Open-access A autoria gerada por IAG: “onde afinal está o perigo?”1

RESUMO

A discussão empreendida neste texto parte do pressuposto de que a posição-autor epistêmico, é, sem dúvida, uma demanda científica, possibilitada nas e pelas práticas discursivas científicas, que vai além de um vocabulário mais rico, de uma sintaxe mais articulada, de textos mais complexos - gerados por Inteligência Artificial Generativa (IAG) -, como desejam fazer acreditar seus criadores. Nada disso corresponde ao real da língua e do discurso científico na produção do sentido como objetivamos discutir adiante, sob a perspectiva da análise do discurso de orientação francesa. Assim, pretendemos problematizar os conceitos de escrita científica e de seu correlato, o texto científico, da função-autor epistêmico e, também, de seu correlato, o efeito-leitor, que vêm balizando práticas dessa escrita por meio de geração de textos por IAG, a partir de prompts - textos que descrevem a tarefa que a IAG deve executar.

PALAVRAS-CHAVE:
IAG; Autoria epistêmica; Discurso e poder

ABSTRACT

The discussion in this text is based on the assumption that epistemic authorship is, without a doubt, a scientific demand, made possible in and by scientific discursive practices, which goes beyond a richer vocabulary, a more articulated syntax, and more complex texts - generated by GenAI-Generated -, as its creators would have us believe. None of this corresponds to the “real” of language of language and scientific discourse in the production of meaning, as we aim to discuss below, from the perspective French school of discourse analysis. Thus, we intend to problematize the concepts of scientific writing and its correlate, the scientific text, the epistemic author-function, and also its correlate, the reader-effect, which have been guiding practices of this writing through the generation of texts by GenAI-Generated, based on prompts - texts that describe the task that the GenAI-Generated must perform.

KEYWORDS:
Generative AI; Epistemic Authorship; Discourse and Power

Como, segundo que condições e sob que formas algo como o sujeito pode aparecer na ordem dos discursos?

Michel Foucault

O que é um autor? Pergunta que se reveste de uma complexidade, como bem nos mostrou Foucault, em pelo menos três de seus trabalhos, a saber: O que é um autor?, conferência proferida em 22 de fevereiro de 1969 (1992), em um encontro da Sociedade Francesa de Filosofia; A arqueologia do saber, publicado em março de 1969 (2014); e A ordem do discurso, sua aula inaugural no Collège de France, proferida em 2 de dezembro de 1970 (2004). Nessas obras, o filósofo dedica-se à reflexão sobre as categorias autor, autoria e função-autor, num movimento que busca criticar o princípio de universalidade de autoria, como instância fundamental e criadora do discurso, que dominou a história tradicional das ideias (Foucault, 2004, p. 54). O que ele destaca, no conjunto desses estudos, é que tal princípio não voga em toda parte nem de modo constante, para quaisquer contextos sócio-históricos e ordens discursivas. Ou seja, cada ordem discursiva, seja literária ou científica, para ficar nos domínios explorados por Foucault, estabelece quem tem o direito à palavra, definindo o estatuto de autoria.

Considerada essa complexidade, neste trabalho nossa atenção se volta para interrogar sobre que sujeito é esse e qual seria sua posição na ordem das práticas de escrita presididas sob a batuta da inteligência artificial generativa - IAG1?

Pergunta necessária - amplamente debatida em várias áreas de conhecimento como Direito, Engenharias, Filosofia, Linguística2, - e cremos urgente mais do que nunca. Isso porque, com o advento dessa nova tecnologia digital, sobretudo, a aplicada à geração de textos escritos - Zotero, ChatGPT, Google Gemini e Jasper, para citar apenas alguns de seus modelos - e, frente à sua massificação3, assistimos a uma mudança nos gestos de escrita e nas suas práticas discursivas. Tal mudança se mostra pelo fato de que a IAG, no conjunto de suas funcionalidades, detém a capacidade de gerar de forma autônoma e em tempo real um conteúdo novo - texto, imagem, vídeo -, para usar a terminologia das plataformas. No que toca à escrita de textos, essa ferramenta digital, forjada em complexos sistemas algorítmicos, operando por meio da recombinação estatística de grandes volumes de dados textuais e prevendo sequências de palavras a partir de padrões recorrentes, prescinde do trabalho escritural do sujeito. O sujeito é posto em suspensão. Para a criação do texto, basta que o usuário do programa, conforme o seu projeto de produção, solicite à plataforma de IAG utilizada, por meio dos chamados prompts - “instrução textual fornecida a um modelo de linguagem (LLM) para solicitar respostas ou gerar conteúdo específico” (Scalco, s.n.) - que o faça. Em resumo, o texto produzido é confiado a um autômato programado, aos algoritmos, pois esses são treinados para imitar a linguagem humana, simulando as formas textuais do discurso da escrita construídas historicamente no corpo social das culturas letradas.

Estamos diante de um avanço tecnológico, que, no entanto, vem acompanhado de desafios, ao se admitir que, na cena da escrita científica (e não só nela), sentidos e práticas vêm (des)estabilizando, de uma forma ou de outra, a relação do sujeito com a escrita, com os modos de ele se significar nela e significá-la, com os modos de produzir texto, com os modos de produção material do conhecimento. Tudo isso, como já nos alertava Orlandi (1986), ao refletir sobre a presença de tecnologias no funcionamento das práticas de escrita e de leitura, implicará, consequentemente, a “re-organização da vida intelectual, re-distribuição dos lugares de interpretação, promovendo um deslocamento no funcionamento da autoria e da própria concepção de texto” (Orlandi, 1986, pp. 62-63). E, junto a isso, questões que esbarram na esfera da ética, direitos autorias, propriedade intelectual, por exemplo, as quais vêm sendo usadas para caracterizar o mundo da escrita, também estão em movência (Chartier, 2022). Voltando a Foucault, considerando que estamos diante de uma de movimentação na ordem da escrita, é nesse sentido que o tratamento dado à figura do autor por ele nas obras citadas nos interessa, tendo em vista o fato de que a relação entre o sujeito, o discurso e o poder constituem uma de suas posições possíveis.

Para avançar nessa discussão, importa dizer que não se ambiciona, no entanto, neste trabalho, oferecer uma resposta às questões acima, pois o mais desafiador tem sido compreender a transitividade dessas categorias nos últimos anos (cf., por exemplo, Lana, 2023). Aqui nosso intento é o de ampliar esse debate, buscando construir uma compreensão para elas. E o fazemos mobilizando conceitos da Análise do Discurso de orientação francesa, perspectiva teórica que nos conduz a trabalhar o ponto de articulação da língua com a ideologia, no discurso, abrindo-se a possibilidade de perscrutar o modo como se produzem os sentidos e os sujeitos, a observar os fatos de linguagem e as suas práticas no bojo da formação social capitalista, como nos lembra Pêcheux (1995).

