Resumo
Objetivo Mapear conteúdos e avaliar a usabilidade de aplicativos móveis (apps) direcionados a prevenção e controle do HIV.
Métodos Foram realizados benchmarking de apps em português, inglês e espanhol. Eles estão disponíveis nas plataformas Google Play e App Store, usando termos de busca relacionados ao HIV. Os critérios de inclusão abrangeram apps voltados à prevenção e controle do HIV destinados à população geral. Foram excluídos aqueles destinados a grupos populacionais específicos ou relacionados a outros objetivos. Os apps foram selecionados por duas enfermeiras com auxílio do checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses, sendo então avaliados quanto à usabilidade usando o questionário validado System Usability Scale.
Resultados Foram identificados 1.001 apps, dos quais 22 atenderam aos critérios de inclusão. A maioria dos apps estavam em inglês e só quatro em português. Foi observada uma carência de apps brasileiros e direcionados a populações-chave, tais como homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas trans. Os recursos mais frequentes foram lembretes, textos, calendários e diários. A usabilidade média dos apps foi de 72,9, sendo considerada aceitável. Apps com foco na profilaxia pré-exposição foram predominantes. Não foram identificados apps contemplando profilaxia pós-exposição ou imunização específica.
Conclusão Os apps analisados têm potencial como ferramentas educativas, embora haja limitações quanto ao foco em populações-chave e estratégias combinadas de prevenção. Adotar tecnologias móveis pode contribuir para enfrentar o HIV, especialmente se direcionadas às necessidades das populações em vulnerabilidade.
Descritores
Aplicativos móveis; Tecnologia educacional; Educação em saúde; HIV; Informática em enfermagem
Abstract
Objective To map content and evaluate the usability of mobile applications (apps) aimed at HIV prevention and control.
Methods Benchmarking of apps in Portuguese, English, and Spanish was conducted. They are available on the Google Play Store and the App Store using search terms related to HIV. The inclusion criteria covered apps focused on HIV prevention and control, intended for the general population. Those intended for specific population groups, or related to other objectives, were excluded. The apps were selected by two nurses using the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses checklist, and then evaluated for usability using the validated System Usability Scale questionnaire.
Results A total of 1,001 apps were identified, of which 22 met the inclusion criteria. Most of the apps were in English, and only four were in Portuguese. A lack of Brazilian apps targeting key populations, such as men who have sex with men, sex workers, and transgender people, was observed. The most frequently used features were reminders, texts, calendars, and diaries. The average usability score for the apps was 72.9, which is considered acceptable. Apps focused on pre-exposure prophylaxis were predominant. No apps were identified that offered post-exposure prophylaxis or specific immunization.
Conclusion The apps analyzed have potential as educational tools, although they have limitations in their focus on key populations and in their use of combined prevention strategies. Adopting mobile technologies can contribute to fighting HIV, especially if they are targeted to the needs of vulnerable populations.
Keywords
Mobile applications; Educational technology; Health education; HIV; Nursing informatics
Resumen
Objetivo Mapear contenidos y evaluar la usabilidad de aplicaciones móviles (apps) dirigidas a la prevención y al control del VIH.
Métodos Se realizó un benchmarking de apps en portugués, inglés y español, que están disponibles en las plataformas Google Play y App Store, utilizando términos de búsqueda relacionados con el VIH. Los criterios de inclusión abarcaron apps destinadas a la prevención y al control del VIH dirigidas al público general. Se excluyeron aquellas destinadas a grupos específicos de personas o relacionadas con otros objetivos. Las apps fueron seleccionadas por dos enfermeras con la ayuda de la checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses, y luego se evaluaron respecto a su usabilidad, mediante el cuestionario validado System Usability Scale.
Resultados Se identificaron 1001 apps, de las cuales 22 cumplieron los criterios de inclusión. La mayoría de las apps estaba en inglés y solo cuatro en portugués. Se observó una escasez de apps brasileñas y dirigidas a públicos clave, como hombres que tienen relaciones sexuales con hombres, profesionales del sexo y personas transgénero. Los recursos más frecuentes fueron recordatorios, textos, calendarios y diarios. La usabilidad promedio de las apps fue de 72,9, lo que se considera aceptable. Predominaron las apps centradas en la profilaxis preexposición. No se identificaron apps que contemplaran la profilaxis posexposición o la inmunización específica.
