Resumo
Objetivo Analisar a associação entre o perfil profissional, o conhecimento e as atitudes dos profissionais de saúde e a realização de ações de enfrentamento ao HIV na Atenção Primária à Saúde.
Métodos Estudo transversal e analítico conduzido na Atenção Primária de um município paulista com médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas, farmacêutico e psicólogo capacitados para realizar testes rápidos. Foram investigados perfil profissional, conhecimento e atitudes relativas às Infecções Sexualmente Transmissíveis, HIV e AIDS, além da implementação de ações de enfrentamento, como testagem rápida, educação em saúde, notificação e busca ativa de parcerias. Foi calculado um escore de enfrentamento somando as ações reportadas, e o escore foi analisado usando regressão linear múltipla para identificar associações com variáveis de perfil, conhecimento e atitude. Foram ainda comparados os modelos de atenção, Estratégia Saúde da Família e modelo tradicional, usando os testes qui-quadrado e exato de Fisher.
Resultados A amostra foi constituída por 120 profissionais, sendo a maioria do gênero feminino (74,2%) e profissionais médicos (55,0%). Mais da metade não participou de capacitações nos últimos cinco anos (60,0%) e não orienta o uso de preservativos (65,0%). Os profissionais da Estratégia Saúde da Família apresentaram um escore de enfrentamento mais elevado, realizando 1,68 ações de enfrentamento a mais que os profissionais de Unidades Básicas tradicionais, destacando a busca ativa de parcerias, acompanhamento de gestantes com HIV e notificação das Infecções Sexualmente Transmissíveis.
Conclusão O modelo de atenção influencia diretamente as ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS, com maior efetividade na Estratégia de Saúde da Família.
Descritores
HIV; Síndrome da Imunodeficiência Adquirida; Enfrentamento; Profissionais de saúde; Atenção Primária à Saúde
Abstract
Objective To analyze the association between the professional profile, knowledge, and attitudes of healthcare professionals and the implementation of HIV/AIDS coping actions in Primary Health Care.
Methods This cross-sectional and analytical study was conducted in the Primary Health Care setting of a municipality in São Paulo State with physicians, nurses, dentists, pharmacists, and psychologists trained to perform rapid tests. Professional profiles, knowledge, and attitudes regarding Sexually Transmitted Infections, HIV, and AIDS were examined, as well as the implementation of coping actions, such as rapid testing, health education, notification, and active partnership seeking. A coping score was calculated by summing the reported actions, and the score was analyzed using multiple linear regression to identify associations with profile, knowledge, and attitude variables. The Family Health Strategy care models and the traditional care model were also compared using the chi-square and Fisher’s exact tests.
Results The sample consisted of 120 professionals, the majority of whom were female (74.2%) and medical professionals (55.0%). More than half of the sample did not participate in training in the last five years (60.0%) and do not provide guidance on the use of condoms (65.0%). Professionals from the Family Health Strategy presented a higher coping score, with a ratio of actions 1.68 higher than that of professionals in traditional Basic Units, highlighting the active search for partnerships, monitoring of pregnant women with HIV, and notification of Sexually Transmitted Infections.
Conclusion The care model directly influences actions to cope with HIV and AIDS, with greater effectiveness in the Family Health Strategy.
Keywords
HIV; Acquired Immunodeficiency Syndrome; Coping Skills; Health personnel; Primary Health Care
Resumen
Objetivo Analizar la relación entre el perfil profesional, los conocimientos y las actitudes de los profesionales de la salud y la realización de acciones para hacer frente al VIH en la atención primaria de salud.
Métodos Estudio transversal y analítico realizado en la atención primaria de un municipio de São Paulo con médicos, enfermeros, cirujanos dentistas, farmacéuticos y psicólogos capacitados para realizar pruebas rápidas. Se investigó el perfil profesional, los conocimientos y las actitudes relativas a las infecciones de transmisión sexual, el VIH y el sida, además de la implementación de acciones de lucha, como pruebas rápidas, educación sanitaria, notificación y búsqueda activa de parejas. Se calculó un puntaje de respuesta sumando las acciones notificadas, y el puntaje se analizó mediante regresión lineal múltiple para identificar asociaciones con variables de perfil, conocimientos y actitudes. También se compararon los modelos de atención, la Estrategia Salud de la Familia y el modelo tradicional, utilizando las pruebas de ji cuadrado y exacta de Fisher.
