Open-access A linguagem que perdeu a alma: reflexões sobre linguagem e comunicação na era digital

RESUMO

A crescente digitalização do mundo fez emergir novas formas de interação. O surgimento de programas capazes de produzirem textos modifica a própria concepção de enunciadores. Algoritmos, simples instruções matemáticas, agora parecem também produzir linguagem. Deparamo-nos, assim, com o seguinte questionamento: qual é o limiar entre aquilo que entendemos como nossa linguagem e a linguagem da máquina? Argumentamos que existem três aspectos que singularizam a linguagem humana (a referencialidade, a corporeidade e a sensibilidade da enunciação), que não podem ser reproduzidos pela máquina. Nossos argumentos pautam-se, inicialmente, na distinção entre duas ordens simbólicas que se opõem: a linguagem humana, composta por um sistema de signos linguísticos, e a linguagem da máquina, constituída por signos de ordem (os signos numéricos). Defendemos que há, na atualidade, um embate e um entrelaçamento entre esses dois simbolismos.

PALAVRAS-CHAVE:
Linguagem digital; Embate simbólico; Comunicação

ABSTRACT

Increasing world digitalization has provoked the emergence of new interaction modes. Emergence of computer programs that may produce texts modifies the enunciator concept itself. Algorithms, which are simple math instructions, now also seem to produce language. Therefore, we come up with the following questioning: What is the threshold between what we understand as our language, and the language of the machine? We argue there are three human language singularizing aspects (referentiality, corporeality, and enunciation sensibility), which may not be reproduced by machines. Our arguments are initially guided by the distinction between two opposing symbolic orders: human language, composed by a linguistic sign system; and machine language, consisting of order signs (numerical signs). We reason nowadays there is a clash and an entanglement between these two symbolisms.

KEYWORDS:
Digital Language; Symbolic Clash; Communication

Introdução

O homem é um ser da linguagem. De todas as espécies que aqui habitam, o homem é o único que utiliza uma linguagem completamente simbólica, uma linguagem erigida a partir de signos que simbolizam coisas, relações, emoções, situações as mais diversas. Nossa linguagem é composta por signos capazes de instaurar um mundo próprio. No início era o verbo - e o verbo, o verbo apenas, decretou que a taxa de juros deveria ser elevada; que a moeda não mais seguiria o lastro do ouro; e assim se fez. O mundo se fez por um ato de linguagem.

O homem é um ser da interação - um ser que, para constituir-se, interage com seu outro. Os modos como interagimos têm, porém, sofrido modificações nos últimos anos. A crescente digitalização do mundo fez emergir novas formas de interação. A arquitetura da interação - do “um para todos” analógica, para o “todos para todos” digital - foi completamente modificada. Mais que isso, modificou-se também a própria concepção de enunciadores, com o surgimento de programas capazes de produzirem textos dos mais diversos gêneros. Algoritmos, simples instruções matemáticas, agora parecem também produzir linguagem.

Essas constatações levam-nos a questionar algo que há pouco tempo não mais se questionava, pois acreditávamos que cerca de um século de investigações linguísticas já teriam respondido a esses questionamentos. Todavia, novamente, vemo-nos de volta com essas interrogações: o que é a linguagem humana? O que singulariza esse componente tão essencial de nossa vida? Ou, de forma mais precisa: qual é o limiar entre aquilo que entendemos como nossa linguagem, como algo essencialmente humano, e a linguagem da máquina?

Argumentaremos, nas páginas que seguem, que existem três aspectos que singularizam a linguagem humana, que não podem ser reproduzidos pela máquina. Esses três aspectos podem ser sintetizados como a “alma” da linguagem. Trata-se de dimensões que têm se apresentado como índices sensíveis das mudanças nos meios de comunicação digital, mas que, justamente por estarem sofrendo tais mudanças, têm gerado uma crise crescente em diferentes aspectos de nossas vidas.

Nossos argumentos pautam-se, inicialmente, na distinção entre duas ordens simbólicas que se opõem: a linguagem humana, composta por um sistema de signos linguísticos, e a linguagem da máquina, constituída por signos de ordem (os signos numéricos). Distinguiremos, a partir de Ernst Cassirer (2011), essas duas ordens simbólicas (signos de coisas e signos de ordem), para fundamentar o cerne de nossas discussões: a máquina que computa não está estruturada, em seus mecanismos elementares, a partir de signos linguísticos e de seu simbolismo. A máquina estrutura-se a partir de signos de ordem, e é a partir dos signos de ordem que ela - a máquina - converte e representa a linguagem humana.

Defenderemos que há, por conseguinte, uma “batalha simbólica”, um embate entre duas representações, dois simbolismos distintos: o simbolismo dos signos de coisas e o simbolismo dos signos de ordem. A partir de Franco Berardi (2020), Byung-Chul Han (2018, 2023), Valentin Volóchnivov (2013a, 2013b), Mikhail Bakhtin (2003a), discutiremos diferentes aspectos dessa luta simbólica.

1 Da linguagem humana à linguagem da máquina ou: dos signos de coisas aos signos de ordem

Fundamentamos nossos argumentos com base em uma constatação inicialmente óbvia: a máquina que computa, que tem se integrado à vida ou até mesmo substituído o humano, estrutura-se não a partir de signos linguísticos, mas a partir de signos numéricos, em sua forma mais elementar. “Computar” é enumerar, operação que consiste em realizar um mapeamento entre um conjunto de signos numéricos e um conjunto de elementos. O editor de textos que agora utilizamos para redigir essas palavras, essas reflexões que então se desenvolvem, não está entendendo meu discurso para assim transcrevê-lo - o editor apenas converte a minha ação para a representação digital.

Com essa constatação inicial, buscamos delimitar a existência de duas ordens simbólicas distintas: a ordem da linguagem humana, composta por um sistema de signos linguísticos, e a ordem da linguagem da máquina, erigida por um sistema de signos numéricos. Esses sistemas sígnicos opõem-se em diferentes aspectos. O primeiro deles é a referencialidade.

A linguagem humana é composta por um sistema de signos referenciais. A fim de explicitarmos o que significa exatamente utilizar um sistema sígnico referencial, convocamos, aqui, o capítulo “Língua e ciência: signos de coisas e signos de ordem”, presente no volume 3 de A filosofia das formas simbólicas, de Cassirer (2011). Não nos deteremos na teoria cassireriana das formas simbólicas, apenas nos centraremos na distinção que o filósofo faz entre dois sistemas sígnicos que se opõem quanto à referencialidade: os signos de coisas e os signos de ordem.

Cassirer (2011) trata da língua e da ciência (especificamente da ciência matemática), argumentando que essa última - a ciência - tende para o polo da significação pura, mas esse processo espiritual dá continuidade ao trabalho iniciado pela língua: o trabalho de desmaterialização e de desvinculabilidade.

