Open-access Processos de resistência e emancipação do leitor-espectador-ouvinte no combate ao racismo estrutural: a escrevivência de Conceição Evaristo em ato

RESUMO

Este estudo1 examina os processos de resistência e emancipação presentes nas obras da escritora brasileira Conceição Evaristo, especificamente em seu conceito de escrevivência, e como as leituras de sua obra podem ser importantes para o enfrentamento ao racismo estrutural. A pesquisa parte da premissa de que a literatura pode ser uma ferramenta poderosa na luta contra o racismo e na promoção da igualdade racial, e o leitor-espectador-ouvinte tem um papel fundamental neste combate. Por meio de uma abordagem interdisciplinar que combina estudos literários, sociologia e teoria crítica racial, analisamos como a escrevivência de Evaristo convida este leitor-espectador-ouvinte para uma possível emancipação. Nossa análise mostra que a escrevivência de Evaristo permite que os leitores, espectadores e ouvintes negros se vejam representados de maneira autêntica e valorizada em sua literatura afrodiaspórica.

PALAVRAS-CHAVE:
Conceição Evaristo; Escrevivência; Oralidade; Emancipação; Racismo Estrutural

ABSTRACT

This study1 examines the processes of resistance and emancipation present in the works of Brazilian writer Conceição Evaristo, specifically in her concept of escrevivência [writing lived experience], and how readings of her work can be important for confronting structural racism. The research starts from the premise that literature can be a powerful tool in the fight against racism and in promoting racial equality, with the reader-spectator-listener playing a fundamental role in this struggle. Through an interdisciplinary approach combining literary studies, sociology, and critical race theory, we analyze how Evaristo’s escrevivência invites this reader-spectator-listener towards possible emancipation. Our analysis shows that Evaristo’s “escrevivência” allows black readers, spectators, and listeners to see themselves authentically and valuedly represented in her Afro-diasporic literature.

KEYWORDS:
Conceição Evaristo; Escrevivência; Orality; Emancipation; Structural Racism

Introdução

Zilá Bernd (1988) menciona, em sua obra Introdução à literatura negra, que, durante muitos anos, foi negado por diversos autores, a exemplo de Hegel, que havia história em África; isso fez com que o movimento colonialista que colocava a Europa como centro do mundo fosse fortalecido. Entretanto, mesmo com o processo de colonização, muitas pessoas pretas, no Brasil, passaram a se colocar na literatura que, antes, estava nas mãos de instituições universitárias e intelectuais, frequentadas, em sua maioria, por pessoas brancas.

Aníbal Quijano (2005), ao falar sobre a colonialidade do poder, menciona que antes do processo de colonialismo não existia o que hoje conhecemos como “os negros” e “os índios”; tais nomenclaturas, que passaram a denotar uma posição social, apenas passaram a existir após a colonização de África e das Américas. Anteriormente, as pessoas negras não precisavam justificar a sua cor, seus traços, mas, após o processo de genocídio, sequestro e escravização pelo qual passaram, dizer que um homem ou mulher era negro ou negra significava também que eles não eram vistos como seres humanos, mas como coisas pertencentes ao homem branco e à Europa.

O processo de colonialismo que assolou diversas sociedades deixou as radiações de sua existência por meio da colonialidade dos pensamentos e dos imaginários sociais que até hoje colocam o negro num lugar de marginalização e subalternidade; retiram-se, assim, direitos inclusive à escrita, leitura, educação, bom trabalho. E, ainda, após o processo de abolição, o imaginário acerca das pessoas negras continuou sendo fortalecido por meio da eugenia e do racismo que é, sobretudo, estrutural na sociedade e, como explica Almeida (2019), é reproduzido por diversos indivíduos, inclusive, de maneira inconsciente.

O termo literatura negra, então, não é um consenso entre os autores negros, pois se entendia que ela passaria a ser vista como literatura menor. Acreditava-se que utilizar o termo para se referir às escritas realizadas por pessoas pretas poderia dificultar a sua recepção. Durante muitos anos, a utilização ou não do termo gerou muitas discussões, muitos autores acreditavam que seria de bom tom apenas inserir as literaturas escritas por homens e mulheres negras na literatura brasileira, compreendendo-se que podia fortalecer a exclusão, caso estivesse em destaque que os textos foram feitos por pessoas negras.

Entretanto, é preciso considerar que mencionar que uma literatura é escrita por pessoas negras marca a importância desses indivíduos a quem, historicamente, foi negada a escrita; a literatura, nesse sentido, é uma forma de escritores negros recriarem um mundo de acordo com seus olhos e suas subjetividades, além de se inserirem em um ambiente importante, mas que, durante muitos anos, foi majoritariamente branco. Além disso, numa sociedade estruturada pelo racismo, pessoas negras - que foram ao longo do tempo estereotipadas, marginalizadas, animalizadas e, muitas vezes, apagadas da literatura - precisam e devem marcar seus espaços de enunciação nas criações, elucidando a importância de suas histórias serem contadas pelas suas próprias mãos, suas próprias bocas e a seu modo.