Para tanto, como uma perspectiva de entrada, pretendemos colocar em suspenso a ampla utilização das funcionalidades da IAG ligadas às práticas acadêmico-científicas, as quais recobrem, por exemplo, a busca nas redes sociais de orientações para a escrita de pesquisa e a utilização de modelos de IAG para buscas e geração de textos de natureza, também, científica, que consistem em “apoiar”, por meio da “autonomia”, o universitário no gerenciamento de dados e na tomada de decisões (Lin; Chang, 2020)4.

Entendemos, da perspectiva teórica aqui adotada, que essa “capacitação” para a escrita pelos modelos de IAG, que se alia à ideia de otimização da escrita, da produção de uma escrita ágil, de geração de sugestões de pesquisa adaptadas ao tema em estudo, da economia de tempo, da criatividade e da eficiência - dizeres e ditos esses envoltos na rede de discursividades sobre a IAG5 -, tem concorrido para fortalecer uma representação de sujeito-autor que, sob a ilusão de ser e estar na origem de seu dizer, é o único responsável por ele.

A esse respeito, como nos alertam Stiegler (2018) e Auroux (1998), por exemplo, todas essas tecnologias de escrita transformam a maneira como consumimos e interagimos com a informação, acrescentamos, e com a produção de conhecimento. Ora, é inegável a importância das tecnologias, quaisquer que sejam elas, na sociedade humana, pois, afinal, as transformações em uma sociedade se constituem pela invenção/criação de novos instrumentos e sua integração com os comportamentos e relações humanas complexas (Auroux, 1998, p. 321). Tal percepção, portanto, transpõe uma visão pragmática da funcionalidade/aplicabilidade de uma ferramenta tecnológica, de sua neutralidade, enquanto um mero suporte, com o qual se pode se realizar uma tarefa. Essa compreensão da tecnologia, no caso em foco, a IAG, conduz-nos a tomá-la pela sua espessura histórico-discursiva, ou seja, a considerar que o seu funcionamento (e funcionalidade) se implicam como uma condição de produção dos processos de subjetivação, assim como parte dos modos de existência do sujeito (Dias, 2018) e dos objetos por ela gerados, na nossa contemporaneidade. Nesse sentido, o impacto da IAG não pode ser subestimado, sobretudo quando se trata de sua intervenção nos modos da formulação e da circulação do saber, fazendo trabalhar, no texto gerado por ela, uma escritura/textualidade digital cuja materialidade não se reduz apenas ao que se mostra na superfície textual e tampouco se reflete na criação de textos que se apresentam sintaticamente bem estruturados e dotados de uma coerência semântica.

Além disso, retomamos Orlandi que há muito nos alertou para o fato de que as tecnologias de linguagem, de modalidade da linguagem como a escrita, parecem tornar obsoleta a noção de texto.

Ao contrário do senso comum, que imagina que agora, enfim, nos libertamos do texto, a noção de texto deve ser objeto de toda nossa atenção, pois é ela que está na base de todos esses desenvolvimentos. E das novas tecnologias de linguagem que são, por sua vez, novas/outras tecnologias da escrita. Saber como se elabora um texto é saber elaborar teoricamente as novas formulações que hoje se produzem. Novas formas de textualidade. Em novos contextos de realização, ou seja, como se diz em AD, [em] novas condições de produção (Orlandi, 2001, p. 15).

1 A escrita científica, seu texto; a função-autor, seu efeito-leitor

A escrita, prática social de que provém todo texto, sob uma perspectiva discursiva - seja ela ficcional ou não - é um lugar de interpretação, se forma em um espaço simbólico onde convivem, simultaneamente, a retomada da língua e do discurso (Correa, 2022). Em outras palavras: o sujeito, na atividade de escrita, recupera já ditos, indiciando sua inserção no interdiscurso e na repetibilidade. A prática da escrita trabalha, portanto, com a memória discursiva, com os sentidos já inscritos, que são recuperados e/ou rememorados, e o esquecimento, já que é necessário esquecer os sentidos pré-existentes para poder dizer (Indursky, 2016). Em outras palavras, tal esquecimento resulta na ilusão do sujeito de ser a origem dos sentidos e na impressão da realidade do pensamento.

Opera-se, ao contrário, na prática de escrita por meio de IAG, com uma memória metálica (Orlandi, 1996)6, linearizada, que reduz o saber discursivo (os já ditos) a um pacote de informações, ideologicamente equivalentes, cujo efeito é o de completude e de transparência. É uma memória que trabalha com a quantidade da informação, com movimentos de repetição, reprodução, replicação. Segue argumentando a autora:

A sua particularidade é ser horizontal (e não vertical, como a define Courtine), não havendo assim estratificação em seu processo, mas distribuição em série, na forma de adição, acúmulo: o que foi dito aqui e ali e mais além vai-se juntando como se formasse uma rede de filiação e não apenas uma soma. Quantidade e não historicidade (Orlandi, 2001, p. 5).

Quanto à posição-autor epistêmico7, ela é, sem dúvida, uma demanda científica, possibilitada nas e pelas práticas discursivas científicas, que vai além de um vocabulário mais rico, de uma sintaxe mais articulada, de textos mais complexos - gerados por IAG -, como desejam fazer acreditar seus criadores. Nada disso corresponde ao real da língua e do discurso (científico) na produção do sentido (Correa, 2022) como objetivamos discutir adiante, sob a perspectiva da análise do discurso de orientação francesa.

Dito isso, pretendemos problematizar os conceitos de escrita científica e de seu correlato, o texto científico, da função-autor epistêmico e, também, de seu correlato, o efeito-leitor, que vêm balizando práticas dessa escrita por meio de geração de textos por IAG, a partir de prompts8 (Por exemplo, “Escreva uma introdução de um artigo que discuta os efeitos das fake news”).

Na sequência da repetibilidade dos conceitos de escrita, de texto, de função-autor e seu duplo - o efeito-leitor -, e de sujeito epistêmico, os operacionalizamos a partir de um gesto de leitura analítica de um texto gerado pelo ChatGPT, orientado pelo seguinte prompt: defina o conceito de fake news e explique sua importância para a Análise de Discurso de orientação francesa, indicando citações e referências.

Reiterando a nossa posição, a noção de escrita aqui mobilizada, à luz da AD, é pensada numa relação incontornável entre prática social e processo, o que implica admitir que a escrita está ancorada na história, no social, no ideológico, constituindo-se num espaço simbólico, lugar de interpretação, num trabalho de memória e de construção de subjetividades (Orlandi, 2001).

Assim, como prática social, “a escrita é um dos modos de que o sujeito lança mão para relacionar-se com a história, com seu tempo, com a sociedade, em suma, para inscrever-se no corpo social” (Indursky, 2016, p. 35). Dessa perspectiva, no que toca à escrita científica, consideramos que, numa sociedade de cultura letrada como a nossa, essa escrita figura-se como uma das condições necessárias para o sujeito se inserir nas práticas discursivas do campo de conhecimento que se toma como referência para situar teórico-metodologicamente seu objeto de (em) estudo, e, assim, assinalar/marcar política e epistemologicamente a sua pertença nesse campo. Sob essa direção, o ato de escrever, ainda que se dê solitariamente, está sob a injunção, a um só tempo, do espaço institucional a que se vincula o sujeito e ao campo disciplinar que governam o funcionamento de tal prática de escrita, e, nessa medida, como consequência, os ditos produzidos e postos em circulação no e pelo campo de conhecimento em questão.

