Open-access Riscos na cafeicultura: uma experiência de Ciência Cidadã com estudantes do Ensino Fundamental

Resumo

O artigo debate riscos em relação à produção do café e estabelece um diálogo entre Risco e sociedade de risco, a partir do olhar de estudantes dos anos finais do ensino fundamental de uma escola pública. O material foi produzido com uma construção coletiva e individual. Esse estudo possibilitou aos pesquisadores e estudantes a sistematização de conhecimentos existentes e construção de novos conhecimentos acerca dos riscos em torno da cafeicultura. Os resultados mostram, a partir do olhar dos estudantes da educação básica da escola Olegário Martins, a presença de uma série de riscos associados à produção do café em Água Doce do Norte e o desejo dos participantes de entender melhor estes riscos. Além disso, a Ciência Cidadã se apresenta como uma via para a aproximação entre a universidade e a produção de conhecimento.

Palavras-chave:
Riscos socioambientais; Ambiente rural; Meio Ambiente e Educação; Agrotóxicos; Ciência Cidadã

Abstract

Abstract: This article discusses the risks associated with coffee production and establishes a dialogue between the concepts of risk and risk society, from the perspective of upper elementary school students in a public school. The material was developed through both collective and individual contributions. This study enabled researchers and students to systematize existing knowledge and build new understandings regarding the risks surrounding coffee cultivation. The findings, based on the perceptions of students at Olegário Martins School, highlight the presence of multiple risks related to coffee production in Água Doce do Norte, as well as the participants’ interest in gaining a deeper understanding of these risks. Furthermore, Citizen Science emerges as an important pathway for fostering closer connections between universities and knowledge production.

Keywords:
Environmental risks; Rural environment; Environment and education; Pesticides; Citizen science

Resumen

Este artículo analiza los riesgos relacionados con la caficultura y establece un diálogo entre el riesgo y la sociedad del riesgo, desde la perspectiva de estudiantes de los últimos años de la educación primaria en una escuela pública. El material se produjo mediante la construcción colectiva e individual. Este estudio permitió a investigadores y estudiantes sistematizar el conocimiento existente y construir nuevos conocimientos sobre los riesgos que implica la caficultura. Los resultados demuestran, desde la perspectiva de los estudiantes de la escuela primaria Olegário Martins, la presencia de una serie de riesgos asociados a la caficultura en Água Doce do Norte y el deseo de los participantes de comprender mejor estos riesgos. Además, la Ciencia Ciudadana se presenta como una forma de conectar las universidades con la producción de conocimiento.

Palabras-clave:
Riesgos socioambientales; Entorno rural; Medio ambiente y educación; Plaguicidas; Ciencia ciudadana

Importância econômica, histórica e cultural do café para o Brasil

O café é um dos mais importantes produtos da agricultura brasileira, comercializado tanto no mercado nacional como internacional. Em 2023 o Brasil atingiu novo recorde de produção, e segue também como líder de mercado e consumo per capita na América do Sul, representando 82,5% do consumo nesta região (IOC, 2023). A rede produtiva do café tem grande influência em outros setores da economia, pois é consumidora de matérias-primas como adubos, defensivos agrícolas, máquinas e equipamentos, assim como fornecedora de insumos para diversas indústrias, dentre elas, de produtos medicinais e farmacêuticos, de doces e balas, de alimentos e bebidas, em geral, dentre outras (Santos, 2017).

Assim como a maioria dos produtos agrícolas, além dos aspectos benéficos de sua produção, é preciso considerar os riscos assumidos a partir do uso de pesticidas sintéticos que podem contaminar o ambiente causando danos para a vida de modo geral e de modo particular para as pessoas que vivem e trabalham nas lavouras. Desta forma, o presente estudo analisa a presença de riscos associados à produção de café, na perspectiva de estudantes dos anos finais do ensino fundamental, em um território cuja cafeicultura é base da economia. Trata-se de uma experiência de Ciência Cidadã onde filhos de produtores de uma comunidade, onde a agricultura familiar é base da economia, participaram da construção/sistematização de conhecimento sobre os riscos associados à produção do café.

Tomamos como referencial teórico para a discussão dos resultados, as discussões sobre a sociedade de risco de Ulrich Beck e os diálogos com a Ciência Cidadã, enquanto ciência democrática, produzida pelos leigos ou cidadãos cientistas, tomando Alan Irwin (2021) como uma importante referência. Assim, embora existam conhecimentos produzidos por cientistas profissionais, o presente artigo se propõe ao exercício colaborativo, de produção de conhecimento sobre tais riscos na cafeicultura.

Os riscos associados ao cultivo do café e a importância da percepção dos leigos - cidadãos cientistas

O tema deste estudo envolve os riscos presentes em um território marcado pelo cultivo do café e se relaciona de modo interdisciplinar com a temática ambiental, ecologia e saúde, por meio da teoria da “sociedade de risco” (Beck, 2010). Assim, entende-se que a sociedade da alta modernidade enfrenta riscos não como meros efeitos colaterais do progresso, mas como centrais a eles e que ameaçam toda forma de vida no planeta. Segundo esta teoria, “há riscos contra os quais não podemos obter seguros para proteção, porque não podem ser calculados. Eles estão na dimensão da incerteza. A energia nuclear e os agrotóxicos eram exemplos paradigmáticos” (Guivant, 2016, p. 230).

Os riscos que, até a alta modernidade, eram vistos como pessoais, passam a ser globais, atravessando fronteiras nacionais e de classes: “as cadeias alimentares interconectam praticamente a todos nós, algumas pessoas são mais afetadas que outras pelos riscos, reconhecendo que a sua distribuição segue as desigualdades de classe e as posições na escala social” (Guivant, 1998, p. 17). O próprio manejo do solo e os métodos de irrigação de lavouras estão dentre os fatores que levam ao aumento da contaminação de águas subterrâneas por lixiviação, sendo, portanto, a ação humana um agravante de contaminação (Santos, 2017).