Conclusión Las apps analizadas tienen potencial como herramientas educativas, aunque existen limitaciones en cuanto al enfoque en públicos clave y estrategias combinadas de prevención. La adopción de tecnologías móviles puede contribuir para hacer frente al VIH, especialmente si se orientan a las necesidades de las personas vulnerables.
Descriptores
Aplicaciones móviles; Tecnología educacional; Educación en salud; VIH; Informática aplicada a la enfermería
Introdução
Ao longo de mais de quatro décadas, a infecção pelo HIV resultou em mais de 40 milhões de mortes no mundo. A epidemia ainda é uma preocupação significativa para a saúde pública apesar de avanços científicos tais como diagnósticos rápidos e terapias antirretrovirais (TARV) eficazes.(1)
Diante de sua relevância epidemiológica, metas globais foram estabelecidas, a saber: incluir o controle da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) como uma ameaça à saúde pública até 2030 e reduzir novas infecções anuais para menos de 370 mil casos até 2025. Porém, as estatísticas globais revelam que 1,3 milhões de pessoas contraíram o vírus em 2023. Esse número de novas infecções supera em três vezes o número esperado, indicando que a epidemia ainda precisa ser combatida.(2,3)
Para alcançar essas metas, os esforços têm-se concentrado em fortalecer ações preventivas, desenvolver vacinas e imunoterapias inovadoras e buscar por uma cura definitiva. Nesse contexto, a prevenção do HIV é entendida como um conjunto de estratégias visando reduzir a transmissão do vírus e proteger as pessoas da infecção, aplicando intervenções biomédicas, comportamentais e estruturais.(4,5)
As tecnologias educativas (TE) têm mostrado resultados promissores no apoio às práticas preventivas.(6,7) Entre essas tecnologias, os aplicativos móveis (apps) têm ganho destaque. Essas ferramentas oferecem funcionalidades tais como captura, armazenamento, compartilhamento de dados, personalização de serviços e acesso em qualquer momento e lugar, sendo definidas pelo uso de tecnologias móveis para promover saúde.(8-10)
Os apps têm potencial para superar barreiras geográficas e temporais, aumentar o letramento em saúde e melhorar o acesso a serviços, contribuindo para a equidade na atenção à saúde. Eles complementam as estratégias tradicionais, dando informações de saúde, incentivando comportamentos sexuais seguros e o uso de produtos preventivos.(11,12) Assim, ações tais como instrumentalizar e munir de informações as pessoas suscetíveis ao HIV e aquelas vivendo com o HIV (PVHIV) fortalecem a prevenção e o controle do HIV.
Para ampliar a discussão sobre o desenvolvimento de novos apps a serem usados pela população para prevenir e controlar o HIV, é necessário o seguinte: avaliar o desempenho e a usabilidade dos apps existentes para compreender seus principais conteúdos e limitações, contribuindo para reconhecer as reais necessidades de construção de novas tecnologias móveis para enfrentar essa epidemia.
Portanto, este estudo objetivou mapear conteúdos e avaliar a usabilidade dos apps direcionados para prevenção e controle do HIV.
Métodos
Este benchmarking foi uma pesquisa sistemática para identificar os apps voltados à prevenção e controle do HIV, avaliando seus conteúdos e usabilidade. A técnica de benchmarking permite analisar o desempenho e os resultados de recursos ou tecnologias para promover melhorias e inovações. Essa abordagem é útil para identificar as melhores práticas, dando subsídios para desenvolver ferramentas com evidências robustas e funcionalidades aprimoradas.(13,14)
Embora a origem do benchmarking esteja na área da administração para aperfeiçoar processos empresariais, ele tem sido usado nas ciências da saúde para avaliar apps disponíveis no mercado e sugerir a construção de tecnologias melhoradas.(15,16)
O checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) foi adaptado para mapear os apps e sintetizar seus conteúdos e funcionalidade. As 6 etapas percorridas foram as seguintes: 1) definição dos objetivos analíticos; 2) escolha dos termos de busca; 3) estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; 4) definição das informações a serem extraídas; 5) análise dos resultados; e 6) apresentação dos resultados e discussão.
