Resumo
Em iniciativas realizadas em áreas protegidas, a ciência cidadã pode gerar dados úteis para as tomadas de decisão, além de tornar a governança dessas áreas mais inclusiva e participativa. Embora existam diretrizes gerais que orientam os projetos de ciência cidadã, pouco se explorou em termos de boas práticas para a concepção e implementação dessas iniciativas em áreas protegidas. Este trabalho teve como objetivo caracterizar projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos em áreas naturais protegidas e identificar boas práticas relacionadas a sua concepção e implementação. A partir de uma Revisão Bibliográfica Sistemática foi possível identificar 45 boas práticas, distribuídas em 7 categorias de análise: Aspectos financeiros; Governança; Design do projeto; Aspectos metodológicos; Engajamento dos cientistas cidadãos; Divulgação dos resultados e Avaliação. Concluiu-se que as boas práticas identificadas podem servir como uma orientação valiosa para os coordenadores dos projetos de ciência cidadã, fortalecendo o desenvolvimento de iniciativas bem-sucedidas nas áreas protegidas.
Palavras-chave:
Participação; lições aprendidas; monitoramento; governança; tomadas de decisão
Abstract
Citizen science is recognized as a promising research approach. Conducted in protected areas, it can generate sound and useful data to inform decision-making that enhances inclusion and participation in their governance. While there are general guidelines guiding citizen science initiatives, little has been explored regarding best practices or lessons learned in their design and implementation in protected areas. Accordingly, the objective of this study is to describe citizen science projects in protected areas and to identify best practices in their design and implementation. A systematic literature review identified 45 best practices in 7 categories: Financing; Governance; Project Design; Methodology; Citizen Scientist Engagement; Dissemination of Findings and Evaluation. These practices can serve as an invaluable guide for coordinators of citizen science projects, strengthening the development of successful initiatives in protected areas.
Keywords:
Participation; lessons learned; monitoring; governance; decision-making
Resumen
En iniciativas llevadas a cabo en áreas protegidas, la ciencia ciudadana puede generar datos útiles para la toma de decisiones, además de hacer que la gobernanza de estas áreas sea más inclusiva y participativa. Aunque existen pautas generales que guían los proyectos de ciencia ciudadana, se ha explorado poco en términos de buenas prácticas para la concepción e implementación de estas iniciativas en áreas protegidas. Este trabajo tuvo como objetivo caracterizar proyectos/programas de ciencia ciudadana desarrollados en áreas naturales protegidas e identificar buenas prácticas relacionadas con su concepción e implementación. A través de una Revisión Bibliográfica Sistemática, fue posible identificar 45 buenas prácticas, distribuidas en 7 categorías de análisis: Aspectos financieros; Gobernanza; Diseño del proyecto; Aspectos metodológicos; Participación; Difusión de resultados; Evaluación. Se concluyó que las prácticas identificadas pueden servir como valiosa guía para los coordinadores de proyectos de ciencia ciudadana, fortaleciendo el desarrollo de iniciativas exitosas en áreas protegidas.
Palabras-clave:
Participación; lecciones aprendidas; monitoreo; gobernanza; toma de decisiones
Introdução
As áreas protegidas (APs) podem ser definidas como “espaços territoriais claramente definidos, reconhecidos e manejados por instrumentos legais e outros meios efetivos, para atingir, a longo prazo, a conservação da natureza e dos serviços ecossistêmicos e culturais associados” (DUDLEY, 2008, p.8), sendo consideradas uma das principais estratégias de conservação da biodiversidade (UNEP-WCMC; IUCN; NGS, 2018). Ainda assim, continuam apresentando problemas crônicos de financiamento e déficits em relação à sua qualidade de gestão (UNEP-WCMC; UNEP; IUCN, 2021), cenário que foi aprofundado em muitos países pela pandemia de Covid-2019 (HOCKINGS et al., 2020; SPENCELEY et al., 2021). Atualmente espera-se um esforço global para que essas áreas cumpram seus objetivos e alcancem as metas ambiciosas estabelecidas pela Agenda Pós-2020 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB, 2021).