Faz-se necessário registrar ainda que, para que os afro-brasileiros pudessem ler suas histórias sendo contadas pelos seus semelhantes, longe dos estereótipos que fomentam o racismo estrutural, perfazendo um imaginário excludente da sociedade, essa literatura negra constitui um grande gesto e um enorme esforço de reconhecimento e de legitimação. Esse será um modo de reativarem suas memórias, que foram, ao longo dos séculos, apagadas pelo processo de escravização e epistemicídio, fazendo conhecer, portanto, que sua origem não está apenas na opressão, mas em elementos de ancestralidade, que são contados por muitos autores negros por meio do que Conceição Evaristo chama de escrevivência.

Evaristo (2011), por conseguinte, defende que a literatura negra pode ressaltar a afrobrasilidade das pessoas negras, dado que a vivência desses indivíduos é singular, diferente de outros brasileiros que não são negros. Nesse sentido, quando um indivíduo-sujeito negro escreve sua própria história, partindo de sua realidade, ele está se inscrevendo na literatura, falando sobre si e sobre os seus semelhantes. Na sociedade brasileira, que foi a última da América Latina a abolir a escravização, essas narrativas estão imbricadas em diversos aspectos: na marginalização forçada, no epistemicídio, mas também nas diversas características e heranças ancestrais deixadas pelos povos negros que para cá foram sequestrados.

Dizer literatura negra é, pois, marcar uma revolução num corpo social que tentou apagar a negritude de suas raízes e sua identidade. E, para um leitor-espectador-ouvinte negro - alargando bem a categoria do que se costuma compreender na figura do leitor, que não apenas lê, mas vê e ouve essas histórias, participando desse processo de oralitura, no dizer de Leda Martins (2003), e inscrevendo-se à sua maneira -, ler a literatura negra é se reconhecer diante das tentativas de apagamentos realizados pelo processo de eugenia, de marginalização e de tentativa de assassinato das línguas, da ciência e da pluriversalidade das pessoas negras que passaram pelo Brasil e deixaram uma herança para os afro-brasileiros que hoje estão nessa diáspora.

1 Escrevivência evaristiana: uma maneira singular de contar, encantar e acordar

Quando eu morder

a palavra,

por favor,

não me apressem,

quero mascar,

rasgar entre os dentes,

a pele, os ossos, o tutano

do verbo,

para assim versejar

o âmago das coisas [...]

Conceição Evaristo

O termo escrevivência foi pensado e cunhado por Conceição Evaristo durante o seu Curso de Mestrado, quando a autora decidiu, desse modo, nomear a literatura feita pelas mãos de autores e autoras negras brasileiras. Considerar que a escrita de pessoas negras é uma escrevivência é, nessa perspectiva, entender que a existência delas está totalmente cravada em suas histórias e seus poemas. O ponto fulcral da escrevivência evaristiana é compreender que, embora o texto escrito esteja partindo de vivências singulares que atravessam fortemente o autor, ele nunca tem fim em si mesmo, mas no leitor-espectador-ouvinte. Diante disso, Evaristo (2020) ressalta que a escrevivência não é apenas uma escrita de si, justamente porque consegue abarcar diversas pessoas para além daquela que realizou a autoria do texto.

Interessa, aqui, sublinhar a importância de pessoas pretas falarem, contarem e escreverem sobre si mesmas, quando, em uma sociedade estruturalmente racista, a exemplo do Brasil, nega-se ao povo negro a escrita, a leitura e, até mesmo, que suas vozes sejam devidamente acolhidas e ouvidas. Clóvis Moura (2019) destaca que, ao longo dos séculos, o negro sequer era mencionado pela literatura e, quando o era, ocorria de maneira animalizada e bestializada, diferentemente do indígena, que era retratado segundo o desejo do colonizador: dócil, que negava suas raízes e o seu povo para defender o seu senhor.

No que se refere às mulheres negras, apenas sobrava para elas o lugar de faxineira, cozinheira, servente, e o papel da mulata, a que serve para o uso. Esses estereótipos descritos por Lélia González (1984) e que moldam o pensamento social brasileiro, muitas vezes, aparecem descritos na literatura, como a mulher negra, que encarna a Rita Baiana, que “rouba” o marido da mulher branca, ou a Bertoleza, a negra servente, que serve apenas para o serviço e para o usufruto do homem branco. Essas personagens, como se sabe, remetem a um estilo de época próprio, que reafirma o Realismo/Naturalismo no Brasil, e são, sem sombra de dúvidas, fruto de uma crítica à sociedade brasileira da época. Entretanto, é importante dizer que, mesmo em um lugar de crítica social, as pessoas pretas podem e devem ter espaço para serem situadas em outros modos de enunciação que não apenas esses.