A seguinte pergunta foi estruturada para identificar conteúdos e usabilidade: quais são os conteúdos e o nível de usabilidade dos apps desenvolvidos que contribuem para prevenção e controle do HIV?
Para responder a esta pergunta de pesquisa, foram identificados os apps relacionados à prevenção e controle do HIV usando os termos “HIV”, “VIH” (tradução de HIV para o idioma espanhol) e “AIDS” também usados em buscas individuais. A escolha desses descritores se justifica pela possibilidade de levantar um maior número de apps sobre o tema HIV.
Os apps foram selecionados via título e descrição resumida. Em seguida, eles foram eleitos com base nos seguintes critérios de inclusão: apps em português, inglês e espanhol, e apps sobre prevenção e controle do HIV destinados à população geral (destacando pessoas suscetíveis ao HIV e aquelas com diagnóstico de HIV), capazes de informar sobre saúde sexual e apoio ao autocuidado.
Foram excluídos os apps destinados só aos profissionais de saúde, eventos ou conferências científicas, apps de relacionamento e indisponíveis para download ou acesso, pois o objetivo dos apps selecionados pelo estudo era promover tanto a saúde sexual para prevenção do HIV como o apoio clínico e educativo para PVHIV, visando reduzir a transmissibilidade e melhorar o controle da infecção.
A busca, seleção e download ocorreram entre setembro e novembro de 2024, tendo sido conduzidas independentemente por duas enfermeiras doutorandas em promoção da saúde. A pesquisa foi realizada nas lojas Google Play (sistema operacional Android) e App Store (sistema operacional iOS) usando dois dispositivos: Iphone 13 (iOS) e Xiomi i9 (Android). Para cada termo selecionado, realizou-se uma busca, perfazendo três buscas em cada loja virtual.
Cada revisora construiu uma matriz de informações no Microsoft Excel® contendo o seguinte: nome, ano de lançamento, idioma, desenvolvedor, versão, ano de atualização, classificação etária, número de downloads, avaliação (por estrelas), conteúdo e recursos. Os apps divergentes foram discutidos, chegando a uma decisão final (sobre exclusão ou permanência) após conferência dupla conforme os critérios de elegibilidade.
Os apps elegíveis foram baixados e testados durante dez dias para melhor domínio de seus recursos. Depois, houve uma melhor compreensão da funcionalidade dos apps e as duas revisoras avaliaram sua usabilidade independentemente.
O questionário System Usability Scale (SUS) traduzido e adaptado para o Brasil (2022) foi usado para avaliar a usabilidade. Este instrumento mede eficiência, efetividade e satisfação, com respostas às perguntas em uma escala Likert (1-5; discordo completamente até concordo completamente). As respostas ímpares tiveram 1 subtraído de sua soma, ao passo que as pares tiveram 5 subtraído de sua soma, multiplicando o resultado por 2,5. A pontuação varia na faixa de 0-100, sendo classificada como inaceitável (<50), limítrofe (50-67), aceitável (68-84) ou excelente (>84).(17,18) As discrepâncias entre as respostas das avaliadoras foram resolvidas por discussão crítica até obter um consenso.
O projeto não foi apreciado por um comitê de ética em pesquisa por usar dados públicos, sem envolvimento de seres humanos ou conflitos de interesse. Os apps avaliados quanto a recursos e usabilidade foram citados nos resultados abaixo.
Resultados
A investigação inicial identificou 421 apps no App Store para os termos HIV (178), AIDS (223) e VIH (20). Na Google Play, 680 apps foram identificados para HIV (242), AIDS (242) e VIH (196). Muitos deles não tinham relação com HIV e/ou AIDS. Ao final da seleção, restaram 22 apps (Figura 1).
