com a razão. Também é possível entender este aspecto à luz da perspectiva de gênero, já que era comum, no período, relacionar as mulheres ao âmbito das emoções. Ao evocar os sentimentos, entendidos como caros às mulheres e aos povos latinos, o que a autora fez foi agregar dois discursos que geralmente corriam separadamente: o das identidades de gênero e o de origem regional. Ao tratar da forma como os norte-americanos lidaram com os indígenas no processo de conquista do Oeste, Mansilla recorre ao sentimento como elemento importante de sua análise: “No practican [los norteamericanos] el principal de sus preceptos: la fraternidade. No se me acuse de sentimentalismo, o mejor dicho, écheseme en la cara el sentir, no me será disgustoso”.61 61 Ibidem, p. 63.

Para o mexicano Justo Sierra, a sensibilidade artística dos norte-americanos estava submetida a uma “concepción eminentemente industrial y utilitária”.62 62 SIERRA, Justo. Viajes. En tierra yankee, en la Europa latina. México: UNAM, 1948. p. 88. A catedral de Baltimore é descrita como “desnuda y fría”, estando sua particularidade na falta de interesse artístico e estético.63 63 Ibidem, p. 162. Escreve que ela nada tinha de católica, nada tinha que viesse da Itália, da Espanha ou do México. Os instintos dessas “raças”, segundo Sierra, viviam da voluptuosidade da luz, da cor e do relevo; ao passo que nos Estados Unidos preponderava a austeridade simples e grave.64 64 Ibidem, p. 133. Ao cruzar a fronteira e voltar para o México, o autor fazia a seguinte reflexão: de que deixava o país da liberdade, mas tinha a sensação de reencontrá-la naquele momento em que pisava novamente a sua pátria.65 65 Ibidem, p. 188-189. Mesmo mais pobre e atrasada, sem conforto, habitada por gente que considerava lenta e negligente, “esa tierra de donde soy me gusta más.66 66 Ibidem, p. 193. Enaltece não o trabalho, valor anglo-saxão, mas a diversão, prática da tradição latina: “A hormiguear indefnidamente en torno de migajas, hemos preferido cantar al sol como las cigarras de la fábula”.67 67 Ibidem, p. 193.

Mesmo um socialista como Juan B. Justo que, como já observamos em exemplo anterior, desmistificou o caráter supostamente igualitário dos norte-americanos, tenderá a concordar com os demais viajantes no tema sobre o antiintelectualismo. Para ele, os norte-americanos não tinham grande inteligência e eram excessivamente pragmáticos, o que impedia esse país de se transformar numa grande nação.68 68 JUSTO, J. B. Op. Cit., p. 58. Com uma visão inspirada no positivismo e citando Augusto Comte, afirma que os norte-americanos não estavam à frente dos europeus no quesito intelecto, pois não haviam conseguido elaborar ideias gerais ou fazer sínteses dos conhecimentos científicos.69 69 Ibidem, p. 59. A questão do atraso intelectual estava ligada, para o autor, ao âmbito religioso. Ao ver inscrições religiosas nos principais monumentos das cidades, percebe que, embora o Estado se declarasse sem religião oficial, as religiões tinham uma força expressiva nos Estados Unidos, estando presentes mesmo nas instâncias públicas.70 70 Ibidem, p. 59 a 62. A despeito dessas posições, faz a ressalva de que os norte-americanos tinham um nível elevado de educação formal, sabendo ler e escrever de forma massiva, o que os favoreceria. Nos prognósticos não cumpridos do autor, este dado da educação formal os predispunha ao socialismo.71 71 Ibidem, p. 76.

Em relação ao antiintelectualismo, até aqui abordamos as posições críticas aos norte-americanos. Há duas vozes, no entanto, que tentam relativizar esta noção. A primeira é do peruano José Arnaldo Márquez.72 72 José Arnaldo Márquez (1832-1903) foi diplomata e periodista e viajou aos Estados Unidos, entre 1857 e 1861, como cônsul em Nova Iorque. Ardoroso defensor das ideias republicanas, afirmava que nos Estados Unidos todos os benefícios estariam ao alcance da maioria, sem diferença de origem, ao passo que na América Latina pesava a herança aristocrática espanhola. Segundo Carmen Mc Evoy, o autor dava destaque às virtudes republicanas nos Estados Unidos, identificadas no tratamento dado à religião, à educação, à imprensa e à condição da mulher e das crianças. MC EVOY, Carmen. Estudio preliminar. In: MÁRQUEZ, José Arnaldo. Recuerdos de viaje a los Estados Unidos de la América del Norte. Lima: Fondo Editorial Universidad Nacional Mayor de San Marcos; COFIDE, 2003, p. 13-47. Ele discordou da ideia de que existia um antiintelectualismo reinante entre os norte-americanos e afirmou que a educação pública estava difundida no país, sendo auxiliada pelos princípios de liberdade e progresso. Segundo o autor, nos Estados Unidos o filho do pobre e do rico tinham direito à educação, não só de nível básico, como superior, contando com investimentos do Estado e de doadores privados que queriam perpetuar seus nomes. Na América Espanhola, ao contrário, a educação carecia de incentivos. Márquez assegurava que os Estados Unidos eram um país de leitores, com uma imprensa espraiada por todo o país. Educação e imprensa eram dois sustentáculos culturais fundamentais para um povo civilizado. O outro autor que segue no mesmo caminho é o uruguaio José Pedro Varela. Tributário das ideias de Sarmiento - a quem cita várias vezes no relato - procura “desmentir” a fama contrária divulgada sobre os estadunidenses no quesito do antiintelectualismo. Sua interpretação é de que os pensadores nos Estados Unidos eram mais pragmáticos, o que para ele não significava uma desvantagem.73 73 VARELA, J. P. Op. Cit. p. 107. Estabelece a oposição entre latinos e anglo-saxões, invertendo a noção de que os primeiros cultivariam o intelecto, enquanto os outros estavam apenas preocupados com os aspectos materiais. Citando o caso de Montevidéu, sua cidade, escreve sobre a falta de progresso material e intelectual. Ao tratar dos espanhóis, os colonizadores, afirma que eles não se interessavam pela leitura. Na Espanha, seriam preponderantes as igrejas; nos Estados Unidos, as escolas. O espírito de martírio, atrelado ao catolicismo teria sido legado para as regiões colonizadas pelos espanhóis, enquanto os puritanos deixaram a liberdade como legado para os seus descendentes na América.74 74 Ibidem, p. 111.

Nota-se que os temas da religião, do materialismo e do antiintelectualismo encontram-se entrelaçados nos argumentos dos viajantes. Para a maioria deles, mesmo os simpáticos aos Estados Unidos, os norte-americanos eram sóbrios e práticos e estariam mais afeitos ao pragmatismo do que ao puro cultivo das ideias. Isso viria da formação protestante e marcaria uma tendência à busca do sucesso material. O antiintelectualismo é entendido como um corolário dessa inclinação. Como se pode perceber, há uma tendência mais marcante a se identificar esta “falha” ou esta “falta” no “caráter nacional” dos estadunidenses; no entanto, alguns expoentes procuravam inverter esta imagem, destacando as falhas e faltas do mundo hispano-americano.

Reações ao expansionismo norte-americano

As discussões sobre o caráter nacional nos Estados Unidos, bem como sobre a identidade dos povos de origem latina tinham relações estreitas com a política e, sobretudo, com as pretensões norte-americanas sobre o continente. Os viajantes reagiram à política expansionista e se posicionaram sobre ela podendo-se identificar aí uma diversidade de posturas. Alguns eram francamente adeptos dos “progressos” norte-americanos, enquanto outros eram críticos ferozes.

