Conceito psicológico de otimismo e uso de drogas entre estudantes de enfermagem

Concepto psicológico de optimismo y uso de drogas entre estudiantes de enfermería

Resumos

OBJETIVO: Descrever o consumo de substâncias psicoativas entre alunos de graduação em Enfermagem e residentes em Enfermagem e verificar a correlação deste com a percepção de otimismo. MÉTODOS: Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e correlacional abrangendo 229 sujeitos, sendo184 alunos de graduação e 45 da modalidade residência em Enfermagem de uma universidade pública do Paraná, no ano de 2010. Os Testes de Orientação de Vida e o de Triagem do Envolvimento com Álcool, Tabaco e outras Substâncias foram aplicados e utilizada a análise estatística descritiva, assim como os testes de correlação de Spearman e o de Kruskal Wallis. RESULTADOS: Foram encontradas diferenças estatísticas significantes para o consumo de tabaco e sedativos entre as diferentes séries. Houve correlação negativa fraca no uso de sedativos, e otimismo. O consumo indevido foi encontrado para álcool, tabaco, maconha e sedativos. CONCLUSÕES: Novos estudos devem ser realizados para se compreender os motivos do aumento gradativo do uso de tabaco nas séries, a queda drástica do uso de tabaco e os sedativos no Curso de Residência em Enfermagem e a correlação entre uso de sedativos e otimismo, como forma de prevenir os agravos e promover a saúde mental nos estudantes.

Estudantes de enfermagem; Internato não médico; Instituições de ensino superior; Detecção do abuso de substâncias


OBJETIVO: Describir el consumo de sustancias psicoactivas entre alumnos de pregrado en Enfermería y residentes en Enfermería y verificar la correlación de éste con la percepción de optimismo. MÉTODOS: Se trata de una investigación cuantitativa, descriptiva y correlacional que abarcó a 229 sujetos, siendo184 alumnos de pregrado y 45 de la modalidad de residencia en Enfermería de una universidad pública del Paraná, en el año de 2010. Fueron aplicados los Tests de Orientación de Vida y del Triaje del Involucramiento con Alcohol, Tabaco y otras Sustancias, utilizándose el análisis estadístico descriptivo, así como los tests de correlación de Spearman y el de Kruskal Wallis. RESULTADOS: Se encontraron diferencias estadísticas significativas para el consumo de tabaco y sedantes entre las diferentes series. Hubo correlación negativa débil en el uso de sedantes, y optimismo. El consumo indebido fue encontrado en relación al alcohol, tabaco, marihuana y sedantes. CONCLUSIONES: Deben realizarse nuevos estudios a fin de comprender los motivos del aumento gradual del uso de tabaco en las series, la caída drástica del uso de tabaco y los sedantes en el Curso de Residencia en Enfermería y la correlación entre el uso de sedantes y optimismo, como forma de prevenir los agravios y promover la salud mental en los estudiantes.

Estudiantes de enfermería; Internado no médico; Instituciones de Enseñanza Superior; Detección de abuso de substancias


OBJECTIVE: To describe the consumption of psychoactive substances among undergraduate nursing students and nursing residents, and verify a correlation between psychoactive substances and the perception of optimism. METHODS: This is a quantitative, descriptive, correlational study involving 229 subjects, including 184 undergraduate students and 45 nursing residents, from a public University of Parana, in 2010. The Life Orientation Test and the Screening Test for Alcohol, Tobacco and other Substances were used for the study. Descriptive statistics, Spearman correlation and Kruskal Wallis statistics were used for analysis. RESULTS: We found significant differences for the consumption of tobacco and sedatives within different series. There was weak negative correlation between sedatives and optimism. Misuse was found for alcohol, tobacco, marijuana and sedatives. CONCLUSIONS: Further studies should be conducted to understand the reasons for the gradual increase in tobacco use in the series, the dramatic decline in tobacco use and sedatives in the Residency Program in Nursing and the correlation between use of sedatives and optimism, in order to prevent injuries and promote mental health in students.