A língua, ao se libertar da coisa concreta como um atributo real, insere-nos em uma nova ordem: na ordem do mundo simbólico. Assim, ao me referir a um objeto qualquer, não preciso indicar materialmente uma prova do objeto em questão para que o enunciado tenha sentido - posso referir-me ao objeto idealmente, ou mesmo mencionar objetos não existentes no mundo. Cassirer (2011) cita os estudos de Karl Bühler, para concluir que “o passo que vai da prova material até o signo genuíno e a desvinculabilidade fundamental do signo em relação às coisas que ele simboliza é o que primeiro constitui a peculiaridade (…) da linguagem humana” (Cassirer, 2011, p. 565). Cassirer (2011) argumenta que a desmaterialização e a desvinculabilidade, inicialmente realizadas pelos signos verbais, são radicalmente aprofundadas pelos signos conceituais da ciência teórica. Em suas palavras: “Na ciência, aquilo que foi divisado e iniciado na língua é então realizado” (Cassirer, 2011, p. 565). Para o filósofo, embora os signos verbais iniciem esse trabalho de desmaterialização e de desvinculabilidade, esses mesmos signos nunca se desprendem do mundo intuitivo como um todo. Ainda que o signo seja empregado com uma função de relação pura, com uma função predicativa, ele não perde nunca a conexão com a função de “indicar algo”, isto é, com a função dêitica. O autor retoma brevemente seus estudos realizados no volume 1 de A filosofia das formas simbólicas (Cassirer, 2001), argumentando como “a função predicativa evolui a partir da função dêitica” (Cassirer, 2011, p. 566). Assim, conclui que, mesmo os conteúdos aparentemente mais lógicos da língua nunca perdem totalmente seu vínculo com a esfera da intuição. Esse é o limiar entre os signos de coisas, isto é, os signos linguísticos, e os signos de ordem, os signos que fundamentam as ciências exatas (os signos numéricos). Vejamos:

Nesse ponto, a formação científica do conceito e a terminologia científica dão um passo adiante, já que o emprego do signo nelas é liberto de todas as condições sensuais limitadoras. O processo da desmaterialização, bem como da desvinculação continuam avançando: o signo de certo modo se liberta da esfera das coisas para se tornar puro signo de relação e de ordem. (Cassirer, 2011, p. 566; destaque nosso).

Os signos linguísticos não são capazes de estabelecer apenas relações puras abstratas (embora também o façam). São, em essência, “signos de coisas” porque denominam “coisas” (reais ou imaginárias) no mundo. Uma língua nunca será estruturada a partir de puras relações lógicas. O elemento intuitivo exerce um peso que, por assim dizer, “equilibra” o polo do logos da língua. Os signos de ordem, por outro lado, estão “libertos” desse elemento intuitivo, ao mesmo tempo em que se libertam do componente referencial, estabelecendo relações puras em um sistema. Pensemos, por exemplo, nos números naturais: um número qualquer, como o “5”, não tem um referente, constituindo-se a partir de uma relação ordenada em um sistema de contagem. Ao me referir ao número apenas, não tenho um referente como o tenho ao me referir a coisas como “casa”, “carro”, “flores”. O número é simplesmente um ordenamento em um sistema serial. Isso decorre do fato de que os números naturais são gerados a partir da representação da ausência de valor (o número zero), da unidade (o número um) e de uma regra gerativa de incremento de uma unidade (o número anterior mais um, o que estabelece a ordem no sistema).

A máquina que computa se estrutura a partir dos “signos de ordem”, os signos que tendem para o polo puro do logos e que não têm referente. O modelo teórico de computador popularizado atualmente tem como base o conceito de Máquina de Turing (Turing, 1937). Turing explica a máquina a partir de uma metáfora de um sistema composto por uma fita de extensão infinita para a esquerda e para a direita, e um cabeçote de leitura e escrita. Em cada posição da fita, apenas um símbolo pode ser escrito. A fita da Máquina de Turing pode ser deslocada uma posição por vez, para a direita ou para a esquerda. O cabeçote pode ler um símbolo que está escrito naquela posição ou escrever um símbolo naquela mesma posição. A máquina está “ciente” apenas do símbolo lido a cada momento. Mas, alterando as configurações da máquina, é possível “lembrar” dos símbolos que foram lidos anteriormente. O comportamento da máquina, a cada momento, é definido pela configuração e pelo símbolo escaneado. Portanto, o comportamento da máquina é determinado pela configuração e pelo símbolo lido naquele momento. A configuração é um conjunto finito de condições para computar um número real.

Na implementação física de uma máquina de Turing, no formato de programas de computadores digitais, a configuração da máquina pode ser entendida como sendo as instruções em alto nível de abstração. Essas instruções próximas da linguagem humana são denominadas como “linguagem de programação”. Estas - as linguagens de programação - são escritas com palavras similares às dos vocabulários de linguagens humanas e são convertidas para representações de baixo nível (linguagem de máquina). Observa-se que, em um sistema computacional tradicional, todo processamento é realizado por meio de um tipo de autorreferenciação à ordenação dos elementos, evidenciado, dessa forma, a ausência de objeto referenciado externo ao próprio sistema computacional.

A comunicação que se estabelece a partir da máquina - automática, “espectral” e “viral”, conforme citaremos nos tópicos seguintes, a partir de Han (2018) - baseia-se na lógica de um sistema simbólico que não nos é natural. Não nos é natural porque é próprio da linguagem humana constituir-se a partir de um sistema sígnico que, além de referencial, não obedece ao imperativo da identidade, como o faz o sistema sígnico da máquina - fundada nos signos de ordem.

Sobre esse imperativo de identidade, Cassirer (2011) argumenta que a língua, fundamentada em signos de coisas, não consegue estabelecer seus sentidos de forma homogênea, como o faz um sistema baseado em signos de ordem. Vejamos:

A língua (…) é a própria torrente viva que, a partir de si, produz sempre formas novas e mais desenvolvidas. É aí que reside sua força verdadeira e original, mas ao mesmo tempo é também aí que, sob o ponto de vista do conceito e do pensamento conceitual, se encontra o seu ponto fraco, pois o conceito em sentido estrito quer justamente pôr fim a essa flutuação, a essa oscilação: ele quer estabilidade e univocidade. (Cassirer, 2011, p. 572; destaque nosso).

A identidade (a “estabilidade e univocidade”, nos dizeres de Cassirer, 2011) é o imperativo dos signos de ordem. Obedecer a esse imperativo significa homogeneizar a mensagem, depurá-la de ambiguidade, para que ela possa ser compatível com um sistema capaz de processá-la. A palavra da língua caracteriza-se pela variabilidade, pela “mutabilidade e ambiguidade oscilante” (Cassirer, 2011, p. 577), ao passo que os signos de ordem mantêm a constância de significado.

Para exemplificar essa constância de significação com a qual a máquina opera, tomemos, por exemplo, os algoritmos da subárea de Inteligência Artificial (IA) conhecida como Processamento de Linguagem Natural (PLN). As metodologias tradicionais de PLN envolvem processos como: remoção de palavras de parada (stop words), lematização e stemização (stemming) (Kochmar, 2022). No PLN, palavras como conjunções e preposições podem ser consideradas desnecessárias e são removidas. Na lematização, ocorre a redução da palavra à sua forma base. Por exemplo, a palavra “gatos” seria convertida para “gat”, por meio da remoção das desinências de gênero e número. Na stemização (stemming), ocorre a remoção dos afixos de verbos em formas conjugadas para convertê-los em seus troncos verbais. Em seguida, as sentenças das quais foram removidas as palavras de parada (sentenças que contém as palavras lematizadas e stemizadas) passam por um processo de concatenação sequencial em que grupos de n palavras são rotulados com números. Esse processo de atribuição de número é chamado de tokenização (Kochmar, 2022). As sequências de números que representam as sentenças são dadas como entradas a algoritmos que aplicam equações e teoremas matemáticos e estatísticos para realizar processos como agrupamento e categorização de padrões. Percebe-se que, nesse processo, eliminam-se fatores que possam provocar ambiguidade, bem como são estabelecidos padrões constantes no texto.

A comunicação que se estabelece a partir da máquina, regida por algoritmos, impõe a lógica de uma ordem simbólica que, a princípio, não nos é própria. Desenvolvemo-nos sob a égide dos signos de coisas. Estabelecemos nossa comunicação a partir de uma linguagem referencial, ambígua, pulsante, não homogênea. A comunicação na era digital, mediada pela máquina, tem rompido com essa lógica.