Resultados La muestra estuvo compuesta por 120 profesionales, en su mayoría mujeres (74,2 %) y médicos (55,0 %). Más de la mitad no había participado en cursos de formación en los últimos cinco años (60,0 %) y no orientaba sobre el uso de preservativos (65,0 %). Los profesionales de la Estrategia Salud de la Familia presentaron un puntaje de afrontamiento más alta, con la realización de 1,68 acciones de afrontamiento más que los profesionales de las Unidades Básicas tradicionales, con énfasis en la búsqueda activa de asociaciones, el seguimiento de las embarazadas con VIH y la notificación de las infecciones de transmisión sexual.
Conclusión El modelo de atención influye directamente en las acciones de enfrentamiento al VIH y al sida, con mayor eficacia en la Estrategia Salud de la Familia.
Descriptores
HIV; Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida; Habilidades de afrontamiento; Personal de salud; Atención Primaria de Salud
Introdução
Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e AIDS, cerca de 39 milhões de pessoas no mundo viviam com HIV, com o registro de 1,3 milhão de novas infecções em 2022. Foi estimado que 2,2 milhões de pessoas vivem com HIV ou AIDS na América Latina. No Brasil, 489.594 casos foram notificados entre 2007 e 2023, com 20.237 novos casos em 2023 e maior prevalência na região Sudeste (32,6%).(1,2)
Historicamente, a assistência às pessoas vivendo com HIV no Brasil concentrava-se nos Serviços de Assistência Especializada. Porém, esse modelo passou por importantes reconfigurações nas últimas décadas. A partir dos anos 2000 (e com maior ênfase após a Política Nacional de Atenção Básica de 2006), a Atenção Primária à Saúde (APS) assumiu um papel de protagonismo na coordenação do cuidado. Essa reorganização visou descentralizar ações, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e à terapia antirretroviral, além de oferecer atenção integral diante da cronificação da infecção e do aumento na expectativa de vida dessa população.(3,4)
Com sua capilaridade e proximidade com a comunidade, a APS promove o cuidado contínuo e facilita o acesso a ações como testagem e tratamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Os Serviços de Assistência Especializada seguem sendo fundamentais na Rede de Atenção à Saúde, oferecendo suporte matricial e especializado, de forma complementar. Porém, a APS enfrenta vários obstáculos no enfrentamento do HIV. Eles abrangem dimensões moral, ética, técnica, organizacional e política, tais como infraestrutura inadequada, falta de insumos, sobrecarga das equipes, desvalorização e ausência de capacitação dos profissionais de saúde, que impactam negativamente a qualidade do atendimento.(3-5)
Nesse novo cenário, espera-se que os profissionais de saúde atuantes na APS sejam continuamente capacitados para lidar com as especificidades do HIV e da AIDS, considerando os avanços no tratamento e as diretrizes das políticas públicas de saúde. A capacitação deve contemplar aspectos técnicos, relacionais e éticos, essenciais para enfrentar estigmas e construir vínculos terapêuticos.(3,6)
A relevância de ações eficazes para enfrentar o HIV na APS evidencia a necessidade de refletir sobre os fatores que condicionam sua implementação. Portanto, o objetivo deste estudo foi analisar a associação entre o perfil profissional, o conhecimento e as atitudes dos profissionais de saúde e a realização de ações de enfrentamento ao HIV na Atenção Primária à Saúde.
Métodos
Trata-se de um estudo transversal e analítico que investigou a associação entre o perfil, conhecimento e atitude dos profissionais da APS e as ações de enfrentamento ao HIV, descrito com base na ferramenta Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE).
A pesquisa foi realizada em um município de médio porte no centro-oeste de São Paulo, com cerca de 145.155 habitantes(7) e 21 unidades de saúde, sendo 8 Unidades Básicas de Saúde (UBS) tradicionais (duas delas denominadas Centro de Saúde Escola) e 13 Unidades de Saúde da Família com 22 equipes de Saúde da Família.
