Outubro Rosa

Aelevada incidência do câncer de mama no mundo deflagrou, na década de 1990, um movimento popular denominado Outubro Rosa que tem como foco a luta contra o câncer de mama e o estimulo à participação da população no combate a essa doença. Este movimento teve seu início nos Estados Unidos da América e, posteriormente, expandiu-se ao redor do mundo. Iluminar de rosa monumentos e prédios públicos foi uma das Iniciativas para chamar a atenção da população sobre o tema.

No Brasil, São Paulo foi a primeira cidade que aderiu ao movimento, passando a iluminar, desde 2002, o monumento Mausoléu do Soldado Constitucionalista. Essa iniciativa foi adotada, mais tarde, por outras cidades do país e, a partir de 2010, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar da Silva (INCA) participa do movimento propiciando a promoção de espaços de discussão sobre câncer de mama, divulgando e disponibilizando seus materiais informativos, tanto para profissionais de saúde quanto para a sociedade em geral.

Vários são os motivos que tem levado as autoridades governamentais a situar o controle do câncer de mama como uma prioridade da agenda de saúde do país e a integrar o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis, lançado pelo Ministério da Saúde em 2011. Destacamos a seguir alguns deles: o câncer de mama (excetuando-se os casos de câncer de pele não melanoma) é o mais incidente na população feminina mundial e brasileira. Segundo dados do INCA, no biênio de 20016- 2017 deverão ocorrer 57.960 casos novos de câncer de mama, com risco estimado de 56,20 casos a cada 100mil mulheres.(11. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Estimativa 2016: Incidência de câncer no Brasil [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; 2016. [citado 2017 Set 5]. Disponível em: http://www.inca.gov.br/bvscontrolecancer/publicacoes/edicao/Estimativa_2016.pdf.
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) As taxas de mortalidade continuam elevadas (14 óbitos a cada 100 mil mulheres em 2013)(11. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Estimativa 2016: Incidência de câncer no Brasil [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; 2016. [citado 2017 Set 5]. Disponível em: http://www.inca.gov.br/bvscontrolecancer/publicacoes/edicao/Estimativa_2016.pdf.
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) e o percentual de diagnósticos tardios também é elevado 72,4% nos estádios II, III e IV).(22. Tramonte MS, Silva PC, Chubaci SR, Cordoba CC, Zucca-Matthes G, Vieira RA. Atraso diagnóstico no câncer de mama em hospital público oncológico. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2016; 49(5):451-62.) Entretanto, a doença tem um bom prognóstico se diagnosticada oportunamente e tratada adequadamente.

Assim, as estratégias definidas pelo Ministério da Saúde (MS) para o controle do câncer de mama, que incluem o diagnóstico precoce e o rastreamento, são extremamente relevantes. Além disso, as ações de educação em saúde devem ser consideradas. Elas são da competência da Atenção Básica em Saúde e incluem a avaliação de risco e a conscientização das mulheres sobre sinais e sintomas. O acesso rápido e facilitado, bem como a organização da rede de atenção à saúde são medidas essenciais para o efetivo controle da doença. Eles permitem que a mulher tenha um seguimento adequado e oportuno nos diferentes níveis de atenção para um diagnóstico mais rápido e um tratamento mais eficaz.

O diagnóstico do câncer em estágios iniciais, fase em que a doença pode ter melhor prognóstico, é especialmente importante em países como o nosso, onde o diagnóstico em fases avançadas ainda persiste e contribui para as elevadas taxas de mortalidade. Nesse contexto, a enfermagem tem um papel de destaque no que diz respeito a uma das ações de sua competência, a realização de reuniões educativas sobre o câncer de mama direcionada à população alvo. No entanto, pesquisa desenvolvida em Unidades Básicas de Saúde de três cidades de São Paulo revela que somente 52,9% a 66,1% de enfermeiras referiram realizar esta ação. Além disso, houve associação significativa com o fato de elas terem participado de programa de capacitação sobre as diretrizes do MS para o controle dessa doença.(33. Teixeira MS, Goldman RE, Gonçalves VC, Gutiérrez MG, Figueiredo EN. Atuação do enfermeiro da Atenção Primária no controle do câncer de mama. Acta Paul Enferm. 2017; 30(1):1-7.,44. Melo FB, Marques CA, Rosa AS, Figueiredo EM, Gutiérrez MG. Ações do enfermeiro na detecção precoce do câncer de mama. Rev Bras Enferm. 2017; 70(6):1119-28.) Este resultado mostra a importância da educação permanente dos profissionais de saúde no sentido de qualificar a prestação da assistência.

