Open-access Etnobotânica de Quintais Quilombolas: Resistência e Preservação Cultural em Duas Comunidades Quilombolas da Bahia, Brasil

Resumo

Quintais quilombolas são espaços de resistência contra a opressão de um povo escravizado que, mesmo “livre”, não consegue “alargar” seus limites territoriais. Observamos quintais em Matinha dos Pretos e Paus Altos, comunidades remanescentes de quilombolas do domínio Caatinga, na Bahia, a fim de identificar as plantas alimentícias e medicinais cultivadas ou conservadas e seus usos. Utilizou-se abordagens quali-quantitativas, com turnê guiada, entrevistas semiestruturadas e conversas com os participantes de cinco quintais em cada comunidade. Fizemos análise discursiva e descritiva dos dados. Estes espaços são geridos principalmente por mulheres. Das 148 espécies citadas, 115 são medicinais e 66 alimentícias, destas 30 PANC e a maior parte nativas. As comunidades assemelham-se na nomenclatura das etnoespécies, biodiversidade, usos e compartilhamento de plantas. Os quintais constituem-se como patrimônio biocultural, troca de saberes intergeracionais e relações inter-familiares, momentos de lazer, contribuem para a renda familiar, segurança alimentar e de saúde e conservação da biodiversidade.

Palavras-chave:
Etnobotânica; Quintais quilombolas; Patrimônio biocultural; Plantas comestíveis; Plantas medicinais

Abstract

Ethnobotany of quilombola homegardens: resistance and cultural preservation in the Matinha dos Pretos and Paus Altos communities in Bahia State, Brazil. Quilombola backyard homegardens are spaces of resistance to the oppression of previously enslaved people who, even though “free,” are unable to expand their territorial boundaries. We examined the backyards of two quilombola communities in the Caatinga region of Bahia State in order to identify the food and medicinal plants they cultivated or preserved as well as their uses. We used qualitative and quantitative approaches, with guided tours, semi-structured interviews, and conversations with participants caring for five backyards in each community. We conducted discursive and descriptive analyses of the data. These spaces are managed mainly by women. Of the 148 plant species cited, 115 are medicinal and 66 are food species, of which 30 are PANC, with most being native. The communities were similar in terms of the nomenclature of ethnospecies, biodiversity, plant uses, and plant sharing. Backyard homegardens constitute a biocultural heritage, with exchanges of intergenerational knowledge and inter-family relationships, and moments of leisure. They contribute to family income, food and health security and the conservation of biodiversity.

Keywords:
Ethnobotany; Quilombola homegardens; Biocultural heritage; Food plants; Medicinal plants

Resumen

Los patios quilombolas son espacios de resistencia contra la opresión de un pueblo esclavizado que, incluso siendo “libre”, no puede “expandir” sus límites territoriales. Observamos los patios de dos comunidades quilombolas remanentes en el bioma de la Caatinga, en Bahía, para identificar las plantas alimenticias y medicinales cultivadas o preservadas, así como sus usos. Utilizamos enfoques cualitativos y cuantitativos, con visitas guiadas, entrevistas semiestructuradas y conversaciones con participantes de cinco patios de cada comunidad. Realizamos un análisis discursivo y descriptivo de los datos. Estos espacios son gestionados principalmente por mujeres. De las 148 especies mencionadas, 115 son medicinales y 66 son plantas alimenticias, de las cuales 30 son PANC (plantas alimenticias no convencionales) y la mayoría son nativas. Las comunidades son similares en la nomenclatura de etnoespecies, biodiversidad, usos y compartición de plantas. Los huertos familiares constituyen patrimonio biocultural, un medio para intercambiar conocimientos intergeneracionales y fomentar las relaciones interfamiliares, ofreciendo oportunidades de ocio y contribuyendo a los ingresos familiares, la seguridad alimentaria y sanitaria, y la conservación de la biodiversidad.

Palabras-clave:
Etnobotánica; Huertos familiares quilombolas; Patrimonio biocultural; Plantas comestibles; Plantas medicinales

Introdução

Os quintais são áreas no entorno das casas e contribuem para a conservação de espécies com valor nutricional, medicinal, ornamental, entre outros. Esses espaços, chamados sistemas agroflorestais (KABIR; WEBB, 2008; PEREIRA et al., 2010), possuem usos diversos e cultivos múltiplos, e estão carregados de significados que podem ser únicos de uma família ou refletir costumes próprios de uma comunidade (GAZEL FILHO, 2008). Além disso, no uso e ocupação do solo de uma mesma unidade de manejo, há plantas perenes associadas a plantas herbáceas e há culturas agrícolas em integração com animais, formando um arranjo espacial e temporal com alta diversidade de espécies e interações ecológicas entre esses componentes (ABDO et al., 2008).

Os quintais também funcionam como despensas naturais, auxiliam na manutenção da renda familiar, conferem maior qualidade ao alimento consumido - porque o cultivo geralmente não envolve o uso de agrotóxicos -, preservam a cultura e a etnobiodiversidade da região e se constituem em importantes aliados na garantia da segurança alimentar e consomem alimentos in natura provenientes da agricultura familiar (OAKLAY, 2004; GOMES, 2017; CARMO, 2018). Também apresentam um repertório expressivo de memória biocultural a ser compreendido, bem como a vinculação das experiências humanas com a fenologia das plantas e outras interações entre os seres vivos (TOLEDO; BARREIRA-BASSOLS, 2015; MEYER, 2017; ALMADA; SOUZA, 2017; MOURA; OLIVEIRA, 2022) e ainda embelezam as residências.

Nas Comunidades Remanescentes de Quilombolas (CRQ) as terras foram adquiridas na troca por prestação de serviços, comprados ou ocupados (SANTOS, 2016) e os quintais, em muitos casos, constituem-se como as únicas propriedades de alguns grupos familiares. Os tamanhos são variados e isso é determinado por fatores como a proximidade com o tecido urbano (ALMADA; SOUZA, 2017).

Na região Nordeste do Brasil, onde as feiras livres são comuns, é possível encontrar Plantas Medicinais e Plantas Alimentícias não Convencionais (PANC), bem como ervas para temperos, chás e banhos, que podem ser cultivadas nos quintais. Desse modo, o cultivo de diferentes espécies com usos alimentícios e medicinais contribui para a prevenção na saúde primária, segurança alimentar e a economia local.