A projeção da amostra considerou o quadro funcional das Unidades Básicas tanto por equipe de Saúde da Família (um enfermeiro gerente-assistencial, um médico e um cirurgião-dentista) como por equipe de UBS e Centro de Saúde Escola: dois enfermeiros (gerente e assistencial), três médicos (clínico geral, pediatra e ginecologista) e um cirurgião-dentista, além dos profissionais habilitados para realizar o teste rápido.
A amostra final foi constituída por 120 profissionais, abrangendo médicos, enfermeiros e demais categorias (tais como cirurgiões-dentistas, farmacêuticos e psicólogos) capacitadas para realizar testes rápidos. A inclusão de outros profissionais, além de médicos e enfermeiros, resultou da iniciativa municipal de capacitar outras categorias profissionais para executar esse procedimento, visando ampliar a atuação das equipes no enfrentamento do HIV e da AIDS. Todos os profissionais elegíveis foram convidados a participar do estudo. Contudo, 13 deles recusaram o convite (oito médicos, dois enfermeiros e três farmacêuticos) e quatro foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão estabelecidos.
Os critérios de inclusão foram os seguintes: ocupar cargo de gerência, ser médico ou enfermeiro assistencial, ou profissional de nível superior capacitado para realizar o teste rápido, com tempo de atuação maior que seis meses na APS do município. Profissionais em licença saúde ou férias durante o período da coleta e aqueles que se recusaram a participar foram excluídos.
A coleta de dados foi realizada entre maio e agosto de 2023 após entrevistas individuais realizadas nas unidades de saúde em ambiente privativo. Elas foram conduzidas por uma enfermeira e uma graduanda de enfermagem previamente capacitadas. Foram usados dois instrumentos: o primeiro foi elaborado pelos pesquisadores para identificar perfil profissional, conhecimento e atitudes sobre IST, HIV e AIDS;(8) o segundo foi previamente validado para avaliar ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS na APS.(9) Só o instrumento elaborado pelos pesquisadores foi previamente testado com enfermeiros residentes de um Programa de Residência Multiprofissional para verificar a clareza e fluidez das questões antes de sua aplicação em campo.
As variáveis de perfil incluíram gênero, orientação sexual, identidade de gênero, raça e/ou cor da pele, estado civil, cargo, função, modelo de atenção em que atua e pós-graduação. O conhecimento dos participantes foi avaliado com base no seu entendimento sobre IST, HIV e AIDS, Prevenção Combinada, Profilaxia Pré-exposição (PrEP), Profilaxia Pós-exposição (PEP). A atitude dos participantes foi compreendida como sendo sua predisposição e postura frente ao cuidado durante o aconselhamento sobre IST, HIV e AIDS. As ações de enfrentamento dos participantes foram referentes às práticas concretas, tais como oferta de teste rápido, educação em saúde, notificação e busca ativa de parcerias, no cotidiano da APS conforme descritas no instrumento validado e usado.
O convite para participação na pesquisa foi feito por e-mail ou ligação telefônica pelos gerentes das unidades. Esses gerentes tiveram também a função de repassar as informações sobre a pesquisa aos profissionais. Os interessados tiveram um horário agendado para aplicar os instrumentos (duração média: 30 min). As respostas foram registradas em planilhas do Excel® usando notebooks e tablets. Para evitar que os participantes recorressem à internet para responder às perguntas da pesquisa, comprometendo assim a fidedignidade das respostas, optou-se pela aplicação presencial dos instrumentos, que foi conduzida pelas pesquisadoras.