Entre os apps analisados, inglês foi o idioma predominante, seguido do espanhol. Só quatro estavam disponíveis em português (dois deles ofereciam suporte nos três idiomas). Esse achado aponta uma carência de apps brasileiros voltados à prevenção do HIV. O primeiro lançamento identificado ocorreu em 2014; houve aumento a partir de 2020, com uma maior concentração em 2023. O app eSidajoc não informou o ano de lançamento, inviabilizando verificar atualizações. O app HIV/HCV Education não teve atualização (Quadro 1).
Quanto à classificação etária, 50% (n=11) deles apresentaram acesso livre e 45,4% exigiram idade mínima (17 anos). A plataforma iOS impôs critérios de faixa etária mais restritivos em comparação ao Android. A maioria dos apps não forneceu classificação por estrelas. Entre os apps que apresentaram avaliação pelos usuários, cinco estrelas foi a classificação mais frequente. Quanto ao número de downloads, 50% (n=11) não informaram, 31,8% (n=7) registraram mais de 1.000 e 9,09% (n=2) ultrapassaram 100.000.
Para melhor compreensão, os conteúdos foram agrupados em cinco categorias e 12 eixos temáticos. Cada aplicativo pôde integrar mais de uma categoria e/ou eixo. A categoria “Práticas sexuais seguras” reuniu os seguintes eixos: gerenciador de vida sexual (n=6), apoiar o uso da PrEP (n=8), monitorar resultados de testes (n=3) e monitorar vacinas (n=2), abrangendo o maior número de apps, principalmente os que apoiam a PrEP. Os dois apps com recurso para registro de vacinas não asseguram informações sobre elegibilidade para imunização.
A categoria “Informações sobre HIV/AIDS e outras ISTs” contemplou os seguintes eixos: informações sobre HIV/AIDS (n=5) e HIV/AIDS e outras ISTs (n=5). A terceira categoria “Informações sobre serviços” incluiu serviços especializados em HIV/AIDS (n=2), centros de testagem (n=2) e outros serviços de saúde (n=3). “Comunicação” trouxe: apoiar/motivar PVHIV (n=2) e bate-papo entre PVHIV (n=2). Finalmente, a categoria “Mudança nos comportamentos de vida” apresentou o eixo cessar o hábito de fumar (n=1). Não foram encontrados apps sobre profilaxia pós-exposição (PEP), nem direcionados às populações-chave do HIV ou adolescentes.
Nenhum desenvolvedor foi responsável por mais de um aplicativo. Em relação aos recursos oferecidos, foram encontrados vários elementos, tais como: lembretes (n=9), textos (n=13), calendário (n=6), diário (n=5), registro de exames (n=5), imagens (n=8), jogos (n=3), áudios (n=3), registro de medicamentos (n=5), algoritmos para acesso a websites (n=4), call center (n=1), localizador (n=5), vídeos (n=2), chat (n=3), registro de vacinas (n=2), roteiro para consulta médica (n=1), fluxograma (n=1), agenda (n=4), algoritmos para acesso ao Instagram (n=1), algoritmo para acesso a serviços de compra (n=1), histórico de consultas (n=1), calculadora clínica (n=2) e questionário para caracterização do paciente (n=1) (Quadro 2).
A avaliação dos apps mostrou usabilidades limítrofe (31,8%; n=7), aceitável (40,9%; n=9) e excelente (27,3%; n=6). A média geral de usabilidade considerada aceitável foi 72,9. Nenhum aplicativo obteve usabilidade não aceitável (Quadro 2).