O peruano José Arnaldo Márquez representa o primeiro grupo. Divide o mundo em duas partes: os países “prósperos” e os “desgraçados”. Entre os primeiros, estão os que baseiam suas condições de vida e poder na indústria. Os demais, que não se ancoram no desenvolvimento industrial, estão fadados ao fracasso. Exemplos significativos dos países desenvolvidos são, para o autor, a Inglaterra, a França e os Estados Unidos. Como parte do segundo grupo, cita, entre os europeus, a Grécia e a Itália, e entre os latino-americanos o México, as repúblicas Centrais e as do Sul da América. Reconhece a existência de potencialidade naturais entre os últimos, mas lamenta a ausência de indústria e comércio. Palco de guerras civis, ficaram suscetíveis ao domínio norte-americano, como acontecera com o México.75 75 MÁRQUEZ, J. A. Op. Cit., p. 111-112. Em uma passagem de seu relato, comentando o fato dos Estados Unidos terem dado, em 1850, asilo político ao General José Antonio Páez, da Venezuela, reproduz sem qualquer contestação o discurso do cicerone do exilado, que é totalmente favorável à preeminência norte-americana no continente. Uma parte desse discurso trata claramente do domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina: “La Casa Blanca debiera ser el cuartel general de donde saliesen los misioneros de la libertad y del verdadero americanismo para derramarse por todo el mundo de Colón”.76 76 Ibidem, p. 151. Convencido da eficácia da Doutrina Monroe, defende que os hispano-americanos deviam confiar nos Estados Unidos para se protegerem dos monarquistas do outro lado do Atlântico. Assim, democracia e liberdade penetrariam nessas regiões, tornando as repúblicas do sul tão fortes e prósperas como os vizinhos do norte.77 77 Ibidem, p. 162. Sobre a guerra entre México e Estados Unidos, inocentava os norte-americanos argumentando que eles poderiam, se quisessem, ter incorporado todo o México. Outro episódio que mobiliza comentários e divide posições é a invasão da Nicarágua pelo flibusteiro norte-americano William Walker, proclamado presidente do país em 1856 (quase no mesmo momento em que Márquez viajava pelos Estados Unidos). Em seu relato, aponta que os Estados Unidos eram contra esta postura, pois esse tipo de ataque contrariava os princípios republicanos. Com um discurso abertamente pró-Estados Unidos, opina que a América do Sul não devia fechar-se ao país do Norte, pois não tinha nada a perder, já que não possuía produção ou comércio vigorosos, mas tão somente uma potente natureza.78 78 Ibidem, p. 1623-164.

Vicente Pérez Rosales foi outro que defendeu os Estados Unidos em diversos momentos, mas é equivocado pensar que esse enaltecimento se fazia em detrimento de uma valorização da própria pátria. Ao par desse reconhecimento despertava uma consciência em relação às consequências que o progresso norte-americano podia representar para os países hispano-americanos. Emergia um nacionalismo que se manifestava na defesa do que era próprio.79 79 SANHUEZA CERDA, Carlos. Chilenos en Alemania y alemanes en Chile. Viaje y nación en el siglo XIX. Santiago de Chile: LOM Editores, 2006. Este autor, que viajou para participar da corrida do ouro na Califórnia, percebia as consequências econômicas que o desenvolvimento na região poderia acarretar para o Chile e demais países da América Latina, especialmente os da região do Pacífico. Refere-se sobretudo às exportações de vários produtos primários e manufaturados do Chile para a Califórnia - como farinha, cevada, frutas secas, velas de sebo, roupas e sapatos - fartamente consumidos, mas que tendiam a ser substituídos pelo consumo de recursos produzidos internamente ou adquiridos à concorrência externa, como a China. Também teme a chegada de produtos em portos chilenos, a preços competitivos.80 80 PÉREZ ROSALES, V. Op. Cit., p. 140-141. Assim, ao mesmo tempo em que valoriza o país visitado, em passagens mais pontuais aproveita para criticá-lo: lamenta o fato dos chilenos serem recebidos com preconceito naquele país que se gabava de ter uma política de portas abertas ao estrangeiro: “El chileno fue considerado allí desde princípios del año de 49 como un paria, y era a los ojos de la generalidade de los yanquis lo que el judío en los siglos médios para um templario”.81 81 Ibidem, p. 146. Sobre as comunidades chilenas e mexicanas na Califórnia no século XIX, a convivência com os norte-americanos e a questão identitária, remetemos a PURCELL, Fernando. ‘Benditos sean los que no olvidan el país donde nacieron’. Chilenos y mexicanos en California, 1848-1880. In: FERNÁNDEZ, Marcos; HARAMBOUR, Alberto; HENRÍQUEZ, Rodrigo; ITURRIAGA, Jorge; ASANDÓN, Luis; OSORIO, Luis; PURCELL, Fernando. Arriba quemando el sol. Estudios de Historia Social Chilena: Experiencias populares de trabajo, revuelta y autonomía (1830-1940). Santiago: LOM Ediciones, 2004.

Benjamín Vicuña Mackenna também evidenciava os interesses políticos dos norte-americanos. No último capítulo de seu relato, escrito na década de 1850, mostra-se preocupado com a ameaça que o poder dos Estados Unidos representa para a América Latina.82 82 VICUÑA MACKENNA, B. p. 244-245. Tais pretensões faziam dos norte-americanos os “novos bárbaros” com seus ataques “vândalos” sobre os latinos.83 83 Ibidem, p. 260. Lembrando da guerra contra o México e das propostas anexionistas sobre Cuba, alerta para o fato de que os Estados Unidos já reconheciam como deles os territórios acima do Panamá. Ainda expressa sua discordância em relação a essa postura expansionista condenando o costume de se reconhecerem pelo nome de “América”.84 84 Ibidem, p. 261-262.

Ao concluir seu relato sobre os Estados Unidos, desaconselha o estabelecimento de vínculos mais profundos das repúblicas hispano-americanas com este país, aludindo às desvantagens com as quais a parte mais fraca teria que arcar. Ao mesmo tempo, apela à identidade latina, para fortalecer os vínculos espirituais, que ajudariam na resistência a uma possível intervenção mais direta, vinda “de cima para baixo”:

...hay almas e inteligencias templadas para lo heroico y lo sublime que oponer a la invasión y al pillaje; hay una noble, aunque inerte civilización que resistirá al activo aguijón del materialismo; hay una historia, una tradición llena de glorias que levantar como un escudo venerable del pasado contra el poder impávido, improvisado, del presente; hay una religión que depurada de supersticiones fortifica las convicciones del espírito sin obscurecerlo. Hay mucho, en verdad, que oponer al desborde de pasiones ajenas e irritadas, a la codicia y la usurpación.85 85 Ibidem, p. 264.