O risco muitas vezes é negligenciado, ficando em teoria reduzido à toxicidade elevada de algumas substâncias, a não utilização ou utilização incorreta de equipamentos de proteção individual (EPI) e à deficiência estrutural da vigilância em saúde. Para Daufenback e colaboradores o maior risco referente aos danos à saúde devido à exposição contínua e prolongada a essas substâncias químicas e tóxicas incide sobre agricultores e agricultoras familiares (Daufenback et al., 2022, p. 483).

Buscamos na presente pesquisa contribuir para que a ciência seja mais acessível e para fortalecer a posição da ciência na sociedade, por meio de sua participação direta no processo de produção do conhecimento científico o que, esperamos, reforçará o impacto social da investigação e concorrerá para a sua valorização e reconhecimento (Morais, 2022).

Para autores como Haklay (2013) não há apenas uma ciência cidadã, mas várias, as quais abrangem uma gama de tipos de parcerias entre cientistas e voluntários, ou seja, não pesquisadores formais com objetivo de construir conhecimento científico. São usados termos como ciência de base comunitária, monitoramento participativo da biodiversidade, participação pública na ciência, entre outros. O que se produziu na presente pesquisa é fruto da atuação de pesquisadores profissionais e de participantes voluntários aqui chamados “cidadãos cientistas” em consonância com a terminologia adotada pela Rede Brasileira de Ciência Cidadã (RBCC).

Em projetos de Ciência Cidadã é imprescindível a parceria entre ‘cidadãos cientistas’ e cientistas profissionais, sendo que Fraisl et al. (2022) apontam que ela é cada vez mais reconhecida. Por outro lado, décadas atrás Guivant (1998) alertava para conflitos entre os conhecimentos científico e outras formas de saber em função da polarização entre leigos e peritos. A autora apontou pesquisadores que fazem a crítica aos estudos técnicos sobre os riscos modernos à saúde, ao meio ambiente e às regulamentações de segurança a partir de argumentos fundamentados na sociologia da ciência. Em parte, porque se os leigos se apoiam numa racionalidade que emerge de experiências e julgamentos individuais, os peritos por sua vez tendem a crer que o mundo real é equivalente ao mundo dos laboratórios.

Além disso, verifica-se que as pessoas que vivem em áreas de risco tendem a ignorar esse risco ao adaptarem-se a este, considerando/classificando o ambiente em que vivem como mais seguro. O processo de adaptação aos riscos, caracterizado por uma manifestação do sentimento de controle pelos afetados por situações ameaçadoras, dificulta e/ou impede ações de prevenção ao risco. Este processo também se relaciona com que geralmente o “eu” considera-se menos exposto que os outros indivíduos (Rohrmann & Renn, 2000).

Desta forma, este trabalho lança mão do conhecimento acerca das diferenças entre o que é percebido por cientistas profissionais ou peritos e o que é percebido por cidadãos cientistas ou leigos. Fazemos também o exercício interdisciplinar de construção colaborativa entre estes dois grupos, sendo a equipe do LEAS composta por cientistas ou peritos e os estudantes da educação básica que atuaram como cidadãos cientistas ou leigos, de um conhecimento acerca dos riscos associados à produção de café, enquanto contexto real dos voluntários. A opção pela realização da pesquisa com estudantes se deu em função do fato de que a Ciência Cidadã permite ao estudante compreender a ciência e as práticas de investigação científica, para além do assunto em si, neste caso, os riscos associados à produção do café, fomentando atitudes positivas em relação à ciência (Morais, 2022).

Percurso metodológico: Ciência Cidadã envolvendo estudantes do ensino fundamental e o Laboratório Cidadão de Ecologia do Adoecimento e Saúde dos Territórios (LEAS)

A presente pesquisa teve como campo do estudo a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Olegário Martins, que se localiza na comunidade Santa Luzia do Azul, zona rural, do Município de Água Doce do Norte-ES, após a devida aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Certificado de Apresentação e Apreciação Ética 70917623.5.0000.5157). A turma escolhida para participar é composta por estudantes matriculados no 7º ano do Ensino Fundamental. O grupo é composto por 17 alunos, sendo 11 do sexo masculino e 06 do sexo feminino, com idades entre 12 e 13 anos.

Essa turma foi escolhida intencionalmente, pelo fato de os estudantes estarem inseridos com suas famílias em territórios cafeeiros, sendo todos, filhos de agricultores, dentre os quais 09 são filhos de produtores de café. A professora de ciências da turma, que também é pesquisadora do LEAS, iniciou as atividades com uma breve apresentação do tema e dos objetivos da pesquisa, por meio de um diálogo na sala de aula dos estudantes. A conversa também abordou as temáticas ciência, quem pode ser cientista e fazer Ciência Cidadã. Ao final dessa primeira conversa, os estudantes foram convidados para participar do projeto como cidadãos cientistas.

O convite foi prontamente aceito pela turma, que se mostrou entusiasmada para conhecer “cientistas de verdade”. Cada estudante então levou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Anuência Livre e Esclarecida (TALE) para ler e assinar com seus responsáveis. Para assegurar o sigilo acerca da identidade dos estudantes, foi proposto que cada um escolhesse um nome fictício para si, considerando animais que habitam cafezais.

O passo seguinte foi uma intervenção que começou com uma roda de conversa mediada por outras duas pesquisadoras do LEAS. O diálogo começou com o pedido de que os estudantes falassem sobre o cultivo do café onde eles residem. A professora coordenadora do LEAS iniciou dizendo aos estudantes que gostaria de aprender muitas coisas com eles e fez perguntas como: Todos vocês já viram uma plantação de café ou têm alguém que nunca viu? Vocês já foram na lavoura de café? Para facilitar as trocas, as pesquisadoras projetaram imagens de satélite da região de água Doce do Norte - ES, com o auxílio do Google Earth.

