Open-access Língua, sujeito, enunciação, discurso: (re)ler Michel Pêcheux em tempos de ferramentas generativas de linguagem

RESUMO

Este artigo tem como proposta refletir acerca do funcionamento das ferramentas generativas de linguagem a partir do quadro teórico-metodológico da análise de discurso de base materialista, fundada nas proposições de Michel Pêcheux. Assumindo como ponto de partida a (re)leitura da obra pecheutiana, com foco nas noções de língua, sujeito, enunciação e discurso, propõe questões acerca do modo como os processos de produção de sentidos, compreendidos teoricamente como fenômenos realizados por/em sujeitos, são afetados pelo avanço dos chatbots, em sua capacidade de produção textual. Em um segundo momento, a partir da análise de materialidade linguística produzida pelo ChatGPT, aponta para o modo como a máquina, inscrita no lugar da “inteligência artificial”, passa a “herdar” posições discursivas advindas de textos presentes em seu treinamento, de modo que os sentidos produzidos em suas formulações se ancoram em um mapeamento dos processos de disputa de sentidos que instanciam essas posições.

PALAVRAS-CHAVE:
Análise de discurso pecheutiana; Ferramentas generativas de linguagem; Língua; Sujeito; Discurso

ABSTRACT

This article aims to reflect on the functioning of generative language tools, based on the theoretical-methodological framework of materialist discourse analysis, founded on the propositions of Michel Pêcheux. Taking as a starting point the (re)reading of Pêcheux’s work, focusing on the notions of language, subject, enunciation and discourse, it proposes questions about the way in which the processes of production of meanings, theoretically understood as phenomena carried out by/in subjects, are affected by the advancement of chatbots, in their capacity for textual production. In a second moment, based on the analysis of linguistic materiality produced by ChatGPT, it points to the way in which the machine, inscribed in the place of “artificial intelligence,” begins to “inherit” discursive positions arising from texts present in its training, so that the meanings produced in their formulations are anchored in a mapping of dispute processes over meanings that instantiate these positions.

KEYWORDS:
Pecheutian Discourse Analysis; Generative Language Tools; Language; Subject; Discourse

Introdução

O surgimento das ferramentas generativas de linguagem, em 2022, provocou euforia nos meios editoriais, acadêmicos e midiáticos. Nos meios editoriais, o emprego de tais ferramentas tem resultado em mobilizações, a exemplo da “Carta aberta sobre o recurso à inteligência artificial no mercado editorial”, publicada em abril de 2024, em Portugal, assinada por escritores, tradutores, editores, revisores e livreiros. Dirigida especialmente ao Ministério da Cultura daquele país, a carta cobra “regulamentação e transparência no uso de inteligência artificial generativa no sector editorial” (Carta, 2024, n.p.)., diante do entendimento de que, já estando em amplo uso na área e sem qualquer regulamentação, as ferramentas generativas de linguagem seriam responsáveis por “repercussões graves ao nível laboral” (Carta, 2024, n.p.).

No meio acadêmico, por sua vez, pesquisadores brasileiros de diversas áreas têm se dedicado a reflexões sobre os impactos da inteligência artificial nos últimos anos. Em outubro de 2023, umas das mesas-redondas do 37º ENANPOLL, evento realizado pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), na UFF, em Niterói, Rio de Janeiro, teve como tema “Tecnologias, inteligência artificial e autoria”, e contou com a participação de pesquisadores das áreas de Letras, Linguística, Ciências da Informação e Direito1. O interesse acadêmico suscitado pelas ferramentas generativas de linguagem também pode ser atestado por publicações e sua repercussão midiática. Em setembro de 2023, a revista Cult, publicação brasileira dedicada a temáticas relacionadas às humanidades, publicou um dossiê sobre Inteligência Artificial, organizado pela linguista Lucia Santaella, com a participação de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, tais como Informática, Educação, Ciência e Tecnologia, Engenharia e Estudos da Linguagem (Cult, 2023).

