Uma coleção de história em um museu de ciências naturais: o Museu Paulista de Hermann von Ihering

Resumos

Instalado em um edifício-Monumento, data de 1895 a inauguração do Museu Paulista. Seu primeiro diretor, o zoólogo Hermann Von Ihering (1895-1916), teve a tarefa de organizar suas vastas coleções, as quais possuíam objetos de diversos ramos do conhecimento, entre eles, a História. Este artigo tem a intenção de entender a dimensão, dinâmica e concepção desta coleção de História, que recebeu pouca atenção da Historiografia relativa ao tema.

Museu Paulista; Hermann Von Ihering; Museus; Coleções museológicas


The Museu Paulista, installed in a landmark building, was inaugurated in 1895. Its first director, the zoologist Herman von Ihering (1895-1916) undertook the assignment of organizing its extensive collections, which comprehended objects pertaining to varied fields of knowledge, including that of History. The present article aims at understanding the dimension, the dynamics and the conception of this historical collection. Until now little attention has been bestowed upon this subject matter by the specialized historiography.

Museu Paulista; Hermann Von Ihering; Museums; Museum collections


MUSEUS

Uma coleção de história em um museu de ciências naturais: o Museu Paulista de Hermann von Ihering1 1 . Este artigo é resultado de pesquisa de iniciação científica desenvolvida no Museu Paulista, sob orientação da Prof.a Dr.a Heloisa Barbuy, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Fábio Rodrigo de Moraes2 2 . Historiador, bacharel em História pela FFLCH/USP. E-mail: < fabiomoraes@hotmail.com>.

RESUMO

Instalado em um edifício-Monumento, data de 1895 a inauguração do Museu Paulista. Seu primeiro diretor, o zoólogo Hermann Von Ihering (1895-1916), teve a tarefa de organizar suas vastas coleções, as quais possuíam objetos de diversos ramos do conhecimento, entre eles, a História. Este artigo tem a intenção de entender a dimensão, dinâmica e concepção desta coleção de História, que recebeu pouca atenção da Historiografia relativa ao tema.

Palavras-chave: Museu Paulista. Hermann Von Ihering. Museus. Coleções museológicas.

ABSTRACT

The Museu Paulista, installed in a landmark building, was inaugurated in 1895. Its first director, the zoologist Herman von Ihering (1895-1916) undertook the assignment of organizing its extensive collections, which comprehended objects pertaining to varied fields of knowledge, including that of History. The present article aims at understanding the dimension, the dynamics and the conception of this historical collection. Until now little attention has been bestowed upon this subject matter by the specialized historiography.

Keywords:Museu Paulista. Hermann Von Ihering. Museums. Museum collections.

Em sua primeira fase, correspondente à gestão do zoólogo Hermann von Ihering (1894-1916), o Museu Paulista foi, primordialmente, um museu de História Natural. Instalado, no entanto, em um monumento à Independência do Brasil, sempre teve também um forte vínculo com a "História Pátria". Assim, em meio às vastas e principais coleções de espécimes naturais, formou-se uma coleção de "objetos históricos", cuja origem e datação ainda são pouco conhecidas dos pesquisadores.

Na última década, várias teses e escritos foram produzidos sobre o Museu Paulista, tendo como foco principal ou a gestão de Hermann von Ihering e sua prioridade concedida à História Natural ou a gestão de Affonso d'Escragnolle Taunay, em que o Museu Paulista ganhou perfil de Museu de História. Entretanto, a existência da Seção de História e, mais especialmente, da Coleção de História no Museu Paulista, constituída durante a direção de Hermann von Ihering, foi muito pouco abordada.

Ao primeiro diretor, foram dedicados alguns capítulos da tese de doutorado de Elias3 3 . Ver Maria José Elias (1996). . Essa tese, porém, demonstra uma maior preocupação com o caráter institucional do Museu Paulista, e não, com suas exposições e coleções. Schwarcz, em seu livro O Espetáculo das Raças4 4 . Ver Lilia Moritz Schwarcz (1993). e em capítulo denominado O Nascimento dos Museus Brasileiros5 5 . Ver Lilia Moritz Schwarcz (1989). , pesquisou o Museu Paulista especificamente sob a direção do zoólogo Hermann von Ihering. Entretanto, também nessas obras não há uma preocupação com as exposições e coleções do museu. Ao estudar o diretor do museu, Schwarcz trata de suas concepções no tocante às raças no Brasil e às teorias raciais em geral, priorizando, assim, um recorte de "museu etnográfico", sem, porém, deter-se nas coleções e exposições do Museu, e menos ainda naquelas vinculadas à temática histórica.

Outra referência central sobre a gestão Ihering é o livro de Lopes6 6 . Ver Maria Margaret Lopes (1997). , resultado de uma pesquisa sobre a relação entre os museus brasileiros, a História Natural e a ciência no século XIX e começos do XX. Lopes aprofunda a abordagem do caráter científico-natural daquela gestão. Entretanto, novamente não são tratadas em seu livro as coleções de objetos históricos e numismáticos, à época consideradas não científicas.

Já a obra de Alves (2001) é uma pesquisa específica sobre a instituição, considerando o mesmo período em que este trabalho se concentra. Nessa obra, a autora analisa a construção do Monumento do Ipiranga, a instituição do Museu Paulista, os projetos políticos para o museu e suas coleções. Dedica o segundo capítulo à atuação institucional do Museu Paulista durante a gestão de Hermann von Ihering, com algumas páginas dedicadas à coleção de história do museu e à concepção de Ihering sobre elas7 7 . Ver item 2.5, A História, em Ana Maria de Alencar Alves (2001). . Alves lembra que a constituição de uma coleção de história do museu é anterior à gestão Ihering, pois já era pensada desde a construção do edifício, como indica a encomenda, para exposição no Salão Nobre do Museu Paulista, do quadro de Pedro Américo Independência ou Morte. Entretanto, havia uma grande "desproporção entre as coleções de História [Pátria] e História Natural"8 8 . A autora, como argumento para esta afirmação, mostra a desproporção quanto às salas: "às treze salas de História Natural somavam-se apenas uma sala de objetos históricos, uma de armamentos e uma com a coleção numismática". Ver Idem, p. 136. . Tal afirmação vem se confirmando com a pesquisa da correspondência do Museu Paulista, que revela número elevado de aquisições e permutas relativas às coleções de História Natural quando comparado ao das ligadas à coleção de História Pátria.

Por fim, a tese de Brefe (1999), fornece informações importantes, principalmente no tocante às relações entre o Museu Paulista e o Ipiranga como lugar simbólico, incluindo o contexto de florescimento dos museus históricos na Europa, mas concentra-se na gestão Taunay e não aborda a constituição da coleção histórica anterior a essa gestão.

Possivelmente, a coleção de história no Museu de Ihering ainda não obteve maior atenção dos pesquisadores devido a uma idéia, muito difundida e cristalizada, de que tal coleção foi praticamente esquecida durante a gestão considerada. Grande parte da difusão dessa crença deve-se a Affonso d'Escragnolle Taunay, sucessor de Hermann von Ihering na direção do Museu Paulista, que em seus trabalhos jamais enfatizou os artefatos e obras de arte reunidas por seu antecessor. Sem dúvida, a coleção histórica foi prioritária durante a direção de Taunay; no entanto, como veremos, não foi esquecida por Ihering.

De monumento a museu: os primórdios de uma coleção

O Monumento do Ipiranga foi um edifício construído pelo governo provincial, e apoiado pelo governo imperial, como panteão comemorativo da Independência do Brasil. Houve várias propostas e tentativas para a construção de um monumento no Ipiranga9 9 . Para um resumo das diversas tentativas e projetos, cf. Maria Helena Flynn (1990, p. 14). . Fora assumido como momento oficial da Independência aquele em que, na colina do Ipiranga, o príncipe-regente D. Pedro I a proclamara, em 1822. Este edifício-monumento, assim, foi construído no local que simbolizava a formação da nação brasileira10 10 . Sobre a memória da independência, ver Cecília Helena de Salles Oliveira (1995). .

Datam de 1824 as primeiras propostas de criação, no Ipiranga, de um monumento comemorativo da Independência. Após várias tentativas, idas e vindas, os trabalhos para a construção desse monumento (mais exatamente um edifício-monumento) começaram em 1885, dando-se por findas em 189011 11 . Cf. Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses (1990, p.1). .

No entanto, o imenso edifício-monumento deveria destinar-se a outra função além da comemorativa. O Museu Paulista foi a instituição escolhida para ocupar o edifício, porém isso demorou a ser decidido. Ainda antes da construção do Monumento (e também durante), foram travados vários debates sobre qual atribuição seria dada ao edifício. Entre as propostas estavam as de um asilo, de uma escola agrícola, de uma universidade ou liceu secundário12 12 . Cf. Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 38-46). . Com a Proclamação da República, o impasse perdurou durante mais três anos após o término da construção do Monumento e, por fim, em 1893, decidiu-se que o Museu Paulista (ainda em projeto) ocuparia o edifício.

O nome escolhido para dirigir a instituição foi o do zoólogo alemão Hermann von Ihering, pesquisador da Comissão Geográfica e Geológica. Assim, entre 1893 e 1895, as coleções foram sendo transferidas para o Monumento do Ipiranga e, em 7 de setembro de 1895, em uma comemoração solene, inaugurava-se o Museu Paulista.

Mas qual seria a intenção do governo republicano em criar um museu em São Paulo? Acreditamos que seja devido à conjunção de três fatores principais: um projeto da elite política e econômica de São Paulo, que viu na construção de um museu estadual uma nova forma de legitimar-se no cenário nacional, pois, na chamada Era dos Museus, um museu científico era importante elemento de modernização do estado13 13 . Sobre o projeto da elite paulista, cf. Lilia Moritz Schwarcz (1993, p. 79); e Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 38-46). Sobre a chamada Era dos Museus, na Europa, ver Roland Schaer (1993); quanto à inserção do Brasil na Era dos Museus, ver Maria Margaret Lopes (1997). ; a doação da Coleção Sertório ao Governo do Estado de São Paulo e o debate acerca do destino que seria dado a ela; o local onde foi instalado o Museu Paulista e sua significação simbólica.

Na Era dos Museus, o museu de História Natural era o grande modelo de museu moderno e científico14 14 . Cf. Heloisa Barbuy (2002 p. 67). . Conseqüentemente, no Brasil de fins do século XIX, uma província ou estado que possuísse um deles teria maior visibilidade no cenário nacional e mesmo internacional, já que nesse tipo de museu era freqüente o intercâmbio com congêneres estrangeiros. No caso de São Paulo, tal visibilidade poderia colaborar na legitimidade do poder exercido pela elite paulista nos começos da era republicana.

A necessidade de entender o mundo, com a catalogação dos espécimes, objetos etc., fez com que o modelo de museu de História Natural fosse o mais prestigiado na Europa do século XIX15 15 . Idem (2005, p. 36-37). . Museu enciclopédico por excelência, permitia que os pesquisadores, a pouca distância de algumas gavetas, tivessem contato com exemplares da cultura, da flora e da fauna de várias partes do mundo16 16 . Cf. Maria Margaret Lopes (1997, p. 14). . Além disso, o empírico e o visível passaram a ser, além de base da produção de conhecimento, alicerces para o caráter didático de que se revestiram os museus abertos ao público17 17 . Cf. Heloisa Barbuy (2002, p. 67). .

No processo de construção e valoração das identidades nacionais, também ganha importância na Europa pós-revolução um modelo de museu "histórico", ou seja, que trabalhava com objetos ligados à história. A criação do Musée des Monuments Français e do Musée de Cluny, ambos na França, pode ser tomada como elo fundamental desse processo. O primeiro, criado em 1795 pelo arqueólogo francês Alexandre Lenoir (1761-1839), tinha a proposta de, com base nos objetos confiscados pelo governo revolucionário, elaborar uma história de caráter nacional18 18 . Cf. Ana Cláudia Fonseca Brefe (2005, p. 32-37). . Já o Musée de Cluny foi criado em 1832 por Alexandre du Sommerard e, diferentemente do Museu de Lenoir (cuja perspectiva de rememoração do passado era cronológica), tinha como objetivo "uma construção integrada de totalidades históricas"19 19 . Idem, p. 37. , com base na reconstituição material, em espaços do museu, de épocas históricas. O modelo de museu histórico referenciado nas experiências francesas prolifera, então, pela Europa e pelo mundo, o que faz alguns autores considerarem o século XIX como o "século dos museus históricos"20 20 . Apenas para apontar dois desses autores, cf. Ana C. Fonseca Brefe, (2005, p. 30); e Ulpiano T. B. Meneses (1994, p.12). . Também esta nova dinâmica criadora de museus foi chamada de A Era dos Museus por vários historiadores21 21 . Entre eles os já citados Roland Schaer e as brasileiras Maria Margareth Lopes e Lilia Moritz Schwarcz. .

No Brasil, a chamada Era dos Museus teve início no ano de 1818, com a criação do Museu Real, depois Nacional, mas efetivou-se nos anos de 1890, quando o Museu Nacional passou a disputar sua hegemonia científica com dois outros museus: o Museu Paraense (batizado, em 1890, de Museu Paraense Emílio Goeldi), um museu de história natural; e o Museu Paulista, que em sua gênese trazia tanto o modelo de museu de história natural, primordial, como, secundariamente, o modelo de museu histórico. Não por acaso, tais preocupações com a produção científica no Brasil aumentaram em grande escala no início da Primeira República. Considerando que o museu de história natural era o modelo de museu científico mais prestigiado na época, um estado que demostrasse preocupação com a ciência ganharia maior visibilidade, fosse no cenário nacional ou internacional.

A elite dirigente paulista foi responsável, em grande parte, pela criação do Museu Paulista, utilizando inclusive a imprensa como mecanismo de pressão durante os debates políticos acerca da função que seria dada ao Monumento do Ipiranga22 22 . Ver Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 34-78). .

Inaugurado o Museu Paulista, a elite dirigente de São Paulo utilizou-o como um instrumento para legitimar o poder exercido no âmbito nacional. Essa afirmação encontra respaldo no discurso de Hermann von Ihering, diretor do Museu Paulista, quando de sua inauguração: "Seja-me permitido congratular-me com sua excelência por ter criado um museu sobre bases realmente científicas como até agora no Brasil não existiu". Em outro trecho de seu discurso, Ihering afirmou que, em se tratando de classificações científicas no Brasil, "muito, para não dizer tudo, está por fazer ainda"23 23 . Trechos do discurso de von Ihering em 1895, apud Lilia M. Schwarcz (1993, p. 80). . Tratava-se de um recado para o Museu Nacional, o grande museu científico brasileiro até então24 24 . Cf. Lilia M. Schwarcz (1993, p. 80-81). . Não seria muito difícil transportar essa rivalidade entre museus para o campo político de inícios da era republicana.

Ainda que o Monumento do Ipiranga não tenha sido construído para abrigar um Museu, nele estando instalado o Museu Paulista, a tônica histórica não podia ser esquecida. Localizado distante do centro da cidade, o Ipiranga não constituía um bairro, mas, sim, um sítio histórico. Assim, embora hoje possa parecer ao senso comum que o Museu Paulista tenha sido batizado popularmente como Museu do Ipiranga devido à sua localização espacial (o que, agora, pode até ser o motivo principal do seu nome popular), tal afirmação não é aplicável ao fim do XIX e começo do XX. O que explica as diversas correspondências endereçadas ao Museu do Ipiranga25 25 . Exemplo de correspondência endereçada ao Museu do Ipiranga: "Tenho a honra de remeter-vos em nome da comissão Promotora de um brinde a Santos Dumont oferecido pela Colônia Brasileira desta cidade, um exemplar da medalha que foi entregue juntamente com o brinde, aquele nosso glorioso compatriota, pedindo a Vsa. Exa. o obséquio de conservá-la no arquivo do Museu do Ipiranga, como lembrança da homenagem dos brasileiros residentes ou de passagem nesta capital, ao intrépido aeronauta brasileiro" (grifo nosso). Correspondência do Secretário da Comissão Promotora de Brinde a Santos Dummont ao Diretor do Museu Paulista. 17 abr. 1903. Fundo Museu Paulista. Pasta78. é, antes da localidade, o sítio histórico onde foi proclamada a Independência do Brasil e, assim, onde nasceu simbolicamente a nação brasileira26 26 . Ver Ana Cláudia Fonseca Brefe (1999). .

Como afirmou Meneses, no Brasil, o modelo de museu do século XIX "é o do museu de História Natural, no qual se insere organicamente a Antropologia e, como um enclave evocativo e celebrativo, a História"27 27 . Cf. Ulpiano T. B. de Meneses (1994, p. 14-15). . A nosso ver, o Museu Paulista de Ihering é um museu que, exemplarmente, expõe esse caráter ambíguo. Apesar de, durante a gestão Ihering, as coleções de História Natural serem as largamente priorizadas, o Museu Paulista é o museu brasileiro oitocentista em que a coleção de História Nacional era realmente significativa, pela própria condição memorial de seu edifício.

Entendemos aqui coleção de História Nacional como sendo uma coleção de objetos históricos. As coleções de numismática parecem comuns a todos os museus brasileiros do século XIX28 28 . Inclusive no Museu Paranaense havia uma coleção numismática, Segundo Maria Margareth Lopes (1997, p. 209). . Por outro lado, no Museu Paraense, as coleções de história e numismática foram desmembradas e não faziam parte do acervo29 29 . Idem, p. 270. . Não temos informações de que tenha sido criada uma seção de história ou sequer menção à existência, anterior a 1937, de uma coleção de história no Museu Paranaense, embora em uma notícia sobre a sua fundação esteja publicado que o museu era dotado de importantes coleções de "objetos indígenas, de moedas, papel, prata e cobre; pedras e outros minerais; conchas, insetos e algumas raridades"30 30 . Idem, p. 207-213 (grifo nosso). . No Museu Nacional (como será demonstrado adiante) havia uma coleção numismática, embora, para a realização deste artigo, não tenha sido encontrada menção a qualquer tipo de coleção histórica.

É preciso notar que ser o local de significação histórica estava presente regularmente na retórica de von Ihering, como se pode notar no trecho do discurso proferido na solenidade de abertura do Museu Paulista, em sete de setembro de 1895, publicado no número inaugural da Revista do Museu Paulista:

Não há ponto mais importante na história do Estado de São Paulo do que a colina do Ipiranga. Aqui pulsou a vida paulista desde mais de três séculos. Foi desta colina que o primeiro donatário da capitania de São Vicente, o legendário e heróico, Martim Afonso de Souza, em 1531 lançou a primeira vista o olho sobre a nascente capital deste estado, representada naqueles dias pela povoação de Piratininga, na qual o célebre chefe dos Goyanás, Tibiriçá, reinou como aliado e amigo dos portugueses, e foi desta colina sobre a qual passa a antiga rua de Santos a São Paulo, sempre no meio dos acontecimentos que decidiram os destinos da capitania, da província, do Estado de São Paulo, até que veio o dia glorioso, o dia 7 de Setembro de 1822, em que nasceu a independência do Brasil, que criou para sempre a nacionalidade brasileira.31 31 . Cf. Rodolfo von Ihering (1895, p. 9).