Na Caatinga, o uso racional dos recursos naturais é essencial para a sobrevivência dos seres humanos (CALÁBRIA et al., 2008). Os longos períodos de seca, a escassez de recursos e políticas públicas incipientes fazem parte da vida do nordestino. As comunidades quilombolas dessa região lidam com tudo isso e ainda sofrem com diferentes formas de preconceito e discriminação, além de travar constantes lutas por território e garantia plena de direitos (VITÓRIO, 2015).

Diante de tantas limitações e exclusões às quais são expostos os afrodescendentes diariamente, estudar seus espaços de domínio constitui importante fonte de informação do modo de vida, contribuindo para a valorização e preservação da cultura desses povos que compõem a população brasileira. Esta pesquisa tem como objetivos descrever os quintais quilombolas enquanto espaços de circulação de saberes, e estabelecer, em uma perspectiva etnobotânica, relações entre os fatores socioculturais e a biodiversidade dos recursos vegetais, buscando responder as perguntas: a) Quais plantas alimentícias/medicinais dos quintais são mais utilizadas pelos moradores das comunidades estudadas? Existe semelhança significativa entre estas comunidades quanto as plantas e seus usos?

Metodologia

Área de estudo e público participante

A pesquisa foi realizada em duas Comunidades Remanescentes de Quilombolas (CRQ) do estado da Bahia (Figura 1), pertencentes ao território do Portal do Sertão, no domínio da Caatinga.

Figura 1
Mapa dos municípios do Território de Identidade Portal do Sertão, com destaque para as Comunidades Remanescentes de Quilombolas Matinha dos Pretos em Feira de Santana e Paus Altos em Antônio Cardoso, Bahia.

As CRQ são: Matinha dos Pretos no distrito de Matinha, em Feira de Santana, localizando-se a 135 km de Salvador; ePaus Altos, em Antônio Cardoso, a 161 km da capital.

A comunidade de Paus Altos foi reconhecida como CRQ pela Fundação Palmares, por meio da Portaria n. 82/2010, publicada em Diário Oficial da União em 06 de julho de 2010. A comunidade está organizada sob a forma de associação, denominada Associação Rural Quilombola de Paus Altos, Santa Cruz e Adjacências (ASCORTAPA), fundada em 19 de maio de 2003. Atualmente conta com aproximadamente 62 famílias associadas, beneficiando direta e indiretamente mais de trezentas pessoas. Já a comunidade de Matinha dos Pretos foi certificada como CRQ pela Fundação Palmares, por meio da Portaria n. 61/2014, publicada em Diário Oficial da União em 21 de maio de 2014 (FUNDAÇÃO PALMARES, 2014). Ambas as comunidades não possuem o certificado de titulação da Terra emitido pelo INCRA.

A escolha das CRQ envolvidas nesta pesquisa se deu com base em contatos pessoais por conveniência da autora com moradores dessas comunidades. O contato inicial foi feito por telefone com as lideranças, e as visitas começaram em abril de 2021. Para esta etapa da pesquisa, foram selecionados cinco quintais de cada comunidade. Para a determinação de PANC, adotamos o conceito de Kinupp e Lorenzi (2014)

O projeto de tese que compõe este estudo está cadastrado no SISGEN (Cadastro A1FAF5F), no Comitê de Ética da Universidade Estadual de Feira de Santana (CAE: 37655120.0.0000.0053) e foi apreciado pelos líderes das comunidades e em reunião com os associados.

Coleta e Análise dos dados

Para esta fase da pesquisa foram utilizados métodos qualitativos através da observação participante e pesquisa participativa (ALBUQUERQUE et al., 2010). Visitamos um total de 10 quintais, cinco para cada comunidade, com 13 participantes na faixa etária entre 40 e 90 anos. A coleta de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas, diálogos e visitas aos quintais dos moradores das comunidades, entre abril e dezembro de 2022, com retorno para complementação ou confirmação de informações, em alguns casos. Foram feitas anotações em caderno de campo, fotografias e observação participante. As entrevistas foram gravadas, transcritas, analisadas e interpretadas, buscando-se a fidelidade à história própria de cada colaborador entrevistado, conforme a bibliografia especializada.

A seleção dos quintais dos entrevistados teve início com a indicação do primeiro quintal (e o respectivo dono/entrevistado), pelos líderes das comunidades e esses, através do método denominado “bola de neve”, indicaram os demais participantes. Foram realizadas turnês guiadas e coleta de material botânico para posterior catalogação e inclusão no Herbário da Universidade Estadual de Feira de Santana (HUEFS), além da composição do catálogo das plantas das comunidades, com registro fotográfico de algumas espécies.

As etnoespécies mais citadas pelos entrevistados foram consideradas as mais utilizadas nas comunidades e deram suporte a comparação entre os quintais. Espécies botânicas cultivadas nos quintais, perenes ou anuais, que fazem parte da dieta dos participantes e que possuem notório conhecimento geral, não foram coletadas, a exemplo: manga, mamão, milho, feijão, melancia, acerola, abacate e abóbora. Para este estudo, adotou-se o conceito de etnoespécie como sinônimo de nome popular (MEDEIROS et al., 2016).

A fim de organizar os usos das espécies citadas, elas foram categorizadas conforme os sistemas humanos: Nervoso, Digestório, Respiratório, Geniturinário, Cardiovascular, Tegumentar e Esquelético. Algumas espécies não se encaixaram nessas categorias e foram citadas como anti-inflamatórias, para tratamento de câncer, dores, problemas nos olhos, cansaço físico e tratamento espiritual.

Os dados coletados foram classificados em categorias de uso alimentício e terapêutico, computados e organizados em tabelas e gráficos. Para uma melhor compreensão dos significados dos quintais, da identidade quilombola, da posse da terra, e dos usos e costumes na utilização dos recursos vegetais, foi realizada uma análise dos discursos com base nos pressupostos de Foucault (2013).

Resultados e Discussão

Os quintais que foram estudados fazem parte do Bioma Caatinga. Entretanto, os moradores de Matinha dos Pretos relatam a ausência de áreas de vegetação nativa perto da comunidade. Em Paus Altos, apesar de ainda existirem áreas de Caatinga, o acesso é limitado, e os moradores geralmente se atêm, assim como em Matinha dos Pretos, aos espaços e vegetação dos quintais. Quando possível, fazem roças afastadas das casas, em terras arrendadas ou emprestadas por parentes e amigos. As plantas dos quintais atendem às necessidades familiares, semelhante ao que foi registrado para quintais em Caruaru - PE (FLORENTINO et al., 2007).