A chamada grande mídia, compreendida como aquela que detém ampla circulação em função de seu poderio econômico (Dela-Silva, 2018), também não ficou alheia às discussões: a Inteligência Artificial tornou-se acontecimento jornalístico (Dela-Silva, 2015) em diversas publicações, a exemplo da revista Veja, uma das principais revistas semanais com circulação no Brasil, que em abril de 2023, por ocasião de um movimento internacional em que grandes empresários do mundo tecnológico e autoridades científicas assinaram um manifesto pela paralisação das pesquisas em Inteligência Artificial, trouxe o assunto como matéria de capa (Veja, 2023). A Inteligência Artificial também foi capa da revista norte-americana Time, por exemplo, em setembro de 2023, em edição que apresentou uma listagem das 100 pessoas mais influentes em Inteligência Artificial, conforme a revista (Time, 2023).

Como estudiosos da linguagem, entendemos que tais ferramentas suscitam, igualmente, uma série de questões em torno de linguagem, língua e discurso. Em trabalho anterior, Dela-Silva e Freitas (2024) voltaram-se ao discurso midiático sobre a Inteligência Artificial, em seus modos de constituição, formulação e circulação no Brasil; Gallo e Dela-Silva (2023), por sua vez, também se ocuparam da relação entre discurso sobre e discurso de Inteligência Artificial, em análise sobre o funcionamento da autoria na relação entre sujeito e máquina.

Na análise de discurso de base materialista, que se desenvolve a partir das proposições de Michel Pêcheux, na França, reterritorializada e em desenvolvimento no Brasil desde a década de 1980, a partir dos trabalhos de Eni Orlandi, localizamos um espaço privilegiado para se pensar as ferramentas generativas de linguagem. Isso porque a proposta pecheutiana de análise do discurso assume, desde seus primórdios, uma visada linguística, propondo um olhar para o discurso como um objeto ao mesmo tempo linguístico e histórico. É desse lugar teórico que propomos revisitar as noções de língua, sujeito, enunciação e discurso em Michel Pêcheux, com vistas a refletir acerca de suas consequências para se pensar tais ferramentas generativas de linguagem, na atual conjuntura sócio-histórica.

Para nortear nossas reflexões teórico-analíticas, propomos os seguintes questionamentos: se a questão da enunciação e dos processos de produção de sentidos são tomados como fenômenos que se realizam em sujeitos, e assim exclusivos à espécie humana, como pensar o avanço dos chatbots e sua capacidade de produzir textos “inéditos”? Se consideramos o discurso como processo de produção de efeito de sentidos, e que o funcionamento dessas máquinas produz efeito de sentidos, quais as consequências para a teoria do discurso, tendo em vista as noções teóricas de língua, sujeito e enunciação?

Movidos por essas questões, organizamos nosso percurso em dois momentos: - no primeiro, retomamos brevemente as noções de língua, sujeito, enunciação e discurso, nas teorizações pecheutianas; - no segundo, trazemos algumas considerações analíticas com foco em discursos de/sobre ferramentas generativas de linguagem em seu funcionamento. Em seu percurso, Michel Pêcheux considerou o efeito da manipulação da linguagem pelas ferramentas informacionais em suas proposições para a análise do discurso (Pêcheux [1981] 2010; [1981] 2011). Entendemos que diante do surgimento das ferramentas generativas, tanto a teoria desenvolvida por Pêcheux pode ajudar na compreensão desse fenômeno, como pode se beneficiar do seu funcionamento para compreender determinados aspectos da linguagem.

1 Percurso teórico

Reportamo-nos às formulações iniciais de Michel Pêcheux, em “Análise Automática do Discurso (AAD-69)” ([1969] 1997), para pensarmos em como o discurso se constituiu no objeto da análise do discurso e, consequentemente, sobre a importância de buscarmos compreender as ferramentas generativas de linguagem em seu funcionamento, observando os processos discursivos de suas produções. Buscamos assim compreender como a construção, proposta por Pêcheux, de uma teoria do discurso que proporcionaria um procedimento “automático” de leitura (Pêcheux, [1969] 1997) pode auxiliar na compreensão dos mecanismos de formulação das ferramentas de Inteligência Artificial da década de 2020.