A insuficiência de informações abrangentes e atualizadas sobre espécies, ecossistemas e serviços ecossistêmicos voltadas à expansão e manejo das áreas protegidas se mostra como uma limitação à efetiva gestão dessas áreas (DI MININ; TOIVONEN, 2015) e ao aporte às tomadas de decisão no mundo real (DANIELSEN et al.; 2010; PEGLER; CATOJO; MACHADO, 2021). Diversos autores, ao evidenciarem a lacuna entre “pesquisa-implementação/prática”, acreditam que os impactos da ciência na sociedade em geral estão concentrados em seus produtos finais, ou seja, na etapa final da produção científica (PULLIN; KNIGHT, 2009; ARLETTAZ et al., 2010), desconsiderando que é possível gerar uma gama de impactos ao se explorar espaços onde os cientistas e o público podem interagir (TOOMEY, 2016).
A ciência cidadã vem ganhando reconhecimento como um dos pilares da ciência aberta, capaz de incentivar colaborações científicas benéficas para a ciência e a sociedade (WEHN et al., 2020). Se apresenta como um conceito flexível e adaptável a diferentes contextos e campos de pesquisa acadêmica (ECSA, 2015; HAKLAY et al., 2021). Isso se reflete na variedade de definições existentes (e.g. CONH, 2008; BONNEY et al., 2009; McKINLEY et al., 2017).
Trata-se de uma abordagem de pesquisa promissora, na qual voluntários participam de diferentes etapas do método científico, contribuindo com pesquisadores, gestores ambientais e outros tomadores de decisão, além de se engajarem por meio da participação nas tomadas de decisão e formulação de políticas públicas voltadas aos recursos naturais e meio ambiente (CONRAD; HILCHEY, 2011; BURGESS et al., 2016; McKINLEY et al., 2017).
Para os fins deste trabalho, adotaremos a definição da European Citizen Science Association, que conceitua ciência cidadã como a participação ativa do público em atividades científicas e de pesquisa. Segundo a associação, trata-se de uma abordagem aberta e inclusiva, na qual os cidadãos estão diretamente envolvidos no processo investigativo, resultando em desdobramentos como novos conhecimentos científicos, ações de conservação e mudanças políticas (ECSA, 2024).
Sabe-se que sistemas hierárquicos de governança em relação à gestão do ambiente estão migrando para abordagens mais inclusivas e participativas já há algum tempo (UNEP, 1992; MAUERHOFER, 2016; CVITANOVIC et al., 2018). Isto também é uma realidade no contexto das áreas naturais protegidas e a ciência cidadã pode representar mais um instrumento capaz de promover a inclusão/participação social nos processos de tomada de decisão nesses espaços (RANIERI et al., 2022). Borrini e colaboradores (2013) destacam que o envolvimento de diferentes atores nas tomadas de decisão pode, além de ampliar o apoio social a essas áreas, promover diferentes perspectivas sobre questões, problemas e oportunidades de governança.
No contexto brasileiro, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei Federal 9985/2000) (SNUC) prevê a participação social como elemento fundamental na criação, implantação e gestão das unidades de conservação1. De acordo com a lei,
“Art. 5º O SNUC será regido por diretrizes que:
III - assegurem a participação efetiva das populações locais na criação, implantação e gestão das unidades de conservação;
IV - busquem o apoio e a cooperação de organizações não governamentais, de organizações privadas e pessoas físicas para o desenvolvimento de estudos, pesquisas científicas, práticas de educação ambiental, atividades de lazer e de turismo ecológico, monitoramento, manutenção e outras atividades de gestão das unidades de conservação; (...)” (BRASIL, 2000).
Além disso, a ciência cidadã pode auxiliar na construção de confiança entre os gestores das áreas protegidas e a comunidade em geral (CVITANOVIC et al., 2018), o que é extremamente relevante se considerarmos que altos níveis de confiança influenciam a percepção pública sobre a legitimidade das tomadas de decisão, derivando em melhores resultados ambientais (TURNER et al., 2016).
