Resumo
Objetivo Analisar a qualidade de vida e do sono de mães no contexto da pandemia de COVID-19.
Métodos Estudo transversal, realizado em agosto de 2022 com mães cujos filhos fazem parte de uma coorte de nascimento em um município da Paraíba. A coleta de dados envolveu questionários sociodemográficos, como o World Health Organization Quality of Life, o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh, e a Escala de Resiliência de Connor-Davidson. Análises estatísticas incluíram o teste t de Student e Analysis of Variance (α 5%), usando Stata 12.0.
Resultados Das 126 mães, a maioria tinha menos de 34 anos de idade, e 80,9% responderam não terem sido diagnosticadas com COVID-19. A qualidade de vida geral esteve associada a melhores situações durante a pandemia relacionadas a cuidados de saúde (p = 0,013), apoio social (p = 0,038), preocupação com a doença (p = 0,023), necessidade de atendimento psicológico (p < 0,001), uso de medicamentos para a saúde mental (p < 0,001), tempo de sono (p < 0,001), mudança de peso (p = 0,002) e condições de vida (p = 0,039). Para a qualidade do sono, esses mesmos fatores foram relevantes, exceto os cuidados de saúde (p = 0,315). A vacinação confirmada contra COVID-19 (p = 0,013) também se mostrou moderador da qualidade do sono.
Conclusão As melhores condições de saúde física, suporte psicossocial e estratégias eficazes de enfrentamento durante a pandemia de COVID-19 exerceram impacto positivo na qualidade de vida e na qualidade do sono das mães.
Indicadores de qualidade de vida; Qualidade do sono; Mães; COVID-19; Pandemia
Abstract
Objective To analyze mothers’ quality of life and sleep during the COVID-19 pandemic.
Methods This cross-sectional study was conducted in August 2022 with mothers whose children are part of a birth cohort in a municipality in Paraíba, Brazil. Data collection involved sociodemographic questionnaires, such as the World Health Organization Quality of Life Index, the Pittsburgh Sleep Quality Index, and the Connor-Davidson Resilience Scale. Statistical analyses included Student’s t-test and Analysis of Variance (α 5%), using Stata 12.0.
Results Of the 126 mothers, the majority were under 34 years of age, and 80.9% reported not having been diagnosed with COVID-19. Overall quality of life was associated with better situations during the pandemic related to healthcare (p = 0.013), social support (p = 0.038), concern about the illness (p = 0.023), need for psychological care (p < 0.001), use of mental health medication (p < 0.001), sleep duration (p < 0.001), weight change (p = 0.002), and living conditions (p = 0.039). For sleep quality, these same factors were relevant, except for healthcare (p = 0.315). Confirmed COVID-19 vaccination (p = 0.013) also showed a moderator of sleep quality.
Conclusion Improved physical health, psychosocial support, and effective coping strategies during the COVID-19 pandemic had a positive impact on mothers’ quality of life and sleep quality.
Keywords
Quality of life indicators; Sleep quality; Mothers; COVID-19; Pandemics
Resumen
Objetivo Analizar la calidad de vida y el sueño de las madres en el contexto de la pandemia de COVID-19.
Métodos Estudio transversal, realizado en agosto de 2022 con madres cuyos hijos forman parte de una cohorte de nacimientos en un municipio de Paraíba. La recopilación de datos incluyó cuestionarios sociodemográficos, como el de Calidad de Vida de la Organización Mundial de la Salud, el Índice de Calidad de Sueño de Pittsburgh y la Escala de Resiliencia de Connor-Davidson. Los análisis estadísticos incluyeron la prueba t de Student y el análisis de varianza (α 5 %), utilizando Stata 12.0.
Resultados De las 126 madres, la mayoría tenía menos de 34 años y el 80,9 % respondió que no había sido diagnosticada con COVID-19. La calidad de vida general se asoció con mejores situaciones durante la pandemia relacionadas con la atención sanitaria (p = 0,013), el apoyo social (p = 0,038), la preocupación por la enfermedad (p = 0,023), la necesidad de atención psicológica (p < 0,001), el uso de medicamentos para la salud mental (p < 0,001), el tiempo de sueño (p < 0,001), los cambios de peso (p = 0,002) y las condiciones de vida (p = 0,039). Para la calidad de sueño, fueron relevantes los mismos factores, excepto la atención sanitaria (p = 0,315). La vacunación confirmada contra el COVID-19 (p = 0,013) también se mostró como un moderador de la calidad de sueño.