Atento ao fato de que os estudos da língua, em suas configurações em meados do século XX, poderiam trazer contribuições para responder a questões acerca dos gestos de leitura e interpretação em uma conjuntura sócio-histórica, Pêcheux (1997) retoma a noção de língua, em Saussure, apresentada no Curso de Linguística Geral ([1916] 2006), para propor uma outra possibilidade de seu estudo, a partir de sua relação com o discurso. Afetado pela oposição entre língua e fala, teorizada por Saussure (2006), Pêcheux aponta para o modo como essa distinção leva, a princípio, à concepção da língua como um sistema autônomo e à “reaparição triunfal do sujeito falante como subjetividade em ato [...] pensado como o avesso indispensável, o correlato necessário ao sistema” (1997, p. 71). A fala, por sua vez, inerente ao sujeito, seria responsável por fazer a transição “da necessidade do sistema à contingência da liberdade” (Pêcheux, 1997, p. 72).

À esteira dos estudos saussurianos, Pêcheux (1997) indica que não é o texto, mas a língua que funciona, justamente, por ser esse conjunto sistêmico que permite diferentes combinações e substituições, todas reguladas por elementos definidos. Uma perspectiva que discuta o processo de produção dos sentidos em toda sua complexidade, considerando as redes de relações entre os elementos do texto, os vários sentidos possíveis de um termo nele contido e os seus efeitos, se fazia emergente. Atribuir, pois, à língua, esse princípio de organização dos processos de produção de sentidos é um gesto fundamental para que esses processos pudessem ser investigados em suas regularidades.

Ao teorizar sobre o objeto discurso, Pêcheux (1997) o apresenta como efeito de sentidos que se constituem na relação entre a língua e as condições de produção. Em um movimento de releitura das proposições de Saussure (2006), que concebe a língua como sendo a “parte social da linguagem, exterior ao indivíduo” (p. 22), constituindo-se como uma “instituição social” (p. 24), Pêcheux abre caminhos para os estudos do discurso, um objeto teórico singular, compreendido em relação à língua, mas com vistas a pensar o modo como se dão os processos de produção de sentidos em uma formação social. Pêcheux (1997) aponta, assim, para a necessidade de distinção entre “a função aparente de uma instituição e o seu funcionamento implícito”, uma vez que, em seus termos, “as normas dos comportamentos sociais não são mais transparentes a seus atores do que as normas da língua o são para o locutor” (p. 76).

Ao questionar o modo pelo qual Saussure designa a língua como uma instituição social, Pêcheux ao mesmo tempo em que traça um paralelo entre esses funcionamentos, apontando para a necessidade de compreensão dos processos históricos que os constituem, chama a atenção para a opacidade dos processos sociais e linguísticos. Há algo de indescritível no funcionamento da língua, que no funcionamento implícito apontado por Pêcheux, opera na formulação e organização textuais, fazendo com que o texto tenha sentido. É sobre esse mecanismo oculto da língua (em que se articula na língua o histórico, pela memória de todo dizer) que operam, também de forma não assinalável, as ferramentas de inteligência artificial, capturando, como veremos, as regularidades produzidas por esse funcionamento.

Nesse primeiro momento do desenvolvimento teórico pecheutiano, ao lado da língua como um sistema relativamente estável, e do discurso, como efeito de sentidos, o sujeito comparece em sua reflexão por decorrência da noção de condições de produção, como “lugares determinados na estrutura de uma formação social” (Pêcheux, 1997, p. 82), que se encontrariam “representados nos processos discursivos” por meio de formações imaginárias postas a designar os lugares A e B, pontos socialmente determinados, a partir dos quais se produz efeito de sentidos. O sentido é, portanto, função da relação sujeito/língua; e o sujeito, enquanto esse lugar determinado, parte inexorável do sentido.

