A geopolítica das passagens em Beitbridge Moonwalk, de Dan Halter

The Geopolitics of Passages in Dan Halter's Beitbridge Moonwalk

La geopolítica de los pasos en Beitbridge Moonwalk de Dan Halter

RESUMO

O presente artigo realiza uma leitura de Beitbridge Moonwalk, vídeo do artista zimbabuense Dan Halter, apontando elementos significativos na atual configuração de geopolíticas de travessias. Para tanto, o texto recorre ao conceito de necropolítica, desenvolvido por Achille Mbembe, que permite tematizar e problematizar as redes de controles territoriais e a criminalização da mobilidade de pessoas e bens, engendrada através de uma política de morte. O crescente endurecimento das fronteiras nacionais tornou-se um importante fator limitante para as existências e práticas socioculturais e artísticas no continente africano.

PALAVRAS-CHAVE:
Arte contemporânea africana; Fronteiras; Deslocamentos humanos; Necropolítica; Migração

ABSTRACT

This article presents a reading of Beitbridge Moonwalk, a video by the Zimbabwean artist Dan Halter, pointing out significant elements in the current configuration of geopolitics of crossings. To this end, the text resorts to the concept of necropolitics developed by Achille Mbembe, which allows thematizing and problematizing the networks of territorial controls and the criminalization of the mobility of people and objects, engendered through a policy of death. The growing hardening of national borders has become an important limiting factor for sociocultural and artistic existences and practices on the African continent.

KEYWORDS:
African Contemporary Art; Borders; Human Displacements; Necropolitics; Migration

RESUMEN

El presente artículo realiza una lectura de Beitbridge Moonwalk, video del artista zimbabuense Dan Halter, subrayando los elementos significativos en la configuración actual de la geopolítica de las travesías. Para eso, se recurre al concepto de necropolítica desarrollado por Achille Mbembe que nos permite abordar y problematizar las redes de controles territoriales y la criminalización de la movilidad de personas y bienes, engendrada por una política de muerte. El creciente endurecimiento de las fronteras nacionales se tornó un importante factor restrictivo para las existencias y las prácticas socioculturales y artísticas en el continente africano.

PALABRAS CLAVE:
Arte africano contemporáneo; Fronteras; Desplazamientos humanos; Necropolítica; Migración

INTRODUÇÃO

Beitbridge Moonwalk, produção do zimbabuense Dan Halter, é vídeo-criação que aborda elementos relacionados às modalidades de circulação de pessoas e bens, sinalizando desafios crescentes instituídos pelas políticas de fronteira. Neste trabalho, o artista problematiza formas de vigilância e monitoramento de corpos e atividades a partir de uma ponte que separa o Zimbábue da África do Sul, expondo graus desiguais de liberdade nas travessias entre territórios, sejam físicos ou simbólicos.

Tais questões foram mobilizadas também em outras obras do artista (V.I.P. Border [2010], Patterns of Migration [2015], Cross the River in a Crowd and the Crocodile Won’t Eat You (black) [2019]), bem como em produções de criadores africanos contemporâneos como Bouchra Khalili (The Mapping Journey Project) e Karo Akpokiere (Zwischen Lagos und Berlin). Violências e arbítrios na construção das espacialidades estão questionados nesse conjunto de obras, revelando a insensatez dos territórios fragmentados e a barbárie da apartação de populações classificadas entre as que importam e as que seriam supostamente inúteis. Nesse sentido, é possível realizar uma leitura de Beitbridge Moonwalk conectada ao conceito de necropolítica desenvolvido por Achille Mbembe (201618. MBEMBE Achille. Necropolítica, Arte & Ensaios, n. 32, Rio de Janeiro, dez. 2016, pp. 123-151.), que aponta para a imposição de fronteiras, no contexto colonial-capitalista, como uma forma de gerenciar, direcionar e reprimir por meio da morte e do racismo.

Com efeito, o presente artigo apoia-se nessa perspectiva para mobilizar componentes acionados por Beitbridge Moonwalk e destacar a constituição de uma certa geopolítica das passagens ancorada em uma necroestética de fronteira. Para tanto, o texto apresenta um contexto geral da obra e, em seguida, discute a necropolítica como importante arma de colonização e controle de espaços. O artigo ainda se dedica a pensar as pontes e fronteiras - materiais e imateriais - como constituintes de sistemas de definição que limitam existências e criações artísticas, especialmente no continente africano.

FIGURA 1
Dan Halter, Beitbridge Moonwalk, 2010, África do Sul. Frame do vídeo. Fonte: https://vimeo.com/44189342. Acesso em15 mar. 2022.

BEITBRIDGE MOONWALK

Em um primeiro olhar, ao assistir o vídeo Beitbridge Moonwalk, é possível concentrar-se nas águas de um rio largo, caudaloso, com várias dobras produzidas por um vento contínuo. Há também uma significativa passagem de carros e homens, emitindo certo barulho, sobre uma ponte que liga as duas margens daquele rio. Por essa mesma ponte, um rapaz anda para trás, de costas, enquanto outro segue para frente. Os homens atravessam repetidas vezes, ao som dos ventos e dos carros, sem que haja alterações perceptíveis no entorno.