Conclusión Las mejores condiciones de salud física, el apoyo psicosocial y las estrategias eficaces de afrontamiento durante la pandemia de COVID-19 tuvieron un impacto positivo en la calidad de vida y en la calidad de sueño de las madres.
Indicadores de calidad de vida; Calidad del sueño; Madres; COVID-19; Pandemía
Introdução
A qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) figura um construto multifacetado de significativa relevância na análise dos desfechos e na tomada de decisão no âmbito da saúde. Por sua natureza multidimensional, a compreensão abrangente dos domínios físico, psicológico e social torna-se essencial.(1)
A qualidade do sono (QS) refere-se à satisfação subjetiva de um indivíduo com vários aspectos de sua experiência de sono, incluindo eficiência, tempo de início e duração. A má QS está consistentemente ligada a uma menor qualidade de vida em várias populações.(2) Há registros que evidenciam a relação entre os padrões de sono e QVRS, atribuindo especial relevância a fatores como horário, duração e QS.(3)
Estudo realizado durante os primeiros 50 dias da COVID-19 revelou que mães de crianças de 6 a 16 anos apresentaram maior propensão a relatar uma diminuição na qualidade de vida, em comparação às mulheres sem filhos.(4) Outro estudo similar identificou que mulheres convivendo com filhos menores de 14 anos e mães solo relataram uma qualidade de vida significativamente inferior.(5) No que se refere à QS, problemas têm sido relatados, a exemplo entre mulheres em idade reprodutiva da Etiópia (71,3%)(6) e entre mulheres no pós-parto do Nepal (28,2%).(7) Nos Estados Unidos, entre mães de crianças pequenas, a QS foi classificada como variando de razoável a boa.(5) Nesses estudos, a QS associou-se à saúde mental e melhorias no bem-estar, relevando-se implicações relacionadas à necessidade de estratégias de melhorias da saúde mental, educação sobre higiene do sono e apoio social.(5) As condições socioeconômicas, relações sociais, apoio social, saúde física, estado psicológico e nível de estresse são determinantes que influenciam de maneira complexa a QVRS e QS.(6,8)
Historicamente, é consabido que epidemias de doenças infecciosas impactaram a condição física, saúde psicológica e bem-estar das coletividades, influenciando, inclusive, os padrões de sono.(2) No contexto atual, estudos destacaram o impacto negativo da quarentena no bem-estar físico e psicológico das pessoas, o que acarretou possíveis consequências na QVRS.(9,10) Análise entre mulheres sauditas, comparando dados pré-pandêmicos com períodos de restrição durante a quarentena, evidenciou as implicações nos vários aspectos do estilo de vida, incluindo sono, saúde mental, atividade física e hábitos alimentares.(11)
O impacto da COVID-19 na QVRS materna foi abordado em estudos recentes.(12,13) Pesquisadores avaliaram os efeitos da pandemia de COVID-19 em distintos domínios da rotina diária materna, evidenciando impactos negativos no cotidiano.(12) No Brasil, avaliou-se o impacto da pandemia em mulheres saudáveis. Os resultados revelaram uma associação entre fadiga, sintomas de depressão e ansiedade, além de uma piora na QS durante o primeiro ano da pandemia. Essa associação persistiu no segundo ano, indicando uma continuidade dos efeitos psicológicos adversos decorrentes da pandemia.(13)
A pandemia e as subsequentes medidas de restrição delinearam um contexto singular para famílias com crianças pequenas.(8) O isolamento social decorrente da pandemia impôs desafios expressivos e complexos, notadamente para as mães, com impacto direto na saúde mental e QVRS.(14) Devido à importância e escassez de investigações sobre QVRS e QS nesse contexto, a análise dos prováveis fatores moduladores é crucial para estimular o desenvolvimento de políticas públicas e intervenções específicas que mitiguem os impactos negativos observados.(3)
Nessa perspectiva, este estudo teve como objetivo analisar a qualidade de vida e do sono de mães no contexto da pandemia de COVID-19.