Finalmente, cabe comentar as apreciações de Justo Sierra, pois este autor viajou aos Estados Unidos justamente durante a Guerra Hispano-Americana de 1898, outro marco político de suma importância no rol de experiências expansionistas da segunda metade do século XIX. Nesse momento, Cuba se tornava independente da Espanha para ser submetida aos Estados Unidos. Este país é, portanto, o centro das atenções do autor. Em seu relato, narra que no Club Colón-Cervantes, em Nova Iorque, onde se encontrava com outros hispano-americanos, conversavam sobre o destino da Ilha, bem no momento da guerra. Nessa conjuntura, a identidade latino-americana se robustecia. Essa ideia está expressa nas seguintes palavras de Sierra: “...los que nos llamamos latinos no podemos ver tranquilamente la absorción del mundo antillano por la raza sajona, que tiene fines y medios esencialmente distintos de los nuestros”.86 86 SIERRA, J. Op. Cit. p. 107. A ameaça sobre Cuba remete à experiência das relações passadas entre seu país, o México, e os Estados Unidos, em episódios como a perda do Texas e a Guerra Mexicano-Americana. Ao visitar o Capitólio, em Washington, conta que pensava nas iniquidades ali sancionadas e que levaram ao desfecho da perda desses territórios mexicanos. Faz essa reflexão inspirado por um quadro que viu num dos corredores do Capitólio, que representava a Batalha de Chapultepec, de 1847, que selou a vitória dos Estados Unidos na Guerra contra o México. Diz lamentar “...as afrentas de la invasión americana; en esa pirámide de miserias, e vergüenzas, de sangre y de cadáveres, de derrotas nuestras y de triunfos americanos que se llama 1847...”87 87 Ibidem, p. 123. (Grifos nossos).

Os ressentimentos ainda eram marcantes quase meio século após a Guerra Mexicano-Americana, como se pode notar pelo uso de expressões fortes como “afronta” e “vergonha”, que denotam raiva e humilhação. A nova guerra, envolvendo dessa vez os Estados Unidos e Cuba, trazia novamente à tona todos esses fantasmas da história recente, mexicana e hispano-americana, na qual os Estados Unidos apareciam como uma forte ameaça.

Circulação de ideias: textos paradigmáticos

É preciso levar em consideração que esse processo de construção de afinidades hispano-americanas e de demonstração de alteridades em relação aos Estados Unidos não é fruto somente dos posicionamentos político-ideológicos dos autores. Contribuíram para essas configurações identitárias as circulações de ideias, assinaladas pelas interações dos viajantes hispano-americanos com obras de europeus que também tinham visitado os Estados Unidos. Por meio de diálogos ou confrontos de visões reafirmaram suas posições ou ressignificaram percepções.

Os principais europeus lembrados pelos viajantes hispano-americanos foram os franceses François-René Chateaubriand, Alexis de Tocqueville e Édouard Laboulaye, e a inglesa Frances Trollope. Dentre eles, o mais citado era Chateaubriand, sobretudo nas passagens que se referem à natureza nos Estados Unidos, particularmente nas descrições do Mississipi e do Niágara88 88 François-René Chateaubriand (1768-1848) era de família nobre da França e viajou para os Estados Unidos em 1791, no contexto da Revolução Francesa. O autor publicou um relato sobre esta viagem, intitulado Voyage en Amérique (1826). Ao citar o autor, Lorenzo de Zavala traça um paralelo entre os Estados Unidos e a América Latina, comentando sobre a existência, em ambos os lugares, de uma natureza que era primitiva e, ao mesmo tempo, fecunda e rica, isto é, capaz de gerar recursos.89 89 ZAVALA, L. Op. Cit., respectivamente p. 226-27 e 255-56. Outros autores também apreenderam do texto de Chateaubriand questões relacionadas à descrição da natureza, enfatizando, no entanto, que o cenário descrito pelo viajante francês já não era o mesmo no século XIX, mas havia sido modificado pelo avanço do progresso.90 90 Luis de la Rosa, por um viés bem romântico, lamenta que a paisagem avistada no Mississipi em 1848 não tinha mais os mesmos traços identificados por Chateaubriand. Era um cenário em que não havia mais indígenas e no qual avistava os frutos do desenvolvimento. Eduarda Mansilla descreve a chegada nas cataratas do Niágara na década de 1860, informando que o percurso por trem, percorrido por ela, não era tão romântico como o descrito por Chateaubriand, que tinha usado carruagem. O peruano José Arnaldo Márquez também remarca as mudanças no país desde que o autor francês fez suas descrições. Segundo Márquez, os Estados Unidos ainda estavam na infância naquela época, e não contavam, como quando fez sua viagem, em finais da década de 1850, com telégrafos, caminhos de ferro e vapores, que mudaram as condições de vida das pessoas. DE LA ROSA, L. Op. Cit., p. 64; MANSILLA, E. Op. Cit., p 151; 154; MÁRQUEZ, J. A. Op. Cit., p. 111; 190.

Alexis de Tocqueville foi outro autor bastante evocado, e por diversas razões. As apreciações mais interessantes são as de Domingo F. Sarmiento, na década de 1840, e de Juan B. Justo, em finais do XIX. Ele é apropriado por cada um desses autores para referendar suas apreensões sobre o sistema político norte-americano. Sarmiento cantou loas ao progresso norte-americano, aproveitando-se para se apropriar de dados valorativos apresentados por Tocqueville sobre os modernos meios de transporte no país. Seu objetivo ao evocar o nome do autor era respaldar intelectualmente seus elogios ao desenvolvimento dos sistemas ferroviário e de navegação, por trazerem lucros e benefícios financeiros à nação.91 91 SARMIENTO, D. F. Op. Cit., p 297. Juan B. Justo, ao contrário, recupera Tocqueville para indicar quão proféticas eram as suas desconfianças em relação ao modelo da democracia norte-americana. Segundo Justo, desde que Tocqueville empreendera sua visita aos Estados Unidos, no início da década de 1830, as diferenças sociais só haviam se acentuado. Essas diferenças eram visíveis em vários ramos que envolviam direta ou indiretamente a produção econômica: a agricultura, a indústria e os transportes. Assim, ao contrário do que fez Sarmiento ao apontar as promessas daquele modelo, Justo destaca o tema da desigualdade, ou o que chamou de “el peligro de Tocqueville”, justamente para enfatizar a contraface da tão propalada condição democrática.92 92 JUSTO, Juan B. Op. cit. p. 27.

Um pouco menos conhecido hoje, mas igualmente evocado à época pelos viajantes, foi o francês Édouard Laboulaye.93 93 Édouard Laboulaye (1811-1883) foi advogado e escritor. Era crítico do Segundo Império de Napoleão III. Certamente inspirado na obra de Tocqueville, abordou os Estados Unidos em várias obras, desde livros de História, até relatos de viagem (como Souvenir d´un voyageur, de 1858). O texto citado pelos viajantes, entretanto, é um romance, intitulado Paris en América, publicado em versão espanhola, pela Librería de la Cuesta, de Madri, em 1862, e em inglês, pela C. Scribner, de Nova Iorque, em 1863. O autor manteve viva correspondência com Sarmiento. Em razão desta relação há, inclusive, uma cidade em Córdoba, na Argentina, que leva o nome do autor (Laboulaye). Entusiasta das comodidades encontradas nos hotéis das grandes cidades norte-americanas, o uruguaio José Pedro Varela usa o texto de Laboulaye para respaldar sua apreciação positiva sobre o país.94 94 VARELA, J. P. Op. Cit., p. 97. Eduarda Mansilla o cita duas vezes para tratar da Constituição norte-americana. Mais aberta e menos suscetível a modificações, esta carta era tida como perfeita para a índole pragmática do povo norte-americano; isso contrastava com a prática dos franceses, mencionada por Laboulaye, de substituir com mais frequência a Constituição do país.95 95 MANSILLA, E. Op. Cit. p. 57 e 59.