Students, nursing; Internship, Nonmedical Higher Education Institutions; Substance abuse detection


ARTIGO ORIGINAL

Conceito psicológico de otimismo e uso de drogas entre estudantes de enfermagem* * Trabalho realizado no Departamento de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina (PR), Brasil.

Concepto psicológico de optimismo y uso de drogas entre estudiantes de enfermería

Marcos Hirata SoaresI; Margarita Antonia Villar LuísII; Clarissa Mendonça Corradi-WebsterIII; Júlia Trevisan MartinsIV; Andréia Gonçalves Pestana HirataV

IProfessor Assistente de Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental. Departamento de Enfermagem, do Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina (PR), Brasil

IIProfessora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil

IIIPsicóloga. Pesquisadora. Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil

IVProfessora Adjunto de Fundamentos de Enfermagem. Departamento de Enfermagem, do Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina (PR), Brasil

VProfessora Colaboradora do Departamento de Enfermagem, do Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina (PR), Brasil

Autor Correspondente

RESUMO

OBJETIVO: Descrever o consumo de substâncias psicoativas entre alunos de graduação em Enfermagem e residentes em Enfermagem e verificar a correlação deste com a percepção de otimismo.

MÉTODOS: Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e correlacional abrangendo 229 sujeitos, sendo184 alunos de graduação e 45 da modalidade residência em Enfermagem de uma universidade pública do Paraná, no ano de 2010. Os Testes de Orientação de Vida e o de Triagem do Envolvimento com Álcool, Tabaco e outras Substâncias foram aplicados e utilizada a análise estatística descritiva, assim como os testes de correlação de Spearman e o de Kruskal Wallis.

RESULTADOS: Foram encontradas diferenças estatísticas significantes para o consumo de tabaco e sedativos entre as diferentes séries. Houve correlação negativa fraca no uso de sedativos, e otimismo. O consumo indevido foi encontrado para álcool, tabaco, maconha e sedativos.

CONCLUSÕES: Novos estudos devem ser realizados para se compreender os motivos do aumento gradativo do uso de tabaco nas séries, a queda drástica do uso de tabaco e os sedativos no Curso de Residência em Enfermagem e a correlação entre uso de sedativos e otimismo, como forma de prevenir os agravos e promover a saúde mental nos estudantes.

Descritores: Estudantes de enfermagem; Internato não médico; Instituições de ensino superior; Detecção do abuso de substâncias

RESUMEN

OBJETIVO: Describir el consumo de sustancias psicoactivas entre alumnos de pregrado en Enfermería y residentes en Enfermería y verificar la correlación de éste con la percepción de optimismo.

MÉTODOS: Se trata de una investigación cuantitativa, descriptiva y correlacional que abarcó a 229 sujetos, siendo184 alumnos de pregrado y 45 de la modalidad de residencia en Enfermería de una universidad pública del Paraná, en el año de 2010. Fueron aplicados los Tests de Orientación de Vida y del Triaje del Involucramiento con Alcohol, Tabaco y otras Sustancias, utilizándose el análisis estadístico descriptivo, así como los tests de correlación de Spearman y el de Kruskal Wallis.

RESULTADOS: Se encontraron diferencias estadísticas significativas para el consumo de tabaco y sedantes entre las diferentes series. Hubo correlación negativa débil en el uso de sedantes, y optimismo. El consumo indebido fue encontrado en relación al alcohol, tabaco, marihuana y sedantes.

CONCLUSIONES: Deben realizarse nuevos estudios a fin de comprender los motivos del aumento gradual del uso de tabaco en las series, la caída drástica del uso de tabaco y los sedantes en el Curso de Residencia en Enfermería y la correlación entre el uso de sedantes y optimismo, como forma de prevenir los agravios y promover la salud mental en los estudiantes.