O trabalho tem cinco minutos, mas sua duração parece se prolongar no tempo, parecendo exigir desaceleração de quem o vê. É como se nada acontecesse, e a sensação é de que demora para terminar, como se se propusesse a instauração de uma nova velocidade - talvez necessária para olhar algo que, ao menos inicialmente, não faz sentido algum.

Beitbridge Moonwalk produz um povoamento de perguntas: que lugar é aquele? Quem são aqueles passantes? Que margens são conectadas por aquela ponte? O vídeo não apresenta informações que possam, de imediato, localizá-lo em um contexto específico. Por isso, parece forçar o pensamento e a imaginação: o que acontece ali? Beitbridge Moonwalk acessa sensações e problemáticas de acordo com o repertório existencial de cada um, mas parece também convocar para interagir e especular sobre as escolhas estéticas, uma vez que a obra ultrapassa regime de imagens codificadas e de significações preestabelecidas.

Com algumas coordenadas sobre o vídeo (VIDEOBRASIL, 2011), é possível saber que se trata de uma performance baseada na travessia de um imigrante zimbabuense por uma ponte entre o Zimbábue e a África do Sul. Beitbridge Moonwalk cria pontes metafóricas para as explosões sociais envoltas à xenofobia dirigida a pessoas em situação de refúgio que vivem na África do Sul - como zimbabuenses e moçambicanos, alvos de agressões e de momentos de grande tensão e de ameaça. Na performance, o imigrante atravessa para o território sul-africano de costas, com passos para trás, de forma a confundir os policiais da fronteira. Nos movimentos, apreendemos o moonwalk do cantor Michael Jackson. Nesses passos sem gravidade, leveza e cuidado destacam-se como astúcias poéticas para escapar à força, furtar-se do cerco e evitar a extração e violência física. Ao se inverter os sentidos do caminhar, subverte-se barreiras criadas na arquitetura do cimento eficiente.

Não se trata de uma passagem habitual, pois se sugere um impedimento para a travessia de um país a outro e a necessidade estratégica de burlar mecanismos do controle fronteiriço. Essa ponte que não serve de travessia apenas é um monumento da lógica das tecnologias de combustão e fratura sistêmica do mundo (MBEMBE, 201921. MBEMBE Achille. A ideia de um mundo sem fronteiras, Revista Serrote - Revista de ensaios do Instituto Moreira Salles. São Paulo, n. 31, março de 2019. Disponível: https://revistaserrote.com.br/2019/05/a-ideia-de-um-mundo-sem-fronteiras-por-achille-mbembe/. Acesso em: 01 out. 2020.
https://revistaserrote.com.br/2019/05/a-...
).

O rio que aparece no trabalho é o Limpopo, que marca a vida no Zimbábue e na África do Sul porque serve como fronteira entre os dois países. A ponte, cenário do vídeo, está localizada no distrito de Beitbridge, que fica em Matabeleland Sul, província mais pobre do Zimbábue. Beitbridge dista 527 quilômetros de Harare e 548 quilômetros de Joanesburgo, e o seu nome, bem como o da ponte localizada em seu território, é uma homenagem a Alfred Beit, um empresário germano-britânico que enriqueceu na África do Sul e realizou obras de infraestrutura no país vizinho, para onde estendeu seus investimentos. Trata-se também de um posto de alfândega e imigração sul-africano, que dá acesso à província de Limpopo. Esse ponto de passagem é importante rota para agricultores zimbabuenses empobrecidos, que migram para o país vizinho em busca de melhores condições de vida. É também área de atuação de agentes clandestinos que cobram para facilitar a passagem de centenas de pessoas diariamente, cortando as três camadas de arame farpado que percorrem os 225 quilômetros da fronteira sul-africana ou realizando a perigosa travessia pelo rio Limpopo (SMITH, 2008).

Há aqui a presença de margens muito precisas, codificadas pelo jogo geopolítico mundial, especialmente após o fim da política de influências da Guerra Fria. Atualmente, o Zimbábue, uma economia baseada quase unicamente na agricultura de subsistência, sofre uma dependência estrutural em relação à África do Sul, que exerce certa hegemonia na região austral do continente (MOUTINHO, 201822. MOUTINHO Laura. Sobre o processo eleitoral no Zimbábue: tensões, conflitos e (des)esperança, Jornal da USP, 20 ago. 2018. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/sobre-o-processo-eleitoral-no-zimbabue-tensoes-conflitos-e-desesperanca/ . Acesso em: 21 nov. 2020.
https://jornal.usp.br/artigos/sobre-o-pr...
).