Uma vez situando a si, as lavouras e outras espacialidades da cadeia produtiva do café no espaço, por meio dos apontamentos no mapa projetado, o grupo foi provocado a falar dos perigos associados ao café de modo particular. Após se manifestarem no grupo, os estudantes escreveram os riscos em tarjetas e uma lista coletiva foi criada. Por fim, os riscos listados foram situados em um mapa da região.

Um mês após a intervenção foi pedido que cada um escrevesse sobre os riscos. Cada estudante recebeu o direcionamento impresso em uma folha de papel A4 contendo um enunciado impresso. Conforme se lê em seguida, foram feitas algumas questões, sem exigência quanto à quantidade de linhas.

Imagine que...

Você foi convidado a dar uma entrevista para uma revista da cidade. Nesta entrevista, o jornalista quer saber o que você sabe sobre os riscos associados ao café? Você pode informar se sabe ou não.

Quais os riscos presentes ao longo da produção de café, desde a preparação do solo, viveiros de mudas até a torrefação e venda? Pense nos perigos presentes desde a preparação do solo até a venda do café… Quais os perigos? Quais os tipos de danos podem ser causados por estes fatores? Se você souber, dê exemplos de situações ou pessoas que sofrem estes danos. O que é possível fazer para evitar estes perigos?

No final da entrevista, como o jornalista é muito curioso, ele ainda quer saber o que ainda podemos aprender mais sobre esse assunto?

E aí, você vai responder o que para o jornal?

Capriche, é um grande jornal, com muitos leitores e leitoras.

Todas as atividades foram realizadas ao longo do segundo semestre de 2023. O tempo previsto para realização de cada atividade foi de uma hora aula. Todas as atividades tiveram os aúdios gravados para posterior transcrição e foram registradas com fotos e vídeos, pela equipe de pesquisadoras.

Afinal, o que sabemos sobre os riscos associados à produção do café? Uma construção coletiva do conhecimento acerca dos riscos

Nossa! Nós estamos ficando importantes!

(Bicho Pau, 2023)

Desde o primeiro momento de diálogo, quando os estudantes foram convidados a ser pesquisadores, muitos se expressaram com sorrisos de empolgação. Um deles afirmou “Nossa! Nós estamos ficando importantes!” (Bicho Pau, 2023), evidenciando a satisfação deles em poderem fazer parte de uma pesquisa científica. As manifestações dos estudantes remetem aos achados de Alender (2016), que apontam a contribuição à construção do conhecimento científico, à comunidade e ao ambiente como motivações para a participação em projetos de ciência cidadã.

Na primeira conversa com os pesquisadores do LEAS, os estudantes falaram com segurança sobre o cultivo do café onde residem e reafirmaram o desejo de participar da pesquisa. A partir daí eles foram convidados a se apresentar dizendo o nome fictício escolhido e o motivo da escolha. Durante a apresentação, além da familiaridade, eles citaram a beleza dos animais, mostrando admiração pelo que existe nas lavouras:

“Escolhi esse animal porque acho elas muito lindas, coloridas e ficam na lavoura de café” (Borboleta, 2023).

“Por causa que é um animal bonito e também na época da florada do café elas ficam nas flores colhendo o melzinho, o doce das flores” (Joaninha, 2023).

Apenas uma aluna, nova na escola, não conseguiu pensar em um animal por si só e prontamente os colegas deram uma sugestão que ela aceitou:

“Na hora não consegui pensar muito porquê, mas alguns colegas deu a sugestão e aceitei” (Rolinha, 2023).

Outros estudantes tiveram facilidade em citar os animais e ainda abordar camuflagem, com a familiaridade de quem conhece o território produtor do café e suas especificidades:

“Escolhi esse nome porque é um bicho que habita na lavoura de café e tem uma ótima camuflagem nos galhos do café” (Bicho Pau, 2023).

Os riscos se fizeram presentes nas narrativas dos estudantes durante a roda de conversa. Todos os sujeitos evidenciaram, em algum momento, o sentimento de medo em relação aos animais peçonhentos, que são geralmente encontrados nas lavouras de café e que, portanto, são parte de seus cotidianos.

“Escolhi marimbondo porque eles ficam fazendo morada nos pés de café e quando as pessoas vão apanhar o café é perigoso ser picado por eles” (Marimbondo, 2023).

“Escolhi cobra porque ela é verde e fica enrolada nas folhas e nos galhos do café” (Cobra, 2023).

“Porque é um bicho muito frequente na lavoura, elas constroem as suas casas pra pegar os bichos que fica rodeando, por exemplo, a abelha, as marrons se escondem na terra para se camuflar e algumas são muito venenosas” (Aranha, 2023).

Após se apresentarem, os estudantes visualizaram a zona rural de Água Doce do Norte-ES, por meio de imagens projetadas (Figura 1). O grupo situou as residências de cada um, as lavouras, os terreiros, estufas, secador e outros pontos de referência, partindo da escola, a igreja, a praça, as pedras/montanhas e lagoas. Durante essa atividade, um estudante mostrou o maior cafezal da região e afirmou: Essa aqui é a maior plantação que existe! Eles citaram atividades econômicas presentes no território, além do café, principalmente o milho e os peixeiros, que são lagoas para criação de peixes e alevinos.

Diferentes estudantes se revezaram apontando referências como o caminho percorrido pelo ônibus da escola ou as lavouras replantadas: “Essa plantação já foi reformada”. Outros apontaram as lavouras mais antigas e aquelas que foram retiradas para o plantio de eucalipto: “Aqui nem é mais desse jeito!”. Na paisagem, também destacaram as elevações montanhosas, ou “pedras” e lagoas.

