Open-access Percepção de Compra e Riscos Associados a Utilização de Domissanitários Desinfestantes

Resumo

Domissanitários desinfestantes são produtos destinados para desinfestação de ambientes domésticos e públicos. Assim, realizou-se uma avaliação preliminar sobre o perfil dos compradores de domissanitários desinfestantes em 3 cidades no Estado de Mato Grosso e a percepção de risco para a saúde humana e animal. Foram aplicados questionários semiestruturados para compradores e vendedores de desinfestantes em lojas agropecuárias, de forma não probabilística. Há percepção de risco no uso dos domissanitários pelos participantes da pesquisa e a confiança depositada pelos clientes sobre os vendedores foi evidente, bem como a necessidade de capacitá-los sobre os riscos dos desinfestantes aos seres humanos e animais. Considera-se relevante conscientizar a população acerca de prevenção e riscos na utilização desses produtos.

Palavras-chave:
Formação de Conceito; Disseminação de Informação; Tradição; Riscos à saúde humana; Animais domésticos

Abstract

Disinfestant household cleaners are products intended for the disinfestation of domestic and public environments in order to protect human health. Thus, a preliminary assessment was carried out on the profile of buyers of disinfestant household cleaners in 3 cities in the state of Mato Grosso and the perception of risk to human and animal health. Semi-structured questionnaires were applied to buyers and sellers of disinfestants in agricultural stores in the municipalities of Sinop, in Sorriso and in Lucas do Rio Verde, in a non-probabilistic way. There is a perception of risk in the use of household cleaning products by research participants and the trust placed by customers in sellers was evident once there was the need to train them on the risks posed by disinfestants to humans and animals. It is considered important to raise awareness among the population about prevention and risks when using these products.

Keywords:
Concept Formation; Information Dissemination; Tradition; Risks to humans; Domestic animals

Resumen

Los limpiadores domésticos desinfestantes son productos destinados para la desinfestación de ambientes domésticos y públicos. Así, se realizó una evaluación preliminar sobre el perfil de los compradores de productos de limpieza domésticos desinfectantes en 3 ciudades del Estado de Mato Grosso, y la percepción de riesgo para la salud humana y animal. Se aplicaron cuestionarios semiestructurados a compradores y vendedores de desinfectantes en tiendas agrícolas en Sinop, en Sorriso y en Lucas do Rio Verde, de forma no probabilística. Existe una percepción de riesgo en el uso de productos de limpieza del hogar por parte de los participantes de la investigación, y la confianza depositada por los clientes en los vendedores fue evidente, así como la necesidad de capacitarlos sobre los riesgos que representan los desinfectantes para humanos y animales. Se considera importante concientizar a la población sobre la prevención y riesgos al utilizar estos productos.

Palabras-clave:
Formación de Concepto; Difusión de la Información; Tradición; Riesgos para los humanos; Animales domésticos

Introdução

O grupo de domissanitários está entre os três agentes que mais causam intoxicações no Brasil (ALMEIDA et al., 2021). Segundo Sampaio et al. (2022) os casos de intoxicações por domissantários no Brasil são crescentes, passando de 1,4 casos em 100.000 habitantes para 3,9 casos de 2010 para 2019. Situação que demonstra a importância nos cuidados para o manuseio destes produtos, além de representarem um problema de saúde pública, pela expansão e frequência de uso entre os lares brasileiros (NETO et al., 2017).

A Lei n° 6.360 de 23 de setembro de 1976, define que os saneantes domissanitários como os produtos responsáveis pela higienização, desinfecção ou desinfestação domiciliar em ambientes coletivos e/ou públicos, em lugares de uso comum e no tratamento da água, compreendendo: inseticidas, raticidas, desinfetantes e detergentes (BRASIL, 1976).

Entende-se por domissanitário desinfestante os produtos destinados para a desinfestação domiciliar, em ambientes coletivos e públicos, compreendendo: os inseticidas, raticidas, jardinagem amadora, moluscicidas e repelentes (BRASIL, 2001).