Em poucas palavras, a escrita é uma forma de subjetivar-se. Desse modo, entendemos a escrita científica vinculada às ordens discursivas da instituição científica, que dá corpo e materialidade a diferentes saberes, produzidos e em circulação, na esfera das atividades de pesquisa. E é esse trabalho discursivo da escrita que inscreve o sujeito ao mesmo tempo nas redes discursivas de memória e na função autoral, acrescentamos, na autoria epistêmica (Indursky, 2016).

Como um processo, a escrita “consiste no desenrolar de um trabalho que começa no encontro intersubjetivo, produtor de qualquer fato de linguagem, e que, ao menos indiciariamente, se marca no fio do discurso” (Corrêa, 2013, p. 89). No conceito de processo, ligado ao de trabalho, reside a noção de “escrita como um processo contínuo, uma atividade que não se encerra, que, mesmo podendo ser suspensa, pausada ou interrompida, não possui um fim”, conforme ressaltado por Indursky (2016, p. 32). De acordo com a pesquisadora, conceber a escrita como um processo significa que ela pode ser continuamente retomada e continuada, transformada, mobilizando outros e/ou novos fios discursivos. E, ao submeter um texto à produção do interdiscurso - o já dito -, “a escrita se torna um esforço para entrelaçar fios discursivos provenientes do intertexto e/ou do interdiscurso” (Indursky, 2016, p. 35). Retemos, aqui, a palavra ‘esforço’: na contramão desse trabalho árduo do sujeito na prática de escrita, o discurso sobre o uso da IAG para a geração do texto científico faz valer enunciados como “simplificação para a produção de textos acadêmicos”, “otimização do processo de pesquisa”, além de outros, todos atrelados a uma ideologia do mundo global do facilitário, da “loja de conveniência”.

Em diálogo com o que se disse e iterando a posição de nossa reflexão, pensamos, neste texto, a questão da escrita científica no quadro de regulamentação da produção de discurso de que nos falou Foucault (2004). Ou seja, o funcionamento das práticas discursivas relacionadas à escrita científica, nas instituições que as regem, estão estruturados em um sistema vinculado à organização, à qualificação e à distribuição do conhecimento gerado nesse âmbito. Sob a perspectiva de Foucault (2004), isso implica que o ingresso no domínio dos discursos da escrita científica, historicamente, passa por mecanismos de controle e poder que determinam as práticas e regulamentam os sujeitos que aspiram a integrá-las. Um desses mecanismos de controle é, justamente, a autoria, tal como discutido em A ordem do discurso pelo filósofo. Nessa obra, argumenta Foucault, toda sociedade impõe uma ordem ao discurso, afastando-o do ruído incessante ou do murmúrio descontrolado. “A imagem da palavra absolutamente livre, ao alcance de todos, que circula sem qualquer limitação, ao invés de um sonho, tende a ser vivenciada em uma sociedade como um pesadelo: a ameaça de cairmos em uma espécie de ‘selvageria discursiva’” (Alves, 2015, p. 79). Estamos vivenciando a manifestação desse temor nos momentos em que a ordem do discurso científico é abalada e seus procedimentos de ordenação colocados em xeque por novas tecnologias de escrita, que se valem de sistemas autônomos para a geração de textos científicos.

Desse ponto de vista, acreditamos poder estender essas premissas sobre a prática da escrita cientifica às questões que trazemos sobre suas novas práticas por meio de IAG, pois, como buscamos discutir na próxima seção, as tecnologias de escrita e suas estratégias via prompts, mobilizadas por sujeitos9 em seus vídeos comerciais parecem estar ancoradas à ideia de que a escrita científica é uma atividade marcada pela objetividade e neutralidade de quem a pratica, anulando, pois, a inscrição do sujeito na ordem do discurso científico, por meio do controle de produção de sentidos. E, em decorrência disso, sugerem-se procedimentos e técnicas que se exercem sobre os processos da formulação do texto, “a construção de seu(s) objeto(s), as formas de sua enunciação e os sujeitos que aí se inscrevem” (Rodrigues; Silva, 2019, p. 51).

Retomando, o texto, materialidade verbal da prática da escrita, lugar em que interpretação se textualiza, forma-se em um espaço simbólico em que trabalham conjuntamente a memória e o esquecimento. Isto é, o sujeito, em seu texto, retoma saberes, o que aponta para sua inscrição no interdiscurso e na ordem da repetibilidade, conforme já dito. Afirma Indursky (2016) que um texto é uma unidade provisoriamente estruturada que pode ser desestruturada a qualquer momento sob o efeito do trabalho de leitura de um sujeito leitor. Desse modo, o sujeito-autor tem

a possibilidade [...] de ocupar o lugar discursivo do outro, do leitor, retornando a seu próprio texto para sobre ele fazer uma leitura desestabilizadora de seu efeito de completude, seja para se autocorrigir, seja para trazer outros fios discursivos que, por diversos motivos, não puderam ser contemplados anteriormente e tramá-los àqueles que aí já se encontravam (Indursky, 2016, p. 31).

‘Tramá-los’, os fios discursivos, é um trabalho de leitura da função-autor, que busca, na materialidade do texto, o efeito da completude e do acabamento via processos de textualização. Ou seja, o sujeito, na função-autor, na formulação do texto investe-se em um trabalho com sentidos, dando a eles corpo no texto, como nos lembra Orlandi (2004). Nesse trabalho de textualização, resultante de um gesto de interpretação do sujeito, todo seu dizer, “atualizado” no fio do discurso (intradiscurso, na linearização do dizer), está atravessado constitutivamente no e pelo interdiscurso (a memória discursiva). Em função disso, entende-se que a prática da escrita tem como resultado um texto que é tecido de citações - relações com o intertexto - de glosas, de paráfrases discursivas, de iterações. Tais modos de intertextualidade e de interdiscursividade são caraterísticas primeiras de um texto de natureza científica. Ou seja, o texto científico é sempre um objeto já habitado, no qual se explicita suas relações com outros textos e outros discursos.

Para entender a função-autor, Foucault (1992) afirma que devemos levar em conta quatro traços característicos:

A função autor está ligada ao sistema jurídico e institucional que contém, determina, articula o universo dos discursos; ela não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos, em todas as épocas e em todas as formas de civilização; ela não é definida pela atribuição espontânea de um discurso a seu produtor, mas por uma série de operações específicas e complexas; ela não remete pura e simplesmente a um indivíduo real, ela pode dar lugar simultaneamente a vários egos, a várias posições-sujeito que classes diferentes de indivíduos podem vir a ocupar (Foucault, 1992, p. 56).