Vale destacar que os envolvidos em uma iniciativa de ciência cidadã podem obter uma gama de benefícios (ECSA, 2015). Estes benefícios estão comumente ligados às motivações que os participantes têm ao contribuírem com um projeto (LAND-ZANDSTRA; AGNELLO; GULTEKIN, 2021), que podem inclusive estar relacionados aos próprios objetivos estabelecidos pelos idealizadores da iniciativa em relação aos resultados esperados para os participantes - aprendizado tecnológico (MULLEN; NEWMAN ; THOMPSON, 2013; BAUMBACH et al., 2019); educação científica (MERLINO et al., 2015); incentivos financeiros e/ou materiais (POULSEN; LUANGLATH, 2005; CARPANETO et al., 2017) possibilidade de contribuir com a gestão dos recursos naturais (BENCHIMOL; VON MUHLEN; VENTICINQUE, 2017; WEST; PATEMAN; DYKE, 2015); incentivos percebidos localmente, relacionados às motivações intrínsecas dos participantes (NORRIS; MICHALSKI; GIBBS, 2018; TURREIRA-GARCÍA et al., 2018); entre outros.
Existem diversas diretrizes que orientam o desenvolvimento de projetos de ciência cidadã, abordando desde aspectos relacionados à qualidade dos dados gerados ao engajamento das partes interessadas (BONNEY et al., 2009; PMMP, 2015; PETTIBONE et al., 2016; LEPCZYK; BOYLE; VARGO, 2020; US GSA, 2022). No entanto, diretrizes, boas práticas e/ou lições aprendidas que possam orientar a concepção e implementação dessas iniciativas em áreas protegidas, destacando a interconexão entre aspectos relacionados aos projetos e a gestão dessas áreas, foram pouco exploradas.
Tendo em vista o potencial da ciência cidadã neste contexto, o objetivo do presente artigo é caracterizar projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos em áreas naturais protegidas e identificar boas práticas relacionadas a sua concepção e implementação.
Metodologia
Revisão Bibliográfica Sistemática
A coleta de dados foi realizada por meio de Revisão Bibliográfica Sistemática (RBS). Para tal, foram seguidas as recomendações apresentadas nas “Diretrizes e Padrões para a Síntese de Evidências em Gestão Ambiental”, versão 5.0 de 2018.
A busca se iniciou com a formulação da seguinte pergunta norteadora: “Quais as boas práticas dos projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos em áreas protegidas?”
Os termos de pesquisa foram selecionados com base nos elementos da pergunta norteadora e foram: (“community-based monitoring” OR “community monitoring” OR “citizen monitoring” OR “citizen science”) AND (“best practice*” OR “good practice*” OR “guideline*” OR “recommendation*” OR “lesson*”) AND (protected área* OR “park*”)2. Em relação à condução da revisão, as buscas foram executadas nas duas plataformas científicas principais para as áreas de ciências ambientais e das engenharias - SciVerse Scopus e Clarivate Analytics Web of Science e foram realizadas para documentos indexados nas respectivas plataformas científicas para todos os anos até o mês de março de 2020.
Posteriormente às buscas, os artigos foram triados considerando-se dois tipos de filtros. No Filtro I os trabalhos foram avaliados de acordo com o título, resumo e palavras-chave, sendo selecionados aqueles com potencial de atenderem aos critérios de elegibilidade adotados (Quadro 1).
No Filtro II os trabalhos que foram selecionados a partir do Filtro I foram lidos na íntegra e a aderência aos critérios de elegibilidade foram buscados nos objetivos, material e métodos, resultados, discussão e/ou conclusão dos artigos.
A CEE (2013; 2018) recomenda que posteriormente às buscas e seleção dos trabalhos ocorra a codificação e a extração de dados. Para tanto, foi elaborado o que denominamos de “Quadro de referências” que abarcou elementos para identificação dos resultados apresentados pelos artigos de real interesse para a presente pesquisa e incluíram (1) autores(s); periódico e ano de publicação (2) local onde a pesquisa foi conduzida; (3) objetivo(s) do artigo; (4) foco do monitoramento (quanto aos componentes do meio); (5) métodos de coleta e análise de dados; (6) atores envolvidos (e.g. pesquisadores; funcionários das áreas protegidas; visitantes; mergulhadores recreativos; comunidades locais; entre outros); (7) boas práticas e recomendações dos autores.
Optamos pela realização de uma síntese narrativa como forma de apresentar o contexto e a visão geral da evidência, assim como discutir a implicação dos resultados obtidos na RBS para a pesquisa (CEE, 2018). A síntese narrativa foi realizada seguindo as recomendações de Popay e colaboradores (2006).
