Resumo:
Apresentamos as traduções a partir do texto original grego dos fragmentos VIII e XIV do filósofo estoico etrusco Caio Musônio Rufo, figura destacada no século I de nossa era. No fragmento VIII, Musônio recomenda a um rei da Síria o estudo da filosofia como conhecimento para capacitá-lo para o bom e justo exercício da realeza. No fragmento XIV, Musônio argumenta que o matrimônio não é impedimento ao filosofar, pois é segundo a natureza.
Palavras-chave:
Musônio Rufo; Estoicismo; Helenismo; Realeza; Matrimônio
Abstract:
We present translations from the original Greek text of excerpts VIII and XIV of the Etruscan Stoic philosopher Gaius Musonius Rufus, a prominent figure in the 1st century AD. In excerpt VIII, Musonius recommends to a king of Syria the study of philosophy as knowledge to enable him to exercise kingship well and justly. In excerpt XIV, Musonius argues that marriage is not an impediment to philosophizing, as it is in accordance with nature.
Keywords:
Musonius Rufus; Stoicism; Hellenism; Royalty; Marriage
Breve nota biográfica sobre Caio Musônio Rufo
A Suda nos diz o seguinte sobre Musônio:
<Filho> de Capito; um tirreno1, da cidade de Volsínio; filósofo dialético e estoico que viveu sob Nero2. Conheceu Apolônio de Tiana3 e muitos outros. Há mesmo pretensas cartas de Apolônio para ele, e dele para Apolônio. É evidente que, por sua franqueza ao falar (parrhesia4), sua veia crítica e seu excesso de liberdade, foi morto por Nero. Há uma variedade de discursos sobre filosofia que levam seu nome, além de epístolas. O Apóstata5 fala sobre este Musônio em uma epístola: “Suportaste bem o comportamento ébrio com qual o líder da Grécia te recebeu, na crença de que nada disso pertence a ti pessoalmente. Querer ajudar entusiasticamente aquela cidade, sobre a qual escreveste aqueles discursos, é o sinal seguro da alma de um filósofo, algo digno, em primeiro lugar, de Sócrates, em segundo lugar, de Musônio. <Sócrates> disse que a lei divina não permite que um homem bom seja prejudicado por um homem inferior ou mau6. E <Musônio> cuidou dos baron, quando Nero ordenou que fosse para o exílio.” Esse termo [baron] significa “das fortificações”, pois os bareis são fortificações (Suda, mu 1305)7.
A Suda é a única fonte do prenome do pai de Musônio. Também é a única fonte para a sua cidade natal, Volsínio, sobre o que discorremos mais adiante. Os fragmentos que nos chegaram e as cartas supostamente trocadas entre Apolônio de Tiana e Musônio serão brevemente discutidos abaixo. A Suda menciona uma tradição8 que afirma que Musônio teria sido condenado à morte por Nero, o que não é verdade.
Quanto ao seu caráter célebre, Plínio observa, na epístola 3.11, que Musônio era admirado e amado por muitos.
Dião Crisóstomo nos oferece o seu próprio testemunho sobre Rufo: “Eu próprio conheci Musônio, que então vivia em Roma - um homem verdadeiramente dedicado à filosofia e digno de admiração, que mostrava sua virtude não apenas por palavras, mas também por atos”.9
Tácito qualifica Musônio como studiorum egregius (“notável em seus estudos”)10. Orígenes o menciona como exemplo de vida perfeita:
Ora, aqui Celso me parece ter cometido um grande erro ao recusar àqueles que são pecadores por natureza, e também por hábito, a possibilidade de uma transformação completa, alegando que não podem ser curados nem mesmo por punição. Parece claramente que todos os humanos são inclinados ao pecado por natureza, e alguns não apenas por natureza, mas pela prática, embora nem todos sejam incapazes de uma transformação completa, pois se encontram, em todas as seitas filosóficas e na palavra de Deus, pessoas que são ditas terem passado por uma mudança tão grande que podem ser dispostas como um modelo de vida virtuosa. Entre os nomes da era heroica, alguns mencionam Hércules e Ulisses. Entre os de tempos posteriores, Sócrates. E, entre os que viveram muito recentemente, Musônio (Orígenes, Contra Celsum 3.66).11
