Entre o sensível e o inteligível: uma leitura semiótica do episódio Hino nacional, do Seriado Black Mirror1 1 Agradecemos ao Fundo de Incentivo à Pesquisa da PUC Minas (FIP/PUC-MG) pelo financiamento concedido ao projeto de pesquisa FIP-22444, do qual este artigo é derivado.

Conrado Moreira Mendes Sobre o autor

RESUMO

O presente trabalho propõe uma articulação entre os modelos teóricos de regimes de interação e sentido e de regimes de visibilidade e, de forma complementar, aciona os conceitos de união e contágio - todos eles advindos da sociossemiótica de Eric Landowski - com o intuito de compreender as relações entre o sensível e o inteligível no engendramento da significação do episódio Hino nacional, do seriado britânico Black Mirror. Tal proposta revela-se profícua por demonstrar as passagens e sobreposições de um regime baseado no inteligível (manipulação) para um regime baseado no sensível (ajustamento). A partir da sintaxe do ver, instaura-se um novo regime de interação, pelas várias possibilidades entre o querer-ver/querer-ser-visto. O artigo levanta, ainda, a problemática do ponto de vista acerca do acidente e da programação. É possível observar que a presença do espectador num dado ponto da cadeia sintagmática, ou seja, o poder-ver ou o poder-não-ver, no caso desses dois regimes, pode fazer emergir um ou outro regime de interação e sentido, marcados, respectivamente, pelo sensível e pelo inteligível.

PALAVRAS-CHAVE:
Sociossemiótica; Regimes de interação e sentido; Regimes de visibilidade; Black Mirror

ABSTRACT

This paper proposes an articulation between the theoretical models of regimes of interaction and meaning and regimes of visibility. Complementarily, it also mobilizes the concepts of union and contagion - part of Eric Landowski's sociosemiotics, aiming at understanding the relationships between the sensible and the intelligible in the engenderment of meaning in the episode The National Anthem of the British series Black Mirror. This proposition proves thereby to be fruitful, since it allows demonstrating the overlaps and passages from a regime based on the intelligible (manipulation) to a regime based on the sensible (adjustment). Based on the syntax of seeing, it introduces a new regime of interaction through the various possibilities between wanting-to-see and wanting-to-be-seen. Finally, the paper also poses the problem of the point of view regarding accident and programming. It is possible to observe that the presence of the spectator, at a given point in the syntagmatic chain, that is, being-able-to-see or being-able-not-to-see as regards these two regimes, can make emerge either one of the regimes of interaction and meaning, which are characterized, respectively, by the sensible and the intelligible.

KEYWORDS:
Sociosemiotics; Regimes of interaction and meaning; Regimes of visibility; Black Mirror

Considerações iniciais: do inteligível ao sensível

O presente artigo propõe uma articulação entre dois modelos teóricos fundamentais em sociossemiótica, a saber: regimes de interação e sentido (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ) e regimes de visibilidade (LANDOWSKI, 1992LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. ). De forma auxiliar, também são acionados os conceitos de união e contágio (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004.), que se relacionam com um dos regimes de interação, que é o ajustamento. A correlação entre os modelos teóricos citados se presta à análise do episódio Hino nacional, do seriado britânico Black Mirror, com o intuito de compreender as articulações entre o sensível e o inteligível no engendramento da significação no referido texto.

A presente proposta dá sequência à outra análise empreendida acerca do mesmo episódio (MENDES, 2017MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017.)2 2 Mendes (2017) e o presente trabalho constituem, em conjunto, uma análise comparativa (e também complementares) acerca do mesmo objeto, considerando-o à luz de duas perspectivas, respectivamente, a saber: a semiótica greimasiana standard e a sociossemiótica de Eric Landowski. , com a diferença de que, nessa ocasião, trabalhou-se com o conceito de modalizações do fazer, o qual serviu de base para compreender como se constroem, no episódio Hino nacional, as relações intersubjetivas ancoradas na competência modal dos sujeitos. Para Landowski (2014)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , entretanto, o regime de interação e sentido da manipulação, que é governado pelo princípio da intencionalidade e cerne da gramática narrativa standard, não evidencia a competência estésica - o sentir - dos sujeitos em interação. Assim, se, em alhures (MENDES, 2017MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017.), privilegiaram-se as interações fundadas no inteligível, o objetivo deste trabalho, com base nos desenvolvimentos da sociossemiótica (LANDOWSKI, 1992LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. , 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004., 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ), é justamente compreender a interação entre o sensível e o inteligível na construção do sentido do episódio Hino nacional.

Fiorin (2014, p.9)FIORIN, J. Prefácio. In: LANDOWSKI, E. Interações arriscadas. Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2014. p.7-10. , no prefácio de Interações arriscadas (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ), afirma que: "[...] o sistema preconizado por Landowski alarga exponencialmente as condições de aplicabilidade da teoria narrativa". A novidade do modelo do semioticista francês, que não rompe com as bases greimasianas das quais parte, mas contribui para o estabelecimento do lugar do sensível (e também do acaso, do inesperado) na teoria semiótica, permite evidenciar aspectos para os quais a gramática narrativa standard não se volta3 3 O fato de a semiótica greimasiana standard ter desenvolvido uma gramática narrativa centrada na ação e de ter privilegiado o inteligível em detrimento do sensível (pelo menos até Semiótica das paixões ou Da imperfeição) se deve a questões relativas à própria constituição da disciplina. A afirmativa acima, portanto, não deve ser lida como uma crítica, mas como uma constatação de que as teorias, para se desenvolverem, fazem escolhas que são possíveis de serem feitas numa dada episteme. Sobre o desenvolvimento cronológico e as respectivas fases da gramática narrativa, veja-se, por exemplo, Barros (1995). . Assim, pretende-se aqui conjugar o sensível e o inteligível, visto que o sentido se conforma na correlação entre esses dois funtivos (ZILBERBERG, 2011ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. Trad. Ivã Carlos Lopes, Luiz Tatit e Waldir Beividas. São Paulo: Ateliê, 2011.) ou, ainda, trilhar um caminho que vá do "inteligível ao sensível", para homenagear o título da obra organizada por Oliveira e Landowski (1995)OLIVEIRA, A.; LANDOWSKI, E. (Org.). Do inteligível ao sensível: em torno da obra de Algirdas Julien Greimas . São Paulo: Educ , 1995. acerca do rumo que segue, nesse sentido, a obra de Greimas: de Semântica estrutural ([1966] 1973) a Da imperfeição ([1987] 2017).

Assim, a pergunta que guia este trabalho é: como se integram, se correlacionam, se interpenetram o sensível e o inteligível no episódio Hino nacional, do seriado britânico Black Mirror? Para responder a essa pergunta, articulam-se, conforme anunciado, os modelos teóricos de regimes de interação e sentido (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ) e de regimes de visibilidade (LANDOWSKI, 1992LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. ) e, ainda, os conceitos de união e contágio (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004.).

1 O regime da manipulação em Hino nacional

Conforme apresentado em Mendes (2017)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017. 4 4 Como este trabalho configura uma continuação de Mendes (2017), considerou-se dispensável apresentar de forma detalhada o seriado. Para mais informações, veja-se Mendes (2017, p.38-40). , Hino nacional (National Anthem, título original), 44 min., é um episódio da série britânica de ficção científica Black Mirror. Escrito por Charlie Brooker e dirigido por Otto Bathurst, a trama aborda um impasse embaraçoso vivido pelo primeiro-ministro inglês, Michael Callow, quando a princesa Susannah, que gozava de grande popularidade entre os britânicos, é raptada. O sequestrador, depois de postar no YouTube um vídeo com imagens da princesa, chantageia Callow com um pedido bizarro. Exige que, para libertá-la, o chefe de governo do Reino Unido deve realizar, naquele mesmo dia, uma relação sexual não simulada, ao vivo e em rede nacional, com um porco-fêmea, seguindo todas as regras do movimento Dogma 955 5 Manifesto cinematográfico escrito pelos cineastas dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier em 1995. Disponível em: <http://pov.imv.au.dk/Issue_10/section_1/artc1A.tml#i1>. Acesso em: 5 jul. 2017. , marcado, sobretudo, por uma estética realista.