Resultados e Discussão
Considerando os termos de busca adotados, 397 artigos foram capturados na plataforma SciVerse Scopus e 161 na Clarivate Analytics Web of Science, totalizando 558 trabalhos. No Filtro I foram selecionados 113 trabalhos que em primeiro momento apresentaram conformidade com os critérios de elegibilidade adotados. No Filtro II 40 artigos foram selecionados3.
A Figura 1 apresenta a média móvel referente aos artigos publicados (escopo final de artigos selecionados) calculada para cinco anos a partir de 2000. É evidente o crescimento nas publicações sobre o tema ao longo do tempo. Se considerarmos esse intervalo de quase 20 anos (2000-2019), oitenta e oito por cento dos trabalhos foram publicados na última metade desse período, o que pode demonstrar uma tendência de aumento do interesse pela abordagem da ciência cidadã em áreas protegidas.
Dentre os 19 países nos quais foram identificadas pesquisas, destacam-se: Estados Unidos (12 publicações); Brasil (6 publicações); Austrália (4 publicações) e Itália (3 publicações). Os demais países tiveram até duas publicações. Vale pontuar que essa análise se refere às áreas onde os trabalhos foram conduzidos e não a localidade das instituições às quais os autores são filiados. Houve trabalhos que delimitaram suas áreas de estudo em mais de um país.
Alvos de monitoramento
Mais da metade dos artigos (26) tiveram como objetivo descrever/apresentar o(s) projeto(s) e/ou compartilhar lições aprendidas. Oito artigos delimitaram seus objetivos em torno da precisão dos dados coletados a partir da ciência cidadã, comparando a qualidade dos dados coletados por cientistas cidadãos com os coletados por cientistas profissionais, com o intuito de verificarem a viabilidade da abordagem em um contexto específico. Apenas dois estudos focaram nas motivações dos cientistas cidadãos e quatro trabalhos tiveram como objetivo intencional explorar o potencial desta abordagem para o gerenciamento das áreas protegidas. Vale destacar que todos os artigos apresentam e discutem direta ou indiretamente implicações e/ou lições aprendidas em relação à implantação dos projetos.
A Figura 2 apresenta a porcentagem de artigos de acordo com os alvos de monitoramento, considerando os componentes do meio biológico; físico e socioeconômico. Vale destacar que houve artigos que apresentaram mais de um projeto de ciência cidadã e projetos que tiveram mais de um alvo de monitoramento.
Porcentagem de artigos capturados de acordo com os alvos de monitoramento, considerando os componentes do meio
Não surpreende que o foco de monitoramento da maior parte dos projetos/programas descritos nos artigos capturados tenha sido a biodiversidade (componente biológico do meio). A ciência cidadã possui um grande potencial em preencher lacunas de conhecimento relacionadas à ocorrência de espécies no tempo e no espaço (POCOCK et al., 2018).
Dentre os projetos de ciência cidadã que possuem como foco de monitoramento componentes físicos do meio, destaca-se aqueles voltados ao monitoramento da qualidade da água (LÉVESQUE et al., 2017; MARQUES et al., 2013; PITT; SCHULTZ, 2018). Projetos com esse perfil têm se tornado comuns (CAPDEVILA et al., 2020) contemplando uma diversidade de parâmetros químicos, físicos e biológicos da água. A ciência cidadã também tem sido uma abordagem utilizada no aprimoramento das pesquisas sobre padrões locais e globais de mudanças climáticas, que incluem desde indicações substantivas de seus efeitos, até alertas precoces de perigo de desastres que auxiliam na avaliação e no gerenciamento de seus impactos (ALBAGLI; IWAMA, 2022).
Os projetos/programas cujo foco de monitoramento foram elementos do meio socioeconômico preveem a participação de não cientistas, como membros das comunidades locais e funcionários das áreas protegidas, no monitoramento de padrões de uso dos recursos (COSTA et al., 2018; DANIELSEN et al., 2000; HALLAC et al., 2013; KALLIMANIS; PANITSA; DIMOPOULOS, 2017; MARIONI; BOTERO-ARIAS; FONSECA JUNIOR, 2013; MARQUES et al., 2013; PIMENTA et al., 2018; POULSEN; LUANGLATH, 2005; TURREIRA-GARCÍA et al., 2018). Promover a participação de usuários diretos da biodiversidade em programas de monitoramento, além de uma finalidade pedagógica, possibilita que interesses convergentes e divergentes entre as comunidades locais e outros atores sociais interessados na conservação sejam debatidos (FERNANDEZ-GIMENEZ; BALLARD; STURTEVANT, 2008), tornando a gestão das áreas protegidas mais dinâmica e democrática (LEVREL et al., 2010).