Favorino,12 em Sobre o exílio, elenca Musônio entre os grandes modelos de virtude, que, mesmo atravessando vicissitudes, têm vidas preferíveis às dos maus:
E quem não preferiria morrer como Sócrates a viver como Ânito e Meleto?13 Quem não desejaria antes ser condenado como Péricles a gritar como Cléon?14 E quem não preferiria ser pobre como Aristides do que rico como Cálias?15 Ou viver e ser desonrado como Trasíbulo do que governar como Crítias?16 Ou ser exilado como Musônio do que reinar como Nero? [Favorino, Do exílio, 21.30-47 = Frag. 96.23.5-10 (Barigazzi)]17
O Imperador Juliano elogia a coragem de Musônio18. Na Epístola a Temístio, ele observa o seguinte: “Musônio tornou-se célebre porque suportou seus sofrimentos com coragem e, por Zeus, sustentou com firmeza a crueldade dos tiranos; e talvez não tenha sido menos feliz do que aqueles que administravam grandes reinos”.19 Quanto à epístola de Juliano ao sumo-sacerdote Teodoro, em parte citada na Suda no fragmento apresentado acima, Mayer, que traduz a entrada mu (1305) na Suda, observa que baron deve ser corrupção de Gyaron (em português, Giaros), a ilha para a qual, como detalharemos adiante, Musônio teria sido exilado por Nero. Assim, Juliano teria em mente a descoberta feita por Musônio de uma fonte de água potável em Giaros, a primeira e única da ilha, o que colaborou para o bem da pequena comunidade que lá residia20.
Lutz (1947, p. 3), após observar que, cerca de uma geração após Musônio, Orígenes, no Contra Celsum (III.66), o cita, ao lado de Sócrates, como exemplos da mais elevada vida, pondera o seguinte:
Musônio não era doutor obscuro, mas, sim, figura pública, participante ilustre nos assuntos cívicos. Sua própria proeminência na vida pública, sua ativa preocupação com os problemas da época e seu aguçado senso de dever para com a sociedade necessariamente o tornaram objeto da perseguição de Nero. A coragem e o espírito que demonstrou nesta crise da sua vida foram as mesmas qualidades elevadas que demonstrou repetidamente ao longo da sua variada carreira. Sempre consistente em enfrentar a vida com coragem, constantemente exortava seus semelhantes a serem corajosos e fortes. Como nobre exemplo da vida boa, Musônio seria personagem notável em qualquer época; contra o pano de fundo da pobreza espiritual e da decadência moral de sua própria geração, ele parece figura verdadeiramente heroica (Lutz, 1947, p. 24).
Arnold (1911) o considera o terceiro fundador do estoicismo (depois de Zenão de Cítio21 e de Crisipo de Sólis22). Entretanto, a posteridade não lhe foi propícia ou justa. Seu nome acabou esquecido com o passar dos séculos, e, ainda hoje, sua obra carece de estudos detalhados, sendo a presente edição, na medida em que sabemos, a primeira completa na língua vernácula.
Porém, entre aqueles que se ocupam de seu pensamento humanista e de sua vida destemida, criou-se a unanimidade de intitulá-lo o “Sócrates romano”23. Como nos diz Lutz (1947):
A obscuridade que tem ofuscado o nome e a reputação de Musônio é um dos infelizes acidentes do registro histórico, pois mesmo os testemunhos ainda existentes dos autores antigos - por escassos que sejam - conduzem-nos à conclusão de que Musônio foi uma figura muito mais marcante do que suas obras sobreviventes nos permitem supor; de fato, uma das personalidades mais significativas de sua época. Embora fosse professor da doutrina estoica, Musônio não se encontrava de modo algum limitado por fronteiras sectárias. Seus ensinamentos constituíam sua própria interpretação humanitária dos princípios fundamentais que regulam a conduta humana, sendo verdadeiramente o fruto de uma vida virtuosa e a expressão de uma grande personalidade (Lutz, 1947, p. 4).
Obra
Informa-nos a Suda (mu 1305) que Caio Musônio Rufo nada escreveu visando à publicação. Dois alunos seus incumbiram-se dessa tarefa: um certo Lúcio (do qual nos chegaram fragmentos de 21 discursos, preservados por Estobeu24) e um certo Polião, de cuja obra talvez nos tenham chegado alguns fragmentos25.