2 A batalha simbólica: a linguagem sem referente

Berardi (2020) analisa essa “batalha simbólica” ou “luta” entre ordens simbólicas distintas a partir de uma perspectiva semioeconômica, mostrando os entrelaçamentos entre finanças e linguagem. O autor italiano analisa os mecanismos psicossemióticos da financeirização, mostrando um entrelaçamento entre linguagem e finanças. Em nossa leitura, concebemos que esse entrelaçamento referido por Berardi (2020) pode ser interpretado, em uma visão mais ampla, como uma tensão entre os signos de ordem (os signos dos números, das porcentagens, dos juros e da dívida impagável) e os signos de coisa.

Qual é a relação entre linguagem e finanças? - questiona o autor. Para Berardi (2020), tanto a linguagem quanto as finanças passaram por um processo de abstração progressiva, a partir do qual se des-referencializaram. Berardi (2020) parte da tese de que a financeirização é o grau mais abstrato da simbolização econômica, e argumenta como ocorre o imbricamento linguagem/finanças: As finanças não se referem a algo “real”, concreto. São o resultado de atos de linguagem (as taxas de juros, por exemplo, são definidas por tecnocratas, em reuniões periódicas. São, pois, o produto de atos de linguagem): “A dívida é um ato de linguagem, um compromisso” (Berardi, 2020, p. 31).

Ao mesmo tempo em que as finanças resultam da linguagem (são produtos de atos de linguagem, não se referem a nada concreto, “palpável” no mundo físico), a linguagem, por sua vez, na era da financeirização/virtualização do mundo, é afetada pela lógica das finanças (pelos “signos de ordem”, em nossa leitura), de modo a se tornar automatizada. A automação da linguagem, segundo Berardi (2020), ocorre em dois planos. Primeiro, a palavra é submetida à lógica do ciclo financeiro. Os signos, nessa sujeição, são compatibilizados com os formatos digital-financeiros, para que possam ser processados. Em um segundo plano, temos a indexação da linguagem, que permite que a palavra, padronizada, seja reconhecida em ferramentas de busca. Essa automação da linguagem, segundo argumenta Berardi (2020, p. 20), “neutraliza o lado pulsional da enunciação”.

A des-referencialização, para Berardi (2020), é um processo de imbricação da linguagem com o financeiro, um processo de abstração progressiva do mundo. O autor adota o conceito de “trabalho abstrato” de Marx, isto é, o “aumento da distância entre a atividade humana e sua utilidade concreta” (Berardi, 2020, p. 25). Para Marx, que teoriza na era do capitalismo industrial, não importa quais produtos são efetivamente produzidos. O dono da fábrica pode produzir sapatos, alimentos ou qualquer outro produto. O que de fato importa é a acumulação de valor gerada por essa atividade. Na época de Marx, todavia, segundo argumenta Berardi, o capitalista industrial ainda era forçado a produzir “coisas úteis” (Berardi, 2020, p. 25). O burguês, com efeito, era alguém vinculado a um território, à fábrica (ao “burgo”); construía escolas e desenvolvia atividades em torno das vilas operárias. Na fase atual do capitalismo, na era da financeirização, já não há a produção de coisas úteis para que se atinja o objetivo de acumulação. Em nossa era, temos capital que gera capital, em um processo totalmente abstrato. O burguês de outrora é o agente do mercado financeiro que não tem mais vínculo com qualquer lugar, com qualquer território. A sede de uma big tech pode estar instalada em um país e seus empregados estarem distribuídos em qualquer lugar do planeta. O mundo tornou-se não apenas sem referente, mas também desterritorializado.

Berardi (2020) utiliza o termo “semiocapital”, com o sentido de imbricação entre linguagem e finanças. A linguagem, “capturada” por esse processo de abstração violenta, torna-se uma linguagem automática. O mundo financeiro é um mundo abstrato e sem referente. A linguagem, nesse mundo abstrato, é igualmente des-referencializada.

O autor considera que a revolução tecnológica desregulamentou tanto a relação entre tempo e valor, quanto a relação entre signo e coisa. Essa última relação - signo e coisa - tornou-se, na visão de Berardi (2020, p. 28), opaca, “à medida que a garantia ontológica do sentido baseado no status referencial do significante foi rompida” (Berardi, 2020, p. 28).

Berardi (2020) localiza, no movimento simbolista, as primeiras experimentações com a linguagem, no sentido de “abolir” o referente. Segundo Berardi (2020), os poetas simbolistas queriam representar não a coisa em si, mas a experiência, a impressão causada pela coisa. A emancipação do signo em relação ao referente, isto é a des-referencialização da linguagem, encontra paralelos na operação que, em 1972, propiciou a acirrada financeirização do mundo. O presidente americano Richard Nixon, naquele ano, rompe os acordos de Bretton Woods, desindexando a moeda a um referente econômico. Segundo Berardi (2020, p. 30), “o presidente americano afirmou que o dólar não teria mais a realidade como referência e que seu valor seria dali em diante decidido por um ato de linguagem” (Berardi, 2020, p. 30).

Adiante, Berardi faz uma constatação que consideramos sobremaneira interessante. Afirma o autor italiano que a ideologia neoliberal adota o discurso de ser uma força liberatória, “que emancipa o capital da influência da regulação estatal, mas a verdade é que ela submete a produção e a vida social a mais agressiva das regulações - a matematização da linguagem” (Berardi, 2020, pp. 30-31).

Essa “matematização da linguagem”, para o autor, consiste na “redução da vida social às conclusões matemáticas de algoritmos financeiros” (Berardi, 2020, p. 31). A vida como um todo é subsumida a essa lógica, o que tem ocasionado os mais diversos adoecimentos a toda a população.

A respeito dessa redução da vida à lógica da linguagem matemática (a lógica dos signos de ordem), consideremos aquele que é um dos índices mais sensíveis de mudanças e crises pelas quais passa a humanidade: a comunicação. A luta simbólica, a que nos referimos anteriormente (a subsunção da lógica simbólica dos signos de coisa, pulsantes, ambíguos e pautados na referencialidade, à lógica dos signos de ordem, homogêneos, des-referencializados), revela-se no estabelecimento de uma forma de comunicação que não nos é própria: a comunicação decorrente da linguagem algoritmizada, discretizada, ordenada e sanitizada, disponibilizada pelos sistemas computacionais. Nesse ponto, convocamos a sensível leitura que Byung-Chul Han faz da comunicação na era dos automatismos da linguagem.

Han, no ensaio No enxame (2018), trata da linguagem automática como sendo a linguagem que, entre outros aspectos, elidiu o referente, tornando-se espectral e viral. Trata-se de uma linguagem que já não é plena de significado, mas de informação. Para Han (2018), mais informação não necessariamente traz mais significado. Pelo contrário: a informação excessiva torna-se ruído. Han (2018) diferencia o ato de contar (narrar) e o ato de enumerar, para argumentar que, na linguagem da máquina, não é possível uma narrativa, apenas uma enumeração. “Likes”, em mídias sociais, nada contam, apenas instauram uma lógica aditiva. Consideramos, aqui, mais uma dimensão da luta de ordens simbólicas referida anteriormente. A linguagem humana, referencial, não é uma linguagem que visa em essência à enumeração, à computação - essa é a lógica dos algoritmos, da linguagem da máquina. A máquina conta, “computa”, ordena.

Essa ideia - a oposição narrar (algo típico da nossa linguagem) versus enumerar (operação típica dos signos de ordem) - é desenvolvida no ensaio A crise da narração. Nele, Han (2023) contrapõe a narração e a informação. Aquela vincula-se à comunidade (pensemos na imagem emblemática de pessoas reunidas em torno de uma fogueira, contanto histórias), pressupõe um ouvinte atento, preserva sua força no tempo e exige o que Han (2023) denomina como “distensão psíquica” (Han, 2023, p. 26), isto é, um estado de atenção profunda, típica de um estado contemplativo. A informação, por seu turno, não se vincula à comunidade, mas ao indivíduo que, em sua solidão, navega, “passa os dedos” na tela de um smartfone, em busca de notícias. A informação pressupõe alta-tensão espiritual, estímulo de surpresa e fragmentação da atenção. A linguagem da máquina não é capaz de narrar, mas de informar.