Como foi dito, em Mendes (2017)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017., analisou-se o episódio Hino Nacional à luz do conceito de modalizações do fazer. Acerca das conclusões do trabalho, apresenta-se a seguinte síntese:

O episódio Hino nacional, do seriado Black Mirror mostra, de forma primorosa, como as modalizações alteram a competência modal do sujeito no contexto da cultura de convergência, destacando o papel fundamental das mídias e tecnologias nas relações sociais contemporâneas e na propagação de quadros de valores. O episódio, com 44 minutos de duração, dedica 34 minutos à fase da manipulação, que é quando o destinador-manipulador "sequestrador", por meio da "opinião pública", dota o destinatário "primeiro-ministro" do objeto modal dever-fazer. O destinatário-sujeito, apesar de não-querer-fazer, deve-fazer. O dever, nesse caso, sobrepõe-se ao querer. Constrói-se, assim, um sujeito coagido que, a contragosto, teve que realizar a performance "ter relações sexuais com um porco". É importante assinalar, ainda, que o episódio rompe com uma norma social vigente que proíbe a prática da zoofilia. Em Hino Nacional, a zoofilia passa da interdição à prescrição (MENDES, 2017MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017., p.50).

A análise empreendida no referido trabalho concentra-se, sem dúvida, em um dos regimes de interação: a manipulação, aquele regido pelo princípio da intencionalidade. Assim, segundo Mendes (2017, p.49)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017., havia um sequestrador que manipulou, isto é, fez-fazer: primeiramente, a opinião pública para que essa manipulasse o primeiro-ministro para manter uma relação sexual televisionada, transmitida ao vivo e sem cortes, com um animal, em troca da libertação da princesa.

Cabe dizer ainda que à manipulação subjaz a lógica da junção, em que sujeitos se colocam em posse de objetos de valor (conjunção) ou quando são deles privados (disjunção). Para Landowski (2004, p.59, tradução nossa)LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004., a junção implica a "concepção de uma intersubjetividade sistematicamente midiatizada pelos objetos"6 6 No original: "conception d'une intersubjectivité systématiquement médiatisée par les objets." . Desse modo, conforme demonstrado em Mendes (2017, p.40, 46, 49)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017., o primeiro-ministro, para manter-se no cargo, foi modalizado por um dever salvar a princesa e, para isso, precisou praticar sexo com um porco-fêmea. O seu fazer, desse modo, foi movido pelo princípio da intencionalidade, e o tipo de manipulação, nesse caso, foi a intimidação/ameaça: um destinador ofereceu um objeto-valor negativo (a morte da princesa) para que o destinatário cumprisse o contrato proposto pelo destinador: praticar zoofilia em rede nacional. Na realidade, para o primeiro-ministro, "salvar a princesa" consistia tão somente no programa de uso "manter-se no cargo", esse, sim, seu programa narrativo de base7 7 Para mais detalhes acerca da análise do nível narrativo de Hino nacional, remete-se a Mendes (2017). .

Assim, o episódio Hino nacional reconstrói, no contexto do século XXI e ao sabor da ficção cientifica, - ou ainda retoma, por interdiscursividade - outras narrativas (folclóricas, míticas, populares) de uma princesa salva por um herói que, para resgatá-la, precisa passar pelas provas qualificante, decisiva e glorificante, derivadas por Greimas das 31 funções proppianas (GREIMAS; COURTÉS, 2008GREIMAS, A. COURTÉS, J. Prova. In: Dicionário de semiótica. Trad. Alceu Dias Lima et al. São Paulo: Contexto, 2008. p.394-394., p.394-395).

2 Da manipulação aos demais regimes de interação e sentido

Como afirma Landowski (2014, p.22)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , "[...] manipular é sempre imiscuir-se em certo grau na vida interior de outrem (tipicamente por meio da persuasão) nos motivos que o outro sujeito possa ter para atuar num sentido determinado". Assim, segundo a lógica da junção, a manipulação por intimidação (e também a por tentação) se ancora em razões, em última instância, de ordem econômica (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.26). Diferentemente do sujeito da programação, que se veste de um papel temático e que, por isso, desempenha sempre uma única função, o que define o sujeito da manipulação é "a competência modal que lhe confere, essencialmente, o querer que fará dele 'sujeito'" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.27):

Todo sujeito pode, assim, (e isso é o que o converte em "sujeito motivado" e de "razão") querer, ou crer, ou saber, etc., e, por consequência, também querer que o outro queira (ou não queira), crer que crê, saber que sabe etc., e fazê-lo saber. Compartilhada pelos sujeitos, essa competência propriamente semiótica os habilita para se "comunicarem" entre si e, por isso mesmo, os faz manipuláveis uns pelos outros, tanto em função de suas respectivas motivações e razões, quanto a partir de cálculos que efetuam no que concerne à competência modal de seus interlocutores (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.28).

Na arquitetura da sociossemiótica de Landowski (2014)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , a manipulação é apenas um dos regimes de interação e sentido. Tanto a programação quanto a manipulação, que é um conceito fundamental em gramática narrativa, já faziam parte da teoria semiótica standard. O que faz o autor é conceber mais dois regimes: o ajustamento, que contempla o sensível, a estesia; e o acidente, que permite analisar eventos imprevistos. Segundo Landowski, porém, o ajustamento e o acidente já estavam concebidos, de forma embrionária, em Da imperfeição: "[...] embora Greimas esboce um e outro, não os distingue entre si. Ao contrário, o que ele chama de acidente estético, ou, às vezes, acontecimento estético [...] superpõe, condensa, confunde os dois regimes" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.73).

Já se falou do regime da manipulação e brevemente do regime da programação. Cumpre agora integrá-los à arquitetura conceptual de Landowski (2014)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , que se compõe de quatro regimes de interação e sentido: a programação, a manipulação, o ajustamento e o acidente. À esquerda da elipse (Quadro 1, adiante), encontram-se os dois regimes, programação e manipulação, marcados pelo baixo risco, menor propensão à produção de sentido e, sobretudo, pela inteligibilidade.

Quadro 1
Regimes de interação e sentido

No caso da programação, "[...] é suficiente que o ator se apoie em certas determinações preexistentes, estáveis e cognoscíveis do comportamento do outro" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.48). O princípio que rege a programação é o da regularidade e corresponde a um fazer-advir. Já no caso da manipulação, como se viu, trata-se de "empreender procedimentos persuasivos com o objetivo de que o sujeito manipulado não possa, finalmente, deixar de confrontar-se ao querer do estrategista-manipulador" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.48). O princípio que governa a manipulação é o da intencionalidade e tal regime corresponde modalmente a um fazer-querer. Programação e manipulação são regimes de interação que comportam menor risco e, portanto, com menor potencial de produção de sentido. Do ponto de vista do risco, é a segurança que caracteriza o regime da programação, e o risco limitado caracteriza a manipulação.