Outro documento interessante - no sentido de afirmação da importância do local - é uma correspondência de 29 de abril de 1902, em que Ihering pede ao Instituto Histórico Geográfico de São Paulo informações sobre o local exato da Proclamação da Independência:

Venho solicitar o auxílio do Instituto de que sois dignamente presidente, para a solução de uma questão que muito interessa a História Pátria. Trata-se da averiguação da localidade exata em que foi declarada a Independência do Brasil. Pelas informações todas contraditórias que tenho sobre o assunto, nada consta ao certo, senão que o Monumento do Ipiranga não foi construído no respectivo lugar. Foi roubada uma caixa de ferro que continha documentos e moedas de ouro, e, bem assim, um mastro que, segundo me informaram, marcava o verdadeiro lugar da proclamação da independência. Não me foi possível saber ao certo se a caixinha em cuja proximidade se deu a declaração da independência ainda existe ou não e tão pouco se o fato histórico se deu em terreno pertencente ao governo. Entendo que a localidade exata devia ser marcada por um obelisco, porém, antes de tudo, é necessário conhecer o respectivo local. Peço, pois, a V. Exa. que se digne providenciar no sentido de que o instituto por meio de uma comissão especial por V. Exa. nomeada trate do assunto, averiguando o lugar onde se deu a Proclamação da Independência, o que provavelmente ainda será possível, ao passo que para o futuro daqui a 20 anos será mais difícil.32 32 . Correspondência do Diretor do Museu ao Instituto Histórico Geográfico de São Paulo. 29 abr. 1902. FMP. p. 77.

Malgrado a consciência do nexo inevitável com a história pátria, o modelo institucional do Museu Paulista foi realmente o chamado museu de História Natural. No entanto, diferentemente do Museu Nacional e do Museu Paraense Emílio Goeldi, cujas coleções eram voltadas claramente à história natural, havia no Museu Paulista, como dissemos, uma significativa coleção de História Pátria, que foi sendo expandida por Ihering, a despeito da prioridade concedida por ele à história natural.

Entender os motivos da instalação de uma coleção de história no Museu Paulista é lembrar, antes de tudo, o caráter simbólico do local onde se encontra o Museu Paulista, o Ipiranga, e, em segundo lugar, o fato de haver vários objetos históricos na Coleção Sertório, adquirida pelo Estado antes mesmo da inauguração do Museu.

Inicialmente, o acervo geral do Museu Paulista - e dentro dele o acervo histórico - foi formado a partir de duas grandes coleções de objetos: a principal delas, a coleção do coronel Sertório, chamada em fins do século XIX de "Museu Sertório"; e a coleção do Museu Provincial de São Paulo33 33 . Cf. Maria José Elias (1996, p. 141); e Lilia M. Schwarcz (1989, p. 41). . Ambas foram reunidas pouco antes de 1890, ano em que a coleção Sertório fora doada ao Estado, ao ser criado o Museu do Estado, logo rebatizado como Museu Paulista34 34 . O nome da nova instituição mudou de Museu do Estado para Museu Paulista alguns dias após sua designação como instituição autônoma. Cf. Miyoko Makino (1997). .

A coleção do coronel Sertório era muito extensa, fato lembrado em diversos relatos dos que a visitaram. Henrique Raffard, em seu Alguns Dias na Paulicéia, fez uma descrição do Museu Sertório recomendando aos leitores a visita35 35 . Cf. Henrique Raffard (1977, p. 86-89). . Outro relato da época, de Carl von Koseritz, declara que as coleções do coronel Sertório "constituem um museu como nenhuma província do país possui e representa valor muito grande"36 36 . Cf. Carl von Koseritz (1980, p. 265-267). . Sua coleção passou, em 1883, a ser organizada pelo botânico Alberto Loefgren, que buscava dar um caráter científico às coleções de Sertório, processo esse que ainda está por ser esclarecido, bem como o caráter da sua coleção.

Já o Museu Provincial fora criado em 1877, pela Sociedade Auxiliadora do Progresso da Província de São Paulo. Também era de caráter particular, mas esteve ligado à esfera do poder público. Assim, em sua inauguração, o Museu Provincial contou com a presença de conde D'Eu, entre outros personagens ilustres, sendo a solenidade bastante divulgada na imprensa37 37 . Cf. Maria José Elias (1996, p. 140); . Esta procura por caráter público explica, também, um documento datado de 1880, aos cuidados do presidente da província de São Paulo Laurindo Abelardo da Silveira, mencionando o envio de 29 moedas "destinadas à seção numismática do museu de São Paulo"38 38 . Cf. Correspondência de João Baptista da Silveira ao Presidente de Província de São Paulo. Fundo Permanente do Arquivo do Estado. . Entretanto, mesmo que, ao que tudo indica, acolhido pelo Estado39 39 . Maria José Elias (1996, p. 140-141) afirma que o museu foi entregue aos cuidados da administração provincial, inclusive ocupando espaço no prédio do governo provincial, no Pátio do Colégio. , o Museu Provincial cai no esquecimento, desaparecendo das crônicas e da documentação, o que constitui outra questão que necessita de melhor esclarecimento.

Sobre a formação do acervo inicial do Museu Paulista resta ainda uma dúvida. Houve também a anexação de uma pequena coleção (de um colecionador chamado Peçanha), mas não temos informações conclusivas a respeito da origem dessa coleção, nem com base na documentação, nem com base na historiografia. No verbete Sociedade Auxiliadora do Progresso, do Dicionário de História de São Paulo, registra-se que:

Fundada na capital da Província, tendo por presidente o Dr. Rodrigo Augusto da Silva, inaugurando, em 11-7-1877, em uma das salas do Palácio do Governo, o museu provincial, do qual eram diretores os drs. Rafael de Barros, Américo Brasílio de Campos, José Luciano Barbosa, Elias Fausto Pacheco Jordão e Antonio Lobo Peçanha. Extinta a sociedade, passaram os objetos do museu para o museu Sertório, que, posteriormente, foi adquirido pelo Conselheiro Mairinque [sic], que o doou ao Estado40 40 . Cf. Antonio Barreto do Amaral (1980, p. 438-439) (grifo nosso). .

Esse trecho indica a possível origem da coleção Peçanha: trata-se da coleção do Museu Provincial, depois, como já informado, anexada à coleção Sertório.

Em 1890, o conselheiro Francisco de Paula Mayrink compra a casa do coronel Sertório (juntamente com sua coleção); no mesmo ano, em 23 de dezembro de 1890, dela faz doação ao Governo do Estado de São Paulo.

Em sete de abril de 1891, foi criado o Museu do Estado41 41 . Cf. Ofício de Orville A. Derby a Hermann von Ihering, em 29 ago. 1895. In: Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. 1, p. 13 -14, 1895. , subordinado à Comissão Geográfica e Geológica, sob direção interina de Loefgren. Na lei de 1892, referente ao orçamento para 1893, o Governo do Estado anexou o Museu do Estado à Comissão, representando isso o fim da sua verba mensal, destinada à conservação, à administração provisória e à incorporação do seu pessoal. Assim, as coleções - que em dezembro de 1892 já haviam sido transferidas para o Largo do Palácio (pois o proprietário da casa que antes ocupavam havia pedido o imóvel) - foram mais uma vez transferidas, em março de 1893, para um edifício que servia também como sede da Comissão Geográfica e Geológica, na rua da Consolação, nº 91.

Para ajudar seu amigo Ihering, Orville A. Derby, diretor da Comissão Geográfica e Geológica, pede a criação de uma seção zoológica na Comissão. A proposta foi aceita e, para o cargo correspondente, foi designado Hermann von Ihering a partir de maio de 189342 42 . Sobre as negociações entre Ihering e Derby, ver Maria Margareth Lopes (1997, p. 268-270); e Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 62-69). . Segundo o próprio Ihering, os trabalhos no cargo foram prejudicados pela falta de condições e de preparo dos ajudantes.

O Governo, "ciente da dificuldade", meses depois decidiu reorganizar o Museu, com duas leis: a primeira, lei nº. 192 de 26/08/1893, que destinava o Museu do Estado a ocupar o Monumento do Ipiranga; a segunda, lei nº. 200 de 29/08/1893, que rebatizou o museu como Museu Paulista e o tornou uma instituição independente subordinada à Secretaria do Interior43 43 . Cf. Hermann von Ihering (1895, p.1). . As duas leis foram executadas no ano seguinte e, como já dito, no dia 15 de Janeiro de 1894, Ihering é nomeado diretor da nova instituição. Entre os dias 3 de fevereiro e 11 de maio de 1894, as coleções foram sendo transferidas para o Monumento e, entre maio de 1894 e Setembro de 1895, foram sendo feitos os trabalhos de preparação das coleções, exposições etc.44 44 . Idem, p. 12. No dia 7 de setembro de 1895, em cerimônia solene, foi inaugurado o Museu Paulista45 45 . O já citado primeiro volume da Revista do Museu Paulista relata detalhes da cerimônia. .

A questão da História e sua regulamentação

Primeiramente, convém lembrar que, na época de inauguração do Museu, a separação entre os saberes era tênue e, sendo assim, algumas seções se confundiam e misturavam-se. Ihering, por diversas vezes, chegou a afirmar que o que era aplicável à história da natureza era aplicável à história dos homens46 46 . Lilia M. Schwarcz (1993, p. 82). . Assim, o fato de ter priorizado as coleções de arqueologia, de zoologia ou de botânica não significa necessariamente que veria a seção histórica como algo desprestigiado. Em sua gestão no Museu, já havia distinção entre saberes, referindo-se História Natural às coleções de zoologia, botânica, geologia etc.; e História Pátria, às coleções de história, sendo a coleção Numismática e a Artística (também chamada, por aquele diretor, de Galeria Artística) duas coleções separadas. No entanto, ao expor os objetos (como será visto), Ihering colocava a suposta separação de lado, principalmente quanto às coleções de História Pátria e Artística.

Sendo o panteão da pátria, o edifício-monumento do Ipiranga deveria ter uma coleção que representasse a História do Brasil. Por outro lado, em um sentido mais prático, a coleção inicial do Museu foi oriunda de uma doação ao Governo do Estado de São Paulo, que, a princípio, não tinha para ela uma destinação prevista. Ihering tinha consciência da importância histórica do Museu Paulista, ao ser aí localizado, e que ele ia ser o destino das coleções de história, sendo portanto, pertinente, a criação de uma seção histórica adequada.

Assim, ao examinar-se o regulamento da instituição, constata-se que os dois primeiros artigos são referentes às coleções de História Natural e outros são ligados a aspectos administrativos e institucionais, à exceção do terceiro, dedicado à seção histórica:

Art. 3.º - Além das coleções de ciências naturais, haverá no Museu uma seção destinada a História Nacional e especialmente dedicada a colecionar e arquivar documentos relativos ao período de nossa independência política.

§ 1.º - Nas galerias e lugares apropriados do edifício serão colocadas as estátuas, bustos ou retratos a óleo de cidadãos brasileiros que, em qualquer ramo ou atividade, tenham prestado incontestáveis serviços a Pátria e mereçam do Estado a consagração de suas obras e feitos e perpetuação de sua memória.

§ 2.º - Para dar cumprimento ao disposto no parágrafo precedente, o governo nomeará uma comissão que se encarregará de indicar dentre os vultos proeminentes de nossa história aqueles cuja memória deverá ser perpetuada.

§ 3.º - Desta galeria de homens ilustres não farão parte senão os já falecidos e que tenham a favor o juízo da História.

Art. 4.º - No mesmo museu haverá lugar para o quadro de Pedro Américo, comemorativo da Independência, e para outros de assunto de história e costumes pátrios, adquiridos ou oferecidos ao Estado.

§ 1.º - Para julgar o valor dos quadros que o Estado resolva adquirir, o governo nomeará uma comissão de profissionais e pessoas entendidas que sobre assunto emitirá parecer.47 47 . Cf. Affonso E. Taunay (1937, p. 46).

Taunay, que sucedeu Ihering na direção do Museu Paulista48 48 . Após a saída de Ihering, o cargo de diretor do Museu Paulista foi, por pouco mais de 6 meses, ocupado por Armando Prado. Cf. Miyoko Makino (1997). , afirma que o regulamento da instituição relegava a Seção de História a uma posição secundária e acusa Hermann von Ihering de dar pouca importância a ela, deixando "quadros históricos na mesma sala que animais empalhados"49 49 . Cf. Affonso E. Taunay (1937, p. 47-48). . No entanto, ainda que quantitativamente secundária, a seção de história do Museu Paulista não foi esquecida por Hermann von Ihering, e este é um aspecto de interesse para o presente artigo, pois pode permitir uma melhor compreensão acerca do lugar da história naquele museu enciclopédico.

Um acervo em expansão

A partir de exame da correspondência da diretoria do Museu de 1893 a 1916, foram obtidas indicações importantes de que houve preocupação constante com a seção de história. Tal documentação revela que a seção histórica, juntamente com a seção numismática, apresenta um considerável volume de aquisições, doações e movimentação de peças, incluindo telas não ligadas ao gênero histórico.

Em 1894, o Museu Paulista, que ainda não estava aberto ao público, enviou ao Museu Nacional o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo - desde o início destinado ao Salão Nobre50 50 . Para um dossiê desta pintura, ver Cecília H. de Salles Oliveira (1999). -, para que figurasse na Exposição de Chicago51 51 . Ofício de H. von Ihering à Secretaria do Interior em 5 jun 1894. Fundo Museu Paulista, pasta 69. ; empréstimo que revela o destaque do mais notório item da coleção ligado à história.

No ano de 1895, a seção numismática obteve mais atenção. Essa coleção - que, segundo Ihering, "possuía uma grande representação das moedas portuguesas e brasileiras deste século e do passado"52 52 . Correspondência de Hermann von Ihering ao diretor do Arquivo Nacional em 21 jun. 1895. Ibidem. - obteve várias propostas de aumento de acervo. Naquele ano, foram duas as propostas de venda recebidas pelo Museu, a saber: a coleção particular de "moedas antigas" do Sr. Belli53 53 . Correspondência de B. Belli ao diretor do Museu Paulista, em 29 jun. 1895. Ibidem. e a coleção numismática e arqueológica do Sr. Sérgio Catvieri, do Rio de Janeiro, coleção essa que, em razão da Proclamação da República, acabara não sendo comprada pelo Museu Nacional54 54 . O Sr. Catvieri escreve a Ihering que sua coleção "estava no Museu Nacional por ordem do imperador que desejava compra-la. Porém os acontecimentos políticos embaraçaram as negociações". Correspondência de Savério Catvieri ao diretor do Museu Paulista, em 28 nov. 1895. Ibidem. . Além dos oferecimentos, Ihering tentou permutar a coleção numismática do Seminário Episcopal por duplicatas de animais, proposta negada pelo padre reitor do Seminário. No tocante a aquisições, podemos nomear apenas a grande aquisição das moedas de Júlio Ribeiro, que já vinha sendo almejada pelo Museu Paulista. A verba para sua aquisição, 15 mil contos de Réis, foi liberada na Câmara Municipal em inícios de 189455 55 . Em meados de 1895, Ihering pede ao Arquivo Nacional para designar uma pessoa no Rio de Janeiro para avaliar a coleção e, já em inícios de 1896, pede à Secretaria do Interior um ajudante para organizar a coleção. Ver Ofício à Secretaria do Interior, em 15 jan. 1896. Fundo Museu Paulista, pasta 70. .

À parte a numismática, é no ano de 1896 que acontece a primeira compra de objetos históricos pelo Museu Paulista, adquiridos de Eugênio Hollander. Embora ainda não tenha sido encontrada a relação desses objetos, pode-se dizer que foram considerados de valor, já que mereceram de Ihering uma menção especial no relatório do 1º semestre do Museu à Secretaria do Interior56 56 . Ihering escreve, em ofício à Secretaria do Interior, que "as coleções expostas ao público foram completadas merecendo menção especial os objetos históricos comprados do Sr. Eugênio Hollander". Cf. Ofício de Ihering à Secretaria do Interior, em 30 jun. 1896. Ibidem. . Nesse mesmo ano houve, também, a doação de um urinol da Marquesa de Santos pela Secretaria do Interior57 57 . Ofício da Secretaria do Interior ao Museu Paulista, em 18 jun. 1896. Ibidem. e o empréstimo, por Bertha Worms, do quadro Canto do Netinho58 58 . Idem, em 16 jul. 1896. Ibidem. .

No ano de 1897, as aquisições de objetos históricos continuaram. O Sr. Eugênio Hollander vendeu (por três contos e por 700 mil Réis, respectivamente) mais duas coleções de objetos históricos para o Museu. Foram encontradas as relações dos objetos de ambas as coleções. Aquela comprada por três contos consistia em:

Um armário de jacarandá que pertenceu a um capitão-mor; uma mesa de jacarandá feita no estado de São Paulo em fins de 1699, começo de; um bauzinho para guardar roupas de crianças pertencentes a família nobre paulista, época de 1700, 1720; um boné militar do 1º exército regular brasileiro; uma espada do 1º chefe de banda do 1º exército regular brasileiro; um estribo de senhora de 168059 59 . Ofício da Secretaria do Interior a Ihering, em 15 mar. 1897. Fundo Museu Paulista, pasta 71. .

Quanto à compra de 700 mil Réis, foi encontrada a cópia da fatura, em que constavam "1 objeto de origem africana; 1 coleção de medalhas da campanha do Paraguai; 1 meio dobrão de ouro; 1 medalha de D. Pedro II 1834-ouro; 1 Pataca recunhada Pernambuco-prata; 1 moeda de D. Manuel prata"60 60 . Ofício de Ihering a Secretaria do Interior, em 7 maio 1897. Ibidem. . Outra coleção de objetos históricos, também comprada, foi a de João José Raposo, por 600 mil Réis61 61 . Idem, em 25 set. 1897. Ibidem. Até agora não foi encontrada a relação dos objetos. . Destaca-se, ainda, o envio de quatro peças para o Museu, por ordem da Secretaria do Interior: o soquete e a colher de pedreiro que inauguraram as obras do Monumento do Ipiranga62 62 . Ofício da Secretaria do Interior a Ihering, em 30 set. 1897. Ibidem. , um diploma e uma medalha, conferidos ao Governo do Estado de São Paulo pelo Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros63 63 . Idem, em 4 dez. 1897. Ibidem. .