Conforme apresentado por Cequinel e Rodrigo (2018), desinfestante domissanitário é sinônimo do termo agrotóxico e são substâncias desenvolvidas para interferir em processos biológicos naturais, portanto têm propriedades tóxicas prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente. Além disso, quase todos são misturas ou preparações com um ou mais princípios ativos, contendo também aditivos, solventes, coadjuvantes, excipientes e impurezas, que podem ser tão ou mais tóxicos que o princípio ativo principal.

O frequente uso de domissanitários desinfestantes no controle de pragas em ambientes domésticos demonstram a banalização do uso destes produtos como práticos e inócuos, desconsiderando os riscos/malefícios (MELLO; ROZEMBERG; CASTRO, 2015). A baixa percepção de riscos pelos consumidores atribuídos aos domissanitários desinfestantes os tem tornado cada vez mais presentes nos domicílios urbanos ao longo dos anos, deixando a população em risco (GALDIANO et al., 2021; NASCIMENTO et al., 2021).

O incomodo causado pela presença de certos animais, como ratos, baratas e caramujos, nas residências faz com que a população busque seu controle. Os domissanitários desinfestantes são uma subdivisão do grupo dos saneantes domissanitários que compreendem: os inseticidas, herbicidas para jardinagem amadora, moluscicidas, raticidas e repelentes (BRASIL, 2001). Estes saneantes apesar de serem importantes para a desinfestação, podem causar intoxicações para quem os manipulam.

Ainda se pode relatar que a ocorrência de intoxicações pode ser influenciada pelo manuseio e armazenamento inadequado do produto, podendo estar associado a falta de leitura dos rótulos/bulas e ao não uso ou uso inadequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) (ALMEIDA et al., 2022). Sampaio et al. (2022) ressaltaram que o uso e armazenamento adequado dos produtos domissanitários, além da conscientização da população, podem reduzir os riscos de intoxicações.

Os consumidores são geralmente, influenciados na compra por emoções próprias e por informações externas, como influência dos vendedores, familiares, mídias sociais, entre outros (SOUZA et al., 2022b). Mas não inibe a necessidade de se conhecer as informações do produto por meio da leitura dos rótulos/bulas, como a forma de uso e seus riscos, para garantir a segurança do manipulador.

Outra problemática no uso contínuo e descuidado de domissanitários em ambientes domésticos é a exposição dos animais domésticos a estes produtos, que podem ser tóxicos aos animais, como relatado por Jardim et al. (2021). Silva e Silva (2022) ressaltaram que a falta de conhecimento dos riscos envolvendo o uso dos domissanitários são uma das principais causas de intoxicação nos animais domésticos.

Os órgãos governamentais necessitam de políticas públicas que garantam a segurança dos consumidores de domissanitários desinfestantes no Brasil, implantando leis e fiscalizações mais rigorosas, quanto ao registro, produção, comercialização e pós-venda dos produtos desinfestantes. A divulgação dos riscos no uso dos desinfestantes a população, por meio de propagandas e campanhas públicas poderia auxiliar na redução dos casos de intoxicações.

Assim, considerando os riscos envolvendo o uso de domissanitários desinfestantes em ambientes domésticos, associados à escassez de estudos sobre os desinfestantes no Mato Grosso e no Brasil, tem se como objetivo realizar uma avaliação preliminar sobre o perfil do consumidor e sua percepção de risco quanto ao uso de desinfestantes para o ser humano e os animais, em três municípios no Estado de Mato Grosso.

Este trabalho vai de encontro aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 3), estabelecido pelas Nações Unidas em 2015, pois contribui para assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos.

Material e Métodos

O estudo foi realizado nos municípios de Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde, no Estado de Mato Grosso. A cidade de Sinop está localizada a 11º50’53” de latitude sul e 55º38’57” de longitude oeste de Greenwich, 384 metros de altitude, em planície, com estimativa de 146 mil habitantes (IBGE, 2021a); Sorriso está localizada a 12° 33’ 31’’ de latitude Sul e 55° 42’ 51’’ longitude Oeste, com 386 metros de altitude, com estimativa de 92.700 habitantes (IBGE, 2021b); Lucas do Rio Verde está localizada a 13° 01’ 59” de latitude sul e a 55° 56’ 38’’ de longitude oeste, com altitude de 398 metros, com estimativa de 67.600 habitantes (IBGE, 2021c). Os municípios foram escolhidos por serem grandes produtores agrícolas e estarem em franca expansão urbana, consequentemente com potencial de crescimento no emprego dos domissanitários desinfestantes.