Sobre Polião, a Suda (pi 2165) nos diz que “foi sofista em Roma no tempo de Pompeu, o Grande”, tendo escrito obra intitulada As memoráveis do filósofo Musônio. Hense (1905, p. XII) observa que essa informação é equivocada por óbvias razões cronológicas, embora deva ter existido tal Polião, autor das apomnemoneumata Mousoniou tou philosophou (“As memoráveis de Musônio, o filósofo”) - o qual é provavelmente Valério Polião, filósofo que viveu sob Adriano, segundo a Suda (pi 2166), talvez o mesmo que fora, mais tarde, professor de Marco Aurélio. Entretanto, não há referências a esse Lúcio na biblioteca de Fócio. Hense (1905, p. XIII) conclui que, se algo nos restou dessa obra, deve estar entre os fragmentos remanescentes (por exemplo, fragmentos XXXVII, XLIX, L). Von Arnim (1898, p. 176) especula que tal obra fosse distinta daquela de Lúcio, consistindo em ditos de Musônio literalmente coligidos.
Em Estobeu, o nome Loukiou aparece de forma esparsa.26 Entretanto, todos os fragmentos de discursos presentes em sua obra se devem a este Lúcio, pois, como observa Wendland (1895, p. 68), se assemelham em linguagem e estilo. Hense (1905, p. XI) nota que, embora citado poucas vezes, Estobeu deve ter considerado o suficiente para indicá-lo como fonte de todos os fragmentos musonianos. Hense (1905, p. XIV) pondera que o fragmento IX, intitulado “Que aos reis também é preciso filosofar”, não deve ter sido publicado antes de 106, conjecturando que se trata o interlocutor de algum rei da Síria, cujos reinos foram em sua totalidade romanizados naquele ano. Hense considera que Lúcio teria sido aluno de Musônio entre 65 (ano do segundo exílio de Rufo) até o final de sua vida (pouco depois do ano 100), deduzindo que seguira o mestre por longo tempo, dadas as expressões que usa referindo-se a ele, tais como, por exemplo, no fragmento XVIII, no qual diz que Musônio “costumava falar frequente e enfaticamente sobre alimentação”27. Lutz (1947, p. 12) crê que Lúcio cumpriu em relação a Musônio o mesmo papel que Xenofonte cumpriu em relação a Sócrates28.
Quanto à publicação dos discursos por Lúcio, Hense (1905, p. XV) considera ter ocorrido entre 106, após a morte de Musônio29 e o momento em que o rei sírio deixou o poder30:
Ora, quanto mais profundamente Lúcio se havia insinuado na sabedoria branda de Musônio, tanto mais desejava que a imagem do mestre incansável, que concebera em seu espírito, não se extinguisse pelo esquecimento. Começou, portanto, a ordenar e a preparar para a memória da posteridade os discursos do mestre que ele havia assimilado, sem o auxílio da arte dos taquígrafos. Todavia, esses escritos dificilmente foram publicados antes da morte de Musônio (Hense, 1905, p. XV).
Lúcio, entretanto, observa Hense (1905, p. XV), não se propôs a registrar literalmente a própria locução do mestre, como podemos constatar por suas próprias palavras, como quando, por exemplo, nos diz, ao final do fragmento XIV, que “Então, de fato, ele disse algo desse tipo”31, no fragmento XVIIIa, que “ele disse algo assim”32 e, ao final do fragmento VII, que “essas coisas, ao menos em termos gerais, ao que parece, ele disse então”33.
Além de ter sido discípulo fiel de Musônio, não sabemos nada mais sobre Lúcio, que talvez seja o mesmo mencionado por Filóstrato34 como aluno de Rufo e partícipe do círculo de Herodes Ático.
Há duas edições críticas da obra de Musônio: a de Peerlkamp (1822) e a de Hense (1905)35, que deve ser complementada por parágrafo (encontrado em papiro descoberto no século XX) incluído na edição de Lutz (1947). Há também uma tradução latina de Gessner (1549). Os fragmentos dos discursos de Musônio (com exceção de 13 fragmentos e parte do fragmento XV) foram reunidos a partir de Estobeu. A presente edição segue o texto de Hense, com adição de algumas linhas ao fragmento XV acrescentadas por Lutz (1947) a partir da descoberta do mencionado papiro.
Quanto ao modo como foram coligidos os fragmentos de Musônio, Hense (1905, p. V) impôs a si mesmo a regra segundo a qual não se deve acrescentar ao corpus fragmentos que não contenham os cognomes Musônio ou Rufo36.