Por consequência, o discurso pode ser remetido às relações de força em jogo em uma determinada conjuntura sócio-histórica, como afirma Pêcheux (1997, p. 86), ao tomar como exemplo uma série de dizeres sobre “liberdade”, em seus múltiplos sentidos, “conforme se trate de um professor de filosofia que se dirige a seus alunos, de um diretor de prisão que comenta o regulamento para uso dos detentos, ou de um terapeuta que dirige a palavra a seu paciente”, por exemplo. O discurso pode ser remetido também a relações de sentidos, uma vez que, conforme Pêcheux, “o processo discursivo não tem, de direito, início: o discurso se conjuga sempre sobre um discurso prévio ao qual ele atribui o papel de matéria-prima.” (Pêcheux, 1997, p. 77).

O sujeito, enquanto categoria discursiva é, desse modo, a chave para a compreensão da relação de não identidade entre os dizeres “idênticos” que se produzem em diferentes pontos da teia discursiva. Essa realidade linguístico-discursiva do processo de produção de sentidos desafia a lógica, e torna inerte para a compreensão do sentido todo processo de descrição da língua que a toma como objeto em si, universalmente estabilizada. Esse foi por um longo período um desafio para os processos de leitura, interpretação, aplicação, explicação e tabulação dos textos; o que levou, já nos anos 2000, pesquisadores da linguística computacional a, aos poucos, abandonarem abordagens idealistas de língua para considerarem uma abordagem empírica que embasa a formação dos grandes corpora de treinamento. (Nunes; Oliveira Jr.; Aluisio, 2005).

No caminhar da teoria, Pêcheux e Fuchs ([1975] 1997), em reflexão sobre a relação entre formação social, língua e discurso, afirmam a contradição constitutiva do sujeito que, não pode ser tomado como origem dos processos discursivos que, ao mesmo tempo, nele se realizam. É desse modo que Pêcheux começa a trazer para junto da língua não um falante, ainda que inscrito socialmente, em uma imaginária autonomia quanto ao uso do sistema linguístico, mas um sujeito: sujeito da língua e sujeito à língua em sua ordem própria; sujeito da ideologia e do inconsciente.

Nesse movimento, sujeito é compreendido em sua constituição como afetado por dois esquecimentos, decorrentes do funcionamento de ideologia e inconsciente como estruturas-funcionamento. Conforme retomados por Orlandi (2001), a partir das teorizações de Pêcheux ([1975] 1997a), o esquecimento número um “é da instância do inconsciente e resulta do modo pelo qual somos afetados pela ideologia. Por esse esquecimento, temos a ilusão de ser a origem do que dizemos quando, na realidade, retomamos sentidos preexistentes.” (Orlandi, 2001, p. 35). O esquecimento número dois, por sua vez, “da ordem da enunciação”, conforme a autora, produz o efeito de que no dizer “formam-se famílias parafrásticas que indicam que o dizer sempre podia ser outro” (Orlandi, 2001, p. 35).

O esquecimento, em seu duplo modo é, portanto, parte do funcionamento implícito da instituição língua. A relação língua/história/ideologia não pode ser evocada ou explicada pelo sujeito, que é sempre constituído por seu dizer, sem saber o que o leva a produzir esse ou aquele sentido, ou a escolher essa ou aquela palavra. Tudo ocorre como se intuitivamente sempre já soubéssemos o que deveria ser dito. A apreensão da linguagem por uma ferramenta de Inteligência Artificial por comparação e refinamento estatístico reproduz esse esquecimento, assimilando aos seus resultados a ambiguidade e imprecisão necessários ao funcionamento da língua.

