Open-access DO IMPÉRIO À COLÔNIA: TRANSFORMAÇÕES E CONFLITOS NA AMÉRICA PORTUGUESA DO SÉCULO XVIII

Resenha de: SCHULTZ, Kirsten. . From Conquest to Colony: Empire, Wealth, and Difference in Eighteenth-Century Brazil . New Haven: Yale University Press, 2023.

Com a publicação From Conquest to Colony: Empire, Wealth, and Difference in Eighteenth-Century Brazil, escrita por Kirsten Schultz e publicada pela Yale University Press em 2023, a autora oferece aos pesquisadores e ao público em geral uma contribuição significativa para o entendimento das complexas dinâmicas que ligavam o Império português a suas colônias, especialmente seus domínios ultramarinos durante o século XVIII. Professora de História na Seton Hall University, Schultz apresenta uma análise detalhada das transformações políticas, econômicas e sociais que moldaram a colônia, destacando a transição da América Portuguesa de uma mera conquista para um centro de riqueza e poder no Império português. Por meio desta resenha, busco sintetizar não apenas as ideias centrais da obra, mas também explorar, ainda que de forma resumida, a perspectiva metodológica e as premissas teóricas que sustentam a análise de Schultz, posicionando-a no campo acadêmico contemporâneo e realizando uma avaliação crítica de suas contribuições.

O livro está estruturado em torno de três eixos principais. O primeiro trata da redefinição da América Portuguesa enquanto colônia. Schultz argumenta que, no século XVIII, o território americano deixou de ser visto como uma “conquista” integrada ao Império por meio da evangelização e da guerra, passando a ser administrado como uma colônia cuja função principal era fornecer riquezas à metrópole. Essa mudança foi impulsionada pela exploração do ouro, que atraiu a atenção da Coroa e de outras potências europeias, levando a um maior controle administrativo e fiscal.

O segundo eixo se concentra no debate acerca dos conflitos em torno da tributação e da governança. A autora examina as tensões entre a Coroa e os colonos, especialmente em relação à cobrança do quinto do ouro e à implementação da capitação, um imposto per capita sobre escravizados. Essas medidas, embora inicialmente tidas como eficazes por aumentar a arrecadação, posteriormente geraram revoltas e resistência local, como a Revolta de Vila Rica (1720), ocorrida na capitania de Minas Gerais, demonstrando assim a fragilidade do poder real nas áreas mineradoras.

Por fim, no último eixo a autora destaca a questão da escravidão como fundamento da ordem colonial. De acordo com Schultz, a escravidão não era apenas um sistema econômico, mas também um “aparelho de governança colonial”. A administração das diferenças raciais e sociais era central para manter o domínio português, e as reformas fiscais, como a citada capitação, reforçaram esse controle ao vincular a tributação diretamente à posse de escravizados.

Dividido em cinco capítulos e um epílogo, a obra é aberta pelo capítulo intitulado “Conquests and Histories: Brazil in the Portuguese Empire”, no qual Schultz explora as transformações do Império português no século XVIII, destacando como a descoberta de ouro em Minas Gerais redefiniu a relação entre metrópole e colônia. Analisa os debates intelectuais e políticos que emergiram em torno da legitimidade da soberania portuguesa, tanto na Academia Real da História Portuguesa quanto na Academia Brasílica dos Esquecidos, enfatizando a transição de uma narrativa de conquista para uma visão mais sistemática da colônia como fonte de riqueza e diferença social.

Em “Reason and Experience: Royal Authority in a Golden Age”, a historiadora examina os desafios enfrentados pela Coroa portuguesa para administrar a região mineradora de Minas Gerais, focando nas reformas fiscais implementadas por Alexandre de Gusmão e Martinho de Mendonça. Discute ainda a resistência local à capitação e como esse conflito revelou tensões entre autoridade real e autonomia local, além de refletir novas concepções de governo baseadas em cálculo e eficiência.