Precisa bater muito randape!1

(Bicho Pau, 2023).

Uma vez que o grupo já havia se situado no espaço, uma nova provocação foi feita para que a conversa fosse direcionada para os riscos propriamente ditos. Assim, as pesquisadoras questionaram: “pra você é perigoso estar nas lavouras do café, quando as pessoas plantam e colhem?” Os estudantes falaram brevemente sobre os principais perigos, iniciando pelos animais peçonhentos. É possível que a apresentação por meio dos nomes fictícios tenha facilitado a associação do perigo com os animais. Ainda assim, os riscos envolvendo animais peçonhentos levou à discussão sobre os venenos, e por fim, as máquinas.

“Precisa bater muito randape pra matar as cobras na lavoura, com isso outros animais também morrem. O randape vai para a raíz das plantas quando chove, escorre pra água indo parar nas hortas nos afetando porque comemos as verduras.” (Bicho Pau, 2023).

A fala do estudante acima, não se referia ao randape enquanto o perigo, mas o raciocínio era justamente sobre os animais peçonhentos e a importância da “capina” como fator de redução do risco para os trabalhadores. Neste contexto o herbicida que tem o glifosato como base, era citado. E somente se deu conta do risco do uso desta substância quando provocado. Para nós, esta fala remete a Beck, ao afirmar que “o camponês, que por séculos foi considerado membro do ‘estabelecimento nutridor’, que fazia ‘frutificar’ o solo, de quem dependiam a vida e a sobrevivência de todos, começa a ter sua imagem revertida. A agricultura transforma-se, nessa perspectiva, em estação de transbordo para venenos que ameaçam a vida de plantas, animais e seres humanos” (Beck, 2010, p. 97).

Figura 1
Atividade na sala de aula com o aplicativo Google Earth

Após a primeira conversa, os estudantes foram convidados a registrar, por meio de tarjetas, os riscos associados à lavoura de café. Cada um recebeu uma tarjeta de papel para escrever quantos fatores desejasse. (Figura 2). Quando todos terminaram de escrever em suas tarjetas, as pesquisadoras fizeram uma lista única no quadro branco, com todos os fatores registrados e o número de vezes que cada fator foi citado pela turma (Quadro 1).

Figura 2
Atividade na sala de aula com o aplicativo Google Earth.

Quadro 1
Riscos associados ao café segundo estudantes do 7º ano do ensino fundamental.

A primeira produção dos estudantes revela que o randape é o mais citado, seguido pelas cobras e formicidas; estes três juntos somam 23 das 45 evocações. Entre os três mais citados, os riscos manufaturados (Randape e Formicida) juntos são mais que o dobro das citações de riscos naturais (Cobras). Note que os riscos naturais surgiram primeiro na roda de conversa e aparecem quase em mesma quantidade de categorias que os manufaturados, mas são citados muito mais vezes, sugerindo que seu significado, enquanto fonte de perigo, pode ser mais preocupante para os estudantes.

É possível notar que o perigo das fontes naturais de risco é conhecido e na maior parte dos casos não passa de incômodo. Mesmo o escorpião que pode protagonizar acidentes letais é citado tanto quanto as abelhas ou marimbondos e máquinas, que podem trazer danos de grande gravidade. No caso da turma, dois estudantes já experimentaram acidentes com escorpiões e o pai de uma estudante já sofreu mutilação de dedos de uma das mãos por acidente com máquinas, ainda assim outras fontes são mais citadas (Randape, Cobras e Formicidas).

Acerca dos riscos naturais, a categoria “Animais que fazem mal” poderia englobaras demais, evidenciando a existência de um único grupo de riscos naturais associado ao café. Interessante que os animais peçonhentos são chamados de “animais que fazem mal”, indicando a noção de “dano” como algo não desejável.

Escolhi o randape porque é usado para a saúde do café

(Andorinha, 2023).

No pátio da escola, dando continuidade às atividades, os estudantes foram orientados a visualizar novamente as imagens de satélite. O grupo explorou as imagens disponíveis e discutiram sobre o relevo, relacionando com os riscos, a partir da produção de café (Figura 3 - esquerda).

O grupo foi provocado a pensar sobre os lugares do relevo onde se produz melhor o café: nos lugares mais altos (montanhosos), ou nos baixos? Alguns deles disseram: “N o alto é Formiga”, explicou que se plantar muito no baixo inunda, “Perde a lavoura”, dando até um exemplo de alguém próximo à sua casa que perdeu a lavoura que inundou ‘na baixa’. Uma das pesquisadoras também indagou sobre, em quais lugares eles achavam que teriam mais riscos, caso aplicassem os agrotóxicos. O estudante Bicho Pau disse que no alto, porque escorreria com as chuvas ou nos momentos de irrigação e chegaria até as hortas onde estavam as verduras que as pessoas consumiriam, como também, nas águas dos rios e nascentes.

Figura 3
Atividade na sala de aula com o aplicativo Google Earth com estudantes explorando as imagens de satélite da região de Santa Luzia do Azul, ES (esquerda), e marcando a presença de fatores de risco nas imagens de satélite (direita).

Esse foi um dos raros momentos em que o grupo trouxe o foco da discussão para a saúde ambiental e, ainda assim, culminou com as pessoas no centro da argumentação. E nesse sentido, percebemos a dificuldade de articulação entre escalas de análise necessárias para o deslocamento de análise para além do vivido imediato a desdobramentos mais amplos. Dessa forma, lembramos Beck (2010), ao nos advertir que riscos podem trazer consequências incontroláveis e sérios desafios. Trata-se de riscos com efeitos globais, invisíveis e, às vezes, irreversíveis, não apreendidos mais por dificuldades estruturais e epistemológicas do que uma insuficiência cognitiva dos sujeitos.