Lutz (1947, p. 8, n.º 21) afirma que, no fragmento VIII, Lúcio transcreve uma conversa entre Musônio e um rei da Síria37. Considera-se que o fragmento do discurso sobre o exílio (IX) contenha epístola do próprio Musônio38 endereçada a Lúcio e escrita durante o segundo exílio de Rufo, em 6539. Os fragmentos XIII, XV e XVIII se dividem cada qual em duas partes. A divisão foi feita por Estobeu, e não sabemos ao certo a posição de cada parte no texto original.
Note-se que Estobeu foi figura muito relevante no processo de preservação da cultura clássica ao compilar fragmentos de vários autores gregos. Nesse sentido, como bem lembra García (2020), o próprio modo como interpretamos a filosofia musoniana também é em parte direcionado pelo trabalho de Estobeu, em razão daquilo que ele preservou e, até mesmo, da ordem como dispôs os textos compilados.
Lutz (1947, p. 6, n. 12) nos informa a descoberta de um papiro contendo o texto de XVa, indicando que este não fazia parte do princípio do discurso original. Contudo, Pflieger (1897, p. 16; 20) observa que ao menos 15 discursos se apresentam razoavelmente completos, tais como Lúcio os editou.
Os fragmentos XXXVIII a XLII diferem em conteúdo dos demais, concentrando-se em temas teóricos e metafísicos, razão pela qual Lutz (1947, p. 9, n. 22) conjectura que tenham feito parte de tratado escrito por Musônio. Os fragmentos LI e LII aparecem tanto em Aulo Gélio como em Macróbio (Sat. I.5.12). Lutz (1947, p. 9, n. 23) observa ainda que os fragmentos presentes em Aulo Gélio (L, LI, LII) testemunham seu uso como material de aula em sua juventude.
Nesta tradução, seguimos a numeração proposta por Lutz, por páginas e linhas.
Sobre os fragmentos ora traduzidos
O fragmento VIII nos chegou por Estobeu (Antologia, 4.7.67, no capítulo 7, intitulado “conselhos sobre o exercício da realeza”).
Conforme nota García (1995, p. 62, n. 27), à época, a região da Síria se compunha de vários reinos, que se constituíram após a queda do Império Selêucida, que teria se formado após a queda de Alexandre, o Grande. Roma paulatinamente conquistou a região, eliminando esses reinos. García (1995) acrescenta que encontros entre reis e filósofos eram topos comum da poética helenística e que essa evocação a rei anônimo é recurso do compilador dos discursos. King (2011, p. 40, n. 41), por outro lado, crê que talvez isso tenha realmente ocorrido, acrescentando que a região aqui chamada de Síria era província romana criada por Pompeu que se estendia das margens do Mediterrâneo às margens do Eufrates ou do deserto árabe, região que se alargou à medida que Roma ia absorvendo Estados-clientes governados por reis como este ao qual Musônio se refere neste texto. Por nossa parte, se for este o caso, podemos cogitar que Musônio esteja em algum tipo de missão diplomática, talvez nos tempos do Imperador Vespasiano, razão pela qual aderimos a Lutz (1947, p. 8, n. 21), a qual afirma que, neste fragmento, Lúcio transcreve conversa entre Musônio e um rei da Síria, observando (1947, p. 60, n. 4) que esse discurso delimita um terminus post quem para a edição de Lúcio, pois após 106 não havia mais reis na Síria e seria descortês publicar o tal discurso se ainda houvesse.
O fragmento XIV nos chegou por Estobeu (Antologia, 4.22a.20, no capítulo 22, intitulado “Sobre o matrimônio, parte A: que o matrimônio é coisa muito boa”). Nele, Musônio observa que o matrimônio não é de forma alguma impedimento para o filosofar. Esse fragmento deve ser lido em conjunção com os fragmentos XIIIa e XIIIb, que tratam especificamente do matrimônio, e os fragmentos III e IV, que tratam da precisão de educar filosoficamente as mulheres e igualmente meninos e meninas. A tese fundamental é que ambos os sexos precisam das virtudes, razão pela qual ambos requerem a mesma educação filosófica. No fragmento XIV, último do corpus a tratar especificamente da interação entre homem e mulher, Musônio defende a tese segundo a qual o matrimônio é de acordo com a natureza e que a comunidade (koinonia) advinda de tal união é a mais antiga, a mais sagrada e a mais bela.