A pesquisa foi realizada por meio de questionários semiestruturados, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (Parecer número 5.035.880 de 13/10/2021 / CAAE: 51778421.9.0000.8097), e aplicados em lojas agropecuárias dos três municípios selecionados, sendo três lojas no município de Sinop, duas em Sorriso e duas em Lucas do Rio Verde. Visando diferentes percepções, questionários diferenciados foram aplicados para os compradores de domissanitários desinfestantes e outro para os vendedores das lojas agropecuárias, no período de novembro de 2021 a agosto de 2022. Foram aplicados 206 questionários aos compradores e 24 questionários aos vendedores, os participantes foram abordados com uma breve explicação sobre a pesquisa e posterior convite para participação. A amostra foi feita de forma não probabilística por conveniência (PRADO et al., 2021). Para a aplicação dos questionários foi considerado os dias de maior fluxo de clientes, informado pelos gerentes ou proprietários das lojas agropecuárias, que seriam os dias próximos ao final de semana principalmente sexta-feira e sábado. Mas foi evitada a primeira semana do mês, pois, apesar do grande fluxo, as pessoas estariam mais apresadas e, provavelmente, haveria maior negação em participar da pesquisa.

Como critérios de inclusão, estabeleceu-se que os participantes tivessem 18 anos ou mais, tivessem realizado a compra de algum domissanitário desinfestante durante o período em que o pesquisador estivesse na loja, que aceitassem participar da pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e que aceitassem responder o questionário semiestruturado com questões sobre o perfil dos participantes, orientações de compras de domissanitários desinfestantes e sobre a percepção de risco quanto ao uso dos produtos, contendo 10 questões para o grupo de compradores e 5 questões para o grupo dos vendedores. Com a finalidade de garantir o anonimato dos questionados, nesse estudo foi utilizado código: número da loja + sigla do município (SN = Sinop, SR = Sorriso, ou LRV = Lucas do Rio Verde) + número do questionado (por ordem crescente).

Para melhor compreensão dos dados apresentados no decorrer deste trabalho as seguintes definições foram adotadas:

Agrotóxicos: são produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, assim como pastagens, florestas nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos (BRASIL, 1989);

Pesticida: Substância empregadas para a desinfestação, como o controle de insetos, ratos, moluscos e plantas daninhas (BARONAS, 2019).

Resultados e Discussão

Os compradores participantes desta pesquisa, em sua maioria, foram do gênero masculino (81,5%), com idade variando entre 18 e 80 anos, apresentando maior concentração na faixa etária de 40 a 49 anos (Tabela 1). Com relação à escolaridade, 45,0% apresentaram, pelo menos, ensino médio completo (Tabela 1). Quanto ao perfil dos vendedores, constatou-se que cerca de 96% (23) foram do gênero masculino, 67% apresentaram idade inferior a 29 anos, e a escolaridade com ensino médio completo representou 71% (Tabela 1).

Tabela 1
Perfil social dos compradores e vendedores participantes da pesquisa nos municípios de Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde (MT), no período de novembro de 2021 a agosto de 2022.

Mello, Rozemberg e Castro (2015) constataram que, na região metropolitana do Rio de Janeiro, o gênero feminino representava cerca de 70,0% entre os questionados sobre o uso de domissanitários desinfestantes. Enquanto Kraemer, Kraemer e Soares (2021) constataram que na maioria das vezes as aplicações dos pesticidas foram realizadas pelo pai da família, entre os pequenos produtores rurais de Santa Catarina, sendo uma forma de proteção para a família por ser considerada atividade perigosa.