Por fim, os estudantes foram convidados a associar os riscos aos lugares onde estão presentes nos mapas, por meio de marcações com”post-it” coloridos (Figura 3 - direita). Os estudantes, reunidos em grupos, poderiam registrar riscos que já haviam listado nas tarjetas ou outros que eles lembrassem e que ainda não tivessem anotado. Depois, cada grupo fixou seus post-its no mapa, explicando a relação entre o risco e o lugar escolhido.

Agrotóxicos

O primeiro grupo escolheu marcar os agrotóxicos, embora trouxesse também animais peçonhentos. Outros grupos também começaram pelos agrotóxicos e nomearam diferentes tipos dessas substâncias, tais como formicidas e herbicidas (randape). A fala dos estudantes, revela que em Santa Luzia do Azul, a utilização de agrotóxicos é uma prática comum.

Marcação 1- Estou apontando o agrotóxico como fator de risco e o local onde mostra muito café (lavoura), animal cobra onde tinha mato” (Pombo, 2023).

Marcação 3- Escolhi o randape porque é usado para a saúde do café, é aplicado na raiz e não nas folhas porque elas podem deixar com que o café fique desequilibrado que ele venha perder a saúde” (Andorinha, 2023).

Embora a estudante relacione o uso do herbicida com a saúde do café, estudos sobre os riscos à saúde humana e ao meio ambiente, atribuíveis à exposição aos produtos químicos, bem como as condições nas quais o manuseio dos agrotóxicos é realizado, são fundamentais para a promoção da saúde pública. Essa noção exprime um regime prático de conhecimento contraditório em relação à literatura científica. Pol, Hupffer e Figueiredo (2021), por exemplo, destacam que há uma correlação comprovada entre o glifosato e a saúde humana, evidenciando o conflito entre os saberes de filhos de produtores de Santa Luzia do Azul e a comunidade científica. Estes autores apontam que não só o glifosato é tóxico por si só, mas, também os diluentes e aditivos incorporados ao produto comercial contribuem para essa toxicidade.

O Brasil está entre os principais consumidores mundiais de agrotóxicos, sendo que segundo o Instituto Brasileiro Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, os trabalhadores do campo convivem cada vez mais com os riscos do uso de agrotóxicos2. O aumento no consumo de agrotóxicos está relacionado com as políticas de incentivo historicamente conduzidas pelo estado brasileiro, incluindo as recentes mudanças na política de regulação de agrotóxicos (Daufenback et al., 2022).

Marcação 8 - Escolhi fazer a marcação com a formicida que é um veneno pra formiga usado na lavoura, mas não só nas lavouras como também em outros lugares (Aranha, 2023).

Os inseticidas, usados no combate de insetos, larvas e formigas, podem ser absorvidos pela pele, no trato digestivo ou pela inalação. Existe uma grande diversidade de produtos, o que implica em diversas formas de ação, efeitos e sintomas de intoxicação. As intoxicações variam de acordo com diversos fatores, dentre os quais não só fatores relativos às características químicas e toxicológicas do produto, mas também fatores relativos ao indivíduo exposto, às condições de exposição ou condições gerais do trabalho3.

No tocante à saúde humana, os efeitos da intoxicação por agrotóxicos podem aparecer em alguns dias ou anos da exposição (Londres, 2011), ameaçando a todas as formas de vida. Como apontam Bohner, Araújo e Nishijima (2013), se utilizados inadequadamente, em excesso ou próximos da época de colheita, os agrotóxicos podem acarretar, ainda, riscos à saúde dos aplicadores e dos consumidores, causando intoxicações, mutações genéticas, câncer e morte. Ocorre que, a informação de que se aplicados adequadamente, isto é, nas doses adequadas e com o uso apropriado de EPIs, os agrotóxicos são produtos seguros, entretanto, além dos gêneros alimentícios, os agrotóxicos podem contaminar o solo, a atmosfera e os corpos hídricos.

Essas substâncias usadas nas plantas e no solo são arrastadas para as águas dos rios das nascentes pela chuva e pela irrigação, contaminando as fontes de água que são consumidas em diversos municípios do Brasil4. Aqui lembramos Oosterbeek (2012, p. 42), ao afirmar que “o acesso a recursos hídricos (...) já anima vários conflitos em todos os continentes”, sendo provável que teremos cada vez mais territórios com escassa água potável.

Animais Peçonhentos

São considerados animais peçonhentos aqueles que produzem peçonha em um grupo de células ou órgão secretor (glândula) e possuem uma ferramenta capaz de injetar a peçonha na sua presa ou predador (Santos et al., 2018).

Marcação 2- Fiz a marcação com marimbondo porque ficam escondidos nas lavouras e também aponto o escorpião, pois, eles ficam em lugares mais frescos, vou marcar também o agrotóxico aqui onde vejo lavouras de café porque são prejudiciais tanto para os animais quanto para as pessoas (Borboleta, 2023; Abelha, 2023).

Marcação 4- Eu escolhi marcar a aranha que fica no topo das pedras onde tem mais vegetação onde elas podem se esconder, as pedras são lugares ideal para elas atacarem suas presas. Vocês podem observar que aqui nas pedras tem uma vegetação rasteira e elas acabam se escondendo nela se camuflando sendo quase impossível de se ver, marcar também a cobra aqui perto da pedra onde elas escondem, se reparar bem aqui no mapa na loca de pedra tem bastante, aqui onde fica a mata tem bastante lugar pra elas se esconder, nas folhas secas e nas locas onde elas gostam de ficar porque é mais fresco e elas se reproduzem (Bicho Pau, 2023).

Marcação 5- Vou marcar aqui as abelhas porque ficam mais perto de pedra, perto das locas de pedra, porque são luares mais fresco e tem flores que elas pegam o néctar, perto de pedras tem muitas lavouras de café (Marimbondo, 2023).