As boas práticas de programas/projetos de ciência cidadã em áreas protegidas
As boas práticas identificadas dizem respeito a aspectos gerais dos projetos/programas. Contribuições e lições específicas trazidas pelos autores, diretamente relacionadas aos métodos utilizados, como, por exemplo - “(...) utilize tanto métodos diretos quanto técnicas que buscam sinais ou evidências indiretas para detectar espécies” (BENCHIMOL; MUHLEN; VENTICINQUE, 2017, p. 482), não são aqui tratadas, pois o foco deste trabalho são aquelas passíveis de replicação em diferentes contextos. Vale destacar que as categorias de análise apresentadas foram estabelecidas após a leitura dos artigos.
Foram identificadas 45 boas práticas, distribuídas em 7 categorias. Uma breve descrição das categorias, assim como de sua abrangência são apresentadas a seguir:
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(1) Aspectos financeiros: apesar da capacidade da abordagem da ciência cidadã de reduzir custos ao se coletar alguns tipos de dados (COHN, 2008; McKINLEY et al., 2017), a mesma não está isenta da necessidade de financiamento. Nesse sentido, as boas práticas incluídas nesta categoria se relacionam às ações que podem otimizar os recursos disponíveis para o projeto;
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(2) Governança: as boas práticas incluídas nesta categoria se relacionam a como as responsabilidades pertinentes ao projeto podem ser compartilhadas entre as partes interessadas, assim como os benefícios resultantes da iniciativa. Aspectos relacionados ao estabelecimento de parcerias também são abordados pelas boas práticas desta categoria.
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(3) Design do projeto: de modo geral, programas de monitoramento eficazes vão requerer um bom design (MILLER; WARD, 2005; GITZEN; MILLSPAUGH; COOPER; LICHT, 2012). As boas práticas incluídas nesta categoria se relacionam a ações que podem otimizar algumas das etapas de implementação dos projetos de ciência cidadã, etapas essas estabelecidas por autores como Bonney (2007) e Fraisl e colaboradores (2022);
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(4) Aspectos metodológicos: para que os projetos possam produzir dados utilizáveis e resultados científicos genuínos, a qualidade dos dados gerados a partir da abordagem da ciência cidadã é uma questão metodológica essencial (BALÁZS et al., 2021). Esta categoria inclui boas práticas relacionadas ao uso de tecnologias e a práticas que podem garantir o controle da qualidade dos dados coletados pelos cientistas cidadãos;
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(5) Engajamento dos cientistas cidadãos: compreender e considerar o que motiva os participantes a se envolverem em um projeto pode auxiliar os coordenadores a recrutar e reter estes cientistas cidadãos as iniciativas (LAND-ZANDSTRA; AGNELLO; GULTEKIN, 2021). Nesse sentido, as boas práticas incluídas nesta categoria dizem respeito a ações que podem contribuir para o engajamento dos cientistas cidadãos, mantendo-os motivados ao longo do tempo;
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(6) Divulgação dos resultados: a ampla divulgação dos resultados obtidos para os participantes e comunidade em geral pode ser considerada uma premissa dos projetos de ciência cidadã. Nesse sentido, as boas práticas desta categoria se relacionam a formatos de divulgação; acessibilidade dos dados para as tomadas de decisão e questões relativas à propriedade intelectual;
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(7) Avaliação: a avaliação é uma etapa importante dos projetos científicos e pode ser adotada com diferentes objetivos. Em projetos de ciência cidadã parece razoável avaliar não somente aspectos relacionados ao processo e aos resultados científicos, mas os efeitos do projeto nos participantes e na sociedade em geral (SCHAEFER et al., 2021). As boas práticas incluídas nesta categoria buscam garantir que essa etapa não seja negligenciada.
O Quadro 2 apresenta as boas práticas dos projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos em áreas protegidas.