Diante disso, Evaristo falará da importância da autorrepresentação das mulheres negras durante o processo de escrita. Isso implica se inscrever em sua história, para que esse registro não termine nelas mesmas, mas se dirijam a tantas outras mulheres cujas existências estão imbricadas em diversos aspectos numa sociedade estruturalmente racista e sexista. González (1984) afirma, de maneira extremamente atual, que o negro, ao longo do tempo, tem sido falado e infantilizado. De acordo com a autora, “infans é aquele que não tem fala própria, é a criança que, se fala em terceira pessoa, é porque é falada pelos adultos” (González, 1984, p. 225).

Vale lembrar que, durante a (sobre)vivência das pessoas negras na diáspora, o branco apagou a sua história, tentou solapar a sua memória, a sua consciência, falando pelo negro, impondo-lhe sua língua e história, disseminando discursos em que atribuía às pessoas pretas um lugar de subalternidade e desumanização. Por isso, quando uma pessoa negra se coloca em sua própria história, que é escrita pelas suas próprias mãos e contada pela sua própria boca, na verdade, está contribuindo para a desconstrução de imaginários alimentados ao longo dos séculos sobre elas mesmas; estão fazendo o que Zilá Bernd (1988) chama de renomeação de mundo, e o que Evaristo chama de autorrepresentação. Dessa maneira, as pessoas pretas passam a se inscrever na literatura, quando escrevem literal ou oralmente suas próprias narrativas, com tudo o que lhes é de direito.

Pensar a escrevivência, então, é refletir sobre processos ancestrais que remetem muito mais à oralidade do que à escrita meramente alfabética e é nesse lugar que o ouvinte está inserido. O conceito cunhado por Conceição Evaristo (2020) é, por isso mesmo, uma evocação ao passado, que se entrelaça e dá sentido ao presente, pois remete às histórias contadas pelas chamadas “mães-pretas” durante o processo colonial, como comenta a autora. O ato de contar, que estava no passado, reflete-se, assim, no presente, em diversos aspectos ressaltados pela escritora durante a escrita de suas obras, fazendo questão de tornar vivas e dançantes, em seus livros, os termos de origem bantu que estão presentes na oralidade e na linguagem do cotidiano.

A arte de contar exercida pelos povos pretos, como se sabe, existe muito antes do processo de sequestro e formação da diáspora. Abdias Nascimento (2019), na obra O quilombismo, pontua que os griots, por meio da fala, educavam os jovens das aldeias africanas, realizavam transações comerciais e até aconselhavam a realeza. Essa arte de contar, com o processo de colonialismo, embarcou de maneira forçada no navio negreiro junto aos corpos negros sequestrados para os lugares que, posteriormente, se tornariam as diásporas africanas. Nascimento (2019) também ressalta que, durante o período colonial no Brasil, era negado às pessoas negras o direito de escrever e de ler, e a única forma possível dessas pessoas fazerem literatura era por meio da oralidade.

Outro teórico que destaca a importância da oralidade para as comunidades de África Antiga chama-se Amadou Hampâté Bâ (2010), que ressalta que o espírito da ancestralidade africana está na oralidade, no contar e narrar suas histórias e a de seus povos e culturas. A escrevivência está, portanto, em consonância com os estudos do autor, pois, ao relembrar as mães pretas, estamos remetendo, também, às nossas ancestrais. Antes, aquelas mulheres estavam na casa grande para contar histórias e adormecer as pessoas brancas; hoje, porém, Evaristo (2020) sublinha que o poder de contar histórias, para as mulheres pretas, por meio da escrevivência, se perfaz na necessidade de acordar as pessoas racistas de seus sonos injustos.

Assim, a partir de sua literatura, Conceição Evaristo se torna o que Sartre (2004) vai intitular como escritor engajado. Com a sua escrita, ela tenciona uma mudança na sociedade por meio da conscientização dos indivíduos que se sentem tentados e tocados pelas denúncias, referências históricas e provocações sobre a sociedade brasileira, que é banhada por opressões estruturais. Sartre menciona que “o escritor engajado sabe que palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e não se pode desvendar senão tencionando mudar” (Sartre, 2004, p. 20). Diante disso, é importante destacar que a escrevivência evaristiana não só tenciona a mudança na sociedade por meio da crítica às violências enfrentadas pelo negro na sociedade, mas que tencionou, desde o início, uma forma de as pessoas negras serem, de fato, inseridas e vistas na literatura a partir do seu fazer literário.

