Open-access Entre rios e lagoas: novos dados para o contexto Guarani do litoral sul catarinense a partir do sítio arqueológico Lagoa da Velhinha

Between rivers and lagoons: new data for the Guarani context of Santa Catarina southern coast from the Lagoa da Velhinha archaeological site

Resumo

Este artigo apresenta novos dados para a arqueologia Guarani do litoral sul do Brasil a partir do estudo do sítio Lagoa da Velhinha, um contexto inédito junto à Lagoa dos Esteves, município de Balneário Rincão, Santa Catarina. Lagoa da Velhinha foi uma aldeia pequena, mas estável e duradoura, estabelecida no século XIV e abandonada, provavelmente, no século XVI. Apresenta-se a análise do registro arqueológico, mais duas novas datas radiocarbônicas, discutindo-se sua relação com outros sítios Guarani do litoral. Os novos dados i) reforçam os modelos interpretativos sobre a ocupação Guarani massiva próxima do período colonial no litoral sul-brasileiro, que pode ser marcada em meados do século XIV, intensificando-se ao longo do século XV; ii) mostram que a plena ocupação Guarani se distancia, em alguns séculos, do fim da longeva ocupação dos sambaquieiros da costa; iii) indicam processos de abandono rápido das aldeias no século XVI em razão do avanço das ações do colonialismo português, como foi registrado em outros contextos litorâneos brasileiros.

Palavras-chave
Arqueologia Guarani; Lagoa da Velhinha; Etnohistória

Abstract

This article presents new data for the Guarani archaeology of the southern coast of Brazil. It is based on the study of the Lagoa da Velhinha site, a recently found context near Lagoa dos Esteves, Santa Catarina. Lagoa da Velhinha was a small but stable and long-lived village, established in the 14th century and probably abandoned in the 16th century. The paper brings the analysis of the archaeological record, with two new radiocarbon dates included, and the relationship with other Guarani sites on the coast is discussed. The new data i) reinforce the interpretative models on the massive Guarani occupation close to the colonial period on the southern Brazilian coast, which can be traced back to the mid-14th century, intensifying throughout the 15th century; ii) show that the full Guarani occupation was several centuries apart from the end of the long-lasting occupation of the sambaquis (shellmound builders) of the coast; iii) indicate processes of rapid abandonment of villages in the 16th century due to the advance of Portuguese colonialism, as recorded in other southern Brazilian coastal contexts.

Keywords
Guarani Archaeology; Lagoa da Velhinha; Ethnohistory

INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta resultados da pesquisa no sítio arqueológico Lagoa da Velhinha, situado junto à Lagoa dos Esteves, no município de Balneário Rincão, Santa Catarina (Campos & Perin, 2020, 2023) (Figura 1)1. O sítio resulta da ocupação pré-colonial Guarani no território sul-catarinense, antes longamente ocupado por grupos Jê do Sul (Schmitz et al., 1999; Noelli, 2000; Merencio & DeBlasis, 2021) e sambaquieiros (Gaspar, 2000; DeBlasis et al., 2021). Os Guarani são falantes de uma das 42 línguas da família linguística Tupi-Guarani, de origem amazônica, que ocuparam boa parte da região Sul do Brasil, em contínua expansão demográfica e busca por novos territórios, um processo iniciado há, pelo menos, 2.500 anos (Loponte et al., 2025; Brochado, 1984, 2024; Bonomo et al., 2015). Neste sítio, a distribuição espacial da materialidade, composta por uma significativa variabilidade cerâmica e lítica, permite caracterizar o sítio como uma ta (Montoya, 2011, p. 519), traduzida em espanhol como ‘pueblo’ e em português como ‘aldeia’, integrada em um guara (Montoya, 2011, p. 128), traduzido como ‘pátria’, parcialidade, ‘país’, formado por uma rede de tas, semelhante ao conjunto de sítios representados na Figura 1, que talvez representem uma fração das comunidades do guara daquela área. Reconhecendo o sistema de alianças e parentesco em um guara (e entre guaras), é possível compreender a lógica política e ecológica Guarani para formar constelações de comunidades em relação, permitindo inferir suas características organizacionais situadas histórica e socialmente. Conforme indica Montoya (2011, p. 550), o território de cada ta pode ser grafado como tekohá ou tekoá (tekuáva, traduzido com o sentido de ‘morada’).