Como esperado, as boas práticas com maior número de menções são aquelas relacionadas a temas já bem explorados na literatura de ciência cidadã - “Proporcionar incentivos à participação dos cientistas cidadãos” (18); “Realizar treinamento/capacitação dos cientistas cidadãos quando pertinente” (13) e “Buscar parcerias e colaboração multissetorial” (11). A boa prática “Proporcionar oportunidades de diálogo constante entre os cientistas cidadãos e a equipe da área protegida de modo a ampliar as oportunidades de aprendizado” apresentou um número considerável de indicações (10) e, apesar de possuir um caráter mais específico em termos de aplicabilidade, está incluída na categoria “Aspectos metodológicos” e se refere a uma prática que visa garantir o controle e a qualidade dos dados coletados pelos cientistas cidadãos.
As categorias “Engajamento dos cientistas cidadãos” e “Aspectos metodológicos” se destacaram, apresentando quatro e cinco boas práticas com cinco ou mais indicações, respectivamente. A qualidade dos dados gerados a partir da abordagem da ciência cidadã é uma questão metodológica essencial e altamente debatida nos últimos anos, o que faz sentido se considerarmos a sua complexidade e o fato da “qualidade” poder apresentar significados diferentes para as partes interessadas envolvidas nos projetos/programas (BALÁZS et al., 2021).
As questões relativas ao engajamento dos participantes também merecem destaque se levarmos em consideração que os formatos dos projetos de ciência cidadã estão se diversificando - de projetos em que os voluntários despendem uma quantidade significativa de tempo ao ar livre para iniciativas que preveem treinamento limitado e pouca/nenhuma interação social direta com especialistas ou outros cientistas cidadãos antes do encaminhamento dos dados por meio de plataformas online (MAUND et al., 2020). Nesse sentido, espera-se que as motivações dos participantes também sejam diversas.
Número de artigos capturados na Revisão Bibliográfica Sistemática que indicam as boas práticas. Apenas as boas práticas com cinco ou mais menções são apresentadas no gráfico. Cada cor representa uma categoria de análise.
A Figura 3 apresenta o número de artigos que indicam as boas práticas por categoria de análise. Vale destacar que o gráfico apresenta apenas as boas práticas que tiveram cinco ou mais indicações.
É clara a diversidade de boas práticas apresentadas nos artigos capturados na presente RBS. Devido ao recorte estabelecido a partir dos critérios de elegibilidade, que incluíram apenas artigos que apresentam projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos total ou parcialmente em áreas protegidas, foi possível identificar diversas boas práticas com um caráter de aplicação focado, nas quais a interconexão entre aspectos relacionados aos projetos e a gestão das áreas protegidas é mais evidente.
Por exemplo, é sabido que implementar iniciativas de ciência cidadã em áreas protegidas pode ser ainda mais desafiador se considerarmos as dificuldades relacionadas à gestão desses espaços, como a falta de recursos financeiros (MAXWELL et al., 2020; UNEP-WCMC; IUCN, 2021). No caso de iniciativas que incluam entre os cientistas cidadãos os funcionários da área protegida, pode ser vantajoso otimizar as atividades de monitoramento, conciliando-as com as atividades já realizadas pela equipe da área protegida (POULSEN; LUANGLATH, 2005; UYCHIAOCO et al., 2005).
Poulsen e Luanglath (2005) analisam o estabelecimento de um sistema de monitoramento da biodiversidade desenvolvido em uma área protegida em Xe Pian, Laos, composto por funcionários e moradores locais. Alguns métodos propostos, como o de patrulhamento e discussões com as comunidades locais, com o objetivo de coletar informações sobre espécies selvagens, podem reduzir os custos de implementação do projeto se forem atividades regulares da equipe da área protegida.
Outro exemplo relaciona a importância da utilização dos resultados das pesquisas científicas para o direcionamento das ações e tomadas de decisão nas áreas protegidas visando o alcance de uma gestão bem-sucedida e baseada em evidências (COOK; HOCKINGS; CARTER, 2010; PEGLER; CATOJO; MACHADO, 2021). Sendo assim, parece razoável considerar as lacunas de conhecimento como critério para a definição dos temas prioritários para o desenvolvimento do projeto/programa de ciência cidadã (HALLAC et al., 2013). Hallac e colaboradores (2013) destacam que os coordenadores dos projetos devem priorizar tópicos de pesquisa com o intuito de maximizar a capacidade dos projetos de responderem às questões de maior prioridade identificadas pelo gestor da área protegida.