Pelas descrições apresentadas pelo filósofo, compreendemos que a função-autor é determinada por posições discursivas, que, no discurso científico, demanda uma posição epistêmica.

Em A Arqueologia do saber, defende o filósofo que o autor “não é um núcleo constante, imóvel e idêntico a si mesmo”, mas “um lugar determinado e vazio” (Foucault, 2014, p. 109). Tal princípio sobre o lugar do autor se vale do raciocínio de uma teoria matemática, segundo a qual para cada valor de x, temos um valor de f(x), sendo x um lugar vazio. Desse modo, para “encontrar” o valor de x é necessário se perguntar: “Como, segundo em que condições e sob que formas, algo como o sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar pode o sujeito ocupar em cada tipo de discurso?” (Foucault, 1992, pp. 69-70). Nesse quadro, a noção de autor é entendida como princípio ordenador que caracteriza certo modo de ser no discurso, que confere ao sujeito uma determinada posição. A posição do sujeito, na função-autor do discurso científico, é a de acionar na memória discursiva já ditos de seu campo, de seu quadro teórico, que lhe permitem atribuir sentidos a uma dada materialidade significante.

Além disso, para Orlandi (2001, p. 91), problematizando as teses foucaultianas, “a função-autor se faz na relação com a constituição de um lugar de interpretação definido pela relação com o Outro (interdiscurso) e o outro (interlocutor)”. O autor se produz pela possibilidade de um gesto de interpretação que lhe corresponde e que vem ‘de fora’, sendo sua constituição possibilitada apenas se o que ele produz for interpretável. Tal interpretação requer organizar a dispersão de sentidos na linearidade do dizer - intradiscurso -, produzindo novas formulações sob o efeito de unidade resultante de sua identificação a uma formação discursiva que dita o que pode, o que deve e como pode ser dito. Assim, para que a função-autor se constitua, é preciso que seu duplo - o efeito-leitor -, também se constitua (Orlandi, 1996; 2001). Nesse jogo discursivo entre autor e leitor, o gesto de interpretação do leitor não se reduz a verificar sentidos, como se houvesse um sentido por detrás do texto, mas implica expor-se à sua opacidade, o que, de uma perspectiva discursiva, pressupõe que os sentidos podem ser outros, inclusive os não previstos. Tal conceito de interpretação, focalizando o autor, coloca-o em uma posição que historiciza seu dizer, isto é, inscreve o dizer no repetível, no interdiscurso, o que Foucault denomina “nó em rede” (Foucault, 2014). Dito de outra forma e com as palavras de Orlandi (2001, p. 70), “o sujeito só se faz autor se o que ele produz for interpretável”. Interpretar, portanto, é “um trabalho do sentido sobre o sentido” (Pêcheux, 2006, p. 51).

Nesse enquadre, à qual repetição referimo-nos? Não à repetição formal que, na escrita científica, realiza-se pela injunção das normas da ABNT ou de outra técnica normativa. Isto é, as normas científicas de referência a textos outros mencionam, apenas, uma descrição de natureza prescritiva do discurso do outro, tendo em vista suas formas - citação direta, citação indireta e citação de citação. Esse ponto de vista sobre a representação do discurso alheio sugere muito pouco do que efetivamente significa o ato de citar (o repetível), dados os limites do funcionamento do discurso de natureza técnica10.

Referimo-nos à repetição histórica, em que a interpretação acontece, já que “o mesmo/o já dito” fazem parte da memória discursiva, que possibilita ao sujeito formular e construir seu enunciado no interior das repetições possíveis. Em outras palavras, da perspectiva discursiva, o autor produz outros sentidos, introduzindo o interdiscurso em outros enunciados por ele formulados. Mas

um enunciado existe fora de qualquer possibilidade de reaparecimento e a relação que mantém com o que enuncia não é idêntica a um conjunto de regras de utilização. Trata-se de uma relação singular: se, nessas condições, uma formulação idêntica reaparece, as mesmas palavras são utilizadas, basicamente os mesmos nomes, a mesma frase, mas não forçosamente o mesmo enunciado (Foucault, 2014, p, 108).

O que está posto nesse princípio da relação entre frase e enunciado é que o enunciado não se reduz a uma unidade linguística, “superior ao fenômeno e à palavra, inferior ao texto”, como afirma o filósofo (Foucault, 2014, p. 122). E tendo esclarecido que o enunciado é, também, uma função, cabe se ocupar dela na sua relação com a função de autoria,

pondo em jogo unidades diversas (elas podem coincidir às vezes com frases, às vezes com proposições; mas são feitas às vezes de fragmentos de frases, séries ou quadro de signos, jogo de proposições ou formulações equivalentes); e essa função, em vez de dar um ‘sentido’ a essas unidades, coloca-as em relação com um campo de objetos; em vez de lhes conferir um sujeito, abre-lhes um conjunto de posições subjetivas possíveis; em vez de lhes fixar limites, coloca-as em um domínio de coordenação e de coexistência; em vez de lhes determinar a identidade, aloja-as em um espaço em que são consideradas, utilizadas e repetidas (Foucault, 2014, p. 122).

Retomando, “o efeito-leitor representa, para a função-autor, sua exterioridade constitutiva -, memória do dizer, repetição histórica” (Orlandi, 2001, pp. 74-75). “É aos olhos do leitor que as inscrições chegam, que os fragmentos aparecem reunidos, que nada se perde e tudo está feito (na unidade provisória do texto)”, dado que nele (no leitor) existe a dispersão [...]; “é no destino de um texto que se encontra sua unidade, não em sua origem” (Furlanetto, 2015, p. 159).

Em Semântica e discurso, Pêcheux desenvolve a tese da ilusão subjetiva no espaço “imaginário” da enunciação. Ele percebe nessa ilusão subjetiva um duplo processo: de imposição e de dissimulação. O sujeito se constitui pelo Inconsciente (o Outro) e pela ideologia (o histórico), que lhe conferem um lugar e ao mesmo tempo dissimulam a ilusão de autonomia resultante dessa atribuição (tese da interpelação, efeito-sujeito). É por essa perspectiva que se cria a forma-sujeito (leitura de Althusser por Pêcheux) no interior de uma dada formação discursiva, dando conta da função imaginária da subjetividade. Uma vez os indivíduos interpelados em sujeitos do discurso, eles se identificariam com a forma-sujeito (sujeito histórico) das formações discursivas, que regulam o que pode e deve ser dito. No caso deste estudo, os indivíduos são interpelados em sujeitos-pesquisadores, no interior da formação discursiva científica, que regula as formas e os modos de dizer.