Entrevistamos pessoas de níveis de escolarização variados. A maior parte da renda dos participantes vem da aposentadoria e, quando possível, faz-se a comercialização de alguns produtos da roça ou da venda de animais. Alguns têm acesso ao Bolsa Família, e as comunidades participam de projetos de incentivo à permanência no campo, como apicultura, quintais produtivos e fábrica de polpas e doces caseiros.

Territorialidade e Costumes

Os territórios ocupados pelas comunidades remanescentes de quilombolas podem ser urbanos ou rurais, sendo esse um fator decisivo na manutenção dos costumes, que serão influenciados pelo entorno. Nesse contexto, foram observadas diferenças nos hábitos e costumes entre as comunidades de Matinha dos Pretos e Paus Altos, as quais estão relacionadas ao desenvolvimento de cada comunidade e à interação com a cidade-sede.

Devido ao número de casas, à proximidade e à ocupação do espaço dos quintais pelas construções dos parentes, é possível denominá-los como quintais familiares (Figura 2C). A escassez de espaço levou à derrubada de árvores consideradas refúgio para o sertanejo e com potencial socioeconômico, cultural e ambiental para a sobrevivência, como o umbuzeiro (Spondias tuberosa Arruda) (MATOS et al., 2020), para dar lugar às casas que foram sendo construídas ao longo do tempo.

Figura 2
Fotos do cotidiano, dos quintais e algumas plantas das Comunidades Remanescentes de Quilombolas de Matinha dos Pretos em Feira de Santana e Paus Altos em Antônio Cardoso na Bahia.

As lembranças dos momentos difíceis fazem parte da memória dos remanescentes de quilombolas.

“Minha mãe trabalhou duro para criar os filhos nas fazendas dos Srs. Fulanos. Vendendo o dia para nos alimentar [...]. Eu e meu filho de criação compramos dois lotes.” (Srta. P., Paus Altos, 79 anos).

“Nós trabalhávamos de ganho. Toda semana um dia era do patrão, para pagar pela moradia. Então economizamos, juntamos o dinheiro de trabalho, de porco, galinha, roça, e compramos nosso pedacinho de terra.” (Sra. C., Paus Altos, 76 anos).

As falas tratam das dificuldades para sobreviver, reforçando o esforço dos antepassados e a vontade de ter a posse da terra. Os avós e pais compraram ou herdaram as porções de terra que são seus quintais, onde moram. Esses quintais variam em tamanho e geralmente são limitados por cercas, sendo divididos em pequenos espaços onde criam os animais ou fazem a plantação. Apesar de todo o esforço para conquistar a terra e da alegria de possuí-la, convivem com a angústia de não terem o reconhecimento de seu território quilombola pelo INCRA.

Sobre a cultura, em Paus Altos, preservam-se os costumes rurais, como o “aboiar”, dar água aos animais nas fontes e criar cachorros, aves e pequenos animais, além de animais de grande porte, como bovinos. Em contraste, em Matinha dos Pretos, o ambiente urbano se mostra mais presente, e as posses de terras são menores.

“A gente cria umas duas cabecinhas de gado, que serve para desapertar, e umas ovelhinhas e galinhas para dar ovo e, de vez em quando, fazer um fresco.” (Sr. O., Paus Altos, 94 anos).

“Fresco” aqui tem o sentido de carne abatida na hora. As pessoas que moram em locais com pouco acesso aos mercados e frigoríficos costumam abater animais para comer uma carne “fresca” ao receber uma visita nos dias de domingo ou quando acaba a proteína da casa. Os espaços dos quintais são utilizados por essas comunidades também para criar animais, como aves e suínos, que contribuem como fonte de proteínas para a família, bem como “desapertar”, no sentido de vender alguma parte da produção para conseguir algum dinheiro. Esses hábitos foram observados nas duas comunidades, porém, em Matinha dos Pretos, por ser um povoado com comércio mais estruturado, a criação de animais é menos intensa.

As plantas utilizadas pelas CRQ de Matinha dos Pretos e Antônio Cardoso são, em maioria, aquelas conservadas em seus quintais, refletindo o grau de degradação da caatinga. A partir da análise dos dados coletados, observou-se que as comunidades apresentam uma diversidade semelhante e condizente com o bioma Caatinga (Tabela 1 e Material Suplementar 11). Entretanto, em Paus Altos, há um maior consumo de plantas alimentícias silvestres.

Tabela 1
Dados gerais de pesquisa de campo realizada nas CRQ (Comunidade Remanescente de Quilombola) Matinha dos Pretos e Paus Altos na Bahia.

Biodiversidade

Nos dez quintais estudados, foram citadas um total de 148 espécies (159 etnoespécies), sendo 115 medicinais e 66 alimentícias, formando um mosaico de espécies nativas, cultivadas e naturalizadas (Tabela 1). A diversidade dos quintais está bem representada com 50 famílias botânicas, sendo as mais frequentes Asteraceae, Lamiaceae (11 spp. cada) e Fabaceae (10 ssp.). A presença das espécies Musa sp., Cocos nucifera, Psidium guajava, Mangifera indica, Carica papaya e Citrus sp. corrobora o que vem sendo registrado para quintais tropicais (WEZEL e BENDER 2003; KEHLENBECK e MASS 2004; ALBUQUERQUE et al., 2005) (ver material suplementar 1).

Das 148 plantas citadas para os quintais, 36 espécies têm usos tanto alimentícios quanto medicinais, e 17 não foram identificadas, pois não foi possível coletá-las ou identificá-las durante o período de campo. As justificativas para a ausência dessas plantas nos quintais foram a falta de chuva, capina ou o fato de ainda não terem nascido.

Figura 3
Gráficos com as origens (A) e usos (B) das espécies citadas para quintais das comunidades de Paus Altos e Matinha dos Pretos na Bahia.

No Gráfico A da Figura 3 é possível observar a predominância das plantas nativas sobre as cultivadas e naturalizadas. Autores como Vandebroek & Voeks (2018) discutem o fluxo de material botânico durante o período colonial no Brasil e a perda gradual dos costumes relacionados ao uso de plantas pelos diferentes povos que vieram para as Américas, incluindo os africanos em condição de escravidão. Eles citam várias espécies que desapareceram, bem como aquelas trazidas da África, como o quiabo, ou fruto do intercâmbio entre os povos originários, como a mandioca e o aipim, que passaram a ser cultivadas em larga escala no Brasil e foram citadas pelas duas comunidades deste estudo.