O ano de 1898 começou com um fato desagradável para as coleções numismáticas do Museu Paulista. Na noite de 25 de Janeiro, moedas foram furtadas por ladrões. Ao comunicar o ocorrido à Secretaria do Interior, Ihering afirmou um prejuízo de cerca de 600 mil Réis, destacando que a perda maior foi a do valor monetário das moedas (do que do valor numismático)64 64 . Ofício de Hermann von Ihering ao Chefe de Polícia; e Ofício de Ihering a Secretaria do Interior, em 26 jan. 1898. Fundo Museu Paulista, pasta 72. . Além desse acontecimento, a Secretaria do Interior enviou dois quadros, um de Pedro Alexandrino e outro de Carlos Parlagreco, chamado Na Roça65 65 . Ofícios da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 28 abr. 1898 e em 7 out. 1898, respectivamente. Ibidem. . No entanto, a aquisição que mais parece ter interessado a Ihering foi a do busto de Tiradentes, uma bandeira e um escudo do Clube Republicano, já que, por ocasião da oferta, Ihering perguntou ao ofertante, Benedito Camargo, a origem e a história tanto de Tiradentes quanto dos demais objetos oferecidos66 66 . Correspondência de Ihering a Benedito Camargo, em 22 abr. 1897. A resposta das questões de Ihering foi encontrada em Correspondência de Benedito Camargo a H. von Ihering, em 15 maio 1898. Ibidem. .

No ano de 1899, houve três outros quadros oferecidos ao Museu: um de Benedito de Aymberé, oferecido por Tancredo Aymberé Gonçalves, e dois outros oferecidos por Espiridião dos Santos67 67 . Correspondência de T. Aymberé a Ihering, em 7 abr. 1899; e Correspondência de E. dos Santos a Ihering, em 12 abr. 1899, respectivamente. Fundo Museu Paulista, pasta 73. Ainda falta esclarecer esta questão. . Aspecto relevante deste ano foi a autorização do Governo do Estado de São Paulo para que o pintor Ricardo Schroeder reproduzisse o quadro de Pedro Américo68 68 . Ofício da Secretaria do Interior a H. von Ihering, em 16 dez. 1899. Ibidem. . Houve também o empréstimo de 3 quadros à comissão encarregada de homenagear o pintor Almeida Júnior, falecido naquele ano69 69 . Idem, em 29 dez. 1899. Ibidem. . Sobre doações e aquisições efetivadas, podemos apenas citar o envio de uma medalha comemorativa conferida por ocasião da visita do general Rosa, presidente de República Argentina, à República brasileira70 70 . Idem, em 27 set. 1899. Ibidem. .

No decorrer do ano de 1900, foram efetuadas poucas aquisições de objetos históricos. Mais uma vez, a coleção numismática foi ampliada, com as doações: do "Sr. Japolucci" que doou "6 moedas modernas e 4 notas de papel moeda"71 71 . H. von Ihering (1902, p. 2-12). ; do "Sr. M. A. Lourenço" que doou "6 moedas portuguesas das colônias da Índia"72 72 . Ibidem. ; do "Senhor A Mosquera" que doou "uma medalha espanhola de Santiago de Compostela"73 73 . Ibidem. ; e uma doação, da Secretaria do Interior, de medalhas comemorativas do IV Centenário do Descobrimento do Brasil74 74 . Ofício da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 27 abr. 1900. Fundo Museu Paulista, pasta 74. . Ainda em virtude dessa comemoração do descobrimento, foi recebido o quadro de Benedito Calixto A Fundação de São Vicente, oferecido pela comissão responsável pelo evento, por 10$000:000 (dez contos de Réis)75 75 . Sobre a doação do quadro, ver Ofício da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 15 dez. 1900; e sobre a vinda de Calixto ao Museu, ver Ofício de Hermann von Ihering a Secretaria do Interior, em 12 nov. 1900. Ibidem. . Ainda na chamada Seção Artística, foi enviado, neste mesmo ano, um quadro de natureza morta, ainda não identificado, do pintor Pedro Alexandrino76 76 . Ver Ofício da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 28 jul. 1900. Ibidem. . Outros objetos que entraram no acervo de História em 1900 foram uma monografia sobre o café77 77 . Ver Ofício do Gabinete do Secretário da Agricultura ao diretor do Museu , em 20 abr. 1900. Ibidem. e uma barra de ouro (fundida no Mato Grosso em 1812, acompanhada de sua certidão) que, nas palavras do Secretário de Estado da Agricultura, era um "objeto de alto valor não só material como principalmente histórico"78 78 . Ver Ofício do Gabinete do Secretário da Agricultura ao diretor do Museu, em 3 fev. 1900. Ibidem. .

O ano de 1901 representou um aumento significativo nas aquisições de quadros. A começar pela aquisição de Ostras e Cobre, de Pedro Alexandrino79 79 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 4 maio 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75. . Outros quadros doados ao Museu foram: um de Jonas de Barros (que segundo Ihering era um "desenho de Crayon representando a festa de Platão"80 80 . Ver Correspondência de Jonas de Barros ao diretor do Museu, em 21 out. 1901. Ibidem; e Hermann von Ihering (1904). ; e uma cópia a crayon do retrato do Visconde de Congonhas do Campo, presidente de província de São Paulo após a Independência81 81 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 29 jan. 1901. Ibidem. . O famoso Partida da Monção, de Almeida Júnior, também foi doado neste ano, após ter sido comprado pelo Estado por 30:000$00082 82 . Cf. Hermann von Ihering (1904, p. 6 e 8). , tendo sido iniciados, ainda neste ano, os trabalhos de ornamentação e de construção de grades nessa tela83 83 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 3 out. 1901. Ao todo foram gastos 491$400 (Quatrocentos e noventa e um mil e quatrocentos Réis) nos serviços de ornamentação e colocação do quadro. Cf. Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 5 out. 1901 e em 25 out. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75. . No entanto, a nosso ver, em 1991, o mais eloqüente indicador da importância conferida às coleções artísticas e históricas do museu foi a primeira encomenda de duas obras a Benedito Calixto, tendo o Museu pago 1:000$000 de Réis por cada uma, quantia equivalente a um mês da verba de expediente da instituição, sendo as obras um retrato de D. Pedro I e outro do Pe. José de Anchietal84 84 . São diversas as fontes que fazem menção à verba mensal de expediente. Podemos citar os Relatórios anuais emitidos pela Museu Paulista à Secretaria do Interior. Sobre o pedido de autorização para encomenda, ver Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 7 out. 1901, respondido em 21 out. 1901. Ibidem. . Entre outros objetos adquiridos, convém destacar as Cartas Postais e os Memorandos comemorativos postos em circulação pelo Correio de Buenos Aires por ocasião da visita do presidente Campos Salles à Argentina85 85 . Ver Ofício do Diretor dos Correios ao Diretor do Museu, em 22 jan. 1901. Ibidem. ; e oito medalhas, sendo 4 de ouro e 4 de prata (sete eram da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e uma era de Paris)86 86 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 27 set. 1901. Ibidem. . Afora a coleção numismática e a de quadros, foi doado ao Museu um busto (ou uma estátua) de gesso representando uma criança, pela escultora Nicolina Vaz de Assis87 87 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 jan. 1901. Ibidem. , e, também, o Álbum Industrial de São Paulo, que havia sido exposto na Exposição Universal de Paris de 190088 88 . Idem, em 10 out. 1901. Ibidem. .

Um grande afluxo de objetos para o acervo de História Pátria ocorreu em 1902. Quanto a quadros, foram recebidas duas obras de Benjamin Parlagreco enviadas pela Secretaria do Interior, não identificadas89 89 . Idem, em 16 jan. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. ; um quadro com flores e frutas, de Pedro Alexandrino90 90 . Idem, em 28 maio 1902. Ibidem. ; a pintura Desembarque de Cabral, de Oscar Pereira da Silva, adquirido pelo governo do Estado por 8:000$000 (oito contos de réis) e enviado ao Museu Paulista91 91 . Idem, em 27 ago. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em de 28 ago. 1902. Ibidem. ; os dois retratos de Benedito Calixto, sendo um do Imperador D. Pedro I e outro do Pe. José de Anchieta, resultantes da encomenda feita pelo Museu no ano anterior92 92 . Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 26 fev. 1902; e Correspondência de Benedito Calixto ao Diretor do Museu, em 1 fev. 1902. Ibidem. . Sobre as pinturas do Museu, ainda convém mencionar o término dos trabalhos de ornamentação do quadro Partida da Monção, que também ganhou uma cortina para protegê-lo93 93 . A cortina custou 275$400 (Duzentos e setenta e cinco mil e quatrocentos Réis). Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 11 abr. 1902, respondido em 15 abr. 1902. Ibidem. , bem como a encomenda de mais dois quadros a Benedito Calixto, sendo um o retrato de Martim Francisco de Andrada e, o outro, o de José Bonifácio, nos mesmos termos da encomenda anterior94 94 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 8 abr. 1902. Ibidem. . No que tange à coleção numismática, houve apenas o oferecimento de uma coleção, do Sr. Alfredo Monteiro, avaliada por Ihering em 2:000$000 Réis, a que foram adicionados alguns "objetos históricos e livros", sendo novamente avaliada, agora em 3:000$000 Rs95 95 . Idem, em 4 out. 1902. Ibidem. . Faltam-nos, porém, informações sobre a possível aquisição desta coleção. Quanto aos objetos, houve várias aquisições valiosas: uma doação, feita sob resolução da Junta da Fazenda, de um carrinho de mão e uma pá que serviram para dar início, em Santos, aos trabalhos da São Paulo Railway Company96 96 . Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 24 jan. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 27 jan. 1902. Ibidem. ; envio pela Secretaria do Interior de um escudo, trabalhado pelo escultor Ettore Massucci, representando o Descobrimento do Brasil97 97 . Idem, em 1 maio 1902; e Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 5 maio 1902. Ibidem. ; a compra de duas cadeirinhas de arruar, da herança do barão Souza de Queiroz98 98 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 26 jun. 1902. Ibidem. ; um Álbum relativo às manifestações que se fizeram na capital em homenagem à memória do rei Humberto I, da Itália99 99 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 26 jun. 1902. Ibidem. ; e a doação da riquíssima coleção do ex-presidente Campos Salles100 100 . Idem, em 11 dez. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 dez. 1902. Ibidem. . Esta última, para que se concretizasse sua exposição, gerou uma verdadeira "novela", o que se mostrou uma fonte rica em informações sobre problemas que afligiam o Museu, o que será abordado mais adiante neste artigo.

O ano 1903, como especificidade, apresentou um grande volume de menções à coleção de história, embora, em comparação com os anos supracitados, com um volume comum de aquisições. A começar pelos quadros, que foram três, sendo um adquirido pelo estado (Preta Quitandeira, de Antônio Ferrigno)101 101 . Idem, em 3 jan. 1903; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 6 jan. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. ; e outros dois resultantes de encomenda feita pelo Estado: o retrato do Bandeirante Domingos Jorge Velho e o de Vicente Taques de Góis Aranha, sargento-mor de Itu, de autoria de Benedito Calixto102 102 . Idem, em 3 mar. 1903; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 mar. 1903. Ibidem. . Acerca dos objetos, temos um documento assinado por José Bonifácio, então ministro do Império, em 24 de Outubro de 1822103 103 . Idem, em 10 nov. 1903; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 13 nov. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. , e um fragmento do balão Pax (do brasileiro Augusto Severo, que havia explodido em Paris matando seu piloto - Severo - e seu co-piloto), que foi doado ao Museu por José Feliciano de Oliveira, juntamente com um pedaço do galho da árvore onde o balão caiu104 104 . Idem, em 26 fev. 1903 e Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 27 fev. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. . Ainda com sentido de (co)memoração, foi ampliada a coleção numismática, com a doação de uma cópia de medalha conferida ao também balonista Santos Dumont pela colônia brasileira de Paris - que formou uma Comissão Promotora de Brindes a Santos Dumont, em virtude de sua circunavegação da Torre Eiffel105 105 . Ofício do Secretário da Comissão Promotora de Brinde a Santos Dumont ao diretor do Museu, em 17 abr. 1903; e Ofício do diretor do Museu ao Secretário da Comissão Promotora de Brinde a Santos Dumont, em 2 jun. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. . Para a coleção numismática, foram feitas ainda outras doações: uma cédula "antiga" de 2$000 Réis, que seria remetida à Exposição Universal de Saint Louis, e fora doada ao Museu pelo Inspetor do Serviço Agronômico do Estado de São Paulo106 106 . Ver Ofício do inspetor do Serviço Agronômico do Estado de São Paulo ao Diretor do Museu Paulista, em 31 dez. 1903. Ibidem. e uma nota de 10 Dólares, emitida pelos Estados Confederados do Sul durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos107 107 . Ver Correspondência de José de Paula Leite de Barros ao Diretor do Museu, em 10 maio 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. .

No ano de 1904, a diretoria do Museu foi exercida durante vários meses por Rodolfo von Ihering (então zelador do Museu), filho de Hermann, pois este estava em viagem pela Europa visitando museus. Tal acontecimento teve impacto nas aquisições, que diminuíram. Ainda com Hermann von Ihering à frente do Museu, foram solicitados à Secretaria do Interior, seis canhões do período colonial e imperial existentes na praia de São Sebastião, que seriam trazidos ao Museu para ornamentar a Praça da Independência108 108 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 22 jan. 1904. Fundo Museu Paulista, pasta 80. . Também foi oferecido a Hermann von Ihering "o relógio que pertenceu a Tiradentes", por Saturnino Severino de Mattos. No entanto, o alto preço cobrado pelo objeto, 10:000$000, fez com que a proposta fosse negada109 109 . Ver Cópia do referimento assinado por Saturnino Severino de Mattos enviada ao Diretor do Museu Paulista, em 9 mar. 1904; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 mar. 1904. Ibidem. . A partir de abril, com Rodolfo à frente da direção do Museu, o acervo histórico recebe duas pinturas a óleo - uma natureza morta, doada pelo autor Pedro Alexandrino, e outra Bahia Cabralia, adquirida, pelo estado, do pintor Antonio Parreira110 110 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor em exercício do Museu, em 8 abr. 1904; e Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 18 abr. 1904. Ibidem. ; e, ainda, a Pia Batismal da primitiva Igreja de Anchieta na aldeia de Itanhaém111 111 . Ver Correspondência a Rodolfo von Ihering, em 30 abr. 1904. Ibidem. ; e duas bandeiras, respectivamente, do 1º e 2º Batalhão de Voluntários Paulistas, do ano de 1893112 112 . Ver Ofício do diretor em exercício do Museu à Secretaria do Interior, em 14 set. 1904. Fundo Museu Paulista, pasta 81. . Foram feitas duas ofertas de coleções numismáticas, sendo uma de Aristide Pinho, que se propõe a fazer trocas com o Museu113 113 . Ver Correspondência de Aristide Pinho ao diretor em exercício do Museu Paulista, em 30 dez. 1904. Ibidem. ; e outra, concretizada em 800$000 Rs, de Alfredo Augusto Martins114 114 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor em exercício do Museu, em 6 jul. 1904; e Ofício do diretor em exercício do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jul. 1904. Ibidem. . Nesta última foram oferecidas: uma coleção mineralógica, "uma coleção de antigüidades, contendo entre outros objetos, diversas condecorações das ordens da Rosa e do Cristo, medalhas militares da Guerra do Paraguai e diversas medalhas e moedas que o Museu não possui", e uma coleção de medalhas francesas modernas de cobre e de bronze, sendo que, para Rodolfo, apenas as duas primeiras (mineralógica e de antigüidades) eram dignas de aquisição115 115 . Ver Ofício do diretor em exercício do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jul. 1904. Ibidem. .

O ano de 1905 trouxe um volume maior de propostas de venda de coleções numismáticas. Neste ano, foram feitos, ao todo, três oferecimentos: uma primeira coleção, de Augusto de Souza Lobo, proposta sobre cujo fim não obtivemos informações conclusivas116 116 . Ver Correspondência de Augusto de Souza Lobo ao diretor do Museu, em 7 jan. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82. ; uma segunda, de Agostinho Lopes, negada por Hermann von Ihering, pois "pela maior parte consiste em moedas bem representadas na nossa coleção"117 117 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 jul. 1905. Ibidem. ; e uma do dentista Oscar da Veiga, que, após uma série de negociações, foi adquirida pelo Museu por 1:000$000 Rs118 118 . Oscar da Veiga, a princípio, ofereceu sua coleção por 4:000$000 Réis. Ver Correspondência de Oscar da Veiga ao diretor do Museu, em 13 out. 1905. Logo depois, ofereceu a referida coleção pelo valor de 2:000$000 Réis (um pouco abaixo da avaliação do numismata do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, Eugênio Hollander, 2:800$000 Réis, como constava em uma cópia anexa à correspondência). Ver Correspondência de Oscar da Veiga ao diretor do Museu, em 20 out. 1905. Por fim, a coleção foi comprada por 1:000$000 de Réis. Ver Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 23 out. 1905. Ibidem. . Outro objeto incorporado ao acervo foi o cofre da Câmara Municipal de Jundiaí, datado de 1750119 119 . Ver Ofício da Câmara Municipal de Jundiaí ao Diretor do Museu, em 17 set. 1905 e Ofício do Diretor do Museu à Câmara Municipal de Jundiaí. 22 set. 1905. Ibidem. . Um acontecimento importante desse ano foi a resolução, do Governo do Estado, de formar uma galeria de pintura no Liceu de Artes e Ofícios, para onde seriam transferidos 14 quadros do acervo do Museu Paulista, a fim de constituir o acervo inicial daquele novo estabelecimento120 120 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 9 dez. 1905. Ibidem. , questão que adiante será mais detalhada.