Descriptores: Estudiantes de enfermería; Internado no médico; Instituciones de Enseñanza Superior; Detección de abuso de substancias

INTRODUÇÃO

A questão do uso abusivo e/ou dependência de álcool e outras drogas não deve ser entendido como um problema exclusivamente psiquiátrico ou médico, pois suas implicações sociais, psicológicas, econômicas e políticas devem ser consideradas na compreensão global do problema, que deve considerar a tríade "substância, indivíduo e meio ambiente" e suas mais diversas características que permitem infindáveis configurações no uso de substâncias psicoativas(1). Dados sugerem que a prevalência da dependência do tabaco e álcool na população brasileira é de 10,1% e 12,3%(2), respectivamente, mantendo-se semelhantes no I Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira(3).

No I Levantamento Nacional com 12.856 universitários(4), o uso de tabaco foi identificado, com maior frequência, na Região Sudeste, entre alunos da área de biológicas, assim como 48,7% relataram ter feito uso de substâncias ilícitas na vida, sendo a maconha, a substância mais frequentemente consumida, seguida pelos anfetamínicos, tranquilizantes, inalantes e alucinógenos. Em relação ao uso também não houve interferência de gênero, embora seja de conhecimento a existência de condições que influenciam de forma negativa ou positiva a pessoa a recorrer ao uso de drogas, como citado em estudo feito com estudantes de moradia estudantil, onde a facilidade de acesso à droga na moradia e diversos problemas existentes tornam o estudante mais vulnerável ao uso de substâncias psicoativas(5).

Estas condições, que tornam a pessoa mais ou menos vulnerável à dependência química, podem ser maiores ou menores, quando as características ou atributos de um indivíduo, grupo ou ambiente de convívio social contribuem para aumentar ou diminuir a probabilidade de ocorrência do abuso de drogas. O acadêmico de enfermagem está sujeito ao desgaste biopsíquico em razão das atividades acadêmicas impostas e do convívio com os riscos no ambiente de trabalho, de natureza ergonômica, psicossocial e organizacional(6-7).

Visando a criar um conceito mais integrativo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou o conceito de Saúde Mental Positiva, que é composto por um grupo de conceitos-chave, incluindo bem-estar e estados positivos da mente, sendo também parte integral da saúde. Fatores espirituais, ambientais, físicos, sociais e emocionais são vistos como integradores e interativos dentro desse sistema complexo, como por exemplo, amor, familiaridade e a capacidade para relações recíprocas, empatia e bom senso, criação de inteligência emocional/social, temperamento e autocontrole, curiosidade e criatividade, coragem, justiça, esperança e perspectiva de futuro(8).

Ainda, pesquisadores(9) propuseram a dimensão do otimismo, como forma de se avaliar a saúde mental. O otimismo é descrito como a tendência em se acreditar que as pessoas irão, geralmente, viver experiências boas e ruins na vida, de uma forma mais ou menos otimista. Este construto foi definido com base nas expectativas que as pessoas possuem sobre os eventos que ocorrerão futuramente em suas vidas. Com base nesta premissa, desenvolveu-se o Teste de Orientação da Vida (Life Orientation Test-LOT), também considerado um indicador de saúde mental positiva pela OMS(8,10).

O conceito de otimismo deriva do conceito de estilo de atribuição, sendo este, derivado de um modelo cognitivo, que postula que as explicações causais adotadas por pessoas vão influenciar suas expectativas de vida no futuro. Desta forma, dentro deste modelo, eventos negativos que possuem causas internas, estáveis e globais estão relacionados a uma postura pessimista, ao passo que as atribuições dos eventos negativos a causas externas, instáveis e específicas estariam relacionadas a uma orientação mais otimista. No entanto, reitera-se novamente, que existem diferenças entre os dois conceitos, pois o otimismo avalia as expectativas das pessoas em relação a eventos futuros, enquanto a medida de estilo de atribuição, avalia as explicações causais das pessoas em relação aos eventos(9-10).