A partir da proposição dos esquecimentos como constitutivos do sujeito é que Pêcheux e Fuchs (1997) fazem comparecer na teoria do discurso a noção de enunciação, ao afirmarem: “Diremos que os processos de enunciação consistem em uma série de determinações sucessivas pelas quais o enunciado se constitui pouco a pouco e que têm por característica colocar o ‘dito’ e em consequência rejeitar o ‘não-dito’”. (Pêcheux; Fuchs, 1997, p. 176). Enunciação comparece, assim, atrelada aos processos discursivos, que, por sua vez, se realizam nos sujeitos e têm a língua como lugar material. Em seus termos: “estando os processos discursivos na fonte da produção dos efeitos de sentido, a língua constitui o lugar material onde se realizam esses efeitos de sentido.” (Pêcheux; Fuchs, 1997, p. 172; itálicos do original). Pensar a língua enquanto “lugar material”, dessa perspectiva, não seria o mesmo de concebê-la como “a base de um léxico e de sistemas fonológicos, morfológicos e sintáticos”, como advertem Pêcheux e Fuchs (1997, p. 172).

Dar conta dessa forma material da língua é um desafio que se seguirá posto na teoria do discurso. Em Semântica e discurso, Pêcheux (19975a) aponta para o modo como a ideologia produz como um de seus efeitos a transparência da linguagem, responsável por tornar opaco o caráter material do sentido. Em seus termos:

É a ideologia que fornece as evidências pelas quais ‘todo mundo sabe’ o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve etc, evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado ‘queiram dizer o que realmente dizem’ e que mascaram, assim, sob a ‘transparência da linguagem’, aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados. (Pêcheux, 1997a, p. 160).

Também nas questões iniciais postas quando da abertura do colóquio Materialidades Discursivas (1979), ao questionar acerca de “quais materialidades se encontram postas em jogo na análise de fatos do discurso”, Pêcheux ([1979] 2016, p. 17) postula uma tripla asserção: “Há um real da língua. Há um real da história. Há um real do inconsciente”. Ao prefaciar a tradução brasileira da obra, Orlandi afirma: “a materialidade específica da ideologia é o discurso, e a materialidade específica do discurso é a língua” (Orlandi, 2016, p. 13).

Nosso olhar sobre as ferramentas generativas da linguagem, sob o risco de produzirmos a mesma leitura que a tornou possível, precisa escapar de considerá-la tão somente como “uma sequência de operações objetivas com resultado unívoco” (Pêcheux, 1997, p. 79), a exemplo da concepção de língua da qual busca se desvencilhar Pêcheux, ainda em 1969; indo ao encontro das relações dos elementos, em suas múltiplas combinações e substituições, que constituem os textos por elas produzidos, ou seja, ser um olhar sobre o funcionamento e não sobre a função de cada um desses textos.

Considerando que os discursos se constituem como um fio sempre em curso, cujo ponto de partida, não identificável, são os próprios discursos na intricada relação entre língua, ideologia e sujeito, os textos fabricados pelas ferramentas generativas de linguagem poderiam ser compreendidos como discursos, uma vez que produzem efeito de sentidos? Se compreendemos tais produções como discurso, quais as consequências para o quadro teórico da análise de discurso? Sobre essas questões passamos a nos deter, a partir dos gestos de análise que seguem.

2 Considerações analíticas

As ferramentas de inteligência artificial generativa podem ser entendidas como sistemas capazes de produzir textos inéditos a partir de instruções: prompts que orientam o sistema a produzir respostas em uma língua específica. A função chat produz sentidos na língua a partir da emulação conversacional. As tecnologias que manipulam a língua para a formulação das respostas apresentadas operam assim sobre propriedades da língua, de modo a se apropriar de algo de sua ordem identificada no movimento estruturalista e na proposta pecheutiana de análise de discurso.

Do ponto de vista técnico-epistemológico, essas ferramentas compartilham com a análise de discurso os fundamentos distribucionais de Harris2, fundamentais para a proposição pecheutiana em sua fase inicial. É através de suas técnicas que se desenvolvem os algoritmos de aprendizagem de máquina que permitem a interpretação e a produção de sentido. O poder de compreensão artificial demonstrado por essas ferramentas deriva, portanto, da capacidade de estabelecer relações entre termos, contextos e construções sintáticas apreendidas no funcionamento de milhares de textos analisados e categorizados vetorialmente pelo sistema.