Tradução
Fragmento VIII: De Musônio, do <discurso> “Que os reis também precisam filosofar”40
Certa vez, quando foi ter com certo rei da Síria41, pois ainda havia, então, [60.5] na Síria, reis aliados dos romanos, <Musônio> disse ao homem muitas coisas, em especial estas:
mais o filosofar do que a ti, e não em razão de outra
graça senão porque te ocorre ser rei. Pois é preciso,
indubitavelmente, que o rei seja capaz de [60.10]
proteger e beneficiar os humanos e que aquele que
protegerá e beneficiará conheça o que é o bem e o que
é o mal, o que é benéfico e o que é prejudicial, o que é
vantajoso e o que é desvantajoso para o humano, se,
de fato, são destruídos os que se deparam com os
males, são protegidos aqueles aos quais ocorrem os
bens, são beneficiados os que são julgados dignos das
coisas benéficas e vantajosas, [60.15] são
prejudicados os que são lançados às coisas
desvantajosas e prejudiciais. Não há dúvida de que o
bom e o mau, ou o vantajoso e o desvantajoso, ou o
benéfico e o prejudicial não são discernidos senão
pelo filósofo, que o faz ao não ignorar nenhuma
dessas coisas e que desenvolveu uma técnica pela
qual se conhece o que conduz [60.20] o humano para
a felicidade ou para a infelicidade. Por essa razão, é
evidente que é preciso que o rei filosofe. Além disso, é
próprio do rei, ou melhor, lhe é indispensável arbitrar
as coisas aos súditos de forma justa, de modo que
ninguém possua mais do que aquilo que lhe é devido,
nem receba menos do que merece42, mas que ocorram
as honras e as punições aos que as merecem. Como
essas coisas seriam [60.25] possíveis a alguém que
não fosse justo? E como é possível alguém justo não
conhecer a justiça?
Também por isto é preciso ao rei filosofar: porque a
justiça e o justo não poderiam se mostrar conhecidos
senão pelo filosofar. Não se pode negar nem que o que
aprendeu isso saberá mais sobre as coisas justas do
que aquele que não aprendeu, [60.30] nem que os que
não filosofam ignoram tais coisas. Certamente,
discordam e polemizam uns com os outros acerca das
coisas justas, uns dizendo que umas coisas são mais
justas, outros, que outras.
Decerto que os humanos não discordam acerca das
seguintes coisas: das coisas brancas ou negras, das
coisas quentes ou frias e das coisas moles ou rígidas,
mas pensam e falam o mesmo acerca de todas essas
coisas, de modo que, [62.10] similarmente,
concordariam quanto às coisas justas se soubessem
quais fossem cada uma delas. Mas nisso não
concordam, mostrando-se ignorantes.43
E tu, como me parece, deves te dedicar a esse
conhecimento, pois também te encontras nesta
ignorância. É muito mais vergonhoso ao homem que é
rei do que ao simples cidadão ignorar o que é justo.
De novo, portanto, é preciso que o rei seja temperante e
que torne seus súditos temperantes para que os
[62.15] comande os comandados belamente e que nem
um nem outros sejam luxuriosos, pois a luxúria destrói
tanto o governante quanto o cidadão comum. Como
alguém poderia ser temperante não praticando
governar seus apetites44? Ou como tornaria outros
temperantes sendo intemperante?
Mas qual ciência conduz à temperança senão a da
filosofia? Não é possível dizer: pois a filosofia ensina
a estar acima do prazer, acima da ganância, ensina o
amor à simplicidade, a evitar a extravagância, habitua
a ter decoro, habitua a dominar a língua, preserva a
bela ordem e a graça e, [62.20] de modo geral,
habitua a portar-se adequadamente tanto em
movimento como em repouso.
Essas qualidades, quando presentes, concedem ao humano
caráter reverente e temperante. E o rei ao qual
pertencem essas qualidades seria em alto grau divino
e estimado por ser decoroso.