Sartre (2004) pontua que, ao fazer literatura, o escritor decidiu desvendar o homem para outro homem. Para Conceição Evaristo (2020), o seu fazer literário se dava para tentar agarrar e compreender no mundo o que de suas mãos escapava. Consequentemente, de uma maneira singular, essas duas percepções convergem, visto que a literatura de Conceição Evaristo desvenda o ser do negro no mundo para que outras pessoas negras possam entender e se identificar. Muitas vezes, esses indivíduos têm seu senso crítico aguçado pela escrita emancipadora da autora. A forma como a obra de Evaristo ressoa é tão poderosa, que a própria escritora relata que não apenas pessoas negras se identificam com a sua escrita, dado que outros indivíduos, marginalizados e que sofrem opressões estruturais na sociedade brasileira, também se agarram, de corpo, mente e alma, a seus personagens: é o caso das pessoas LGBTQIAPN+.

Dessa forma, assim como Sartre menciona que o autor deve pensar na possibilidade de sua obra ressoar para o máximo de pessoas possível e nos efeitos que a sua escrita pode provocar em quem a ela tem acesso, a obra evaristiana toca pessoas que enfrentam diferentes realidades na sociedade, visto que são unidas por elementos semelhantes: a desumanização. Quando o autor afirma que o escritor decidiu desvendar o homem para outro homem, foi para que esses indivíduos “assumam em face do objeto, assim posto a nu, a sua inteira responsabilidade” (Sartre, 2004, p. 21). Nessa perspectiva, quem tem acesso ao que o autor relata em seu texto não pode negar, em certo sentido, sua falta de conhecimento sobre determinado assunto, mesmo porque, de algum modo, responsabilidade é a aptidão, a habilidade que um indivíduo tem de responder por si e pelo seu entorno.

No dizer do filósofo francês, o homem não é predefinido. Ele se define pelos seus atos e pelo que faz de sua vida. Sendo assim, o homem não é nada além do seu projeto, ele existe na medida em que se realiza, ele é, então, o conjunto de seus atos, isto o constitui (Sartre, 2022). Como se nota, vale acrescentar uma palavra sobre a liberdade, dado que ela é condição fundamental para o ser humano, constituindo-se entre suas condições de possibilidade: liberdade como pressuposto, não como condicionamento; liberdade como um projeto de vida, uma meta, uma intencionalidade. Nesse sentido, o ser humano vive em situação: tem um corpo, um passado, uma história, pertence a certa época, num certo lugar. Assim, se por um lado, a situação na qual vivemos nem sempre determina nossa existência, por outro lado, ainda que não façamos sempre o que queremos, somos sempre responsáveis pelo que fazemos. A liberdade implica, por isso, uma inteira responsabilidade por parte do sujeito e ela se realiza no compromisso que permite: quer uma ruptura, quer uma abertura a um campo de possibilidades.

Aparentemente, ser livre parece dizer respeito apenas ao indivíduo concretamente; contudo, mais adiante, Sartre (2022, p. 20) adverte:

[...] a primeira decorrência do existencialismo é colocar todo homem em posse do que ele é, e fazer repousar sobre ele a responsabilidade total por sua existência. E quando dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que ele é responsável estritamente por sua individualidade, mas que é responsável por todos os homens. [...] Quando dizemos que o homem faz a escolha por si mesmo, entendemos que cada um de faz essa escolha, mas, com isso, queremos dizer também que, ao escolher por si, cada homem escolhe por todos os homens. Com efeito, não existe um de nossos atos sequer que, criando o homem que queremos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem conforme julgamos que ele deva ser.

Em relação às obras de Conceição Evaristo, não se pode dizer que não se sabe sobre a escravidão, o racismo, a violência de gênero e de classe. Todos esses elementos são retratados em suas obras, de maneira a explicitar os desafios presentes no corpo social. Assim, segundo Sartre (2004, p. 21): “o papel do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele”. A partir daí, compreende-se que, ao ter acesso às obras evaristianas, quem as lê, não pode mais se considerar inocente diante da sociedade em que está inserido, principalmente porque a própria autora é uma pessoa engajada, proclamando, desde a sua escrita literária, o leitor-espectador-ouvinte para a ação. A escrevivência, portanto, é uma ação.

Se a escrevivência é uma ação, entende-se o que Conceição Evaristo quer dizer quando defende que não se trata apenas de uma junção de duas palavras “escrever” e “viver”, mas de uma ação que se concretiza numa forma de escrita singular, feita por mãos-mentes-corpos negros. Nesse sentido, é um convite endereçado aos leitores-espectadores-ouvintes para sua emancipação, que provém de sua conscientização, questionamentos e ação perante o mundo em que estão inseridos. Assim, autores que realizam a escrevivência, assim como Conceição Evaristo, não são escritores “por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo” (Sartre, 2004, p. 22).