No decorrer do ano de 1906, entraram no acervo de objetos: duas espadas enviadas pela Secretaria do Interior121 121 . Idem, em 30 maio 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84. ; uma cadeirinha antiga usada para transporte (cadeirinha de arruar), doada pelo Cap. Joaquim F. Dias Coimbra122 122 . Relatório do ano de 1906 do Museu Paulista à Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista. ; o cofre pertencente à antiga Câmara Municipal de São Paulo123 123 . Ver Ofício do Tesouro do Estado ao diretor do Museu, em 20 set. 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84. ; e alguns objetos históricos, dos quais ainda não temos a relação, oferecidos pela Sociedade Paulista de Agricultura124 124 . Ver Ofício do Presidente da Sociedade Paulista de Agricultura ao diretor do Museu, em 24 mar. 1906. Ibidem. . Junto com esses objetos da Sociedade, vieram alguns quadros (não temos maiores informações). Outro quadro que entrou no acervo do Museu foi o Guerreiro Carajá, de Oscar Pereira da Silva, usado para ornamentar a sala etnográfica125 125 . Ver Correspondência do diretor em exercício do Museu a Oscar Pereira da Silva, em 12 nov. 1906. Ibidem. . Por fim, foi recebida uma coleção de vistas do Rio de Janeiro, heliografadas em 1850126 126 . Ver Relatório do ano de 1906 do Museu Paulista à Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista. .

Durante o ano de 1907, o acervo de objetos foi novamente ampliado mediante a aquisição de uma cadeirinha de arruar que pertenceu a Gertrudes Celidônia de Cerqueira Leite e fora comprada, pelo Museu, do Dr. Francisco de Souza Queiroz127 127 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 18 jul. 1907. Fundo Museu Paulista, pasta 85 , além de duas cadeiras que pertenceram, respectivamente, a Austin Tibiriçá128 128 . Ver Relatório do ano de 1907 do Museu Paulista a Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista. e ao Mosteiro de São Bento129 129 . Ibidem. . Outros objetos recebidos foram uma armadura de ferro, usada na procissão de São Jorge, e um estribo de senhora, ambos doados pela Repartição de Estatística e do Arquivo do Estado de São Paulo130 130 . Ver Ofício da Repartição de Estatística e do Arquivo do Estado de São Paulo ao diretor do Museu, em 20 dez. 1907. Fundo Museu Paulista, pasta 85. . Por fim, foram doados ao acervo um diploma e uma medalha, recebidos pela Secretaria do Interior pela participação na Exposição Universal de Saint Louis131 131 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 23 ago. 1907. Ibidem. .

Em 1908, foram recebidos três novos objetos para o acervo histórico do Museu: um canhão usado na revolta de 1842, em Sorocaba, doado pela Câmara Municipal da cidade132 132 . Idem, em 24 fev. 1908. Fundo Museu Paulista, pasta 86. ; uma corrente usada na cidade de Sarapuí, São Paulo, para prender pelo pescoço Antonio Marques de Mello, durante 25 anos, sob a suspeita de que este sofria de alienação mental133 133 . Idem, em 24 fev. 1908. Ibidem. ; e, uma espingarda que pertenceu a D. Pedro I, doada por Júlio Conceição, de Santos134 134 . Relatório do ano de 1908 do Museu Paulista à Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista. . Também foram recebidos diversos quadros, e litografias doadas por Eugênio Egas, mas não temos a relação135 135 . Ibidem. ; e, ainda, uma coleção de 23 moedas, por doação do Sr. Ribeiro, de Campinas136 136 . Ibidem. .

O ano de 1909 contou com três aquisições: uma coleção de "armas e armaduras antigas", oferecida pelo Cel. Jordão do Canto Silva137 137 . Ver Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior , em 26 mar. 1909. Fundo Museu Paulista, pasta 88. ; uma coleção de 30 moedas de prata, comprada por 90$000138 138 . Idem, em 21 ago. 1909; e Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 28 ago. 1909. Ibidem. ; e duas bandeiras nacionais, encomendadas por 170$00 Réis139 139 . Idem, em 23 jun. 1909; e Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 30 jun. 1909. Ibidem. .

No ano de 1910, houve a aquisição de um busto representando o marechal Floriano Peixoto, que veio a somar-se à coleção, já existente no Museu, dos "bustos de todas as pessoas que têm servido como Presidente da República"140 140 . Ver Ofício da Repartição Estatística do Estado ao diretor do Museu, em 16 ago. 1910. Fundo Museu Paulista, pasta 89. .

O ano de 1911 contou com o oferecimento do artista Hugo Galgan para confeccionar um quadro com a vista de São Paulo, a partir do Museu Paulista, por 1:500$000 Réis141 141 . Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 20 jul. 1911. Fundo Museu Paulista, pasta 93. ?, proposta que foi recusada142 142 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 25 jul. 1911. Ibidem. ; e, também, foram adquiridos os retratos dos marqueses de Valença, doados por suas netas, com a seguinte colocação:

Estas obras-primas devem pertencer à Nação, e principalmente a São Paulo: porquanto o Marques de Valença, Ministro e o mais íntimo amigo e confidente de S. M. o Senhor D. Pedro I, foi um dos mais gloriosos próceres da Independência do Brasil. O seu lugar é no Monumento do Ipiranga que comemora o dia da Pátria143 143 . Ver Correspondência de Francisca Rezende de Almeida Mello ao diretor do Museu, em 22 set. 1911. Ibidem. .

No ano de 1912, tiveram início os trabalhos de "reforma" da pintura A Conversão de São Paulo, de Almeida Júnior144 144 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 jul. 1912. Fundo Museu Paulista, pasta 95 ; e foi oferecida ao Museu Paulista uma coleção de objetos históricos que pertenceram ao general Manoel de Lima e Silva e ao marechal Duque de Caxias, coleção proveniente de dona Balbina de Lima e Silva145 145 . Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 8 jan. 1912; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 ago. 1912. Ibidem. . Os dois acontecimentos - a reforma e o oferecimento da coleção - fornecem-nos informações relevantes, respectivamente, tanto sobre a questão do lugar das pinturas no acervo, quanto sobre a conceituação dos objetos históricos no Museu de Ihering, e serão mais bem detalhados à frente.

O ano de 1913 contou com a aquisição de um batelão, doado pelo Sr. Aristides da Silva Pontes146 146 . Ver Correspondência de Aristides da Silva Ponte ao diretor do Museu, em 16 ago. 1913. Fundo Museu Paulista, pasta 97. , e o oferecimento de uma coleção de moedas de José Schneeberger, proposta negada por Ihering, segundo consta no próprio documento de oferecimento147 147 . Documento em Alemão, com tradução em anexo. Escrito, na parte inferior: "Resp. que o Museu actualmente não tem verba para aquisições de moedas". Ao que tudo indica, é a letra de H. von Ihering. Ver Correspondência de José Schneeberger ao diretor do Museu Paulista, em 21 ago. 1913. Ibidem. .

No ano de 1914, houve oferecimentos apenas para a coleção numismática. Ao todo foram três: o primeiro, uma coleção de moedas pertencente à viúva de Júlio César de Oliveira148 148 . A referida coleção foi oferecida pelos advogados da Família. Ver Correspondências de Figueiredo e Cia. ao diretor do Museu, em 5 set. 1914; e em 15 nov. 1914. Fundo Museu Paulista, pasta 99. ; o segundo, uma moeda de ouro, pertencente a Humberto Ambrogi, de Taubaté, que, segundo o próprio, tinha "de um lado uma coroa imperial, tendo ao lado da mesma, em algarismos decimais '4000' e mais a seguinte inscrição: JOSEPHUS. I. D. G. PORTUG. RX. Do outro lado, traz uma cruz no centro: circulada com os seguintes dizeres: ET BRASILIAE DOMINUS. ANNO 1764. [sic]"149 149 . Correspondência de Humberto Ambrogi ao diretor do Museu, em 5 set. 1914. Ibidem. ; e, por fim, uma coleção de bilhetes de loterias, notas de banco de vários países e algumas moedas de cobre, pertencente a Francisco Pires, de Bragança Paulista150 150 . Correspondência de Francisco Pires ao diretor do Museu, em 9 dez. 1914. Ibidem. . Não possuímos informações sobre as possíveis aquisições de tais peças.

O ano de 1915 contou apenas com o oferecimento ao Museu Paulista de uma coleção numismática (moedas de prata portuguesas e brasileiras), pertencente a J. Dias, Belo Horizonte151 151 . Correspondência de J. Dias ao diretor do Museu, em 3 dez. 1915. Fundo Museu Paulista, pasta 103. .

Por fim, o ano de 1916, último ano de Ihering à frente do Museu, contou com o oferecimento (por Paulino Batista dos Santos, de Mariana) de uma coleção com "raridades", entre as quais objetos históricos152 152 . Correspondência de Paulino Batista dos Santos ao diretor do Museu, em 17 fev. 1916. Fundo Museu Paulista, pasta 102. ; e houve também a proposta de permuta de duplicatas da coleção numismática com a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro153 153 . Ofício da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro ao diretor do Museu, em 8 set. 1916. Ibidem. .

A coleção em perfil: atribuição de valor e características tipológicas

Feita a reconstituição diacrônica da entrada de peças na coleção de História Pátria do Museu Paulista, convém de pronto ressaltar que, entre os demais museus públicos brasileiros, o Museu Paulista era aquele em que a coleção de história se mostrava mais relevante, o que provavelmente se deve a um gradativo aumento de sua visibilidade, nacional e internacionalmente.

Contraditoriamente, porém, tem-se, por outro lado, uma contínua diminuição da verba de expediente do Museu, o que afeta a instituição como um todo e, conseqüentemente, a coleção de história. Acompanhando tal fato, há também uma gradativa disparidade entre os salários pagos no Museu Paulista e em outras instituições análogas, o que pode revelar certo descaso do governo para com a instituição154 154 . Os salários pagos no Museu Paulista eram mais baixos que os que eram pagos a funcionários de instituições públicas paulistas, como consta nas reclamações e Ihering. Por exemplo ver: Ofício de Hermann von Ihering a Secretaria do Interior, em 15 set. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. Nesse mesmo sentido, os salários pagos em outros museus eram superiores como consta na correspondência de Ihering com o diretor do Museu Nacional em que Ihering pede informações sobre os salários pagas naquela instituição. Ver Ofício do diretor do Museu Paulista ao diretor do Museu Nacional, em 15 set. 1905; e, em resposta, Ofício do diretor do Museu Nacional ao diretor do Museu Paulista, em 5 out. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82. .

Como transcrito acima, o regulamento do Museu Paulista previa a criação de comissões que, de certo modo, seriam responsáveis pela coleção de história. Entretanto, não encontramos nenhuma menção ao funcionamento de qualquer uma dessas comissões. Se, por um lado, isso poderia decorrer de algum desdém por parte do Governo do Estado em relação à coleção de história, por outro, há o aspecto de que Ihering, enquanto diretor do Museu Paulista, exercia uma gestão muito personalista. Era ele quem avaliava a grande maioria das aquisições, bem como propunha compras e pedidos de peças para a coleção histórica, o que pode sugerir que não desejasse a interferência de comissões.

A análise serial da documentação institucional permite compreender que coleção de História Pátria sempre recebeu uma atenção especial de Ihering, desde o início de sua direção. Tendo em mente que o Museu estava no local "criador" da nacionalidade brasileira, Ihering estava ciente da importância da seção histórica do Museu Paulista. Na própria Revista do Museu Paulista, de 1895, Ihering afirma que a seção de história era uma das que ainda não o satisfazia155 155 . Cf. Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 135). , o que revela não só sua preocupação com ela, como sua intenção de desenvolvê-la.

A coleção de história do Museu Paulista não era um simples apanhado de antiguidades. Possuía uma tipologia própria e baseava-se apenas em História Pátria, ou seja, História do Brasil. Vê-se, inclusive, que não foi por falta de objetos que essa coleção não se tornou mais abrangente. Por exemplo, em 1903, o Sr. Rafael da Gamma procurou no museu um nicho de madeira com uma epígrafe do rei Humberto da Itália, que, por intermédio do Exmo. Sr. Dr. Presidente do Estado, havia sido oferecido ao Museu em 23 de Julho de 1902. A intenção do Sr. Rafael da Gamma era colocar o busto naquele nicho. Ihering afirmava que essa doação havia sido noticiada no jornal O Estado de S. Paulo, em 24 de Julho de 1902, e escreveu ao Secretario do Interior:

Não se achando entretanto, no Museu o referido nicho, rogo a Vsa. Exa. que se digne informar-me a respeito. Outrossim, declaro a Vsa. Exa. que, sendo este museu referente exclusivamente a história pátria, atualmente não possui seção alguma onde possa ser exposto o referido nicho que, se lhes for enviado, será guardado até que se crie uma seção para receber objetos que não se relacionem a nossa história156 156 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jan. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. .

Na seqüência, em resposta ao ofício de Ihering, o Secretário do Interior afirma: "Cabe-me dizer-vos que não foi remetido a este museu o nicho de madeira de que falais, visto julgar que dito nicho não merece ser colocado no Museu"157 157 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 17 jan. 1903. Ibidem. .

O caso acima citado mostra-nos que, além de ser a aquisição de objetos fruto de uma política consciente, os dois grandes agentes que adquirem objetos para a coleção de história são a Secretaria do Interior e o Museu, sob a direção personalista de Ihering. São essas duas entidades da administração estadual - que ora cooperam, ora discordam - as grandes catalisadoras da entrada de novas peças no Museu Paulista.

Outro caso que merece grande atenção é o exame das peças históricas oferecidas ao Museu, em 1912, pela viúva do general Lima e Silva e a respectiva teorização de Ihering sobre os motivos que o faziam optar pela não-aquisição desses objetos. Trata-se de um dos únicos documentos em que Ihering externa suas opiniões sobre a tipologia de objetos históricos que deve ser adotada no Museu; por isso, transcrevemos a seguir o documento na íntegra, para em seguida o analisarmos:

Com referência ao vosso ofício nº11 tenho de dar as seguintes informações, que são fundadas em meu conhecimento próprio dos referidos objetos históricos e no exame, que hoje por minha ordem fez neles na casa indicada por Vsa. Exa. o zelador do museu, Sr. Rodolfo von Ihering. Os objetos oferecidos agora pela segunda ou terceira vez ao Governo do Estado e que pertenceram ao Duque de Caxias e ao Gal. Lima e Silva, na maior parte não estão na altura para serem adquiridos pelo governo. Há lá dois ofícios, um brasileiro outro paraguaio, assinado por Solano López, mas não relacionado com a história do Brasil; escudo; fragmentos de espora; um número do "Jornal do Comércio", etc. pela maior parte objetos e recordações pessoais, sem interesse geral. O referido escudo e os dois ofícios seriam as únicas peças que podiam figurar nas coleções do museu. Entendo que nos objetos históricos há vários grupos, como sejam os que pertenceram a personagens de posição elevada na vida nacional, os que se relacionam com fatos históricos. Em geral são só objetos dos últimos dois grupos, que encontram abrigo nas coleções dos museus nacionais e históricos do mundo158 158 . Como visto, ao que tudo indica, Ihering deixou de colocar um dos grupos de objetos históricos em seu texto. Mesmo assim, analisando o desenrolar do documento percebemos que os dois grupos que, segundo Ihering, devem fazer parte das coleções de um Museu são os objetos "que se relacionam com fatos históricos" e objetos que revelam aspectos instrutivos do período em que foram confeccionados e usados. Para isso, ver Ofício do diretor do Museu Paulista à Secretaria do Interior, em 12 jan. 1912. Fundo Museu Paulista, pasta 94. . A nós já aconteceu que por várias pessoas gradas de alta distinção foi criticada a exposição dos objetos, que de mimo foram oferecidos ao Exmo. Sr., Dr. M. F. de Campos Salles, quando presidente da República. Esta coleção entretanto, embora efetivamente em parte de interesse particular, contém recordações duma época da história do país, quando no governo achava-se um ilustre filho desta terra. E além disto contém objetos instrutivos, verdadeiramente interessantes, que são testemunhas da simpatia de nações amigas. Posto porém que depois da morte daquele ilustre estadista se quisesse enviar ao museu a mesa em que trabalhava, a cama que dormia, etc. não haveria razão para aceitar tal doação. É verdade que temos no Museu a cama, a cadeira e outra mobília do senador Diogo Feijó, mas estes objetos são ao mesmo tempo valiosos tipos da mobília do país de começo do século passado. Seria de mais alto valor, se fosse possível completar nesse sentido a pequena coleção do Museu do Estado. Os objetos agora oferecidos ao Governo e o piano de cauda da princesa Isabel, que me foi oferecido ao mesmo tempo para ser adquiridos, são em geral antes de importância para as respectivas famílias do que para o Museu. Opino que deste modo informei o vosso ofício, comprometendo-me a dar informações mais minuciosas sobre os objetos em questão se Vsa. Exa. desejar159 159 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 ago. 1912. Ibidem. .

Como visto acima, Ihering considerava que a coleção de história do Museu Paulista não deveria estar ligada à simples conservação e exposição de objetos de pessoas ilustres. Pelo contrário, nessa coleção haveria dois tipos de objetos históricos que deveriam ser adquiridos: objetos históricos de épocas passadas, que poderiam fornecer informações sobre a época de sua confecção e uso; e objetos ligados à história nacional, seja de um passado longínquo, seja de um passado recente.

Dessas afirmações de Ihering, infere-se que a coleção de história do Museu possuiria duas funções primordiais. A principal seria o aspecto instrutivo e didático; e, em segundo lugar e sem fugir do aspecto didático, estaria o aspecto rememorativo e cívico.

O aspecto instrutivo e didático reside em objetos que trazem em si informações sobre determinada época, que seriam os documentos materiais de uma dada sociedade. Entre eles estavam presentes objetos que pertenciam a pessoas ilustres, como a "cadeira e outra mobília do senador Diogo Feijó mas estes objetos são ao mesmo tempo valiosos tipos da mobília do país de começo do século passado"160 160 . Ibidem. , isto é, representativos de uma época. Inferimos daí que o valor histórico desse tipo de objeto reside nas informações contidas nele sobre seu contexto histórico-cultural e, não, pela condição de seu proprietário ou de seu doador. Essa visão de Ihering a respeito da importância que determinado objeto tem, ou não, para uma coleção histórica, que poderia estar ligada ao conceito de "valor histórico" do objeto, representa, a nosso ver, uma grande mudança em relação à visão convencional sobre a coleção histórica do Museu sob Ihering. Da interpretação que considerava essa coleção um depósito de antiguidades sem tipologia, ou mesmo que privilegiava a fetichização do objeto, importando mais a quem o objeto pertenceu do que seu significado social, temos, agora, uma coleção que era construída com objetivos didáticos e instrutivos, e com uma conceituação, feita por Ihering, não tão distante do conceito de valor histórico que temos hoje.