Efetivamente, como a ação destemida, intrépida, confiante
e corajosa caberia mais a outro humano do que a
alguém que, [62.25] acerca da morte e do sofrimento
físico, compreendesse muito confiantemente que
ambos não são males? Pois essas coisas, a morte e o
sofrimento físico, confundem e são temíveis para os
humanos quando persuadidos de que estão entre os
males. E apenas a filosofia ensina que essas coisas
não são males. De mesmo modo que, se, de fato, é
preciso que a coragem pertença aos reis, [62.30] e é
preciso que lhes pertença em mais alta medida do que
a todo e qualquer outro humano, devem dedicar-se a
filosofar, porque não poderiam de outro modo se
tornar corajosos. E é dos reis, pelo menos, ser tanto
invencível no argumento quanto ser capaz de dominar,
como com armas de combate, os argumentos dos
diálogos. Se os reis são débeis quanto a isso, é [62.35]
necessário que diversas vezes sejam levados à
perplexidade e forçados a aceitar o falso como sendo
verdadeiro, o que é obra da imprudência e da extrema
ignorância.
Mas penso que a filosofia veio à existência, se não para
algo mais, sobretudo para suprir aos que a ela
recorrem nisto: superar o interlocutor em argumento,
discernir entre as coisas falsas e as verdadeiras, umas
refutando, outras confirmando. Decerto que os
retores, sempre que vão ao mesmo lugar que os
filósofos, proferindo e ouvindo argumentos, se veem
confusos, em estado de aporia45, [62.40]
constrangidos a dizer coisas contrárias. Certamente,
sendo os retores, que justamente se dedicam a praticar
argumentos, sempre considerados mais fracos que os
filósofos em relação a [64.5] argumentos, o que é
preciso supor sobre os demais humanos?
Daí, se, para alguém que é rei, ocorre o apetite46 de
governar a prática de argumentos, lhe é preciso
filosofar para que não tema ninguém neste tópico
como lhe sendo superior, lhe é preciso, em toda parte,
ser destemido, intrépido e invencível.
[64.10] Em geral, é absolutamente necessário ao bom rei
ser infalível e perfeito, tanto no argumento quanto na
ação, se é preciso, como pareceu aos antigos, que ele
seja a encarnação viva da lei,47 produzindo a boa
ordem e a concórdia, afastando a anarquia e a
discórdia, zeloso de Zeus, sendo, do mesmo modo que
ele, pai dos governados. [64.15] E como tal poderia
ser se não se diferenciasse por natureza, se não
recebesse excelente educação e, uma vez tendo sido
educado, se não possuísse por completo as virtudes —
todas as que são próprias do ser humano?
Certamente, se também há uma ciência diferente que guie
a natureza do humano para a virtude a fim de praticar
e de buscar os bons ensinamentos, [64.20] deve se
comparar e julgar se esta é melhor do que a filosofia e
se é suficiente e melhor para tornar bom o rei. Então,
como é verossímil, o rei que desejasse ser bom faria
uso da melhor. Mas nenhuma outra arte promete a
transmissão e o ensino da virtude, havendo somente as
que se ocupam do [64.25] corpo humano e das coisas
que lhe são úteis, e as quantas que se ligam à alma,
que a tudo investigam menos como torná-la
temperante. Somente a filosofia realiza essa
investigação e concebe como o humano pode escapar
do mal e possuir a virtude. Se isso é assim, que outra
coisa poderia ser mais útil ao rei que deseje ser bom
do que o filosofar? Sobretudo, como e por qual meio
seria possível alguém reinar ou viver belamente se
não filosofasse? Eu penso que [64.30] o bom rei é, por
necessidade e consequentemente, também filósofo — e
que o filósofo é, consequentemente, um rei48.
Agora, voltemo-nos ao que vimos em primeiro lugar.
[64.35] Então, como alguém seria um bom rei se não
fosse um bom ser humano? Não se pode dizer. E quem
poderia ser um homem bom se não fosse filósofo? Por
Zeus, se o filosofar se dedica ao bom e ao belo!
Dessa forma, conclui-se que o bom rei é,
necessariamente, filósofo. Sobre o fato de ser filósofo
por possuir, em todos os sentidos, o caráter régio,
podes entender do seguinte modo: indubitavelmente, é
do rei ser capaz de belamente [66.5] administrar49
povos e cidades e ser merecedor de liderar50 os
humanos.
E quem seria o mais adequado líder da cidade ou o mais
valoroso para liderar os humanos senão o filósofo?