Sobre as plantas alimentícias “convencionais”, das 30 espécies, as mais citadas foram Mangifera indica (manga), Mentha piperita e Plectranthus amboinicus (hortelã-miúdo e graúdo). Entre as não convencionais, a mais citada foi Amaranthus viridis (bredo). A Spondias tuberosa (umbu), apesar de ser uma espécie considerada importante para o bioma Caatinga, foi encontrada apenas em dois quintais de Paus Altos e um de Matinha dos Pretos. Já entre as medicinais, as cultivadas mais citadas foramLippia alba (erva-cidreira), Cymbopogon citratus (capim-santo) e Cenostigma pyramidale (caatingueira). (Material Suplementar 1).

A troca de sementes, rebentos, mudas e outros materiais para plantio é uma prática comum em várias partes do mundo (BAN; COOMES, 2004) e compõe a flora dos quintais juntamente com as plantas alimentícias e medicinais nativas ou silvestres, conhecidas como ervas daninhas (VOEKS; LEONY, 2004). Esses fatores contribuem de forma significativa para enriquecer a diversidade florística dos quintais.

No processo de preparação da terra para o cultivo de plantas convencionais, como o feijão e o milho, nem sempre se utiliza o arado, e isso ocorre conforme o período de chuva. As sementes podem ser compradas na região ou preservadas em vasilhames tipo “garrafas pet”, entre um plantio e outro. Quando há plantação ou colheita, realiza-se um “adjutório” ou “digitório”, conforme os participantes. Nessas oportunidades, além da confraternização entre amigos e vizinhos, também há um bom momento para “puxar” a cantoria e lembrar dos antepassados (Figuras 2A e 2E).

Sobre os quintais, Amaral & Guarim-Neto (2008) afirmam que esses espaços são as formas de manejo mais antigas e sustentáveis da terra. Há semelhança entre as comunidades na diversidade botânica e nos usos das espécies nas categorias alimentícia e medicinal. Entretanto, os dados revelaram que Paus Altos apresenta 79,05% das espécies citadas, e Matinha dos Pretos, 69,59%. As plantas alimentícias são cultivadas conforme as chuvas, sendo que as PANC correspondem a mais de 40% das espécies dessa categoria (Gráfico B da Figura 3).

Foi observado o predomínio de espécies herbáceas e arbustivas em detrimento de arbóreas. Esse fator está relacionado aos costumes alimentares, ao tamanho dos quintais e à necessidade de otimizar o espaço para a construção das casas e o plantio estacional. As espécies herbáceas, apesar de perenes, são mantidas no processo de capina dos quintais pelo seu potencial alimentício ou medicinal. Já entre as arbóreas, as mais encontradas foram mangueira, jaqueira e cajueiro, plantas cultivadas, em detrimento de espécies nativas como mandacaru, juazeiro e caatinga-de-porco, que, apesar de representativas da caatinga, são subutilizadas ao ponto de serem retiradas dos quintais (Material Suplementar 1).

A Figura 2 apresenta fotografias retiradas nas comunidades de Matinha dos Pretos e Paus Altos e representam o registro de algumas espécies que não foram coletadas, bem como situações vivenciadas nos quintais que fizeram parte do estudo.

Plantas Medicinais e espirituais

Neste estudo, foram consideradas plantas medicinais aquelas utilizadas pelas comunidades para tratar todos os males, sejam eles físicos ou espirituais. Nas duas comunidades, apesar de utilizarem os medicamentos convencionais, todos(as) complementam os tratamentos com o uso das plantas encontradas nos quintais.

Os dados revelaram uma predominância no uso de plantas medicinais nas duas comunidades. Nessa categoria, as espécies mais citadas foram Cenostigma piramidale e Cymbopogon citratus (7 e 6 citações respectivamente). Verificou-se ainda que o acesso ao conhecimento e uso dessas plantas está relacionado à idade do morador. As pessoas mais idosas, além do conhecimento, demonstram maior confiança no poder curativo das plantas, conforme demonstra a fala abaixo.

“Minha neta adoeceu [...] vomitando [...] e a minha filha correu para o terreiro parar chamar o carro e levar para a emergência. Aí eu disse, peraí, fiz um chá de pau-de-rato, botei umas gotas de dipirona dentro do chá e dei. Logo ela adormeceu e passou a doença.” (Sra. Q, Matinha dos Pretos, 59 anos).

Percebe-se que a reação da pessoa mais jovem é buscar imediatamente o apoio do serviço público de saúde. Isso denota certa desvalorização do conhecimento que a comunidade possui sobre o poder terapêutico das plantas, o que pode ser uma das justificativas para a erosão do conhecimento tradicional associado.

Das 117 plantas citadas como medicinais, treze são utilizadas para tratar as doenças de cunho espiritual ou afastar os maus espíritos. São elas: arruda, vassourinha, margarida, tapete-de-oxalá, espada-de-santa-bárbara, espada-de-são-jorge, espada-de-ogum (Figura 2H), cabeça-de-frade, guiné, dandá, tira-teima, quarana e jasmim-de-são-cosme. Dessas, exceto as três primeiras, todas foram referidas apenas para tratamentos espirituais nos rituais da religião afro-brasileira.

O número expressivo de plantas medicinais citadas demonstra a dependência dessas comunidades dos recursos naturais, bem como a dificuldade de acesso aos tratamentos da medicina ortodoxa. Conforme o demonstrado na Tabela 2, houve um maior número de citações para as doenças do trato digestório e respiratório, corroborando com o que foi descrito em revisão bibliográfica para plantas medicinais da caatinga (REIS et al., 2023), seguidas das geniturinárias, cardiovasculares e nervosas.

As doenças relacionadas a esses sistemas humanos (gripe, resfriado, prisão de ventre, dor de barriga) são frequentes, especialmente em crianças e idosos, sendo consideradas de fácil manejo no tratamento. Entretanto, doenças consideradas mais difíceis de tratar, como o câncer, também foram relatadas. Sobre as partes vegetais mais utilizadas, sobressaem-se as folhas (RIBEIRO et al., 2014) e os frutos, com menor uso das raízes, indicando a preservação do espécime (Tabela 2). Este costume faz parte do manejo e conservação do ambiente atribuído aos povos e comunidades tradicionais.

No Brasil, apesar do SUS, o acesso aos tratamentos médicos ainda é difícil, especialmente para as pessoas com menos recursos ou que moram afastadas dos grandes centros urbanos. Até os anos 2000, além das dificuldades financeiras, muitas CRQ não dispunham de infraestrutura e transporte para os centros urbanos, dificultando a locomoção das pessoas. Nesse contexto, o caminho natural para o enfermo era buscar tratamento na própria comunidade, recorrendo-se às ervas e outros recursos que aliviassem suas dores.