Não é difícil encontrarmos o argumento de que o processo de formulação artificial processado por essas tecnologias nada mais faz que reorganizar palavras, expressões e sentidos produzidos alhures para imprimir o efeito de originalidade e organização linguísticas que atende a seus usuários. No entanto, reorganizar palavras, expressões e sentidos produzidos alhures não é, do ponto de vista discursivo, o que garante o processo de produção de sentidos, sendo justamente a possibilidade dessa reorganização (e a deriva de sentidos nela produzida) uma propriedade da língua?

É Pêcheux quem descreve assim o movimento descritivo-analítico que funda a análise de discurso:

Novas práticas de leitura (sintomáticas, arqueológicas, etc ... ) aplicadas aos monumentos textuais, e de início aos Grandes Textos (cf, Ler o Capital), surgiram desse movimento: o princípio dessas leituras consiste, como se sabe, em multiplicar as relações entre o que é dito aqui (em tal lugar), e dito assim e não de outro jeito, com o que é dito em outro lugar e de outro modo, a fim de se colocar em posição de “entender” a presença de não-ditos no interior do que é dito (Pêcheux, [1983] 1990, p. 44).

O processo desenvolvido pelas tecnologias generativas de linguagem replica as relações de sentido em um sistema de probabilidade estatística, e a cada etapa de formulação reanalisa e reestrutura cada resultado, de forma a atingir sentidos aceitáveis por humanos. Trata-se, portanto, de uma tecnologia de formulação que permite que sentidos em circulação nos textos de treinamento possam ser rearranjados e reproduzidos nos textos formulados pela máquina. Ao serem consultadas, solicitadas ou requeridas, as ferramentas de inteligência artificial ocupam uma posição na estrutura de produção de sentidos. O lugar “inteligência artificial” herda as posições discursivas manifestadas nos textos de treinamento, que constituíram seu funcionamento, fazendo emergir na superfície textual a materialidade da língua que sustenta e produz o sentido.

Ao tomarmos: a) o sentido como função da relação sujeito/língua, e o sujeito como produto do jogo imaginário que constitui as condições de produção do sentido; e b) as ferramentas de inteligência artificial generativas como ferramentas que produzem sentido pela manipulação da estrutura linguística, aceitamos, por tabela, que participam do resultado dessas operações, de modo implícito, o instanciamento de sujeitos, a inscrição das condições de produção e a filiação a determinadas formações discursivas, sob pena de impossibilidade do próprio sentido.

A fim de compreendermos de que modo se dá esse instanciamento, essa inscrição e tal filiação, produzimos de forma experimental um diálogo que, recorrendo ao funcionamento da polêmica, poderia apontar marcas dessas construções, tornando possível avançar na compreensão discursiva dessas ferramentas. A operação foi assim planejada:

  • 1.Escolhemos como Sistema de Inteligência Artificial Generativa o ChatGPT, por sua popularidade e por ter sido a primeira a oferecer esse tipo de interação;

  • 2. Formulamos nossa consulta a partir da expressão “o que significa dizer”, fazendo com que o sistema gerasse uma explicação e utilizasse recursos semântico-linguísticos, materializados nos verbos significar e dizer;

  • 3. Escolhemos uma expressão que fosse representativa do atual momento histórico, e representasse uma posição nos embates políticos midiatizados nos dois últimos anos no Brasil. Desse modo, partimos do sintagma “sem anistia”, que designaria um posicionamento da atual esquerda brasileira, que evoca a punição para os crimes eleitorais e golpistas que se deram em torno das eleições presidenciais de 2022; e derivamos para “anistia sim”, que representaria o movimento oposto. A busca por dizeres relacionados a esses posicionamentos em buscadores da internet nos levou à formulação “O STF é podre”, marca do discurso da direita que defende a citada anistia.