Figura 1
Sítios Guarani e depósitos sedimentares junto às lagoas do extremo sul catarinense. Coordenadas em UTM, fuso 22S, datum SIRGAS2000.

Assim, os dados apresentados permitem analisar aspectos contextuais e materiais data do sítio Lagoa da Velhinha. Permitem, também, retomar os modelos interpretativos da presença do guara nessa parte do litoral, onde a quantidade de sítios arqueológicos e fontes históricas sugere uma demografia elevada ao longo da costa sul-catarinense nos séculos XV e XVI. Por fim, o contexto arqueológico da ocupação final do sítio Lagoa da Velhinha sugere um processo de abandono rápido no século XVI.

ARQUEOLOGIA GUARANI NO EXTREMO SUL CATARINENSE

O extremo sul catarinense foi pesquisado a partir dos anos 1960 (Rohr, 1982; Schmitz, 1996, 1998; Schmitz et al., 1999; Lino & Campos, 2003; Farias, 2005). Até 2011, a maior parte dos dados arqueológicos da região resultou do trabalho de licenciamento ambiental (por exemplo, Fossari, 1991; Lavina, 1997-1998, 2000, 2003, 2005; Caldarelli, 2003; Campos, 2008, 2009, 2010a, 2011). São raras, mas importantes, as pesquisas acadêmicas nesta região litorânea, como os estudos no sítio Içara 1 (Schmitz et al., 1999). A partir de 2012, foi implementado o primeiro projeto de pesquisa regional de longa duração, contribuindo para o estudo sistemático da ocupação pré-colonial na região (Campos et al., 2012, 2013; Campos, 2010b, 2014, 2015; M. Santos et al., 2015, 2016, 2018; Viana et al., 2017; J. Santos et al., 2017)2.

Dezoito sítios arqueológicos foram localizados e investigados na área entre a foz do rio Araranguá e lagoas conexas. Três concheiros e cinco sítios Guarani foram pesquisados em maior detalhe, produzindo 16 datações entre 3.697 e 230 anos AP3 (M. Santos et al., 2016). Tais datas, juntamente com outras da região contígua ao norte, configuram quatro horizontes de ocupação diferenciados. O primeiro se refere aos sítios da Tradição Umbu, situados na porção serrana da encosta, desde o Holoceno antigo até o período colonial, demonstrando longevidade e continuidade indígena na região (Farias et al., 2016).

O segundo se situa, no extremo sul catarinense, entre aproximadamente 3.697 e 1.275 anos AP, com sambaquis na faixa costeira entre 8.000 e perto de 1.000 anos atrás, ocupação muito documentada nas lagoas da região de Laguna, ao norte do sítio Lagoa da Velhinha (Giannini et al., 2010; Kneip et al., 2018; DeBlasis et al., 2021). Na área da pesquisa, dois sambaquis foram datados e apontam o horizonte de maior profundidade temporal para a região, conforme datas do sambaqui do Geraldo (3.697-3.377 AP). O terceiro horizonte, entre 1.532-1.184 AP, abrange os ‘sambaquis tardios’ (DeBlasis et al., 2021) que, de alguma forma, se relacionam aos grupos Jê do Sul (Schmitz et al., 1999; Merencio & DeBlasis, 2021). O quarto horizonte tem sítios datados entre 910-230 anos AP, e marca a presença Guarani (M. Santos et al., 2016; J. Santos et al., 2017; Milheira, 2010; Milheira & DeBlasis, 2013; Noelli et al., 2014; Campos, 2015; Kneip et al., 2018; Farias et al., 2016; Novasco et al., 2021; Kozlowski et al., 2022; Noelli et al., 2022).

No extremo sul catarinense, a maioria dos sítios Guarani está sobre os terraços pleistocênicos mais elevados (Mateus, 2017). Essas áreas, no costado interior das lagoas do Faxinal, Esteves e Mãe Luzia, em geral, exibem cobertura vegetal do bioma Mata Atlântica, com formação de Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas (Milheira, 2010; Campos et al., 2013; Campos, 2015). Até o presente, foram registrados 21 sítios arqueológicos Guarani no município de Balneário Rincão.