O instrumento de conhecimento e atitude permitiu respostas abertas, que foram analisadas qualitativamente e classificadas como suficiente (1) ou insuficiente (0), formando assim um banco de dados binário. Para assegurar objetividade e padronização, foi elaborado previamente um material de referência com base em documentos técnicos do Ministério da Saúde e artigos científicos.(10-16) As perguntas foram organizadas em eixos temáticos: IST, HIV e AIDS, Prevenção Combinada, PrEP, PEP, vulnerabilidade e aconselhamento. Cada questão tinha uma resposta ideal e critérios objetivos para classificar o conhecimento e a atitude como sendo suficiente ou insuficiente. As respostas dos participantes foram comparadas com esses critérios, permitindo uma categorização sistemática e alinhada à literatura.(8)
No primeiro instrumento, dados relacionados ao perfil sobre conhecimento e atitudes em relação a IST, HIV e AIDS, foi usada estatística descritiva. O escore das ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS na APS foi calculado a partir do instrumento validado, contendo 18 variáveis.(9) Esse escore (na faixa de 0-18) representou a soma das ações manifestadas pelos profissionais em cada questão. Logo, cada resposta sim somou 1 ao escore. Depois, o valor bruto do escore foi associado às variáveis de perfil, conhecimento e atitude dos profissionais. Os dados foram analisados no software gratuito Statistical Package for the Social Sciences (SPSS).
As associações entre os escores de enfrentamento ao HIV e à AIDS e as variáveis perfil, conhecimento e atitude dos profissionais foram realizadas ajustando o modelo de regressão linear múltipla com resposta normal, incluindo em seu componente determinístico só as variáveis com p<0,20 na fase de exploração bivariada. No modelo final, as associações com p<0,05 foram consideradas estatisticamente significativas. Isso indica que nessas variáveis, os profissionais obtiveram escores de enfrentamento maiores que aqueles obtidos nas variáveis estatisticamente não significativas. A qualidade do modelo ajustado foi testada investigando a normalidade dos resíduos (teste de Shapiro-Wilk). A presença de homocedasticidade foi testada usando um gráfico de dispersão entre valores residuais e preditos, e a existências de pontos influentes foi testada por meio da distância de Cook.
Finalmente, os modelos de atenção à saúde (Estratégia de Saúde da Família (ESF) e modelo tradicional) foram comparados com base nas respostas dos profissionais, que foram obtidas usando o instrumento validado, aplicando os testes qui-quadrado ou exato de Fisher conforme a adequação estatística. O teste exato de Fisher foi usado quando a frequência esperada em alguma célula da tabela de contingência era <5; o teste qui-quadrado foi usado nos demais casos. As associações foram consideradas estatisticamente significativas para p<0,05.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu, São Paulo Parecer: 5.961.454; Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 60849722.0.0000.5411.
Resultados
A amostra foi composta por 120 profissionais de saúde, que eram dos gêneros feminino (89; 74,2%) e masculino (31; 25,8%). Todos se identificaram como sendo cisgênero, sem relato de identidade transgênero ou não binária. A maioria dos profissionais declarou ser heterossexual (92,5%); a minoria declarou ser homossexual (3,3%), bissexual (3,3%) e pansexual (0,8%). Quanto à raça e/ou cor da pele, os profissionais autodeclararam ser brancos (83,3%), pardos (10,8%), amarelos (3,3%) e pretos (2,5%); não houve autodeclaração indígena. Em relação ao estado civil, 54,2% deles tinham união estável (ou casados) e 45,8% eram solteiros, viúvos, separados ou divorciados.
Os profissionais eram médicos (66; 55,0%), enfermeiros (37; 30,8%), cirurgiões-dentistas (15; 12,5%), incluindo um farmacêutico e um psicólogo. A maioria atuava na assistência (89; 74,2%), 21,7% acumulavam gerência e assistência, 3,3% eram apenas gerentes, e 0,8% era coordenador. Quanto à qualificação, 55,8% tinham residência ou especialização, 17,5% mestrado ou doutorado, e 26,7% não possuíam nenhuma dessas formações. Os profissionais atuavam em unidades do modelo tradicional (65; 54,2%) e na ESF (55; 45,8%). O tempo médio de atuação profissional foi de 14,2 anos e, na APS, de 11,4 anos.
Quanto ao conhecimento e atitudes frente ao HIV e a AIDS, os profissionais não participaram de capacitações nos últimos cinco anos (60,0%) e não orientam sobre o uso do preservativo ao distribuí-lo (65,0%). Sobre a continuidade do cuidado, 92,5% dos profissionais encaminham pacientes diagnosticados com HIV ou AIDS aos serviços especializados. Houve bom desempenho nas ações de diagnóstico, e 99,2% deles afirmaram ofertar o teste rápido a pessoas com sintomas sugestivos de infecção pelo HIV. A maioria deles (95,8%) considerou que a provisão de recursos para o teste rápido era adequada, e 95,0% afirmou realizar a notificação correta das IST no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Tabela 1).