2 O lugar do leitor-espectador-ouvinte na escrevivência

Na obra O espectador emancipado,Rancière (2012) tece um panorama sobre como o espectador é observado na sociedade, partindo do seu papel no âmbito teatral para a forma como ele se sente empenhado como indivíduo. E é nesse estudo que está, também, fortemente ligado à oralidade e à leitura que a escrevivência pode convidar o leitor-espectador-ouvinte a se emancipar. Os estudos de Rancière (2012) são de extrema importância para o desenvolvimento deste trabalho, pois lançam um desafio para a compreensão do papel do espectador na sociedade, levantando indagações sobre a sua passividade e sua ação diante do espetáculo: daquilo a que ele assiste e ouve. Desse modo, pensar no espectador que tem diante de si a obra evaristiana é pensar em emancipação e no seu papel no corpo social brasileiro a partir da incorporação dessas obras, o que não se restringe de modo algum à autora em questão, visto que se pode ampliar sobremaneira o espectro do que observamos.

Em seu texto, Rancière menciona que o espectador era pensado e visto com uma certa passividade diante do espetáculo e que certos autores, a exemplo de Bertolt Brecht, chegaram a pensar numa forma de teatro em que o espectador pudesse ser inserido, pudesse estar em ação. Brecht pensava numa ação teatral que viesse a retirar o autor da “ilusão” da interpretação do ator no palco, para chamá-lo à realidade, fazendo-o, muitas vezes, até participar da peça, se possível - é o que podemos chamar da quebra da quarta parede. Manifestava-se, portanto, certa urgência para que houvesse a ação do espectador.

A ideia que se tinha era que o espectador não era visto de maneira necessariamente positiva. Rancière (2012) afirma que, durante muito tempo, o espectador era tido como quem estivesse alheio à realidade. Tal posição, portanto, sempre foi concebida como passiva diante da ação no palco, e essa questão de passividade era transferida para a sociedade, isso porque o autor explica que a política detém parte importante do debate sobre o teatro, a performance e o próprio espectador. Inclusive, para ele, o próprio contar ficcional contém racionalidade, deixando por vezes claro o que pode e deve ser narrado e o que não tem lugar na narração, que são os viveres do povo.

No que se refere à escrevivência, então, pode-se compreender que ela não apenas convida o leitor-espectador-ouvinte para a ação, mas também o faz refletir, questionar a sociedade, tudo isso por meio das características presentes na escrita evaristiana, se a tomamos como exemplo e ponto de partida. Nas obras de Evaristo, a oralidade está muito presente, isso porque, como já mencionado, há uma forte presença do elemento ancestral. Em Ponciá Vicêncio, por exemplo, a escuta aos mais velhos era de extrema importância para o agir no mundo, visto que os anciãos contavam histórias, sabiam as línguas antigas, aconselhavam. A exemplo da anciã Nêgua Kainda, que estava sempre usando a sua sabedoria para fazer com que as pessoas da aldeia agissem de maneira prudente e correta, como ocorreu com Luandi, irmão da protagonista do enredo, homem que trabalhou na roça junto ao pai desde criança, mesmo após o processo de abolição.

O que significa que, mesmo após o ano de 1888, muitos negros continuaram trabalhando para os senhores em suas fazendas, pois não havia possibilidade e oportunidade de realizarem uma vivência diferente, visto que estavam em uma sociedade fundamentada no processo de escravidão. Abdias Nascimento (2019) afirma que a Lei Áurea apenas serviu para livrar os homens brancos de seus crimes hediondos contra os escravizados, dado que nenhum desses indivíduos recebeu assistência para construírem uma vida digna, ter acesso ao trabalho e à educação.

O personagem da obra evaristiana viveu, como se pode ver, todo o processo citado acima e, ao sair de sua aldeia para a cidade, pensou que poderia ter uma nova existência. Luandi, ao chegar na cidade, foi abordado pela polícia, por ser um homem negro na rodoviária, mas, quando percebeu quem o estava levando, deparou-se com um soldado negro, o primeiro que tinha visto na vida, pois, de onde ele vinha, as pessoas negras apenas tinham espaço na aldeia ou nas fazendas dos senhores, não possuíam escolarização, e seu início, meio e fim se dava pela exploração.