O otimismo pode possuir diversas formas de ser entendido e discutido. Por exemplo, na área de Psicologia, o conceito de orientação otimista da vida tem sido estudado em vários contextos, como no educacional, em que se relaciona com a capacidade de adaptação e desempenho escolar. Em um estudo, o nível baixo de otimismo foi fator preditor de dificuldades de adaptação ao ambiente acadêmico, em estudantes universitários, em termos de sintomas depressivos, sentimentos de solidão e sintomas de estresse, ao longo do primeiro ano do curso, assim como em menor desempenho acadêmico nos anos posteriores(9,11). Um estudo mais recente feito por um dos pesquisadores desta temática(12) foi comparar a percepção otimista de mulheres que fizeram cirurgia de câncer de mama. Entre outras informações, o estudo conclui, que as mulheres que relataram mais otimismo, percebiam maior apoio social de cônjuges, família e amigos.

Embora não tenha sido encontrada nenhuma pesquisa que relacionasse o uso de substâncias psicoativas e o otimismo, entende-se ser importante dar início à pesquisa sobre esta temática, uma vez que os estudos analisados(9,11-15) não aborda esse assunto, tornando este estudo, como praticamente inédito no tema e relevante à Enfermagem.

Entende-se que o cotidiano acadêmico-profissional dos estudantes e enfermeiros residentes os expõem a situação de maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico e formas de enfrentamento, na qual fazem uso de drogas lícitas e ilícitas(5-7). Além disso, para alguns essas vivências podem superar suas capacidades de enfrentamento de tal forma que desencadeie um transtorno mental.

Diante destas considerações, levantamos as seguintes indagações:

- O uso de drogas lícitas e ilícitas aumenta progressivamente nas séries do curso?

- Há diferenças significativas relacionadas com o padrão de consumo e a série que o estudante cursa, inclusive com relação aos residentes de enfermagem?

- Há correlação entre a percepção otimista/pessimista e o uso de algum tipo de droga?

Neste estudo, será dada ênfase ao consumo de álcool, tabaco e sedativos, em razão da caracterização das drogas lícitas como problema de saúde pública.

Desta forma, propusemo-nos neste estudo descrever o consumo de substâncias psicoativas entre alunos de graduação em Enfermagem e residentes em Enfermagem e verificar a correlação deste com a percepção de otimismo.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e correlacional. A amostra foi composta por 184 alunos do curso de graduação em Enfermagem e 45 alunos do curso de pós-graduação, modalidade residência em Enfermagem (R1 e R2), totalizando 229 alunos de uma universidade pública do Estado do Paraná. Os critérios de inclusão foram ser alunos de graduação em Enfermagem ou pós-graduação - modalidade residência em Enfermagem e aceitar participar do estudo.

Como instrumentos de coleta de dados, foram utilizados:

Teste de Orientação da Vida (TOV-R): O TOV-R, cujo nome original em inglês é "Life Orientation Test" ou LOT.(9,11-16) Foi validado na língua portuguesa do Brasil(14), com um alfa de Cronbach de 0,68 e visa a medir o construto de orientação da vida, no que se refere à maneira como as pessoas percebem suas vidas, de uma forma mais ou menos otimista. Este construto foi definido em termos das expectativas que as pessoas possuem sobre os eventos que ocorrerão no futuro em suas vidas, sendo um conceito que está inserido na teoria de autoregulação do comportamento, segundo a qual as pessoas lutam para alcançar objetivos, quando elas acreditam que estes sejam possíveis e que suas ações produzirão os efeitos desejados nessa direção(15).