Métodos
Estudo transversal, realizado com mães cujos filhos fazem parte de uma coorte de nascimento em um município da Paraíba para investigar fatores materno-infantis associados ao crescimento e desenvolvimento infantil.(15) O acompanhamento foi interrompido aos 2 anos de idade das crianças devido à pandemia de COVID-19, quando a pesquisa foi reformulada para examinar as implicações da pandemia no crescimento e desenvolvimento das crianças, na QVRS materno-infantil e no estado nutricional das mães.
O estudo foi realizado em agosto de 2022 com mães de crianças nascidas em 2018 matriculadas na educação infantil da rede municipal de um município do estado da Paraíba. Do conjunto inicial de participantes (n = 205), 61 foram descontinuados durante o acompanhamento até o sexto mês de vida da criança,(15) e 126 fizeram parte do atual estudo. As crianças tinham, em média, 4 anos de idade e frequentavam uma das cinco escolas municipais com turmas de pré-escola, que concentram a maior parte das crianças nascidas no município.
A coleta de dados foi realizada por meio de questionário estruturado composto por instrumentos validados e perguntas específicas para capturar informações materno-infantis. Foram aplicados os seguintes questionários: questionário sociodemográfico; Escala de Resiliência de Connor-Davidson (CD-RISC-10); World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-bref); e o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh. Além disso, foram incluídas 13 perguntas fechadas sobre comportamentos e repercussões da pandemia de COVID-19, bem como três perguntas abertas, para explorar percepções maternas sobre os impactos da pandemia.
O questionário sociodemográfico incluiu sexo e escolaridade. A escolaridade continha cinco alternativas de respostas: superior completo; i) médio completo/superior incompleto; ii) fundamental II completo/médio incompleto; iii) fundamental I completo/fundamental II incompleto; iv) analfabeto/fundamental I incompleto. Para análise, as respostas foram agrupadas nas categorias médio completo ou superior (alternativas i e ii) ou médio incompleto ou inferior.
A CD-RISC-10, validada para a população brasileira, foi utilizada com a finalidade de avaliar o nível de resiliência. Essa escala mede a capacidade dos indivíduos de se adaptarem à mudança e superarem obstáculos. Composta por dez itens, as respostas variam de 0 (nunca é verdadeiro) a 4 (sempre é verdadeiro), que totalizam uma pontuação de 0 a 40 pontos, em que pontuações elevadas indicam alta resiliência.(16) A classificação em resilientes e não resilientes foi conduzida por meio de análise de cluster (K-means cluster/dois grupos), validada por análise discriminante canônica.(17)
Para obter as informações sobre os comportamentos e repercussões relacionados à pandemia de COVID-19 durante seu período de duração, foram realizadas as seguintes perguntas: (a) Durante a pandemia de COVID-19, você permanecia em casa em isolamento social e, quando saía de casa, usava máscara e tinha costume de higienizar as mãos (muito, pouco ou muito pouco)?; (b) Você se vacinou contra a COVID-19?; (c) Você foi diagnosticada alguma vez com COVID-19?; (d) Durante a pandemia de COVID-19, algum membro da família perdeu o emprego e/ou houve redução da renda domiciliar?; (e) Durante a pandemia de COVID-19, você podia contar com alguém caso precisasse?; (f) O quanto você se preocupou ou aborreceu com a COVID-19?; (g) Você sentiu necessidade de atendimento psicológico durante a pandemia de COVID-19?; (h) Você necessitou usar medicamentos para saúde mental durante a pandemia de COVID-19?; (i) Sua rotina do tempo de sono mudou durante a pandemia de COVID-19?; (j) Você percebeu alguma mudança no seu peso durante a pandemia de COVID-19?; (k) Suas condições de vida melhoraram, pioraram ou continuaram igual durante a pandemia de COVID-19?; (l) Durante a pandemia de COVID-19, quando as restrições de distanciamento começaram a ser implementadas, houve algum momento em que você teve a preocupação de não conseguir pagar o aluguel ou outras contas em dia?; (m) Você está preocupada com a possibilidade de não conseguir pagar o aluguel ou outras contas em dia nos próximos seis meses?