Um dos aspectos que mais diferenciam nosso modo humano de comunicação da comunicação regrada dos algoritmos é a possibilidade de processamento de grandes quantidades de informação. Não somos capazes de processar a quantidade (quase) infinita de informação que a máquina processa. Nossa aparente limitação em processamento vincula-se ao sentido. A máquina é capaz de processar informações infinitas porque essas são padronizadas, de modo a reduzir a ambiguidade própria da enunciação - lembremos que os signos de ordem obedecem ao imperativo da identidade, algo que não é próprio da linguagem humana, dos signos de coisas, sempre tão flutuantes em seus sentidos instaurados.

Há um interessante diálogo que pode ser traçado entre Berardi (2020) e Han (2018; 2023). Berardi (2020) aborda essa circulação crescente de informações (mas não de sentidos) como sendo uma “crise inflacionária”. O autor italiano faz uma analogia com o mundo do capital: quando se pretende aumentar a acumulação, produz-se, em menor escala de tempo, determinado produto. Aumenta-se, assim, a mais-valia, a partir dessa produção acelerada. Esse produto em excesso pode não conseguir ser consumido, acumulando-se. Esse processo está ocorrendo atualmente com os sentidos. Há uma hiperinflação de signos produzidos, de signos em circulação; informações em demasia são, diariamente, produzidas pelas mais diferentes mídias digitais. Esses signos em excesso não conseguem ser “consumidos”, não conseguem ser processados pela mente humana. Há, segundo Berardi (2020), uma crise de atenção provocada pela aceleração da produção de signos - signos que trazem informação, mas não necessariamente trazem mais sentido. Berardi utiliza a expressão “semioinflação” para caracterizar essa crise do sentido: “precisa-se de mais signos, palavras e informações para comprar menos sentido” (Berardi, 2020, pp. 75-76).

Também Han (2018) concebe que a superprodução semiótica está, na verdade, construindo um mundo pobre de sentidos; um mundo em que “[o] excesso de informação faz com que o pensamento definhe” (Han, 2018, p. 105). Somos, diariamente, “bombardeados”, por diferentes estímulos semióticos, por diferentes imagens, sons, vídeos. Essa massa crescente de estímulos não têm, no entanto, trazido mais informação, e sim tem precarizado nossas capacidades analíticas. Na visão de Han (2018), a informação crescente não traz em si mais sentido. Pelo contrário: “Hoje, as coisas perdem cada vez mais em significado. Elas se submetem às informações” (Han, 2018, p. 98; destaque do autor). Informação e significado se opõem, na visão de Han (2018), uma vez que esse último, o significado, pressupõe a atenção, a leitura atenta, a contemplação. A informação, por seu turno, não pressupõe nenhuma leitura: como um vírus, a informação precisa apenas se disseminar rapidamente, instantaneamente.

Interpretamos que esse modo de comunicação viral de que nos fala Han (2018) só é possível à medida que a linguagem perde sua referencialidade, tornando-se mero código. Uma linguagem baseada na referencialidade precisa de tempo de leitura para ser processada. A linguagem que não é mais vinculada a um referente, que se tornou apenas código, pode ser discretizada e reproduzida na velocidade de um contágio viral. Nesse sentido, significado e informação se opõem.

Em resumo, retomando o questionamento sobre o limiar entre a linguagem humana e a linguagem da máquina, reafirmamos que a referencialidade é o primeiro aspecto que nos distancia - humanos, de máquinas. Nossa linguagem é referencial, baseada em signos de coisas. Por ser uma linguagem referencial, uma linguagem que se vincula a um ser, nossa linguagem tende também à ambiguidade, à não homogeneidade informacional. A linguagem da máquina está estruturada a partir dos signos de ordem - signos não referenciais, que retiram seu sentido de uma relação ordenada em um sistema. O imperativo da identidade decorre desse ordenamento simbólico. Esse imperativo, ao mesmo tempo, possibilita a emergência de formas novas de comunicação, como a comunicação automática - a comunicação que emana informação, mas não necessariamente sentido.

No próximo tópico, discutiremos o segundo aspecto que singulariza nossa linguagem: a corporeidade.

3 A linguagem sem corpo

O segundo aspecto que caracteriza essencialmente a linguagem humana e a distancia da linguagem da máquina refere-se à corporeidade. A língua é profundamente marcada pelo corpo de onde emana. As relações espaço-temporais, as dêixis, são marcas, como “cicatrizes”, do corpo que enuncia. Podemos conceber que as instâncias inscritas na língua (espaço, pessoa e tempo), de que nos fala Émile Benveniste (2006), são essas “cicatrizes” que procedem justamente de uma linguagem referencial. Não há marcas de pessoa, espaço e tempo em um sistema de signos de ordem1. Um sistema de signos de ordem não pressupõe um eu que, enunciando, instaura um tu, no aqui e no agora. Em verdade, não há enunciação em um sistema de signos de ordem - não esse ato de transformação da língua em discurso, da virtualidade em atualidade. Os signos numéricos não estão na ordem do discurso, mas na ordem da virtualidade, e é a inscrição nessa ordem virtual que permite a homogeneidade, o imperativo de identidade desse sistema sígnico.

A língua procede de um corpo que enuncia - e esse fato não pode ser desconsiderado, nem se tomarmos a língua como estrutura, nem se pensarmos em uma das coisas que fazemos com ela, isto é, se pensarmos na comunicação.

Considerando-se a “língua estrutura”, encontramos, em Cassirer (2001), reflexões sobre como a língua, ao expressar a necessidade de objetivação do mundo, é moldada a partir do corpo de onde emana. As relações espaciais, mesmo quando indicadas por partículas abstratas, como preposições, originam-se de expressões que, a princípio, têm origem em palavras que indicam partes do corpo. Muitas línguas ainda mantêm esse sistema referencial, utilizando-se de palavras concretas que remetem a partes do corpo para fazer referência ao que está a frente ou atrás. Sobre essa representação espacial, observemos o que afirma Cassirer:

Se continuarmos na busca de caminhos pelos quais enveredou a língua a fim de passar das primeiras distinções espaciais claramente definidas para designações gerais do espaço, parece confirmar-se, também aqui, que a direção deste processo se move de dentro para fora. A “distinção das regiões no espaço” parte do ponto onde se encontra a pessoa que fala, e daqui ela se expande em círculos concêntricos que vão se alargando, até alcançar a articulação do todo objetivo, do sistema e do conceito genérico das determinações locais. Inicialmente, as diferenças do lugar estão estreitamente ligadas a certas diferenças materiais, e dentre estas é particularmente a diferenciação dos membros do próprio corpo que constitui o ponto de partida para as demais determinações locais posteriores. Uma vez que o ser humano formou uma imagem precisa do próprio corpo, compreendendo-o como um organismo completo e estruturado em si mesmo, ele lhe serve, por assim dizer, de modelo segundo o qual ele constrói para si mesmo a totalidade do mundo. (Cassirer, 2001, pp. 221-222).

Cassirer (2001) baseia-se na ideia kantiana de que o espaço é um veículo para a expressão da substância. Assim, argumenta que as relações espaciais, na língua, precedem a representação de substância. Por exemplo: o artigo definido, que a princípio serve à função de substantivação, encontra suas origens na representação dêitica.

O espaço é também, segundo assinala Cassirer (2001, p. 247), marco a partir do qual se origina a noção de tempo. A noção de tempo é, certamente, uma noção mais abstrata, menos intuitiva que a noção de espaço - ambas essas noções, segundo o filósofo alemão, desenvolvem-se progressivamente, em uma direção que vai do concreto para o abstrato. A língua mostra-se como uma força que oscila, ou, antes, equilibra essas duas tendências: a tendência de concretude, de corporeidade, e a tendência de abstração, de relação pura.