À direita da elipse (Quadro 1, adiante), encontram-se os regimes do acidente e do ajustamento, marcados pela sensibilidade, pelo risco e pela maior propensão à produção de sentido. As interações, no caso do ajustamento, não dependem de leis preestabelecidas e objetiváveis: "é [...] na interação mesma, em função do que cada um dos participantes encontra e, mais precisamente, sente na maneira de agir de seu parceiro, ou de seu adversário, que os princípios da interação emergem pouco a pouco" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.48; grifos do autor). Diferentemente do sujeito da manipulação, que se define pela competência modal, isto é, baseada num elemento cognitivo/inteligível, no regime do ajustamento, o que define o sujeito é a competência estésica, ou seja, o sentir. Assim, se à manipulação subjaz a lógica da junção, o ajustamento é subsumido pela lógica da união. Cabe dizer que, nesse regime, os sujeitos não perdem necessariamente a competência modal, mas o que os guia é a competência estésica, isto é, o sentir recíproco. Desse modo, em termos modais, o ajustamento se define, sobretudo, por um fazer-sentir; é governado pelo princípio da sensibilidade e, do ponto de vista do risco, caracteriza-se pela insegurança. No caso do ajustamento, entra em cena a lógica da união,

que se concentra não sobre os estados juntivos sucessivos, mas sobre o que se passa entre os actantes, ou melhor, sobre o que se passa, estesicamente e, a cada instante, de um para o outro. [No caso da união,] os actantes interagem entre si pelo simples fato de estarem em copresença. [...] É um modo de interação (e, ao mesmo tempo, de construção de sentido) condicionado pela simples copresença material de uma relação sensível entre eles (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004., p.63; tradução nossa)8 8 No original: "Se concentre non pas sur les états jonctifs successifs mais sur ce qui se passe entre les actants, ou mieux, sur ce qui se passe, esthésiquement et à chaque instant, de l'un à l`autre. [ ;Dans le cas de l'union] ;, les actants interagissent entre eux du seul fait de leur coprésence [...]. C'est un mode d'interaction (et du même coup, de construction de sens] ; conditionné par la seule coprésence des actants, par la seule possibilité matérielle d'un rapport sensible entre eux." .

Cabe falar ainda do conceito de contágio, que é a forma pela qual esses sujeitos interagem entre si. O contágio opera sem a mediação do objeto-valor; não é mais a lógica da junção, mas a da união que rege o contágio. Não opera ainda no plano cognitivo, mas no plano sensível. Landowski (2004, p.115)LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004. fala da interação pelo contágio, tomando o riso como exemplo: um sujeito que é contagiado pelo riso do outro, sem que haja a transferência de qualquer objeto-valor; trata-se de uma forma de interação "fundada na copresença sensível e direta dos actantes" (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004., p.110; tradução nossa)9 9 No original: "ondé sur la coprésence sensible et directe des actants." ;. O autor define o contágio, em suma, como "a transformação dinâmica recíproca e em ato" (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004., p.123; tradução nossa)10 10 No original: "transformation dynamique réciproque et en acte." .

Para completar o construto interacional concebido por Landowski (2014)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , cumpre tratar, por fim, do regime do acidente. Tal regime de interação é aquele que comporta o maior grau de risco, o risco puro, e se baseia no princípio da aleatoriedade. Modalmente corresponde a um fazer-sobrevir. O regime do acidente trata, em última análise, do acaso, dos eventos que irrompem sem aviso prévio: "[nesse] regime [...], a irrupção do sentido, ou do sem sentido, é tão perturbadora que o sujeito se encontra estupefato ou extasiado e, em todo caso, desamparado" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.95). O acaso, que caracteriza o regime do acidente,

não tem competência definível: nem de ordem modal - porque ou não é motivado, e age sem razão, ou, se lhe é atribuída uma intencionalidade, esta não é conhecida -, nem de ordem estésica: indeterminado, incorpóreo, intocável, mesmo que onipresente, não é sensível a nada (nem a si mesmo) (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.78-79).

Landowski (2014, p.79)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. cria o termo actante joker (coringa) para definir aquele cujo papel é não ter papel algum ou, ainda, cumprir todos os papéis. Seja como for, o regime do acidente, narrativamente, corresponde ao cruzamento não intencional de duas trajetórias: "[...] os respectivos percursos dos actantes não tinham até então nada a ver entre si e apenas o azar fez com que convergissem num ponto preciso" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.96).

Quadro 1, em forma de elipse, ilustra a seguir as posições de cada regime de interação e sentido:

Observa-se, no Quadro 1, como se dá a passagem de um regime a outro, ou seja, a recursividade entre eles. Como mostra Landowski (2014, p.89)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , há dois tipos propriamente ditos de recursividade, os de caráter horizontal e os de caráter vertical:

  1. a) Horizontalmente (no mesmo espaço bidimensional), um regime de interação e sentido tende a outro regime por implicação ou contradição: o acidente tende à manipulação; a manipulação tende à programação; a programação tende ao ajustamento; o ajustamento tende ao acidente;

  2. b) Verticalmente (tridimensionalmente), cada um dos regimes pode reger sua própria reprodução: por exemplo, uma manipulação pode reger outra manipulação, tal como demonstrado no episódio em análise, em que o sequestrador manipula a opinião pública para que essa manipule o primeiro-ministro.

Além das recursividades propriamente ditas, existe uma recursividade do tipo "oblíquo, ou 'regente", de natureza tal que o funcionamento de um regime determinado comanda ou condiciona o funcionamento de outro regime" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.89), tal como as máquinas programadas que tentam se ajustar a seus usuários ou, numa relação intersubjetiva, quando um sujeito tenta se ajustar a outro para depois manipulá-lo, conforme exemplifica o autor. O conceito de recursividade oblíqua ou regente será retomado adiante no que diz respeito à relação entre os regimes de manipulação e ajustamento em Hino nacional.

3 Manipulação, ajustamento e regimes de visibilidade em Hino nacional

Como se falou na introdução, este trabalho, para compreender a relação entre o sensível e o inteligível no episódio Hino nacional, do seriado Black Mirror, aciona os modelos teóricos regimes de interação e sentido (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ), regimes de visibilidade (LANDOWSKI, 1992LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. ) e os conceitos de união e contágio (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004.). Já se apresentaram os regimes de interação e sentido, assim como os conceitos de união e contágio, estes dois últimos ligados ao regime do ajustamento. Pretende-se, agora, relacionar os regimes de visibilidade com os regimes de interação e sentido e demonstrar como cada regime de interação e sentido pode passar a reger um regime de visibilidade no episódio Hino nacional. Antes de fazê-lo, entretanto, é preciso apresentar os regimes de visibilidade.

Landowski (1992, p.85-102)LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. discute as relações entre o público e o privado a partir do que chama de regimes de visibilidade, ou seja, da sintaxe do ver. Para o autor, a dimensão escópica implica a existência de uma relação de pressuposição recíproca, ou seja, entre aquele que vê e aquele que é visto.

Nesse caso, a imagem (icônica ou figurativa), objeto de comunicação, é a mensagem que circula entre esses dois sujeitos escópicos, ou seja, entre aquele que vê e entre aquele que é visto. Landowski (1992, p.91)LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. chama, por convenção, de S1 o actante que está em posição de ser visto e de S2 o actante na posição de observador11 11 O autor lembra que esses dois actantes podem ser subsumidos por um único ator, como Narciso, ou por atores diferentes. . Em termos de modalização12 12 Sobre a teoria das modalidades das quais derivam os regimes de visibilidade de Landowski (1992), veja-se Greimas ([1980] 2014, p.79-101). , o ver pode ser sobremodalizado pelo querer, de modo que o autor define a estrutura elementar do querer escópico da seguinte maneira, conforme o Quadro 2 (adiante).

Quadro 2
Estrutura elementar do querer escópico

Da mesma maneira, o dever, o saber e o poder podem sobremodalizar o ver, criando-se a possibilidade de mais seis quadrados semióticos. Pode-se, ainda, numa terceira instância, pensar a sobremodalização do ver/ser visto pelo fazer.