Teste de Triagem do Envolvimento com Álcool, Tabaco e outras Substâncias (ASSIST) que é um teste validado internacionalmente pela OMS, para avaliar o envolvimento com drogas lícitas e ilícitas, sendo planejado para diversos países e cenários(17-19), sendo validado no Brasil(18-19). A 2ª versão(19) foi usada neste estudo. É um questionário estruturado, contendo oito questões sobre o uso de nove classes de substâncias psicoativas (tabaco, álcool, maconha, cocaína, estimulantes, sedativos, inalantes, alucinógenos e opiáceos). As questões abordam a freqüência de uso na vida e nos últimos três meses, problemas relacionados ao uso, preocupação a respeito do uso por parte de pessoas próximas ao usuário, prejuízo na execução de tarefas esperadas, tentativas mal sucedidas de cessar ou reduzir o uso, compulsão para o uso e uso via injetável.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da Universidade Estadual de Londrina (Parecer n.º 057/10). Os sujeitos foram convidados verbalmente, durante o período de 27 de junho a 26 de julho de 2010, em datas solicitadas previamente aos docentes responsáveis pelas atividades, a fim de encontrar o melhor dia para a coleta de dados. Nos dias escolhidos, foi explicado o objetivo do estudo, a garantia do anonimato e todas as demais recomendações sobre normas éticas em pesquisas com seres humanos. No momento da coleta de dados, as turmas dos 2º e 4º anos já haviam cursado as disciplinas da área de Saúde Mental previstas no currículo.

Após as orientações iniciais, não houve recusa de nenhum sujeito, então, procedeu-se à distribuição do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e após a entrega dos mesmos assinados, foram entregues os dois questionários grampeados juntos.

Para a análise dos dados, foi construída uma planilha no programa Microsoft Office Excel 2007. Os dados foram exportados para o Programa Statistical Package for Social Sciences v.11 (SPSS). A análise dos dados foi realizada pela apresentação das freqüências absoluta e relativa e cálculo de média. A comparação entre as médias dos grupos foi feita com o uso do teste de Kruskal-Wallis. A fim de conhecer as possíveis correlações entre as variáveis, utilizou-se o teste de correlação de Spearman. O nível de significância adotado foi de p < 0,05.

RESULTADOS

Em relação ao consumo das substâncias psicoativas, encontraram-se diferenças estatísticas significantes para o consumo de tabaco e sedativos entre as diferentes turmas (Kruskal Wallis, p<0,05).

A média encontrada na pontuação do TOV-R foi de 17,72 (min=7; Max=17,72; dp-3,31), sendo verificada uma correlação negativa fraca entre o uso de sedativos e o otimismo (r= -2,19), indicando que quanto menor o grau de otimismo relatado maior foi o uso e abuso de sedativos. No entanto, não foram encontradas diferenças significativas em relação ao consumo de outras substâncias e estas correlacionadas ao otimismo nas diferentes turmas.

Ao analisar os dados da Tabela 1, observa-se que a maioria declarou-se não fumante (67,2%). A maconha, por sua vez, apareceu como a terceira substância psicoativa referida, como sendo a mais consumida pelos sujeitos do estudo, seguida também pelos sedativos que incluem os ansiolíticos e hipnóticos.

Ao analisar os dados da Tabela 2, nota-se que das 1ª a 3ª séries, a proporção de alunos que se autodeclarou não fumantes permanece sem grandes mudanças, variando de 76,7% a 69,4%, respectivamente, quando diminui mais de 30% na 4ª série, retornando ao mesmo padrão nos alunos R1 e R2. Já, o uso ocasional aumenta gradativamente até o R1 e diminui no R2 de Enfermagem. O uso sugestivo de abuso é pequeno (2%), ocorrendo nas 2ª e 3ª séries e referido como nulo nos alunos de Residência em Enfermagem.

Vale destacar que, com o avanço da série, mais alunos afirmaram consumir sedativos, entretanto não foram encontradas diferenças significativas entre as diferentes turmas (p=0,43; Kruskal Wallis).

Nos dados das Tabelas 4 e 5, notam-se com exceção do consumo referido de sedativos, que quase nove vezes aumenta o padrão de consumo das drogas que permanece na mesma proporção, com discretas variações.