Dentre todos os autores citados, a que nos parece mais interessante, tanto pela recorrência pela qual é mencionada, quanto pelos conteúdos relacionados, é a inglesa Frances Trollope (1780-1863), que esteve nos Estados Unidos entre finais da década de 1820 e início da seguinte, tendo publicado o relato Domestic Manners of the Americans.96 96 Frances Trollope emigrou para os Estados Unidos em 1827, buscando oportunidades para si e para sua família. Conheceu a comunidade utópica fundada pela escocesa Frances Wright, no Tennessee, empreendimento naufragado. De volta à Inglaterra, publicou o seu primeiro e mais importante livro, o relato Domestic manners of the Americans. London: Whittaker; Treacher, &Co., 1832. Seu principal objetivo é descrever o modo de ser dos norte-americanos flagrando flashes do cotidiano. Apesar de reconhecer alguns aspectos positivos, como a disposição para o trabalho, a autora satiriza a rudeza, a falta de modos e de civilidade dos norte-americanos. Não se trata de um texto com o estatuto de um livro como A democracia na América, que se tornou um clássico do pensamento político; no entanto, parece ter despertado de modo mais passional a atenção dos hispano-americanos.

Seu livro gerou reações entre os leitores de diferentes gerações, de modo a que os mesmos formulassem opiniões a seu respeito, a maior parte das vezes para negar suas afirmações. Na mesma década em que publicou o livro, o mexicano Lorenzo de Zavala externou, com certa indignação, suas opiniões em relação a ele. Ainda que aceitasse algumas descrições, nem sempre concordou com seus diagnósticos, realizando uma leitura crítica. Cabe lembrar uma das passagens de seu relato em que rebatia os ataques de Trollope à falta de modos dos norte-americanos, identificada por ela em embarcações que faziam a travessia do Mississipi. Segundo a escritora inglesa, os homens cuspiam no chão, comiam demasiadamente e de forma pouco civilizada, e palitavam os dentes. A saída de Zavala foi questionar a afirmação, informando que os próprios europeus davam piores exemplos: “¿ Qué diremos de los de Sena, del Gironda y otros ríos de Francia? Es imposible concebir cómo en los países tan civilizados y adelantados en todo género de comodidades sociales, se puedan mantener buques tan asquerosos y repugnantes”.97 97 ZAVALA, L. Op. Cit., p. 226.

Outra forma de proteger a imagem dos norte-americanos contra as “injúrias” da inglesa foi dar explicações histórico-culturais para justificar os atos dos norte-americanos. Zavala informa que o frequente costume de cuspir advinha do hábito de fumar. E, para relativizar ainda mais a ideia, lembra que este também era praticado pelas mulheres mexicanas.98 98 Ibidem, p. 225-226. Claro está que não estavam simplesmente se referindo à validade ou não de um código de etiqueta, mas a uma ideia, então corrente, e que ganhou ares de mito, de que aquela nação portentosa se deveu, entre outros fatores, à ação dos celebrados “homens comuns”, que desbravaram o Oeste. Não é à toa que Zavala indica expressamente o processo de colonização que se desenvolvia a Oeste. Pretendendo resguardar uma imagem positiva dos Estados Unidos, considera injusto, da parte de Trollope, comparar a civilidade entre os Estados Unidos e a Europa, considerando-se os diferentes estágios civilizacionais que os separavam. A necessidade de relativização é mobilizada na tentativa de aplacar as reprimendas da viajante.99 99 Ibidem, p. 240-241.

Na década seguinte, o argentino Domingo F. Sarmiento, divulgador da oposição “civilização versus barbárie”, também expressou sua posição sobre as ideias de Trollope. Ao lado dela, menciona um outro autor, o Capitão Frederick Marryat (1792-1848), um oficial da Marinha Britânica e autor de Diary in America, de 1839. Ambos são abordados por Sarmiento como detratores da imagem dos Estados Unidos, estratégia com a qual não concorda. Ainda que mais econômico do que Zavala, Sarmiento recorre à mesma lógica para tecer críticas a esses autores. Sem negar a validade de algumas descrições - como a falta de etiqueta dos norte-americanos-, as questiona assegurando que são mais imaginárias que reais. Afirma que os norte-americanos souberam transformar as condições adversas enfrentadas em solo americano em elementos úteis para forjarem sua identidade nacional, associada ao espírito de liberdade.100 100 SARMIENTO, D. F. Op. Cit. p. 313.

Nos anos 1850, o chileno BenjamínVicuña-Mackenna, que era, ele mesmo, extremamente crítico aos Estados Unidos, tratará de negar algumas descrições detrativas de Trollope, para evidenciar outros aspectos. Um dos traços ressaltados pela inglesa para denunciar a grosseria dos homens norte-americanos é o de que nos bares e teatros eles se sentavam de forma estendida colocando os pés acima do corpo, apoiados em outra cadeira. É possível que a crítica da inglesa tenha se tornado relativamente popular, pois há relatos de que, a partir de um certo momento, teria se disseminado o hábito de se gritar, nos teatros, o nome de Trollope, para se exigir uma postura mais adequada dos espectadores.101 101 MANSILLA, E. Op. Cit. p. 118. De toda maneira, segundo Vicuña-Mackenna, este, como outros hábitos “pouco civilizados” já tinham sido depurados pelos norte-americanos à época de sua viagem, na década de 1850. Sobre sua passagem pelo teatro de Cincinatti, conta que apenas restava o costume, narrado pela inglesa, de se fumar tabaco em abundância durante os espetáculos.102 102 VICUÑA MACKENNA, B. Op. Cit. p. 135-136.

Eduarda Mansilla também se dedica a comentar o livro de Trollope, que considerava uma obra de pouco prestígio e exagerada nas detrações. Discordando da inglesa, assegura que os norte-americanos não eram “el protótipo de la más acabada vulgaridade”, como queria a inglesa.103 103 MANSILLA, E. Op. Cit., p. 117. Embora em muitos momentos de seu relato tivesse colocado os europeus como modelo de uma civilidade que julgava faltar aos norte-americanos, ao tratar de Trollope, faz questão de retirar a legitimidade de seu relato, afirmando que considerava aquele povo cortês.104 104 Ibidem, p. 118. Finalmente, atribui às histórias de Trollope - como a de que os homens não se sentavam direito -, o caráter de mito nacional. Segundo ela, “pertenecen al repertorio, más ó ménos pintoresco, en que figuran, la navaja en las ligas de las damas Españolas, el traje de colores varios de los Brasileros y el cigarro de las Hispano americanas”.105 105 Ibidem, p. 118.

Percebe-se que embora os conteúdos do livro sempre tivessem sido encarados com reticência, as apreensões se modificaram com o tempo. Em princípio era preciso negar suas difamações, tal como fez Zavala; depois, considera-se que não era necessário dar tantos créditos a elas, pois não passavam de clichês, tal como considerou Mansilla. De toda maneira, o relato de Trollope teve longevidade no imaginário dos hispano-americanos sobre os Estados Unidos, tanto que, na segunda metade do século XIX, ainda era citado como uma referência para se falar dos modos dos povos no Oeste.

O que interessa aqui é notar como temas atinentes às identidades circularam nessas obras europeias sobre os Estados Unidos, que foram assimiladas de forma seletiva pelos viajantes hispano-americanos. Mesmo os críticos contundentes aos Estados Unidos fizeram restrições às descrições estereotipadas de Frances Trollope.