A soma das ações realizadas pelos participantes resultou no escore de enfrentamento, que está associado ao perfil profissional, ao seu conhecimento e às suas atitudes frente ao HIV e à AIDS. A Tabela 2 apresenta as variáveis que mostraram associação com p<0,20. Na análise bivariada, maiores escores foram apresentados por profissionais da ESF [b=1,70; IC95%(0,66-2,74), p=0,001], enfermeiros [b=1,96; IC95%(0,85-3,08), p=0,001] e aqueles com residência ou especialização [b=1,00; IC95%(-0,26-2,25), p=0,119]. Em relação ao conhecimento e à atitude, escores mais altos foram observados entre os que mostraram compreensão adequada sobre PrEP [b=1,00; IC95%(-0,39-2,38), p=0,158], PEP [b=0,79; IC95%(-0,38-1,96), p=0,185], vulnerabilidade [b=0,88; IC95%(-0,36-2,11), p=0,163] e realizam aconselhamento sobre IST, HIV e AIDS [b=1,78; IC95%(0,08-3,49), p=0,040] (Tabela 2).
Embora as associações supracitadas sejam estatisticamente não significativas, as variáveis apresentaram p<0,20. Portanto, elas foram ajustadas usando um modelo de regressão linear múltipla com resposta normal; p<0,05 foi considerado significante (Tabela 3). Após regressão linear múltipla, só uma associação mostrou ser estatisticamente significante, indicando que os profissionais com escore de enfrentamento mais elevado são aqueles que atuam na ESF, realizando 1,68 ações de enfrentamento a mais que os profissionais da UBS tradicional [b=1,68, IC95% (0,6 -2,70), p=0,001] (Tabela 3).
A comparação entre os modelos de atenção reforça a análise anterior, mostrando que a proporção de profissionais que realizam ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS na ESF é maior que aquela dos profissionais das UBS tradicionais. Isso foi confirmado nas variáveis significativas: busca ativa de parcerias após diagnóstico positivo (94,5% vs. 76,9%; p=0,009), acompanhamento de gestantes vivendo com HIV encaminhadas ao serviço especializado (90,9% vs. 67,7%; p=0,003), entrega de resultados sorológicos no pré-natal (94,5% vs. 73,8%;p=0,003), notificação de IST no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (100% vs. 90,8%; p=0,031) e menor dificuldade para realizar ações educativas (61,8% vs. 33,8%; p=0,003) (Tabela 1).
Discussão
A presente pesquisa associou as características dos profissionais da APS (incluindo perfil, conhecimento e atitudes) e a implementação das ações de enfrentamento ao HIV. Foi observada predominância do gênero feminino entre os participantes. Isso concorda com a tendência observada mundialmente, na qual as mulheres representam cerca de 70% da força de trabalho em saúde, refletindo as construções socioculturais que historicamente vinculam o cuidado ao gênero feminino.(17)
Além disso, a maioria dos participantes informou ter pós-graduação. Porém, mais da metade dos profissionais mencionou ausência de treinamentos específicos sobre HIV e AIDS nos últimos cinco anos, revelando uma lacuna na capacitação contínua. A atualização no manejo do HIV é fundamental para assegurar a implementação de práticas baseadas em evidências e a oferta de cuidado integral e de qualidade. Estratégias inovadoras, tais como educação interprofissional e uso de Tecnologias Digitais, têm se mostrado eficazes em fortalecer o conhecimento, segurança e competência clínica dos profissionais.(18,19)
Os resultados desta pesquisa também mostraram que os profissionais da ESF realizam significativamente mais ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS em comparação com aqueles das UBS tradicionais. Entre as práticas foram destacadas a busca ativa de parcerias, o acompanhamento de gestantes vivendo com HIV e a notificação de IST. Essa diferença pode ser atribuída às características estruturais e funcionais da ESF. Elas favorecem a construção de vínculo com os usuários e com o território, a continuidade no cuidado, o trabalho em rede e uma abordagem integral ao longo da vida, incluindo o manejo de comorbidades associadas ao HIV.(20-23)