Conforme os dados das Tabelas 4 e 5, nota-se que 32,3% referiram já terem usado tabaco e 32,8% já fumaram, pelo menos, uma vez nos últimos três meses, indicando que há grandes possibilidade de que os alunos estão consumindo tabaco durante seu período de convívio com a universidade.

DISCUSSÃO

Quando se verificam os dados da Tabela 1, é preocupante visto que, 51,1% referiram consumir bebidas alcoólicas ocasionalmente, 35,8% sugerem um consumo abusivo, 0,4% sugerem um padrão de dependência e 12,7% não bebem; apesar do instrumento usado não permitir mensurar a quantidade consumida, tendo em mente o padrão binge de consumo. Nas Tabelas 4 e 5, nota-se que 85,1% dos sujeitos referiram já ter consumido bebidas alcoólicas e 87,3%, pelo menos uma vez nos últimos três meses. Isto indica que provavelmente, os alunos estão consumindo álcool no período da vida em que estudam na universidade. Também num estudo com 393 universitários de uma universidade privada de enfermagem, 89,6% já fizeram uso de álcool na vida(20).

Em estudo desenvolvido com universitários brasileiros(4), 86,2% já consumiram álcool na vida, onde a região Sul foi considerada a que mais detém alunos consumidores de álcool (92,1%), mas não havendo diferenças significativas com relação ao turno e área de estudo, como no caso do tabaco. Em outro estudo com 51 estudantes de enfermagem(7), o consumo de álcool e tabaco foi maior no período do internato e num estudo(21) com 179 estudantes de enfermagem de uma instituição pública, 22,4% referiram já ter consumido tabaco. Segundo dados das Tabelas 4 e 5, há grandes possibilidade de que os alunos estão consumindo tabaco durante seu período de convívio com a universidade.

Estas taxas vão ao encontro com o levantamento feito entre universitários brasileiros(4), no qual 32,2% dos estudantes que referem fumar concentram-se na região Sul, 35,6% nas instituições públicas e 43,3% na área de biológicas. Ainda, 35,7% dos estudantes que referem fumar, estudam em período integral (como neste caso), mas é a menor taxa quando se compara o consumo de tabaco por período de estudo, sendo a maior taxa representada pelo período matutino, com 50,5%.

Nas Tabelas 4 e 5, observa-se que as drogas classificadas como "outras" referem-se ao uso de antidepressivos e fitoterápicos", como uso na vida e nos últimos três meses, levando a supor que estes o estão fazendo mesmo no período que convivem na universidade. Segundo a Tabela 3 e o teste de correlação de Spearman, foi encontrada uma correlação negativa fraca, porém com significância estatística entre o consumo de sedativos e o otimismo (r= -0,219; p<0,05). Estes dados sugerem que, devido ao número pequeno de sujeitos que referiram consumo de sedativos, a correlação foi pequena, mas é possível que em uma população com mais sujeitos que refiram consumo de sedativos, possa haver uma correlação mais forte e com significância clínica.

Quando se comparam as Tabelas 4 e 5, nota-se que o consumo de sedativos sem prescrição médica cresceu nos últimos três meses, ou seja, no seu período de estudo, é quase nove vezes maior que o referido como consumo na vida, indicando que a convivência com a universidade pode influenciar a automedicação nos estudantes. Segundo uma pesquisa desenvolvida em 2009 com estudantes universitários(4), 2,2% dos alunos têm consumo abusivo de sedativos, mas não é possível uma comparação mais detalhada, uma vez que a classificação de drogas usadas nesse levantamento difere da aplicada neste estudo com a enfermagem. De acordo com um estudo(20) realizado com 393 alunos de um curso privado de Enfermagem, foi encontrada a referência de auto-consumo de 19,1% de ansiolíticos, sugerindo que os estudantes podem consumir mais estes medicamentos.