Tabela 2
Média entre o nº de citações de usos de plantas por Sistemas Humanos e entre o nº de citações de partes das plantas e seus usos.

Encontramos etnoespécies com nomes populares distintos de uma comunidade para outra, ou ainda, mais de um nome em uma mesma comunidade. Bidens pilosa (picão e carrapicho-de-agulha), Acanthospermum hispidum (buticudo e juiz-de-paz) são exemplos de plantas conhecidas por mais de um nome popular na mesma comunidade. Já Sanseveria trifasciata (espada-de-são-jorge e espada-de-santa-bárbara) e Borreria verticillata (carqueja-branca e carqueja-preta) correspondem a etnoespécies diferentes, masrepresentam uma mesma espécie botânica (ver Material Suplementar 1).

Em Paus Altos, há a criação de abelhas, e as etnoespécies carqueja-branca, carqueja-preta e carqueja-cabeça-de novelo, além do uso medicinal, são muito importantes para a produção de mel. Carqueja em flor é sinônimo de maior produção de mel.

A importância feminina no cuidado com os quintais e a conservação do conhecimento tradicional em Matinha dos Pretos e Paus Altos

Dos quintais que fizeram parte deste estudo, oito são cuidados por mulheres, viúvas ou mães-solo, e em apenas dois quintais, um em cada comunidade, o cuidado é compartilhado pelo casal. Nos demais, quando o homem está presente na família, os afazeres se resumem ao trabalho de “ganho”, que corresponde a “vender o dia”, e, nos momentos de folga, quando se dedicam aos quintais, o cuidado está atrelado ao cultivo das plantas convencionais, como batata, mandioca, feijão e milho, condizendo com Camou-Guerrero et al. (2008), ao tratarem sobre influência do gênero quando se referem à gestão dos espaços nas hortas.

Quanto aos saberes tradicionais relacionados aos vegetais, as mulheres demonstraram maior conhecimento dos preparos e indicações das plantas dos quintais, uma vez que também são responsáveis pelo cuidado na alimentação, saúde e higiene da casa, corroborando com Voeks & Leony (2004), ao estudar outras comunidades do nordeste brasileiro.

Sobre a transmissão dos saberes, todos relataram que aprenderam com os antepassados e citaram as mães, avós e tias como referências. Quanto ao passar esses saberes para os mais jovens, afirmaram que procuram ensiná-los, porém os relatos apontam uma diminuição nessa transmissão, influenciada pela ascensão da tecnologia, melhorias na qualidade de vida e mudanças de hábitos relacionados com a fé.

“Hoje os meninos só querem saber da televisão, do celular. Muitos nem querem estudar. No meu tempo de menina, nós ficávamos na barra da saia de nossa mãe e ali ia aprendendo.” (Srta. P., Paus altos, 79 anos).

Ainda sobre a transmissão dos saberes tradicionais, Jafelice (2012) aponta que a construção desses saberes envolve necessidades de subsistência e tempo para se consolidar. O mesmo autor denuncia o preconceito em relação a esses saberes e aos conhecedores tradicionais pelo fato de serem pessoas pouco escolarizadas, mas ressalta a significância epistemológica e a importância histórico-cultural dos conhecimentos tradicionais. Os conhecimentos transmitidos oralmente de geração a geração constituem patrimônio cultural imaterial, capaz de instrumentalizar o desenvolvimento sustentável, enriquecer a ciência e colaborar com a conservação da agrobiodiversidade (BERTOLDI, 2014; DUARTE et al., 2016).

A inserção de equipamentos tecnológicos, como televisão e celular, é citada pelos entrevistados como indicador de erosão cultural, pois diminuiu os bate-papos e os contos de causos que aconteciam nas visitas aos familiares e vizinhos. Nesses momentos, fala-se de tudo, desde as notícias dos familiares, adoecimentos e curas, inclusive as receitas de culinária e da medicina popular.

Sobre as plantas medicinais, os relatos de tratamentos de saúde à base de plantas são maiores na comunidade de Paus Altos do que em Matinha dos Pretos. A distância entre os municípios de Antônio Cardoso e Feira de Santana é um dos fatores que estimularam, por exemplo, a ação das parteiras (mulheres que auxiliam no momento do nascimento das crianças). Essa prática, quase extinta, foi substituída pelo recurso aos cuidados da medicina convencional quando as mulheres começam a sentir as dores de parto.

Minha filha, com estas mãos que Deus me deu, ajudei muitas crianças a vir ao mundo. Dificilmente eu perdia uma […]”. (MD, Paus Altos, 86 anos).

A atuação das parteiras foi marcante nas comunidades rurais, especialmente nas mais afastadas das cidades. A figura das “parteiras” desempenhou um papel essencial em um período em que o acesso ao sistema básico de saúde era ainda mais precário (SANTIAGO, 2019). A substituição dessa prática milenar de partejar pelo modelo biomédico-hospitalocêntrico configura mais um movimento de desvalorização do cuidado popular e da cultura promovendo a submissão das pessoas à hegemonia do conhecimento científico (BONFIM et al., 2018).

O lazer e a vida familiar nos quintais quilombolas

A valorização dos espaços pela urbanização promoveu a diminuição dos quintais nas áreas urbanas. Na zona rural, esse fenômeno ainda não é tão evidente. Entretanto, nas CRQs urbanas ou rurais, a terra representa um espaço de luta e nunca foi plenamente disponível. Por isso, os quintais quilombolas são tão explorados pelas famílias, dada a sua importância enquanto espaço de pertencimento e afirmação de posse. Nos quintais, a parentela se reúne para celebrar a vida em família.

“Os parentes veem para cá e não querem mais voltar, você precisa ver. É só farra. Alguns ficam aqui a semana toda.” (Sra. L., 74 anos, Matinha dos Pretos).

Esses momentos são comuns em períodos de férias ou quando há festividades locais. Os familiares que moram afastados e que apreciam a família, o lugar de origem e as manifestações culturais, aproveitam esses períodos para visitar a comunidade. Mas também costumam se reunir diariamente, ao final da tarde, para prosear.

“Tá vendo aquela ruma de lenha? Serve para fazer a fogueira. Toda noite tem filhos e netos por aqui e, às vezes, alguns amigos. No final da tarde, a gente já acende a fogueira e coloca a panela de chá no fogo. E a gente fica aí conversando até altas hora.” (Sr. O, 94 anos, Paus Altos).