Uma boa prática que também exemplifica as práticas identificadas com esse caráter de aplicação mais focado é a de compatibilizar as ações propostas pelos projetos/programas de ciência cidadã com outros instrumentos de gestão da área protegida (POULSEN; LUANGLATH, 2005; UYCHIAOCO et al., 2005). Os instrumentos de gestão dessas áreas, como o plano de manejo que estabelece o zoneamento interno e as normas que regem o seu uso e manejo, costumam ser específicos, desenvolvidos a partir de uma perspectiva de planejamento local.
Em contrapartida, algumas boas práticas transcendem os limites das áreas protegidas e parecem ser aplicáveis em diferentes contextos, como aquelas incluídas na categoria “Governança”, que abordam aspectos relacionados às parcerias no âmbito dos projetos/programas de ciência cidadã. O estabelecimento de parcerias e acordos que promovam a colaboração multissetorial em torno do projeto - entre o(s) coordenador(es) e comunidades locais, universidades, centros de pesquisa, organizações governamentais e não governamentais, entre outros - pode gerar uma série de benefícios mútuos.
Além de reunirem novas perspectivas às tomadas de decisão (JOSEPH et al., 2019; PIMENTA et al., 2018), alguns autores destacam uma relação positiva entre o estabelecimento de parcerias e o sucesso das iniciativas (MILLER; LEUNG; LU, 2012; PITT; SCHULTZ, 2018).
O tema de parcerias também é discutido a partir de uma perspectiva de negociação entre as partes interessadas (ANTHONY; SWEMMER, 2015; CIGLIANO et al., 2015; TURREIRA-GARCÍA et al., 2018). Turreira-García e colaboradores (2018) apontam que “trabalhar em conjunto com outras organizações, como ONGs e universidades, pode auxiliar a conectar comunidades locais e formuladores de políticas ou governos e alinhar os valores e interesses de cada um dos atores” (p. 1028).
Ainda sobre o tema, alguns autores destacam a importância de se garantir o envolvimento de parceiros com credibilidade junto à sociedade (BENCHIMOL; VON MUHLEN; VENTICINQUE, 2017; CIGLIANO et al., 2015; MARIONI; BOTERO-ARIAS; FONSECA-JUNIOR, 2013; UYCHIAOCO et al., 2005), de modo que o próprio projeto/programa possa demonstrar credibilidade (CIGLIANO et al., 2015), e/ou possa angariar apoio social e entre partes interessadas.
As parcerias com o governo, por exemplo, são apontadas como estratégicas seja para aumentar a probabilidade do projeto de se consolidar a longo prazo (BENCHIMOL; VON MUHLEN; VENTICINQUE, 2017); promover o prestígio da equipe envolvida no monitoramento (UYCHIAOCO et al., 2005) ou apoiar a participação dos cientistas cidadãos (MARIONI; BOTERO-ARIAS; FONSECA-JUNIOR, 2013).
As parcerias também podem ser vantajosas em relação aos aspectos financeiros dos projetos de ciência cidadã. A boa prática “Otimizar os recursos (financeiros, materiais e/ou humanos) quando existirem diferentes parceiros envolvidos”, incluída na categoria “Aspectos financeiros”, reforça essa afirmação.
Lévesque e colaboradores (2017) ao desenvolverem um programa de monitoramento cidadão da qualidade da água, como parte do projeto FreshWater Watch, em parques públicos da cidade de Montreal, Canadá, estabeleceram parcerias entre voluntários, especialistas e patrocinadores corporativos. Os autores destacam que grandes corporações podem melhorar sua imagem ao patrocinarem programas de ciência cidadã e aumentar a conscientização de seus funcionários sobre questões comunitárias específicas. Vale pontuar que muitas empresas/corporações utilizam o “marketing verde” de modo a promoverem uma comunicação positiva sobre o seu desempenho ambiental, seja ao nível de produto, serviço ou empresa (FREITAS NETTO, 2020). Nesse sentido, os coordenadores dos projetos devem ficar atentos a eventuais conflitos de interesses das empresas ao se associarem às iniciativas.