Para avaliar a QVRS, foi utilizado o WHOQOL-bref, validado para a população brasileira. A versão curta é composta por 26 questões, sendo duas relacionadas à percepção geral de qualidade de vida e 24 distribuídas em quatro domínios: físico; psicológico; relações sociais; e meio ambiente. As respostas seguem uma escala de 1 a 5, com inversão dos valores nas questões 3, 4 e 26 (1 = 5; 2 = 4; 3 = 3; 4 = 2; 5 = 1), conforme as recomendações do instrumento. As pontuações de cada domínio foram convertidas para uma escala de 0 a 100 e expressas em médias, em que pontuações mais altas indicam melhor percepção da qualidade de vida.(1,18)
A avaliação do sono utilizou o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh, validado para adultos brasileiros.(19) O instrumento descreve a QS e possíveis distúrbios no último mês, abrangendo sete componentes: qualidade subjetiva; latência do sono; duração do sono; eficiência do sono; distúrbios do sono; uso de medicamentos; e disfunção diária. Este estudo concentrou-se no componente “distúrbios do sono”, com respostas em uma escala de 0 a 3 (0 = nenhuma vez, 1 = menos de uma vez por semana, 2 = uma ou duas vezes por semana, 3 = três ou mais vezes por semana), resultando em um escore máximo de 27 pontos, que indica a pior situação. As pontuações são categorizadas em quatro grupos: 0 = 0; 1 a 9 = 1; 10 a 18 = 2; e 19 a 27 = 3.(19,20) Neste estudo, as categorias 2 e 3 foram agrupadas para indicar distúrbio do sono.
De forma complementar, foram direcionadas três perguntas abertas às mães: (a) Por favor, compartilhe qualquer informação que considere importante sobre como a COVID-19 e as medidas de distanciamento social para o seu controle impactaram a vida da sua família; (b) Quais consequências duradouras ou permanentes você acha que a COVID-19 deixará na vida da sua família?; e (c) O que você aprendeu com a pandemia? Após o término das respostas quantitativas, as mães responderam às perguntas subjetivas. Elas eram orientadas a fornecer respostas curtas, sem interferência ou direcionamento dos pesquisadores, preservando a espontaneidade e autenticidade dos relatos.
Para caracterizar as mulheres, consideraram-se as seguintes variáveis independentes: idade (≤ 34, > 34); escolaridade (médio completo ou superior, médio incompleto ou inferior); e resiliência (resiliente, não resiliente). Além disso, foram analisados os comportamentos e repercussões relacionados à pandemia de COVID-19, como cuidados de saúde (isolamento, uso de máscara e higienização das mãos (muito, pouco/muito pouco)), vacinação (sim, não), diagnóstico da doença (não, sim), morte de alguma pessoa próxima por causa da doença (não, sim), apoio social (sim, não), preocupação com a doença (pouca/muito pouca, muita), necessidade de atendimento psicológico (não, sim), necessidade de usar medicamento para a saúde mental (não, sim), tempo de sono (não mudou, aumentou, diminuiu), mudança de peso (não mudou, diminuiu, aumentou), condições de vida (melhorou, não mudou, piorou), perda de emprego e/ou renda de algum membro da família (não, sim), preocupação com as contas (não, sim), preocupação com as contas futuras (não, sim, não sabe). A presença de distúrbio do sono (não, sim) também foi considerada variável independente para os indicadores de QVRS.
