Editorial

Editorial

À educação superior destas últimas décadas se impõem funções e finalidades novas e muito mais complexas que os tradicionais papéis de formação das elites que predominavam em séculos passados. As sociedades destes novos tempos passam por transformações de múltiplos aspectos e junto com elas se modificam alguns conceitos importantes. Por exemplo, o próprio sentido de elite, dado o valor fundamental da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento mundial centrado na economia, na chamada sociedade do conhecimento. Ainda que prosperem outros círculos de produção de ciência e tecnologia, a universidade é ainda o principal espaço de geração e socialização de conhecimentos. Mas a universidade não deve ater-se ao conhecimento útil e de pronta aplicação no mercado, tampouco se limitar à capacitação profissional; muito mais que isso, a universidade tem a responsabilidade de formar cidadãos com valores pessoais e cívicos para o convívio social e a consolidação de sociedades evoluídas e fortalecidas cultural, econômica e moralmente. A dimensão formadora da educação superior ínsita nas funções de geração e difusão do conhecimento impõe à comunidade acadêmico-universitária (estudantes, professores, administradores...) altas responsabilidades relativamente ao desenvolvimento global da humanidade e das sociedades nacionais. Algumas questões básicas precisam estar ampla e insistentemente presentes nos meios universitários, ainda que não se consigam respostas definitivas nem tampouco incontroversas. Dentre elas: qual conhecimento para qual sociedade? quem gera e como se produzem, se difundem e se utilizam os conhecimentos? como são percebidos e praticados os significados de responsabilidade social pelas instituições?

Esta 65ª edição de Avaliação tenta avançar alguns elementos concernentes ao conhecimento, desde diferentes perspectivas, como ensino, aprendizagem, relação com o mercado, modos de produção etc., em algumas áreas. O primeiro artigo, de Tatiana Bach, Silvana Walter, José Roberto Frega e José Maria Müller analisa dimensões que influenciam a aprendizagem de estudantes. Além da contribuição teórica para a área, o estudo pode auxiliar na compreensão e na realização de processos pedagógicos no âmbito dos cursos analisados. Elaine Guerreiro, Maria Amélia Almeida e José Humberto da Silva Filho tratam de um importante aspecto da responsabilidade social da universidade a partir da análise de um instrumento construído e utilizado para avaliar a satisfação do estudante com deficiência e a questão da garantia do acesso e da permanência desse alunado em curso superior. "Os alunos de administração estão em sintonia com o mercado de trabalho?" Esta é a questão levantada por Fábio Moreira, Timóteo Queiroz, Nayele Macini e Gabriela Campeão. O presente estudo constata que as exigências do mercado de trabalho têm forte poder de determinar a formação dos estudantes. Gerson Tontini e Silvana Walter objetivam identificar o risco de evasão de alunos de graduação, prever e minimizar fatores que o influenciam. A evasão é uma das grandes preocupações das instituições de educação superior. Conhecer os riscos ajuda as instituições a desenvolverem estratégias para assegurar a permanência dos estudantes nos cursos. O SINAES está completando dez anos de vigência. Muitas foram suas mudanças e a seu respeito há uma boa quantidade de estudos. Marlene Rodrigues, Juliane de Quadros, Leoni Godoy, Letice Lanna, Antão de Souza, Lucas Rodrigues e Odete Portela apresentam um raro estudo: analisam as estratégias de gestão adotadas pelos gestores de um Hospital Universitário a partir dos resultados da autoavaliação institucional de acordo com a estrutura e os fundamentos do SINAES. Maria de Lourdes Regi, Victor Schuch Jr., Claudia Gomes e Jordana Kneipp retomam estudo anterior que identificou o perfil profissional de egressos e, no presente artigo, tratam do desenvolvimento de competências conforme estabelecem as Diretrizes Curriculares Nacionais. Concluem que as expectativas propostas pelas DCNs estão plenamente desenvolvidas pelo Curso de Administração da UFSM. O ENADE adquiriu enorme relevo no sistema de avaliação da educação superior, a ponto de (quase) manter vida própria. Regina Lanzillotti e Haydée Lanzillotti discutem os resultados do ENADE/2009 dos cursos de Estatísticas. A avaliação para a Formação Geral (FG) abordou estudos de caso, simulações, interpretação de textos, análise gráfica e tabular, enquanto a Formação Específica (FE), estudos de casos. Emílio Rodrigues Junior e Fabrício Fernandes analisam a evolução da educação a distância e a possibilidade de inclusão da modalidade semipresencial em cursos superiores de graduação já reconhecidos pelo Ministério da Educação. Defendem que a inclusão do ensino semipresencial nos cursos de graduação é validada e benéfica quando realizada de forma coerente, com anuência dos envolvidos e com fins pedagógicos e não econômicos. "O Evolucionismo Econômico na Pós-Graduação Brasileira: Uma Análise a Partir da Ótica da Educação" é o título do texto de Evandro Dotto Dias e Rodrigo Rorato. O artigo apresenta uma análise crítica da visão economicista que domina o sistema de avaliação da pós-graduação brasileira, que contribui para a reificação do conhecimento e a redução do docente-pesquisador em um agente empreendedor. Além disso, constatam os autores a pouca relevância dos demais pilares universitários, como ensino e extensão, com o direcionamento das políticas estatais para o fomento à pesquisa acadêmica voltada ao desenvolvimento econômico e à formação de produto(s) e produtor(es). Glênio do Couto Pinto Junior e Vera Maria Nogueira abordam questões envolvidas na construção de um modelo de avaliação para o processo de implantação do programa "Universidade Aberta do Brasil". O texto se reveste de grande importância, uma vez que a educação a distância ganha grande amplitude e escassos ainda são os instrumentos de acompanhamento e avaliação dessa modalidade. Lina Maria Grisales Franco e Elvia Agudelo apresentam resultados de uma investigação acerca da "pergunta" em educação superior. Identificaram três perspectivas: tipos de perguntas, estratégias didáticas que se fundamentam na pergunta e a possibilidade de compreensão e desenvolvimento do pensamento crítico. Segue-se um artigo de Germán Soprano, cujo tema é bastante original para nós: a questão da autonomia e da heteronomia da educação militar. O autor analisa os processos de avaliação institucional nos Institutos Universitários das Forças Armadas Argentinas. Fechando esta edição, um outro tema de alta relevância: avaliação de redes de pesquisa e colaboração. Denise Leite, Célia Caregnato, Elizeth dos Santos Lima, Isabel Pinho, Bernardo Miorando e Priscila da Silveira apresentam um importante e atualíssimo estudo sobre a colaboração nas redes de pesquisa. A partir de bases teóricas, elaboraram planilhas da produção bibliográfica dos pesquisadores, de grafos representando suas redes e um protocolo de avaliação de redes de colaboração e pesquisa. Trata-se de excelente contribuição à avaliação da produção de conhecimentos, visto que a colaboração no trabalho de pesquisa em grupo e nas redes não tem sido objeto de avaliação sistemática.

Que todos tenham em 2014 um ano cheio de grandes realizações e felicidades. Esperamos continuar contando com a colaboração de todos para podermos, juntos, produzir cada vez com maior qualidade uma revista científica e socialmente relevante.

José Dias Sobrinho

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Mar 2014
  • Data do Fascículo
    Mar 2014
Publicação da Rede de Avaliação Institucional da Educação Superior (RAIES), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade de Sorocaba (UNISO). Rodovia Raposo Tavares, km. 92,5, CEP 18023-000 Sorocaba - São Paulo, Fone: (55 15) 2101-7016 , Fax : (55 15) 2101-7112 - Sorocaba - SP - Brazil
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