Cabe a ele (caso seja verdadeiramente filósofo) ser
prudente, temperante, magnânimo, juiz das coisas
justas e das adequadas, capaz de realizar as coisas
pensadas! Além disso, [66.10] ser perseverante nos
sofrimentos físicos, confiante, destemido, firme diante
de coisas que pareçam terríveis, e ainda beneficente,
prestativo, filantropo. Quem se poderia descobrir mais
adequado e capaz de liderar senão alguém de tal
qualidade? Ninguém.
Caso não possua muitos seguidores que confiem nele,
ainda assim, não seria privado de seu caráter régio,
pois lhe basta [66.15] a liderança dos amigos que o
seguem ou da mulher e dos filhos, ou, por Zeus,
bastar-lhe-ia comandar a si mesmo. Com efeito, um
médico que trata poucos <pacientes> não é menos
médico do que um que trata muitos se, efetivamente,
possui a experiência médica. Também não é menos
músico o que ensina a poucos do que o que ensina a
muitos se efetivamente possui a arte da música. E, de
modo semelhante, o treinador de cavalos que faz uso
[66.20] de um ou dois cavalos do que o que faz uso de
muitos, se efetivamente conhece a hipocultura.
Igualmente, tem caráter régio tanto o que possui
muitos súditos como o que possui apenas um ou dois
que confiem nele. Logo, bastaria possuir alguma
experiência quanto ao reinar para que se tenha
caráter régio. Por isso, parece-me, também Sócrates
chama [66.25] a filosofia de ciência política e ciência
régia51, porque quem a abarca imediatamente se torna
político.
Quando Musônio disse tais coisas, o rei, regozijando-se com os argumentos, demonstrou concordar com os ditos e disse em seguida: “Pede-me algo que queiras de mim, pois não te negaria coisa alguma.” Ao que Musônio lhe respondeu: “Alinha-te [66.30] a esses ditos e segue esses argumentos que elogias. Desse modo, tu me agradarás mais e, do mesmo modo, beneficiar-te-ás mais.”
Fragmento XIV52: De Musônio, do <discurso> “Se o matrimônio é impedimento para o filosofar”
[90.15] Quando um outro [jovenzinho]53 lhe disse que lhe parecia um impedimento ao filosofar o matrimônio e a vida com uma mulher, Musônio disse que o matrimônio não fora impedimento a Pitágoras, nem a Sócrates, nem a Crates, tendo todos eles vivido com suas mulheres - acrescentando, ainda, que ninguém poderia citar filósofos melhores do que esses54.
de propriedade, Crates se casara. Então, sem nem
sequer possuir abrigo próprio, passava o dia e a noite
nos pórticos de Atenas com sua mulher. [92.5] Assim,
como nós, que possuímos casas (e alguns de nós
possuem também servos que nos atendem),
poderíamos nos precipitar em dizer que o matrimônio
seria empecilho para a filosofia?
O filósofo é professor e, certamente, guia dos seres
humanos quanto a tudo o que seja pertinente ao viver
humano de acordo com a natureza. De fato, se
algumas coisas estão de acordo com a natureza,
casar-se é, seguramente, uma delas.
Afinal, por que razão [92.10] o demiurgo do ser humano,
primeiro, dividiu nosso gênero em dois, depois fez dois
órgãos genitais, um da fêmea e outro do macho, e,
então, infundiu forte apetite55 de um pelo outro, tanto
para a convivência como para a comunidade,
adicionando em ambos forte querência de um pelo
outro, no macho pela fêmea e na fêmea pelo macho?
Não é óbvio que ele queria [92.15] que tivessem
relações, que vivessem juntos, que planejassem a vida
um com o outro e que se dedicassem à geração de
filhos, para que nossa espécie fosse eterna?
E sabe o que mais? Diz-me! Não seria apropriado que
cada um pensasse no próximo, de modo que a cidade
tenha lares, não ficando vazia, e assim se alcançasse
[92.20] belamente o bem comum? Se dizes que cada
um deve olhar apenas para si mesmo, declaras que o
ser humano não difere do lobo nem de qualquer outra
fera selvagem que tenha nascido para viver pela
violência e pelo egoísmo, não poupando nada que
possam desfrutar, sem se integrar à comunidade, sem
cooperar com o outro e [92.25] sem partilhar a noção
de justiça.
