O QUE APRENDEMOS COM MARIANA? A IMPORTÂNCIA DE NOMES, LUGARES E AFETOS

NADJA ARAÚJO KEILA CARNAVALLI LETICIA BARBOSA NATHALIA SILVA PATRÍCIA BARCELOS RAPHAEL SALDANHA TERESA NEVES VINICIUS KLEIN MARIA CRISTINA SOARES GUIMARÃES Sobre os autores

Nomear é uma tarefa ambiciosa. Atribuir um nome a um objeto ou evento significa reconhecer, distinguir e dar importância. Quem nomeia adquire poder sobre o que era antes inarrável. O nome é signo e significado, enviesado em origem e uso.

Nomear e compreender a complexidade do que ocorreu na cidade de Mariana, suas causas e consequências, representou um desafio para o qual as abordagens disciplinares e centradas nos saberes científicos seriam insuficientes. Neste sentido, entendemos que nossa busca por estudos sobre o que ocorreu naquela cidade após o rompimento da barragem do Fundão, em novembro de 2015, deveria ser complementada pelas histórias de moradores daquele local, por seus saberes. Reconhecemos que, ainda assim, um olhar sobre tal questão seria apenas uma contribuição limitada, sendo esta a condição primária para um exercício interdisciplinar.

Ao chegarmos em Mariana, ainda na noite do dia 07 de junho desse ano, num passeio por uma feira noturna criada para garantir recursos para os atingidos, ficou claro para nós que sua luta, além de outras frentes, é também por visibilidade e voz. A disputa para construir sentidos sobre a tragédia também se dá na arena da nomeação. Desde 2015, pessoas simples, moradores de distritos na área rural deste município, se tornaram visíveis ao mundo, apareceram em jornais de diversos países, no que se nomeou como a maior tragédia ecológica do Brasil. A intensa cobertura da mídia nos primeiros meses após o ocorrido não acompanhou ao longo de quase três anos as subsequentes tentativas de compreensão dos inúmeros danos, especialmente sobre perdas sofridas pelas pessoas atingidas direta e indiretamente. Durante os três dias que permanecemos em Mariana, em nenhuma das conversas com estas pessoas, a luta pela construção de sentidos para o ocorrido e a importância das palavras em seu contexto deixou de aparecer.

A Semiótica é uma ciência que nos ajuda a compreender o que há de ideológico na nomeação (Verón,1980VERÓN, Eliseo. A produção de sentido. São Paulo: Cultrix, 1980.). Crime, tragédia, desastre, tragédia crime, evento, acidente, impactados, atingidos, cada pessoa ou grupo em Mariana tem seu modo de nomear. Defendem e se agrupam em torno de cada uma delas. Um determinado grupo que luta para poder frequentar regularmente o distrito de Bento Rodrigues para comemorar datas festivas, feriados e eventos religiosos, por isso chamados de loucos, assumiu e deu sentido ao nome - os “Loucos por Bento”. Um grupo de professores, estudantes e atingidos criou um jornal que busca dar acesso ao que ocorreu desde o rompimento da barragem e também discutir, dentre outros temas, sobre o cenário pregresso de atuação da mineradora responsável, inclusive a falta de uma Sirene que pudesse alertar aos moradores no momento do ocorrido. Não por acaso, “A Sirene” é o nome do jornal. Do mesmo modo, o consórcio responsável pela exploração da mineração na região tirou o nome SAMARCO da empresa e criou a Fundação Renova. É ela quem negocia com as vítimas e com a justiça, é ela quem promove eventos, festas e seminários, é ela quem irá reconstruir uma nova comunidade para assentar os moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.

Após o rompimento, estudos na área de Sociologia do desastre, como o de Zhouri et al. (2016ZHOURI, A. et al. O desastre da Samarco e a política das afetações: classificações e ações que produzem o sofrimento social. Cienc. Cult., v. 68, n. 3. 2016.), mostram que planos de ação e reparação foram negociados, porém, muitas vezes sem diálogo com os indivíduos afetados. Logo, observa-se que uma série de problemas, especialmente na dimensão comunicacional e informacional, atravessaram, e ainda atravessam, a relação entre empresa mineradora e as comunidades locais.

Para pesquisadores da área de Saúde do Trabalhador o rompimento é visto como um “acidente de trabalho ampliado” porque toda Mariana foi atingida, nos disse uma profissional da área. As áreas de Saúde Pública e da Educação estão amplamente envolvidas no atendimento às vítimas, seja na reorganização do atendimento básico à saúde da população, hoje distribuída por toda cidade de Mariana, seja na oferta de educação para crianças e adolescentes. No entanto, ainda antes da visita, soubemos que a Escola que antes funcionava em Bento Rodrigues, assim como o Posto de Saúde, atualmente funcionam só para ex-moradores de Bento mas na cidade, em Mariana. Nos surpreendemos com este fato, pois, da mesma forma que se dá no que se refere à Atenção Primária em Saúde, as escolas municipais de todo o Brasil matriculam alunos de um determinado território composto por bairros próximos. A diretora nos contou que, inicialmente, os alunos foram acolhidos em outra escola, mas reivindicaram um espaço próprio para resgatar seus laços, o que foi reforçado pela possibilidade de retomarem sua comunidade em novo local futuramente. Deu exemplos do trabalho pedagógico sobre o luto realizado durante todo esse tempo, o que avalia como benéfico para crianças, professores e famílias. Falou também do grande número de doações recebidas na época do rompimento da barragem e, ainda hoje, de como fazem parcerias para realização de projetos da escola, em função da grande visibilidade do ocorrido. Entretanto, sabe que isto gerou e ainda gera “ciúmes” nos alunos de Mariana, possivelmente também nos diretores de outras escolas. Seus alunos e mesmo os ex-moradores de Bento e Paracatu muitas vezes são chamados de “Pés de Lama”.