Caminhando para a metade da leitura, chegamos ao terceiro capítulo, “Taxing Gold and Taxing Slaves: American Social Order and Empire”. Usando o arcabouço da História Social, Schultz aborda as implicações sociais da capitação, destacando como a escravidão se tornou central para a administração colonial e a produção de riqueza. Analisa a resistência de senhores ao novo método de cobrança, as fugas e as estratégias de sobrevivência dos cativos, demonstrando como a reforma fiscal reforçou hierarquias raciais e econômicas, ao mesmo tempo que expôs as fragilidades do sistema colonial.

Já “Colonies and Commerce: Wealth, Difference, and Empire” contribui para expor o papel do comércio colonial na redefinição das relações entre Portugal e Brasil no século XVIII. No referido capítulo, é explorado ainda como a circulação de ouro, mercadorias e escravizados moldou a economia imperial, destacando as tensões entre as políticas mercantilistas e os interesses locais. A discussão inclui a regulamentação do consumo, as leis suntuárias e as disputas sobre hierarquias sociais, revelando como a diferença colonial foi administrada e contestada.

Fechando a obra o capítulo “Peoples and Colonies: Settlement, Labor, and the Geography of Empire” examina as estratégias de povoamento e controle territorial no Brasil, com ênfase no Tratado de Madrid (1750) e nas reformas pombalinas. A autora discute a expropriação de povos indígenas, a promoção de casamentos mistos e a dependência do trabalho escravo africano, demonstrando como a geografia humana do império foi reconfigurada para garantir a extração de riquezas e a consolidação do domínio português.

Por fim, o epílogo sintetiza as transformações do Império português no século XVIII, conectando os debates sobre autoridade, riqueza e diferença social às crises do final do período colonial. Reflete sobre como as reformas e resistências analisadas ao longo da obra anteciparam os movimentos que culminariam na independência do Brasil, sublinhando a complexidade do legado colonial na formação da nação.

No que diz respeito à perspectiva metodológica e às premissas teóricas, Schultz adota uma abordagem interdisciplinar, combinando história política, econômica e social. Seu método baseia-se em uma ampla gama de fontes primárias, incluindo documentos oficiais, como correspondências da Coroa, relatórios de governadores e registros fiscais. A autora recorre ainda as leis e os regimentos que regulamentavam a mineração e o comércio, além de crônicas e panfletos de autores como Sebastião da Rocha Pita, que refletem as visões das elites coloniais.

Ao longo da obra, Schultz dialoga com duas correntes historiográficas principais - um dos pontos fortes de seu trabalho -, unindo contribuições de vertentes que, nas últimas décadas, produziram estudos significativos sobre a administração colonial e suas relações de poder com a metrópole. Em relação ao grupo denominado “antigo sistema colonial”, que inclui autores como Fernando Novais e Caio Prado Júnior, Schultz critica a visão tradicional que enxerga a relação metrópole-colônia como puramente exploratória, argumentando que o Império português era um espaço de negociações e conflitos, no qual os colonos tinham agência política. Já ao abordar a corrente intitulada “Antigo Regime nos trópicos”, representada por António Manuel Hespanha e João Fragoso, a obra alinha-se com estudos que enfatizam a continuidade das estruturas do Antigo Regime no Brasil, mas com adaptações locais. Schultz, no entanto, ressalta que a escravidão em larga escala criou uma sociedade colonial distinta da europeia.

Quanto ao posicionamento no campo acadêmico, destaco que o livro se insere em debates recentes sobre a natureza do poder imperial português. Dialogando com autores como Luiz Felipe Alencastro e Maria Fernanda Bicalho, Schultz mostra como o Brasil era um território estratégico, mas também um espaço de tensões. No que se refere à escravidão como instituição central, a autora segue a linha de John Manuel Monteiro e Sherwin Bryant, que analisam a escravidão não apenas como um sistema econômico, mas como um mecanismo de controle social. Por fim, ao abordar a economia política do ouro, a obra contribui com estudos sobre o impacto do ouro na economia atlântica, resgatando uma tradição que remonta ao clássico estudo de Virgílio Noya Pinto e a trabalhos mais recentes, como os de Jorge Pedreira e Júnia Furtado.