Os registros históricos da ocupação Guarani no litoral sul catarinense referem uma demografia Guarani elevada na primeira metade do século XVI, onde chegaram a ocupar as áreas mais rebaixadas e abertas dos vales interioranos (DeBlasis et al., 2025). Esse fato levou os portugueses e tupiniquins da capitania de São Vicente a atacar sistematicamente as suas tas para escravizar pessoas, começando no litoral norte catarinense na década de 1520, alcançando o litoral central na década seguinte e o litoral sul na década de 1550. Os primeiros relatos sobre europeus no litoral catarinense, nas tas do litoral central, datam de 1515-1516, 1526, 1527 e 1530 (Mello, 2005; Armenta, 1870). A referência de acesso ao litoral sul era a área de Laguna, então conhecida como Viaça ou Biaça (grafada de diferentes formas), situada a aproximadamente 50 km ao norte do sítio Lagoa da Velhinha. Esse nome topográfico se traduz como ‘barra ou boca de rio’ na língua Guarani:

y mbyasa, termo registrado em 1639 no dicionário de Montoya (2011, p. 632). A primeira descrição da população da área de y mbyasa é de 1º de maio de 1538, onde se pode incluir o litoral até o rio Araranguá:

. . . que S. M. envíe un factor suyo que traiga labradores, que no son menester conquistadores, porque es gente recia, y si los lastimasen, luego eran alzados. Y es una gente tan animosa que no dejarían hombre a vida, porque son grandes flecheros, y traen unas pelotas que con un hombre armado darán en tierra, porque es gente de grandes fuerzas4

(Armenta, 1870, p. 554).

As tas tinham casas-longas de diversos tamanhos, conforme o registro arqueológico e as fontes históricas, sendo importante compreender que o seu comprimento era proporcional à quantidade de residentes (Noelli, 2022). No litoral catarinense, há pouca informação histórica, mas são descritas as maiores casas avistadas na área atual de Florianópolis em 1541, quando a expedição de Cabeza de Vaca passou o inverno onde hoje fica o bairro do Estreito, no continente, “a um tiro de pólvora” da ilha de Santa Catarina. Vaca relatou para Oviedo y Valdés (1852 [1557], p. 203) que havia na ilha cinco tas, algumas com “moradas o casas luengas de a sesenta, y ochenta y a cien passos” (60 passos = cerca de 49,2 m; 80 passos = cerca de 65,5 m; 100 passos = cerca de 82 m). O sítio Lagoa da Velhinha, discutido neste estudo, registra plantas baixas bem menores, ‘pequenas’ (ver adiante), aqui consideradas evidências de sítios ‘novos’ instalados naquela área. É uma situação condizente com as descrições históricas da diminuição do tamanho da população Guarani até o início do século XVII, após 60 anos de conflitos com os tupiniquins e portugueses no contexto dos ataques para escravizar pessoas da região – além das fugas para o interior e do grave efeito de epidemias.

O período colonial trouxe impactos significativos para o tamanho da demografia Guarani do litoral catarinense, entre a atual ilha de São Francisco do Sul e o rio Mampituba. Por exemplo, em 1530, a ilha de São Francisco do Sul era “bien poblada de indígenas” (Santa Cruz, 1918 [1542], p. 548); já em 1552, essa área era considerada um “despoblado de indígenas” – despovoada não significa vazia, mas com menor quantidade de gente (Vizcaya, 1946 [1552], p. 310), devido aos contínuos ataques escravagistas iniciados na década de 1520 (Noelli, 2025, pp. 86-92). Em 1527, há um raro exemplo do tamanho de uma população local: a cerca de quatro léguas (24 km) da atual praia de Garopaba, provavelmente nas imediações do y mbyasa, uma embarcação espanhola que naufragou foi resgatada por “quatro mil” homens Guarani (Mello, 2005, p. 117).

O fato é que a demografia histórica e a própria história da população Guarani no litoral catarinense durante o período colonial nunca foram sistematicamente pesquisadas até o presente, sendo um tema inteiramente aberto à pesquisa. Contudo, o conjunto de evidências arqueológicas sugere uma área com muitos sítios e densidade demográfica crescente a partir do século XV.