Considerações finais

Desde o início do século XIX, como mostram os relatos mais antigos que foram abordados, era recorrente a ideia de que a parte do continente constituída pelos descendentes dos colonizadores espanhóis se diferenciava substancialmente da outra América, colonizada pelos ingleses. Ao longo do século e mediante os acontecimentos políticos que indispunham Estados Unidos e América Latina - tais como a incorporação do Texas; a invasão da Nicarágua pelo flibusteiro Walker; propostas de anexação de Cuba e as Guerras Mexicano-Americana (1846-48) e Hispano-Americana (1898) - as oposições foram se desenvolvendo e se consolidando, tendo os relatos de viagem funcionado como espaço de elaboração sobre essas ideias. Por meio da atribuição de características peculiares, seus autores buscavam definir o caráter desses povos a partir de pares opostos. Democracia/aristocracia; circunspecção/espírito festivo; negócio/ócio; ordem/caos; liberdade/controle; tolerância/restrição; razão/sentimento; pragmatismo/lirismo eram temas evocados para designar, respectivamente, os norte-americanos e os hispano-americanos. As oposições presentes nessas remissões simbólicas perpassaram o século ganhando densidade na medida em que iam se tornando mais claras as ambições políticas dos Estados Unidos.

Também é interessante notar, perpassando um volume significativo de relatos, as posições opostas de autores em relação à adoção dos Estados Unidos como um modelo para a América Hispânica. Alguns se colocavam de forma simpática, enquanto outros se mostraram veementemente contrários. No entanto, mesmo os que mais se inspiraram no modelo norte-americano faziam ressalvas em relação à ideia de cópia. O próprio Zavala, que dentre os autores analisados foi um dos que mais valorizou o desenvolvimento dos Estados Unidos, questionou a possibilidade da cópia integral: “El modelo era sublime: pero inimitable” - afirmava ele.16 106 ZAVALA, L. Op. cit. p. 390. A defesa, pela maior parte dos autores, da incompatibilidade de caráter dos dois povos em questão, constituía uma barreira à apropriação imponderada das soluções engendradas do outro lado do continente.

Finalmente, cabe chamar a atenção para a circulação dessas ideias, não só dentro do continente, mas em sentido transatlântico. Guardadas as particularidades das interpretações entre os diferentes autores e períodos, a recorrência das mesmas tópicas nos vários relatos mostra que as noções ali presentes se propagavam vigorosamente. Os textos de viagem pareciam funcionar como uma espécie de depositário de lugares-comuns sobre os Estados Unidos, os quais eram passíveis de ser acessados, apropriados e ressignificados. A forma reiterada como essas estereotipias circularam por meio de textos de autores dos dois lados do Atlântico, sendo propaladas em impressos de autores de diferentes níveis de notoriedade, mostram que a questão ganhou ares de mito. Também pode-se concluir que nem sempre houve concordância com as ideias europeias, acessadas nos relatos que chegaram até os hispano-americanos. Nesse sentido, pertencer à América Hispânica habilitava esses autores a escrever como portadores de uma identidade própria, incorporando-se seletivamente dos discursos emanados de outras regiões, como a França e a Inglaterra.

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  • SCHNEIROV, Richard; STROMQUIST, Shelton; SALVATORE, Nick (Eds.). The Pullman Strike and the Crisis of the 1890s Essays on Labor and Politics. Urbana, Chicago: University of Illinois Press, 1999.
  • SIERRA O´REILLY, Justo. Notícia sobre la vida y escritos de Lorenzo de Zavala. In: ZAVALA, Lorenzo de. Obras México: Editorial Porrúa, 1976, p. 222-223.
  • TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América Leis e costumes. De certas leis e certos costumes políticos que foram naturalmente sugeridos aos americanos por seu estado social democrático. São Paulo Martins Fontes, 2005.
  • VIÑAS, David. De Sarmiento a Dios. Viajeros argentinos a USA. Buenos Aires: Editoral Sudamenricana, 1998.
  • WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo Edição comemorativa da primeira publicação da obra. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
  • WHITE, Richard. Railroaded. The transcontinental and the making of modern America New York: W. W. & Co., 2011.
  • WOOD, Gordon S. Democracy and the American Revolution In: DUNN, John (Ed). Democracy: The Unfinished Journey, 508 BC to AD 1993. Oxford: Oxford University Press, 1992. p. 91-105.
  • ZANETTI, Susana. Modernidad y religación: una perspectiva continental (1880-1916). In: PIZARRO, Ana (org). América Latina: palavra, literatura e cultura. vol. 2, Emancipação do discurso. São Paulo: Memorial da América Latina: Campinas: Ed Unicamp, 1994, p. 489-534.

  • 1
    O objetivo deste artigo não é analisar o “conceito” de América Latina, tema amplamente estudado pela historiografia. Entre os “clássicos”, consultar ARDAO, Arturo. América Latina y la latinidad. México: UNAM, 1993. Para um resumo dos debates, vide: QUIJADA, Mónica. Sobre el origen y difusión del nombre ‘América Latina’ (o una variación heterodoxa en torno al tema de la construcción social de la verdad). Revista de Indias, Madrid, vol. LVIII, n. 214, 1998, p. 595-615.

  • 2
    CAPELATO, Maria Helena R. A data símbolo de 1898: o impacto da independência de Cuba na Espanha e Hispanoamérica. História, São Paulo, v. 22, n. 2, 2003, p. 35-58.

  • 3
    Para a questão identitária na virada do século XIX para o XX, ver ZANETTI, Susana. Modernidad y religación: una perspectiva continental (1880-1916). In: PIZARRO, Ana (org). América Latina: palavra, literatura e cultura. v. 2: Emancipação do discurso. São Paulo: Memorial da América Latina: Campinas: Ed Unicamp, 1994, p. 489-534. Para uma interessante interpretação da obra de Rodó, vide: MITRE, Antonio. Fenômenos de massa na sociedade oligárquica. O despontar da modernidade em Ariel de Rodó”. In: ___(org). O dilema do centauro. Ensaios de teoria da história e pensamento latino-americano. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003, p. 103-121.

  • 4
    Bronislaw Baczko concebe os imaginários sociais como pontos de referência num sistema simbólico produzido por uma coletividade, para designar identidade, elaborar representação de si, estabelecer diferenciações de papeis e posições sociais, compartilhar crenças e construir códigos de comportamento. BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: LEACH, Edmund et Alii (org). Anthropos-Homem. Enciclopédia Einaudi, vol. 5. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1985, p. 309.

  • 5
    Segundo Raoul Girardet, os mitos políticos se constroem a partir de um ordenamento sucessivo de imagens carregadas de significados, que tendem a se repetir e a se processar dentro de uma lógica que ele chama de “dialética dos contrários”, na qual os mitos podem sofrer inversões e recaracterizações. GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 17.

  • 6
    A lista com as referências bibliográficas das edições utilizadas encontra-se ao final do artigo. As citações respeitaram a grafia original, tal como aparece nos relatos utilizados. Tendo em vista a grande quantidade de relatos, torna-se inviável uma análise mais particularizada das trajetórias biográficas dos autores.

  • 7
    Como mostra Jorge Myers, os textos de viagem deste período são fontes interessantes para visualizar as conturbadas guinadas identitárias que se processam na passagem da colônia para a independência. MYERS, Jorge (selección y prólogo). Rumbos pátrios. La cultura del viaje entre fines de la Colonia y la Independencia. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011, p. 10.

  • 8
    HARTOG, François. O Espelho de Heródoto. Ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999, p. 241.