Por outro lado, o rastreamento do câncer de mama é uma estratégia que requer a realização de determinados exames numa população assintomática, com o objetivo de identificar lesões sugestivas de câncer. Assim, as mulheres com resultados alterados devem ser encaminhadas para investigação diagnóstica e tratamento. Apesar de controverso, o rastreamento sistematizado tem se mostrado como uma estratégia importante na redução da mortalidade por câncer de mama (em até 30%), principalmente em países como o Canadá, Suécia e Espanha onde sua utilização permite que seu impacto seja avaliado.

As Diretrizes para a Detecção Precoce do Câncer de Mama, publicada em 2015, recomendam a mamografia (MMG) como o método preconizado para rastreamento na rotina da atenção integral à saúde da mulher, justificado pela eficácia comprovada na redução da mortalidade do câncer de mama.

No que se refere ao exame clínico das mamas (ECM), não é recomendado como método de rastreio nas diretrizes atuais devido a que “o balanço entre possíveis danos e benefícios é incerto”. Entretanto, estudo publicado em 2016 apontou que 66,4% das lesões confirmadas como câncer de mama foram identificadas por meio do ECM.(55. Tomazelli JG, Migouski A, Ribeiro CM, Assis M, Abreu DM. Avaliação das ações de detecção precoce do câncer de mama no Brasil por meio de indicadores de processo: estudo descritivo com dados do Sismama, 2010-2011. Epidemiol Serv Saúde. 2017; 26(1): 61-70.) Assim, a realização do ECM e do autoexame das mamas (para identificar mudanças ou anormalidades sugestivas da presença de um câncer) representam ações essenciais e complementares para o diagnóstico precoce do câncer de mama. Entendemos, portanto, que o ECM deve fazer parte da avaliação de rotina na atenção integral à saúde da mulher.

Desse modo, embora existam diretrizes governamentais e de sociedades médicas direcionadas ao controle do câncer de mama, há diferenças entre elas em alguns aspectos. Além disso, estudos nacionais mostram que sua aplicação, na prática, apresenta não conformidades com o recomendado em relação à idade de início dos exames de rastreamento e à periodicidade, bem como à condição da mulher apresentar risco elevado para a doença. Essas não conformidades geram dificuldades para avaliação do impacto de tais ações.

Outro problema amplamente discutido na literatura é o que se refere à provisão de assistência especializada para o diagnóstico e o tratamento de câncer, evidenciando que o acesso o acesso das mulheres aos diferentes níveis de atenção à saúde é marcado por desigualdades regionais e socioeconômicas.

Conforme exposto, o problema é sério, mas existem diretrizes governamentais para enfrentá-lo. Porém, diversos fatores (relacionados tanto à ação governamental, nos seus diferentes níveis, quanto aos profissionais de saúde e à própria população) estão a indicar que a mobilização de todos os atores envolvidos é essencial para manter o espírito do movimento Outubro Rosa. Tal mobilização é necessária para ampliar e qualificar, em curto prazo, a oferta de ações de rastreamento e a garantia de seguimento dos casos detectados. Além disso, implica na revisão cuidadosa da formação dos profissionais de saúde, bem como da educação permanente dos que estão em serviço, com vistas à obtenção ou aprimoramento das competências necessárias à realização das ações pertinentes à detecção precoce do câncer de mama.

Referências

  • 1
    Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Estimativa 2016: Incidência de câncer no Brasil [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; 2016. [citado 2017 Set 5]. Disponível em: http://www.inca.gov.br/bvscontrolecancer/publicacoes/edicao/Estimativa_2016.pdf
    » http://www.inca.gov.br/bvscontrolecancer/publicacoes/edicao/Estimativa_2016.pdf
  • 2
    Tramonte MS, Silva PC, Chubaci SR, Cordoba CC, Zucca-Matthes G, Vieira RA. Atraso diagnóstico no câncer de mama em hospital público oncológico. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2016; 49(5):451-62.
  • 3
    Teixeira MS, Goldman RE, Gonçalves VC, Gutiérrez MG, Figueiredo EN. Atuação do enfermeiro da Atenção Primária no controle do câncer de mama. Acta Paul Enferm. 2017; 30(1):1-7.
  • 4
    Melo FB, Marques CA, Rosa AS, Figueiredo EM, Gutiérrez MG. Ações do enfermeiro na detecção precoce do câncer de mama. Rev Bras Enferm. 2017; 70(6):1119-28.
  • 5
    Tomazelli JG, Migouski A, Ribeiro CM, Assis M, Abreu DM. Avaliação das ações de detecção precoce do câncer de mama no Brasil por meio de indicadores de processo: estudo descritivo com dados do Sismama, 2010-2011. Epidemiol Serv Saúde. 2017; 26(1): 61-70.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Sep-Oct 2017
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