A normalidade dos dados foi verificada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Para identificar diferenças nas médias dos domínios da qualidade de vida (físico, psicológico, relações sociais, meio ambiente e geral) e do sono, de acordo com as variáveis de interesse, utilizaram-se o teste t de Student, para variáveis dicotômicas, e Analysis of Variance (ANOVA), para variáveis de três categorias. Após a confirmação dos pressupostos da ANOVA, aplicou-se o teste F, seguido do teste post-hoc de Bonferroni, para avaliar as diferenças entre as categorias. As médias dos domínios da qualidade de vida também foram comparadas em relação à presença de distúrbio do sono usando o teste t de Student. O critério de significância estatística adotado foi p < 0,05. As análises foram realizadas no software estatístico Stata, versão 12.0 (StataCorp LP; College Station, TX, EUA).
Para a análise das respostas às perguntas abertas do estudo, utilizou-se a abordagem de análise temática. Após codificação, os dados foram analisados, interpretados e agrupados em padrões (temas comuns) com a descrição de cada aspecto identificado.
O trabalho foi conduzido sob as diretrizes da Resolução no 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. As mães das crianças assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido como condição prévia para participar do estudo, após esclarecidos sobre os objetivos, procedimentos e vantagens da sua participação. Os projetos de pesquisa foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba (Certificado de Apresentação para Apreciação Ética no 81216417.0.0000.5187, Parecer no 2.447.509; e Certificado de Apresentação para Apreciação Ética no 53281421.8.0000.5187, Parecer no 5.137.768).
Resultados
A tabela 1 apresenta as características das mulheres do estudo, abordando comportamentos e impactos relacionados à pandemia de COVID-19. Das 126 mães, 60,3% responderam “pouco/muito pouco” cuidados de saúde durante a pandemia; 96,0% foram vacinadas; e 80,9% nunca foram diagnosticadas com COVID-19. A maioria das mulheres relatou não ter vivido a morte de pessoa próxima devido à doença (73,8%). Além disso, 72,2% relataram muita preocupação com a doença, e 49,2% necessitaram de atendimento psicológico durante a pandemia. Quanto à resiliência, 77,0% das mães foram classificadas como não resilientes. Durante a pandemia, 61,9% das participantes relataram mudança no tempo de sono, e 48,4% apresentaram distúrbio do sono após o confinamento. O aumento de peso durante a pandemia foi reportado por 47,6% das mães. A piora nas condições de vida e perda de emprego e/ou renda de algum membro da família durante a pandemia apresentaram frequências de 45,2% e 53,2%, respectivamente. Em relação à preocupação com as contas, a maioria afirmou tê-la tanto durante a pandemia (72,2%) quanto no futuro (57,1%).
Características das mulheres do estudo com foco nos comportamentos e repercussões relacionados à pandemia de COVID-19
A tabela 2 revela associações entre a QVRS e seus domínios com variáveis independentes. Ensino médio completo ou superior esteve significativamente associado a escores mais altos em relações sociais (p = 0,013) e meio ambiente (p = 0,004), em comparação ao médio incompleto ou inferior. Cuidados de saúde adequados durante a pandemia, relatados pelas mães do estudo, foram associados a médias mais altas na QVRS geral (p = 0,013), bem como nos domínios psicológico (p = 0,023), relações sociais (p = 0,005) e meio ambiente (p = 0,009). A diminuição do tempo de sono durante a pandemia derivou em menores médias de qualidade de vida física (p < 0,001), psicológica (p = 0,004) e geral (p < 0,001), enquanto a ausência de mudanças de peso durante a pandemia representou maiores médias desses mesmos indicadores. Durante a pandemia, a falta de apoio social, a preocupação com a doença, a necessidade de atendimento psicológico e do uso de medicamentos para saúde mental, a piora nas condições de vida, a perda de emprego e/ou renda de algum membro da família, e a preocupação com as contas foram fatores que discriminaram menores médias de QVRS com base em todos os indicadores de interesse. Enquanto isso, para a resiliência, foi observado resultado contrário. O diagnóstico de distúrbios de sono pós-confinamento pela pandemia condicionou menor escore na QVRS geral (p < 0,001). Todos os domínios da QVRS também manifestaram pior situação na presença de distúrbios de sono.