Os animais peçonhentos também aparecem em dados estatísticos. Segundo o Sistema do Estado do Espírito Santo5 , entre os anos de 2020 e 2023, foram notificados 355 acidentes com animais peçonhentos. Da mesma forma que ocorreu com as notificações das intoxicações, não tivemos acesso às notificações específicas para acidentes com animais peçonhentos, não ficando claro o número de pessoas envolvidas nesses acidentes, em Água Doce do Norte.

Os acidentes com animais peçonhentos são considerados um importante problema de saúde pública nos países tropicais, sobretudo devido à sua significativa morbiletalidade, dificuldade de acesso às unidades de saúde e escassez de antiveneno (Santos et al., 2018).

Marcação 7- Escolhi fazer a marcação com o escorpião eles aparecem tanto em lavouras quanto aqui nas casas (Escorpião, 2023)

Marcação 10 - Vou marcar a animal lacraia porque elas ficam escondidas nas lavouras de café, marcar aqui a cobra, ela é um bicho muito presente nas lavouras de café, o meu pai um dia estava panhando café com a peneira ai apareceu uma cobra dentro da peneira dele (Beija-Flor, 2023).

No Brasil, entre 2015 e 2017, foram registrados 301.972 casos de acidentes causados por escorpiões, 82.336 por serpentes, 92.242 por aranhas e 42.861 por abelhas. Nos anos de 2015 e 2016, o Sudeste foi a região que mais registrou casos de acidentes com animais peçonhentos (abelhas, aranhas, escorpiões e serpentes), sendo que o estado de Minas Gerais se destacou por apresentar o maior número de casos relacionados a esse agravo (Santos et al., 2018). Dois estudantes que já sofreram acidentes com escorpiões evidenciam que esse tipo de acidente é bastante comum em Santa Luzia do Azul. Ainda assim, os estudantes só encontraram tratamento em outro município.

As máquinas

Marcação 6 - Vou marcar máquinas porque aqui nesse sítio tem secador, despolpador, máquina de moer, pode machucar a mão pode queimar, as correias podem soltar e te dar uma chulepada e se não souber manusear pode ter acidentes (Formiga, 2023).

Os relatos dos estudantes com relação às marcações que iam fazendo dos riscos associados ao café, demonstraram, principalmente, o sentimento de medo, ao mencionar os acidentes com as máquinas que podem ocorrer.

Segundo Sousa et al. (2022, p. 1231), o “uso inadequados dos equipamentos, imprudência, ausência de manutenções nas máquinas; desconforto proporcionado por condições pouco ergonômicas e pela falta de EPI’s”, estão entre as principais causas de acidentes com máquinas agrícolas. Além disso, em sua revisão, estes autores encontram pesquisas que revelam a importância do excesso de confiança, ou pela ausência de manutenções, assim como o cansaço decorrente das longas e exaustivas jornadas de trabalho. É neste contexto que os estudantes lembraram um acidente que deixou a mão do avô de um deles mutilada por um secador.

O risco relaciona-se ao desconhecimento dos efeitos futuros na vida. Portanto, a alternativa é manejar essa condição, lidar com o risco (e não tentar extirpá-lo), de maneira a tentar minimizar possíveis danos futuros (Engelmann; Von Hohendorff; Leal, 2018). Ocorre que no caso das lavouras de café em questão, a produção agrícola, que é familiar, se dá no espaço onde nossos cientistas cidadãos vivem! Assim, para além da formação dos operadores, manutenção das máquinas, etc., Há que se acrescentar que o ambiente onde o café é cultivado e beneficiado, ensacado, armazenado e transportado é o território de vida destas crianças.

O que eu sei e o que eu ainda quero saber sobre os perigos associados ao café?

A produção de texto individual foi realizada pelos treze estudantes presentes no dia escolhido para a atividade. A atividade aconteceu numa semana chuvosa, o que deixou as estradas por onde alguns passam para ir à escola intransitáveis, motivo pelo qual quatro estudantes faltaram à aula e não participaram da escrita. Ainda assim, grupo presente prontamente aceitou escrever (Figura 4).

Nota-se o contraste entre o início das atividades da pesquisa e a produção escrita final, dado que na primeira roda de conversa os estudantes iniciaram com apontamentos em relação aos animais peçonhentos, mencionados desde a apresentação dos nomes fictícios escolhidos. Já na atividade final da pesquisa, a produção individual escrita, os riscos manufaturados apareceram de forma marcante, logo no início dos textos.

Figura 4
Produção de textos concluída pelos estudantes

Outra observação é que os riscos mecânicos relacionados às máquinas são apontados pelos estudantes como “perigosa, ela pode virar do morro e sair rolando e acertar as casas” (Escorpião, 2023). Aqui, fica ainda mais flagrante como os estudantes percebem que as máquinas presentes no ambiente onde vivem como fonte de risco.

As discussões com relação aos riscos envolvendo animais peçonhentos, tanto nos diálogos quanto na produção textual individual, comparecem nos apontamentos dos estudantes. É provável que isso tenha acontecido porque eles podem ver os animais peçonhentos, e os danos são visíveis e imediatos: inchaço, dor, corte. Já os riscos associados aos agrotóxicos não podem ser vistos, já que ocorrem horas ou dias após a intoxicação aguda são cumulativos no caso da intoxicação crônica. Além disso, chama a atenção que , na conversa coletiva, os riscos visíveis (aqui classificados como naturais) apareceram primeiro, mas nas produções de texto escritas, os riscos relacionados aos agrotóxicos (que são manufaturados) apareceram primeiro.