Foi a partir de então que ele passou a acreditar que a escravidão não mais existia, que, na cidade, pretos e brancos poderiam ter a mesma possibilidade de existência, respeito, como indica o seguinte trecho: “Luandi [...] acreditava que o tempo da escravização tinha passado. Existia sofrimento só na roça. Na cidade, todos eram iguais. Havia até negros soldados!” (Evaristo, 2018, p. 60). A partir desta perspectiva, Luandi decidiu que gostaria de ser um soldado, ter voz de mando como os brancos, bater nas pessoas que, segundo ele, mereciam. O que ele não compreendeu é que, diante de uma sociedade revestida pela desigualdade racial e social, as pessoas marginalizadas, de maneira forçada e tratadas como bandidas, devendo ser presas, eram, tanto quanto ele, pessoas negras, pobres e sem oportunidade de viver com dignidade material e psíquica.

Foi nessa perspectiva que a anciã da aldeia o fez retornar para as suas origens e pensar, criticamente, a fim de perceber como a postura do soldado, que realiza uma tarefa de máquina do Estado, numa sociedade em que as instituições nunca enxergaram os negros como pessoas e indivíduos de direito, maltratava os seus. Portanto, se Luandi agisse assim, ele também estaria fazendo a mesma coisa que o soldado, como ressalta o trecho da obra de Evaristo (2018, p. 77):

[...] Nêgua Kainda olhou os trajes de Luandi e deu de rir, mais com os olhos. Ria dizendo que o moço estava num caminho que não era o dele [...]. Se a voz de Luandi não fosse o eco encompridado de outras vozes-irmãs sofridas, a fala dele nem no deserto cairia. Poderia sim, ser peia, areia nos olhos dele, chicote que ele levantaria contra os corpos dos seus.

Por isso, o leitor-espectador-ouvinte da obra evaristiana tem um forte lugar na escuta, na observação e na compreensão do enredo, que é posto de maneira poética e crítica pela autora. A leitura, amplamente compreendida aqui, concentra, por conseguinte, um importante lugar na performance e é por meio dela que se tem acesso a sentimentos de dor e de identificação, quando se veem as denúncias ficcionadas pela autora.

Isso posto, Rancière (2012) vai contra o pensamento de que o espectador é simplesmente passivo. Para o autor, a ação do espectador está também na observação de algo, na maneira como se vive a vida, aprendendo ou ensinando algo. Assim, transformar um espectador em ator como os que estão no palco, para Rancière, não é necessário, basta que ele seja e se sinta o ator de sua própria existência. A obra Ponciá Vicêncio demonstra como a protagonista assistia a sua mãe remexendo o barro, cantando enquanto realizava seu trabalho manual e, a partir da observação, a garotinha passou a exercer as mesmas atividades da mãe; ao ouvir os cânticos, aprendeu e passou a cantar junto da mãe, na beira do rio.

Se levarmos essa perspectiva para a escrevivência e seus impactos nas vidas dos leitores, não podemos negar que a observação e a incorporação de uma obra possam conferir ao leitor uma atitude emancipada, fazendo-o passar de um mero espectador e ouvinte a um processo de leitura em ato, se assim o quisermos. Desse modo, quando um leitor se emociona, compreende as mazelas da sociedade, sente curiosidade em pesquisar sobre a história das pessoas pretas, está, de alguma forma, engajando-se em sua criticidade, sendo ator de sua própria história, inscrevendo-se e escrevendo sua própria obra.

O leitor-espectador-ouvinte pode ser emancipado, como se vê, a partir de sua leitura, de sua escuta e de sua compreensão e da observação de uma obra, sobretudo quando, a partir da vivência dos personagens de Conceição Evaristo, aqui evocada, passa também a se identificar ou a questionar a sua escrevivência. Nesse momento, de igual maneira, vai perceber que, ainda que outros indivíduos também possuam suas vivências, há uma intersubjetividade quando se percebe as vivências descritas numa obra, de modo a interpelar tantas pessoas negras que, na sociedade, enfrentam problemas semelhantes, causando, portanto, a compreensão de um todo, de um coletivo, sem que se apaguem as subjetividades. Pelo contrário, haverá uma conexão ainda maior entre elas.

A escrevivência faz com que, em seu ato de leitura, cada vez mais amplificado em seus contextos, percepções e significações, o leitor-espectador-ouvinte, enquanto observa, vá ao encontro da performance provocada pela sensação causada a partir da leitura. Esse contexto em que o conceito está inserido foi desenvolvido por Paul Zumthor (2018) e muito se aplica ao que se pretende nesta reflexão. Nessa esteira, não se pretende corromper o conceito de performance muito presente no teatro, mas extrair da palavra tudo o que seja possível para realizar seu estudo. Zumthor explica e defende a importância do empenho do corpo e da oralidade, para que haja a performance, sobretudo, por ressaltar que, a partir da percepção, da visão e da escuta é que ela se manifesta e irrompe, a exemplo dos povos antigos, já mencionados neste texto, em que a oralidade está fortemente ligada à educação, negociação e vivência.