Os objetos com função rememorativa seriam aqueles ligados a acontecimentos históricos. O exemplo dado por Ihering é o da Coleção Campos Salles, que será abordada adiante, em que há objetos variados recebidos pelo presidente em seu mandato. Segundo Ihering, essa coleção, "embora efetivamente em parte de interesse particular, contém recordações duma época da história do país, quando no governo achava-se um ilustre filho desta terra. E além disto contém objetos instrutivos, verdadeiramente interessantes, que são testemunhas da simpatia de nações amigas". Ao mesmo tempo em que julga interessante guardar objetos referentes a acontecimentos históricos, com sentido de rememoração, vê-se também nesses objetos uma função instrutiva. Pode-se perceber que as duas funções não são dissociadas: misturam-se.

Como será visto adiante, podemos notar certa freqüência nos tipos de objetos que entram no Museu. O estabelecimento da tipologia de objetos será realizada levando em conta também essas considerações de Ihering. Podemos destacar pinturas históricas, pinturas artísticas, coleção numismática, e objetos relativos à história brasileira recente, Imperial e Colonial.

Pinturas históricas e artísticas

Considerando que hoje é tênue a separação entre pinturas artísticas e históricas (ou de gênero histórico), decidimos trabalhar com uma tipologia única para ambas. Enquanto as históricas dedicavam-se, em grande parte, a retratar momentos históricos importantes e oficiais (como é o caso das pinturas O Descobrimento do Brasil e Independência ou Morte, de Oscar P. da Silva e Pedro Américo, respectivamente), os quadros artísticos adquiridos pelo Museu representavam temas diversos, que vão desde naturezas mortas, como é o caso das pinturas de Pedro Alexandrino, a representações do cotidiano, como é o caso da pintura Preta Quitandeira. Existem, portanto, diferenças entre elas, porém ainda não é possível afirmar que, ao serem integradas ao acervo do Museu Paulista, resultassem em tratamentos diferentes.

Como visto acima, no próprio regulamento do Museu já havia menção explícita a quadros históricos. Isto se deve, em parte, ao fato de a construção do Monumento da Independência ter sido encomendada juntamente com peça-símbolo do Museu: Independência ou Morte, de Pedro Américo. O regulamento determinava que o quadro fosse exposto no Museu, o que mais uma vez sublinha que o Museu tem sua coleção de história ligada a seu aspecto de Panteão da Independência.

Ligados à história oficial, os quadros de gênero histórico expostos no Museu na época de Ihering foram adquiridos basicamente de três formas: quadros comprados pelo Estado; quadros doados ao Estado; quadros encomendados pelo Museu. Entre os autores dessas pinturas, temos Benedito Calixto, Almeida Júnior e Oscar Pereira da Silva.

Sobre os dois primeiros tipos supracitados de aquisição de quadros, podemos considerar a Secretaria do Interior a grande responsável pela expansão do acervo. O estado de São Paulo mantinha vários pintores pensionistas na Europa; estes, por vezes doavam, por vezes vendiam quadros ao próprio estado. Outra pintura destacada adquirida pelo estado foi O Desembarque de Cabral, de Oscar Pereira da Silva. Era uma pintura já famosa, e a sua compra pelo estado foi bastante noticiada pela imprensa, conforme notícias anexas ao ofício de comunicado de envio da pintura ao Museu161 161 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao Diretor do Museu, em 27 ago. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. Anexos ao documento, os seguintes jornais: O Correio Paulistano, São Paulo, 3 maio 1900 (1ª Página com uma grande gravura do quadro) e 27 jun. 1902 (noticiando a aquisição); O Estado de São Paulo e o Diário Popular, ambos de 26 jun. 1902; e O Comércio de São Paulo, São Paulo, 28 jun. 1902 (todos noticiando a aquisição). .

Também é necessário enfatizar que, por uma quantia de 4:000$000 Réis, foram encomendadas pelo próprio Ihering quatro pinturas históricas: os mencionados retratos representando José Bonifácio, Martim Francisco de Andrada, D. Pedro I e outro do Pe. José de Anchieta. Temos informações, a partir de documento sem datação, de que provavelmente outros dois retratos foram encomendados pelo Museu, um representando Bartolomeu de Gusmão e outro D. João VI, não sendo encontrado o documento da entrega dos quadros162 162 . Escreveu Benedito Calixto: "Tenho a honra e prazer de comunicar a Vsa. Exa. que já tenho quase prontos os dois primeiros retratos que V. Exa. dignou-se encomendar-me, o de José Bonifácio e do célebre Paulista Bartolomeu de Gusmão. Para executar este último tive que fazer estudos demorados, rebuscar a escavações sobre a vida um tanto obscura e misteriosa deste célebre brasileiro. No retrato eu o represento sentado em seu laboratório de física e química, em atitude meditativa examinando um dos planos ou desenhos da passarola. Tem agradado muito as pessoas que o tem vindo ver no nosso atelier, e creio que Vsa. Exa. há de ficar satisfeito como eu estou de poder coadjuvar a Vsa Exa. com meu fraco esforço a pagarmos em parte a grande dívida que devemos à memória desse grande homem que não é só uma glória brasileira, mas uma glória universal. Não me foi possível obter retrato porque não há mas encontrei uma pequena gravura da época, autentica, em que vem o desenho do balão em forma alongada. Na Nacelle em baixo vê-se a figura do padre-voador em atitude de governar. Este desenho é do "Dicionário Universal". Vou agora dar começo ao retrato de Martim Francisco que é necessário para completar a Galeria de D. Pedro I. Vsa. Exa. dignar-se dizer-me se devo fazer também o de D. João VI e se para isso é necessário contrato, ou se basta a autorização de V. Exa.". Cf. Correspondência de Benedito Calixto à Hermann von Ihering. Fundo Museu Paulista, pasta 93. . Todos os quadros aí descritos, com exceção do quadro de D. João VI, juntamente com outros, foram expostos em uma mesma sala, a sala B8163 163 . Ver Guia pelas Colleccoes do Museu Paulista. São Paulo: Cardozo Filho, 1907. . A nosso ver, temos claramente uma escolha de quadros vinculados à história paulista.

O caso acima reflete, ao menos, uma prova contundente da preocupação de Ihering com a coleção de história (mesmo que, eventualmente, apenas para atender aos interesses do Governo do Estado), principalmente se considerarmos que "um conto de réis" (valor de cada quadro) representava o equivalente a um mês da verba do expediente que o Museu então percebia164 164 . Ver nota 94. .

As pinturas encomendadas pelo museu eram assinadas por Benedito Calixto, que, antes do advento das encomendas, havia pintado o quadro Fundação de São Vicente, doado ao Museu pela Comissão do Centenário do Descobrimento do Brasil. No documento em que Ihering noticia a entrega da tela, obtivemos uma informação interessante: o local de sua exposição foi escolhido pessoalmente pelo próprio pintor165 165 . Ihering escreveu: "Levo ao vosso conhecimento que a comissão que tão dignamente festejou o 4º centenário do Brasil, em São Vicente, ofereceu ao Museu do Estado o belíssimo quadro do Sr. Benedito Calixto, representando a fundação de São Vicente e que o mesmo já se acha exposto na sala nº 11 do monumento lugar este escolhido pelo próprio Calixto, julgando que a doação do referido quadro será comunicada oficialmente ao governo, pois que, até agora informação alguma tive neste sentido, rogo-vos que caso vos seja comunicado pela comissão de S. Vicente, este fato, me seja enviada uma cópia da comunicação para arquivá-la na competente seção do museu" (grifo nosso). Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 nov. 1900. Fundo Museu Paulista, pasta 74. . Outro fato neste sentido é que, em correspondência pessoal a Ihering, o pintor Jonas de Barros oferece, "como havia prometido", o seu "primeiro quadro ao Museu Paulista"166 166 . Ver Correspondência de Jonas de Barros a Hermann von Ihering, em 21 out. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 76. . Tais acontecimentos nos dão certa dimensão da proximidade existente entre os artistas e a direção do Museu, sistema de trabalho que, até agora, vinha sendo atribuído apenas a Taunay. Não houve, entretanto, encomendas do próprio Museu para pinturas artísticas.

Entre os diversos pintores que tiveram suas obras expostas no Museu Paulista sob Ihering, podemos citar Pedro Alexandrino (com muitas pinturas a óleo, de naturezas mortas), Antônio Parreiras, Benjamin Parlagreco, Jonas de Barros e Antônio Ferrigno. Essas pinturas eram, em sua maioria, enviadas da Europa por esses pintores, que lá estudavam às expensas do estado de São Paulo.

Em 1905, exemplares destes dois tipos de pinturas, históricas e artísticas, receberam a ordem de transferência para a recém-criada Pinacoteca do Estado. A relação dos quadros que deveriam ser transferidos à Pinacoteca, segundo ordem da Secretária do Interior, estava anexa a um documento datado de 9 de dezembro de 1905, que dizia: "Tendo o Governo resolvido estabelecer uma galeria de pintura no Liceu de Artes e Ofícios da Capital, recomendo-vos providencieis para que, com a possível brevidade, sejam para ali removidos os quadros aí existentes constantes na lista junto"167 167 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao Diretor do Museu, em 9 dez. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82. (grifo nosso).

O termo "galeria de pintura" pode referir-se a uma galeria tanto de pinturas artísticas quanto de pinturas históricas. Ao que tudo indica, a relação das pinturas confirma essa afirmação. Na "lista dos quadros que devem ser remetidos à Galeria de Pintura", anexa ao documento anterior, os seguintes quadros estão relacionados: Partida da Monção, Amolação Interrompida, Picando Fumo, e Leitura, do pintor Almeida Júnior; Engraxate e Canto do Netinho, de Bertha Worms; Na Roça, Abrigo Materno e Piteiras, de Carlos Parlagreco; Descobrimento do Brasil e Infância de Giotto, de Oscar Pereira da Silva; Manhã de Inverno e Bahia Cabrália, de Antônio Parreiras; Preta Quitandeira, de Antônio Ferrigno168 168 . Idem, em 31 dez. 1905. Ibidem. . Como visto, entre essas pinturas constam pinturas históricas (caso de Descobrimento do Brasil e Partida da Monção) e pinturas artísticas (caso de Amolação Interrompida, Engraxate etc.).

Uma parte considerável dessas pinturas transferidas à Galeria no Liceu de Artes e Ofícios (principalmente as ditas "históricas") retornou ao Museu Paulista durante a gestão Taunay. Embora o fato não esteja ligado diretamente ao período aqui tratado, é digno de nota que, em 1929, por ordem do Secretário do Interior Sr. Fábio de Sá Barreto, as pinturas Partida da Monção, Descoberta do Brasil e Fundação de São Paulo retornaram ao Museu Paulista. No caso da pintura de Almeida Júnior, Partida da Monção, a transferência deveu-se à elevada diferença entre o número de pessoas que visitavam a Pinacoteca e o que comparecia ao Museu Paulista, chegando o Museu a ter doze vezes mais visitantes169 169 . Conforme publicado no Correio Paulistano, sendo transcrito por Taunay, a transferência foi determinada "tendo em vista que a freqüência do Museu Paulista é, quiçá, doze vezes mais avultada do que a da Pinacoteca" (grifo nosso). Ver Relatório referente ao anno de 1929, apresentado ao Excelentíssimo Senhor Secretário do Interior, Dr. Fabio de Sá Barreto. Fundo Museu Paulista, pasta 14. . Assim, seria criada uma sala "consagrada às monções e a Almeida Júnior", como afirmou Taunay, diretor do Museu em 1929170 170 . Ibidem. .

O afluxo de pinturas ao acervo do Museu Paulista diminuiu bruscamente com a criação da Pinacoteca. Em 1907, ocorreu a entrada de um quadro (Guerreiro Carajá, de Oscar Pereira da Silva, usado para ornamentar a sala etnográfica171 171 . Ver Correspondência do diretor em exercício do Museu a Oscar Pereira da Silva, em 12 nov. 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84. ); em 1911, dois retratos (dos marqueses de Valença172 172 . Ver Correspondência de Francisca Rezende de Almeida Mello ao diretor do Museu, em 22 set. 1911. Fundo Museu Paulista, pasta 93 ); e, em 1912, o início da "reforma" da pintura A Conversão de São Paulo, de Almeida Júnior173 173 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 jul. 1912. Fundo Museu Paulista, pasta 95. . Em comparação ao período anterior, como se pode ver, o Museu praticamente não recebeu doações de pinturas entre 1905 e 1916.

O corte no afluxo de pinturas para o Museu Paulista não foi sentido pela diretoria? Ihering não tentou reverter essa situação, quando as pinturas deixaram de vir para o Museu? Não temos resposta para essas questões. Sabe-se da tentativa da diretoria de criar, no terreno do Museu, um edifício destinado a abrigar uma sala para exposição de pinturas, uma "galeria artística". Trataremos mais adiante desse projeto e de outros propostos pela diretoria de Ihering.

Coleção numismática

Desde o início desta pesquisa, um dos pontos que mais nos impressionou foi o grande afluxo de itens da coleção numismática. Esta coleção, que hoje representa mais da metade do acervo de objetos do Museu, recebeu sempre um grande afluxo de peças, e a atenção especial de Ihering.

Há um fator muito interessante a separar, por um lado, as coleções de pinturas e de objetos de História Pátria, e, por outro, a coleção numismática do Museu de Ihering: esta última coleção possuía, além de objetos ligados à história nacional, peças que eram tanto de outros países (como o grande número de exemplares de moedas da França, dos Estados Unidos, de países da América Latina etc.) quanto de outras civilizações (como era o caso de várias moedas romanas da Antiguidade). Em um outro sentido, questão sempre presente nas cobranças de Ihering, era o pedido, para esta coleção, de um ajudante numismático, para fazer estudos sobre ela. Em um terceiro sentido, no ano de 1906, encontramos uma correspondência de Julius Meilli, de Zurique, em resposta a Hermann von Ihering, que, nos moldes de uma correspondência sobre o acervo de história natural, tentava sanar dúvidas sobre algumas peças do acervo de numismática do Museu174 174 . Ver Correspondência de Julius Meilli a Hermann von Ihering, em 2 jun. 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84. .

Esses três aspectos fazem com que consideremos o tratamento conferido à coleção numismática do Museu sob Ihering mais parecido com o que era dados às coleções de história natural175 175 . Ver Ângela M. G. Ribeiro (2003) . Uma segunda parte associa-se a uma função (co)memorativa (medalhas, broches etc.), simbolizando acontecimentos históricos, antigos ou mais recentes, como por exemplo, o Descobrimento do Brasil (e seu IV Centenário) ou a circunavegação da Torre Eiffel por Santos Dumont. Por isso abordaremos esta segunda face da coleção numismática junto com os outros objetos históricos.

Sobre a primeira parte da coleção (notas e moedas de todo o mundo), consideramos que se insere na tradição de colecionar moedas antigas. Lopes afirma que, até meados do século XVIII, as moedas antigas são as peças de coleção por excelência176 176 . Cf. Maria Margaret Lopes (1997, p. 13). . Ao que tudo indica, esse tipo de coleção não era exclusiva do Museu Paulista, pois também no Museu Nacional deve ter havido uma177 177 . Tal afirmação deve-se à proposta, já citada, de venda de acervo numismático ao Museu Paulista por Savério Catvieri. Em sua correspondência, Catvieri escreve a Ihering que sua coleção "estava no Museu Nacional por ordem do imperador que desejava compra-la. Porém os acontecimentos políticos embaraçaram as negociações". Ver Correspondência de Savério Catvieri ao diretor do Museu Paulista, em 28 nov. 1895. Fundo Museu Paulista, pasta 69. . No âmbito nacional, outras tantas instituições - a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro178 178 . Ihering chegou a afirmar que a coleção numismática da Biblioteca Nacional era a mais rica do país. Ver Ofício do diretor do Museu Paulista à Secretaria do Interior, em 17 out. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. , por exemplo, ou o Seminário Episcopal de São Paulo179 179 . Ihering afirma que esta coleção era "uma pequena coleção numismática que contém moedas não representadas na coleção do Estado depositada no museu sob meu cargo". Ver Correspondência do diretor do Museu ao Seminário Episcopal, em 22 maio 1895. Fundo Museu Paulista, pasta 69. , ou mesmo particulares - abrigavam coleções numismáticas. E, no tocante à numismática, foi com essas entidades e colecionadores que o Museu Paulista manteve contato.

Apesar dessas diversas instituições em que havia uma coleção numismática e que mantiveram contato com o Museu na gestão Ihering, a grande maioria de compras, no entanto, foi de particulares. Em 1895, dois casos de tentativa de aquisição para a coleção numismática são dignos de nota. Uma foi com o Arquivo Nacional, em que Ihering pede duplicatas e descreve a coleção do Museu Paulista como tendo "mais ou menos boa representação das moedas portuguesas e brasileiras deste século e do passado e faltando-nos porém [...] das moedas de ouro e algumas de prata como as de 1:200 Rs. do século XVII temos 160 Rs e 640 de D. Pedro II"180 180 . Ver Correspondência do diretor do Museu ao Arquivo Nacional, em 21 jul. 1895. Ibidem. , mas faltam-nos informações sobre o que foi respondido. Outra tentativa foi a de troca com uma dessas instituições: a já citada proposta de Ihering ao Seminário Episcopal de São Paulo de trocar a coleção exposta no Seminário por duplicatas que o Museu possuía de espécimes de História Natural. Tal proposta foi negada e foi isto, provavelmente, o que fez com que novas tentativas de mesma natureza fossem deixadas de lado. O contato que Ihering manteve com as instituições, assim, passou a ter um caráter apenas de busca de informações.

Se foram as compras de particulares as grandes responsáveis pelo aumento da Coleção Numismática, em menor escala o foram as doações . Já em 1895, o Museu recebia uma riquíssima coleção, adquirida pelo estado de São Paulo por 15 Contos de Réis: a já mencionada coleção particular de Júlio Ribeiro181 181 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 jun. 1894. Ibidem. . Interessante notar que, para adquirir esta coleção, Ihering pediu auxílio à Biblioteca Nacional para sua avaliação182 182 . Ver Correspondência do diretor do Museu à Biblioteca Naciona, em. 20 jun. 1895. Ibidem. . Com o passar do tempo, entre 1895 e 1905, houve um grande aumento de propostas de vendas e doações para o Museu Paulista. Isso, provavelmente, deve-se a uma maior visibilidade nacional que o Museu e sua coleção gradativamente passaram a ter. Já nos anos de 1904 e 1905, o Museu recebe propostas para compra de acervo de particulares de vários estados, entre eles, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná183 183 . Por exemplo: Aristide Pinho, Curitiba, propõe venda ao Museu em 30 de Dezembro de 1904; Augusto de Souza Lobo, do Rio de Janeiro, propõe a venda ao Museu em correspondência de 7 de Janeiro de 1905; e, Agostinho Lopes, Rio Grande do Sul, propôs venda à Secretaria do Interior em 5 de Julho de 1905. Fundo Museu Paulista, pastas 81 e 82. . De certo modo, esta foi uma das funções que esta coleção cumpriu, pois, no âmbito nacional, ela aumentou a visibilidade do museu de São Paulo. O aumento gradativo da coleção possibilitou, em 1905, que Ihering afirmasse:

sem dúvida, a coleção numismática do Museu a qual foi incorporada a do finado filólogo Júlio Ribeiro é no Estado de São Paulo a de mais importância e parece-me que esta parte das nossas coleções seria digna de atenção por parte do governo proporcionando-me a necessária verba e aumento do pessoal para o seu desenvolvimento184 184 . Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 jul. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82. .