A lenha utilizada para a queima, retirada dos pastos e matas ainda existentes na região, costuma ser coletada ou comprada. Esse costume de queimar lenha persiste nas duas comunidades.

Plantas alimentícias cultivadas, silvestres e exóticas

Os dados revelaram uma predominância de uso de plantas alimentícias convencionais e cultivadas nos quintais. Entretanto, as PANC e silvestres também são reconhecidas como recurso disponível, embora pouco aproveitadas, confirmando o que foi observado sobre plantas alimentícias espontâneas (SILVA et al., 2021). As justificativas para o baixo consumo incluem a falta de tempo para o preparo e a dificuldade de acesso, uma vez que moram em região de pouca chuva e as plantas silvestres nem sempre estão presentes.

Entre as PANC, as duas mais citadas na comunidade foram o bredo (Amaranthus viridis) e a língua-de-vaca (Talinum fruticosum). Entre as plantas com partes alimentícias não convencionais, está a banana (Musa spp.), cujas partes aproveitáveis incluem, além do fruto (parte convencional), as cascas e o mangará (coração da bananeira, que é a flor). Alguns até sabem que tais partes vegetais podem ser consumidas, mas geralmente descartam, mesmo nas famílias que têm falta de alimento. A falta de conhecimento sobre as PANC contribui significativamente para essa subutilização.

Etnobotânica quilombola para além dos quintais

Os dados coletados permitem comparar os aspectos bioculturais entre as comunidades estudadas. Enquanto Matinha dos Pretos apresenta características urbanas, Paus Altos preserva aspectos típicos de uma zona rural. Em relação à escolaridade, observa-se que em Paus Altos há pessoas cursando graduação ou pós-graduação, enquanto em Matinha dos Pretos o número de indivíduos cursando ensino superior é mais expressivo. Isso pode ser justificado pela proximidade com a Universidade Estadual de Feira de Santana e com a Universidade Federal do Recôncavo, ambas localizadas em Feira de Santana.

A expressão de crenças relacionadas ao uso das plantas medicinais é marcante nas duas comunidades. A religião predominante é o Cristianismo (principalmente católicos e evangélicos), embora também existam adeptos das religiões de matriz africana. Apesar da convivência harmoniosa, percebe-se certo constrangimento assumir a prática dessas religiões. Mesmo com esforços educativos realizado nas últimas décadas, que incluem debates e discussões sobre igualdade, respeito e combate à intolerância religiosa, ainda há, de forma sútil ou velada, a desconfiança e receio em declarar-se praticante de “funções e rezas”.

Os que se identificam como evangélicos abandonaram as práticas das rezas associadas ao uso das plantas em tratamentos de doenças, mas ainda utilizam chás, emplastros e xaropes com fins medicinais.

“Depois que eu aceitei Jesus, abandonei muita coisa que eu usava.” (Sra. C., 76 anos, Paus Altos).

“O dandá serve para afastar olho ruim e a vassourinha usa para rezar de desânimo.” (Srta. P., Paus Altos, 74 anos).

Independentemente de ser evangélico, expressado (primeira fala), ou praticante das religiões de matriz africana (segunda fala), com festas para os santos, tratamentos com rezas pela cura de enfermidades e utilização de plantas como vassourinha e dandá, a comunidade em geral faz uso das plantas medicinais preservando a cultura local.

Além de utilizarem as plantas dos quintais e das pequenas roças para consumo próprio, ambas as comunidades comercializam o excedente nas feiras livres, corroborando estudos que destacam a importância dos quintais para a economia doméstica (LEALet al., 2020). Assim, esses espaços oferecem parte dos recursos necessários para atender às demandas de nutrição e saúde.

Quando a seca inviabiliza a produção local, as famílias abastecem suas despensas em mercadinhos da comunidade ou nas sedes dos municípios onde há grandes mercados que oferecem maior variedade de produtos, preços mais acessíveis e facilidades no pagamento.

Plantas Ornamentais

Embora não seja um dos objetivos deste estudo, foi observada a categoria de plantas ornamentais. Elas estão presentes em todos os dez quintais e dentro das casas, compondo a decoração intra e peridomiciliar. Assim como com os demais grupos de plantas, elas são socializadas dentro da comunidade e podem vir de diferentes regiões, fruto de viagens e visitas de familiares e amigos. Siviero et al. (2014), ao pesquisarem as plantas ornamentais em quintais urbanos em Rio Branco - Acre, falam de uma rede social reforçada pelo intercâmbio de conhecimentos tradicionais.

Moura & Oliveira (2022), ao estudarem os quintais em Mossoró, observaram que as plantas ornamentais estão posicionadas na frente das casas. Em Matinha dos Pretos e Paus Altos, notou-se que essas plantas podem ser encontradas tanto na frente das casas quanto ao redor delas, evidenciando que o posicionamento no quintal não é uma preocupação, mas sim a presença do espécime

Considerações finais

Os quintais são de grande importância para essas comunidades e representam seus espaços de resistência frente ao processo de homogeneização socioeconômica e cultural observado na sociedade. O manejo do solo e das técnicas de cultivo revelam o cuidado na conservação do solo e das espécies vegetais. Nos quintais, ocorre a troca de saberes, a preservação e a conservação da cultura e da biodiversidade, além das confraternizações, lazer e cultivo das plantas utilizadas pelas famílias. Há uma etnobiodiversidade, com predominância de plantas medicinais, em ambas as comunidades.

A posse da terra ainda é uma questão que exige a atuação dos órgãos públicos, para que esse direito seja plenamente usufruído pelas comunidades remanescentes de quilombolas, assim como pelos povos originários.

Embora apresentem uma rica biodiversidade, os pequenos terrenos para cultivo são frequentemente revolvidos, o que leva à diminuição da vegetação espontânea ao longo dos anos. Esse processo resulta em mais um fator que contribui para a erosão cultural, já que, ao interromper o ciclo de vida das espécies, compromete sua preservação. Consequentemente, isso dificulta a utilização das plantas, diminuindo a troca de saberes, a identificação e o consumo dessas espécies pelas gerações mais jovens.

Quanto ao cuidado dos quintais, as mulheres são as principais responsáveis pelo cultivo das plantas, incluindo a capina, preservando as plantas úteis. Muitas vezes, elas também assumem a tarefa de transmitir os conhecimentos para as gerações seguintes. Observou-se um processo de erosão cultural gradual associado à modernidade, principalmente no que diz respeito uso de equipamentos tecnológicos.