O SÍTIO LAGOA DA VELHINHA

O sítio Lagoa da Velhinha (LV-I) está situado na localidade de Lagoa dos Esteves, no município de Balneário Rincão, a aproximadamente 175 m da lagoa e 2.500 m da linha de praia, com elevação local de seis metros acima do nível do mar, coordenadas UTM E665045 N6805733. Ocupa aproximadamente 330 m2 na área mais elevada de terraços aplainados que se destacam na margem sudeste da lagoa, integrada às outras lagoas através de canais naturais em meio a trechos paludosos. Trata-se de um ecótono predominantemente coberto por estrato florestal, com vegetação arbustiva e campestre nas áreas com banhados (Figura 1).

A observação minuciosa da superfície permitiu identificar duas pequenas áreas com solo escuro muito próximas, interpretadas como fundos de habitação (ver discussão à frente). Após remover a vegetação rasteira, foi possível evidenciar as duas manchas enegrecidas (M1 e M2), com 8,8 m e 8,3 m de comprimento e 5,7 m e 4,9 m de largura, respectivamente, onde os vestígios arqueológicos se concentram. Em seguida, abriu-se uma longa trincheira, revelando o pacote arqueológico raso. Na mancha 1, foi aberta outra pequena trincheira transversal, ampliada para 6 m2 na área central. Na mancha 2, foram escavados 4 m2. As escavações foram realizadas em níveis artificiais de 10 cm, e o sedimento foi peneirado com malha de 4 mm. Toda a área de entorno imediato do sítio arqueológico foi documentada por levantamento topográfico georreferenciado, complementado com voo por drone (Figura 2).

Figura 2
A) Trecho onde se encontra o sítio LV-I; B) fragmento cerâmico decorado em superfície; C) vista da área escavada; D) localização das manchas escuras e plano de escavação.

Em ambas as manchas, a escavação revelou dois estratos, seguidos do sedimento arenoso estéril abaixo. No primeiro, entre a superfície e 20 cm de profundidade, foram identificadas cerâmicas bastante fragmentadas, e alguns líticos, visivelmente afetados pelo pisoteio do gado. Por todo o pacote, são frequentes também evidências de bioturbação por galerias do roedor tuco-tuco (Ctenomys sp.), presença comum em sítios instalados em ambiente costeiro, arenoso, com campos de dunas fixas. Apesar desses distúrbios, a estrutura estratigráfica permaneceu bem preservada.

No segundo estrato (B), abaixo de 20 cm de profundidade, os vestígios cerâmicos são abundantes, com fragmentos maiores e, não raro, ainda espacialmente articulados, em meio ao sedimento arenoso muito escuro definidor do horizonte de ocupação. Essa camada mais escura, rica em carvão e material orgânico, muito densa em vestígios, vai até cerca de 35 cm, quando se vai diluindo e praticamente desaparece por volta de 40-45 cm de profundidade, cedendo lugar ao substrato de cor laranja do terraço arenoso (Figuras 3 e 4). Esse horizonte de sedimento arenoso escuro consiste no piso de ocupação da aldeia, onde os fragmentos cerâmicos são numerosos e ocorrem em pequenas concentrações, associadas a carvão abundante e artefatos líticos, sobretudo alisadores-calibradores e lascas de calcedônia. Percebe-se também uma discreta diferença altimétrica5 entre as duas manchas, em função da topografia local.

Figura 3
Perfis das manchas M1 e M2 do sítio arqueológico Lagoa da Velhinha (estratos A, B e C).
Figura 4
A) Aspecto da trincheira 2; B) vista da área escavada na Mancha 1; C) fragmentos de borda evidenciados na escavação da Mancha 1 (quadra 25), entre 20 e 30 cm – escala 10 cm; D) perfil da Mancha 1 – escala 50 cm.

Deste pacote sedimentar provêm as amostras de carvão para datação radiocarbônica do sítio Lagoa da Velhinha (Tabela 1). Ambas as amostras foram calibradas com o programa Oxcal v4.4.4 (Bronk Ramsey, 2021), utilizando a curva SHCal20 indicada para o hemisfério Sul (Hogg et al., 2020).

Tabela 1
Datações radiocarbônicas produzidas para o sítio Lagoa da Velhinha. Legendas: CRA = Conventional Radiocarbon Age (idade radiocarbônica convencional); cal AP = anos calibrados antes do presente; cal AD = calibrado em Anno Domini.

