Este dossiê retoma o título de seminário realizado em 31 de outubro e 1º de novembro de 2024 na sede Vila Penteado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo. O evento foi organizado por ocasião da celebração dos 20 anos da publicação em português da Teoria da Restauração, de Cesare Brandi, no Brasil, e os 61 anos de sua primeira edição em italiano (1963). Neste dossiê, alguns dos conferencistas ampliaram e revisaram suas falas para serem transformadas em artigos.
Cartaz do Seminário “Restauro, presente e futuro: reflexões a partir da teoria brandiana”, com a programação das falas.
O intuito do Seminário e deste dossiê é abrir perspectivas para possíveis modos de interpretação das propostas de Brandi para os dias de hoje, considerando diversos pontos de vista, explorando aspectos distintos de sua produção e articulando-os com as proposições de outros pensadores. Algo comum aos textos aqui presentes é a leitura circunstanciada e historicamente informada do pensamento de Brandi a partir do conjunto ampliado de sua produção - e de sua fortuna crítica - para amplificar de modo rigoroso suas propostas presentes na Teoria e em outras formulações.
É importante relembrar que diversos autores, como Pietro Petraroia, Luigi Russo, Massimo Carboni e Paolo D’Angelo, consideram, com justeza, que a Teoria é parte integrante da produção de Brandi no campo da estética, daí também a necessidade de ler o livro como parte de uma trajetória intelectual mais ampla. A construção do pensamento de Brandi apresenta muitas complexidades, que são acentuadas pela distância cultural e temporal em relação ao Brasil (e ao mundo) de hoje; para ser lida de modo informado, a abordagem tem de ser fundamentada e municiada de instrumentos críticos.1 Esse tipo de aproximação mostra que a leitura de suas propostas deve ser sempre feita com rigor, mas jamais de forma engessada, de modo a estender o sentido de suas formulações sem recair em frouxidão teórica.
Os textos aqui presentes demonstram que isso é possível, pois exploram aspectos prospectivos e inovadores a partir das bases estabelecidas por Brandi e de sua abertura de pensamento, sempre partindo de leitura crítica associada a diversas reflexões de outros autores, sem recair em reducionismos. Não se trata de sujeição, nem de nostalgia passadista. Brandi foi autor de grande envergadura intelectual, e seus textos abrem perspectivas amplas se forem lidos de modo crítico, mas jamais dogmático. Nada mais alheio ao pensamento do autor do que visões engessadas.
Muitas críticas recorrentes - de que a Teoria é “ultrapassada” e mobilizá-la, nos dias de hoje no Brasil, é uma atitude “reacionária” - não se sustentam à luz de uma leitura epistemologicamente informada de Brandi e mostram total incompreensão das formulações do autor. Dessa forma, determinadas críticas são tentativas de proscrever a produção de Brandi e desqualificar quem a utiliza, numa postura de censura à produção do conhecimento, aproximando-se, assim, de atitudes mais afeitas ao totalitarismo do que à produção acadêmica.
Vale também registrar que, durante o Seminário e ao longo de novembro de 2024, foi realizada uma pequena exposição com reproduções fotográficas na Vila Penteado. Pareceu relevante oferecer ao público a oportunidade de conhecer as imagens que ilustravam a pouco conhecida primeira edição da Teoria - e que desde a edição pela Einaudi, em 1977, não conta com esse aparato. A exibição das 62 imagens foi um convite ao público para estabelecer suas próprias reflexões acerca das imagens que não são referenciadas no texto; da preponderância de imagens de arquitetura e de espaços urbanos - de nosso especial interesse, quando muitos ainda reputam à Teoria um afastamento desses temas -; e do verso de uma pintura, passando por visões macroscópicas até o espaço expositivo. Com essas imagens, e em toda sua Teoria, Cesare Brandi percorre temas fundamentais para se pensar o presente e o futuro na disciplina do restauro.
O dossiê se inicia com o texto de Cláudia Suely Rodrigues de Carvalho, que, a partir das propostas de “restauração preventiva” - locução que aparece em artigo publicado por Brandi em 1956 - explora como a questão se desdobra ao longo do tempo até chegar ao tema da conservação preventiva no Brasil nas últimas décadas. Esse assunto é da maior relevância nos dias de hoje, inclusive por suas repercussões ambientais. Para Brandi, restauração preventiva não significa imunizar a obra contra a passagem do tempo, mas, sim, remover perigos e assegurar condições favoráveis para sua fruição, evidenciando a interrelação da obra com o espaço em que está inserida.
A visão articulada do espaço, e das manifestações culturais no espaço, é justamente o tema explorado por Manoela Rossinetti Rufinoni, ao examinar a produção multifacetada de Brandi em diversos domínios e se aprofundar nas suas narrativas de viagem, como parte da experiência estética. Nos seus livros sobre viagens, emerge a amplitude dos interesses do autor e sua capacidade de examinar as manifestações culturais de modo amplo, articulando as pessoas, os lugares, as paisagens e, portanto, os modos de vida.
Já Marina Docci explora o interesse de Brandi pela cidade histórica, baseando-se nas polêmicas em relação à inserção de novas obras arquitetônicas em tecidos históricos, analisando a posição de diversos autores e aprofundando a discussão a partir do caso de Siena, cidade natal do autor. Para ele, a tutela dos centros históricos não se reduz apenas a uma operação técnica, mas é, sobretudo, um dever cívico e uma “instância moral”, evidenciando seu comprometimento em prol do interesse público.