O utra possibilidade de financiamento dos projetos de ciência cidadã se dá a partir do estabelecimento de parcerias com os próprios voluntários. Uychiaoco e colaboradores (2005) apontam as taxas de usuários/taxas de uso (user fees) como estratégicas para o custeio das despesas do monitoramento. Em alguns contextos e realidades, as taxas de entrada ou taxas de uso já são cobradas de visitantes recreativos em áreas protegidas ao redor do mundo. Os mesmos esperam que posteriormente esses valores sejam empregados na melhoria ou expansão dessas áreas (WEAVER; LAWTON, 2017). Nesse sentido, vincular as taxas dos usuários a projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos nesses espaços pode ser uma estratégia pertinente.
De modo a não esgotar as discussões sobre as boas práticas identificadas, considerando também a limitação de espaço para a escrita do presente artigo, selecionamos as boas práticas que julgamos exemplificar de maneira consistente as ações focadas ao contexto das áreas protegidas e aquelas que apresentam um caráter de aplicação amplo, mas que podem e devem ser observadas para o desenvolvimento de projetos/programas de ciência cidadã em áreas protegidas.
Considerações finais
As áreas naturais protegidas requerem informações de qualidade para que possam ser geridas e manejadas adequadamente. A ciência cidadã, como uma abordagem de pesquisa capaz de gerar dados confiáveis e utilizáveis para as tomadas de decisão, pode auxiliar os gerentes dessas áreas a promoverem uma gestão baseada em evidências.
Para além disso, projetos/programas de ciência cidadã realizados em áreas protegidas podem atrair as pessoas a esses espaços, tornando os cientistas cidadãos aliados da conservação. Os voluntários também podem se engajar e contribuir com as tomadas de decisão, tornando a governança dessas áreas mais inclusiva e participativa.
Independente da coordenação dos projetos estar sob responsabilidade da gestão da área protegida ou pesquisadores externos, as boas práticas apresentadas no presente artigo podem orientar a concepção e implementação de projetos/programas de ciência cidadã desenvolvidos nesses espaços. Foram identificadas 45 boas práticas, distribuídas em 7 categorias. Importante destacar que essas boas práticas puderam ser identificadas para o monitoramento de diferentes componentes do meio (biológico, físico e socioeconômico) e ambientes (terrestres e aquáticos), apresentando-se como lições gerais que podem ser passíveis de replicação em diferentes contextos.
Pesquisas futuras devem se debruçar sobre pontos de interconexão entre a ciência cidadã e a gestão das áreas protegidas. Perguntas como: “Quais os eventuais benefícios da ciência cidadã para a redução dos custos de monitoramento em áreas protegidas?” e “Como os Programas de Voluntariado desenvolvidos em áreas protegidas podem ampliar as iniciativas de ciência cidadã de modo que as mesmas transcendam as pautas de pesquisa e monitoramento?”, são exemplos de questões que abordam temas que julgamos relevantes. Suas respostas podem fortalecer o desenvolvimento de iniciativas de ciência cidadã nesses espaços.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental, da Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES pela bolsa concedida.
Referências bibliográficas
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- BALÁZS, B.; MOONEY, P.; NOVÁKOVÁ, E.; BASTIN, L.; ARSANJANI J. J. Data quality in citizen science. The Science of Citizen Science, v. 139, 2021.
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-
1
- Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção.
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2
- O asterisco (*) no final da palavra permite que o sistema localize derivações da mesma. Vale destacar que optamos por selecionar termos que pudessem contemplar um escopo amplo de iniciativas de monitoramento que adotam a ciência cidadã como abordagem, não se restringindo ao monitoramento de base comunitária (MBC).
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3
- O escopo final dos artigos capturados na Revisão Bibliográfica Sistemática pode ser acessado pelo link: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1ZIX7h-pCb8QX-LRQ4sArfmQlnwEQCKL7/edit?usp=sharing&ouid=103288410254890493961&rtpof=true&sd=true
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4
- Dentre a equipe da área protegida pode(m) estar o(s) coordenador(es) do projeto que varia(m) conforme as iniciativas de ciência cidadã. Em relação às iniciativas apresentadas nos artigos capturados, os atores responsáveis variaram entre pesquisador(es) vinculado(s) a universidades/ institutos de pesquisa e os próprios gerentes e/ou servidores da(s) área(s) protegida(s).




Fonte: os autores, 2024.
Fonte: os autores, 2024.
Fonte: os autores, 2024.