Essas situações, demonstrando a possível existência de divisão de tarefas em função do gênero, podem estar relacionados com questões culturais/tradicionais. Barreto, Spanholi e Silveira (2020) observaram que na região de Sinop (MT) 77% dos homens eram os responsáveis pelas atividades braçais, enquanto as mulheres cuidavam da casa e realizavam a confecção de produtos caseiros, como queijos e doces. Fook et al. (2013) ressaltaram que mesmo as mulheres estando mais ativas no mercado de trabalho fora da residência, ainda são consideradas as principais responsáveis das atividades domésticas.

A faixa etária que apresentou maior concentração entre os participantes da pesquisa foi de 40 a 49 anos, com 26,5% (Tabela 1). Araújo (2015) observou que 36,4% dos entrevistados apresentavam idade de 41 a 50 anos e 97%, do total, pertenciam ao gênero masculino, em Bom Jesus da Lapa (BA) no Perímetro Irrigado Formoso. Abreu e Alonzo (2016) também constataram que cerca de 28,4% dos responsáveis pelas unidades produtoras de agricultura familiar em 19 comunidades na região de Lavras (MG) apresentaram idade entre 40 e 49 anos.

Com relação à escolaridade, o presente estudo constatou que cerca de 45% (92) dos participantes apresentaram ensino médio completo, seguido de 21% (43) com ensino superior completo (Tabela 1). Quando observado a escolaridade de ensino médio com o local de aplicação, que seria a área de moradia dos participantes, constatou-se que 75% indicaram a área urbana.

França (2021) constatou que no Brasil a média de anos de estudo para a população rural com 15 anos ou mais é de 3,4 anos menor que a população urbana. Pereira e Castro (2019) observaram que a população brasileira com ensino fundamental completo acima dos 18 anos foi de aproximadamente 60% para área urbana e apenas 26,5% para a área rural. Abreu e Alonzo (2016); Araújo (2015); Barreto, Spanholi e Silveira (2020) encontraram um predomínio de pessoas com ensino fundamental incompleto em populações da área rural.

O uso de domissanitário desinfestante na área urbana foi predominante (71%) (Tabela 1). Contrastando com a percepção dos vendedores, onde 62,5% acreditavam que os produtos vendidos seriam utilizados na área rural. Pode-se considerar que a percepção dos vendedores, quanto a área de aplicação dos produtos vendidos aos seus clientes, esteja atrelada com o tipo de produto, no entanto, o uso do produto pode ser diversificado pelo consumidor.

A predominância de uso de domissanitário desinfestante para as áreas urbanas pode estar relacionada a maior incidência de pragas, como baratas, formigas e ratos, nestes ambientes. Souza e Santos (2021) realizaram trabalho sobre a presença de animais sinantrópicos, em especial, moscas, formigas e baratas, comparando a área urbana e rural e constataram uma quantidade superior a 250% na área urbana.

Almeida, Cota e Rodrigues (2020) informaram que o desenvolvimento das cidades sem planejamento, com aglomeração de pessoas, problemas com saneamento e descartes de lixo, são fatores que propiciaram a adaptação e proliferação destas pragas. Assim, essas pragas se proliferam rápida e constantemente nos centros urbanos, causando incômodo e desconforto à população (ZORZENON, 2002).

Quanto às orientações de compra, os participantes da pesquisa foram questionados sobre os motivos para escolherem aquela loja agropecuária. A tradição ficou em primeiro (124), seguido, respectivamente, pelo Bom atendimento (115), Localização (61) e Preço (52) (Figura 1).

Figura 1
Orientação de escolha (Por que você escolheu esta loja?) da loja agropecuária informada pelos compradores participantes da pesquisa nos municípios de Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde (MT), no período de novembro de 2021 a agosto de 2022

A tradição é um fator importante na hora da escolha do estabelecimento, também relacionado com o bom atendimento, que proporciona a sensação de acolhimento aos clientes. As empresas que participaram da pesquisa apresentavam mais de 20 anos de mercado na região, considerando o tempo de emancipação administrativa dos municípios, com média de 40 anos, as lojas agropecuárias participantes podem ser consideradas tradicionais.