Pêcheux (1995), nessa mesma obra, revê os postulados de Althusser sobre Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado e passa a considerar o impasse de uma ideologia “eterna”, que é não idêntica a si mesma (tensão entre unidade/diferença, mesmo/outro, heterogeneidade). A formação discursiva na qual se insere o sujeito, portanto, reflete essa tensão. Isso resulta em sua constante reconfiguração: palavras, expressões e enunciados mudam; perdas, substituições, acréscimos e transferências ocorrem constantemente no espaço de uma dada formação discursiva. Desse modo, podem existir várias posições-sujeito em cada formação discursiva - identificação, desidentificação e contraidentificação. As posições do sujeito pesquisador/epistêmico, no texto científico, de acordo com a ordem do discurso científico, são a da refutação e/ou da crítica - pela desidentificação e/ou contraidentificação com uma dada epistemologia; e a da identificação, mas não pela mera repetição, e, sim, pelo gesto de interpretação que possibilita, por sua vez, a formulação e a reformulação de outros enunciados.

2 Propondo uma leitura analítica

A fim de operacionalizar as categorias anteriormente discutidas, propusemo-nos exercitar a “escrita” de um texto pelo ChatGPT11, como já anunciado, a partir do prompt: defina o conceito de fake news e explique sua importância para a análise de discurso de orientação francesa, indicando citações e referências, guiando-nos pela hipótese de que o texto gerado poderia compor, talvez, a justificativa da escolha de um referencial teórico-conceitual para o estudo das fake news em um texto científico como artigo, TCC, dissertação ou tese. E, nessa medida, a escolha pelo tema, fake news, não é arbitrária, considerando o fato de que ele está na ordem das discussões e pesquisas de diferentes campos disciplinares. E relativamente à escolha pelo campo disciplinar, a Análise do discurso francesa, importa mencionar que isso não se explicaria pela nossa pertença a ele, mas sobretudo pelo seu amplo e sistemático investimento em temas e problemas que abarcam as práticas de desinformação na sociedade contemporânea; aqui, no entanto, foge ao nosso propósito retomá-los.

Para observarmos o funcionamento da escrita do texto gerado por essa tecnologia de escrita, recortamos sequências que foram criadas pelo chatbot, mediante a solicitação então feita por nós, descritas conforme resumido pela Figura 1. Importa dizer que não havia nenhuma interação ainda estabelecida entre nós e as versões utilizadas do Chatgpt, não tendo, portanto, um histórico de perfil do usuário que interferisse no resultado gerado pelo prompt. O critério de organização da tabela em três colunas leva em conta o comando/prompt, algumas sequências discursivas, em cuja formulação intentam definir o fato discursivo em tela e explicar sua importância para a análise de discurso de orientação francesa e, ainda, indicar as fontes e referências utilizadas pela ferramenta tendo em vista o fato de que a maior preocupação daqueles que vendem manuais para a escrita científica, via IAG, parece ser a ausência de plágio.

Figura 1
Descrição da interação15 realizada no chat e a composição do texto16

Seguem, assim, as sequências discursivas tomadas como objeto de análise.

Sobre o prompt em foco, da perspectiva discursiva aqui assumida, pode-se compreendê-lo como um dos fatores que compõe as condições de produção do texto gerado por essa IAG. Isso na medida em que o conteúdo é criado (para usarmos a terminologia dessa tecnologia) sob a injunção de um comando/uma instrução que informa o modelo de linguagem da IAG para executar uma tarefa, o qual segue uma dada solicitação para determinar a estrutura e o conteúdo do texto a ser gerado.

Tomá-lo, dessa perspectiva, como nos assevera Pêcheux (1997), requer que se transponha a situação imediata da formulação desse prompt como apenas uma formulação linguística. Buscamos, assim, entendê-lo numa relação com outros dizeres e ditos em outros lugares que atravessam constituindo a discursividade da prática da escrita científica e, igualmente, com os lugares ocupados por indivíduos a cada tomada de posição/palavra nessa prática discursiva. Como observamos em nosso trabalho de leitura, os guias da IAG, mobilizando o que se chama de biblioteca de prompts, fornecem uma coleção de comandos predefinidos, servindo como modelos para agilizar a criação de prompts de IAG e apoiar os pesquisadores em suas tarefas científicas.

A partir de tal coleção, o sujeito, ancorando-se em modelos esquemáticos, pode adaptar/reformular tais prompts para atender a necessidades específicas da escrita de seu texto12, as quais, no entanto, se projetam numa correspondência a padrões e requisitos organizacionais do que se concebe por escrita científica e por uma direção metodológica assentada em uma visão positivista do fazer científico (Rodrigues; Silva, 2019). Pois bem, considerada essa possiblidade, propusemo-nos, para exercitar a “escrita” de um texto pelo ChatGPT, valermo-nos de uma sugestão de um dado prompt, formatado em uma seção de um e-book13, circunscrita a comandos que recobrem questões acerca da produção de fundamentos teóricos, do campo disciplinar, entre outras relativas ao fazer científico. Retomando, o prompt mobilizado assim se apresenta na sua formulação: Defina [conceito/teoria] e explique sua importância para a área de [campo de estudo] e, aí, acrescentamos, indicando citações e referências.

Ao trazer para o corpo dessa solicitação a indicação de citações e referências, nós o fizemos sustentando-nos no pressuposto segundo o qual o texto científico é um lugar já habitado por outros ditos, por já ditos, no qual as referências ao discurso de autoridade científica são exigidas. Em outras palavras, é da ordem do discurso da ciência a citação de outros textos, a interlocução com seus autores, assim, “a explicitação da intertextualidade que sustenta suas formulações e o reconhecimento das diferentes funções-autor, que intervêm ao longo do texto, reconhecimento garantido pelas citações” (Orlandi, 2008, n.p). Citar, como já discutido, exige uma tomada de posição do sujeito em relação àqueles que cita e, nessa extensão, ao campo disciplinar em que esse sujeito se inscreve e, fundamentalmente, à formação discursiva científica que regula as formas e os modos de seu dizer, que, por sua vez, inscrevem o sujeito em uma posição discursiva.

Focalizemos, ainda, as formas verbais defina o conceito de “x” e explique a importância de “x”, sob uma dada perspectiva teórico-conceitual de um dado campo disciplinar, presentes na estrutura desse prompt. Pode-se compreendê-las discursivamente como modos de dizer que, na ordem do discurso científico, fazem trabalhar sentidos e posições discursivas que supõem, da parte do sujeito dessa e nessa escrita, a apropriação de saberes teórico-conceituais e metodológicos do campo disciplinar em questão. Desse modo, definir algo e explicá-lo são operações discursivas que, na prática da escrita científica, se implicam, na medida em que a atividade de explicar pressupõe a de definir, a de fazer saber, fazer conhecer, mobilizando, para isso, na formulação do texto, modos de dizer por meio dos quais busca-se explanar, comentar, fundamentar e demarcar, por exemplo, o objeto em estudo. E o efeito de sentido dessas operações discursivas concorre para demonstrar o rigor teórico-metodológico e a confiabilidade da pesquisa.