Durante a pandemia, não ter sido vacinada para COVID-19 (p = 0,013), falta de apoio social (p = 0,043), grande preocupação com a doença (p = 0,009), necessidade de atendimento psicológico (p = 0,002) e uso de medicamentos para saúde mental (p < 0,001) representaram situações prejudiciais na QS. Ainda, as mulheres que afirmaram não ter experimentado mudanças no tempo de sono (p = 0,048) e no peso (p = 0,006), melhoria nas condições de vida (p = 0,003), não perda de emprego/renda familiar (p = 0,017), e despreocupação com as contas atuais (p = 0,023) e futuras (p < 0,001) tiveram melhor QS (Tabela 3).
Da análise das perguntas abertas, três temas principais emergiram: 1. A pandemia de COVID-19 instigou medo, ansiedade e estresse, com possíveis efeitos a longo prazo; 2. A crise evidenciou a necessidade de cuidados importantes com a saúde; 3. A importância de valorizar a família, o convívio familiar e a solidariedade entre as pessoas foi ressaltada durante a pandemia de COVID-19.
Discussão
Este estudo avança na compreensão dos moduladores complexos na QVRS e QS materno ao destacar o contexto pandêmico, conferindo-lhe um caráter pioneiro. Os escores de QVRS e QS foram maiores em mães que relataram contextos favoráveis durante a pandemia em aspectos como cuidados de saúde, apoio social, preocupação com a doença, saúde mental, tempo de sono, mudança de peso, condições de vida e segurança alimentar. Além disso, a escolaridade e resiliência materna também influenciaram a QVRS.
Outros resultados como o presente constataram melhor qualidade de vida entre mães de maior nível educacional.(21) Os prejuízos sociais, emocionais e físicos ocasionados pelo abandono aos estudos, bem como a presença de estresse e sobrecarga elevada entre cuidadores domiciliares, podem impactar significativamente a QVRS.(21)
Inquérito online desenvolvido com mulheres espanholas revelou a complementariedade entre QVRS e resiliência.(22) Essa relação também foi encontrada entre as participantes do atual estudo, e pode estar relacionada ao estilo de vida, à saúde mental e ao apoio emocional.(22) A resiliência pode atuar como um mediador dos efeitos de vários estressores e na estimativa das mulheres sobre sua qualidade de vida,(22) possivelmente de forma mais marcante entre mães de baixa renda, especialmente no que se refere ao equilíbrio entre trabalho e família e ao apoio social.(5)
Comportamentos pró-saúde exercem influência positiva na QVRS em mulheres,(23) o que pode explicar a relação dos cuidados de saúde durante a pandemia de COVID-19 com esse desfecho nas participantes do presente estudo. Por sua vez, a vacinação contra a COVID-19 se associou a melhor QS entre as mães desta pesquisa, alinhando-se a estudo prévio.(24) Apesar da escassez de dados, cogita-se que a vacinação pode ter contribuído na redução nos níveis de estresse e com melhorias no bem-estar psicológico e na QS.(24) Estratégias de promoção da saúde e do letramento em saúde são enfatizadas pela sua importância para impulsionar cuidados adequados de saúde.(25)
Os resultados aqui apresentados evidenciaram a influência do apoio social durante a pandemia na QVRS, em concordância com estudos anteriores.(26,27) O apoio social propicia assistência emocional, material e informativa de importância para a preservação do bem-estar e enfrentamento de situações desafiadoras,(28) representando um atributo da resiliência que aumenta a capacidade de ser resiliente e prevenir problemas de saúde mental.(29) Durante a pandemia, a importância do apoio social foi ainda mais evidenciada, considerando que o isolamento social aumentou a necessidade de suporte externo.(29) As famílias de baixa renda, como as predominantes na amostra deste estudo, vivenciam desproporcionalmente estressores sociais e econômicos, o que contribui negativamente na saúde mental materna e QS.(28)
Ainda na esfera psicossocial, a menor preocupação com a COVID-19 e necessidade de intervenções psicológicas condicionaram melhores índices de QVRS, reforçando resultados prévios.(8,22) Destarte, enfatiza-se a relevância da saúde mental e do suporte psicológico na promoção da QVRS, visto que a saúde mental influencia diretamente a percepção subjetiva do bem-estar. Assim, a abordagem da QVRS deve ser essencialmente holística.(26)