O estudioso também pontua que a importância da oralidade para a performance não exclui a perspectiva da leitura. A questão defendida por ele é que existem intensidades em que a performance ocorre, diferentemente do ato de leitura. Ela se manifesta, então, a partir das sensações que a leitura causa no leitor, pelo nível de emoção, da respiração, pela presença das pontuações, pelo riso, pelo choro etc. Todos esses elementos causados pela leitura, para Zumthor (2018), engajam a performance, que sempre acompanha o ato da leitura.

Na escrevivência, portanto, o lugar do leitor-espectador-ouvinte está no processo de conscientização gerado pelas informações, pela poética e pela criticidade, para a qual a obra evaristiana em questão chama a nossa atenção. Assim, sendo uma leitura afrodiaspórica, a escrevivência é uma porta de entrada para que as pessoas negras possam conhecer e reconhecer suas vivências, como não sendo meramente únicas, mas unindo-as numa forte intersubjetividade. A escrita de Conceição Evaristo é, pois, como que um portal que convida os leitores a uma grande tomada de consciência, a partir da diáspora africana, que constitui e revela o rosto do Brasil.

Esse leitor-espectador-ouvinte se torna, então, emancipado a partir do momento em que começa a questionar - por meio de sua observação, advinda da leitura, elevada ao seu máximo grau de percepção e de envolvimento, afetos e determinações - a sociedade em que está inserido. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de uma politização afetiva e efetiva, porque a afetividade se transforma em ação, dado que o leitor também é ouvinte e passa a compreender, historicamente, a importância da oralidade para as pessoas pretas e a sua presença na cultura afro-brasileira, expandindo essa compreensão para além do que aqui expomos. Aliás, as poéticas orais estão fortemente ligadas à obra evaristiana, pois as marcas da oralidade se fazem presentes, chamando o tempo inteiro o leitor-espectador-ouvinte não apenas a se emancipar, mas a entender que o lugar de enunciação da escuta é primordial para a ação na sociedade.

Considerações finais

Os escritos de Conceição Evaristo, especialmente por meio do conceito de escrevivência, trazem uma contribuição significativa para a literatura afrodiaspórica e para o enfrentamento do racismo estrutural. Isso porque, a partir da denúncia e dos elementos ancestrais abordados cuidadosamente em cada obra, tendo um embasamento interdisciplinar que incorpora estudos literários, sociologia e teoria crítica racial, é capaz de chamar o leitor-espectador-ouvinte a uma emancipação e consciência de sua vivência na sociedade. A partir disso, é possível destacar o papel essencial da literatura como um elemento de resistência, emancipação e luta contra o racismo estrutural, que age, também, por meio do apagamento da memória em sociedade.

Evaristo desafia, assim, as normas e estruturas literárias dominantes ao oferecer narrativas que não apenas documentam, mas também celebram as experiências vividas pelos negros no Brasil. Sua escrita é um ato de reivindicação de espaço e voz, permitindo que os leitores, espectadores e ouvintes negros se vejam apresentados de maneira autêntica, tendo como referência a experiência de outros indivíduos negros-escritores. Tais elementos presentes na literatura da autora fazem dela um potencial texto literário, que vai de encontro a uma hegemonia historicamente constituída que apaga as pessoas negras da literatura ou concede a elas apenas um lugar de subalternidade.

A obra de Evaristo realiza, pois, um convite à reflexão e à ação, instigando o público a questionar e a desafiar as injustiças sociais e raciais. E tudo isso, poderíamos dizer, ocorre por meio da observação advinda da leitura, mas levando-nos a compreender que o leitor-espectador-ouvinte também tem uma grande força, ainda que por meio de uma pretensa e simples observação leitora. Observar e agir, nesse aspecto, estão em profunda consonância. Ao oferecer uma visão crítica da sociedade brasileira, Conceição Evaristo, com suas histórias e sua obra, incentiva uma análise e um questionamento profundo das estruturas de poder e uma busca por transformações sociais, provocando um reconhecimento de si em seus espectadores, leitores e ouvintes negros e negras.

Portanto, sua contribuição não apenas transcende o âmbito literário, como também mostra o quanto o papel da literatura é múltiplo, podendo até influenciar um ativismo social e a construção de uma consciência coletiva sobre as questões raciais no país. É possível, assim, ampliarem-se as discussões e as visões que ainda se encontram ultrapassadas em uma sociedade estruturalmente racista como o Brasil, em vista de contribuir com a formação de indivíduos em diversos âmbitos sociais e culturais. Ao reconhecer e valorizar a diversidade de vozes na literatura, a obra de Conceição Evaristo não simplesmente reconhece, como também enriquece o entendimento e propaga o vasto lastro cultural que tem diante de si, quando faz com que mais pessoas tenham acesso a esses acervos, evidenciando a necessidade de uma sociedade com mais justiça e equidade. A formação para a leitura mobiliza e emancipa leitores, espectadores e ouvintes.