Começa-se relacionando os regimes de visibilidade com o regime de interação e sentido da manipulação. O sequestrador, ao postar o vídeo no YouTube, pedindo o resgate da princesa Susannah, fez-ver, ou seja, fez chegar ao destinatário "opinião pública" a mensagem/representação icônica da princesa suplicando por sua vida. Num primeiro momento, o destinatário "opinião pública" é modalizado por um querer-não-ver (repulsa), uma vez que somente 28% dos eleitores assistiriam ao vídeo do primeiro-ministro fazendo sexo com um porco. No entanto, após a divulgação das imagens de um dedo decepado, supostamente pertencente à princesa Susannah, o destinatário, antes modalizado por um querer-não-ver, passa à negação desse estado não-querer-não-ver (indiferença), chegando ao estado de querer-ver (curiosidade) o coito entre o primeiro-ministro e o porco. Nota-se que o fazer-ver, por parte do destinador "sequestrador", não enseja, num primeiro momento, um querer-ver, por parte do destinatário "opinião pública".

A respeito do actante em posição de ser visto "primeiro-ministro", embora modalizado por um querer-não-ser-visto, estava modalizado por um dever-ser-visto (pelo público e pelo sequestrador) para que a princesa fosse libertada. Assim, antes de entrar no estúdio, ele fora instruído por sua assessora de como se portar durante a sequência de sexo com o animal (34' 01" - 34' 45'')14 14 As imagens analisadas ao longo deste artigo terão exibidas, quando a elas se fizer referência, a respectiva minutagem. :

Estamos obedecendo todas as regras estipuladas, então você terá que ir até o fim. Colocamos imagens na altura de sua visão que podem ajudá-lo, caso esteja tendo dificuldades. Psicólogos nos sugeriram que você leve o tempo que for necessário. Pressa pode ser interpretada como ansiedade... ou até prazer.

Assim, o sexo com o animal deveria parecer e ser real; o destinador "governo" havia colocado imagens pornográficas à altura da visão do primeiro-ministro para fazê-lo ver e, com isso, dotá-lo do poder-fazer. A relação sexual com animal deveria ter uma duração marcada por uma maior temporalidade (no eixo da extensidade) e por um andamento lento (no eixo da intensidade)15 15 Para Zilberberg (2011), intensidade e extensidade são os termos da categoria tensividade. O cruzamento da dimensão ou eixo da intensidade com a dimensão ou eixo da extensidade gera o espaço tensivo. A primeira se refere aos estados de alma e é formada pelas subdimensões andamento e tonicidade, e a segunda se refere aos estados de coisas, composta pelas subdimensões temporalidade e espacialidade. , uma vez que atingir o orgasmo muito rapidamente poderia sugerir que o primeiro-ministro estivesse gostando de fazer sexo com o porco. Assim, a prática da zoofilia foi permitida, desde que não implicasse um querer, mas um dever. Desse modo, modalizado por um dever-fazer, o primeiro-ministro é ainda modalizado por um dever-ser-visto. Fazer sexo com o porco sem que as imagens fossem transmitidas seria inócuo e, portanto, inválido. Assim, nesse caso, o dever-fazer pressupõe o dever-ser-visto.

As relações escópicas descritas até agora se relacionam com o regime da manipulação: um sujeito "sequestrador" manipulou outro sujeito "primeiro-ministro" a fazer algo (sexo com um porco), contrariando todo um sistema axiológico que proíbe a prática da zoofilia e, por essa razão, desencadeando, pela lógica da concessão16 16 Para Zilberberg (2011, p.242), a concessão define-se como "o produto das subvalências de andamento e de tonicidade quando atingem o paroxismo, ou seja, a desmedida". Diferentemente da lógica implicativa "se x, então, y", a lógica concessiva, que está no cerne da noção de acontecimento, refere-se à ideia do "apesar de x, y", ou seja, a concessão fala precisamente daquilo que não se espera, mas que acontece, daquilo que sobrevém, sem que se esteja preparado para tal. , um querer-ver, por parte de outro sujeito "opinião pública", nesse caso, actante em posição de observador, ainda que o actante em estado de ser visto, "primeiro-ministro", estivesse modalizado não por um não-querer-ser-visto, mas por um dever-ser-visto.

Como foi apresentado, porém, um regime pode governar, obliquamente, outro regime de interação. Nesse caso, o regime de manipulação, em que o sequestrador faz-fazer o primeiro-ministro (fazer sexo com o porco) e a opinião pública (querer-ver), condiciona o funcionamento de outro regime: o ajustamento, em que um sujeito não dota um outro sujeito (apenas) de uma competência modal, mas, sobretudo, de uma competência estésica, de um sentir, conforme se vê a seguir.

As imagens da transmissão eram, então, assistidas por toda a Inglaterra. Um pub lotado de rostos eufóricos e curiosos para ver a performance do primeiro-ministro figurativizava um intenso17 17 Entende-se, à luz de Zilberberg (2011), que a categoria da tensividade pode incidir sobre as modalidades, podendo haver um querer mais ou menos intenso; um dever mais ou menos intenso, etc. querer-ver, que modalizava o sujeito coletivo "opinião pública". Antes da transmissão propriamente dita, figuraram, num fundo preto, os dizeres "anúncio oficial" e a seguinte narração: "este é um anúncio oficial. Em alguns minutos, o primeiro-ministro fará um ato indecente na televisão. Ele cedeu à exigência do sequestrador na esperança de que isso garanta a liberdade da princesa Susannah". Durante o anúncio, as pessoas comemoravam gritando um longo e sonoro "êêê!" e erguiam copos de cerveja (33'01'' - 33' 20'').

O anúncio oficial terminava assim: "a gravação ou cópia desta transmissão será ilegal a partir da meia-noite. Solicitamos que todos os telespectadores desliguem os televisores imediatamente. A transmissão começará após o bipe". Durante a execução de um bipe agudo, quase ensurdecedor, imagens de ruas desertas eram exibidas, sugerindo que todos estavam reunidos em suas casas, locais de trabalho ou bares para assistir à transmissão ao vivo, contrariando, obviamente, o próprio pedido contido no anúncio (33' 20'' - 33' 59'').

Começa a transmissão. Antes de iniciar o ato sexual com o animal, o primeiro-ministro se volta para a câmera e diz: "eu acredito que isso trará o retorno seguro da princesa Susannah. Eu amo minha esposa. Que Deus me perdoe" (35' 43'' - 36' 19'').

Ele chega perto do porco e a reação do público é de euforia e curiosidade. Em termos da sintaxe do ver, o sujeito coletivo "opinião pública" é modalizado por um intenso querer-ver (36' 24'' - 36' 37").

O primeiro-ministro se aproxima mais do porco e baixa as calças. O público ri de forma jocosa. Assim, a opinião pública (S2), modalizada por um querer-ver, estabelece uma relação contraditória com o primeiro-ministro (S1) que quer-não-ser-visto, o que Landowski (1992, p.97)LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. chama de "voyeurismo de S2". O querer-ver de S2 reveste-se ainda de prazer sádico em ver o outro sofrer, por estar em uma posição humilhante (36' 37" - 36' 42").