  • 9
    Como mostraremos adiante, Tocqueville foi lido pelos viajantes hispano-americanos. Segundo François Furet, com a viagem aos Estados Unidos ele passou a entender a democracia como uma espécie de destino inexorável para as sociedades, buscando compreender de que maneira ela se compatibilizava com a liberdade. Para Furet, o autor era ao mesmo tempo admirador e crítico da democracia norte-americana. Considerava a educação política prática um de seus pontos fundamentais, pois isso dava um caráter particular àquele povo que ele entendia como “vulgar”, “grosseiro” e “obcecado pelo dinheiro”, ainda que civilizado. FURET, François. Prólogo. In: TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. Leis e costumes. De certas leis e certos costumes políticos que foram naturalmente sugeridos aos americanos por seu estado social democrático. São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. XI.

  • 10
    José Miguel Carrera (1785-1821) viajou para os Estados Unidos para adquirir material bélico para a luta de independência, no mesmo momento em que o governo norte-americano declarava neutralidade em relação ao processo. CARRERA, José Miguel. Diario de viaje a Estados Unidos de América. Santiago: Editorial Universitária, 1996. Para a biografia do autor, consultar BRAGONI, Beatriz. José Miguel Carrera. Un revolucionario chileno en el Río de la Plata. Buenos Aires: Edhasa, 2012.

  • 11
    CARRERA, José Miguel. Op. Cit., p. 59.

  • 12
    A posição crítica ao “método democrático” pode ser atrelada à sua posição social. Embora boa parte dos trabalhos sobre o autor se apoie numa “leitura populista” do personagem, sustentando que ele governou com amplo apoio das camadas populares, uma bibliografia recente contesta esta interpretação, aludindo a outras formas de apoio, mais tradicionais, como as conexões familiares e o aparato militar, bem como discutindo o significado de “povo” em seu discurso, que não se remetia ao “baixo povo”, mas a uma noção abstrata do mesmo. PINTO VALLEJOS, Julio y ORTÍZ DE ZÁRATE, Verónica Valdivia. ¿Chilenos todos? La construcción social de la nación (1810-1840). Santiago: LOM Ediciones, 2009.

  • 13
    ALBERDI, Juan Bautista. Obras Selectas. Tomo 3: Memorias y Impresiones de viaje. Buenos Aires: La Facultad, 1920, p. 355.

  • 14
    Estudar as particularidades da democracia norte-americana foge ao escopo deste artigo. Cabe ressaltar apenas um traço que impactou os viajantes estudados. Trata-se da noção de que a democracia norte-americana propiciava certo nivelamento social. É preciso relativizar esta noção, pois paralelamente ao seu desenvolvimento, a escravidão imperava no país. A despeito disso, espraiou-se uma ideia de promoção igualitária que seria propiciada pela democracia norte-americana. Uma possibilidade de se entender esta ideia é relacioná-la à expansão de direitos políticos nos Estados Unidos no contexto pós-independência. Segundo Gordon S. Wood, já na década de 1780 era possível identificar reivindicações de homens comuns a participar da política. A aristocracia rural seria contestada como necessariamente virtuosa e naturalmente mais apta ao poder por não ter que se preocupar com os problemas da sobrevivência. A abertura do processo político para homens médios trazia à tona a necessidade de que os ocupantes de cargos públicos recebessem salário, como em qualquer outra profissão, o que era uma mudança no clássico ideal republicano que concebia os governantes como pessoas “desinteressadas”. Este processo foi respaldado pela crítica à ociosidade e pela valorização do trabalho como meio de garantir a sobrevivência. Em última instância, isso abria oportunidade para que “pessoas ordinárias” alcançassem esses lugares, o que, podemos pensar, em última instância, fomentava a associação entre democracia e nivelamento social. WOOD, Gordon S. Democracy and the American Revolution. In: DUNN, John (Ed). Democracy: The Unfinished Journey, 508 BC to AD 1993. Oxford: Oxford University Press, 1992, p. 91-105.

  • 15
    Lorenzo de Zavala (1788-1836) viajou aos Estados Unidos em 1830 fugindo de problemas políticos enfrentados no México. Em 1831, transladou-se à Europa e em 1834 publicou seu relato sobre os Estados Unidos em Paris. Neste mesmo ano voltou à América e estabeleceu-se no Texas, onde operava com concessão de terras para colonos norte-americanos e onde participou da insurreição pela independência em relação ao México. Foi eleito deputado em 1835 e, com a independência, em 1836, tornou-se o primeiro vice-presidente do Texas, tendo renunciado em seguida, por dissenções políticas e morrido no mesmo ano. Envolvido na questão da independência do Texas, que posteriormente, viria a ser integrado como estado norte-americano, era de se esperar um retrato favorável dos Estados Unidos. SIERRA O´REILLY, Justo. Notícia sobre la vida y escritos de Lorenzo de Zavala. In: ZAVALA, Lorenzo de. Obras. México, Editorial Porrúa, 1976, p. 222-223. ZAVALA, Lorenzo de. Viaje a los Estados Unidos del Norte de América. Texas: Arte Público Press, 2005.

  • 16
    Ibidem, p. 234-235.

  • 17
    Ibidem, p. 385.

  • 18
    Ibidem, p. 308.

  • 19
    Ibidem, p. 337.

  • 20
    SARMIENTO, Domingo F. Viajes por Europa, Africa i América. 1845-1847. Madrid: ALLCA XX; São Paulo: EDUSP, 1996.

  • 21
    Ibidem, p. 302.

  • 22
    Ibidem, p. 426-427.

  • 23
    Ibidem, p. 301.

  • 24
    Destacamos aqui os seguintes relatos: BLEST GANA, Alberto. De Nueva York al Niágara. Santiago de Chile, Imp. Nacional, 1868. p. 29; VARELA, José Pedro. Impresiones de viaje en Europa y América. Correspondencia literaria y crítica, 1867-1868. Montevideo: Editorial Liceo, 1945, p. 110.

  • 25
    Juan B. Justo (1865-1928) foi fundador do Partido Socialista na Argentina em 1895, mesmo ano em que viajou aos Estados Unidos. Seu relato foi primeiramente publicado nas páginas do La Vanguardia, jornal de seu Partido. Em 1898, esses textos foram compilados em forma de livro, na edição aqui utilizada.

  • 26
    JUSTO, Juan B. En los Estados Unidos. Buenos Aires: Imprenta, Litog. y Encuadernación de Jacobo Peuser, 1898, p. 29.

  • 27
    Este modelo luxuoso foi colocado em funcionamento em 1865 e usado para transportar o corpo de Abraham Lincoln após sua morte. George Pullman era um emergente. Filho de um carpinteiro, enriqueceu entrando para o ramo de construção de estradas de ferro em um momento de franca expansão deste tipo de negócio, no pós-Guerra Civil. Em 1867, tornou-se presidente da Pullman´s Palace Car Company e, em 1881, construiu uma vila operária para os funcionários da empresa nas proximidades de Chicago, cuja maquete foi uma das atrações da Exposição de Chicago, de 1893. Sob pretexto de contribuir para o bem-estar da população que ali habitava, trabalhadores passavam a viver sob as mais diversas formas de controle. Sobre a forma como as ferrovias transformaram os Estados Unidos no pós-Guerra Civil, vide: WHITE, Richard. Railroaded: The transcontinentals and the making of modern America. New York: W. W. & Co., 2011.

  • 28
    SCHNEIROV, Richard; STROMQUIST, Shelton; SALVATORE, Nick (Eds.). The Pullman Strike and the Crisis of the 1890s: Essays on Labor and Politics. Urbana; Chicago: University of Illinois Press, 1999.

  • 29
    JUSTO, Juan B. Op. Cit. p. 28.