A colonização do meio norte mato-grossense foi marcada por campanhas de incentivo trazendo populações da região sul do Brasil (ALMEIDA, 2021), em especial. Assim, os clientes podem frequentar os estabelecimentos em busca da familiarização com o ambiente, relacionando as suas origens, mesmo que inconscientemente, uma vez que os proprietários dos estabelecimentos participantes são descendentes da mesma região. Barros et al. (2018); Silva, Merlo e Nagano (2012) constataram que o Ambiente/Layout foi o fator que apresentou maior resposta emocional positiva nos consumidores no ambiente de varejo.

Na presente pesquisa os clientes relataram, em conversas particulares, frequentar as lojas desde a sua inauguração, não realizando cotações em outros estabelecimentos. Souza et al. (2022a) observaram que quanto maior a familiarização dos clientes para com os fornecedores, menor importância teve a distância do estabelecimento.

Mesmo com as transformações exigidas pelo mundo contemporâneo, são encontrados valores e rituais transmitidos desde outras gerações que compreendem uma condição estruturante da cultura e uma manutenção dos vínculos afetivos” (LISBOA; FÉRES-CARNEIRO; JABLONSKI, 2007). Assim como relatado por Dalmoro e Nique (2017) onde a realização de atividades antigas é uma forma das pessoas se reconectarem com o seu passado.

Para a escolha/compra do domissanitário desinfestante, 52,5% declararam já conhecer o produto ou o ingrediente ativo (I.A.) que desejavam, 37% escolheram o produto por meio de informações do vendedor, 8,5% escolheram através da indicação de outras pessoas e 2,5% associaram os seus conhecimentos sobre os I.A. e/ou produto comercial com as indicações dos vendedores para fazerem suas escolhas (Figura 2). Quanto a percepção dos vendedores sobre a forma de escolha dos produtos pelos seus clientes constatou-se que 83,5% acreditavam que os clientes escolhiam com base na indicação dos vendedores, 8,5% pelo preço dos produtos, 4% já conheciam o produto que desejavam comprar e 4% não souberam responder.

Figura 2
Orientação de compra (%) dos domissanitários informado pelos compradores participantes da pesquisa da área urbana e rural dos municípios de Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde (MT), no período de novembro de 2021 a agosto de 2022

Houve a constatação que mais de 50% dos compradores realizavam a auto prescrição do domissanitário desinfestante. Tal situação pode se relacionar ao comportamento tradicional, cuja observação da utilização dos produtos por familiares ou conhecidos leva a associação daquele produto como algo conhecido e eficiente, premissa essa nem sempre correta/adequada. Souza et al. (2022a) relataram que o comprador tem suas decisões marcadas por aspectos internos, como a recuperação de informações contidas na memória, e por aspectos externos, envolvendo as informações de mercado, dos familiares, dos amigos e da sociedade de modo geral.

A falta de treinamento e o escasso conhecimento, por parte dos vendedores, sobre os perigos dos agrotóxicos contribuem para a manipulação incorreta durante a preparação e aplicação. O que pode levar à alta exposição dos consumidores e do ambiente e provocar casos de intoxicação. Assim, o vendedor deve ser provido de informações relativas ao uso e à segurança dos produtos, além de passarem por treinamentos visando o uso racional destes produtos.

A formação dos vendedores quanto aos produtos comercializados, como a maneira correta de aplicação, formas de armazenamento e descarte são imprescindíveis para garantir a segurança dos consumidores que recebem as devidas orientações. Segundo Souza et al. (2022b), os órgãos fiscalizadores deveriam tornar requisito para as empresas o fornecimento de capacitação aos vendedores, garantindo assim uma adequada consultoria do produto aos consumidores finais.

Abreu e Alonzo (2016) constataram que mais de 59% dos participantes recebiam indicações no comércio agropecuário, situação também observada por Recena e Caldas (2008). A confiança na indicação dos domissanitários pelos vendedores foi notório na presente pesquisa, ficando em segunda opção na forma de orientação pelos clientes e na primeira opção na percepção dos vendedores. Assim, torna-se fundamental o vendedor conhecer os produtos ofertados e como questionar seus clientes sobre o problema para que possam proporcionar a melhor solução.