Devido a deslocamento político e econômico, aproximadamente 2,2 milhões imigrantes - 71% dos quais são africanos - vivem na África do Sul, em busca de condições de vida mais seguras e oportunidades de emprego informal. Devido a sua fronteira compartilhada com a África do Sul, repressão política e hiperinflação galopante, os zimbabuanos compõem a grande maioria desses imigrantes1 1 . No original: “Halter’s intervention [...] makes direct reference to the hostility African migrants face in South Africa. Due to political and economic displacement, approximately 2.2 million immigrants - 71% of whom are African - live in South Africa, seeking safer living conditions and informal employment opportunities. Due to their shared border with South Africa, political repression, and rapid hyperinflation, Zimbabweans compose the vast majority of these immigrants”. . (HENNLICH, 2016, p. 5, tradução nossa).

Trata-se de uma realidade na qual pessoas que vivem no lado zimbabuense não podem passar para outro país, pois a travessia é impedida, e há também pessoas que são forçadas a atravessar, para tentar sobreviver, mesmo contra a vontade. Em muitos casos, para se mover entre as fronteiras é preciso recorrer a meios alternativos, como enganar a polícia imigratória ou até mesmo arriscar a própria vida nadando em meio à forte correnteza nas águas onde fervilham crocodilos. Beitbridge Moonwalk destaca, com perspicácia e ironia, a luta de quem não pode se mover de um lado para o outro. O que os impede? O que os obriga a atravessar?

Desde 1994, fim do regime de segregação racial do apartheid, o número de migrantes que se deslocam para a África do Sul aumentou consideravelmente, especialmente de pessoas provenientes dos países vizinhos. A maioria dos migrantes são zimbabuenses que procuram o território sul-africano por diversos motivos, relacionados, principalmente, à deterioração da situação política e econômica do país de origem. Com histórico de graves experiências de pobreza e violência ao longo dos últimos 25 anos, muitos zimbabuenses solicitam asilo político ou refúgio, mas entidades como a Human Rights apontam que existe uma percepção entre os agentes estatais sul-africanos de que “não há conflito no Zimbábue” e, portanto, os migrantes do país não necessitam desse tipo de status, o que produz uma situação de muita vulnerabilidade. “São inúmeros, propositalmente confusos, os rituais de controle e de humilhação” (MOUTINHO, 201822. MOUTINHO Laura. Sobre o processo eleitoral no Zimbábue: tensões, conflitos e (des)esperança, Jornal da USP, 20 ago. 2018. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/sobre-o-processo-eleitoral-no-zimbabue-tensoes-conflitos-e-desesperanca/ . Acesso em: 21 nov. 2020.
https://jornal.usp.br/artigos/sobre-o-pr...
, n.p.). Em 2003, a nova lei de imigração da África do Sul entrou em vigor e colocou em prática uma agressiva política de deportação, com intuito de minorar os fluxos migratórios para o país, mas não se tem alcançado sucesso, porque muitos indivíduos deportados retornam ao país quase imediatamente, após a viagem compulsória (HUMAN RIGHTS, 200613. HUMAN RIGHTS. Unprotected Migrants: Zimbabweans in South Africa's Limpopo Province. 2006. Disponível em: https://www.hrw.org/report/2006/08/08/unprotected-migrants/zimbabweans-south-africas-limpopo-province. Acesso em: 21 nov. 2020.
https://www.hrw.org/report/2006/08/08/un...
).

A discussão sobre mobilidade humana é bastante forte na produção de Dan Halter e apresenta conexões com sua própria história. Ele nasceu em Harare, em 1977, e deslocou-se para a Cidade do Cabo, local onde vive e trabalha atualmente, em consequência da Guerra Civil no Zimbábue. Sua família foi expulsa do país em 2005 porque, entre outras questões, foi beneficiada pelo regime de dominação de minoria branca presente no país entre 1964 e 1979, inspirado em vários elementos do apartheid sul-africano. Inúmeros grupos lutaram contra o governo segregacionista na guerra civil que ficou conhecida como Rhodesian Bush War ou Segunda Chimurenga. Após o fim oficial do conflito, permaneceram diversas questões abertas e cicatrizes, como a expulsão de colonos brancos, ainda detentores da maior parte das áreas férteis do país, de suas propriedades por grupos paramilitares (FARAH, 2001; NICOLAU, 2002; PORTO, 2008; BORLAND, 20092. BORLAND Ralph. Zimbabwe Live and in Color. Videobrasil, abr. 2009. Disponível em: http://site.videobrasil.org.br/dossier/textos/908787/1776710. Acesso em: 21 nov. 2020.
http://site.videobrasil.org.br/dossier/t...
).