  • 30
    CARRERA, J. M. Op. Cit., p. 46.

  • 31
    ZAVALA, L. Op. Cit., p. 354.

  • 32
    ERRÁZURIZ, Isidoro. Diario de Don Isidoro Errázuriz 1851-1856. Santiago de Chile: Editorial Nascimento, 1947, p. 9.

  • 33
    Justo Sierra (1848-1912) foi um homem de letras relevante na história mexicana. Intimamente ligado ao governo de Porfírio Díaz (1876-1910), destacou-se sobretudo por seu papel no âmbito da Educação. Foi Ministro da Suprema Corte de Justiça, Subsecretário de Justiça e Instrução Pública, Secretário de Educação Pública e Belas Artes. Defendeu a educação pública e laica. Viajou aos Estados Unidos em 1895, a convite de seu tio materno, que lá morava. Entre 1897 e 1898, publicou seu relato na Revista El Mundo, intitulando-o Em tierra yankee (Notas a todo vapor). Em 1900 foi à Europa como chefe de delegação mexicana em um congresso, conhecendo a França, a Espanha e a Itália. Ao relato daí oriundo, publicado entre 1901 e 1903 no periódico El Mundo Ilustrado, deu o título de La Europa Latina. Posteriormente, as duas obras foram publicadas conjuntamente em forma de livro: SIERRA, Justo. Viajes. En tierra yankee, en la Europa latina. México: UNAM, 1948. Sobre os seus projetos educacionais, vide: OCAMPO LÓPEZ, Javier. Justo Sierra ‘el Maestro de América’. Fundador de la Universidad Nacional de México. Revista Historia de la Educación Latinoamericana, v. 15, p. 13-38, 2010.

  • 34
    Ibidem, p. 54. Com esta observação, o autor questiona, ainda que de forma velada, a famigerada contenção dos norte-americanos. O mexicano Manuel Payno (1810-94), cuja viagem antecedeu à de Justo em algumas décadas, também apontava o alcoolismo como elemento que contrastava com a ideia de uma sobriedade dominante entre os norte-americanos. Considerava que os homens bebiam exageradamente nos bar rooms e a razão desse desregramento era justamente o caráter norte-americano. Pouco comunicativos, desconfiados e ásperos, viviam apenas dedicados ao trabalho e à religião, podendo por isso tanto pender para o excesso de moralismo ou, ao contrário, ao alcoolismo e à agressividade. Frequentariam mais os bares, pois era onde encontravam algum ambiente de sociabilidade, uma válvula de escape à “monotonia desconsoladora” em que viviam. As críticas de Payno se deviam claramente a razões de cunho político. Ele visitou o país em 1845, tendo viajado para Nova Iorque e Filadélfia, a mando do presidente Antonio López de Santa Anna. Politicamente, ambos eram contrários ao que os Estados Unidos representavam, sobretudo em termos da política de expansão de suas fronteiras. O ano de sua viagem -1845 - era o mesmo da incorporação do Texas como estado norte-americano. Em 1846, dar-se-ia início à Guerra Mexicano-Americana, que terminaria com a derrota do México e a perda de praticamente metade de seu território. PAYNO, Manuel. Crónicas de viaje. V. I. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 1996.

  • 35
    VARELA, J. P. Op. Cit., p. 108.

  • 36
    WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Edição comemorativa do centenário da primeira publicação da obra. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 106.

  • 37
    Ibidem, p. 107.

  • 38
    A eleição do domingo para tecerem seus comentários não é desprovida de historicidade. O tema das diversões aos domingos já era, desde o século XVII, foco de disputa, na Inglaterra, entre os puritanos e os reis Jaime I e Carlos I. Condenando a ascese da religiosidade puritana, estes reis decretaram um código, chamado Book of Sports, por meio do qual se permitia a prática de algumas modalidades esportivas no dia de domingo, punindo aqueles que atacavam a legitimidade do decreto com o discurso de que prática desestabilizava a organização rotineira da vida. Ibidem, p. 152.

  • 39
    CARRERA, J. M. Op Cit., p. 57.

  • 40
    ZAVALA, L. Op. Cit., p. 201.

  • 41
    Ibidem, p. 354.

  • 42
    Lorenzo de Zavala viajou aos Estados Unidos durante o governo de Andrew Jackson (1829-37), quando as fábricas, sobretudo têxteis, começaram a ganhar importância devido a medidas protecionistas. Os trabalhadores dessas fábricas passaram a se concentrar em cidades, como Lowell, que em 1830 tinha por volta de cinco mil operários. NEVINS, Allan; COMMANGER, Henry S. Breve historia de los Estados Unidos. México: Fondo de Cultura Económica, 1994, p. 173.

  • 43
    ZAVALA, L. Op. Cit., p. 355.

  • 44
    PEREZ ROSALES, Vicente. Diario de un viaje a California. 1848-1849. Santiago: Tajamar Editores, 2007.

  • 45
    O autor utiliza esta designação - “raça” - para descrever hábitos culturais dos diferentes povos em questão, não aludindo a uma caracterização do termo no sentido biológico. As viagens aqui analisadas não são de cunho científico. Sobre o significado histórico do termo “raça anglo-saxônica”, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, remetemos à leitura de: JUNQUEIRA, Mary A. Velas ao mar. U. S. Exploring Expedition (1838-1842). A viagem científica de circum-navegação dos norte-americanos. São Paulo: Intermeios; Fapesp, 2015 (Cap. 06).

  • 46
    PEREZ ROSALES, Vicente. Diario de un viaje a California. 1848-1849. Santiago: Tajamar Editores, 2007, p. 137.

  • 47
    Ibidem, p. 127.

  • 48
    De acordo com o autor, este ponto de virada teria se dado ainda no final do século XVIII, numa época de paixões partidárias exacerbadas, quando o Partido Federalista passou a atacar os proprietários e intelectuais aristocráticos, focando sobretudo na figura de Thomas Jefferson, do partido rival, o Democrata-Republicano. As noções do antiintelectualismo teriam sido incorporadas por escritores populares ainda em fins do século XVIII, que nutriam desconfiança em relação aos homens cultos e proprietários. Essas críticas ganharam corpo neste momento, mas não chegaram a impedir que Jefferson fosse eleito presidente em 1800. O antiintelectualismo viria a ganhar maior espaço na política americana, com o governo de Andrew Jackson (1829-37), eleito com a propaganda de ser homem comum, do Oeste. HOFSTADTER, Richard. Antiintelectualismo nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 182.

  • 49
    PAYNO, M. Op. Cit. p. 182.

  • 50
    Ibidem, p. 236. A condenação aos norte-americanos por sua incapacidade de observar a natureza com olhos românticos também está presente no relato do mexicano Luis de La Rosa, que realizou sua viagem em 1848. DE LA ROSA, Luis. Impresiones de un viaje de México a Washington en octubre y noviembre de 1848. Toluca: Instituto Mexiquense de Cultura, 2002. p. 76.

  • 51
    Sua viagem está relacionada a uma temporada de exílio político, quando, em 1851, teve de retirar-se do Chile por ter se envolvido com uma revolta de oposição ao governo conservador de Manuel Montt. Partiu primeiramente para os Estados Unidos e depois para a Europa. Viveu este exílio político entre 1853 e 1855, dos 22 aos 24 anos, publicando seu relato em 1856. VICUÑA MACKENNA, Benjamín. Páginas de mi diario durante tres años de viaje (1853-54-55). Santiago: Universidad de Chile, 1936.

  • 52
    Ibidem, p. 84.