A própria gênese linguística dos números ilustra essa tendência: os números, antes de se constituírem como puros signos de ordem, foram, inicialmente, números linguísticos. Os signos linguísticos que representam os números, embora tenham um conteúdo que simboliza o ordenamento, estão ainda presos às coisas que representam e, ao fazê-lo, isto é, ao representar algo, inicialmente partem de noções instituídas a partir do corpo que enuncia. Vejamos:

Se retrocedermos às origens primeiras do número, atingiremos um âmbito em que a língua parece ainda não ter alcançado sua significação independente, sua autonomia. Os sons da língua e os gestos aqui ainda não se separaram um do outro, mas se encontram extremamente entrelaçados. O sentido do ato enumerativo não pode ser apreendido de outro modo senão na execução de um movimento corporal apropriado, um gesto específico da enumeração. (Cassirer, 2011, p. 581).

O autor, em seguida, retoma exemplos apresentados ainda no volume 1 de A filosofia das formas simbólicas, que ilustram essa gênese do conceito numérico na língua, em entrelaçamento íntimo com o corpo: há línguas em que a palavra “cinco”, por exemplo, significa literalmente “mão”, pois esse membro é utilizado para se fazer a contagem.

O autor alerta-nos, porém, que, já nessa forma aparentemente primitiva de se denominar os numerais, há um movimento espiritual que tende para o logos, pois já se tem a ideia de uma enumeração, de um ordenamento. Os signos de coisa, em suma, estão sempre equilibrando essas duas tendências: o logos e a intuição. Os signos de ordem, por outro lado, rompem com a necessidade de representação concreta. O caminho para a abstração pura, meramente desenhado pela língua, é trilhado sem obstáculos pelos signos de ordem.

Até o momento, tratamos do corpo, da importância do corpo na constituição da língua como sistema de signos. O corpo, porém, tem também uma dimensão de extrema importância no que se refere à comunicação. Sobre essa relação corporeidade/comunicação, reflitamos: o que é, o que representa uma comunicação destituída do corpo? Pensemos em dois níveis. Primeiro, a comunicação humana mediada pela máquina. A forma como nos comunicamos e como nos representamos (assumindo que comunicação pressupõe também representação) nos meios digitais rompe evidentemente com o “modo de ser” da comunicação analógica. As relações espaciais e temporais são totalmente reconfiguradas.

O espaço de comunicação digital é, com efeito, o não-espaço, a desterritorialização. Centenas de pessoas podem agora se reunir em uma sala virtual e compartilhar suas ideias, discutir. A limitação do espaço físico foi rompida. Posso reunir pessoas das mais diversas partes do mundo em uma sala virtual. Por que, então, essa sala frequentemente é muito mais silenciosa que uma sala presencial? Por que tantas vezes as pessoas que estariam ali para debater nada debatem? Acreditamos que o corpo que me falta no espaço tem efeitos no modo como me vejo, como me represento. Diversos estudos têm demonstrado as duas vias da relação humana nos meios cibernéticos: (i) a influência psicológica que as redes sociais têm sobre os mecanismos de aceitação da própria aparência, especialmente em jovens2; ii) os efeitos em traços de comportamento e personalidade que a aparência de avatares em ambientes virtuais provocam em usuários de tais ambientes (por exemplo, o Efeito Proteus3).

Muitas vezes temo falar (ou ao contrário falo o que não falaria presencialmente, excedendo-me) porque creio que serei mal interpretado: ali, no espaço virtual, no espaço que elidiu meu corpo, não tenho, muitas vezes, a ancoragem de recursos que me estão disponíveis no espaço físico.

A comunicação digital é pobre de olhar, afirma Han (2018). O autor sul-coreano argumenta que, na comunicação, a parcela que cabe ao verbal é pequena, pois “[a]s formas não verbais de expressão como gesticulação, expressões de rosto ou linguagem corporal constituem a comunicação humana” (Han, 2018, p. 44). Han (2018, p. 44) acrescenta que a “mídia digital furta à comunicação a tatilidade e a corporeidade”. A comunicação digital traz mais comodidade e eficiência, mas, ao mesmo tempo, segundo sublinha Han (2018), essa forma de comunicação “sem corpo e sem rosto” (Han, 2018, p. 44) tem trazido uma consequência para a vida humana difícil de mensurar: a banição de toda forma de negatividade, entendendo-se por “negatividade” como sendo tudo aquilo que não diz respeito a mim, isto é, o outro. A mídia digital, segundo Han (2018), nos afasta do outro em vários aspectos: afasta-nos porque, imersos em nós mesmos, em nossas redes, não conseguimos, muitas vezes, nos comunicar com quem está do nosso lado; afasta-nos porque, em um espaço sem corpo e sem rosto, não conseguimos enxergar nada mais que o espelho de nós mesmos.

Tomando, também, o tempo, é notório como a comunicação digital assume formatos outros que reconfiguram a temporalidade. Da mesma forma como a comunicação digital é sem espaço, desterritorializada, ela é também sem tempo. Han (2018) sublinha como não há nascer nem morrer nas mídias digitais. Nas palavras do autor: “A mídia digital não tem idade, destino e morte. Nela, o tempo mesmo é congelado. Ela é uma mídia atemporal” (Han, 2018, p. 57; destaque do autor). Para Han (2018), a mídia analógica tem uma temporalidade da qual padece. O autor cita o exemplo de uma fotografia em papel, que se desgasta com o tempo. A mídia digital, que rompe com essa fisicalidade do material, não tem esse padecimento do tempo: ali, no meio digital, uma imagem permanece, para sempre. A comunicação que ocorre mediada por essas mídias é, assim, uma comunicação que se desterritorializa e não se inscreve no tempo.

Consideremos, porém, que há outro nível - o nível da comunicação não humana (isto é, a comunicação que ocorre sem nenhuma mediação humana, como as mensagens automáticas), a comunicação que emana dos algoritmos, a comunicação espectral e fantasmagórica, de que nos fala Han (2018). Essa comunicação é também viral. Mensagens virais se disseminam, diariamente, em uma velocidade impossível de ser processada pela mente humana. Aqui, na mensagem espectral, fantasmagórica e viral, temos a crise inflacionária semiótica referida por Berardi (2020), citada no tópico anterior: a informação que, não emanando de um corpo, não tendo os limites de um espaço e de um tempo, dissemina-se pobre em sentido. Mais e mais signos são necessários para se produzir pouco sentido. Interpretamos que essa “crise inflacionária” provém também da forma como a mensagem é produzida: trata-se de uma mensagem constituída por signos que não foram “paridos” em um corpo - corpo esse que, se limitado pelo espaço e pelo tempo, ancora e constrói seus sentidos nessas duas dimensões. A máquina - constituída pelos signos de ordem, pelos algoritmos que desconhecem referência, espaço, tempo - não ancora sentidos dessa forma como o faz o humano.

Há, por fim, outro aspecto que precisa ser considerado quando se trata da linguagem da máquina e da comunicação sem corpo: a importância do corpo da mãe. A linguagem humana caracteriza-se não apenas pelo fato de emanar de um corpo, mas, sobretudo, a nossa linguagem é marcada pelo fato de que ela me vem pelo corpo do outro: o corpo da mãe.