Discussão
O desenvolvimento, a difusão e a adoção de tecnologias móveis em saúde têm crescido significativamente. No contexto do HIV, os apps móveis oferecem acesso às informações de saúde, registro e monitoramento de dados clínicos dos pacientes, suporte para decisões ágeis e apoio em diagnósticos. Essas ferramentas também promovem o empoderamento dos pacientes através do autogerenciamento da própria saúde, além de fortalecer ações preventivas e de autocuidado.(19)
O predomínio de apps em inglês(16,20) e a falta de ferramentas desenvolvidas no Brasil evidenciam barreiras no acesso à tecnologia para prevenção ao HIV. Foi também verificada uma distribuição desigual no desenvolvimento de apps no Brasil, com 90,5% das iniciativas digitais em saúde desenvolvidas nas regiões Sul e Sudeste.(21) Uma pesquisa documental (2021) identificou apps brasileiros relacionados ao HIV, mas muitos não estão disponíveis para visualização ou downloads, possivelmente devido à exclusão ou desativação das plataformas.(22)
A maioria dos apps analisados está concentrada em práticas sexuais seguras, com ênfase no apoio ao uso da PrEP. Textos, lembretes e imagens têm sido os recursos mais frequentes segundo estudo sobre uso de apps para diabetes, que é considerada uma condição crônica assim como a infecção pelo HIV.(23) Porém, não foram encontrados apps direcionados só à populações-chave, tais como homens que fazem sexo com homens, trabalhadores do sexo, pessoas trans, usuários de drogas injetáveis e populações de presos.(24,25)
O enfrentamento e o controle da transmissão do HIV são processos complexos que envolvem vários fatores inter-relacionados, incluindo aspectos individuais, sociais, assistenciais, além de valorização dos direitos humanos e compreensão da vulnerabilidade. Esse conceito se refere à possibilidade de exposição de pessoas à infecção, resultante de condições individuais, coletivas e contextuais que aumentam a susceptibilidade ao HIV. A concepção de vulnerabilidade também evidencia a influência das desigualdades no acesso e disponibilidade de métodos de proteção, tais como a PrEP e a PEP, que são altamente eficazes e fundamentais para prevenir a transmissão e promover o controle da infecção quando usados adequadamente.(26,27)
Nesse contexto, novas evidências apontam para a necessidade de fortalecer o protagonismo das pessoas em seus contextos de interação sexual, como sendo o elemento central para prevenir e controlar o HIV. Portanto, é imprescindível superar a concepção de prevenção combinada centrada na oferta de uma cesta universal de métodos. Esta oferta deve ser articulada com impacto na saúde pública, promoção dos direitos humanos e equidade. Tal proposta culmina na hierarquização de prioridades e em maior diálogo com as demandas e o cotidiano de populações em maior vulnerabilidade ao HIV.(25)
É inegável que a tecnologia móvel pode qualificar os cuidados em saúde. Porém, é importante considerar o contexto de vida dos usuários para prevenir e controlar o HIV. Neste cenário, não há apps para prevenir o HIV estabelecendo um percurso metodológico sistemático para as populações-chave, adolescentes ou gestantes vivendo com o HIV. Além disso, não foram identificados apps que atendem à PEP, orientando às pessoas que praticam sexo anal, sobre imunização contra Hepatite B e A e contra o Papilomavírus Humano (HPV). Só o Smiling instead of Smoking-HIV foi identificado como integrador na redução de danos.(5,27)
Ainda nesse cenário, destacamos o reconhecimento das categorias de informações sobre HIV/AIDS e outras ISTs, bem como conteúdos sobre serviços, inseridos na dimensão educação em saúde. Para a prevenção do HIV, as ações educativas contribuem para que os indivíduos reflitam criticamente sobre sua vulnerabilidade e adotem práticas sexuais seguras.(28,29)
Quando a prevenção não é possível, é essencial focar no controle da infecção. Neste cenário, o diálogo e a comunicação são cruciais para ressignificar dimensões afetivas e reduzir vulnerabilidades em saúde sexual e reprodutiva, além de potencializar o tratamento, contribuindo para reduzir a carga viral e a transmissibilidade do HIV.(30,31) Na categoria da comunicação, os apps analisados que contemplam os eixos “Apoiar/motivar PVHIV” e “Bate-papo entre PVHIV” mostram potencial para fomentar o diálogo entre usuários, promovendo o protagonismo das PVHIV em seus percursos de cuidado.(32)
Destacamos o Preparadxs (entre os apps componentes da amostra) como sendo o único com usabilidade aferida em um estudo aplicável na população geral. O desempenho do app foi classificado como excelente, evidenciando seu potencial como ferramenta de apoio ao autocuidado e à adesão ao tratamento.(32)
A oferta da tecnologia móvel para a população é uma estratégia válida e promissora. Porém, é crucial estabelecer critérios de qualidade assegurando a segurança e a efetividade no uso dessas ferramentas. Neste sentido, a literatura aponta instrumentos validados para análise de qualidade (tal como o questionário SUS), indicado para avaliar a usabilidade dos atributos de apps de saúde.(16) Foram encontrados poucos estudos na literatura de pesquisas do tipo benchmarking avaliando a usabilidade de apps para prevenir e controlar o HIV apesar da rápida proliferação dos apps.