Outra questão abordada foi sobre o que os participantes da pesquisa consideravam ser importante para comprar determinado produto e 85% relataram de forma geral ser a eficácia, mas também citando outros fatores como “Funcionar e não fazer mal para os animais” 3SN74 (masc. 32 anos), “Segurança e que seja de qualidade, efeito bom” 2LRV55 (masc. 44 anos), “Segurança e eficácia” 3SN36 (fem. 43 anos), “Se não matar eu compro outro” 3SN71 (masc. 41 anos), “Preço e qualidade do produto” 1SR4 (masc. 40 anos), “Boa prescrição do vendedor, qualidade e preço” 2SR17 (masc. 43 anos), 13,5% mencionaram “Produto qualificado para o que eu quero” 1SR7 (masc. 56 anos), “Atendimento e informação do produto” 2SR19 (masc. 37 anos), “O que foi mais convincente” 2SR21 (fem. 40 anos), “Indicação se é bom” 3SN44 (masc. 44 anos), e 1,5% não souberam ou não quiseram responder.

A eficácia do produto representou importância para a realização da compra, pois os clientes priorizavam aqueles produtos com melhor custo-benefício representado por sua eficácia e atividade prolongada. Segundo Mello, Rozemberg e Castro (2015), os consumidores vão em busca da melhor proteção, pelo ponto de vista da eficácia e pela praticidade na utilização dos domissanitários, quando comparados com métodos mecânicos de controle.

O preço também foi analisado para a realização da compra dos produtos, associados com a qualidade, podendo ser utilizado como uma ferramenta de determinação final na compra do produto. Santana e Brito (2020) observaram que os clientes tinham preferência por produtos em ofertas, tornando o preço um ponto importante na decisão de compra, associados com o bom atendimento e a qualidade. Silva, Merlo e Nagano (2012) constataram influência da qualidade do produto para a realização da compra.

Percepção de risco no uso dos domissanitários desinfestantes

Seres humanos

Foi questionado se após a aplicação do produto eles permaneciam no ambiente. 64% deles relataram permanecerem e justificaram que “Saio de casa porque tem cheiro forte (Trofféu 40 PM)” 3SN72 (masc. 39 anos), “Tem que dar um tempinho por que é forte o cheiro (Advion® Barata Gel)” 2LRV32 (masc. 38 anos), “Dou um tempo por causa do cheiro (K-othrine®)” 2SN63 (fem. 54 anos), e 36% relataram permanecerem no ambiente após aplicação, justificaram que “não tem problema, não tem cheiro ruim (Bioinset® 25 CE)” 2LRV19 (masc. 42 anos), “Porque após a aplicação não vejo problemas, somente no momento da aplicação (Kapina®)” 2LRV26 (masc. 36 anos), “Não tenho para onde ir, então fico em casa (Plenoway 10 PM)” 2SR30 (masc. 26 anos), “O veneno é simples, não faz mal (Grão verde)” 2SN29 (masc. 54 anos).

O isolamento do ambiente de aplicação reduz a exposição ao I.A. e consequentemente a ocorrência de intoxicações. Segundo relatos dos questionados, o odor desagradável dos produtos representou ponto importante para o isolamento dos ambientes de aplicação servindo como sinal de alerta ao perigo, reduzindo o risco de intoxicação, principalmente em ambiente doméstico. Mello, Rozemberg e Castro (2015) constataram a associação de inseticidas sem cheiro ou com odor agradável à menor toxicidade do produto.

Tabela 2
Foi questionado aos participantes: Após a aplicação, você saiu do ambiente? Você tem um animal de estimação? Se sim, foram retirados do local para aplicação do produto?

O uso de inseticidas como saneante desinfestante no controle de pragas sinantrópicas em áreas urbanizadas é uma prática comum, sendo aplicados em ambientes internos e externos para a proteção dos habitantes e das edificações. Narciso (2012) relatou que a presença dos inseticidas na área favorece a ocorrência de exposição não ocupacional ou intradomiciliar involuntária da população ao resíduo inseticida, após a aplicação. Esse resíduo poderá ser absorvido através das múltiplas vias expostas (oral, dérmica, inalatória). Em vista disso, o risco de ocorrerem efeitos adversos, mesmo que subclínicos, após a exposição existe e é representativo principalmente nas populações suscetíveis, tais como crianças, idosos, gestantes, pessoas adoentadas (HAHN et al. 2010).