Assim, com o trabalho de apropriação, que envolve um gesto de interpretação, como nos lembram Pêcheux (1997) e Orlandi (2004), o sujeito, na sua escrita, participa da construção coletiva dos saberes que constituem a memória discursiva (teórica) do campo disciplinar. Desse modo, ao ser retomada, essa memória discursiva é reconstituída e reformulada na escrita, manifestando-se na textualização do trabalho, pela escrita, e materializando a filiação à área pelo sujeito pesquisador que nela faz a sua inscrição.

Avançando nessa análise, selecionamos a sequência a análise de discurso de orientação francesa, que abrange influências de pensadores como Michel Foucault, Jacques Derrida e Pierre Bourdieu, explora como o discurso constrói e reflete as relações de poder na sociedade. Para a análise de fake news, esses teóricos oferecem ferramentas essenciais [...] em que há uma predominância de uma formulação que se faz evidente, de forma consensual, como se, para área em questão, os teóricos citados fossem lidos da mesma forma pelos pares, sem o trabalho do debate científico. Desse modo, a posição-sujeito é projetada nessa escrita a partir de formulações que se apresentam como verdades inquestionáveis. As referências a esses teóricos nos indiciam como, nas tecnologias de escrita, as informações e/ou os conteúdos gerados pela IA, sob a lógica algorítmica, mostram-se desvinculadas de qualquer memória histórica ou cultural, no caso, da memória teórica do campo da AD francesa, como discutido acima. Aqui, a compreensão mítica atinge sua plenitude ao se expressar em uma linguagem universal lógico-matemática, que, por sua natureza, carece de memória (Pêcheux, 1997). Dito de outra forma, a memória metálica, sob a ordem do produzir pela quantidade, de fazer circular o mesmo, perde a historicidade do sentido, pois ao trazer autores que não pertencem ao campo da AD, coloca-os em um mesmo quadro epistemológico, deixando-nos ver que a função-autor por ela ocupada não se filia à formação discursiva epistemológica em questão, que dita o que pode e deve ser dito, mas, também, quem pode e deve ser citado.

Na sequência Para Michel Foucault, a verdade não é uma essência universal, mas sim uma construção social que se articula através de discursos e práticas institucionais. Em seu trabalho sobre a "história da verdade", Foucault argumenta que o que é considerado verdadeiro em uma sociedade é produto de uma luta constante por poder e controle sobre o discurso. Se se leva em consideração que o prompt solicitava uma explicação sobre a importância do estudo das fake news para a análise do discurso de orientação francesa, observa-se que tal explicação não se mostra na formulação, pois não está linguisticamente marcada a relação entre a noção de verdade postulada por Foucault e as fake news. Como nos diz Orlandi (2004, p. 14), a reformulação não é, simplesmente, “a explicitação do que lá já estava”. Ou, ainda, como descreve Courtine (2014, p. 201; grifo do autor),

cada formulação, cuja repetibilidade se sustenta em um enunciado, deve ser considerada em uma possível reformulação, ou seja, é apenas um “ponto de apoio” de um acesso ao interdiscurso, não se configurando, assim, como transparente, passível de estar a serviço de qualquer texto,

o que nos faz lembrar as “frases sem texto”, cujo processo Maingueneau (2014, p. 14) nomeia destacabilidade, isto é, “enunciados que se dão como autônomos, de um ponto de vista textual (não há nenhuma necessidade de considerar o que precede e o que segue para compreendê-los) e do ponto de vista enunciativo (são generalizações)”.

A mesma leitura pode ser proposta pela referência a Derrida: A linguagem é um jogo de forças e sentidos que nunca se estabilizam completamente (Derrida, 1967, p. 77). [...] Essa ideia é relevante para entender como as fake news podem ser compreendidas. Para o campo da AD, tal conceito de linguagem pode ser consensual, mas para aquele que se propõe a entrar na ordem do discurso científico, especificamente, na FD que concebe o funcionamento da linguagem do ponto de visita discursivo, é preciso argumentar sobre esse princípio da área, explicar seu funcionamento a partir da leitura do objeto de estudo em questão. Mas a memória da máquina não oferece essa explicação, porque mobiliza sentidos que não são acessíveis a ela, porque eles não os têm, dado que o algoritmo tem uma concepção errônea de linguagem e conhecimento. Nosso leitor pode argumentar: mas esses parágrafos podem ser usados apenas como um início de um raciocínio sobre a relação entre fake news e a AD francesa. Se assim for, essa afirmação nos mostra como o trabalho do efeito-leitor da função-autor é necessário, ideia não propalada pelos vendedores de manuais de uso da IAG para a escrita científica.

Para finalizar, no texto gerado pelo ChatGPT, vê-se que os enunciados se mostram adequadamente redigidos do ponto de vista da sintaxe e das normas científicas (APA) no que se refere ao uso das fontes consultadas que, por sua vez, se textualizam via citação indireta e direta. Mas, como nos lembra Orlandi (2004, p. 15), o texto não pode se desenvolver em qualquer direção e isso só pode ser compreendido “se não pensarmos o texto em sua organização, mas o texto em sua ordem significante”. Para ser texto “não basta estar escrito e estar maios ou menos adequado às regras da língua. Precisa ter marcas próprias de quem o escreveu” (Barzotto, 2016, p. 144). A questão que se coloca é: os pesquisadores iniciantes sabem disso? Conversa para outra hora, dadas as limitações contingenciais deste texto.

Algumas conclusões

À luz dos princípios que orientam o conceito de função-autor, argumentamos que a relação entre sujeito, discurso e poder estabelecida por Foucault constitui uma possível lente de leitura dessa categoria nas práticas de produção de textos de natureza científica por sistemas autônomos. Em A Arqueologia do saber, como já dito, Foucault defende que o autor “não é um núcleo constante, imóvel e idêntico a si mesmo”, mas “um lugar determinado e vazio” (Foucault, 2014, p. 109). É, justamente, a partir desse conceito de função que gostaríamos de propor uma interpretação possível da leitura ilustrativa aqui empreendida.

Retomemos as perguntas foucaultianas sobre a função-autor: “Como, segundo em que condições e sob que formas, algo como o sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar pode o sujeito ocupar em cada tipo de discurso?” (Foucault, 1992, pp. 69-70).