Também são escassos os estudos do tipo benchmarking avaliando sistematicamente a usabilidade de apps voltados à prevenção e ao controle do HIV apesar da rápida proliferação dessas tecnologias. Nesse contexto, há estudos que investigaram individualmente a viabilidade e a aceitabilidade de um app projetado e desenvolvido para prevenir o HIV ou apoiar PVHIV no autocuidado e adesão à TARV.(32,33)Pesquisas com a técnica Benchmarking foram usadas para avaliar a qualidade de serviços de cuidados para PVHIV.(34,35)Estudos de benchmarking com apps móveis são importantes pois essa tecnologia pode se tornar rapidamente obsoleta à medida que novas evidências são descobertas, exigindo constantes atualização e aprimoramento.(36)
Como limitação do estudo, destacamos a limitação dos apps incluídos a três idiomas. Além disso, a avaliação da usabilidade foi realizada só pelas pesquisadoras, sem uma participação direta dos usuários do sistema de saúde. Isso foi uma limitação embora seja também uma sugestão para estudos futuros. Assim, incluir a percepção dos usuários será fundamental para mensurar e refletir as dificuldades reais no uso das tecnologias. Além disso, o instrumento SUS carece de critérios para uma análise mais ampla da qualidade embora ele seja válido.
Conclusão
Os aplicativos (apps) voltados à prevenção e ao controle do HIV foram avaliados quanto a conteúdo e usabilidade, com maior destaque para os gerenciadores de vida sexual, informativos sobre HIV/AIDS e profilaxia pré-exposição. Essas ferramentas têm potencial para promover a educação em saúde, reduzindo o estigma e fortalecendo as estratégias preventivas. A usabilidade aceitável predominou nos apps analisados. Há carência dessa tecnologia educativa voltada às populações-chave e escassez de apps integrando estratégias combinadas de prevenção, tais como profilaxia pós-exposição e imunização. Para enfrentar a epidemia do HIV, é necessário um desenvolvimento tecnológico mais inclusivo e abrangente, embora as lacunas limitem a abrangência da prevenção combinada e reduzam o potencial de impacto dos apps.
Referências
- 1 Bekker LG, Beyrer C, Mgodi N, Lewin SR, Moretlwe SD, Taiwo B, et al. HIV infection. Nat Rev Dis Primers. 2023;9(1):42.
-
2 Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (PCNU). A urgência do agora: A AIDS frente a uma encruzilhada. Genebra: UNAIDS; 2024 [cited 2024 Nov 1]. Available from: https://unaids.org.br/wp-content/uploads/2024/07/RelatorioGlobalPTBR.pdf
» https://unaids.org.br/wp-content/uploads/2024/07/RelatorioGlobalPTBR.pdf -
3 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico - HIV e Aids 2024. Brasília (DF): Ministério da Saúde, 2024 [citado 2025 Mai 22]. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2024/boletim_hiv_aids_2024e.pdf/view
» https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2024/boletim_hiv_aids_2024e.pdf/view - 4 Huynh K, Vaqar S, Gulick PG. HIV Prevention. [Updated 2024 Jan 10]. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024
-
5 Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis - IST. Brasília (DF): Ministério da Saúde, 2022 [citado 2024 out 25]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_atecao_integral_ist.pdfISBN 978-65-5993-276-4.