Dan Halter, ele próprio um imigrante zimbabuense vivendo na África do Sul, atravessou várias vezes a fronteira que aparece no seu vídeo. Contudo, por ser branco, sua passagem foi menos dificultada. Halter encarna uma condição contraditória: tem privilégios em virtude da cor da pele e, ao mesmo tempo, tem direitos precários e desvantagens simbólicas por ser um imigrante. Nesse sentido, Halter se diferencia da maior parte dos migrantes africanos, que, no interior do continente, são em maioria negros, pobres e com histórias marcadas pela destituição, pelas guerras e pela instabilidade política. Como aponta Fikeni (20159. FIKENI Lwandile. Immigration and the Problematic of Representation. Artthrob 29 maio 2015. Disponível em: https://artthrob.co.za/2015/05/29/dan-halter-immigration-and-the-problematic-of-representation/. Acesso em: 21 nov. 2020.
https://artthrob.co.za/2015/05/29/dan-ha...
, n.p., tradução nossa),

[...] por meio de sua branquitude de classe média, ele [Halter] ainda está em casa em seu novo país e pode assumir sua nova identidade com relativa facilidade. [...] ele é um migrante sem, no entanto, o ser. [...] Ele ainda mantém a maioria de seus privilégios enquanto seus conterrâneos arriscam cruzar o Limpopo sob o risco de coação, e até mesmo de morte, nas mãos dos sul-africanos2 2 . No original: “[...] through his middle class whiteness he is still at home in his new country and is allowed to take on his new identity with relative ease. [...] that he is a migrant and yet, he is not. [...] He still retains most of his privileges while his countrymen risk crossing the Limpopo, risk harassment, even death, at the hands of South Africans”. .

É a partir dessas fricções que Dan Halter tem articulado sua vida e obra. Diferentemente da sua família, que se exilou na Europa desde a expulsão do Zimbábue, ele permaneceu na África, onde tem buscado compreender sua condição de africano branco descendente de colonizadores, bem como os processos de deslocamento e a violência ancorada na imposição de fronteiras.

FIGURA 2
Dan Halter, V.I.P Border, 2010, fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul. 225 quilômetros de fio vermelho. Fonte: http://danhalter.com/v-i-p-border-2010/. Acesso em: 15 mar. 2022.

FIGURA 3
Dan Halter, V.I.P Border, 2010, África do Sul. Corda de veludo com 94,64 metros de comprimento, colunas de metal dourado. Fonte: <http://danhalter.com/v-i-p-border-2010/ >. Acesso em: 15 mar. 2022.

COLONIZAÇÃO, NECROPOLÍTICA E CONTROLE DO ESPAÇO

Como já observado, a discussão sobre imigração é central na obra de Dan Halter. Essa questão é acionada em Beitbridge Moonwalk, mas também em outros trabalhos como a performance/instalação V.I.P. border (figuras 2 e 3). Nessa obra, realizada em 2010, Halter espalhou 225 quilômetros de fios vermelhos, o equivalente em comprimento ao tamanho da fronteira entre o Zimbábue e a África do Sul, sobre uma estrada utilizada pelo exército sul-africano para patrulhar a entrada de imigrantes no território. Após a ação, esses mesmos fios foram alinhados e transformados em cordas, ao estilo de cabos de veludo que são utilizados para separar espaços V.I.P (very important person) de áreas comuns.

Nesse trabalho, destaca-se o uso das mesmas linhas que, inicialmente, mancharam o asfalto como sangue coagulado e que, depois, foram transformadas em demarcação de zona privilegiada. Halter parece indicar que as fronteiras são tecidas pelo sangue de muitas pessoas que morreram para atravessá-las ou para mantê-las.

O debate sobre fronteira remete, neste contexto, ao desenvolvimento do Estado moderno com estabelecimento de limites rígidos, fragmentações e divisões de traçados precisos entre sociedades nacionais (FOUCHER, 198610. FOUCHER Michel. L'Invention des Frontières. Fondation pour les Études de Défense National, F.E.D.N: Paris, 1986.; RAFFESTIN, 199326. RAFFESTIN Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.; MACHADO, 2005). Contudo, estes limites são continuamente postos em questão e, mesmo subvertidos por movimentos socais e ação de pessoas, como discutida por Mahfouz Ag Adnane (20191. ADNANE Mahfouz. Movências tamacheque além-fronteiras: conexões, performances em narrativas insurgentes em festivais culturais saarianos (2001-2017), 2019, Tese de Doutorado - Programa de Pós-Graduação em História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 356p.) quando aborda os encontros sazonais intercomunitários, que obedecem mais a lógicas de pertencimento à “comunidade de cultura” que a de espacialidade nacional abstrata. Há, assim, um tipo de espacialização que foi altamente empregado nas guerras coloniais e referendado após as independências, passando então a ser modelado pelos diversos nacionalismos e a se difundir como modo de vida. Para Achille Mbembe (201618. MBEMBE Achille. Necropolítica, Arte & Ensaios, n. 32, Rio de Janeiro, dez. 2016, pp. 123-151., p. 135),

A “ocupação colonial” em si era uma questão de apreensão, demarcação e afirmação do controle físico e geográfico - inscrever sobre o terreno um novo conjunto de relações sociais e espaciais. Essa inscrição (territorialização) foi, enfim, equivalente à produção de fronteiras e hierarquias, zonas e enclaves; a subversão dos regimes de propriedade existentes; a classificação das pessoas de acordo com diferentes categorias; extração de recursos; e, finalmente, a produção de uma ampla reserva de imaginários culturais. Esses imaginários deram sentido à instituição de direitos diferentes, para diferentes categorias de pessoas, para fins diferentes no interior de um mesmo espaço [...]