A resposta provisória que podemos oferecer é a de que compreendemos que há uma função inversa f-1(x), em desacordo com aquela prevista por Foucault - f(x) - de funcionamento da autoria nas práticas de escrita via IAG. Isso porque a construção da autoria prevê a formulação no interior do formulável. Quer dizer, o autor produz um lugar de interpretação que se dá pela memória discursiva e pela posição-sujeito que assume no interior de uma dada FD, que regula o que pode e deve ser dito. Seu trabalho de leitura e de produção de textos não se reduz à imitação (repetição formal) e à cópia. Se assim o fosse, impediria as possibilidades de construção da subjetividade. Ao contrário desse postulado, a função inversa - f-1(x) - da construção da autoria por meio de tecnologias de escrita se dá por um gesto de interpretação fora da história, que se constitui, portanto, como fórmula (e não como formulação), como rearranjo e não ressignificação (Orlandi, 2004), mas “isso não quer dizer que não haja produção de autoria” (Orlandi, 2004, p. 17). Ela ocorre, mas é de outra natureza, justamente porque a memória é outra - a metálica. Como se sabe, do ponto de vista discursivo, diferentes materialidades determinam diferentes processos de significação (Orlandi, 2004). A memória metálica lineariza14 o interdiscurso, reduzindo o saber discursivo a um pacote de informações. O funcionamento da mente humana, ao contrário, difere fundamentalmente do ChatGPT e de modelos similares, que operam como máquinas estatísticas robustas, analisando enormes volumes de dados para identificar padrões e determinar as respostas mais prováveis para questões científicas, entre outras. Em contrapartida, a mente humana é um sistema incrivelmente eficiente e sofisticado, capaz de trabalhar com quantidades limitadas de informação, não se reduzindo a identificar meras correlações entre dados, mas em formular explicações significativas, o que não identificamos nas sequências em análise.

Conforme argumentou Foucault, há diferentes formas históricas da função-autor, porque a relação do autor com a escrita nunca é a mesma na história das sociedades. Nesta, parece-nos, essa relação se constrói por uma tecnologia da escrita cuja posição-sujeito leitor engendra um sentido que é construído por outro - os algoritmos - e não pela posição-sujeito pesquisador, que interroga, que lê, que pesquisa ...

Juntamente com Alves (2015, p. 81) entendemos que

o autor, tomado como um construto moderno, está sofrendo uma profunda transformação. Estamos diante de uma radical reformulação da “ordem dos discursos”, no seio da qual vemos emergir novas tecnologias de poder e posições-sujeito, que parecem apontar para o “anonimato do murmúrio” ou para formas inéditas de unificação e apropriação dos discursos, agora tomados como informações em uma grande rede compartilhada e mutante.

O mais “perigoso”, rememorando e enunciado de Foucault e retomando a pergunta do título deste texto, é que o discurso neoliberal tem desejado produzir uma posição-sujeito vazia, no sentido de um sujeito da ciência que só repete - seja ele titulado ou iniciante.

  • 1
    A pergunta que envolve o título deste artigo é uma citação retirado de Foucault, em A ordem do discurso. Nessa obra, refletindo sobre os procedimentos internos ao controle do discurso, àquilo que o poderia levar ao acaso, a um perigo, o filósofo discute o modo como “a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (Foucault, 2004, pp. 8-9). De maneira irônica, pergunta: onde afinal está o perigo? (Foucault, 2004, p. 8).
  • 1
    Segundo Lana (2023), não há um consenso sobre a definição de Inteligência Artificial. A primeira referência à IAG se dá na Conferência de Dartmouth em 1956 - um campo de estudo e um conjunto de tecnologias que empregam softwares e dispositivos físicos para reproduzir capacidades avançadas típicas da inteligência humana (McCarthy et al. apudLana, 2023).
  • 2
    No âmbito dos estudos da linguagem, vêm sendo empreendidas diferentes pesquisas que tomam como objeto de atenção o funcionamento discursivo da IAG e seus efeitos na relação entre sujeito e sentido. Citamos aqui Gallo (2023), que discute o estatuto do autor face às novas condições de produção na materialidade digital, e Fernandes (2024), que problematiza o conceito de autoria a partir de análise de textos produzidos por inteligência artificial IAG em comparação com textos produzidos por alunos em produções escolares.
  • 3
    Segundo o ranking da pesquisa realizada pela Semrush, empresa especializada em marketing digital, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais consomem IA - https://shre.ink/b1wj -, perdendo apenas para a Indonésia, Índia e Estados Unidos.
  • 4
    Críticos diriam que há retrocesso em capacidades de leitura e de produção escrita (brain rot); por outro lado, é inegável que há, também, avanço na familiarização com tecnologias digitais (conhecimento das ferramentas, processamento de textos e de imagens, remixagem, etc.), pelo menos, dentre a parcela da população que a elas tem acesso. E, nesse contexto, há um número cada vez mais crescente de venda de manuais com sugestões de prompts para escrita de pesquisa - artigos, teses, dissertação, projeto, TCC -, oferecidos por pessoas que se dizem especialistas no assunto, dada sua formação em doutorado, independente da área de saber (cf. LIN, Michael Pin-Chuan; CHANG, Daniel, 2020).
  • 5
  • 6
    Também denominada técnica/artificial Stiegler (2018), ou, ainda, uma memória morta (Robin, 2016).
  • 7
    Furlanetto (2003), ao discutir sobre a subjetividade, do ponto de vista da AD, refere-se ao conceito de sujeito epistêmico para discutir o Eu do cientista na escrita de pesquisa. A partir dela, então, usamos o conceito de posição-autor epistêmico por entender que o Eu cientista é interpelado pela forma sujeito da ciência.
  • 8
    No manual de Scalco, a partir do qual geramos o prompt para a leitura ilustrativa deste texto, encontram-se os seguintes exemplos de prompts para a escrita de pesquisa: “liste os autores e/ou pesquisadores mais influentes na área de [tema]; examine padrões de citação dos [número] artigos mais citados sobre [tema]; compile uma bibliografia de artigos importantes sobre os efeitos da poluição do ar na asma infantil” (Scalco, s.n. pp. 23-29).
  • 9
    Os sujeitos a que nos referimos são, em sua maioria, doutores formados em diversas áreas de conhecimento.
  • 10
    No material que analisaremos em seguida, encontra-se, como principal argumento para a geração de textos via IA, a citação e a referência da citação como características da autoria.
  • 11
    A versão utilizada foi a gratuita - https://chatgpt.com/?model=auto - a partir da hipótese de que ela seria a mais consumida por pesquisadores em formação. Solicitamos, também, para a versão AI-PRO paga, a mesma tarefa, a partir do mesmo prompt. Obtivemos versões diferentes do ponto de vista da formulação textual, mas do ponto de vista discursivo, as respostas dadas não diferem.
  • 15
    A terminologia usada no campo é HMI - sistema que conecta pessoas a máquinas e seus dados - interação homem x máquina.
  • 16
    No Anexo, encontram-se, na íntegra, as sequências discursivas que compõem a área da memória metálica ativada pela IAG para a composição do texto. É importante frisar que as citações explicitadas na Figura 1 foram geradas pelo ChatGPT a partir do prompt fornecido pelas autoras e compõem o conjunto de sequências discursivas tomadas como objeto de análise por este trabalho.
  • 12
    Os pedidos personalizados permitem que os criadores orientem o modelo de linguagem avançada (GPT) para agir de uma forma específica ou realizar uma tarefa determinada (cf. https://learn.microsoft.com/pt-br/ai-builder/create-a-custom-prompt). Vários vídeos de autores dos manuais de prompts salientam essa possibilidade do Chatbot.
  • 13
    O prompt foi criado a partir da orientação de Scalco (s.n.).
  • 14
    Do ponto de vista matemático, não é correto afirmar que a IAG, em especial os modelos de grande porte (LLMs) seja “linear”. Na realidade, seu funcionamento depende altamente de mecanismos não lineares, com elementos estocásticos que tornam seu comportamento não determinístico.
  • 15
    Esta citação foi gerada pelo ChatGPT, não configurando, pois, como uma citação das autoras como já sinalizado na nota 14. Como a citação não é das autoras, a sua referência não poderia ser incorporada ao artigo.
  • Pareceres
    Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.