Começa o ato sexual entre o primeiro-ministro e o porco. A câmera focaliza não o ato, mas a fisionomia das pessoas que assistiam à transmissão. A curiosidade sádica dá lugar à apreensão. A apreensão, por sua vez, é sucedida pela repulsa, pela repugnância, pelo horror. Assim, se, sintaxicamente, tem-se um movimento que vai do querer-ver ao querer-não-ver; semanticamente, depreendem-se, das expressões faciais, efeitos de sentido passionais que vão da curiosidade sádica ao horror, conforme o Quadro 3, a seguir:

Quadro 3
Sintaxe e semântica dos regimes de visibilidade de S2 "Opinião pública"18 18 É importante destacar que o Quadro 3 é uma representação horizontal do quadrado elíptico landowskiano, com o intuito de tornar mais didática a homologação de um termo da sintaxe com um termo da semântica. Desse modo, o querer-não-ver (repulsa) será sucedido pelo não-querer-não-ver (indiferença), que será sucedido pelo querer-ver (curiosidade), etc.

Assim, o Quadro 3 representa, graficamente, o conteúdo depreendido pela sequência de imagens em que S2, "opinião pública", passa da curiosidade sádica (querer-ver), à apreensão (não-querer-ver) e, desta à repulsa, à repugnância e, por fim, ao horror (querer-não-ver). Como se mencionou anteriormente, um arranjo modal pode ser sobredeterminado por uma categoria tensiva. Desse modo, em termos sintáxicos, o querer-não-ver intenso corresponde à repulsa; o querer-não-ver com ainda mais intensidade corresponde à repugnância; o querer-não-ver com intensidade máxima, saturada, corresponde, em suma, ao horror19 19 O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (HOUAISS; VILLAR, 2011) define os termos da seguinte maneira: repulsa "ato ou efeito de repulsar ou repelir [...]; oposição, objeção" (p.2.434); repugnância: "qualidade do que repugna; sentimento de aversão, de repulsa, asco" (p.2.434); horror: "forte impressão de repulsa ou desagrado, acompanhada ou não de arrepio, gerada pela percepção, intuição, lembrança de algo horrendo, ameaçador; repugnante; pavor" (p.1.552). (36' 47" - 37' 28").

É interessante ainda mencionar que o não-crer-ser (incerteza) sobremodaliza o querer-ver; isto é, o público, tal como São Tomé, queria ver para crer20 20 Em Mendes (2016), relacionam-se os conceitos de fidúcia e concessão para explicar a relação entre a dimensão fiduciária da crença (crer vs. não crer) e o acontecimento. Demonstrou-se, nessa ocasião, que "a concessão atua, assim, à maneira da hipotipose, carregando nas tintas, tornando mais intenso, sensorial, estésico o caráter da veridicção. Nesses termos, a concessão eleva a veridicção a seu ápice, intensificando-a. Assim, 'crer no inacreditável' conduz à figura do sujeito do estupor, do espanto" (MENDES, 2016, p.304). . A partir do momento que se passa da incerteza (não-crer-ser) para a possibilidade (não-crer-não-ser) e desta para a certeza (crer-ser), o sentido do regime de visibilidade também muda, já que o sujeito coletivo S2 (opinião pública) passa do querer-ver (curiosidade) para o não-querer-ver (apreensão) e deste para o querer-não-ver (repulsa).

Cabe dizer ainda que o título do episódio, Hino nacional (National Anthem), refere-se, por analogia, ao momento em que todos estão juntos para a execução de um dos símbolos da nação. A mesma união que se verifica durante a execução do hino nacional num evento de grandes proporções é aquela observada durante a transmissão do vídeo do primeiro-ministro com o porco. É a própria nação que se figurativiza naqueles rostos patemizados: inicialmente, descrentes, curiosos, eufóricos e, por fim, crentes no inacreditável, enojados, horrorizados. Assim, entre os sujeitos em posição de observador (S2), unidos no sentido semiótico do termo, ou seja, em copresença sensível, não há troca de objetos-valor, mas o compartilhamento de um puro sentir. É a estesia, in fine, que funda o estar junto, a própria nação.

Desse modo, conforme se veio demonstrando, o regime da manipulação passou a reger obliquamente o regime do ajustamento no episódio Hino nacional. Agora, a interação se dá não somente por um fazer-crer, mas, sobretudo, por um fazer-sentir. Interage-se, no regime do ajustamento, pelo contágio entre sensibilidades:

Fazer sentir que se deseja para fazer desejar, deixar ver seu próprio medo e, por esse fato mesmo, amedrontar, causar náusea vomitando, acalmar o outro com sua própria calma, impulsionar - sem empurrar - só por seu próprio ímpeto, etc. [O regime do ajustamento é marcado, então,] por um contato direto, mais ou menos imediato, conforme o caso, entre corpos que sentem e corpos sentidos (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.51).

Portanto, se o destinador "sequestrador" fez-ver e se o destinatário "opinião pública", num primeiro momento, recusou-se ao contrato proposto pelo destinador, por fim, o destinatário foi modalizado por um querer-ver. A partir daí, o regime da manipulação é sobreposto pelo regime do ajustamento, em que, nesse caso, por meio do ver, despontam o sentir, a estesia, a união, o contágio entre sensibilidades. Como se viu, os sujeitos em posição de observador não perdem a competência modal, mas são dotados, fundamentalmente, de competência estésica.

O Quadro 4, a seguir, representa os dois sentidos que se podem observar no quadrado elíptico. O primeiro parte do querer-não-ver, passa pelo não-querer-não-ver e chega ao querer-ver, isto é, quando, num primeiro momento, a opinião pública se nega a ver a cena de sexo do primeiro-ministro com o porco, mas, depois, passa a querer-ver. Assim, parte da repulsa, nega esse estado (indiferença) e chega à curiosidade. O segundo, contrariamente, parte do querer-ver, passa pelo não-querer-ver e chega ao querer-não-ver. Nesse caso, parte da curiosidade, passa pela apreensão e chega, por fim, à repulsa, que se intensifica, tornando-se repugnância, e que recrudesce até saturar, chegando ao horror.

Quadro 4
Quadrado elíptico da sintaxe e da semântica dos regimes de visibilidade de S2 “Opinião pública”

Assim, como se estão relacionando os regimes de visibilidade com os regimes de interação e sentido, esta análise do episódio Hino Nacional veio demonstrando que o primeiro sentido que se realiza no quadrado elíptico querer-não-ver > não-querer-não-ver > querer-ver é marcado pelo regime da manipulação até o querer-ver.

A partir daí, realiza-se o sentido contrário: querer-ver > não-querer-ver > querer-não-ver. Desse modo, partindo da curiosidade que se instaura, isto é, de um intenso querer-ver, emerge o regime de interação e sentido do ajustamento, em que corpos "que sentem e corpos sentidos" - para fazer uso da expressão de Landowski (2014, p.51)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. - passam a compartilhar não objetos-valor: não se trata mais apenas de salvar a princesa; o que passa a unir aqueles sujeitos é o próprio sentir, a própria estesia compartilhada em copresença. Assim, o segundo movimento que vai da curiosidade, passa pela apreensão e chega ao horror é marcado pelo regime do ajustamento e a forma de interação entre aqueles sujeitos espectadores se dá pelo contágio entre sensibilidades. Portanto, de forma categórica, pode-se dizer que é o querer-ver juntos, o não-querer-ver juntos e o querer-não-ver juntos que definem esse regime de visibilidade marcado pelo ajustamento, em que os sujeitos estão unidos semioticamente.