Dessa forma, tomamos como materialidade de análise a formulação produzida pelo ChatGPT ao perguntarmos: “o que significa dizer que ‘o STF é podre’?’. A resposta recebida é uma longa formulação que, em linhas gerais, marca uma posição de defesa do Supremo Tribunal Federal (STF) enquanto garantidor do sistema democrático brasileiro. Essa resposta foi dividida em oito partes pelo próprio sistema, e em vez de trazer uma resposta imediata e direta, produziu um sistema argumentativo em que se justifica um posicionamento que se assume. Apresentamos, no quadro a seguir, a estrutura dessa resposta:

Quadro 1
Respostas do ChatGPT para a pergunta: “o que significa dizer que ‘o STF é podre’?’. (OpenAi, 2025). Elaboração dos autores. Negritos do original. Itálicos dos autores.

Da estrutura dessa resposta, ressaltamos:

1. Abertura para contradições e ambiguidades, marcada por “diferentes significados dependendo do contexto, da intenção e do discurso de quem a utiliza”, “possíveis sentidos”, “a expressão pode ser usada”.

2. Marcação e nomeação das posições discursivas opositivas ao sentido construído: “algumas pessoas”; “grupos políticos”; “certos grupos”; “aqueles que defendem as instituições democráticas e os que as criticam”. Produzindo uma atribuição de sentido aos que sustentam essa formulação: os que criticam as instituições democráticas, minando suas bases.

3. Formulação da construção final sob o título “Reflexão”, marcando que o sentido solicitado para a frase não se produz a partir das propriedades lógico-semânticas da língua, mas de compreensão da relação entre a construção linguística e as posições discursivas assumidas: “Embora críticas ao STF sejam legítimas em uma democracia, é importante distinguir entre críticas fundamentadas e retóricas que visam deslegitimar a instituição sem base sólida. A confiança no Judiciário é essencial para a estabilidade democrática, e discussões sobre suas ações devem ser conduzidas com responsabilidade e base em fatos” (OpenAi, 2025).

Analisar a materialidade da produção de uma máquina de inteligência artificial, significa, portanto, compreender como a técnica desenvolvida é capaz de produzir uma semântica discursiva que mapeia diferentes posições e sentidos. As formulações de uma máquina generativa de linguagem se inscrevem em redes parafrásticas de sentido, marcando um posicionamento discursivo (oriundo de suas programações, base de dados, heurísticas e regras de valor). A formulação do ChatGPT não é uma simples montagem, mas se inscreve em possibilidades do dizer - o que pode ser dito - por isso, faz sentido. Não se trata de afirmar, no entanto, que o ChatGPT se constitui como um sujeito, nos termos da proposição teórica pecheutiana; mas, conforme apontamos anteriormente, as formulações que partem desse lugar da “inteligência artificial” não podem ser apartadas das posições discursivas a que se identificam os textos oferecidos à máquina para seu treinamento.

Essa possibilidade de produção de sentidos nas formulações da máquina se dá, assim, pela capacidade de apreensão do próprio da língua - sua estrutura e seu funcionamento -; em que estão inscritas as posições-sujeito e a possibilidade de contradição; o que é próprio da língua em sua articulação histórico-política. Ao depreender as possiblidades de sentido a partir da análise de corpora, o ChatGPT reproduz não apenas o produto lógico estabilizado desse funcionamento, mas a equivocidade que permite que os sentidos se estabeleçam.

Considerações finais

No percurso que aqui apresentamos, tomamos como ponto de partida teorizações de Pêcheux acerca das noções teóricas de língua, sujeito, enunciação e discurso, em um primeiro momento, e voltamo-nos a um exercício de análise de uma materialidade linguística produzida pelo ChatGPT, com vistas a refletir acerca do funcionamento da máquina no processo de formulação de sentidos, em um segundo momento.