Texto gerado pelo ChatGPT.

Prompt 1: defina o conceito de fake news explique sua importância para a análise de discurso de orientação francesa, indicando as citações e as referências.

O conceito de fake news refere-se a informações fabricadas, distorcidas ou deliberadamente falsas, disseminadas com o objetivo de manipular a opinião pública, gerar confusão ou alcançar algum tipo de vantagem política, econômica ou social. Essas informações são frequentemente veiculadas por meio de redes sociais, sites de notícias e outras plataformas digitais, onde se propagam rapidamente, muitas vezes sem verificação ou checagem dos fatos. O termo "fake news" ganhou popularidade especialmente no contexto de eventos políticos recentes, como as eleições nos Estados Unidos em 2016 e o processo de desinformação em torno da pandemia de COVID-19.

  • • A Importância das Fake news para a Análise de Discurso de Orientação Francesa

A análise de discurso de orientação francesa, que abrange influências de pensadores como Michel Foucault, Jacques Derrida e Pierre Bourdieu, explora como o discurso constrói e reflete as relações de poder na sociedade. Para a análise de fake news, esses teóricos oferecem ferramentas essenciais para entender como a manipulação de informações pode afetar a construção social da verdade, a formação de subjetividades e o controle das narrativas dominantes.

1. Michel Foucault e a Produção de Verdade

Para Michel Foucault, a verdade não é uma essência universal, mas sim uma construção social que se articula através de discursos e práticas institucionais. Em seu trabalho sobre a "história da verdade", Foucault argumenta que o que é considerado verdadeiro em uma sociedade é produto de uma luta constante por poder e controle sobre o discurso. Em "A Arqueologia do Saber", ele explica:

"O discurso não é apenas uma forma de comunicação, mas uma prática que produz realidade e estabelece limites sobre o que pode ser dito e acreditado" (Foucault, 1969, p. 10).15

Neste contexto, a fake news pode ser entendida como uma forma de manipulação discursiva que visa reconfigurar a verdade, criando versões distorcidas ou alternativas dos fatos que favorecem interesses específicos. A disseminação de fake news é uma prática que disputa o controle sobre as narrativas sociais e, consequentemente, sobre as realidades que as pessoas aceitam como verdadeiras.

2. Jacques Derrida e a Desconstrução dos Sentidos

Jacques Derrida, com sua abordagem deconstrutivista, oferece outra lente crítica para a análise de fake news. Derrida, em obras como "A Escritura e a Diferença", argumenta que o significado de um texto ou discurso nunca é fixo, mas está sujeito a interpretações múltiplas, desconstruções e reinterpretações. Ele afirma:

“A linguagem é um jogo de forças e sentidos que nunca se estabilizam completamente” (Derrida, 1967, p. 77).

Essa ideia é relevante para entender como as fake news podem ser compreendidas: elas não apenas transmitem informações erradas, mas alteram o próprio campo de significação, criando ambiguidade e incerteza. O discurso das fake news constantemente se depara com a desconstrução do que é verdadeiro, oferecendo um "texto" manipulável e instável.

3. Pierre Bourdieu e o Poder do Campo Midiático

Pierre Bourdieu oferece uma visão interessante sobre como as fake news podem ser analisadas a partir da sua perspectiva de poder simbólico. Em "A Distinção", ele afirma que o campo midiático é um espaço onde as lutas pelo poder simbólico ocorrem, e os meios de comunicação desempenham um papel fundamental na legitimação de certos discursos e na marginalização de outros. Bourdieu escreve:

"A mídia tem um poder imenso de configuração do real, pois ela é capaz de criar um campo de significações que molda o que é possível pensar e dizer na sociedade" (Bourdieu, 1997, p. 120).

Dentro dessa perspectiva, as fake news funcionam como uma ferramenta de manipulação desse campo simbólico, ao disseminar narrativas distorcidas que reforçam determinadas ideologias, alterando o entendimento coletivo de eventos, fatos e problemas sociais.

  • • Conclusão

A análise de fake news dentro da tradição francesa da análise de discurso revela como esses fenômenos de desinformação não são apenas questões de "mentiras" isoladas, mas práticas discursivas profundamente enraizadas nas relações de poder e nas estratégias de controle simbólico da sociedade. Autores como Foucault, Derrida e Bourdieu nos ajudam a entender que as fake news são um campo de disputa pela verdade, pela legitimidade e pelo controle da formação de opiniões.

Referências:

Foucault, M. (1969). A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Derrida, J. (1967). A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva.

Bourdieu, P. (1997). A Distinção: Crítica Social do Julgamento. São Paulo: Edusp.

Declaração de disponibilidade de conteúdo

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

REFERÊNCIAS

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  • STIEGLER, B. La Technique et le Temps - 1. La Faute d’Épiméthée. Paris: Fayard, 2018.
  • Editores responsáveis
    Luciana Salazar Salgado (Universidade Federal de São Carlos - UFSCar)
    Lucia Santaella (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP)
    Tony Berber Sardinha (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP)

Parecer I

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Parecer I

O artigo apresenta uma discussão atual e de relevância para os estudos da Análise do Discurso, sobre a qual apresenta bibliografia pertinente e abordagem teórica adequada, embora pudesse trazer referências atuais que já abordam esse tema anteriormente como Gallo (2023), Fernandes (2024), entre outros. Para sua publicação, faz-se necessário três alterações: 1. O título afirma que há autoria na IA, sendo que isso é questionado durante o texto até chegar a uma conclusão, talvez a questão aqui seja a autoria e não o “perigo”, termo pouco usual no discurso científico e que não remete a um complemento: medo de quê? 2. Ao invés do termo “autoria epistêmica”, sugiro trocar por “posição de autor epistêmica”, tendo em vista a melhor adequação às definições trazidas pelo autor. 3. A expressão “proletarização do consumidor” demanda maior desenvolvimento, de onde vem o termo? Por que tornar-se proletário estaria diretamente relacionado a um “receptor passivo”? Em Fernandes (2024), https://revista.abralin.org/index.php/abralin/article/view/2183, fala-se em “posição-escrevente” que remete a essa apatia ou não-posicionamento do sujeito; sugiro conhecer essa discussão anterior antes de propor novos termos. APROVADO COM SUGESTÕES [Revisado]

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    04 Maio 2025

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Mar 2025
  • Aceito
    07 Ago 2026
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