A distribuição dos fragmentos cerâmicos se concentra no interior das manchas escuras, bem marcada entre 20 e 40 cm de profundidade, contando-se centenas de fragmentos cerâmicos, líticos e alguns vestígios faunísticos6 (Figura 5). A densidade por função Kernel (Silverman, 1986), elaborada no ArcMap, ilustra a distribuição dos vestígios no interior da área escavada na Mancha 1 (Figura 6).

Figura 5
Dispersão dos vestígios cerâmicos, líticos e faunísticos evidenciados na área escavada da Mancha 1 do sítio Lagoa da Velhinha.
Figura 6
Mapa de densidade Kernel para os vestígios identificados na Mancha 1 do sítio Lagoa da Velhinha.

A CERÂMICA DO SÍTIO LAGOA DA VELHINHA

Foram recuperados 1.147 fragmentos de cerâmica7 em oito níveis distintos: superficial (1,6%), 0-10 cm (3,4%), 10-20 cm (12,4%), 20-30 cm (46,6%), 30-40 cm (27,8%), 40-50 cm (8%), 50-60 cm (0,1%) e 60-70 cm (0,1%). A maior concentração está entre 20 e 40 cm de profundidade, especialmente na faixa de 20 a 30 cm, justamente no intervalo da camada escura. A análise tecnotipológica do material priorizou sete atributos técnicos e de estilo (Schneider & N. Machado, 2020, pp. 400-403): tempero, técnica de manufatura, design morfológico, cor da pasta (para medir tentativamente a atmosfera de queima), tratamento de superfície, decoração pintada e decoração plástica. Esses critérios foram elaborados a partir da literatura especializada e específica para a cerâmica Guarani (La Salvia & Brochado, 1989; Brochado et al., 1990; Milheira, 2008; Neumann, 2008; Milheira et al., 2013; Noelli et al., 2018). Além destes sete atributos, a secção do pote (fundo, parede, borda, borda/parede, fragmento, massa) foi tabulada e as peças foram medidas. O grau de conservação das peças foi avaliado (desgaste leve, médio e severo), assim como a forma da borda e o tipo de lábio. Por fim, foram observadas marcas de desgaste atípicas, evidenciadas em alguns fragmentos.

As peças com ‘desgaste leve’ permitem a melhor observação. A maioria apresentou desgaste leve (652 fragmentos, 57%) e médio (369 fragmentos, 32%), indicando um bom panorama para o estudo dos atributos. Com relação à secção do pote, paredes predominam (∼66%), seguidas de itens não identificáveis (18%), bordas (11%), bordas/paredes (3%), fundos (1,5%) e massas (bolotas de argila, 0,7%). Pelo menos um fundo e uma massa de argila atingiram grandes proporções, com respectivamente 26,5 cm e 9 cm de diâmetro.

Foram avaliadas a forma e o tipo de lábio em 169 bordas (e bordas/paredes). As bordas diretas representam 33% da coleção (n = 56); as extrovertidas, 28% (n = 47); e as introvertidas, 14% (n = 24). Em 25% (n = 42), não foi possível identificar a borda. Com relação ao tipo de lábio, 60% (n = 101) são arredondados; 15% (n = 26) são agudos; 12% (n = 20) são planos; 2% (n = 3) são arredondados com incisões e 1% (n = 2) apresenta canaleta. Em 10% (n = 17), não foi possível identificar esse elemento. Há seis temperos na pasta: grãos de areia, quartzo, chamote, óxido de ferro, fibra vegetal e carvão. Esses elementos foram encontrados isolados ou agrupados nas pastas, distribuídos em nove combinações. Três tipos são mais comuns: areia (∼37%), areia + chamote (∼34%) e areia + quartzo (∼15%)8. Como a areia está presente em todos os fragmentos, é provável que, pelo menos em parte, integre a composição natural da argila.