Definir posições e estabelecer lugares é, portanto, uma importante estratégia nas guerras coloniais. Como apontou Fanon (20056. FANON Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Ed. da UFJF, 2005., p. 69), “a primeira coisa que o indígena aprende é ficar em seu lugar, não ultrapassar os limites”. Nos processos de colonização, é fundamental impedir a mobilidade, as relações insubmissas ou a criação de pontes entre multiplicidades singulares, uma vez que a maquinaria colonial-racializante-capitalística (ROLNIK, 201927. ROLNIK Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2019. 2ª ed.) necessita de hierarquias, fixações e apartações para funcionar (MBEMBE, 201618. MBEMBE Achille. Necropolítica, Arte & Ensaios, n. 32, Rio de Janeiro, dez. 2016, pp. 123-151.). Em África, as itinerâncias e mobilidades fazem parte das dinâmicas das sociedades locais, característica “que, por seu turno, a colonização tentou cristalizar através da instituição moderna da fronteira” (MBEMBE, 2014, p. 183).

Nesse sentido, vale ressaltar que as obras de Dan Halter chacoalham tais maquinarias, sublinhando um funcionamento que busca instituir dois tipos de territórios: um espaço de privilégios e outro de insuficiências, separados por linhas de morte marcadas com sangue, seja para sua criação, manutenção, ultrapassagem ou destruição. Para Hennlich (2016, p. 1, tradução nossa), “Halter aborda a posição do imigrante revelando a fronteira como uma zona porosa e uma metáfora de exclusão”3 3 . No original: “Halter addresses the immigrant’s position uncovering the borderland as both a porous zone and a metaphor of exclusion”. .

Por esse viés são também constituídas vidas consideradas supérfluas, cuja máxima função seria servir de biossuprimento ao sistema colonial-racializante-capitalístico (ROLNIK, 201927. ROLNIK Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2019. 2ª ed.) e cujos corpos matáveis ou substituíveis não são sequer passíveis de luto (BUTLER, 20173. BUTLER Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.). Vidas forçadas à imobilidade e a apartação que podem ser eliminadas de maneira calculada caso demonstrem possibilidade de insurgência ou descontrole. Para pensar sobre esse tipo de realidade, Mbembe (201618. MBEMBE Achille. Necropolítica, Arte & Ensaios, n. 32, Rio de Janeiro, dez. 2016, pp. 123-151.) propõe o conceito de necropolítica, descrevendo a partir dele várias formas contemporâneas pelas quais grandes contingentes populacionais são destruídos ou obrigados a sobreviver como “mortos-vivos” em territórios nos quais a morte é um significativo mecanismo de governo. Trata-se de um modo de dominação, um tipo de soberania cuja marca é “a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é” (MBEMBE, 201618. MBEMBE Achille. Necropolítica, Arte & Ensaios, n. 32, Rio de Janeiro, dez. 2016, pp. 123-151., p. 135). Revela-se, ainda, a emergência de um tipo de guerra que se recusa a reconhecer sua natureza como a de “uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes” (MBEMBE, 2017, pp. 5-6).

Contudo, como mostra o imigrante zimbabuense de Beitbridge Moonwalk, multiplicam-se rebeldes contra a fixidez, mesmo diante desse cenário de terror. Tais pessoas, cuja insurgência se manifesta em momentos nos quais se arriscam, por exemplo, nas travessias de fronteira, desafiam as obsessões necronacionalistas e xenófobas; são existências que enfrentam o medo da violência e das sanções dos regimes de delimitação e definição. Existências que criam ruídos nos ordenamentos espaciais e que levam a existência a um certo limite, para além de qualquer fronteira, construindo outros espaços, outros possíveis.

Tal produção de Dan Halter faz perceber que o embarreiramento que a fronteira traz pode produzir uma ilusão de que tudo está no seu lugar, mas lugares só existem em processos dinâmicos. O que são as comunidades senão um contínuo processo de invenção a partir de contatos e negociações com fluxos estrangeiros? É transformando a si e ao entorno, pelos encontros e pelas travessias, que os territórios se engendram, instáveis, e quase sempre por meio da força. Assim, delimitação e sustentação de fronteiras carregam consigo as mais diversas marcas de violências e, ao mesmo tempo, apontam, pela necessidade de repressão, sua vulnerabilidade e a própria possibilidade de sua dissolução.