Berardi (2020), em sua interpretação semiótica e econômica da relação entre linguagem e finanças, para tratar dos processos de abstração digital e seus impactos no ambiente social, cita os estudos de Luisa Muraro sobre a importância do outro, do corpo da mãe, na constituição da linguagem. Berardi (2020, p. 84) argumenta que as mães têm sido substituídas “por máquinas linguísticas que estão constantemente mostrando e contando. A geração conectiva aprende a linguagem em uma estrutura em que as relações entre esse aprendizado e o corpo afetivo tendem a ser cada vez menos relevantes”. O autor questiona, em seguida, os efeitos de longo prazo dessa forma de aprendizagem, de aquisição da linguagem que se dá sem o corpo afetivo. Não há respostas ainda para essa pergunta. Para o autor italiano, no entanto, as pesquisas psicossociais, a arte, a literatura etc. têm mostrado e representado diversas patologias mentais que afligem a humanidade, como os distúrbios de deficit de atenção, depressão, ideação suicida etc.

No início do século XX - época em que ainda não tínhamos as tecnologias digitais, época em que a linguagem humana ainda não tinha sido invadida pelos automatismos e imperativos dos signos de ordem -, encontramos no ensaio do russo Mikhail Bakhtin, O autor e a personagem na atividade estética, interessantes reflexões sobre a importância do outro na constituição da minha própria linguagem. Vejamos:

De fato, mal a pessoa começa a vivenciar a si mesma de dentro, depara imediatamente com atos de reconhecimento e amor de pessoas íntimas, da mãe, que partem de fora ao encontro dela: dos lábios da mãe e de pessoas íntimas a criança recebe todas as definições iniciais de si mesma. Dos lábios delas, no tom volitivo-emocional do seu amor, a criança ouve e começa a reconhecer o seu nome, a denominação de todos os elementos relacionados ao seu corpo e às vivências e estados interiores; são palavras de pessoa que ama as primeiras palavras sobre ela, as mais autorizadas, que pela primeira vez lhe determinam de fora a personalidade e vão ao encontro da sua própria e obscura auto-sensação interior, dando-lhe forma e nome em que pela primeira vez ela toma consciência de si e se localiza como algo. (Bakhtin, 2003a, p. 46; destaques do autor).

Na citação acima destacada, vemos como não apenas a constituição da minha linguagem, mas como a constituição da ideia de mim mesmo, como corporeidade, advém do olhar amoroso do outro. Bakhtin (2003a) argumenta que a linguagem amorosa do outro dá consistência a uma visão integral, a uma visão do meu corpo interior. O homem é totalmente constituído por esse olhar, por essa linguagem - seu nome não lhe é dado por si mesmo, mas pelo outro; as palavras que ele pronuncia lhe vêm aos lábios porque foram primeiramente pronunciadas pelo outro. A linguagem, em suma, é não apenas uma linguagem que representa a mim; mas, antes, é uma linguagem que para fazê-lo, para representar a mim mesmo, me é (re)apresentada pelo outro.

Os signos de coisa têm sua dimensão pulsional também em decorrência do fato de serem constituídos em uma relação emotivo-volitiva (para nos apropriarmos da expressão bakhtiniana) com meu próprio corpo, que enuncia. Esse meu corpo não me é dado, porém, de “dentro para fora”, mas “de fora para dentro”, isto é: a imagem de mim mesmo é constituída a partir da visão que tenho com o corpo do outro. Sou incapaz de ter uma visão espacial completa de mim. Vejo-me em fragmentos - braços, pernas, mãos. Não tenho a visão de minhas costas ou de minha cabeça. Sou, segundo destaca Bakhtin (2003a), “a-espacial”, uma vez que não tenho a visão de mim mesmo como um todo, nem consigo me visualizar integrado à paisagem. O meu outro é, em contrapartida, espacial: vejo o outro em sua completude e o enquadro como uma imagem integrada à paisagem que se encontra diante de meus olhos.

Aqui levantamos uma reflexão que se faz pertinente sobre as distinções nos modos de representação de si. Na comunicação analógica, não tenho essa imagem completa de mim mesmo - vejo o outro como um corpo integral e vejo a mim mesmo como um corpo fragmentado. No mundo digital, nas redes sociais, por exemplo, represento a mim mesmo como uma completude; projeto meu corpo como uma imagem, através de fotografias, vídeos, avatares. Há, ao que parece, um estranhamento nessa representação de meu eu. O homem que se projeta, que cria uma imagem de si, segundo Han (2018), recorre frequentemente a filtros, a recursos que nos livram do real, que criam um “hiper-real”. As imagens “melhoradas”, otimizadas por filtros, nas palavras de Han (2018, p. 54), “aniquilam justamente o valor icônico original da imagem”. Essas imagens rompem com o referente - e, aqui, retomamos o ponto inicial de nossas discussões: a des-referencialidade, própria dos signos de ordem, impregna diferentes domínios de nossa existência. O mundo como um todo parece perder-se na des-referencialiazação.

No próximo tópico, discutiremos o terceiro aspecto que singulariza nossa linguagem (aspecto esse também vinculado à referencialidade): a sensibilidade da linguagem.

4 A linguagem sem alma

Berardi (2020), ao tratar da subsunção do signo linguístico à lógica financeira, considera que a função financeira tende a neutralizar o lado pulsional da enunciação, de forma que o enunciado seja compatível com o formato digital. A linguagem humana, porém, não é apenas sintaxe, não é simplesmente uma estrutura que pode ser discretizada. Existe, para além do código, um lado pulsional que move a linguagem. O autor compara essa perda do pulsional, da capacidade de “sentir” da linguagem, com a perda de sensibilidade e de laços de solidariedade dos trabalhadores ao redor do mundo. O capitalismo financeiro não apenas remove a “pulsação”, o sentimento da linguagem, para compatibilizá-la com o formato digital-financeiro, como também nos faz perder qualquer senso de solidariedade, de coletividade e de cooperação com o outro.

O autor fala-nos de “sensibilidade”, como sendo a “capacidade de entender o que não pode ser verbalizado” (Berardi, 2020, p. 113). Alerta-nos que a sensibilidade “se mostra inútil e até mesmo perigosa em um sistema conectivo integrado, já que a sensibilidade tende a desacelerar o processo de interpretação, a criar ambiguidades” (Berardi, 2020, p. 114). A rede digital, em sua argumentação, para se expandir, precisa reduzir um grande número de elementos a um mesmo formato, “a um padrão e a um código que sejam capazes de compatibilizar elementos diferentes” (Berardi, 2020, p. 98). O que está em curso, na visão do autor italiano, é uma profunda modificação nos modos de interação, através da inserção do eletrônico no orgânico. Observemos:

O processo de mudança em curso está voltado para a mudança da conjunção para a conexão como paradigma de troca entre organismos conscientes. O principal fator dessa mudança é a inserção do eletrônico no orgânico - a proliferação de dispositivos artificiais no universo orgânico, no corpo, na comunicação e na sociedade. Mas o efeito dessa mudança é a transformação da relação entre consciência e sensibilidade e uma dessensibilização na troca de signos. (Berardi, 2020, p. 98; destaque nosso)

A sensibilidade referida por Berardi - sensibilidade incompatível com um sistema digital, automático - pode ser interpretada, em termos bakhtinianos, como a valoração que envolve todo enunciado, que enlaça os coparticipantes do discurso, que atravessa o que está expressamente “dito” - o não dito, que, embora não dito, é plenamente significativo. A linguagem tem não apenas sentido, ela não apenas significa; ela, de fato, significa porque expressa algo, porque valora o mundo.

Em Volóchinov (2013a; 2013b), encontramos ideia similar a essa “sensibilidade” de que nos fala Berardi (2020), entendida pelo autor italiano como a conjunção comunicativa, que nos enlaça; a capacidade de interpretar algo que não está expressamente “dito” em signos verbais, mas que, no entanto, é plenamente significativo.