Declaração de disponibilidade de conteúdo

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil - CAPES, Código de Financiamento 001.

Pareceres

Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica apenas os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.

REFERÊNCIAS

  • ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural Belo Horizonte: Letramento, 2019.
  • BÂ, Amadou Hampâté et al A tradição viva. In: História geral da África, v. 1, 2010. pp. 167-212.
  • BERND, Zilá. Introdução à literatura negra São Paulo: Brasiliense. 1988.
  • EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: Escrevivência; uma escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabela Rosado; LOPES, Goya (Org.). Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020.
  • EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. Revista Scripta, v. 13, n. 25, pp. 17-31, 2009. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/4365/4510 Acesso em: 13 mai. 2024.
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  • EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio 4. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
  • EVARISTO, Conceição. Da representação à autoapresentação da mulher negra na literatura brasileira. Revista Palmares, v. 1, n. 1, pp. 52-57, 2005. Disponível em: https://www.palmares.gov.br/sites/000/2/download/52%20a%2057.pdf Acesso em 12 mai 2024.
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  • GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, v. 2, n. 1, pp. 223-244, 1984. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7395422/mod_resource/content/1/GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20%281%29.pdf Acesso em 13 mai. 2024.
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  • MARTINS, Leda. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Revista do PPG em Letras UFSM, n. 26, pp. 63-81, junho 2003. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/11881 Acesso em 14 mai. 2024.
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  • MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2019.
  • NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo: documentos de uma militância Pan-Africanista. 3. ed. rev. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: Ipeafro, 2019.
  • QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina Buenos Aires: CLASCO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2005.
  • RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora WMF e Martins Fontes, 2012.
  • SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo Tradução João Batista Kreuch. Petrópolis: Vozes, 2022.
  • SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? São Paulo: Ática, 2004.
  • ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção e leitura. Tradução Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Ubu, 2018.

Editores responsáveis

Beth Brait
Elizabeth Cardoso
Maria Helena Cruz Pistori
Paulo Rogério Stella
Regina Godinho de Alcântara

Parecer I

Parecer I

O artigo é de relevância ao meio acadêmico e à sociedade, por argumentar e problematizar a questão da litetarura negra no Brasil. A proposta é criativa e essencial para o combate e a amenização dos efeitos do racismo estrutural e estruturante na sociedade brasileira. Alguns parágrafos não estão muito claros e devem ser reorganizados e encontram-se no arquivo word que segue anexo.

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    26 Ago 2024

Parecer II

Parecer II

1. Adequação do título ao artigo. O título do artigo correlaciona-se à proposta do texto e está adequado. 2. Explicitação do objetivo do trabalho e coerência de seu desenvolvimento no texto. Objetivos bem delineados e contemplados no decorrer do artigo. 3. Conformidade com a teoria proposta, demonstrando conhecimento atualizado da bibliografia relevante. Desenvolvem a articulação do termo escrevivência e sua relevância a partir de conceitos consagrados no campo literário pela perspectiva eurocênctrica, como Jean-Paul Sartre, Jacques Rancière e Paul Zumthor. Considerando a origem do termo escrevivência penso que maiores contribuições de intelectuais afro-referenciados mencionados, como Hampâté Bâ, Leda Maria Martins, entre outros, como Amarino de Oliveira Queiroz (As inscrituras do verbo: dizibilidades performáticas da palavra poética africana), poderiam enriquecer ainda mais o debate e a importância de questões relacionadas à comunidade afrodescendente como a oralidade, a própria função do griot e a ancestralidade nesse conjunto performático de transmitir e envolver com a singularidade-coletividade de suas escrevivências. Bem como maior aprofundamento teórico acerca do Racismo Estrutural (Silvio de Almeida) Genocídio do negro brasileiro (Abdias Nascimento) e do Racismo e Sexismo (Sueli Carneiro juntamente com a mencionada Lélia Gonzalez) pensando como isso se elabora no pós-colonialismo / colonialidades (Aníbal Quijano e outros/as). 4. Originalidade da reflexão e contribuição para o campo de conhecimento. Contribui para de pensar outras perspectivas acerca dos projetos literários e intelectuais afrodescendentes marginalizados por séculos, os quais são fundamentais por seu carácter endógeno e a representatividade que isso promove. 5. Clareza, correção e adequação da linguagem a um trabalho científico. Linguagem adequada. Recomendo rever a palavra ouvinte que está com grafia equivocada no resumo.

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    20 Out 2024

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Maio 2024
  • Aceito
    13 Maio 2025
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