A seguir, no Quadro 5, demonstra-se graficamente a relação entre os regimes de interação e de visibilidade:

Quadro 5
Relação entre regimes de interação e sentido e regimes de visibilidade

Acerca do contágio entre sensibilidades, tal como foi demonstrado pela análise, Landowski (2004, p.127)LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004. ilustra um caso semelhante sobre espectadores de teatro:

No teatro, por exemplo, podem-se frequentemente ver grupos inteiros de sujeitos patêmicos - todos os espectadores de uma sessão - rir, chorar, suspirar de surpresa ou tremer de terror, todos juntos, num mesmo impulso, comungando, por um momento, da mesma alegria ou do mesmo desespero figurado, diante deles, através do discurso e do corpo dos atores, atuando naquela cena. Experiência estética e estésica compartilhada, a participação no ato dramatúrgico instaura, então, um tipo de comunidade viva entre os espectadores, fundada sobre uma proximidade sentida, unindo os corpos-sujeitos (tradução nossa)21 21 No original: "au théâtre par exemple, on peut couramment voir des groupes entiers de sujets pathémiques - tous les spectateurs d'un soir - rire, pleurer, haleter de surprise ou trembler d'effroi tous ensemble d'un même allégresse ou dans un même désespoir figuré devant eux à travers de discours e le corps des acteurs jouant sur la scène. Expérience esthétique et esthésique partagée, la participation à l'acte dramaturgique instaure alors une sorte de communauté vivante entre spectateurs, fondée sur une proximité ressentie unissant les corps-sujets." .

Evidenciam-se, assim, com esta análise, duas coisas: (1) um regime baseado no princípio da intencionalidade, calcado no inteligível, ou seja, a manipulação, pode passar a reger obliquamente um regime ancorado no princípio da sensibilidade, alicerçado no sensível, que é o ajustamento; com isso, demonstra-se como se dá a passagem do inteligível ao sensível, a partir dos regimes de interação e sentido, o que atesta a recursividade oblíqua entre os regimes de interação proposta por Landowski (2014, p.89)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. . Porém esta análise demonstra, além disso, que (2) um regime de visibilidade pode ser regido, sobredeterminado, por um regime de interação e sentido. Logo, a partir da emergência de um novo regime de interação, muda-se o sentido de um regime de visibilidade. Desse modo, a possibilidade de se articularem os regimes de interação e de visibilidade mostrou-se profícua no sentido de permitir que se observem as passagens e sobreposições entre um regime baseado no inteligível para um regime baseado no sensível a partir da sintaxe do ver, ou seja, a partir de sujeitos escópicos que, pelas várias possibilidades entre o querer-ver/querer-ser-visto, instauram um novo regime de interação, o que, a partir da articulação teórica realizada, apresenta-se como uma relativa novidade.

4 Ponto de vista, acidente e programação em Hino nacional

Resta, por fim, pensar o seriado Hino nacional à luz dos outros dois regimes de interação que já foram anteriormente mencionados: o acidente e a programação. Como se viu, no regime do acidente, "a irrupção do sentido, ou do sem sentido, é tão perturbadora que o sujeito se encontra estupefato ou extasiado e, em todo caso, desamparado" (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , p.95). Com base nessa asserção, apresenta-se a última parte desta exposição, que tem como objetivo relacionar os regimes do acidente e da programação com o episódio em pauta.

Fontanille (2016)FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. coteja os conceitos de acontecimento (ZILBERBERG, [2006] 2011ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. Trad. Ivã Carlos Lopes, Luiz Tatit e Waldir Beividas. São Paulo: Ateliê, 2011.), referente à semiótica tensiva, e de acidente (LANDOWSKI, [2005] 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ), atinente à sociossemiótica, com o fito de estabelecer as diferenças e semelhanças entre eles. Acerca daquilo que os conceitos têm em comum,

tanto um quanto outro se caracterizam pelo fato de que 'ocorrem' sem que se possa antecipá-los, de que é particularmente atribuir sua origem a um actante passível de identificação e de que eles constituem um problema a ser resolvido para a organização sintagmática do curso das coisas, tal como ele [acidente/acontecimento] se mostrava antes da incidência (FONTANILLE, 2016FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. , p.36).

No que diz respeito à diferença entre eles, o autor mostra que uma incidência sintagmática, isto é, algo que ocorre no eixo da sucessão de fatos, será um acontecimento "se ela abala um espectador cujo referencial de observação é congruente com aquele do processo modificado pela incidência" (FONTANILLE, 2016FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. , p.37; grifos do autor). Em outros termos, aquele que se viu abalado pelo sobrevir de um evento impactante e inesperado não poderia antevê-lo, pois estava em um ponto da cadeia sintagmática que lhe impedia tal antecipação.

No que concerne à álea, que é o princípio que regula o acidente e o acontecimento, Fontanille (2016, p.38)FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. mostra que, apesar de não pressupor diretamente um espectador, ela supõe "ao menos um intérprete [...] epistêmico [que] pode se confundir com o espectador desses acontecimentos". Quanto ao acidente, Fontanille (2016, p.38)FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. recorre ao dicionário Larousse para definir o termo: "um acontecimento não desejado, aleatório, fortuito, que aparece pontualmente no espaço e no tempo, em consequência de uma ou várias causas, e que implica danos a pessoas, a bens ou ao ambiente". O autor conclui que o acidente é um caso particular de acontecimento. Desse modo, haveria dois tipos de acontecimento, aos quais a álea estaria subjacente: (1) "aqueles que não são previstos em razão da incapacidade dos atores"; e (2) "aqueles que não são previstos porque ninguém poderia fazê-lo" - "se, entretanto, a álea for considerada apenas do ponto de vista da recepção e da interpretação dos próprios atores (é, grosso modo, o ponto de vista adotado por Landowski), então os dois tipos de acontecimento se confundem no mesmo efeito global de imprevisão" (FONTANILLE, 2016FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. , p.38).

A leitura que Fontanille (2016)FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. faz do conceito de acidente (e também do de acontecimento) permite resgatar a noção de ponto de vista do espectador numa cadeia sintagmática. Assim, como se viu, o acidente é um tipo de acontecimento "não desejado, aleatório, fortuito" (LAROUSSE apudFONTANILLE, 2016FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. , p.38), que não pode ser previsto em razão da incapacidade dos atores de prevê-lo ou porque ninguém poderia fazê-lo. A álea-acidente, segundo o entendimento de Fontanille (2016)FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. acerca da obra de Landowski (2014)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , é "considerada apenas do ponto de vista da recepção e da interpretação dos próprios atores" (FONTANILLE, 2016FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. , p.38). Portanto, chega-se aqui ao momento da exposição em que se pretendem relacionar os regimes de acidente e programação no episódio Hino nacional, de Black Mirror.

Considerando o ponto de vista dos espectadores (a opinião pública) e também do primeiro-ministro, ou seja, a partir do lugar da cadeia sintagmática que ocupavam, eles receberam com grande surpresa o vídeo/pedido de resgate da princesa. O caráter inesperado, transgressor, bizarro, em suma, concessivo, do pedido do sequestrador (fazer com que o primeiro-ministro faça sexo com um porco-fêmea ao vivo em rede nacional) constitui, do ponto de vista daqueles espectadores, um acidente, que os deixa perturbados, petrificados, extasiados. Assim, tal fato semiótico sobrevém de forma tão aguda, ou seja, é marcado por um elevado grau de intensidade e baixo grau de extensidade, que, por alguns instantes, prescinde de significação, pois é caracterizado, sobretudo, por seu aspecto sensível. Por isso, para o sujeito "opinião pública" (e também para o sujeito "primeiro-ministro"), o primeiro regime que se instaura é o do acidente.

Como se viu, trata-se de um tipo de acidente não previsto, em razão da incapacidade dos atores, isto é, um acidente do tipo 1, segundo Fontanille (2016)FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. . Se ele não pôde ser previsto, isso se deve a uma programação que, do ponto de vista da opinião pública e também do governo, não estava perceptível. Assim, havia uma programação anterior ao acidente, mas que não parecia ser; em termos veridictórios, a programação era, pois, secreta. Nesse sentido, mostra o autor que "a programação, se ela existe, não é portanto reconstruída senão a partir das consequências, o que é um atestado de imprevisão ou de ocultação" (FONTANILLE, 2016FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47. , p.36; grifos nossos).