O documento acima transcrito mostra-nos também outra característica desta coleção: no ver de Ihering, a coleção era uma coleção de estudos e, por isso, desde os primeiros anos do Museu, ele pedia à Secretaria do Interior a contratação de um ajudante numismata185 185 . Por exemplo, já em 1896, Ihering afirma "Uma das lacunas que sinto é a falta de um ajudante para a coleção numismática". Ver Ofício do Diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jan. 1896. Fundo Museu Paulista, pasta 70. . A rica coleção do Museu, na gestão Ihering, possui um status e um enfoque diferente, a nosso ver, do que aquele dado à coleção de objetos históricos, às pinturas e mesmo às medalhas comemorativas.

Objetos históricos

Como já foi dito, o Regulamento do Museu Paulista mencionava que a coleção de História Nacional seria "especialmente dedicada a colecionar e arquivar documentos relativos ao período de nossa independência política"186 186 . Transcrito em Affonso de Escragnolle Taunay (1937, p. 46). . No entanto, a coleção de História Pátria, na gestão Ihering, não era apenas de objetos relativos ao processo de Independência. Como também já dito, na Coleção Sertório, a primeira do Museu, já havia vários objetos históricos, entre eles uma camisa que pertenceu a Solano López, uma armadura de Martim Afonso de Sousa, espadas do Brigadeiro Rafael Tobias etc187 187 . Cf. Henrique Raffard (1977, p.89). .

As instituições que fizeram a aquisição deste acervo histórico foram, em ordem decrescente o próprio Museu, a Secretaria do Interior (efetuando compras e recebendo doações), outras instituições do estado (fazendo doações) e, por fim, doações de particulares. É importante frisar que o próprio Museu foi responsável pela maioria das aquisições (compras e doações). A primeira delas, em 1896, foi o já citado conjunto de objetos históricos de Eugênio Hollander188 188 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 30 jun. 1896. Fundo Museu Paulista, pasta 70. . Foi também nesse ano o primeiro envio - pelo menos de que tivemos notícia - de objeto histórico pela Secretaria do Interior ao Museu: o urinol que havia pertencido a marquesa de Santos189 189 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao Museu Paulista, em 18 jul. 1896. Ibidem. . Em 1900, foram doados por um outro órgão público (que não fosse o Museu ou a Secretaria do Interior) os primeiros objetos que entraram no acervo de história: uma monografia sobre o café190 190 . Ofício do Gabinete do Secretário da Agricultura ao diretor do Museu, em 20 abr. 1900. Fundo Museu Paulista, pasta 74 e a barra de ouro fundida no Mato Grosso em 1812191 191 . Idem, em 3 fev. 1900. Ibidem. . As doações de particulares foram bastante incipientes, entre elas o já mencionado busto não identificado, doado ao Museu por. Nicolina Vaz de Assis192 192 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 jan. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75. . Paulatinamente, dentro dessas formas de aquisição, o acervo de objetos históricos foi aumentando durante a gestão de Ihering.

Ainda sobre a conceituação acerca desses objetos, é necessário refletir sob dois aspectos. O primeiro diz respeito aos objetos históricos relativos ao passado remoto da História Nacional, como os do período Colonial, os da Independência ou do Império. Uma segunda tipologia seria traçada com objetos da história recente, que demonstram uma visão de progresso.

Os objetos adquiridos pelo Museu, ligados à História Pátria até a República, tiveram como grande catalisador o próprio Museu, colocando-se em segundo lugar a Secretaria do Interior e outros órgãos públicos. Sobre estes objetos adquiridos pelo Museu, convém destacar os objetos de Eugênio Hollander, que, pelo que sabemos até agora, foram três coleções adquiridas até 1905. Temos informações sobre duas dessas coleções, das quais a mais interessante para estudo é a segunda, pois contou com mais objetos históricos, como os mencionados "um armário de jacarandá que pertenceu a um capitão-mor; uma mesa de jacarandá feita no estado de São Paulo em fins de 1699, começo de 1700; um bauzinho para guardar roupas de crianças pertencentes a família nobre paulista, época de 1700, 1720; um boné militar do 1º exército regular brasileiro; uma espada do 1º chefe de banda do 1º exército regular brasileiro; um estribo de senhora, 1680". Outros objetos adquiridos por Ihering foram as duas cadeirinhas compradas da herança do Barão Souza de Queiroz193 193 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 26 jun. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. . A "Pia Batismal da primitiva Igreja de Anchieta na aldeia de Itanhaém"194 194 . Ver Correspondência a Rodolfo von Ihering, em 30 abr. 1904. Fundo Museu Paulista, pasta 80. , 6 canhões do período colonial e imperial existentes na praia de São Sebastião195 195 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 22 jan. 1904. Ibidem. etc. Sobre os objetos enviados pela Secretaria do Interior, destaca-se o já citado urinol que pertenceu à marquesa de Santos. Nos objetos enviados por outros órgãos, destacamos o cofre da Câmara Municipal de Jundiaí, datado de 1750196 196 . Ver Ofício da Câmara Municipal de Jundiaí ao diretor do Museu, em 17 set. 1905; e Ofício do diretor do Museu à Câmara Municipal de Jundiaí, em 22 set. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82. . Podemos ver uma entrada maior de objetos ligados à história paulista. Resta responder se isto decorria de uma política consciente ou era apenas resultado de uma maior facilidade em se adquirir objetos de São Paulo.

Sobre os objetos ligados à história recente, podemos constatar que a entidade que fez o maior número de aquisições, e doação posterior, foi a Secretaria do Interior, ficando em um patamar menor as doações de outras instituições e de particulares. A Secretaria do Interior é o grande "entreposto" dessas peças, quase sempre revestidas de caráter oficial. Para exemplificar, podemos lembrar o soquete e a colher de pedreiro que inauguraram as obras do Monumento do Ipiranga197 197 . Ver Ofício da Secretaria do Interior a Ihering, em 30 set. 1897. Fundo Museu Paulista, pasta 71. ; um diploma e uma medalha conferidos ao Governo do Estado de São Paulo pelo Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros198 198 . Ver Ofício de Secretaria do Interior a Ihering, em 4 dez. 1897. Ibidem. (ambos enviados em 1897); uma medalha comemorativa conferida por ocasião da visita do General Rosa, presidente de República Argentina à República brasileira199 199 . Idem, em 27 set. 1899. Fundo Museu Paulista, pasta 73. ; assim como Álbum Industrial de São Paulo que fizera parte da Exposição Universal de Paris de 1900200 200 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 10 out. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75. .

Outras peças foram enviadas por instituições diversas e por particulares como, por exemplo, uma doação, feita por resolução da Junta da Fazenda, de um carrinho de mão e uma pá que serviram para dar início, em Santos, aos trabalhos da São Paulo Railway Company201 201 . Idem, em 24 jan. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 27 jan. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. ; e os objetos pessoais do ex-presidente Campos Salles, a Coleção Campos Salles202 202 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 dez. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 dez. 1902. Ibidem. .

Podemos notar como o conceito de História Pátria pode estar vinculado a acontecimentos recentes e fora do País. É o caso, por exemplo, do fragmento do balão Pax e da medalha conferida a Santos Dumont por seu feito em Paris, ambos enviados por particulares em 1903. Podemos notar aí uma tipologia, já que ambos os objetos (medalha e fragmento de balão) foram expostos juntos203 203 . Ver Ofício do diretor do Museu a Secretário da Comissão Promotora de Brindes a Santos Dumont, em 2 jun. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. . A nosso ver, um conceito que permeia a concepção de história é o de evolução, de progresso e de inserção do Brasil no "Concerto das Nações". Durante a chamada Belle Époque, que coincide com o período por nós estudado, tal concepção de história cosmopolita, juntamente com a fé na Ciência como salvadora da humanidade, esteve mais forte do que nunca. Na exposição desses dois objetos, fica clara uma noção de progresso e de que os feitos de brasileiros no exterior, em nome dele, devem ser memorados. A noção de progresso também está implícita em alguns objetos ligados à história paulista, como por exemplo, no carrinho de mão e na pá feitos em comemoração ao início dos trabalhos da construção da ferrovia São Paulo Railway.

O Caso da Coleção Campos Salles

Tratamos a coleção Campos Salles em separado, embora ela possa ser considerada como composta de objetos ligados a acontecimentos oficiais. Da entrada da coleção no Museu à sua exposição ao público, várias foram as demandas de Ihering por segurança, o que torna sua recepção, em certo sentido, um caso à parte. A doação e a exposição da coleção mostram-nos, por um lado, a visibilidade e o reconhecimento que o Museu possuía e, por outro, a fragilidade de sua segurança.

A coleção Campos Salles foi doada em 11 de Dezembro de 1902 e, no dizer de Ihering, "representa[va] uma dádiva generosa o presente mais valioso que até agora o Museu tem recebido, sendo bastante elevado seu valor histórico"204 204 . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 dez. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 dez. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. . Transcreveremos os objetos constantes na coleção:

"Alexandre em casa de Appelles", peca da Manufatura Nacional de Sevres ; um riquíssimo centro de mesa e dois candelabros de prata, oferta do Comercio e da Indústria do Rio de Janeiro; urna placa de ouro, oferta do Banco de Paris e dos Países Baixos; um cartão de ouro com um brilhante oferecido pelo Comercio e pela Indústria do Rio de Janeiro; um cartão de prata dos obreiros do "Diário Oficial"; um cartão de ouro, oferta da colônia francesa da Capital da Republica; um cartão de ouro da Sociedade Beneficente dos Empregados do Correio de S. Paulo; um cartão de ouro, com quatro brilhantes e um topázio, presente da cidade de Ouro Preto; um medalhão de ouro, com as armas da Republica, ornado do topázios e de uma esmeralda brasileira, oferta dos proprietários de uma das minas de Manganês de Miguel Bournier; um tinteiro de ouro maciço, sobre um bloco de pedra aurífera e tendo por tampo um troféu com as bandeiras inglesa e brasileira, presente da Companhia das Minas de Morro Velho; um cartão de prata, oferta do Club Floriano Peixoto, de Minas; um castiçal de prata, de uso do Regente Feijó, oferta do Dr. José Avelino; cinco blocas, espécimens de ouro em suas diversas fases ate a moeda cunhada, oferta do Sr. Dr. Urbano Marcondes; uma medalha de prata do Circulo de La Prensa de Buenos Aires ; uma pena de ouro, cravejada de brilhantes, oferta dos notários de Buenos Aires; um cartão de ouro, saudação dos peruanos e dos bolivianos residentes em Buenos Aires; uma medalha de ouro, oferta do Sr. Wenceslau Villafani; urna medalha de ouro do "Yacht Club Argentines", de Buenos Aires; urna medalha de ouro do Jockey Club de Buenos Aires; uma placa de ouro da direção geral dos Telégrafos da Republica Argentina; uma medalha de ouro comemorativa do 1.° Congresso Medico Latino Americano do Chile; uma placa de prata, comemorando a inauguração do Asilo Gonçalves de Araújo, no Rio de Janeiro; um cartão de prata, oferecido pela. Escola Militar do Brasil; uma caixa contendo doze modelos das moedas de níquel, recentemente postas em circulação, sendo três placas não gravadas, três rodeadas de níquel, três de prata e três de ouro, oferta dos fabricantes; uma faca de prata, com bordados a ouro, obra de um sertanejo da Bahia, oferta do Dr. César Zama; um modelo da espada oferecida ao imperador da Alemanha, pela cidade Solingen, oferta do Sr. vice-almirante Pinto da Luz; uma coleção de colheres de prata e esmalte, representando os escudos e as armas de todos os cartões suíços, oferecida pelo Sr. Almeida de Vasconcelos ministro plenipotenciário do Brasil; uma medalha da Associação do 4.° Centenário; um cartão de prata, convite do Derby Club para as festas do 4.° Centenário; uma placa de ouro com as armas da Republica em rubis, brilhantes e esmeraldas, oferecida pela Brigada Policial do Distrito Federal: um cartão de ouro com um monograma em brilhantes, rubis e pérolas, oferecido pelo Sr. Visconde de Lucena; uma caixa de fósforos, de ouro com um brilhante, com a inscrição Fiat Lux, marca da fabrica de Niterói; uma medalha de bronze comemorativa da inauguração da estatua eqüestre do Duque de Caxias, no Rio de Janeiro; uma medalha de prata, comemorando a visita do general Júlio Roca, presidente da Republica Argentina ; uma placa de ouro, contendo o programa das festas do Derby Club em honra do general Júlio Roca ; uma medalha comemorativa da visita em retribuição do presidente da Republica a Republica Argentina; uma medalha de ouro da "Sociedade Patriótica Falucho" em honra do presidente do Brasil; uma medalha de prata com a efígie de Sarmento ; um cartão de ouro da Sociedade de Beneficência de Buenos Aires; uma medalha de prata comemorando a experiência definitiva do balão dirigível de Santos Dumont; um cartão de ouro, do Velo Club do Rio de Janeiro; um cartão de ouro com um brilhante, oferta das casas civil militar da presidência da Republica; um cartão de ouro oferecido pelos deputados federais paulistas da maioria em 16 de Novembro de 1902; uma medalha de ouro, oferta do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro; uma medalha de ouro cravejada de rubis com brilhantes, oferta dos funcionários da Administração dos Correios de S. Paulo, e uma medalha de prata da 1ª exposição regional, agrícola e industrial de Ribeirão Preto205 205 . Toda a descrição da coleção está em Revista do Museu Paulista, São Paulo, v VI, p. 7-11. .

Como visto acima, a coleção de Campos Salles era oriunda das doações que este recebera durante a sua presidência (1898-1902). No entanto, por ser valiosa demais, esta coleção não poderia ser exposta no Museu Paulista enquanto não fossem atendidas as seguintes exigências de Ihering: colocação de grades de ferro na porta, reorganização do policiamento noturno, o fechamento da Praça da Independência no período noturno e instalação de iluminação elétrica ao redor do Monumento206 206 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 27 fev. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. . Convém lembrar que, como dito antes, no ano de 1898 o Museu havia sido invadido e peças da coleção numismática tinham sido furtadas.

A primeira exigência de Ihering foi atendida: já em fevereiro de 1903, nas portas e nas janelas do monumento estavam instaladas trancas de ferro que dificultariam a invasão.

Sobre as outras demandas, Ihering reclamava:

Não existe garantia para a segurança dos objetos de valor no Museu, podendo até dar-se o fato de toda esta valiosa coleção oferecida pelo Gal [sic] Campos Salles ser roubada de uma noite para a outra. Achando-se aberta a Praça da Independência também à noite, onde o gado da sinais de seus passos até a rampa do edifício e onde transitam pessoas e carroças, não é possível uma vigilância efetiva e isto especialmente em vista da falta de praças no monumento. Além disto o serviço do policiamento noturno não oferece garantia alguma, visto que os praças, muitas vezes recolhem-se às guaritas onde dormem certos da impunidade pela falta de fiscalização. Como já tenho comunicado a V. Exa. não estou exercendo efetivamente a direção e fiscalização do policiamento, a que tenho direito pelo regulamento deste museu, pela razão de não ter podido até agora conseguir a remoção do sargento que juntamente com o respectivo subdelegado, tem a culpa da desorganização deste serviço tão importante207 207 . Idem, em 12 dez. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. .

No entanto, as reclamações de Ihering não eram ouvidas pela Secretaria. A situação inverteu-se apenas quando, em ofício de 11 de Agosto de 1903, Ihering comunica as reclamações do ex-presidente Campos Salles, que, em visita ao Museu, ainda não havia visto sua coleção exposta. Ihering chega a afirmar que o ex-presidente recomendou que tratasse do assunto com o Presidente do Estado208 208 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 11 ago. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. .

Após este fato, as demandas foram sendo atendidas uma a uma. Ihering foi nomeado 6º Delegado da 2ª Circunscrição, e próximo ao Museu foi instalado um posto de policiamento às suas ordens209 209 . Ver Ofício de Hermann von Ihering ao delegado da 2ª circunscrição da capital, em 24 out. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. . O fechamento da Praça da Independência, bem como a instalação da iluminação ao redor do Monumento foram executados, usando-se para isso uma verba de 2:000$000, paga pela Secretaria de Obras Públicas210 210 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 11 ago. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. . Por fim, foram confeccionados armários especiais211 211 . Idem, em 6 mar. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. e de rótulos (legendas) para a coleção212 212 . Ver Ofício do diretor do Museu ao Gerente do Diário Oficial, em 13 out. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79. . Assim, em maio de 1905, Ihering já considerava possível expor a coleção213 213 . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em maio de 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82. ; e, na Revista do Museu Paulista de 1907, Rodolfo von Ihering afirmava que esta já estava exposta na sala nº 8 do Museu214 214 . Rodolfo von Ihering (1907, p. 14). .

A exposição

São poucas as fontes que possuímos sobre a exposição de objetos históricos no Museu, sendo a mais relevante o Guia pelas Colleccões do Museu Paulista, lançado em 1907 por iniciativa de Ihering. Esse guia nos fornece um panorama do que estava exposto no Museu quando de sua publicação, demonstrando, por um lado, o caráter secundário da coleção histórica - se a considerarmos em relação à História Natural - e, por outro, a sua inescapável importância em um Museu Enciclopédico, ou seja, com parte de disciplinas "científicas" bem delimitadas.

Segundo Alves, a desproporção entre História Natural e História Pátria era visível, já que "às treze salas de História Natural somavam-se apenas uma sala de objetos históricos, uma de armamentos e uma com a coleção numismática"215 215 . Ver Ana Maria de Alencar Alves (2001). . Esta afirmação tem respaldo, mesmo que consideremos a inclusão de duas salas com objetos históricos: a sala B11, com a pintura Fundação de São Vicente, de Benedito Calixto exposta; e a Sala de Honra que, desde a inauguração do Museu, expõe a tela Independência ou Morte, de Pedro Américo216 216 . Cf. Guia pelas Colleccoes do Museu Paulista (1907, p. 99-106). . Ainda assim, se essas cinco salas não representam nem metade do espaço reservado à exposição da coleção de História Natural, constituem um espaço significativo para uma coleção "esquecida", como muitos afirmaram. Tal importância é ainda maior se considerarmos que a História Natural congrega todas as coleções de Zoologia, Botânica, Arqueologia, Etnologia, enquanto a História Pátria congregaria apenas a coleção Histórica Pátria e a de Numismática.