Discursivamente podemos afirmar que a resposta dada pela máquina de inteligência artificial ao questionamento proposto traz ao jogo a ocupação de lugares discursivos na estrutura entre os pontos A e B, conforme retomamos anteriormente, na proposição de Pêcheux (1997). Nela marca-se uma posição pro-democracia, pro-institucional, condizente com princípios éticos, científicos, jurídicos, e políticos de uma formação discursiva em oposição a outra. As formações discursivas, como afirma Pêcheux (1997a, p. 160), são responsáveis por determinar “o que pode e deve ser dito”, em uma conjuntura sócio-histórica dada. É por filiação a uma formação discursiva que uma palavra, expressão ou proposição produz sentidos, segundo Pêcheux, dando a ver posições ideológicas em curso.

Há, assim, na formulação do ChatGPT uma articulação entre os fenômenos sintático-linguísticos que produzem a formulação genérica de sentido e os fenômenos estruturais sociais que produzem os lugares discursivos que instanciam esses sentidos. O sucesso dessas ferramentas pode então ser atribuído à articulação desses fenômenos: pertence ao “próprio da língua” a marcação dos lugares sociais e discursivos que estruturam as matrizes de sentido, com suas contradições e disputas.

Compreender a língua como uma instituição social é, nos termos da análise de discurso, estender suas propriedades semânticas à articulação com as condições de produção. Entender que a apreensão automatizada produzida pelo ChatGPT inclui em seu sistema de aprendizado esse tipo de “marcação” (na estrutura vetorial de associações atribuída a cada palavra ou expressão) é compreender o caráter discursivo dessas ferramentas, que ao participarem do processo de produção de sentidos, projetam em suas formulações, a estrutura apreendida; tudo para que, ao final, funcione como se o sentido não pudesse ser outro.

Declaração de disponibilidade de conteúdo

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

REFERÊNCIAS

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    » https://veja.abril.com.br/tecnologia/avanco-da-inteligencia-artificial-abre-debate-sobre-riscos-da-tecnologia/
  • Editores responsáveis
    Luciana Salazar Salgado (Universidade Federal de São Carlos - UFSCar)
    Lucia Santaella (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP)
    Tony Berber Sardinha (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP)

Parecer I

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer I

O artigo apresenta uma contribuição extremamente relevante, ao propor a retomada da teoria do discurso, de Michel Pêcheux, como eixo para pensar os efeitos de sentido implicados nas ferramentas gerativas de linguagem. Trata-se de uma proposta oportuna, considerando o atual cenário de difusão e uso intensivo de sistemas baseados em inteligência artificial, em especial aqueles voltados à produção automática de textos. A leitura de Pêcheux, empreendida pelo autor do texto, é criteriosa e atualiza, com precisão conceitual, reflexões clássicas sobre linguagem, ideologia e sujeito, resgatando o debate sobre a informática na teoria do discurso e ampliando-o para a conjuntura das tecnologias gerativas atuais. Essa “atualização”, longe de se restringir à aplicação mecânica de categorias, evidencia um trabalho interpretativo comprometido com os deslocamentos históricos e com a necessidade de reinscrição teórica diante de novos objetos. Destaca-se, ainda, a pertinência da articulação entre os conceitos de língua, sujeito, enunciação e discurso, que permite o enriquecimento do debate sobre inteligência artificial e o deslocamento dessa discussão do campo puramente técnico para o plano discursivo. Ao fazê-lo, o texto oferece ferramentas para pensar a questão do sujeito nas interações mediadas por IA, abrindo caminho para uma crítica consistente à noção de produção “automática” de sentido. Do ponto de vista argumentativo, o artigo é coeso, bem estruturado e redigido com clareza. A bibliografia é pertinente e está bem mobilizada, demonstrando familiaridade com os debates mais recentes sobre linguagem e tecnologia, sem abandonar os fundamentos da teoria discursiva. Diante do exposto, considero que o artigo reúne qualidade teórica, rigor analítico e relevância temática para publicação na revista, contribuindo para o avanço das discussões contemporâneas sobre linguagem. Recomendo, assim, sua aprovação. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    03 Maio 2025

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2025
  • Aceito
    09 Ago 2026
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