A predominância de uso de plantas medicinais em detrimento das alimentícias nos quintais pode ser atribuída ao desenvolvimento do comércio local e às facilidades para aquisição de alimentos industrializados, que se mostram tão atrativos e apetitosos nos apelos dos anúncios midiáticos.

As PANC, sejam cultivadas ou silvestres, estão presentes como recurso, porém são subutilizadas. As justificativas para o pouco consumo são diversas, incluindo o desconhecimento, a falta de tempo para o preparo, o preconceito e a dificuldade de acesso, uma vez que moram em região de pouca chuva, o que faz com que as plantas espontâneas nem sempre estejam disponíveis.

O número elevado de plantas cultivadas confirma o intercâmbio de material botânico que ocorre graças aos deslocamentos humanos ao longo dos anos. No caso das plantas utilizadas nas CRQ, esta diversidade de espécies cultivadas e naturalizadas também está relacionada ao processo de escravização dos povos negros, que foram arrancados de suas terras e, para sobreviver, transportaram recursos vegetais importantes, passando a cultivá-los ou começando a utilizar outros recursos existentes no novo habitat (CAMARGO, 2014).

Algumas das plantas citadas estão relacionadas com o ofício das parteiras, uma prática comum, principalmente na comunidade de Paus Altos. Uma tentativa de resgatar a prática do parto natural é o Projeto Rede Cegonha, do Ministério da Saúde, que busca reduzir as cesarianas no Brasil. Assim o ofício de partejar pode significar a retomada de uma função milenar, em espaços apropriados que garantam a segurança da mãe e do bebê, e, quem sabe, a inclusão das ervas, diminuindo a utilização dos fármacos.

Uma alternativa para potencializar o uso das plantas seria promoção de cursos de formação, seminários e/ou mesa-redonda nas associações e escolas das comunidades. Com isso contribuiria para a melhoria da saúde básica, o consumo consciente, e a diminuição da desnutrição e da fome, conforme propõe o segundo Objetivo para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.

Agradecimentos

Agradecemos aos moradores das Comunidades de Paus Altos e Matinha pela hospitalidade e colaboração ao longo da pesquisa. Agradecemos também ao programa de pós-graduação em Recursos Genéticos Vegetais da Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, pelo apoio financeiro ao projeto. Por fim, agradecemos às equipes do Laboratório de Flora e Vegetação (FLOVE) e do Herbário (HUEFS).