O dossiê prossegue com as reflexões de Natália Miranda Vieira-de-Araújo sobre o ato de projetar em preexistências e a relevância dos princípios teóricometodológicos do restauro, explorando a reflexão a partir de textos de Brandi pouco tratados pela produção científica brasileira, sendo eles: Eliante o della Architettura (1957), escrito que faz parte da série Diálogos de Elicona, produção do âmbito da estética; e Il Patrimonio insidiato: scritti sulla tutela del paesaggio e dell‘arte (2001), uma coletânea de artigos divulgados em jornais de grande circulação sobre temas ligados a arquitetura, cidade e paisagem, evidenciando, mais uma vez, a visão ampliada de Brandi sobre o que é de interesse da tutela. A autora examina então o papel da restauração arquitetônica como prática projetual qualificada.
Ana Paula Farah, por sua vez, explora a importância de discutir os aspectos teóricos da restauração na formação do arquiteto e urbanista no Brasil na atualidade. É importante recordar que Brandi teve papel da mais alta relevância como professor universitário e na formação de restauradores, jamais confundindo o processo de ensino-aprendizado com adestramento. Isso é atestado pela própria forma como estruturou o Istituto Centrale del Restauro (ICR, criado em 1938- 1939) em Roma, no qual o processo de formação, as atividades de pesquisa e a prática profissional eram articulados e o encaminhamento das soluções não dependia de uma escolha ditada pela hierarquia, mas da consistência e qualidade da proposta.2 Não por acaso o ICR foi considerado um dos mais significativos grupos criativos da Europa,3 o que atesta que a visão de Brandi para o ensino não era nem engessada, nem retrógrada; pelo contrário, abriu perspectivas do mais alto interesse, voltadas sempre para uma atuação ética, cuja necessidade é reforçada por Farah para os arquitetos e urbanistas brasileiros.
O texto de Simona Salvo mostra como o entendimento profundo da produção de Brandi, em especial de outros de seus escritos no âmbito da estética, permite amplificar o pensamento do autor para questões de regeneração urbana, identidade e processos participativos, a partir da experiência do bairro do Esquilino, em Roma, de que ela participou como uma das coordenadoras. O projeto foi fundamentado no conhecimento - bem como no reconhecimento - construído de modo integrado e partilhado do patrimônio cultural do bairro. Mesmo Brandi não enunciando explicitamente processos participativos como entendidos hoje, uma visão ampliada e fundamentada de suas proposições oferece instrumentos para pensar o patrimônio urbano na atualidade em suas múltiplas complexidades e não é incompatível com a participação da comunidade. A autora demonstra isso ao retomar o processo brandiano de reconhecimento a partir do entendimento do nexo profundo das reflexões do autor sobre a recepção da obra de arte como uma experiência a ser partilhada, que parte do indivíduo e passa para a comunidade do patrimônio.
Segue o texto de Pedro Augusto Vieira Santos, que explora justamente as relações entre o restauro arquitetônico e a produção artística contemporânea. Após examinar as relações entre Brandi, a arte contemporânea e o Brasil, ele apresenta as bases conceituais do restauro da arte contemporânea, mostrando que o autor é referência nesse âmbito desde o surgimento da discussão até os dias de hoje. A partir dessa base, faz a análise de casos no Brasil e no exterior, pautada em propostas de Brandi para casos e problemas sobre os quais ele não se manifestou diretamente. Isso mostra as possibilidades que leituras circunstanciadas de Brandi oferecem, confrontando-as com propostas de outros autores.
O dossiê se encerra com a tradução de artigo de Giovanni Carbonara, no qual é questionada a necessidade de uma nova teoria da restauração que se autodenomina contemporânea, a de Salvador Muñoz Viñas, e se apresenta como ruptura de formulações precedentes. Carbonara trabalhou de modo consistente com a produção de Brandi ao longo do tempo, tendo publicado alguns de seus textos no Brasil, inclusive a apresentação da tradução da Teoria da Restauração em nosso país.4 A publicação desse artigo nos Anais do Museu Paulista é tanto uma homenagem a Carbonara, falecido em 2023, quanto uma exortação para a necessidade de abordar os referencias do campo a partir de rigorosa aproximação histórico-crítica, ao evidenciar diversas inconsistências nas propostas de Muñoz Viñas. Em vez da busca pela “novidade”, Carbonara insiste na pertinência da inovação pautada numa leitura informada do ponto de vista epistemológico e histórico, algo que fez ao longo de toda sua carreira.
REFERÊNCIAS
- BASILE, Giuseppe. Breve perfil de Cesare Brandi. Designio, São Paulo, n. 6, p. 49-56, 2006.
- BUZZANCA, Giancarlo; CINTI, Patrizia. O Instituto Central de Restauração de Roma. In: DE MASI, Domenico (org.). A emoção e a regra: os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950. Trad. Elia Ferreira Edel. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1999. p. 303-336.
- CARBONARA, Giovanni. Apresentação. In: BRANDI, Cesare. Teoria da restauração. Trad. Beatriz Mugayar Kühl. Cotia: Ateliê, 2004. p. 9-18.
- CARBONARA, Giovanni. Brandi e a restauração arquitetônica hoje. Designio , São Paulo, n. 6, p. 35-47, 2006.
- KÜHL, Beatriz Mugayar. Teoria da restauração , de Cesare Brandi: seis décadas de sua publicação. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 31, p. 1-42, 2023. DOI: 10.1590/1982-02672023v31e16.
-
1
Para uma análise mais ampla dessa questão, de modo a oferecer instrumentos para uma leitura circunstanciada da Teoria e para extensa bibliografia sobre o tema, ver Kühl (2023).
-
2
Basile (2006, p. 50).
-
3
Cf. Buzzanca e Cinti (1999).
-
4
Ver, por exemplo, Carbonara (2004) e Carbonara (2006).
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
-
Editores responsáveis:
Maria Aparecida de Menezes Borrego e David Ribeiro.


Fonte: elaborado pelos autores