Condições relacionadas ao bem-estar psicológico das mulheres deste estudo também mostraram sua determinação na QS, alinhando-se aos resultados obtidos em outras realidades.(12,13,30,31) Entre mulheres americanas, por exemplo, a falta de apoio social incrementou o risco de depressão e de problemas na QS.(30) No Nepal, evidenciou-se que mães com antecedentes de sintomas depressivos enfrentaram mais problemas de sono relacionados a preocupações durante a pandemia.(12) No Brasil, estudo longitudinal também relatou que a ansiedade aumentou os problemas de sono.(13) É possível depreender que a desigualdade de gênero, o aumento da violência contra a mulher e as maiores preocupações com a COVID-19 durante o período de isolamento podem interferir na QS.(12,13,30)
Nesta amostra, a diminuição do tempo e da QS durante a pandemia esteve associada a menores médias de QVRS enquanto o tempo de sono também influenciou a QS. Tanto a redução da duração quanto da QS podem impactar negativamente a saúde mental e a qualidade de vida. Isso deve ser avaliado à luz de um conceito amplo denominado saúde do sono, que engloba fatores como duração, tempo, regularidade, eficiência e satisfação.(32) Pesquisa que analisou os efeitos do sono em participantes tchecos entre 2018 e 2020 concluiu que a QS é um indicador mais importante para a qualidade de vida do que a duração do sono, contribuindo na manutenção da saúde mental, na capacidade de concentração, na melhoria do humor e na sociabilidade.(32) A quantidade e a QS estão interligadas, representando processos fundamentais do sono saudável.(32) Durante a pandemia, o isolamento e o distanciamento social determinaram mudanças generalizadas e únicas no estilo de vida que podem causar problemas de sono e na saúde mental.(32)
A maioria das mães deste estudo experimentou ganho de peso durante a pandemia, o que está em linha com resultados prévios.(33) Outro estudo com base em dados longitudinais revelou resultados divergentes, onde aproximadamente metade das participantes não relatou alterações de peso e redução do risco de ganho de peso quanto maior duração do sono no confinamento.(11) Essas variações podem ser atribuídas aos diferentes níveis de restrição entre países, bem como às diversas culturas e padrões alimentares.(11) Ainda, merecem destaque as possíveis diferenças nas mudanças no estilo de vida que justificam o ganho de peso, como redução da atividade física e aumento do tempo de tela. As repercussões a longo prazo dessas mudanças no peso durante a pandemia podem persistir, exigindo estratégias para prevenir complicações relacionadas à obesidade.(11)
Melhores condições de vida durante a pandemia também expressaram sua determinação na QVRS das mulheres do atual estudo, confirmando a associação encontrada em mulheres na Espanha.(22) Outro estudo com mães revelou que aproximadamente 22% delas relataram que a pandemia teve um efeito negativo na situação econômica e no contexto familiar, com consequências negativas na QS,(12) em sintonia com os achados do atual estudo. Tanto a qualidade de vida quanto a do sono podem ser impactadas por cenários socioeconômicos desfavoráveis. A falta de acesso a recursos, má gestão do estresse e dificuldade em manter hábitos saudáveis podem ser fatores determinantes para essa relação.(22)
A análise das respostas às perguntas abertas revelou três temas principais que destacam os impactos multifacetados da pandemia de COVID-19 nas mulheres participantes do estudo. As mães relataram medo, ansiedade e estresse induzidos pela pandemia, corroborando estudo fenomenológico sobre as experiências das mães durante a COVID-19.(34) Esses autores atribuem esse cenário à falta de conhecimento sobre a doença e ao aumento dos casos confirmados, que intensificaram o sofrimento psicológico.(34) A longo prazo, essas condições podem resultar em distúrbios psicológicos persistentes, indicando a necessidade de estratégias de intervenção precoce e suporte psicológico contínuo.(34)