» http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_atecao_integral_ist.pdfISBN - 6 Mota NP, Maia JK, Abreu WJ, Galvão MT. Educational technologies for HIV prevention in black people: scope review. Rev Gaúcha Enferm. 2023;44:e20220093.
- 7 Carvalho IS, Guedes TG, Bezerra SM, Alves FA, Leal LP, Linhares FM. Educational technologies on sexually transmitted infections for incarcerated women. Rev Lat Am Enfermagem. 2020;28:e3392.
-
8 Fédération Internationale Pharmaceutique. mHealth: use of mobile health tools in pharmacy practice. Haia: Fédération Internationale Pharmaceutique, 2019 [cited 2024 Out 5]. Available from: https://www.fip.org/files/content/publications/2019/mHealth-Use-of-mobile-health-tools-in-pharmacy-practice.pdf
» https://www.fip.org/files/content/publications/2019/mHealth-Use-of-mobile-health-tools-in-pharmacy-practice.pdf - 9 Oliveira AR, Alencar MS. O uso de apps de saúde para dispositivos móveis como fontes de informação e educação em saúde. RDBCI Rev Digit Bibliotecon Cienc Inf. 2017;15(1):234-45.
- 10 Cestari VR, Florêncio RS, Garces TS, Souza LC, Pessoa VL, Moreira TM. Mobile App mapping for heart failure care: a scoping review. Texto Contexto Enferm. 2022;31:e20210211.
- 11 Qureshi SS, Xiong JJ, Deitenbeck B. The effect of mobile health and social inequalities on human development and health outcomes: mHealth for health equity. Proc Annu Havaí Int Conf Syst Sci. 2019;3943-3952.
- 12 Sullivan PS, Hightow-Weidman L. Mobile apps for HIV prevention: how do they contribute to our epidemic response for adolescents and young adults? mHealth. 2021;7(36):36.
- 13 García-Lorenzo B, Gorostiza A, Alayo I, Castelo Zas S, Cobos Baena P, Gallego Camiña I, et al.; VOICE Study Group. European value-based healthcare benchmarking: moving from theory to practice. Eur J Public Health. 2024;34(1):44-51.
- 14 EIT Health. Implementing Value-Based Health Care in Europe: Handbook for Pioneers (Director: Gregory Katz), 2020.
- 15 Pedrosa RK, Soares AR, Reichert GP, Andrade FB, Reichert AP. Benchmarking of apps for mobile devices targeted at children's health. Texto Contexto Enferm. 2023;32:e20230204.
- 16 Cestari VR, Florêncio RS, Garces TS, Pessoa VL, Moreira TM. Benchmarking of mobile apps on heart failure. Rev Bras Enferm. 2022;75(1):e20201093.
- 17 Lourenço DF, Valentim EC, Lopes MH. Translation and cross-cultural adaptation of the System Usability Scale to Brazilian Portuguese. Aquichan. 2022;22(2):e2228.
- 18 Martins AI, Rosa AF, Queirós A, Silva A, Rocha NP. European Portuguese Validation of the System Usability Scale (SUS)]. Procedia Comput Sci. 2015;67:293-300.
- 19 Marengo LL, Kozyreff AM, Moraes FD, Maricato LI, Barberato-Filho S. Mobile technologies in healthcare: reflections on development, application, legal aspects, and ethics. Rev Panam Salud Publica. 2022;46:e37.
- 20 Gomes ML, Rodrigues IR, Moura NS, Bezerra KC, Lopes BB, Teixeira JJ, et al. Evaluation of mobile Apps for health promotion of pregnant women with preeclampsia. Acta Paul Enferm. 2019;32(3):275-81.
- 21 Nichiata LY, Passaro T. mHealth e saúde pública: a presença digital do Sistema Único de Saúde do Brasil por meio de apps de dispositivos móveis. Rev Electron Comun Inf Inov Saude. 2023;17(3):503-16.