  • 53
    Ibidem, p. 84.

  • 54
    Ibidem, p. 251.

  • 55
    Ibidem, p. 164.

  • 56
    Ibidem, p. 232.

  • 57
    Ibidem, p. 221-222.

  • 58
    Ibidem, p. 162.

  • 59
    Ibidem, p. 236.

  • 60
    MANSILLA, Eduarda. Recuerdos de viaje. Madrid: Ediciones El Viso, 1996. p. 62.

  • 61
    Ibidem, p. 63.

  • 62
    SIERRA, Justo. Viajes. En tierra yankee, en la Europa latina. México: UNAM, 1948. p. 88.

  • 63
    Ibidem, p. 162.

  • 64
    Ibidem, p. 133.

  • 65
    Ibidem, p. 188-189.

  • 66
    Ibidem, p. 193.

  • 67
    Ibidem, p. 193.

  • 68
    JUSTO, J. B. Op. Cit., p. 58.

  • 69
    Ibidem, p. 59.

  • 70
    Ibidem, p. 59 a 62.

  • 71
    Ibidem, p. 76.

  • 72
    José Arnaldo Márquez (1832-1903) foi diplomata e periodista e viajou aos Estados Unidos, entre 1857 e 1861, como cônsul em Nova Iorque. Ardoroso defensor das ideias republicanas, afirmava que nos Estados Unidos todos os benefícios estariam ao alcance da maioria, sem diferença de origem, ao passo que na América Latina pesava a herança aristocrática espanhola. Segundo Carmen Mc Evoy, o autor dava destaque às virtudes republicanas nos Estados Unidos, identificadas no tratamento dado à religião, à educação, à imprensa e à condição da mulher e das crianças. MC EVOY, Carmen. Estudio preliminar. In: MÁRQUEZ, José Arnaldo. Recuerdos de viaje a los Estados Unidos de la América del Norte. Lima: Fondo Editorial Universidad Nacional Mayor de San Marcos; COFIDE, 2003, p. 13-47.

  • 73
    VARELA, J. P. Op. Cit. p. 107.

  • 74
    Ibidem, p. 111.

  • 75
    MÁRQUEZ, J. A. Op. Cit., p. 111-112.

  • 76
    Ibidem, p. 151.

  • 77
    Ibidem, p. 162.

  • 78
    Ibidem, p. 1623-164.

  • 79
    SANHUEZA CERDA, Carlos. Chilenos en Alemania y alemanes en Chile. Viaje y nación en el siglo XIX. Santiago de Chile: LOM Editores, 2006.

  • 80
    PÉREZ ROSALES, V. Op. Cit., p. 140-141.

  • 81
    Ibidem, p. 146. Sobre as comunidades chilenas e mexicanas na Califórnia no século XIX, a convivência com os norte-americanos e a questão identitária, remetemos a PURCELL, Fernando. ‘Benditos sean los que no olvidan el país donde nacieron’. Chilenos y mexicanos en California, 1848-1880. In: FERNÁNDEZ, Marcos; HARAMBOUR, Alberto; HENRÍQUEZ, Rodrigo; ITURRIAGA, Jorge; ASANDÓN, Luis; OSORIO, Luis; PURCELL, Fernando. Arriba quemando el sol. Estudios de Historia Social Chilena: Experiencias populares de trabajo, revuelta y autonomía (1830-1940). Santiago: LOM Ediciones, 2004.

  • 82
    VICUÑA MACKENNA, B. p. 244-245.

  • 83
    Ibidem, p. 260.

  • 84
    Ibidem, p. 261-262.

  • 85
    Ibidem, p. 264.

  • 86
    SIERRA, J. Op. Cit. p. 107.

  • 87
    Ibidem, p. 123. (Grifos nossos).

  • 88
    François-René Chateaubriand (1768-1848) era de família nobre da França e viajou para os Estados Unidos em 1791, no contexto da Revolução Francesa. O autor publicou um relato sobre esta viagem, intitulado Voyage en Amérique (1826).

  • 89
    ZAVALA, L. Op. Cit., respectivamente p. 226-27 e 255-56.

  • 90
    Luis de la Rosa, por um viés bem romântico, lamenta que a paisagem avistada no Mississipi em 1848 não tinha mais os mesmos traços identificados por Chateaubriand. Era um cenário em que não havia mais indígenas e no qual avistava os frutos do desenvolvimento. Eduarda Mansilla descreve a chegada nas cataratas do Niágara na década de 1860, informando que o percurso por trem, percorrido por ela, não era tão romântico como o descrito por Chateaubriand, que tinha usado carruagem. O peruano José Arnaldo Márquez também remarca as mudanças no país desde que o autor francês fez suas descrições. Segundo Márquez, os Estados Unidos ainda estavam na infância naquela época, e não contavam, como quando fez sua viagem, em finais da década de 1850, com telégrafos, caminhos de ferro e vapores, que mudaram as condições de vida das pessoas. DE LA ROSA, L. Op. Cit., p. 64; MANSILLA, E. Op. Cit., p 151; 154; MÁRQUEZ, J. A. Op. Cit., p. 111; 190.

  • 91
    SARMIENTO, D. F. Op. Cit., p 297.

  • 92
    JUSTO, Juan B. Op. cit. p. 27.

  • 93
    Édouard Laboulaye (1811-1883) foi advogado e escritor. Era crítico do Segundo Império de Napoleão III. Certamente inspirado na obra de Tocqueville, abordou os Estados Unidos em várias obras, desde livros de História, até relatos de viagem (como Souvenir d´un voyageur, de 1858). O texto citado pelos viajantes, entretanto, é um romance, intitulado Paris en América, publicado em versão espanhola, pela Librería de la Cuesta, de Madri, em 1862, e em inglês, pela C. Scribner, de Nova Iorque, em 1863. O autor manteve viva correspondência com Sarmiento. Em razão desta relação há, inclusive, uma cidade em Córdoba, na Argentina, que leva o nome do autor (Laboulaye).

  • 94
    VARELA, J. P. Op. Cit., p. 97.

  • 95
    MANSILLA, E. Op. Cit. p. 57 e 59.

  • 96
    Frances Trollope emigrou para os Estados Unidos em 1827, buscando oportunidades para si e para sua família. Conheceu a comunidade utópica fundada pela escocesa Frances Wright, no Tennessee, empreendimento naufragado. De volta à Inglaterra, publicou o seu primeiro e mais importante livro, o relato Domestic manners of the Americans. London: Whittaker; Treacher, &Co., 1832.

  • 97
    ZAVALA, L. Op. Cit., p. 226.

  • 98
    Ibidem, p. 225-226.

  • 99
    Ibidem, p. 240-241.

  • 100
    SARMIENTO, D. F. Op. Cit. p. 313.

  • 101
    MANSILLA, E. Op. Cit. p. 118.

  • 102
    VICUÑA MACKENNA, B. Op. Cit. p. 135-136.

  • 103
    MANSILLA, E. Op. Cit., p. 117.

  • 104
    Ibidem, p. 118.

  • 105
    Ibidem, p. 118.

  • 106
    ZAVALA, L. Op. cit. p. 390.

  • *
    Profa. do Departamento de História da Universidade de São Paulo. Este trabalho contou com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio Regular de Pesquisa, processo nº: 2013/15656-9. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade da autora e não necessariamente refletem a visão da FAPESP. E-mail: stellafv@gmail.com.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2017

Histórico

  • Recebido
    13 Set 2016
  • Aceito
    05 Jun 2017
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