FIGURA 4
Dan Halter, Beitbridge Moonwalk, 2010, África do Sul. Frame do vídeo. Fonte: HTTPS://VIMEO.COM/44189342. Acesso em: 15 MAR. 2022.

AS PONTES, OS DIFERENTES REGIMES DE PASSAGEM E AS ARTES DO CONTEMPORÂNEO AFRICANO

No vídeo de Dan Halter, o imigrante recorre aos passos moonwalk como estratégia para burlar barreiras fronteiriças, o que parece uma assimilação positiva de “ferramentas do mercado global” como chave de acesso a alguns mundos. O moonwalk faz parte do vasto conjunto das danças urbanas dos Estados Unidos e consiste em criar uma ilusão, como se o dançarino fosse puxado para trás por uma força invisível, enquanto tenta se mover para frente. O passo, egresso especialmente do contexto afro-americano, difundiu-se pelo mundo ao ser empregado por Michael Jackson, cantor e dançarino de grande sucesso global, cujas criações são altamente codificadas como mercadorias na indústria cultural transnacional. Ele também era bastante conhecido pelos desafios que enfrentou devido aos processos de racialização que atravessaram seu percurso.

O imigrante zimbabuense apela, portanto, a um artefato que circula pelos velozes fluxos do capitalismo mundial integrado4 4 . Capitalismo mundial integrado (CMI) é como Félix Guattari definiu o que habitualmente se chama de globalização. Trata-se da experiência contemporânea do capitalismo, que “potencialmente colonizou o conjunto do planeta, porque atualmente vive em simbiose com países que historicamente pareciam ter escapado dele (os países do bloco soviético, a China) e porque tende a fazer com que nenhuma atividade humana, nenhum setor de produção fique de fora de seu controle" (GUATTARI, 1981, p. 211). (GUATTARI, 198111. GUATTARI Félix. Revolução molecular. Pulsações políticas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981.) e o assimila, dando-lhe outra função: favorecer o atravessamento da fronteira. Cria-se uma ilusão com o passo moonwalk cujo resultado é uma descodificação do olhar vigilante da polícia imigratória, adestrado para captar somente os passantes que parecem se direcionar à África do Sul.

Por essa perspectiva, o trabalho de Dan Halter aponta para a miríade de binarismos reducionistas que servem de leitura em uma visão conservadora de mundo: nacional e estrangeiro, zimbabuense e sul-africano, desenvolvido e subdesenvolvido. Oposições que carregam intrinsecamente suas rígidas hierarquias, mas que também apresentam uma enorme fragilidade. São clivagens simplórias, produções discursivas e performativas que instituem verdades e lugares de privilégios nos jogos de poder e que tentam reduzir tudo a isso ou aquilo. São construções sociais que, embora persistentes, não estão imunes aos abalos produzidos pelo inesperado e descodificado - o que indica a grande possibilidade de sua dissolução. Como indica Beitbridge Moonwalk, um zimbabuense pode entrar na África do Sul como se estivesse voltando ao Zimbábue.

Por meio de um movimento aberrante, os passos moonwalk do imigrante chacoalham referenciais, marcos e normas e, acima de tudo, desativam o sistema de fronteira por meio de uma arma do próprio mercado global. O trabalho se aproxima do cerne do problema, pois permite perceber que, no fundo, não há África do Sul ou Zimbábue, porque ambos estão em toda parte, que é o mundo - um emaranhado de coexistências (FERREIRA DA SILVA, 20178. FERREIRA DA SILVA Denise. Sobre diferença sem separabilidade. Oficina de imaginação política, 2017. Disponível em: https://issuu.com/amilcarpacker/docs/denise_ferreira_da_silva_. Acesso em: 22 out. 2020.
https://issuu.com/amilcarpacker/docs/den...
).

Em Beitbridge Moonwalk, se a ilusão está presente nos passos moonwalk contra o controle fronteiriço, está também na ideia de ponte como conexão de dois estados-nações, pois, na verdade, a construção tem funcionado especialmente como uma barreira para a travessia. Trata-se de um dispositivo que opera de modo funcional, no seu sentido elementar, que é ligar dois pontos, apenas para grupos de pessoas ou coisas que são codificados como passáveis. Os passáveis são textualizados na ficção de uma lei (legais) e podem se mover livremente pelas fronteiras por meio das pontes ou aeroportos, enquanto os embarreirados (codificados como ilegais) necessitam recorrer a longos percursos a pé, a abrir fendas em cercas eletrificadas ou mesmo a nadar em rios perigosos. Há desigualdades nos graus de liberdade para circulações e é possível verificar

[...] dois grandes regimes de circulação pelo mundo: um ligado às pessoas e mercadorias (materiais e imateriais) necessárias à manutenção dos fluxos do mercado capitalista global (turistas, executivos e representantes do sistema financeiro, bens culturais, modelos de vida etc.) e outro que compreende os humanos fixados em lugares cujo controle e subalternização estão ainda sob a égide de um poder disciplinar e territorializado. Alta circulação de um capitalismo mundial finaceiramente integrado e, simultaneamente, barreiras e violências contra a circulação de insurgentes diante das políticas de fronteiras (PIEROTE-SILVA, 202024. PIEROTE-SILVA Valdir. The Mapping Journey Project de Bouchra Khalili: fazendo mapas falarem. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, n. 26, v. 39, 2020, pp. 11-25., p. 17).