Ainda, as participantes ressaltaram a necessidade de manter os cuidados de saúde. Esse achado sublinha a importância de políticas públicas que garantam o acesso a serviços de saúde de qualidade. Ademais, programas de saúde pública focados em prevenção são fundamentais para fortalecer a saúde comunitária e reduzir a vulnerabilidade a futuras recrudescências de casos de COVID-19.(22) Contudo, a pandemia de COVID-19 afetou a realização de consultas, exames e atividades grupais da atenção básica, principalmente para a população considerada mais vulnerável. Para os profissionais de saúde, o período da pandemia gerou consequências físicas e emocionais que prejudicaram a saúde própria e o desenvolvimento das suas profissões, somado ao deslocamento de profissionais para outras unidades e/ou funções apoiando o atendimento para a COVID-19.(35)
O terceiro tema levantado pelas mães destaca a importância do convívio familiar e da solidariedade durante a pandemia. Estudo qualitativo multicêntrico realizado em duas fases demonstrou que atos interpessoais de solidariedade são importantes, mas não sustentáveis sem apoio consistente a nível institucional. À medida que a pandemia progredia, os entrevistados expressaram um anseio por formas mais institucionalizadas de solidariedade.(35) Isso reforça a necessidade de desenvolver e implementar políticas públicas que promovam o suporte social às famílias de maneira estruturada e contínua.(22) Assim, mostra-se a importância de prestar atenção ao contexto familiar e materno, principalmente em circunstâncias de vulnerabilidade econômica que são particularmente geradoras de saúde mental e sono de menor qualidade, devido ao aumento de estressores econômicos e sociais associados a eventos adversos como a pandemia.(35)
Nossos achados qualitativos respaldam os encontrados nas análises quantitativas que inferem na relevância da capacidade para lidar com eventos adversos, dos cuidados de saúde e do suporte social como moderadores do estresse e promotores de bem-estar, possivelmente impactando a qualidade de vida e do sono dessa população. Nesse sentido, a pandemia de COVID-19 agudizou a sobrecarga materna, derivando em mudanças nas condições de vida e comportamentos que adicionaram estressores na rotina com possíveis consequências na saúde mental, higiene do sono e qualidade de vida.(35) Esse conhecimento é relevante para a melhoria das políticas, dos serviços sociais e da atuação dos profissionais em busca de qualidade de vida de famílias marginalizadas.
Como limitação, destaca-se a complexidade do contexto pandêmico, caracterizado por múltiplos fatores de confusão que podem ter influenciado a percepção materna sobre qualidade de vida e sono, dificultando a distinção entre os efeitos da COVID-19 e outros estressores concomitantes. No entanto, ressalta-se como diferencial a utilização de instrumentos validados e recomendados por autoridades de saúde, permitindo a análise de variáveis de desfecho até então não exploradas neste público específico.
Conclusão
Os resultados deste estudo evidenciam que a QVRS e QS das mães foram afetadas por diversos fatores negativos no contexto da pandemia de COVID-19. A insuficiência de apoio social, preocupação com a doença, necessidade de atendimento psicológico, uso de medicamentos para saúde mental, tempo de sono insuficiente, ganho de peso e preocupações financeiras determinaram menores escores de QVRS e QS. Além disso, baixos níveis de resiliência e não adoção rotineira de cuidados de saúde durante a pandemia influenciaram a QVRS, enquanto a QS também foi afetada negativamente pela não vacinação. A presença de distúrbios do sono após o confinamento discriminou pior situação para todas as dimensões da QVRS. Esses achados ressaltam a necessidade de intervenções multifacetadas e integradas para mitigar os impactos negativos sobre esses desfechos em contextos de crises sanitárias.
Por fim, este estudo oferece contribuições relevantes para a prática da enfermagem, ao fortalecer o cuidado integral por meio da identificação dos impactos psicossociais da pandemia, orientando intervenções direcionadas ao suporte emocional e à promoção da saúde mental. Ressalta-se a importância da capacitação profissional para a identificação precoce e manejo do sofrimento psíquico, além do fortalecimento do cuidado comunitário mediante a articulação de redes de apoio e ações de educação em saúde.
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Disponibilidade dos dados:
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Editor Associado :
Rafaela Gessner Lourenço (https://orcid.org/0000-0002-3855-0003) Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
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