Ao final do episódio, é exibida uma reportagem televisiva, segundo a qual: "no aniversário de um ano de seu humilhante calvário, um aparentemente despreocupado Michael Callow se mostrou confiante em uma aparição pública hoje com sua esposa Jane". A matéria revela que o artista e ganhador do Prêmio Turner, Carlton Bloom, foi o responsável pelo sequestro da princesa e pelo grotesco pedido de resgate. Narra ainda que:

Após completar um ano, um crítico causou controvérsia, descrevendo o caso como a primeira grande obra de arte do século XXI. Mas enquanto os críticos da cultura debatem o seu significado, não restam dúvidas de que, com a audiência global de 1,3 bilhão, foi um evento do qual todos nós participamos.

Portanto, o trecho deixa claro que houve um sequestrador que programou uma sequência de ações: sequestrar a princesa Susannah, gravar e postar no YouTube um vídeo/pedido de resgate bizarro, sabendo que, somente manipulando a opinião pública, poderia manipular o primeiro-ministro, uma vez que, com base em "algoritmos do comportamento" de um político que gostaria de se manter no cargo, seria possível prever que ele cederia à chantagem e praticaria sexo com um porco-fêmea, ao vivo, em rede nacional . Seria possível ainda prever que a opinião pública iria querer-ver a cena de sexo do primeiro-ministro com o animal. Seria possível prever também que aqueles espectadores, antes movidos por uma curiosidade sádica, passariam ao estado de repulsa, repugnância, horror, não somente em relação àquela cena, mas em relação a eles mesmos, por terem desejado assistir àquilo: "que espécie de ser humano sou eu por sentir tanto prazer ao ver o outro numa situação tão vexatória?" - talvez pudessem ter se questionado. Do ponto do vista do sequestrador (que, conforme se descobriu ao final da cadeia sintagmática do episódio, era um artista), o que havia era a programação da "primeira grande obra de arte do século XXI".

Assim, acidente para os espectadores, programação para o sequestrador: tudo depende do ponto da cadeia sintagmática em que se encontra o sujeito. Parafraseando Saussure, nesse caso, é o ponto de vista que cria o regime de interação ou, ainda, para relacionar novamente os regimes de visibilidade com os regimes de interação, é o poder-ver ou o poder-não-ver que instaura um ou outro regime.

Considerações finais

O presente trabalho propôs articular os modelos teóricos de regimes de interação e sentido (LANDOWSKI, 2014LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. ) e de regimes de visibilidade (LANDOWSKI, 1992LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. ) e, de forma complementar, acionou os conceitos de união e contágio (LANDOWSKI, 2004LANDOWSKI, E. Passions sans nom. Paris: Presses Universitaires de France, 2004.), com o intuito de compreender as correlações entre o sensível e o inteligível no engendramento da significação do episódio Hino nacional, do seriado britânico Black Mirror. Tendo sido realizada a análise, foi possível verificar que um regime como a manipulação, baseado no princípio da intencionalidade, pode passar a reger obliquamente um regime ancorado no princípio da sensibilidade, isto é, o ajustamento, estando essa conclusão de acordo com a teoria de Landowski (2014, p.89)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. a respeito da recursividade entre regimes.

O que não estava previsto pela teoria, porém, é que um regime de visibilidade pode ser regido, sobredeterminado, por um regime de interação e sentido. Assim, a partir da emergência de um novo regime de interação, muda-se o sentido de um regime de visibilidade. Tal conclusão, graças à possibilidade de se articularem os referidos modelos, constitui uma relativa novidade em termos teóricos, uma vez que permite flagrar as passagens e sobreposições de um regime baseado no inteligível para um regime assentado no sensível - a partir da sintaxe do ver -, ou seja, a partir de sujeitos escópicos que, pelas várias possibilidades entre o querer-ver/querer-ser-visto, instauram um novo regime de interação.

Por fim, levantou-se a problemática do ponto de vista, no que diz respeito ao acidente e à programação. Foi possível constatar que a presença do espectador num dado ponto da cadeia sintagmática, ou seja, o ponto de vista - o poder-ver ou o não-poder-ver - no caso desses dois regimes, instaura um ou outro regime: acidente ou programação, marcados respectivamente, pelo sensível e pelo inteligível.