Ainda um estudo(22) que relata os resultados de diversas outras pesquisas desenvolvidas com mais de 1.000 escolas de Enfermagem norte-americanas, revelou que o acesso e a informação sobre drogas pode também servir como fator agravante no consumo de sedativos, assim como, o fato de que se deve levar em conta o contexto sócio-econômico e cultural atual, no qual a mídia enfatiza os benefícios dos medicamentos e contexto de vida estressante que o mundo globalizado enfrenta, pois se pode transmitir a falsa idéia de que os medicamentos são seguros, assim como faz parte do cotidiano da maioria das pessoas a prática da automedicação.

Uma pesquisa realizada no Equador(23) acerca do uso de medicamentos entre estudantes de enfermagem revela que é comum essa prática pelos alunos, referindo-se aos benzodiazepínicos sem prescrição médica e tendo como motivos causadores os fatores considerados como geradores de estresse, e aumento da vulnerabilidade, sustentando o que já era amplamente conhecido sobre o tema.

Os dados levantados permitiram algumas hipóteses explicativas, sendo uma, a que, conforme os estudos citados aqui(5-7), o aumento do consumo de sedativos esteve relacionado ao aumento da tensão e do estresse, que aumenta no decorrer das séries e, se correlacionam positivamente.

Devido a complexidade das habilidades e de conhecimento que são exigidas dos alunos, à medida que avançam no curso, e alguns alunos, ao adentrarem a residência, adquirem maior habilidade, auto-confiança e segurança pessoal-profissional com relação ao desempenho da profissão, denominada de inteligência, habilidade ou competência emocional. Das drogas pesquisadas, somente o tabaco apresentou aumento estatístico significativo nos anos do curso e os sedativos correlacionaram-se negativamente com o otimismo.

CONCLUSÕES

Os resultados revelaram que alunos de graduação e residentes de enfermagem fizeram uso de drogas consideradas lícitas e ilícitas, porém, com exceção ao tabaco, não foram identificadas diferenças significantes entre as séries, pois somente o tabaco apresentou aumento estatístico significativo no decorrer do curso de acordo com o aumento da complexidade das habilidades exigidas nas séries, associando a carga de estresse ao regime de estudo-trabalho, configurando-se como fatores de sobrecarga.

O estudo apresentou limitações ao correlacionar negativamente o uso de sedativos e o otimismo, uma vez que o número de sujeitos foi pequeno. No entanto, acredita-se que estudos posteriores possam ser conduzidos para avaliar com maior segurança esta fraca correlação negativa encontrada. Também na população de residentes de Enfermagem, as respostas dadas não foram totalmente satisfatórias, pois se acredita haver fatores como sua preocupação com a auto-imagem, por exemplo, interferindo nas respostas dadas aos questionários.

É de fundamental importância que a universidade possa investir em programas de acompanhamento do uso de drogas e automedicação por parte de alunos, uma vez que o consumo referido praticamente permanece o mesmo na vida e, ainda, o uso referido de sedativos aumenta quase nove vezes, depois que ingressam na universidade. Por fim, ressaltamos que novos estudos devem ser realizados para se compreender os motivos do aumento gradativo do uso de tabaco nas séries do curso, a queda drástica do uso abusivo de tabaco e sedativos no curso de residência em Enfermagem e a correlação entre uso de sedativos e o otimismo, como forma de se prevenir agravos e promover saúde mental nos estudantes.

AGRADECIMENTOS

À Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas-SENAD, pela subvenção ao curso de especialização para Formação de Pesquisadores em Álcool e outras Substâncias Psicoativas realizado pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP.

Artigo recebido em 24/09/2010 e aprovado em 13/01/2011

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  • Autor Correspondente:
    Marcos Hirata Soares
    Av. Robert Koch, 60
    Vila Operária - Londrina - PR - Brasil
    CEP. 86038-350
    E-mail:
  • *
    Trabalho realizado no Departamento de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Londrina - UEL - Londrina (PR), Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Ago 2011
  • Data do Fascículo
    2011

Histórico

  • Recebido
    24 Set 2010
  • Aceito
    13 Jan 2011
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