Volóchninov (2013) argumenta que a palavra “não está centrada em si mesma” (Volóchinov, 2013a, p. 85). Existe, em toda comunicação, uma parcela considerável do sentido que transcende o meramente expresso em palavras. Em toda enunciação, há algo que não é dito, mas “sentido” pelos participantes - e esse meramente “sentido”, esse “algo” que não é, ou não pode ser expresso em palavras, é plenamente significativo no enunciado. O autor russo dá-nos o exemplo, já bem debatido entre os estudiosos da obra do Círculo de Bakhtin, de dois participantes, trancados em uma sala, em pleno mês de maio, entediados com a neve que do lado de fora cai. Um deles diz “Bem” e o outro nada responde. Volóchinov (2013a) prossegue, argumentando que, para nós, que não estamos participando da situação, o enunciado, tomado isoladamente, é incompreensível. “Não obstante, essa singular conversação entre os dois, que consta de uma só palavra expressivamente entonada, é plena de sentido, de importância e está perfeitamente concluída” (Volóchinov, 2013a, p. 78).

O “Bem”, em si mesmo, pode ser semanticamente vazio. Os dois participantes, no entanto, entendem-se perfeitamente, porque o que é dito se enlaça com a situação (onde ambos estão, o que ambos observam, e, sobretudo, como ambos valoram o que observam). O que é, nessa cena hipotética, dito, é entonado, expressa o modo como o interlocutor, em conjunção com seu ouvinte, avalia a situação (o tédio pelo tempo ruim, por exemplo).

Volóchinov (2013a) defende que a enunciação se apoia, em grande medida, no que não é verbalmente expresso, no subentendido. Uma parcela importante desse subentendido concerne às valorações subentendidas - os valores que determinam, de dentro, a estrutura da enunciação, que organizam a própria forma do enunciado. Este - o enunciado - é concebido por Volóchinov (2013a) como uma totalidade entre a palavra e o extraverbal. O enunciado apenas significa porque, para além da palavra, do código em si, os participantes entendem a situação e a valoram conjuntamente.

A palavra em si mesma é, nesse sentido, “neutra”, porque a ela diferentes entonações podem ser atribuídas. O “Bem” do exemplo citado pode ser jubiloso, tedioso, rancoroso etc. No ensaio A construção da enunciação, Volóchinov (2013b) argumenta que quase todas as palavras podem ter significados diferentes, de acordo com o sentido geral da enunciação. Também Bakhtin (2003b), no famoso ensaio de 1953, Os gêneros do discurso, conclui que a palavra em si, o código linguístico, retira seu sentido não do dicionário, mas de outras enunciações. Em si, a palavra é neutra.

Os autores russos levam-nos a refletir sobre uma peculiaridade da linguagem humana: a língua, signo de coisas, opõe-se aos signos de ordem em mais um aspecto além dos demais citados neste ensaio (a corporeidade latente na palavra; a referencialidade, presente nos signos de coisas e ausente nos signos de ordem). A língua, enquanto signos de coisas, pressupõe o que poderíamos aqui denominar como “apropriação”. Expliquemo-nos.

Existe uma distinção entre o plano do virtual, do ideal e o plano do concreto, do real. Cassirer (2012), em uma releitura de Kant, opõe o real, como parte do mundo físico, e o simbólico, como sendo o “possível”. Em suas palavras: “para o pensamento simbólico, é indispensável fazer uma distinção clara entre real e possível, entre coisas reais e ideais. Um símbolo não tem existência real como parte do mundo físico; tem um ‘sentido.’” (Cassirer, 2012, pp. 96-97). Os números, nessa distinção, ocupam o plano do puramente simbólico, pois não se vinculam nem à coisa concreta, nem dela retiram seu sentido: na verdade, o sentido do número é dado unicamente por sua posição no sistema. Vejamos:

Não podemos falar de números singulares ou isolados. A essência do número é sempre relativa, não absoluta. Um número singular é apenas um lugar singular em uma ordem sistemática geral. Não tem ser próprio, nem realidade contida em si mesma. Seu sentido é definido pela posição que ocupa no conjunto do sistema numérico. (Cassirer, 2012, p. 345)

Cassirer (2001; 2012) compara a língua, signos de coisas, e os números, signos de ordem, quanto a essa capacidade de ordenamento serial em um sistema. O simbolismo que subjaz a esses signos é totalmente distinto. Embora encontremos na linguagem os primeiros esforços de classificação, trata-se de uma classificação ainda “descoordenada” (Cassirer, 2012, p. 344), pois os signos da linguagem ainda estão muito vinculados à coisa, ao ser; ao passo que os números, totalmente desvinculados do ser, conseguem realizar uma síntese da multiplicidade de modo uniforme.

Os signos de ordem, por sua desvinculabilidade do ser, existem no plano do ideal, do “possível”. Não pressupõem - ou, antes, “repelem” qualquer apropriação. Não há “enunciação” ou qualquer correlato nos signos de ordem: libertos do ser, eles estão também livres para o ordenamento significativo baseado na serialidade. Os signos de coisa, por outro lado, têm também sua existência como “código”, como possibilidade. A língua pode ser analisada, entendida como estrutura, como sintaxe - esse é o aspecto da “sinalidade” da língua, como diria Volóchinov (2017). No entanto, a língua precisa ser “apropriada” pelos falantes. Os signos existem enquanto signos ideais, mas, ao mesmo tempo, pressupõem um enunciador que se apropria desses signos.

Essa apropriação, a transformação do campo do virtual em “real” é o que vai deixando marcas, “cicatrizes” na língua, elidindo a uniformidade. Os signos de ordem não sofrem com a ambiguidade, porque não são apropriados; não têm as marcas nem do corpo que enuncia, nem da situação, tampouco do espaço ou do tempo. Não há entonação em um signo de ordem. Enquanto um “Bem” está aberto para diferentes apropriações, para diferentes enunciações, para diferentes valores de mundo, um número, signo de ordem, repele essa apropriação.

Em termos de comunicação, podemos questionar: o que significa, de fato, submeter a língua aos formatos do digital, à lógica dos signos de ordem, uniformes em sentido, aversos a qualquer apropriação? A nosso ver, estamos submetendo o mundo linguístico humano, pleno em “sensibilidade” - termo empregado por Berardi (2020) -, repleto de entonações, de acentos valorativos - como diria Volóchinov (2013a) -, a uma uniformidade, a uma homogeneidade que a língua repele.

Em essência, estamos diante de dois ordenamentos simbólicos distintos. A linguagem humana é referencial, corpórea e sensível. A linguagem da máquina, por seu turno, é a linguagem sem referente, sem corpo e sem sensibilidade. Trata-se da linguagem reduzida à sinalidade, que pode ser discretizada, ou, em outras palavras, trata-se da linguagem que, discretizada, uniforme e sem ambiguidade, perdeu a alma.

Considerações finais

Neste artigo, estabelecemos distinções entre a linguagem constituída por signos linguísticos (os signos de coisas) e a linguagem dos signos de ordem. Argumentamos que a linguagem humana, baseada nos signos de coisas, apresenta três aspectos que a singulariza: a referencialidade sígnica, a corporeidade, a sensibilidade. A linguagem da máquina, por seu turno, sendo constituída a partir de signos de ordem, carece de referencialidade, não emana de nenhum corpo, repele qualquer sensibilidade enunciativa (considerando o imperativo de univocidade a que obedece).

Há uma observação que, no entanto, deve ser feita: nossa vida, já há algum tempo, entrelaçou-se completamente à ordem da máquina. O mundo que habitamos é o real infossemiótico, cada vez mais desterritorializado, mais “insensível” (posto que não corpóreo): o mundo cada vez mais abstrato.

É possível que aquilo que entendemos como “humano”, aquilo que nos singulariza e que se atrela à nossa linguagem, esteja também em processo de mudança. Os sistemas baseados na máquina de Turing não são ainda capazes de reproduzir a referencialidade, a corporeidade, a sensibilidade de nossa linguagem. Mas até quando ainda seremos assim - corpóreos, referenciais, sensíveis?