O rompimento da barragem mudou a vida dos moradores das seis comunidades atingidas diretamente no município de Mariana, mas mudou também a de toda a cidade. Até o momento, o grupo responsável pela mineração no município não conseguiu licença para voltar a funcionar, causando grande impacto na economia da região; alguns passaram a trabalhar nas novas funções relacionadas às ações de reparação. Esse aspecto é importante para que possamos entender que as disputas não são apenas entre atingidos e empresa mas entre as vítimas mais diretas do rompimento que perderam casa, familiares, amigos, animais e os demais moradores, que perderam emprego e renda.

Ao procurar superar as dicotomias, considerando o espectro e profundidade das consequências do rompimento da barragem sobre a vida humana, fauna e flora: crime, trágico e desastroso, todos parecem ser adjetivos adequados.

Mas, nesta luta de palavras em Mariana, também se luta por algo mais sutil e silencioso. A Geografia, ciência rica em nomes para falar sobre o “onde”, também pode nos ajudar nesta compreensão. Espaço, território, paisagem, lugar são alguns nomes-conceitos. Onde ocorreu a tragédia? Podemos interpretar para além da posição no mapa e compreender no espaço uma luta de significados geográficos.

No espaço, conceito mais abstrato da Geografia, o rompimento é um simples evento, ocorrido em determinado local e horário, anotado no mapa como um registro. Mas a tragédia também é territorial, sobre quem detém o domínio sobre o espaço, de quem é a responsabilidade, a quem pertence aquela área. Vemos hoje uma disputa sobre o domínio das áreas afetadas: podem os moradores reocuparem seus terrenos? A quem interessa que as áreas afetadas permaneçam desocupadas? Isto é uma disputa de território.

Na paisagem, que é o conjunto do que se observa das relações do homem com seu espaço, tudo se alterou. De fato, pouco agora há de paisagem nas áreas afetadas, pois não há mais relação do homem com este espaço. O que resta é o rastro testemunho do que ocorreu. Mas qual é a paisagem que se deseja no futuro para esta área? Qual relação do homem com seu ambiente é almejada? É possível reconstruí-lo como um lugar de memória, para não se esquecer?

Afetado pode ser sinônimo de atingido. Mas, etimologicamente, a palavra deriva do substantivo affectus, afeto. Um lugar pode ser investido de afeto. Os moradores das áreas atingidas apresentam um natural afeto pela terra de seus antepassados, pelo lugar onde nasceram e, até então, viviam. A isto, Yi-Fu Tuan (1984) chama de “topofilia”, o fenômeno de se afeiçoar por um lugar. Por isto, o lugar é naturalmente resiliente: ainda que destruído e desfigurado como paisagem, redefinido como território, a afeição permanece, e de forma mais aguerrida, frente à adversidade.

Na tragédia observa-se, portanto, um embate entre território e lugar. O espaço geográfico afetado pelo desastre é território para uns e lugar para outros. É território da exploração mineral, necessidade econômica, geração de empregos, desenvolvimento e progresso. Necessita de garantia do domínio sobre o espaço e de seu uso para este fim, que o traça como prioridade frente a outras necessidades.

Das necessidades subjugadas pela luta territorial, se tem a necessidade do lugar, de reconhecer que este espaço, antes de ser território já era um lugar para famílias, seus ancestrais e descendentes. É interessante se compreender que um território pode ser móvel, mas o lugar é fixo no espaço. A afeição não pode ser deslocada ou transferida para um novo local artificialmente. A topofilia existente nas áreas afetadas foi ferida. E, por exemplo, chamar de Nova Bento o reassentamento dos moradores de Bento Rodrigues é ignorar este fato.

As tragédias e adversidades podem também ser transformadoras e trazer renovação para pessoas e comunidades. A transformação trouxe, para alguns atingidos, a necessidade de requalificar a importância do acesso à informação, sobre a atividade da mineração no Brasil e no mundo, sobre legislação para exploração do solo, seus efeitos e consequências.

Seguir em frente sem olhar para trás, refazer a vida com a agricultura familiar, trocar de negócio, virar feirante, querer ficar onde sempre viveu, querer que paguem pelo que perderam, filiar-se e participar das lutas pelas causas coletivas, são algumas das formas de viver que nos ensinam os moradores de Mariana. Não há certo ou errado nas opções que se colocam, há o que é possível para cada um.

Para alguns, a paisagem foi destruída, mas o afeto pelo lugar permanece. O lugar pode ser territorializado no sentido de que se possa lutar por seu reconhecimento e manutenção, perpetuando o afeto, mesmo em novas formas de viver.

Nesse processo as relações entre pessoas e lugares podem ser constantemente renomeadas, recheadas de vida e de afeto, na ciência e na vida comum. Este cenário, portanto, se apresenta como um grande campo para a pesquisa interdisciplinar, sendo responsabilidade da ciência e da academia, dos atingidos, de cada um de nós: não calar; não silenciar; continuar contando essa história.

Referências bibliográficas

  • TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980.
  • VERÓN, Eliseo. A produção de sentido. São Paulo: Cultrix, 1980.
  • ZHOURI, A. et al. O desastre da Samarco e a política das afetações: classificações e ações que produzem o sofrimento social. Cienc. Cult., v. 68, n. 3. 2016.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Maio 2019
  • Data do Fascículo
    2019
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