A estudante Andorinha, começa seu texto com “confesso que não compreendo muito”, mas produz um texto rico em detalhes, que inclui nomes de diferentes categorias de “agrotóxicos como randape, formicidas, pesticidas, etc”. Além disso, ela aponta com precisão os riscos associados a acidentes com animais peçonhentos “Tem riscos no momento da panha do café”. Assim como a Andorinha, as demais meninas da turma mostraram amplo conhecimento sobre os riscos associados ao café, diferente do momento da produção coletiva, quando muitas vezes optaram por apenas acatar o posicionamento dos meninos.

A Borboleta, foi a única estudante que propôs alternativas ao uso de insumos industrializados, apontando “estercos bovinos”. Na produção individual, temos apenas esta estudante que negou a necessidade de agrotóxicos na produção de café, e seguiu afirmando que devemos “usar adubo orgânico” (Borboleta, 2023). Os demais trazem a ideia de uso de proteção individual como resposta para “O que é possível fazer para evitar estes perigos?”

Notamos aqui, assim como em outros momentos da pesquisa, uma série de confusões entre os diferentes tipos de agroquímicos, quais sejam, fertilizantes e venenos. Nota-se por um lado a falta de clareza acerca das substâncias utilizadas, o que nos parece esperado dada a pouca idade dos estudantes envolvidos. Mas, nos chama a atenção, por outro lado, a certeza acerca de seu uso como algo universal e inquestionável, cabendo somente o uso de equipamentos de proteção individual para o aplicador como forma de evitar o risco. Fica evidente, assim, a adaptação aos riscos, por meio do uso de EPIs, no caso dos agrotóxicos. Em vez de questionar o uso de tais substâncias e propor ou considerar formas alternativas à produção convencional, o grupo reconhece a importância do uso de EPIs, e aponta falta de cuidados ao aplicar os venenos/pesticidas como um perigo em si. Por outro lado, a falta de EPIs ou o próprio uso de substâncias venenosas apresenta-se como um perigo cuja responsabilidade recai sobre os trabalhadores.

É, neste sentido, que entendemos o risco dos agrotóxicos como uma “incerteza fabricada” (Beck, 2010). Entendemos as incertezas fabricadas como aquelas que dependem das decisões humanas, e o uso dos agrotóxicos que num primeiro momento pode parecer inofensivo num produto isolado talvez seja considerado grave (Beck, 2010). Desta forma, os prováveis danos advindos do uso de tais substâncias passam a ser percebidos como incertezas, conforme nos revela a estudante Abelha ao escrever “Bom o que sei é que os agrotóxicos randape no momento da plantação causa envenenamento com o cheiro. Não sei de pessoas que sofreu danos, o melhor a fazer é usar equipamentos e aprender mais sobre os agrotóxicos”.

Assim, a crença dos participantes desta pesquisa no uso dos EPIs como forma de evitar o risco pode criar uma falsa sensação de que os agrotóxicos não são perigosos. É neste mesmo sentido que o agrotóxico glifosato está no centro de uma controvérsia entre o sistema político, econômico, jurídico e o sistema da ciência, uma relativização dos riscos à saúde vai sendo fabricada na medida que o desenvolvimento econômico vai sendo colocado como prioridade.

Outros estudantes afirmam não saber os danos que podem ser causados pelos agrotóxicos e não conhecem casos em que tais substâncias de fato causaram problemas para pessoas conhecidas. Por outro lado, eles reafirmam o perigo oferecido por animais peçonhentos.

“É muito perigoso nas plantações, principalmente com os bichos, escorpião e cobras, agrotóxicos quando estão plantando o café, no momento da torração tem risco, na colheita também. O agrotóxico não sei qual é os danos que ele causa, não me lembro de algum caso que ocorreu com algumas pessoas. Temos que ter muito cuidado para não ser picado nas lavouras de café. Teremos que estudar mais sobre esse caso” (Pomba, 2023)

“Principalmente de bichos que tem na lavoura, cobra cipó. Agrotóxico quando está plantando o café e no momento da torra. O agrotóxico eu não sei qual dano ele causa, não lembro de nenhum caso que ocorreu com alguma pessoa, tem que ter muito cuidado para não ser picado, temos que estudar mais sobre esse assunto” (Cobra Cipó, 2023).

Os riscos da lavoura é os marimbondos, as cobras e os venenos do randape, os perigos são na colheita. O randape dá doença, intoxicação do veneno. Não sei de ninguém que sofreu dano, é preciso usar tipos de proteção como máscara e luvas “(Cachorro, 2023).

Nota-se, o pouco conhecimento sobre as consequências do uso irracional dos agroquímicos e o efeito destes, principalmente em relação à saúde, pois a maioria dos estudantes disse que seria importante estudar mais sobre o tema, entender o campo estatísticos e as ocorrências envolvendo agroquímicos. O estudante Pombo aponta que gostaria de aprender mais sobre riscos em todas as lavouras de café. Quanto ao questionamento, se conhecia alguém que sofreu algum dano, ele apenas diz sim; não entra em detalhes, assim como a estudante Aranha. O texto da estudante Joaninha não apresenta os agrotóxicos como risco e diz não saber o que mais aprender.

Assim como Porto-Gonçalves (2004), “ser necessário pensar a relação da humanidade com o planeta, vivemos a sociedade do risco, é um caminho difícil que haveremos de percorrer” (Porto-Gonçalves, 2004, p. 18). Não há mais natureza que não tenha sido já afetada de alguma forma pela atividade humana (Beck, 2010). Nessa pesquisa, ficou claro, que a produção do café está relacionada a diversos fatores de riscos, conforme apontado pelos estudantes que listam e discutem ameaças para a saúde humana e para o ambiente

Segundo o estudante Marimbondo, “nos falta ter conhecimento de quantas pessoas sofreu os danos”. Além de os estudantes não identificarem pessoas afetadas, o próprio sistema público não tem dados específicos para agrotóxicos. Desta forma, fica claro que, não apenas os participantes, mas toda a comunidade, juntamente com o poder público, não percebe claramente onde estão os riscos, tal qual proposto por Beck (2010).