- 22 Fermo VC, Tourinho FS, Schuelter PI, Macedo DD, Alves TF, Fagundes PB. Mobile applications on HIV/aids: a technological prospection. Rev Pesq Cuid Fundam Online. 2021;13:989-94.
- 23 Lopes RO, Chagas SR, Gomes ES, Barbosa JC, Silva ÍR, Brandão MA. Benchmarking mobile applications for the health of people with Diabetes Mellitus. Rev Lat Am Enfermagem. 2024;32:e4221.
-
24 United Nations Programme on HIV/AIDS. Confronting inequalities lessons for pandemic responses from 40 years of AIDS. Genebra: UNAIDS; 2021 [cited 2024 Out 17]. Available from: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/ https://www.unaids.org/sites/default/files/media_asset/2021-global-aids-update-en.pdf
» https://www.unaids.org/sites/default/files/media_asset/2021-global-aids-update-en.pdf - 25 Grangeiro A, Ferraz D, Magno L, Zucchi EM, Couto MT, Dourado I. HIV epidemic, prevention technologies, and the new generations: trends and opportunities for epidemic response. Cad Saude Publica. 2023;39:e00144223.
- 26 Ayres JR. Vulnerability, Care, and integrality: conceptual reconstructions and current challenges for HIV/AIDS care policies and practices. Saúde Debate. 2022;46(spe7):196-206.
- 27 Magno L. The elimination of HIV/AIDS depends on prevention and treatment strategies that address health inequalities. Cad Saude Publica. 2025;41(7):e00106825.
- 28 Petry S, Padilha MI, Bellaguarda ML, Vieira AN, Neves VR. The said and the unsaid in the teaching of sexually transmitted infections. Acta Paul Enferm. 2021;34:eAPE001855.
- 29 Silva K, Brasil VP, Coelho B, Fermo VC, Amadigi FR. Broadening the horizons of HIV prevention: perceptions and practices surrounding PrEP in a Brazilian state capital. Interface (Botucatu). 2025;29:e240492.
- 30 Silva CB, Motta MGC, Bellenzani R, Brum CN, Ribeiro AC. Young women born with HIV: communication of seropositivity to partners. Saúde Debate. 2022;46(spe7):129-41.
- 31 Duarte FH, Silva SO, Oliveira ES, Silva BV, Melo EB, Cabral MA, et al. Health educational strategies for people living with HIV: scoping review. Acta Paul Enferm. 2024;37:eAPE02572.
- 32 Vargas BR, Ferrández JS, Fuentes JG, Velayos R, Verdugo RM, Piñol FS, et al. Usability and Acceptability of a Comprehensive HIV and Other Sexually Transmitted Infections Prevention App. J Med Syst. 2019;43(6):175.
- 33 Saberi P, Lisha NE, Erguera XA, Hudes ES, Johnson MO, Ruel T, et al. A Mobile Health App (WYZ) for Engagement in Care and Antiretroviral Therapy Adherence Among Youth and Young Adults Living With HIV: Single-Arm Pilot Intervention Study. JMIR Form Res. 2021;5(8):e26861.
- 34 Heglar R, Mood R, Priest JL, Schulman KL, Fusco GP. Benchmarking HIV Quality measures in the US OPERA HIV Cohort. Open Forum Infect Dis. 2019;6(10):ofz418..
- 35 Podlekareva DN, Reekie J, Mocroft A, Losso M, Rakhmanova AG, Bakowska E, et al. EuroSIDA study in EuroCoord. Benchmarking HIV health care: from individual patient care to health care evaluation. An example from the EuroSIDA study. BMC Infect Dis. 2012;12(1):229.
- 36 Silva AP, Barbosa BJ, Camargo RF, Nichiata LY. Building a mobile application for HIV Post-Exposure Prophylaxis. Acta Paul Enferm. 2021;34:eAPE000345.
-
Disponibilidade dos dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo.
Editado por
-
Editora Associada:
Rafaela Gessner Lourenço (https://orcid.org/0000-0002-3855-0003) Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo.


Fonte: Adaptado do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews, PRISMA-ScR.