Mas, afinal, o que é ilusão? É uma distorção da percepção, um ruído, um embaralhamento das sensações. Nesse viés, não seriam os artistas africanos também uma espécie de ilusão, um ruído no circuito internacional de arte? O Ocidente, pois, tem estabelecido interlocuções não com a África, mas com uma imagem que produziu, a qual não passa de um reflexo de si. E os artistas do continente são rotineiramente explicados por essa perspectiva, como um grande bloco homogêneo e unitário, espelho da África inventada pelo colonialismo, quando na realidade são múltiplos e heterogêneos.

Para Mbembe (200115. MBEMBE Achille. As formas africanas de auto-inscrição. Estud. afro-asiát., Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, 2001, pp.171-209., p. 199),

A identidade africana não existe como substância. Ela é constituída, de variantes formas, através de uma série de práticas, notavelmente as práticas do self. Tampouco as formas desta identidade e seus idiomas são sempre idênticos. E tais formas e idiomas são móveis, reversíveis e instáveis. Isto posto, elas não podem ser reduzidas a uma ordem puramente biológica baseada no sangue, na raça ou na geografia. Nem podem se reduzir à tradição, na medida em que o significado desta última está constantemente mudando.

A África e seus artistas são, portanto, uma grande multiplicidade que ultrapassa qualquer tentativa de redução essencialista. As práticas poéticas singulares desses criadores afirmam a plasticidade de experiências africanas em suas diversas realidades, revelando universos com inúmeras formas de composição. Neles, as movências corroboram construções de saberes por intermédio de deslocamentos e das tessituras das diferenças, sublinhando uma “capacidade de reconhecer a sua face no rosto do estrangeiro e de valorizar os traços do longínquo no propínquo” (MBEMBE, 201417. MBEMBE Achille. Sair da grande noite: ensaio sobre a África descolonizada. Mangualde; Luanda: Edições Pedago; Edições Mulemba, 2014., p. 184).

Com efeito, Beitbridge Moonwalk faz pensar no desafio de reafirmar o caráter elementar das pontes, que é produzir singularidades a partir das mais diversas combinações.

A fronteira como uma forma de linha não pode ser estruturada sem um discurso de movimento que supere sua exclusão e, da mesma forma, a arquitetura [de uma ponte] só pode ser entendida por meio de propriedades de interdependência como malha5 5 . No original: “The border as a form of line cannot be structured without a discourse of movement that overcomes its exclusion, and, likewise, architecture can only be understood through properties of interdependence as meshwork”. . (HENNLICH, 2016, p. 18).

Como ensina a multiplicidade africana apontada por Mbembe (200115. MBEMBE Achille. As formas africanas de auto-inscrição. Estud. afro-asiát., Rio de Janeiro, v. 23, n. 1, 2001, pp.171-209.) e Enwezor e Okeke-Agulu (20095. ENWEZOR Okwui, OKEKE-AGULU Chika. Contemporary African Art Since 1980. Bologna: Grafiche Damianie, 2009.), o material de qualquer território, seja existencial ou espacial, é o aberto, essa dimensão virtual fora dos regimes prévios de codificação e de autorreferenciamento, um espaço sem identificações prévias ou familiaridade (MBEMBE, 201316. MBEMBE Achille. Existe um único mundo apenas. In VIDEOBRASIL. Cadernos Sesc_Videobrasil: geografias em movimento, n. 9. São Paulo: Sesc São Paulo, 2013.). É necessário, pois, manter intenso contato com o desconhecido, com a novidade, com o além de nós mesmos para sustentação de uma vida. É preciso dessubstancializar a fronteira e se misturar ao indeterminado para renovar formas de existir, que apenas se estabelecem quando há travessias multilaterais. Na verdade, “o corpo que atravessa aprende certamente um segundo mundo, aquele para o qual se dirige, onde se fala outra língua” [...] (SERRES, 199328. SERRES Michel. O terceiro instruído. Lisboa: Instituto Piaget, 1993., p. 22). Os corpos só se multiplicam em intercontato.

Beitbridge Moonwalk destaca que somos seres fronteiriços e, desse modo, acrescenta também uma camada vitalista à categoria das fronteiras, mesmo que ela venha se configurando como faixa de riscos, provas e sacrifícios. Para Mbembe (201720. MBEMBE Achille. Políticas da inimizade. Lisboa: Editora Antígona, 2017., p. 54), “aquilo que muitos recusam admitir é que, no fundo, somos feitos de pequenos empréstimos de sujeitos estrangeiros e, consequentemente, sempre seremos seres de fronteiras”. E isso implica em dizer que não há origem ou filiação, não pertencemos exclusivamente a nenhum lugar e, nesse sentido, somos vetores potenciais de desfronterização.