Porém, se tu concordares que a natureza humana é mais
parecida com a da abelha — que não pode viver
sozinha, pois morre ficando só; que se dedica ao
trabalho comum com as demais de sua espécie; que
coopera e que trabalha em conjunto —, se é assim e se
a maldade do ser humano [92.30] reside na injustiça,
na selvageria e em ignorar os problemas dos
próximos, ao passo que a virtude reside no amor à
humanidade, na integridade moral, na justiça e em ser
benéfico e cuidadoso com o próximo; então, é preciso
que cada um cuide de sua cidade e que, do mesmo
modo, na cidade, cada lar seja cuidado.
De fato, o matrimônio é o que dá início à fortaleza do lar,
de modo que aquele, entre os humanos, [92.35] que
destrói um matrimônio, destrói um lar, destrói uma
cidade e, assim, destrói a espécie humana — pois a
descendência humana não persistiria, e, sem o
matrimônio, não haveria geração de filhos em
conformidade com a justiça e com a lei. É claro que o
lar ou a cidade não são formados só de mulheres ou
de homens, mas da comunidade de ambos.
Ademais, não seria possível encontrar comunidade mais
necessária e adorável do que a existente entre homens
e mulheres. Que companheiro é mais gentil com outro
do que uma mulher amada por aquele com quem se
casou? Que irmão seria tão gentil assim [94.5] com
outro irmão? Que filho seria assim com seus pais?
Quem sente mais saudade do que o homem pela
mulher e a mulher pelo homem? A presença de quem
diminuiria mais a labuta, aumentaria a felicidade ou
aliviaria os infortúnios? Por quem todas as coisas —
como corpos, almas e bens — são feitas para serem
partilhadas senão pelo homem e pela mulher?
[94.10] Em razão disso, todos consideram que o amor
entre o homem e a mulher é o mais antigo de todos.
Ademais, nenhum pai ou mãe sensato espera ser, para
o filho, mais querido do que aquela com quem ele
contraiu matrimônio.
A história a seguir evidencia que o amor da mulher pelo
homem é superior ao do pai pelo filho: Admeto56
[94.15] recebeu dos Deuses o presente de que viveria
o dobro do tempo que lhe fora destinado se
providenciasse alguém para morrer por ele, o que não
conseguiu dos pais, que, embora anciãos, não
desejaram morrer por ele. Mas sua esposa, Alceste57,
embora jovem, aceitou morrer em seu lugar58.
[94.20] De fato, o matrimônio é algo grandioso e digno de
atenção, pois grandes deuses o protegem, conforme
acreditam os humanos. Em primeiro lugar — e, por
isso, nós a chamamos de patrona do matrimônio — há
Hera59. Depois, há Eros60 e, em seguida, Afrodite61,
pois entendemos que todos eles se esforçam em unir o
homem e a mulher para a [94.25] geração de filhos.
Onde seria mais apropriada a presença de Eros senão na
companhia legítima do homem e da mulher? E a de
Hera? E a de Afrodite? Que momento seria melhor
para orar para esses deuses do que a hora do
matrimônio? O que consideraríamos como sendo mais
o fruto do trabalho de Afrodite do que a união entre a
esposa e o marido? Por que, então, alguém diria que o
matrimônio e a geração de filhos — [94.30] tutelados
e governados por Deuses tão grandiosos — não
diriam respeito ao humano? E por que essas coisas
diriam respeito ao humano, mas não ao filósofo? O
filósofo seria pior que os demais? Obviamente não, já
que ele deve ser melhor, mais justo e superior quanto
[94.35] a ser bondoso e moralmente belo62.
O homem que não cuida de sua cidade não seria pior e
mais injusto do que aquele que dela cuida? Aquele que
só olha para si não seria pior e mais injusto do que
quem se preocupa com o bem comum? Quem ama
mais a cidade, o ser humano e o bem comum é aquele
que leva a vida solitário ou aquele que — como os que
se casam — administra um lar, tem filhos e faz crescer
sua cidade? É claro, portanto, que convém ao filósofo
se preocupar com o matrimônio e com a geração de
filhos. Ademais, se isso convém, como seria correto, ó
jovenzinho, [96.5] o argumento que proferiste há
pouco, de que o matrimônio atrapalha o filósofo? De
fato, filosofar não é outra coisa senão tentar
examinar, pela razão, o que é adequado e conveniente,
colocando isso em prática.
Então, de fato, ele disse algo desse tipo.
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