Estavam expostos objetos de História Pátria nas seguintes salas: no Salão de Honra, a grande pintura de Pedro Américo já citada e provavelmente outros objetos históricos, dos quais não possuímos informação; na Sala B8, várias pinturas, principalmente de Benedito Calixto, representando D. Pedro I, José Bonifácio, Pe. José de Anchieta, Pe. Bartholomeu de Gusmão, Vicente Taques Góis Aranha e Domingo Jorge Velho. Soma-se, a esses quadros, uma cadeirinha de arruar que se dizia ter pertencido à Marquesa de Santos, completando assim uma sala quase totalmente dedicada a figuras paulistas; na Sala B9, havia armamentos antigos, como espadas e espingardas, bandeiras de voluntários paulistas, uma couraça de Martim Afonso, medalhas e condecorações brasileiras e uma monografia sobre o café, escrita em latim, impressa em Roma, em 1679; na sala B11, estava exposta a tela Fundação de São Vicente, de Benedito Calixto, e outros quadros diversos, entre eles alguns representando a "geologia antiga"; e, por fim, na sala B13, a seção numismática, com três separações: moedas brasileiras; moedas da América e de Portugal; moedas européias217 217 . Idem. Ibidem. .

Como visto acima, as coleções de História Pátria e de Pinturas Artísticas encontravam-se expostas na mesma sala, como no caso da sala B8. Por outro lado, a coleção Numismática era posta em uma sala separada (B13), onde ficavam expostos objetos nas três separações citadas.

O Museu Paulista e os projetos de Ihering

Em 1911, Ihering descreveu à Secretaria do Interior parte de seu projeto para o Centenário da Independência, cuja formatação era a mesma de um projeto anterior de Ihering: a criação da Cidadela dos Museus. Esse projeto seguiria o modelo alemão de Dresden, onde as coleções do museu enciclopédico estariam dispostas em vários edifícios, cada um com a sua especialidade218 218 . Ver Rodolfo von Ihering (1907); e Heloisa Barbuy (2005). . No entanto, Ihering deixaria seu cargo de diretor do Museu em 1916, e nunca veria seu projeto realizado. Antes de 1905, a proposta de Ihering para a acomodação das pinturas materializava-se na criação de uma galeria artística, que ficaria em um edifício separado do Museu e teria iluminação própria219 219 . Ver Hermann von Ihering (1904). . No entanto, a decisão do Governo do Estado foi de remover as pinturas para o Liceu de Artes e Ofícios e criar a Pinacoteca do Estado.

Em 1908, o projeto de criação da Galeria Artística não havia sido abandonado. Sendo o Museu um lugar de destaque na capital, as visitas à Pinacoteca do Estado acabavam sendo ínfimas em comparação ao número de pessoas que afluíam ao Museu Paulista. Com esse argumento, foi proposta, na Revista do Museu Paulista, a construção do pavilhão especial e a transferências das pinturas de volta ao Ipiranga220 220 . Ver Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. VII. . Em 1907, Rodolfo von Ihering escreveu que, de certo modo, a medida de transferir as pinturas do Museu Paulista tinha sido interessante, pois o Museu não era dotado de espaço físico para bem acondicionar tais pinturas. No entanto, depois manifestou que:

Os pintores, a princípio satisfeitos, entretanto, logo se aborreceram com tal mudança, visto como suas telas saíram de salas em que constantemente eram vistas por avultado número de visitantes para serem transferidas para outras onde estão como que escondidas. Estão agora convencidos que o melhor seria executar o plano do Dr. Von Ihering, esboçado em outro relatório, segundo o qual se construiria uma galeria especial para os quadros do Estado, talvez no próprio Ipiranga, junto ao Museu, para onde o público está encaminhado e onde se formaria uma como que cidadela de Museu, qual "Zwinger" de Dresden221 221 . Ver Rodolfo von Ihering (1907). .

Como sabemos, essa proposta não teve prosseguimento.Entretanto, o projeto de Ihering não ficou de lado antes de mais uma tentativa. Dessa vez, para a comemoração já citada do centenário da Independência em 1922, Ihering dizia em ofício:

Em 10 anos teremos no Ipiranga o aniversário da Independência. Nestas condições é mister preparar em tempo as modificações necessárias. Até aquela data, a meu ver, o andar térreo do Monumento devia ser ocupado pelas coleções histórico-antropológicas, o que exige a remoção das enormes coleções de estudo, biblioteca, administração, etc. em edifícios especiais. Entendo também que o Governo devia aumentar o terreno do Museu por compras que calculo em 100 contos222 222 . Ver Ofício de Hermann von Ihering à Secretaria do Interior , em 31 jul. 1911. Fundo Museu Paulista, pasta 93. .

Se ainda restam dúvidas sobre a importância da coleção histórica do Museu Paulista durante a gestão Ihering, temos aí mais uma clara manifestação de interesse não só por ela, mas pelo próprio caráter histórico do Museu. O zoólogo Ihering propõe nada menos do que remover as coleções de estudo, essenciais em um museu científico, para a exposição da coleção histórica no andar térreo do Museu.

Não foi encontrada a resposta da Secretaria do Interior para essa proposta. Sabe-se que Ihering deixou o Museu em 1916 (cinco anos depois dessa sugestão) sem ver seu projeto ser iniciado. Em 1917, assumiu a direção o historiador Afonso d'Escragnolle Taunay, que teria como prioridade a implantação de um projeto próprio, e em consonância com o Estado, para 1922. Esse projeto foi aplicado e bem sucedido, sendo perceptível, em parte, até os dias atuais. Frente a esse projeto grandioso e eficaz, apagou-se a memória da proposta do ex-diretor do Museu Paulista Hermann von Ihering.

Este artigo espera ter contribuído para suprir algumas lacunas e, de um modo mais amplo, para que a gestão Ihering tenha uma nova abordagem. Suas ações definiram as bases de funcionamento do recém-criado museu enciclopédico, entidade que seria matriz ou elemento colaborador de várias outras instituições do Estado criadas ao longo do século XX (Pinacoteca do Estado, Museu de Zoologia da USP, Museu de Arqueologia e Etnologia da USP etc.), além de, por aproximadamente vinte anos, ter-se dedicado continuamente à formação de sua coleção de história.

Artigo apresentado em 2/2008. Aprovado em 4/2008.

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  • TAUNAY, Affonso E. Guia da Seção Histórica do Museu Paulista São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1937.