Em uma avaliação crítica da obra, destaco como pontos fortes a abordagem multifacetada, na qual Schultz incorpora contribuições da história política, econômica e social de forma coesa, demonstrando uma visão abrangente do período colonial. A autora também se destaca pelo uso inovador de fontes, analisando tanto documentos administrativos quanto crônicas que oferecem perspectivas diversas sobre o século XVIII. Outro mérito importante é sua crítica ao eurocentrismo, pois, apesar de ser uma pesquisadora vinculada ao Norte Global, Schultz evita interpretações reducionistas que tratam o Brasil como mera extensão de Portugal.

Quanto às limitações, observo que a obra poderia explorar com maior profundidade as perspectivas dos escravizados e dos grupos marginalizados, o que ampliaria a análise sobre as resistências locais. Outro aspecto que mereceria maior desenvolvimento é o recorte espacial, já que o foco em Minas Gerais deixa em segundo plano regiões igualmente importantes, como o Nordeste açucareiro e o Norte da colônia.

Por fim, os efeitos econômicos das reformas implementadas no período poderiam ser objeto de reflexão mais detalhada. Uma análise mais aprofundada sobre como medidas como a capitação afetaram a economia local, por exemplo, certamente enriqueceria o estudo e proporcionaria uma compreensão mais completa das dinâmicas coloniais.

De toda forma, Schultz cumpre com rigor o objetivo anunciado na introdução - analisar as transformações que redefiniram a América portuguesa como colônia no século XVIII -, articulando de forma convincente as dimensões política, econômica e social do Império português. Sua opção metodológica, que combina fontes administrativas e narrativas coloniais, é um dos pontos fortes da obra, pois permite reconstruir tanto as estratégias da Coroa quanto às percepções das elites locais. Embora o recorte espacial centrado em Minas Gerais - justificável pela centralidade do ouro nas dinâmicas do período - deixe em segundo plano regiões, onde lógicas distintas de exploração também moldaram o projeto de colonização, a obra supera essa limitação ao abordar mecanismos estruturais (como fiscalidade e escravidão) que ecoaram em toda a América Portuguesa. A profundidade da pesquisa e o diálogo da autora com vasta bibliografia e fontes consolidam este livro como referência indispensável para os estudos coloniais, e destaco, ainda, a urgência de sua tradução para o português - não apenas para ampliar seu acesso, mas também para enriquecer debates historiográficos que demandam perspectivas globais sobre o colonialismo luso.

From Conquest to Colony é uma obra essencial para entender o Brasil do século XVIII, oferecendo uma visão sofisticada das transformações que redefiniram o território como colônia.

Bibliografia

  • ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. O Brasil colonial (1720-1821). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
  • HESPANHA, António Manuel. Às vésperas do Leviathan: Instituições e poder político. Portugal, século XVII. Lisboa: Almedina, 1994.
  • NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1979.
  • PRADO-JR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1942.
  • SCHULTZ, Kirsten. From Conquest to Colony: Empire, Wealth, and Difference in Eighteenth-Century Brazil. New Haven: Yale University Press, 2023.
  • XAVIER, Ângela; NOGUEIRA DA SILVA, Cristina. O governo dos outros: Poder e diferença no Império Português. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2016.
  • 2
    Mestrando em História e bolsista CNPq, vinculado ao PPG em História da Escola de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP), onde desenvolve a pesquisa intitulada: Que o modo vença mais que o poder”: uma análise das práticas de combate à corrupção durante o período pombalino (Pernambuco e Minas Gerais, c. 1758-1768). E-mail: d.silva16@nifesp.br
  • Editores responsáveis
    Ignacio Telesca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Abr 2025
  • Aceito
    24 Abr 2025
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