Lidar com alternativas ao uso de agrotóxicos implica na confiança dos agricultores acerca da ação de algo desconhecido, o que os torna vulneráveis (Billaud, Porcher, Maclouf, 2025), motivo pelo qual provavelmente esta discussão não se apresenta no cotidiano dos cidadãos cientistas desta pesquisa. Entretanto, a participação em projetos de CC pode implicar em experiências capazes de contribuir para o aumento da confiança em alternativas que contribuam para os desafios planetários atuais (Mourad, Hosseini, Avery, 2020)

Nas atividades individuais, sem que os estudantes fossem estimulados diretamente, os riscos para o ambiente não foram citados. Desta forma, a preocupação com a saúde ambiental, não é manifesta de modo espontâneo. Ao longo das atividades o foco central dos estudantes orbitou em torno da saúde humana, havendo grande dificuldade de a maioria do grupo perceber os danos ambientais como uma consequência do uso de agrotóxicos, por exemplo, ainda que espontaneamente alguns estudantes percebam possíveis impactos ambientais decorrentes do uso de substâncias como a soda.

A falta de clareza acerca do uso e danos possíveis do uso de agrotóxicos como o glifosato em cafezais, assim como o desejo de compreender melhor estes riscos, nos remetem à proposição de que este assunto seja incluído no currículo escolar durante a educação básica. Este assunto pode ser incluído sobretudo como parte dos “temas integradores” já previstos nas Diretrizes Pedagógicas da Educação Básica do Espírito Santo, dado que dialoga com saúde e meio ambiente, dentre outros. Desta forma, o presente trabalho contribui para o entendimento acerca dos riscos associados ao café em Santa Luzia do Azul e pode contribuir para projetos de gestão destes riscos.

Considerações finais

A presente pesquisa reforça que é possível identificar fatores de riscos acerca do cultivo do café, a partir do olhar de estudantes do ensino fundamental, da escola Olegário Martins, em Santa Luzia do Azul, conforme a hipóteses inicialmente levantada. Assim, a pesquisa possibilitou aos estudantes compartilharem conhecimentos de suas vivências cotidianas, construir novos conhecimentos com seus colegas e com a equipe de pesquisadoras.

Além disso, pelo menos parte manifestou o desejo de entender melhor esses riscos, potencializando a sua formação como cidadãos agentes de mudanças nos locais onde vivem, a partir das reflexões feitas durante o trabalho. Portanto, entendemos que esta pesquisa é um exemplo do que Mourad, Hosseini e Avery (2020) chamam de exemplo de boas práticas de ciência cidadã, podendo ser adaptada para uma variedade de condições locais.

A opção pela ciência cidadã pode ter contribuído para a sensibilização dos estudantes da presente pesquisa e tem potencial para a sensibilização de pessoas da própria família nas associações de produtores rurais, associação de moradores, escolas, sobre a produção do café e os riscos para a saúde humana e ambiental, com ênfase nos agrotóxicos. Assim entendemos que o conhecimento científico também pode ser construído com a participação do cidadão cientista.

Ao participarem do processo do estudo, foi possível que os estudantes percebessem riscos e lacunas no conhecimento acerca das possíveis consequências do uso de agrotóxicos na produção de café. Os estudantes apontam principalmente os riscos associados a acidentes com animais peçonhentos, tais como escorpiões, cobras e insetos. Estes riscos são aqueles cujos danos se fazem mais presentes no cotidiano dos estudantes e seus familiares.

Os agrotóxicos, por sua vez, só foram lembrados num segundo momento. Embora o grupo tenha conhecimento do uso destas substâncias, mas desconhecem pessoas que sofreram danos pelo seu uso. Fica evidente, também, a adaptação aos riscos, por meio do uso de EPIs, no caso dos agrotóxicos, por exemplo, em vez de questionar o uso de tais substâncias e propor ou considerar formas alternativas à produção convencional.

Além disso, a ciência cidadã se apresentou como uma via para a aproximação entre a universidade e a educação básica, que permite a produção de conhecimento e o engajamento da comunidade, de modo geral, nesse processo.

Esta pesquisa revelou a demanda pela inserção de questionamentos acerca da produção convencional do café no currículo escolar desses estudantes. A inserção deste conteúdo no currículo escolar pode contribuir para uma educação que valorize a vida humana, ecológica e entenda a realidade na qual se encontram os colaboradores desta pesquisa, como possibilidade de aprendizagens, construção social e ainda preservação da saúde humana e ambiental.

Agradecimentos

À Capes (Código de Financiamento 001) e Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Olegário Martins.

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  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
  • 1
    - Adotamos a mesma grafia usada pelos estudantes para o herbicida Roundup, vendido pela Monsanto em 1974, o qual tem glifosato como principal ingrediente ativo. Mantivemos a grafia adotada por eles mesmo quando nos referimos às falas.
  • 2
    - https://www.camara.leg.br/noticias/89819-intoxicacao-de-trabalhador-rural-preocupa-oms
  • 3
    - https://docs.bvsalud.org/biblioref/2019/10/728138/196956-man-vigilancia-livro2.pdf
  • 4
    - https://reporterbrasil.org.br/2023/10/27-agrotoxicos-sao-detectados-na-agua-consumida-em-sao-paulo-fortaleza-e-campinas/
  • 5
    - esus-vs.saude.es.gov.br

Editado por

  • Editor Responsável
    Pedro Roberto Jacobi
  • Editor Associado
    Rylanneive Teixeira

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Jul 2025
  • Aceito
    01 Ago 2025
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ANPPAS - Revista Ambiente e Sociedade Anppas / Revista Ambiente e Sociedade - São Paulo - SP - Brazil
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