Referências bibliográficas

  • ABDO, M. T. V. N.; VALERI, S. V.; MARTINS, A. L. M. Sistemas agroflorestais e agricultura familiar: uma parceria interessante. Revista Tecnologia & Inovação Agropecuária, v. 1, n. 2, p. 50-59, 2008.
  • ALBUQUERQUE, U. P.; ANDRADE, L. H. C.; CABALLERO, J. Estrutura e florística de quintais no Nordeste do Brasil. Jornal de Ambientes Áridos, v. 62, n. 3, p. 491-506, 2005.
  • ALBUQUERQUE, U. P.; LUCENA, R. F. P.; ALENCAR, N. L. Métodos e técnicas para coleta de dados etnobiológicos. In: ALBUQUERQUE et al. (eds.). Métodos e técnicas na pesquisa etnobiológica e etnoecológica. Recife: Nupeea 2010.
  • ALMADA, E. D.; SOUZA, M. O. E. Quintais como patrimônio biocultural. In: ALMADA, E. D.; SOUZA, M. O. E. (Orgs.). Quintais: Memória, resistência e patrimônio biocultural. 1. ed. Belo Horizonte: Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais, v. 1, p. 15-29, 2017.
  • AMARAL, C. N.; GUARIM-NETO, G. Os quintais como espaços de conservação e cultivo de alimentos: um estudo na cidade de Rosário Oeste (Mato Grosso, Brasil). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, v. 3, n. 3, p. 329-341, 2008.
  • BAN, N.; COOMES, O. T. Hortas caseiras na Amazônia peruana: diversidade e intercâmbio de material de plantio. Revista Geográfica, v. 94, n. 3, p. 348-367, 2004.
  • BERTOLDI, M. R. Saberes tradicionais como patrimônio cultural imaterial dinamizador do desenvolvimento sustentável. Revista Novos Estudos Jurídicos, v. 19, n. 2, p. 559-584, 2014.
  • BONFIM, J. O.; PRADO, I. F.; BOA SORTE, E. T.; COUTO, P. L. S.; FRANÇA, N. M.; GOMES, A. M. T. Práticas de cuidado de parteiras e mulheres quilombolas à luz da antropologia interpretativa. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, v. 31, n. 3, p. 1-11, 2018.
  • CALÁBRIA, L. et al. Levantamento etnobotânico e etnofarmacológico de plantas medicinais em Indianópolis, Minas Gerais, Brasil. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v. 10, n. 1, p. 49-63, 2008.
  • CAMOU-GUERRERO, A.; REYES GARCÍA, V.; MARTÍNES-RAMOS, M.; CASAS, A. Knowledge and use value of plant species in a Rarámuri community: A gender perspective for conservation. Human Ecology, v. 36, n. 2, p. 259-272, 2008.
  • CAMARGO, M. T. L. A. As plantas medicinais e o sagrado: a etnofarmacobotânica em uma revisão historiográfica da medicina popular no Brasil. São Paulo: Ícone Editora, 2014.
  • CARMO, M. S. O potencial dos quintais produtivos numa comunidade quilombola no Território do Recôncavo da Bahia. 2018. Disponível em: http://ri.ufrb.edu.br/jspui/handle/123456789/1847 Acesso em 08/10/2023.
    » http://ri.ufrb.edu.br/jspui/handle/123456789/1847
  • DUARTE, G. S. D.; HOOGERHEIDE, E. S. S.; REIS, J. C.; SOUZA, G. F.; SILVA, J. F. V. Produção de farinha de mandioca: subsistência e tradição cultural na comunidade São Benedito, Poconé, MT, Brasil. Cadernos de Agroecologia, v. 11, n. 2, 2016.
  • FLORENTINO, A. T. N.; ARAÚJO, E. L.; ALBUQUERQUE, U. P. Contribuição de quintais agroflorestais na conservação de plantas da Caatinga, Município de Caruaru, PE, Brasil. Acta Botanica Brasilica, v. 21, p. 37-47, 2007.
  • FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.
  • GAZEL FILHO, A. B. G. Composição, estrutura e função de quintais agroflorestais no município de Mazagão, Amapá. Belém: Embrapa - Amazônia Oriental, 2008.
  • GOMES, F. L. Quintais produtivos e resiliência alimentar nos espaços da reforma agrária. Revista Craibeiras de Agroecologia, v. 1, n. 1, 2017.
  • JAFELICE, L. C. Etnoconhecimentos: por que incluir crianças e jovens? Educação intercultural, memória e integração intergeracional em Carnaúba dos Dantas. Revista Inter-Legere, n. 10, 2012.
  • KABIR, M. E.; WEBB, E. L. Can homegardens conserve biodiversity in Bangladesh? Biotropica, v. 40, n. 1, p. 95-103, 2008.
  • KEHLENBECK, K.; MASS, B. L. Crop diversity and classification of homegardens in Central Sulawesi Indonésia. Agroforestry Systems, v. 63, p. 53-62, 2004.
  • KINUPP, V. F.; LORENZI, H. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas. São Paulo: Instituto Plantarum de Estudos da Flora, 2014.
  • LEAL, L. S. G.; FILIPAK, A.; DUVAL, H. C.; FERRAZ, J. M. G. B.; FERRANTE, V. L. S. B. Quintais produtivos como espaços da agroecologia desenvolvidos por mulheres rurais. Perspectivas em Diálogo: revista de educação e sociedade, v. 7, n. 14, p. 31-54, 2020.
  • MATOS, F. S.; FREITAS, I. A. S.; PEREIRA, V. L. G.; PIRES, W. K. L. Efeito da giberelina no crescimento e desenvolvimento de mudas de Spondias tuberosa. Revista Caatinga, v. 33, p. 1124-1130, 2020.
  • MEYER, M. Quintal Espaço ecológico e cultural. In: ALMADA, E. D.; SOUZA, M. O. (Orgs.). Quintais: Memória, resistência e patrimônio biocultural. 1. ed. Belo Horizonte: Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais, 2017, v. 1, p. 15-29.
  • MEDEIROS, M. F. T. et al. Dictionary of ethnobiology and related areas. Suiça: Springer International Publishing, 2016. p. 273-310.
  • MOURA, A. P.; OLIVEIRA, A. M. Etnobotânica nos quintais urbanos em Mossoró-RN. Ambiente & Sociedade, v. 25, 2022.
  • OAKLAY, E. Quintais Domésticos: uma responsabilidade cultural. Agriculturas, v. 1, n.1, p. 37-39, 2004.
  • PEREIRA, C. N.; MANESCHY, R. Q.; OLIVEIRA, P. D.; SOUZA OLIVEIRA, I. K. Caracterização de quintais agroflorestais no projeto de assentamento Belo Horizonte I, São Domingos do Araguaia, Pará. Revista Agroecossistemas, v. 2, n. 1, p. 73-81, 2010.
  • PERIN, M. G. Educação ambiental: análise e crítica da erosão cultural e da biodiversidade no biocolonialismo. 2018. http://repositorio.ufsm.br/handle /1/12856 Acesso em 08/10/2023.
    » http://repositorio.ufsm.br/handle /1/12856
  • REIS, H. S.; PAZ, C. D.; COCOZZA, F. D. M.; OLIVEIRA, J. G. A.; SILVA, M. A. V. Plantas medicinais da caatinga: uma revisão integrativa dos saberes etnobotânicos no semiárido nordestino. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR, v. 27, n. 2, p. 874-900, 2023.
  • RIBEIRO, D. A.; MACÊDO D. G.; OLIVEIRA L. G. S.; SARAIVA, M. E.; OLIVEIRA, S. F.; SOUZA, M. M. A.; MENEZES, I. R. A. Potencial terapêutico e uso de plantas medicinais em uma área de Caatinga no estado do Ceará, nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v. 16, p. 912-930, 2014.
  • SANTIAGO, J. C. Arte de partejar: aprendizados e ensinamentos de mulheres parteiras de comunidades remanescentes de quilombos do Vale do Guaporé-RO. Revista Presença Geográfica, v. 6, n. 1, p. 194-200, 2019.
  • SANTOS, J. B. Comunidades Quilombolas do Portal do Sertão da Bahia: a luta entre o reconhecimento e a redistribuição. ILUMINURAS, v. 17, n. 41, 2016.
  • SILVA, L. H. P.; COSTA, F. N.; MURTA, N. M. G. “Não é mato à toa”: cultura alimentar e plantas espontâneas no Vale do Jequitinhonha, MG/Brasil. Ambiente & Sociedade, v. 24, 2021.
  • SIVIERO, A.; DELUNARDO, T. A.; HAVERROTH, M.; OLIVEIRA, L. C.; ROMAN, A. L. C.; MENDONÇA, A. M. S. Plantas ornamentais em quintais urbanos de Rio Branco, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, v. 9, p. 797-813, 2014.
  • TOLEDO, V. M.; BARRERA-BASSOLS, N. A memória biocultural: a importância ecológica das sabedorias tradicionais. 1. ed. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2015.
  • WEZEL, A.; BENDER, S. Plant species diversity of homegardens of Cuba and its significance for household food supply. Agroforestry Systems 57: 39-49, 2003.
  • VANDEBROEK, I.; VOEKS, R. A perda gradual de vegetais indígenas africanos na América tropical: uma revisão. Botânica Econômica, v. 72, p. 543-571, 2018.
  • VITÓRIO, M. A. P. História ambiental de quilombos: o caso das Terras de Preto da Matinha. 2015. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/ppgm.uefs.br/DISS_DEF_CIDA_ok.pdf Acesso em 08/10/2023.
    » https://s3.amazonaws.com/ppgm.uefs.br/DISS_DEF_CIDA_ok.pdf
  • VOEKS, R. A.; LEONY, A. Forgetting the forest: assessing medicinal plant erosion in eastern Brazil. Economic botany, v. 58, n. 1, p. S294-S306, 2004.
  • 1
    - https://doi.org/10.5281/zenodo.17410628
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Zenodo: https://doi.org/10.5281/zenodo.17410628
  • Editor Responsável
    Pedro Roberto Jacobi
  • Editor Associado
    Rylanneive Teixeira

Disponibilidade de dados

Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio da plataforma Zenodo: https://doi.org/10.5281/zenodo.17410628

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Jan 2025
  • Aceito
    01 Jul 2025
location_on
ANPPAS - Revista Ambiente e Sociedade Anppas / Revista Ambiente e Sociedade - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revistaambienteesociedade@gmail.com
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error