  • 1
    . Este artigo é resultado de pesquisa de iniciação científica desenvolvida no Museu Paulista, sob orientação da Prof.a Dr.a Heloisa Barbuy, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
  • 2
    . Historiador, bacharel em História pela FFLCH/USP. E-mail: <
  • 3
    . Ver Maria José Elias (1996).
  • 4
    . Ver Lilia Moritz Schwarcz (1993).
  • 5
    . Ver Lilia Moritz Schwarcz (1989).
  • 6
    . Ver Maria Margaret Lopes (1997).
  • 7
    . Ver item 2.5, A História, em Ana Maria de Alencar Alves (2001).
  • 8
    . A autora, como argumento para esta afirmação, mostra a desproporção quanto às salas: "às treze salas de História Natural somavam-se apenas uma sala de objetos históricos, uma de armamentos e uma com a coleção numismática". Ver Idem, p. 136.
  • 9
    . Para um resumo das diversas tentativas e projetos, cf. Maria Helena Flynn (1990, p. 14).
  • 10
    . Sobre a memória da independência, ver Cecília Helena de Salles Oliveira (1995).
  • 11
    . Cf. Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses (1990, p.1).
  • 12
    . Cf. Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 38-46).
  • 13
    . Sobre o projeto da elite paulista, cf. Lilia Moritz Schwarcz (1993, p. 79); e Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 38-46). Sobre a chamada Era dos Museus, na Europa, ver Roland Schaer (1993); quanto à inserção do Brasil na Era dos Museus, ver Maria Margaret Lopes (1997).
  • 14
    . Cf. Heloisa Barbuy (2002 p. 67).
  • 15
    . Idem (2005, p. 36-37).
  • 16
    . Cf. Maria Margaret Lopes (1997, p. 14).
  • 17
    . Cf. Heloisa Barbuy (2002, p. 67).
  • 18
    . Cf. Ana Cláudia Fonseca Brefe (2005, p. 32-37).
  • 19
    . Idem, p. 37.
  • 20
    . Apenas para apontar dois desses autores, cf. Ana C. Fonseca Brefe, (2005, p. 30); e Ulpiano T. B. Meneses (1994, p.12).
  • 21
    . Entre eles os já citados Roland Schaer e as brasileiras Maria Margareth Lopes e Lilia Moritz Schwarcz.
  • 22
    . Ver Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 34-78).
  • 23
    . Trechos do discurso de von Ihering em 1895, apud Lilia M. Schwarcz (1993, p. 80).
  • 24
    . Cf. Lilia M. Schwarcz (1993, p. 80-81).
  • 25
    . Exemplo de correspondência endereçada ao Museu do Ipiranga: "Tenho a honra de remeter-vos em nome da comissão Promotora de um brinde a Santos Dumont oferecido pela Colônia Brasileira desta cidade, um exemplar da medalha que foi entregue juntamente com o brinde, aquele nosso glorioso compatriota, pedindo a Vsa. Exa. o obséquio de conservá-la no arquivo do
    Museu do Ipiranga, como lembrança da homenagem dos brasileiros residentes ou de passagem nesta capital, ao intrépido aeronauta brasileiro" (grifo nosso). Correspondência do Secretário da Comissão Promotora de Brinde a Santos Dummont ao Diretor do Museu Paulista. 17 abr. 1903. Fundo Museu Paulista. Pasta78.
  • 26
    . Ver Ana Cláudia Fonseca Brefe (1999).
  • 27
    . Cf. Ulpiano T. B. de Meneses (1994, p. 14-15).
  • 28
    . Inclusive no Museu Paranaense havia uma coleção numismática, Segundo Maria Margareth Lopes (1997, p. 209).
  • 29
    . Idem, p. 270.
  • 30
    . Idem, p. 207-213 (grifo nosso).
  • 31
    . Cf. Rodolfo von Ihering (1895, p. 9).
  • 32
    . Correspondência do Diretor do Museu ao Instituto Histórico Geográfico de São Paulo. 29 abr. 1902. FMP. p. 77.
  • 33
    . Cf. Maria José Elias (1996, p. 141); e Lilia M. Schwarcz (1989, p. 41).
  • 34
    . O nome da nova instituição mudou de Museu do Estado para Museu Paulista alguns dias após sua designação como instituição autônoma. Cf. Miyoko Makino (1997).
  • 35
    . Cf. Henrique Raffard (1977, p. 86-89).
  • 36
    . Cf. Carl von Koseritz (1980, p. 265-267).
  • 37
    . Cf. Maria José Elias (1996, p. 140);
  • 38
    . Cf. Correspondência de João Baptista da Silveira ao Presidente de Província de São Paulo. Fundo Permanente do Arquivo do Estado.
  • 39
    . Maria José Elias (1996, p. 140-141) afirma que o museu foi entregue aos cuidados da administração provincial, inclusive ocupando espaço no prédio do governo provincial, no Pátio do Colégio.
  • 40
    . Cf. Antonio Barreto do Amaral (1980, p. 438-439) (grifo nosso).
  • 41
    . Cf. Ofício de Orville A. Derby a Hermann von Ihering, em 29 ago. 1895. In:
    Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. 1, p. 13 -14, 1895.
  • 42
    . Sobre as negociações entre Ihering e Derby, ver Maria Margareth Lopes (1997, p. 268-270); e Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 62-69).
  • 43
    . Cf. Hermann von Ihering (1895, p.1).
  • 44
    . Idem, p. 12.
  • 45
    . O já citado primeiro volume da
    Revista do Museu Paulista relata detalhes da cerimônia.
  • 46
    . Lilia M. Schwarcz (1993, p. 82).
  • 47
    . Cf. Affonso E. Taunay (1937, p. 46).
  • 48
    . Após a saída de Ihering, o cargo de diretor do Museu Paulista foi, por pouco mais de 6 meses, ocupado por Armando Prado. Cf. Miyoko Makino (1997).
  • 49
    . Cf. Affonso E. Taunay (1937, p. 47-48).
  • 50
    . Para um dossiê desta pintura, ver Cecília H. de Salles Oliveira (1999).
  • 51
    . Ofício de H. von Ihering à Secretaria do Interior em 5 jun 1894. Fundo Museu Paulista, pasta 69.
  • 52
    . Correspondência de Hermann von Ihering ao diretor do Arquivo Nacional em 21 jun. 1895. Ibidem.
  • 53
    . Correspondência de B. Belli ao diretor do Museu Paulista, em 29 jun. 1895. Ibidem.
  • 54
    . O Sr. Catvieri escreve a Ihering que sua coleção "estava no Museu Nacional por ordem do imperador que desejava compra-la. Porém os acontecimentos políticos embaraçaram as negociações". Correspondência de Savério Catvieri ao diretor do Museu Paulista, em 28 nov. 1895. Ibidem.
  • 55
    . Em meados de 1895, Ihering pede ao Arquivo Nacional para designar uma pessoa no Rio de Janeiro para avaliar a coleção e, já em inícios de 1896, pede à Secretaria do Interior um ajudante para organizar a coleção. Ver Ofício à Secretaria do Interior, em 15 jan. 1896. Fundo Museu Paulista, pasta 70.
  • 56
    . Ihering escreve, em ofício à Secretaria do Interior, que "as coleções expostas ao público foram completadas merecendo menção especial os objetos históricos comprados do Sr. Eugênio Hollander". Cf. Ofício de Ihering à Secretaria do Interior, em 30 jun. 1896. Ibidem.
  • 57
    . Ofício da Secretaria do Interior ao Museu Paulista, em 18 jun. 1896. Ibidem.
  • 58
    . Idem, em 16 jul. 1896. Ibidem.
  • 59
    . Ofício da Secretaria do Interior a Ihering, em 15 mar. 1897. Fundo Museu Paulista, pasta 71.
  • 60
    . Ofício de Ihering a Secretaria do Interior, em 7 maio 1897. Ibidem.
  • 61
    . Idem, em 25 set. 1897. Ibidem. Até agora não foi encontrada a relação dos objetos.
  • 62
    . Ofício da Secretaria do Interior a Ihering, em 30 set. 1897. Ibidem.
  • 63
    . Idem, em 4 dez. 1897. Ibidem.
  • 64
    . Ofício de Hermann von Ihering ao Chefe de Polícia; e Ofício de Ihering a Secretaria do Interior, em 26 jan. 1898. Fundo Museu Paulista, pasta 72.
  • 65
    . Ofícios da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 28 abr. 1898 e em 7 out. 1898, respectivamente. Ibidem.
  • 66
    . Correspondência de Ihering a Benedito Camargo, em 22 abr. 1897. A resposta das questões de Ihering foi encontrada em Correspondência de Benedito Camargo a H. von Ihering, em 15 maio 1898. Ibidem.
  • 67
    . Correspondência de T. Aymberé a Ihering, em 7 abr. 1899; e Correspondência de E. dos Santos a Ihering, em 12 abr. 1899, respectivamente. Fundo Museu Paulista, pasta 73. Ainda falta esclarecer esta questão.
  • 68
    . Ofício da Secretaria do Interior a H. von Ihering, em 16 dez. 1899. Ibidem.
  • 69
    . Idem, em 29 dez. 1899. Ibidem.
  • 70
    . Idem, em 27 set. 1899. Ibidem.
  • 71
    . H. von Ihering (1902, p. 2-12).
  • 72
    . Ibidem.
  • 73
    . Ibidem.
  • 74
    . Ofício da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 27 abr. 1900. Fundo Museu Paulista, pasta 74.
  • 75
    . Sobre a doação do quadro, ver Ofício da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 15 dez. 1900; e sobre a vinda de Calixto ao Museu, ver Ofício de Hermann von Ihering a Secretaria do Interior, em 12 nov. 1900. Ibidem.
  • 76
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior a Hermann von Ihering, em 28 jul. 1900. Ibidem.
  • 77
    . Ver Ofício do Gabinete do Secretário da Agricultura ao diretor do Museu , em 20 abr. 1900. Ibidem.
  • 78
    . Ver Ofício do Gabinete do Secretário da Agricultura ao diretor do Museu, em 3 fev. 1900. Ibidem.
  • 79
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 4 maio 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75.
  • 80
    . Ver Correspondência de Jonas de Barros ao diretor do Museu, em 21 out. 1901. Ibidem; e Hermann von Ihering (1904).
  • 81
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 29 jan. 1901. Ibidem.
  • 82
    . Cf. Hermann von Ihering (1904, p. 6 e 8).
  • 83
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 3 out. 1901. Ao todo foram gastos 491$400 (Quatrocentos e noventa e um mil e quatrocentos Réis) nos serviços de ornamentação e colocação do quadro. Cf. Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 5 out. 1901 e em 25 out. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75.
  • 84
    . São diversas as fontes que fazem menção à verba mensal de expediente. Podemos citar os Relatórios anuais emitidos pela Museu Paulista à Secretaria do Interior. Sobre o pedido de autorização para encomenda, ver Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 7 out. 1901, respondido em 21 out. 1901. Ibidem.
  • 85
    . Ver Ofício do Diretor dos Correios ao Diretor do Museu, em 22 jan. 1901. Ibidem.
  • 86
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 27 set. 1901. Ibidem.
  • 87
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 jan. 1901. Ibidem.
  • 88
    . Idem, em 10 out. 1901. Ibidem.
  • 89
    . Idem, em 16 jan. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77.
  • 90
    . Idem, em 28 maio 1902. Ibidem.
  • 91
    . Idem, em 27 ago. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em de 28 ago. 1902. Ibidem.
  • 92
    . Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 26 fev. 1902; e Correspondência de Benedito Calixto ao Diretor do Museu, em 1 fev. 1902. Ibidem.
  • 93
    . A cortina custou 275$400 (Duzentos e setenta e cinco mil e quatrocentos Réis). Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 11 abr. 1902, respondido em 15 abr. 1902. Ibidem.
  • 94
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 8 abr. 1902. Ibidem.
  • 95
    . Idem, em 4 out. 1902. Ibidem.
  • 96
    . Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 24 jan. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 27 jan. 1902. Ibidem.
  • 97
    . Idem, em 1 maio 1902; e Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 5 maio 1902. Ibidem.
  • 98
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 26 jun. 1902. Ibidem.
  • 99
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 26 jun. 1902. Ibidem.
  • 100
    . Idem, em 11 dez. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 dez. 1902. Ibidem.
  • 101
    . Idem, em 3 jan. 1903; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 6 jan. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 102
    . Idem, em 3 mar. 1903; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 mar. 1903. Ibidem.
  • 103
    . Idem, em 10 nov. 1903; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 13 nov. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 104
    . Idem, em 26 fev. 1903 e Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 27 fev. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 105
    . Ofício do Secretário da Comissão Promotora de Brinde a Santos Dumont ao diretor do Museu, em 17 abr. 1903; e Ofício do diretor do Museu ao Secretário da Comissão Promotora de Brinde a Santos Dumont, em 2 jun. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 106
    . Ver Ofício do inspetor do Serviço Agronômico do Estado de São Paulo ao Diretor do Museu Paulista, em 31 dez. 1903. Ibidem.
  • 107
    . Ver Correspondência de José de Paula Leite de Barros ao Diretor do Museu, em 10 maio 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 108
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 22 jan. 1904. Fundo Museu Paulista, pasta 80.
  • 109
    . Ver Cópia do referimento assinado por Saturnino Severino de Mattos enviada ao Diretor do Museu Paulista, em 9 mar. 1904; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 mar. 1904. Ibidem.
  • 110
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor em exercício do Museu, em 8 abr. 1904; e Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 18 abr. 1904. Ibidem.
  • 111
    . Ver Correspondência a Rodolfo von Ihering, em 30 abr. 1904. Ibidem.
  • 112
    . Ver Ofício do diretor em exercício do Museu à Secretaria do Interior, em 14 set. 1904. Fundo Museu Paulista, pasta 81.
  • 113
    . Ver Correspondência de Aristide Pinho ao diretor em exercício do Museu Paulista, em 30 dez. 1904. Ibidem.
  • 114
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor em exercício do Museu, em 6 jul. 1904; e Ofício do diretor em exercício do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jul. 1904. Ibidem.
  • 115
    . Ver Ofício do diretor em exercício do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jul. 1904. Ibidem.
  • 116
    . Ver Correspondência de Augusto de Souza Lobo ao diretor do Museu, em 7 jan. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82.
  • 117
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 jul. 1905. Ibidem.
  • 118
    . Oscar da Veiga, a princípio, ofereceu sua coleção por 4:000$000 Réis. Ver Correspondência de Oscar da Veiga ao diretor do Museu, em 13 out. 1905. Logo depois, ofereceu a referida coleção pelo valor de 2:000$000 Réis (um pouco abaixo da avaliação do numismata do Instituto Histórico Geográfico de São Paulo, Eugênio Hollander, 2:800$000 Réis, como constava em uma cópia anexa à correspondência). Ver Correspondência de Oscar da Veiga ao diretor do Museu, em 20 out. 1905. Por fim, a coleção foi comprada por 1:000$000 de Réis. Ver Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 23 out. 1905. Ibidem.
  • 119
    . Ver Ofício da Câmara Municipal de Jundiaí ao Diretor do Museu, em 17 set. 1905 e Ofício do Diretor do Museu à Câmara Municipal de Jundiaí. 22 set. 1905. Ibidem.
  • 120
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 9 dez. 1905. Ibidem.
  • 121
    . Idem, em 30 maio 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84.
  • 122
    . Relatório do ano de 1906 do Museu Paulista à Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista.
  • 123
    . Ver Ofício do Tesouro do Estado ao diretor do Museu, em 20 set. 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84.
  • 124
    . Ver Ofício do Presidente da Sociedade Paulista de Agricultura ao diretor do Museu, em 24 mar. 1906. Ibidem.
  • 125
    . Ver Correspondência do diretor em exercício do Museu a Oscar Pereira da Silva, em 12 nov. 1906. Ibidem.
  • 126
    . Ver Relatório do ano de 1906 do Museu Paulista à Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista.
  • 127
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 18 jul. 1907. Fundo Museu Paulista, pasta 85
  • 128
    . Ver Relatório do ano de 1907 do Museu Paulista a Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista.
  • 129
    . Ibidem.
  • 130
    . Ver Ofício da Repartição de Estatística e do Arquivo do Estado de São Paulo ao diretor do Museu, em 20 dez. 1907. Fundo Museu Paulista, pasta 85.
  • 131
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 23 ago. 1907. Ibidem.
  • 132
    . Idem, em 24 fev. 1908. Fundo Museu Paulista, pasta 86.
  • 133
    . Idem, em 24 fev. 1908. Ibidem.
  • 134
    . Relatório do ano de 1908 do Museu Paulista à Secretaria do Interior. Fundo Museu Paulista.
  • 135
    . Ibidem.
  • 136
    . Ibidem.
  • 137
    . Ver Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior , em 26 mar. 1909. Fundo Museu Paulista, pasta 88.
  • 138
    . Idem, em 21 ago. 1909; e Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 28 ago. 1909. Ibidem.
  • 139
    . Idem, em 23 jun. 1909; e Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 30 jun. 1909. Ibidem.
  • 140
    . Ver Ofício da Repartição Estatística do Estado ao diretor do Museu, em 16 ago. 1910. Fundo Museu Paulista, pasta 89.
  • 141
    . Ofício do diretor do Museu a Secretaria do Interior, em 20 jul. 1911. Fundo Museu Paulista, pasta 93.
  • 142
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 25 jul. 1911. Ibidem.
  • 143
    . Ver Correspondência de Francisca Rezende de Almeida Mello ao diretor do Museu, em 22 set. 1911. Ibidem.
  • 144
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 jul. 1912. Fundo Museu Paulista, pasta 95
  • 145
    . Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 8 jan. 1912; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 ago. 1912. Ibidem.
  • 146
    . Ver Correspondência de Aristides da Silva Ponte ao diretor do Museu, em 16 ago. 1913. Fundo Museu Paulista, pasta 97.
  • 147
    . Documento em Alemão, com tradução em anexo. Escrito, na parte inferior: "Resp. que o Museu actualmente não tem verba para aquisições de moedas". Ao que tudo indica, é a letra de H. von Ihering. Ver Correspondência de José Schneeberger ao diretor do Museu Paulista, em 21 ago. 1913. Ibidem.
  • 148
    . A referida coleção foi oferecida pelos advogados da Família. Ver Correspondências de Figueiredo e Cia. ao diretor do Museu, em 5 set. 1914; e em 15 nov. 1914. Fundo Museu Paulista, pasta 99.
  • 149
    . Correspondência de Humberto Ambrogi ao diretor do Museu, em 5 set. 1914. Ibidem.
  • 150
    . Correspondência de Francisco Pires ao diretor do Museu, em 9 dez. 1914. Ibidem.
  • 151
    . Correspondência de J. Dias ao diretor do Museu, em 3 dez. 1915. Fundo Museu Paulista, pasta 103.
  • 152
    . Correspondência de Paulino Batista dos Santos ao diretor do Museu, em 17 fev. 1916. Fundo Museu Paulista, pasta 102.
  • 153
    . Ofício da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro ao diretor do Museu, em 8 set. 1916. Ibidem.
  • 154
    . Os salários pagos no Museu Paulista eram mais baixos que os que eram pagos a funcionários de instituições públicas paulistas, como consta nas reclamações e Ihering. Por exemplo ver: Ofício de Hermann von Ihering a Secretaria do Interior, em 15 set. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78. Nesse mesmo sentido, os salários pagos em outros museus eram superiores como consta na correspondência de Ihering com o diretor do Museu Nacional em que Ihering pede informações sobre os salários pagas naquela instituição. Ver Ofício do diretor do Museu Paulista ao diretor do Museu Nacional, em 15 set. 1905; e, em resposta, Ofício do diretor do Museu Nacional ao diretor do Museu Paulista, em 5 out. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82.
  • 155
    . Cf. Ana Maria de Alencar Alves (2001, p. 135).
  • 156
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jan. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 157
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 17 jan. 1903. Ibidem.
  • 158
    . Como visto, ao que tudo indica, Ihering deixou de colocar um dos grupos de objetos históricos em seu texto. Mesmo assim, analisando o desenrolar do documento percebemos que os dois grupos que, segundo Ihering, devem fazer parte das coleções de um Museu são os objetos "que se relacionam com fatos históricos" e objetos que revelam aspectos instrutivos do período em que foram confeccionados e usados. Para isso, ver Ofício do diretor do Museu Paulista à Secretaria do Interior, em 12 jan. 1912. Fundo Museu Paulista, pasta 94.
  • 159
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 ago. 1912. Ibidem.
  • 160
    . Ibidem.
  • 161
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao Diretor do Museu, em 27 ago. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77. Anexos ao documento, os seguintes jornais:
    O Correio Paulistano, São Paulo, 3 maio 1900 (1ª Página com uma grande gravura do quadro) e 27 jun. 1902 (noticiando a aquisição);
    O Estado de São Paulo e o
    Diário Popular, ambos de 26 jun. 1902; e
    O Comércio de São Paulo, São Paulo, 28 jun. 1902 (todos noticiando a aquisição).
  • 162
    . Escreveu Benedito Calixto: "Tenho a honra e prazer de comunicar a Vsa. Exa. que já tenho quase prontos os dois primeiros retratos que V. Exa. dignou-se encomendar-me, o de José Bonifácio e do célebre Paulista Bartolomeu de Gusmão. Para executar este último tive que fazer estudos demorados, rebuscar a escavações sobre a vida um tanto obscura e misteriosa deste célebre brasileiro. No retrato eu o represento sentado em seu laboratório de física e química, em atitude meditativa examinando um dos planos ou desenhos da passarola. Tem agradado muito as pessoas que o tem vindo ver no nosso atelier, e creio que Vsa. Exa. há de ficar satisfeito como eu estou de poder coadjuvar a Vsa Exa. com meu fraco esforço a pagarmos em parte a grande dívida que devemos à memória desse grande homem que não é só uma glória brasileira, mas uma glória universal. Não me foi possível obter retrato porque não há mas encontrei uma pequena gravura da época, autentica, em que vem o desenho do balão em forma alongada. Na Nacelle em baixo vê-se a figura do padre-voador em atitude de governar. Este desenho é do "Dicionário Universal". Vou agora dar começo ao retrato de Martim Francisco que é necessário para completar a Galeria de D. Pedro I. Vsa. Exa. dignar-se dizer-me se devo fazer também o de D. João VI e se para isso é necessário contrato, ou se basta a autorização de V. Exa.". Cf. Correspondência de Benedito Calixto à Hermann von Ihering. Fundo Museu Paulista, pasta 93.
  • 163
    . Ver
    Guia pelas Colleccoes do Museu Paulista. São Paulo: Cardozo Filho, 1907.
  • 164
    . Ver nota 94.
  • 165
    . Ihering escreveu: "Levo ao vosso conhecimento que a comissão que tão dignamente festejou o 4º centenário do Brasil, em São Vicente, ofereceu ao Museu do Estado o belíssimo quadro do Sr. Benedito Calixto, representando a fundação de São Vicente e que o mesmo
    já se acha exposto na sala nº 11 do monumento lugar este escolhido pelo próprio Calixto, julgando que a doação do referido quadro será comunicada oficialmente ao governo, pois que, até agora informação alguma tive neste sentido, rogo-vos que caso vos seja comunicado pela comissão de S. Vicente, este fato, me seja enviada uma cópia da comunicação para arquivá-la na competente seção do museu" (grifo nosso). Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 nov. 1900. Fundo Museu Paulista, pasta 74.
  • 166
    . Ver Correspondência de Jonas de Barros a Hermann von Ihering, em 21 out. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 76.
  • 167
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao Diretor do Museu, em 9 dez. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82.
  • 168
    . Idem, em 31 dez. 1905. Ibidem.
  • 169
    . Conforme publicado no
    Correio Paulistano, sendo transcrito por Taunay, a transferência foi determinada "tendo em vista que a freqüência do Museu Paulista é, quiçá, doze vezes mais avultada do que a da Pinacoteca" (grifo nosso). Ver Relatório referente ao anno de 1929, apresentado ao Excelentíssimo Senhor Secretário do Interior, Dr. Fabio de Sá Barreto. Fundo Museu Paulista, pasta 14.
  • 170
    . Ibidem.
  • 171
    . Ver Correspondência do diretor em exercício do Museu a Oscar Pereira da Silva, em 12 nov. 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84.
  • 172
    . Ver Correspondência de Francisca Rezende de Almeida Mello ao diretor do Museu, em 22 set. 1911. Fundo Museu Paulista, pasta 93
  • 173
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 jul. 1912. Fundo Museu Paulista, pasta 95.
  • 174
    . Ver Correspondência de Julius Meilli a Hermann von Ihering, em 2 jun. 1906. Fundo Museu Paulista, pasta 84.
  • 175
    . Ver Ângela M. G. Ribeiro (2003)
  • 176
    . Cf. Maria Margaret Lopes (1997, p. 13).
  • 177
    . Tal afirmação deve-se à proposta, já citada, de venda de acervo numismático ao Museu Paulista por Savério Catvieri. Em sua correspondência, Catvieri escreve a Ihering que sua coleção "estava no Museu Nacional por ordem do imperador que desejava compra-la. Porém os acontecimentos políticos embaraçaram as negociações". Ver Correspondência de Savério Catvieri ao diretor do Museu Paulista, em 28 nov. 1895. Fundo Museu Paulista, pasta 69.
  • 178
    . Ihering chegou a afirmar que a coleção numismática da Biblioteca Nacional era a mais rica do país. Ver Ofício do diretor do Museu Paulista à Secretaria do Interior, em 17 out. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 179
    . Ihering afirma que esta coleção era "uma pequena coleção numismática que contém moedas não representadas na coleção do Estado depositada no museu sob meu cargo". Ver Correspondência do diretor do Museu ao Seminário Episcopal, em 22 maio 1895. Fundo Museu Paulista, pasta 69.
  • 180
    . Ver Correspondência do diretor do Museu ao Arquivo Nacional, em 21 jul. 1895. Ibidem.
  • 181
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 jun. 1894. Ibidem.
  • 182
    . Ver Correspondência do diretor do Museu à Biblioteca Naciona, em. 20 jun. 1895. Ibidem.
  • 183
    . Por exemplo: Aristide Pinho, Curitiba, propõe venda ao Museu em 30 de Dezembro de 1904; Augusto de Souza Lobo, do Rio de Janeiro, propõe a venda ao Museu em correspondência de 7 de Janeiro de 1905; e, Agostinho Lopes, Rio Grande do Sul, propôs venda à Secretaria do Interior em 5 de Julho de 1905. Fundo Museu Paulista, pastas 81 e 82.
  • 184
    . Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 5 jul. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82.
  • 185
    . Por exemplo, já em 1896, Ihering afirma "Uma das lacunas que sinto é a falta de um ajudante para a coleção numismática". Ver Ofício do Diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 15 jan. 1896. Fundo Museu Paulista, pasta 70.
  • 186
    . Transcrito em Affonso de Escragnolle Taunay (1937, p. 46).
  • 187
    . Cf. Henrique Raffard (1977, p.89).
  • 188
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 30 jun. 1896. Fundo Museu Paulista, pasta 70.
  • 189
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao Museu Paulista, em 18 jul. 1896. Ibidem.
  • 190
    . Ofício do Gabinete do Secretário da Agricultura ao diretor do Museu, em 20 abr. 1900. Fundo Museu Paulista, pasta 74
  • 191
    . Idem, em 3 fev. 1900. Ibidem.
  • 192
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 jan. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75.
  • 193
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 26 jun. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77.
  • 194
    . Ver Correspondência a Rodolfo von Ihering, em 30 abr. 1904. Fundo Museu Paulista, pasta 80.
  • 195
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 22 jan. 1904. Ibidem.
  • 196
    . Ver Ofício da Câmara Municipal de Jundiaí ao diretor do Museu, em 17 set. 1905; e Ofício do diretor do Museu à Câmara Municipal de Jundiaí, em 22 set. 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82.
  • 197
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior a Ihering, em 30 set. 1897. Fundo Museu Paulista, pasta 71.
  • 198
    . Ver Ofício de Secretaria do Interior a Ihering, em 4 dez. 1897. Ibidem.
  • 199
    . Idem, em 27 set. 1899. Fundo Museu Paulista, pasta 73.
  • 200
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 10 out. 1901. Fundo Museu Paulista, pasta 75.
  • 201
    . Idem, em 24 jan. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 27 jan. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77.
  • 202
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 dez. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 dez. 1902. Ibidem.
  • 203
    . Ver Ofício do diretor do Museu a Secretário da Comissão Promotora de Brindes a Santos Dumont, em 2 jun. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 204
    . Ver Ofício da Secretaria do Interior ao diretor do Museu, em 11 dez. 1902; e Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 12 dez. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77.
  • 205
    . Toda a descrição da coleção está em
    Revista do Museu Paulista, São Paulo, v VI, p. 7-11.
  • 206
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 27 fev. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 207
    . Idem, em 12 dez. 1902. Fundo Museu Paulista, pasta 77.
  • 208
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 11 ago. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 209
    . Ver Ofício de Hermann von Ihering ao delegado da 2ª circunscrição da capital, em 24 out. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 210
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em 11 ago. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 211
    . Idem, em 6 mar. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 78.
  • 212
    . Ver Ofício do diretor do Museu ao Gerente do Diário Oficial, em 13 out. 1903. Fundo Museu Paulista, pasta 79.
  • 213
    . Ver Ofício do diretor do Museu à Secretaria do Interior, em maio de 1905. Fundo Museu Paulista, pasta 82.
  • 214
    . Rodolfo von Ihering (1907, p. 14).
  • 215
    . Ver Ana Maria de Alencar Alves (2001).
  • 216
    . Cf. Guia pelas
    Colleccoes do Museu Paulista (1907, p. 99-106).
  • 217
    . Idem. Ibidem.
  • 218
    . Ver Rodolfo von Ihering (1907); e Heloisa Barbuy (2005).
  • 219
    . Ver Hermann von Ihering (1904).
  • 220
    . Ver Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. VII.
  • 221
    . Ver Rodolfo von Ihering (1907).
  • 222
    . Ver Ofício de Hermann von Ihering à Secretaria do Interior , em 31 jul. 1911. Fundo Museu Paulista, pasta 93.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Jul 2008
  • Data do Fascículo
    Jun 2008

Histórico

  • Aceito
    Abr 2008
  • Recebido
    Fev 2008
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