Importante salientar que, do mesmo modo que na agricultura, o uso de desinfestantes no ambiente urbano acaba por desencadear resistência nos vetores, impondo um ciclo cada vez mais dependente de venenos, expondo cada vez mais a população humana aos efeitos tóxicos decorrentes dessas substâncias e degradando a biodiversidade, conforme o Dossiê da Abrasco (Carneiro et al. 2015).

Alguns dos produtos comprados contêm em sua bula a indicação que são improváveis de causarem danos agudos por apresentarem concentrações reduzidas em suas formulações, no entanto, a utilização constante desses produtos pode acarretar danos/intoxicações crônicas, a longo prazo. Segundo Costa, Costa e Herrmann (2019) as intoxicações crônicas, geralmente ocasionada por exposições em baixa concentração, podem levar anos para apresentarem sintomas. Fernandes et al. (2012) relataram que a exposição indireta aos agentes tóxicos ocorre justamente nos momentos em que não estão manipulando os produtos, como a permanência no local de aplicação.

Sampaio et al. (2022) constataram que o total de notificações de intoxicações por produtos domissanitários mostrou-se crescente ao longo dos últimos anos, onde 2017 apresentou 7.436 casos, 2018 apresentou 8.173 casos e 2019 apresentou 8.267 casos. Presgrave (2007) associou as intoxicações não intencionais com domissanitários ao “viés otimista”, ou seja, os indivíduos acreditavam que teriam menor chance de se intoxicar que as outras pessoas.

Quanto ao período de utilização do produto comprado, 84,5% dos participantes utilizam até terminar, 6% utilizam somente enquanto estiver dentro do prazo de validade e 9,5% compram a dose única para aplicação imediata. Os dados demonstraram que mais de 80% dos participantes podem realizar o uso de produtos vencidos em suas residências, pois não verificam a validade dos produtos para uso.

O prazo de validade garante o período de eficácia do produto comercializado, fundamentado em estudos de estabilidade específicos (BRASIL, 2001). Portanto, vale ressaltar a importância de o consumidor observar o prazo de validade dos domissanitários adquiridos, pois o uso do produto fora do prazo de validade, além de não garantir a eficácia, expõem riscos ao usuário e as demais pessoas que tenham acesso ao ambiente após aplicação. Destaca-se que os domissanitários desinfestantes com prazos de validade vencidos deverão ser considerados resíduos químicos e obter o tratamento e destinação final previstos na legislação específica vigente para este tipo de resíduo.

A compra de dose única para aplicação imediata dos produtos foi declarada pelos compradores, fato que isenta o consumidor de usar produtos fora do prazo de validade. No entanto, nem todos os domissanitários desinfestantes apresentam a comercialização em dose única, fazendo com que o consumidor armazene o excedente do produto, ou compartilhe com familiares, ou utilize em outras áreas, assim como relatado pelos participantes.

Animais domésticos

132 participantes, que possuíam animais domésticos em suas residências ou locais onde eram aplicados produtos de limpeza doméstica desinfetantes, foram questionados sobre a retirada dos animais durante e após as aplicações e 82,5% relataram que retiraram os animais e apenas 17,5% não os retiraram (Tabela 2). Eles justificaram a retirada: “Acaba sendo forte e pode intoxicar (Icon® Vet)” 2LRV23 (masc. 47 anos), “Para não mata os bichos (Rodilon® Soft Bait)” 1LRV6 (masc. 67 anos), “Para não comer o mato com o veneno, medo de morrer (Glifoway red)” 2SN31 (fem. 54 anos), “Ficam 24 horas presos (Kapina® Plus)” 3SN78 (masc. 58 anos) e 17,5% que não retiram os animais domésticos do ambiente, alegando que “Não tem problema, não afeta (Icon® Vet)” 2LRV59 (masc. 55 anos), “Esse não dá problema aos animais domésticos (Ratol®)” 2SR57 (fem. 41 anos).