  • 1
    Agradecemos ao Fundo de Incentivo à Pesquisa da PUC Minas (FIP/PUC-MG) pelo financiamento concedido ao projeto de pesquisa FIP-22444, do qual este artigo é derivado.
  • 2
    Mendes (2017)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017. e o presente trabalho constituem, em conjunto, uma análise comparativa (e também complementares) acerca do mesmo objeto, considerando-o à luz de duas perspectivas, respectivamente, a saber: a semiótica greimasiana standard e a sociossemiótica de Eric Landowski.
  • 3
    O fato de a semiótica greimasiana standard ter desenvolvido uma gramática narrativa centrada na ação e de ter privilegiado o inteligível em detrimento do sensível (pelo menos até Semiótica das paixões ou Da imperfeição) se deve a questões relativas à própria constituição da disciplina. A afirmativa acima, portanto, não deve ser lida como uma crítica, mas como uma constatação de que as teorias, para se desenvolverem, fazem escolhas que são possíveis de serem feitas numa dada episteme. Sobre o desenvolvimento cronológico e as respectivas fases da gramática narrativa, veja-se, por exemplo, Barros (1995)BARROS, D. Sintaxe narrativa. In: OLIVEIRA, A.; LANDOWSKI, E. (Orgs.). Do inteligível ao sensível: em torno da obra de Algirdas Julien Greimas. São Paulo: Educ, 1995. p.81-97..
  • 4
    Como este trabalho configura uma continuação de Mendes (2017)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017., considerou-se dispensável apresentar de forma detalhada o seriado. Para mais informações, veja-se Mendes (2017, p.38-40)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017..
  • 5
    Manifesto cinematográfico escrito pelos cineastas dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier em 1995. Disponível em: <http://pov.imv.au.dk/Issue_10/section_1/artc1A.tml#i1>. Acesso em: 5 jul. 2017.
  • 6
    No original: "conception d'une intersubjectivité systématiquement médiatisée par les objets."
  • 7
    Para mais detalhes acerca da análise do nível narrativo de Hino nacional, remete-se a Mendes (2017)MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017..
  • 8
    No original: "Se concentre non pas sur les états jonctifs successifs mais sur ce qui se passe entre les actants, ou mieux, sur ce qui se passe, esthésiquement et à chaque instant, de l'un à l`autre. [ ;Dans le cas de l'union] ;, les actants interagissent entre eux du seul fait de leur coprésence [...]. C'est un mode d'interaction (et du même coup, de construction de sens] ; conditionné par la seule coprésence des actants, par la seule possibilité matérielle d'un rapport sensible entre eux."
  • 9
    No original: "ondé sur la coprésence sensible et directe des actants."
  • 10
    No original: "transformation dynamique réciproque et en acte."
  • 11
    O autor lembra que esses dois actantes podem ser subsumidos por um único ator, como Narciso, ou por atores diferentes.
  • 12
    Sobre a teoria das modalidades das quais derivam os regimes de visibilidade de Landowski (1992)LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. , veja-se Greimas ([1980] 2014GREIMAS, A. Sobre o sentido II: ensaios semióticos. Trad. Dilson Ferreira da Cruz. São Paulo: Nankin; Edusp, 2014., p.79-101).
  • 13
    O quadrado semiótico do querer escópico de Landowski (1992)LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992. foi adaptado para a forma do quadrado elíptico, conforme as últimas obras do autor, especialmente Landowski (2014)LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014. , com o objetivo de dinamizar as relações aí estabelecidas e também com o propósito de homologar as relações dos regimes de visibilidade com as relações dos regimes de interação e sentido.
  • 14
    As imagens analisadas ao longo deste artigo terão exibidas, quando a elas se fizer referência, a respectiva minutagem.
  • 15
    Para Zilberberg (2011)ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. Trad. Ivã Carlos Lopes, Luiz Tatit e Waldir Beividas. São Paulo: Ateliê, 2011., intensidade e extensidade são os termos da categoria tensividade. O cruzamento da dimensão ou eixo da intensidade com a dimensão ou eixo da extensidade gera o espaço tensivo. A primeira se refere aos estados de alma e é formada pelas subdimensões andamento e tonicidade, e a segunda se refere aos estados de coisas, composta pelas subdimensões temporalidade e espacialidade.
  • 16
    Para Zilberberg (2011, p.242)ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. Trad. Ivã Carlos Lopes, Luiz Tatit e Waldir Beividas. São Paulo: Ateliê, 2011., a concessão define-se como "o produto das subvalências de andamento e de tonicidade quando atingem o paroxismo, ou seja, a desmedida". Diferentemente da lógica implicativa "se x, então, y", a lógica concessiva, que está no cerne da noção de acontecimento, refere-se à ideia do "apesar de x, y", ou seja, a concessão fala precisamente daquilo que não se espera, mas que acontece, daquilo que sobrevém, sem que se esteja preparado para tal.
  • 17
    Entende-se, à luz de Zilberberg (2011)ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. Trad. Ivã Carlos Lopes, Luiz Tatit e Waldir Beividas. São Paulo: Ateliê, 2011., que a categoria da tensividade pode incidir sobre as modalidades, podendo haver um querer mais ou menos intenso; um dever mais ou menos intenso, etc.
  • 18
    É importante destacar que o Quadro 3 é uma representação horizontal do quadrado elíptico landowskiano, com o intuito de tornar mais didática a homologação de um termo da sintaxe com um termo da semântica. Desse modo, o querer-não-ver (repulsa) será sucedido pelo não-querer-não-ver (indiferença), que será sucedido pelo querer-ver (curiosidade), etc.
  • 19
    O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (HOUAISS; VILLAR, 2011HOUAISS, A.; VILLAR, M. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.) define os termos da seguinte maneira: repulsa "ato ou efeito de repulsar ou repelir [...]; oposição, objeção" (p.2.434); repugnância: "qualidade do que repugna; sentimento de aversão, de repulsa, asco" (p.2.434); horror: "forte impressão de repulsa ou desagrado, acompanhada ou não de arrepio, gerada pela percepção, intuição, lembrança de algo horrendo, ameaçador; repugnante; pavor" (p.1.552).
  • 20
    Em Mendes (2016)MENDES, C. Acontecimento, fidúcia e concessão: uma leitura semiótica do caso Isabella Nardoni. In: ______; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.301-320., relacionam-se os conceitos de fidúcia e concessão para explicar a relação entre a dimensão fiduciária da crença (crer vs. não crer) e o acontecimento. Demonstrou-se, nessa ocasião, que "a concessão atua, assim, à maneira da hipotipose, carregando nas tintas, tornando mais intenso, sensorial, estésico o caráter da veridicção. Nesses termos, a concessão eleva a veridicção a seu ápice, intensificando-a. Assim, 'crer no inacreditável' conduz à figura do sujeito do estupor, do espanto" (MENDES, 2016MENDES, C. Acontecimento, fidúcia e concessão: uma leitura semiótica do caso Isabella Nardoni. In: ______; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.301-320., p.304).
  • 21
    No original: "au théâtre par exemple, on peut couramment voir des groupes entiers de sujets pathémiques - tous les spectateurs d'un soir - rire, pleurer, haleter de surprise ou trembler d'effroi tous ensemble d'un même allégresse ou dans un même désespoir figuré devant eux à travers de discours e le corps des acteurs jouant sur la scène. Expérience esthétique et esthésique partagée, la participation à l'acte dramaturgique instaure alors une sorte de communauté vivante entre spectateurs, fondée sur une proximité ressentie unissant les corps-sujets."
  • 22
    Episódio sugere, ainda, que a difusão se deu em escala mundial pela internet.

Agradecimentos

Agradeço a leitura do texto, em sua versão semifinal, por Jaqueline Schiavoni e Paolo Demuru, que contribuíram para as reflexões aqui empreendidas, e também a revisão textual feita por Jocyare Souza.

REFERÊNCIAS

  • BARROS, D. Sintaxe narrativa. In: OLIVEIRA, A.; LANDOWSKI, E. (Orgs.). Do inteligível ao sensível: em torno da obra de Algirdas Julien Greimas. São Paulo: Educ, 1995. p.81-97.
  • FIORIN, J. Prefácio. In: LANDOWSKI, E. Interações arriscadas Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2014. p.7-10.
  • FONTANILLE, J. Um diálogo imaginário entre Claude Zilberberg e Eric Landowski: em torno do acontecimento, da álea e do acidente. In: MENDES, C.; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.35-47.
  • GREIMAS, A. Da imperfeição Trad. Ana Claudia Oliveira. 2. ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores; Ed. do CPS, 2017.
  • GREIMAS, A. Sobre o sentido II: ensaios semióticos. Trad. Dilson Ferreira da Cruz. São Paulo: Nankin; Edusp, 2014.
  • GREIMAS, A. COURTÉS, J. Prova. In: Dicionário de semiótica Trad. Alceu Dias Lima et al São Paulo: Contexto, 2008. p.394-394.
  • GREIMAS, A. Semântica estrutural Trad. Haquira Osakape e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix; Ed. da Univ. de São Paulo, 1973.
  • HOUAISS, A.; VILLAR, M. Dicionário Houaiss da língua portuguesa Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
  • LANDOWSKI, E. Interações arriscadas . Trad. Luiza Helena Oliveira da Silva. São Paulo: Estação das Letras e Cores , 2014.
  • LANDOWSKI, E. Passions sans nom Paris: Presses Universitaires de France, 2004.
  • LANDOWSKI, E. A sociedade refletida: ensaios de sociossemiótica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Educ ; Pontes, 1992.
  • MENDES, C. Modalizações do fazer no episódio "Hino nacional", do seriado Black Mirror. Significação: revista de cultura audiovisual (ECA/USP). São Paulo, v. 44, n. 48, p.32-52, jul-dez, 2017.
  • MENDES, C. Acontecimento, fidúcia e concessão: uma leitura semiótica do caso Isabella Nardoni. In: ______; LARA, G. (Org.). Em torno do acontecimento: uma homenagem a Claude Zilberberg. Curitiba: Appris, 2016. p.301-320.
  • OLIVEIRA, A.; LANDOWSKI, E. (Org.). Do inteligível ao sensível: em torno da obra de Algirdas Julien Greimas . São Paulo: Educ , 1995.
  • THE National Anthem. In: Black Mirror. Diretor: Otto Bathurst. Criação: Charlie Brooker. Inglaterra, 2011.
  • ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva Trad. Ivã Carlos Lopes, Luiz Tatit e Waldir Beividas. São Paulo: Ateliê, 2011.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Abr 2019
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2019

Histórico

  • Recebido
    18 Maio 2018
  • Aceito
    17 Fev 2019
LAEL/PUC-SP (Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rua Monte Alegre, 984 , 05014-901 São Paulo - SP, Tel.: (55 11) 3258-4383 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: bakhtinianarevista@gmail.com