No enfrentamento ao HIV, a ESF exerce uma função central ao integrar diferentes frentes de atuação, tais como identificação de vulnerabilidades, promoção da educação em saúde sexual e oferta de testes rápidos para o diagnóstico precoce.(20,23) Para as pessoas que vivem com HIV, a ESF assegura a coordenação do cuidado com serviços especializados, fortalecendo o vínculo e assegurando um acompanhamento contínuo. O sucesso dessa abordagem é visível em nível nacional onde as regiões com maior cobertura da ESF alcançaram uma significativa redução na mortalidade e incidência de AIDS, principalmente na população de baixa renda.(20)
Em contrapartida, o cuidado segue a abordagem biomédica e a lógica da queixa-conduta nas UBS tradicionais, abrangendo territórios mais amplos e atendendo um número maior de pessoas. Essa lógica fragmentada (voltada para intervenções pontuais e curativas) pouco contribui para enfrentar condições complexas (tais como o HIV e a AIDS) que demandam abordagem singular e centrada nos indivíduos.(21,24) Ademais, na cidade onde foi realizado o estudo, a contratação de médicos como Pessoas Jurídicas nas UBS é uma barreira significativa à qualidade do cuidado. Esse vínculo precário e instável restringe direitos trabalhistas, favorece a rotatividade e compromete a continuidade do cuidado; além disso, dificulta a participação dos médicos em atividades de educação permanente, impactando negativamente os serviços oferecidos.(25,26)
Diante das diferenças organizacionais entre os modelos de atenção, o instrumento Primary Care Assessment Tool (usado para medir atributos essenciais da APS, tais como acesso, longitudinalidade, coordenação do cuidado e integralidade) é amplamente utilizado na literatura, com a ESF frequentemente se sobressaindo nos critérios analisados.(21,22, 24)
Estudos realizados com médicos, enfermeiros e usuários da APS nas regiões Sul e Sudeste do Brasil mostraram que as UBS tradicionais apresentaram resultados inferiores no critério de integralidade do cuidado.(22,24) A comparação entre os modelos de atenção à saúde confirma essa análise, evidenciando que uma maior proporção de profissionais realiza o cuidado integral na ESF em comparação com as UBS tradicionais. Especificamente, os profissionais da ESF são mais ativos em notificar IST e entregar exames sorológicos durante o período pré-natal. Esses resultados destacam a capacidade da ESF para oferecer um cuidado mais abrangente, integrando desde a vigilância epidemiológica até o acompanhamento individualizado na gestação.
Os resultados desta pesquisa também indicam que os profissionais da ESF desempenham uma coordenação do cuidado mais eficiente em comparação com aqueles que atuam nas UBS, especialmente no acompanhamento de gestantes vivendo com HIV. Esse cenário pode ser compreendido pela dinâmica das unidades tradicionais que tendem a priorizar práticas programáticas, em detrimento do acompanhamento integral, contínuo e coordenado.(21,24) Porém, há concordância na literatura sobre as fragilidades existentes nos mecanismos de transição de cuidados entre os diferentes pontos da rede de atenção, comprometendo a integração dos cuidados.(21,24)
Finalmente, destacamos que o presente estudo contribui de forma relevante para compreender os fatores associados às ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS. Porém, como ele foi realizado em uma única cidade e com participação parcial dos profissionais da APS, há limitações quanto à representatividade dos dados e à generalização dos resultados para outros locais com diferentes contextos socioeconômicos e estruturas de saúde. Tais aspectos devem ser considerados na interpretação, reforçando a importância de pesquisas futuras em cenários diversos e com amostras ampliadas.
Conclusão
O modelo de atenção à saúde no qual os profissionais da Atenção Primária à Saúde estão inseridos é determinante para realizar as ações de enfrentamento ao HIV e à AIDS. Esse modelo é potente para promover integralidade, longitudinalidade e coordenação do cuidado propiciando mais atividades preventivas e de acompanhamento. É importante consolidar a Estratégia de Saúde da Família como o modelo prioritário na APS para um melhor manejo do HIV.
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Editora Associada:
Paula Hino (https://orcid.org/0000-0002-3855-0003) Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
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