Ao analisar a bula dos produtos comprados pelos participantes, constatou-se que o Icon® Vet recomenda a conservação do produto fora do alcance de animais domésticos, o Rodilon® soft bait apresenta que o produto é tóxico para mamíferos, aves e peixes, o Glifoway red recomenda que o produto deva ser conservado longe do alcance dos animais, o Kapina® Plus indica evitar o trânsito de pessoas e animais domésticos no local de aplicação por 24 horas, e o Raticida Ratol® apresenta que o I.A. pode ser tóxico para organismos aquáticos, pássaros e animais silvestres. Cerca de 18% dos tutores questionados não apresentaram a percepção dos riscos envolvendo o uso dos domissanitários desinfestantes aos seus animais. Assim, vale frisar que a remoção dos animais domésticos dos locais de aplicação visa sua segurança.

O uso comum dos domissanitários desinfestantes pela população pode induzir a percepção de inofensivo, fazendo com que os manipuladores não tomem os devidos cuidados durante o uso, como a remoção dos animais, crianças e adultos dos ambientes de aplicação. Quanto aos animais domésticos, Silva e Silva (2022) salientam que as intoxicações podem ser evitadas com os tutores tomando precauções, ficando atentos aos animais e levando ao médico veterinário nos primeiros sintomas.

Durante o uso dos domissanitários desinfestantes, a falta de instrução do tutor e ausência de profissional qualificado, pode ocasionar intoxicação acidental nos animais domésticos (CANELAS et al., 2020). Bezerra et al. (2022) observaram que as intoxicações não intencionais foram maiores que as intencionais nos animais domésticos, tendo os domissanitários desinfestantes como segundo maior causador de intoxicações na região metropolitana de Fortaleza, Ceará.

Estudos constataram que a maioria das ocorrências de intoxicações em animais domésticos foram causadas por inseticidas e raticidas de uso doméstico (CONCEIÇÃO; ORTIZ, 2015; SILVA; SILVA, 2022). Outra problemática constatada foi o uso de produtos clandestinos com proibição no Brasil. Canelas et al. (2020) observaram a ocorrência de intoxicações por chumbinho, produto proibido no Brasil, em cães e gatos no município de Belém (PA), o que representou 48,6% dos casos.

Além dos riscos envolvendo os animais domésticos, deve-se considerar o potencial de intoxicação aos animais silvestres que podem ter acesso aos locais de aplicação dos desinfestantes. Principalmente aquelas espécies que apresentam maior curiosidade/atração aos ambientes humanos, como macacos, pombos, tatus, quati, entre outros.

Conclusões

Houve a predominância do gênero masculino entre os participantes da pesquisa e o maior emprego de domissanitários desinfestantes se deu na área urbana dos municípios, provavelmente, provocado pela maior percepção de incidência das pragas, consequência das aglomerações de humanos nas regiões urbanas.

Quanto as orientações de compras, a tradição foi ponto fundamental para a escolha da loja agropecuária, podendo estar associado com a familiarização do ambiente comercial e as memórias afetivas. Já a eficácia foi importante para a escolha do produto, principalmente relacionada a rapidez e agilidade para a solução dos problemas.

A confiança depositada pelos clientes sobre os vendedores foi evidente nesta pesquisa, assim, vale destacar não só a importância de os vendedores conhecerem os produtos que comercializam, mas também saberem fazer o uso racional de tais produtos.

A percepção dos riscos envolvendo o uso dos domissanitários desisfestantes, para o ser humano e animais domésticos deve ser melhor reconhecida pela população, uma vez que esses produtos têm propriedades tóxicas prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente.

Com a finalização desta pesquisa, ressalta-se a importância da ampliação da divulgação do tema domissanitários, envolvendo sua definição, finalidades, cuidados no uso e seus riscos ao ser humano, animais e ambiente. Em especial para divulgação e utilização do termo desinfestante, pois muitas das vezes são confundidos por desinfetantes.

Agradecimentos

Agradecimentos a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa concedida - Código do Processo 88887.644287/2021-00.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    20 Jun 2023
  • Aceito
    25 Jun 2024
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