  • 1
    Os números são utilizados para representar a marcação temporal. Eles, por si mesmos, não têm essa marcação.
  • 2
    Riesmeyer et al. (2021) estudaram o comportamento de adolescentes do sexo feminino na rede social Instagram, em relação ao comportamento nutricional (postar e ler conteúdos relacionados a alimentação) e a relação desse comportamento com a representação de si mesmas. Fotos de comidas têm um papel marginal na autorrepresentação on-line das meninas. Mas as meninas que seguem dietas mais restritas tendem a postar mais fotos de alimentos do que as outras. Riesmeyer et al. (2021) afirmam que a recepção de imagens de comida e de corpos pressiona as garotas a se adaptarem a ideais que levam a uma impressão negativa das imagens.
  • 3
    O Efeito Proteus refere-se ao fenômeno de mudança do comportamento on-line de acordo com a aparência de avatares. Por exemplo, usuários que possuem avatares mais altos tendem a negociar de modo mais agressivo on-line. Yee et al. (2009) apontam evidências de que mudanças na aparência de avatares podem afetar o comportamento dos usuários no ambiente on-line. Yee et al. (2009) também avaliam a persistência das mudanças comportamentais relativas ao Efeito Proteus. Para investigar essa questão, foram analisados os comportamentos de jogadores de World of Warcraft com alterações propositais nos avatares quanto à atratividade e à altura. As análises estatísticas mostram dependências significativas entre as variáveis atratividade/altura e a expectativa dos jogadores quanto ao nível do personagem.
  • Pareceres
    Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.

Declaração de disponibilidade de conteúdo

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

REFERÊNCIAS

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    » https://doi.org/10.1177/0093650208330254
  • Editores responsáveis
    Luciana Salazar Salgado (Universidade Federal de São Carlos - UFSCar)
    Lucia Santaella (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP)
    Tony Berber Sardinha (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP)

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O artigo está adequado ao tema proposto, também explicita o objetivo do trabalho, sendo coerente no seu desenvolvimento textual. Está em conformidade com a Revista e demonstra conhecimento atualizado da bibliografia. Apresenta originalidade da reflexão e contribuição para o campo de conhecimento, de forma clara e com correção e adequação da linguagem a um trabalho científico. Alguns trechos do trabalho poderiam ser aprimorados, a saber:

1. Parte final do resumo poderia ir além dessa afirmação que ficou genérica: “Defendemos que há, na atualidade, um embate e um entrelaçamento entre esses dois simbolismos”.

Alguns trechos são muito interessantes: “A comunicação que se estabelece a partir da máquina, regida por algoritmos, impõe a lógica de uma ordem simbólica que, a princípio, não nos é própria. Desenvolvemo-nos sob a égide dos signos de coisas. Estabelecemos nossa comunicação a partir de uma linguagem referencial, ambígua, pulsante, não homogênea. A comunicação na era digital, mediada pela máquina, tem rompido com essa lógica”. IA é uma linguagem sem travas éticas (embarcamos todos em um avião camicase), sem análises interpretativas e imaginativas, sem parâmetros de condução/orientações educacional, por isso necessitamos de sinalizações claras de como devemos agir fazendo uso dela. A narrativa enquanto obra humana (ética e estética) sob os códigos da máquina se converte em pastiche. Assim como estética sem ética é cosmética.

2. Reduzir a segunda citação direta de Cassirer, muito longa.

3. Poderia acrescentar um parágrafo nas conclusões indicando caminhos futuros sobre a discussão. Vejo que uma educação ética poderia criar orientações sociais e coordenar as formas de uso da IA, atribuindo uma referencialidade ao campo das humanidades. Talvez destacar a crítica social da linguagem de máquina sem alma e destituída de um pensar educativo (importância do outro na constituição da própria linguagem para despertar a paixão de conhecer o mundo e apreender), que exige a presença do outro para a evolução do trabalho coletivo. Ao mesmo tempo, a IA no jogo da linguagem não é um recurso apenas técnico e neutro, mas interfere em todas as dimensões das atividades humanas.

Sugestões para complementar isso em projeções futuras/conclusões:

a) CONTE, Elaine; MARTINI, Rosa Maria Filippozzi. As tecnologias na Educação: uma questão somente técnica? Educação e Realidade, v. 40, pp. 1191-1207, 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-623646599

b) LEE, Kai-Fu; QIUFAN, Chen. 2041: como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas próximas décadas. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2022. APROVADO COM SUGESTÕES [Revisado]

  • recomendação: aceitar

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  • Parecer recebido em
    25 Jan 2025

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Parecer III

O artigo “A linguagem que perdeu a alma: reflexões sobre linguagem e comunicação na era digital” traz uma análise sobre as transformações da linguagem na era digital, contrastando-a com a linguagem humana tradicional, e assim estabelecendo uma base conceitual para discutir algumas possíveis distinções entre “aquilo que entendemos como nossa linguagem e a linguagem da máquina”. Nesse sentido, os autores constatam como a crescente digitalização tem promovido novas formas de interação, com algoritmos capazes de produzir textos, levantando questões sobre o limiar entre a linguagem humana e a da máquina. Pela fundamentação teórica adotada, a discussão central do artigo gira em torno de três aspectos que singularizariam a linguagem humana: a referencialidade, a corporeidade e a sensibilidade da enunciação, elementos considerados pelos autores ausentes na linguagem da máquina. Assim, o artigo explora a distinção entre a linguagem humana, composta por um sistema de signos linguísticos (signos de coisas) e a linguagem da máquina, constituída por signos de ordem (signos numéricos), defendendo a existência de um embate e entrelaçamento entre esses dois simbolismos. Por sua vez, a perda da referencialidade na linguagem digital seria associada à sua automatização exemplificada pela lógica financeira (Berardi, 2020), além de possuir algo de espectral e viral (Han,2018), privilegiando a informação em detrimento do significado. Seguindo por esse raciocínio, a ausência de corporeidade nas formas de comunicação mediadas por máquinas impactariam a interação e a percepção de si (Han, 2018; Cassirer, 2001; Bakhtin, 2003.a), considerando aspectos da sensibilidade da linguagem humana, ligada à valoração e ao não dito (Berardi, 2020; Volóchinov, 2013.a), fato que contrasta com a uniformidade da linguagem algorítmica. Em suma, o artigo postula que a linguagem da máquina, desprovida de referencialidade, corporeidade e sensibilidade, representa uma linguagem que perdeu a sua essência humana como tal. Com o uso adequado de fontes, como Cassirer, Berardi, Han, Volóchinov e Bakhtin, a pertinência do tema de pesquisa é inegável, dada a crescente influência da tecnologia digital na nossa comunicação e na própria constituição da linguagem, oferecendo uma reflexão bem fundamentada sobre um tema crucial da contemporaneidade. Assim, este parecer considera que a análise das distinções entre a linguagem humana e a da máquina, com foco na referencialidade, corporeidade e sensibilidade, enriquece significativamente a compreensão das implicações da digitalização para a nossa experiência comunicativa e para a própria definição do humano. Porém, cabe uma ressalva, apesar do artigo demonstrar um consistente fundamento teórico na articulação de conceitos sobre a linguagem humana, deve-se considerar que o intenso quadro evolutivo em curso tem cada vez mais dissolvido as fronteiras em torno da referencialidade, da corporeidade e da enunciação, como aponta a breve reflexão no último parágrafo das Considerações Finais. Parece que discernir entre uma linguagem maquínica e a humana será cada vez mais uma árdua tarefa, que talvez exija outros e novos instrumentos de análise, indo muito além do Teste de Turing. Ou, que talvez estejamos diante de uma ampliação de horizontes da própria linguagem humana, uma alma híbrida, numa peculiar metamorfose com sua forma sintética. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    13 Mar 2025

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2026

Histórico

  • Recebido
    14 Out 2024
  • Aceito
    13 Jun 2026
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