Na verdade, o vitalismo não parece estar ligado às fronteiras necessariamente, mas à possibilidade de dissolução que elas carregam consigo, à potencialidade para efetuação de processos de desfronterização. Trata-se de percorrer caminhos de livremente, lançar partes de si ao mundo, recolher os possíveis de um bom encontro e descartar as cristalizações que impedem movimentos. Mbembe lembra que essa perspectiva é muito próxima de algumas tradições africanas, nas quais “o ponto de partida da interrogação sobre a existência não é a questão do ser, mas a da relação e da composição; os nódulos e os potenciais situacionais; a junção das multiplicidades e da circulação” (MBEMBE, 201819. MBEMBE Achille. O fardo da raça. São Paulo: n-1, 2018., p. 22).

Evidencia-se, portanto, um importante deslocamento ontológico que rompe com discussões sobre essências e enfatiza a produção de singularidades por meio de trocas e transmutações entre multiplicidades. Destituição do fundamento - em que o verbo ser é início de tudo - com força suficiente para demonstrar que são as conjunções entre termos os verdadeiros vetores de heterogênese (DELEUZE; GUATTARI, 19954. DELEUZE Gilles, GUATTARI Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. I. São Paulo: Ed. 34, 1995.), ou seja, é no encontro com outros que surge o novo. Visão que reconhece as fissuras, as separações e as seletividades na passagem presentes em muitas pontes, mas, ao mesmo tempo, acredita que é possível construí-las como propulsoras de novas composições, em permanente continuum de variações.

Beitbridge Moonwalk de Dan Halter mobiliza, assim, várias linhas que constituem uma geopolítica das passagens entre o Zimbábue e a África do Sul, universos territoriais entrelaçados por histórias, convívios e circulações muito maiores que qualquer ponte ou política migratória. Contudo, ao abordar essa problemática, também coloca em movimento outras camadas dela indissociáveis, revelando a insensatez em dividir o mundo em partes separadas e dando relevo ao pensamento colonial-essencialista que embasa a necroestética das fronteiras, seja na arte, na geografia ou nos planos ecológicos e existenciais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  • 30
    VIDEO BRASIL. 17º Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC_Videobrasil. São Paulo: Sesc São Paulo, 2011.

NOTAS

  • 1
    . No original: “Halter’s intervention [...] makes direct reference to the hostility African migrants face in South Africa. Due to political and economic displacement, approximately 2.2 million immigrants - 71% of whom are African - live in South Africa, seeking safer living conditions and informal employment opportunities. Due to their shared border with South Africa, political repression, and rapid hyperinflation, Zimbabweans compose the vast majority of these immigrants”.
  • 2
    . No original: “[...] through his middle class whiteness he is still at home in his new country and is allowed to take on his new identity with relative ease. [...] that he is a migrant and yet, he is not. [...] He still retains most of his privileges while his countrymen risk crossing the Limpopo, risk harassment, even death, at the hands of South Africans”.
  • 3
    . No original: “Halter addresses the immigrant’s position uncovering the borderland as both a porous zone and a metaphor of exclusion”.
  • 4
    . Capitalismo mundial integrado (CMI) é como Félix Guattari definiu o que habitualmente se chama de globalização. Trata-se da experiência contemporânea do capitalismo, que “potencialmente colonizou o conjunto do planeta, porque atualmente vive em simbiose com países que historicamente pareciam ter escapado dele (os países do bloco soviético, a China) e porque tende a fazer com que nenhuma atividade humana, nenhum setor de produção fique de fora de seu controle" (GUATTARI, 1981, p. 211).
  • 5
    . No original: “The border as a form of line cannot be structured without a discourse of movement that overcomes its exclusion, and, likewise, architecture can only be understood through properties of interdependence as meshwork”.
  • . Valdir Pierote Silva é doutorando e mestre em Estética e História da Arte pelo Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo - PGEHA/USP. Graduado em Terapia Ocupacional pela Universidade de São Paulo (USP), é docente do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da USP. Pesquisador da Casa das Áfricas Amanar, tem se dedicado a estudos sobre migrações, mobilidade humana e práticas socioculturais e artísticas do contemporâneo africano.
  • .Denise Dias Barros integra o coletivo Casa das Áfricas Amanar, é docente e orientadora nos Programas de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte, onde se dedica às reflexões sobre História da Arte Africana, e do Mestrado Profissional em Terapia Ocupacional e Processos de Inclusão Social, ambos da Universidade de São Paulo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Maio 2022
  • Data do Fascículo
    Abr 2022

Histórico

  • Recebido
    01 Fev 2021
  • Aceito
    24 Fev 2022
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