A técnica de manufatura predominante é a roletada (∼71%), facilmente percebida quando a quebra das vasilhas ocorre na linha dos roletes, deixando-os em evidência. Em 28%, não foi possível identificar a técnica de manufatura com segurança, e em 1% ocorre o modelado, presente nas massas (bolotas de argila) e em outros dois fragmentos. Para 171 peças, foi possível sugerir o design morfológico das vasilhas. Seguindo Brochado et al. (1990) e Noelli et al. (2018), foram avaliados os aspectos morfológicos marcantes nas paredes, como carenas, as formas das bordas e os tipos de decoração. São quatro tipos de vasilha: kambuchi (vaso para guardar líquido) em 104 fragmentos, kambuchi kaguava (vaso para beber) em 41 fragmentos, ña ’ ẽmbe (tigela para comer) em dez fragmentos e japepo (panela para cozinhar) em dez fragmentos (Figura 7).


Acima, tipos morfológicos reconstruídos a partir da coleção do sítio Lagoa da Velhinha. Da esquerda para a direita: ña ’ ẽmbe (tigela); kambuchi kaguava (vaso para beber); japepo (panela) e kambuchi (vaso para guardar líquido). No meio, borda introvertida com pintura interna sugestiva para ña ’ ẽmb e (A); borda introvertida com quebra na carena sugestiva para kambuchi kaguava (B); borda extrovertida sugestiva para japepo (C); parede de grande espessura com carena bem marcada sugestiva para kambuchi (D). Abaixo, remontagem parcial de miniatura encontrada no sítio (E).

Além dos quatro tipos morfológicos ora mencionados, foram encontrados três fragmentos de miniaturas de vasilha (diâmetro de boca menor do que 7 cm), sendo dois do mesmo pote (Figura 7). Essas miniaturas dificilmente são manufaturas para a preparação de alimentos ao fogo. Em geral, não tinham a mesma função das vasilhas de tamanho normal (Brochado et al., 1990); diferente do uso doméstico, processos de ensino-aprendizagem geralmente são associados a esses achados (Rizzardo & Rogge, 2013).

Para a cerâmica Guarani, sugere-se que a queima ocorria em baixas temperaturas e em fogueiras a céu aberto (Brochado, 1980), condições em que dificilmente atingiria plena maturidade (Rice, 1987), com o núcleo permanecendo escurecido. Tal tendência não se verifica aqui, observando-se equilíbrio entre queima redutora e oxidante. As cores preto, cinza, sanduíche, clara/escura, que representam a queima redutora, perfazem 49,5% da amostra, enquanto as cores marrom-claro, laranja e rosa, que representam a queima oxidante, aparecem em 50,5% da amostra. Queima equilibrada aparece também na cerâmica Guarani do vale do Taquari, nordeste do Rio Grande do Sul (Schneider & N. Machado, 2020). Em outros contextos, é relatada maior frequência de cerâmica oxidada, como visto nos sítios do Rio da Várzea, norte do Rio Grande do Sul, em aproximadamente 66% dos fragmentos (Neumann, 2008) ou, para as cerâmicas Guarani do litoral sul catarinense, em 67% dos fragmentos (Milheira et al., 2013).

No tratamento de superfície, observa-se o uso de alisamento, barbotina (camada de argila decantada e transformada em um caldo com espessura entre 1 e 3 mm) e engobo (banho de argila com ou sem tinta com espessura ≤ 1 mm) (Figura 9). Tais tratamentos, em ambas as faces das peças, foram encontrados em oito combinações. Predomina engobo na parte interna e externa (∼51%), seguido de barbotina, também em ambas as faces (∼14%), e ainda barbotina na parte externa e engobo na parte interna (∼13%). As outras combinações foram menos frequentes. Em 11%, não foi possível identificar o tratamento de superfície em qualquer das faces. No que se refere à decoração plástica, quase toda a coleção é composta de cerâmicas alisadas ou corrugadas, mas foram evidenciados também os tipos digitado, escovado, ponteado, roletado, estocado e ungulado (Figura 8).

Figura 8
Tipos de decoração plástica presentes na cerâmica do sítio Lagoa da Velhinha: A) alisado; B) corrugados; C) digitado; D) escovado; E) estocado; F) ponteado; G) roletado; H) ungulado.

Todos os tipos de decoração são associados à cultura Guarani, não havendo tipos exóticos.

A decoração pintada ocorre em ∼16% (n = 192) dos fragmentos, com traços de pigmentação (pintura gráfica ou engobo pigmentado) (Figura 9). Este percentual é significativo e parecido ao obtido por Schneider (2019) para alguns sítios Guarani da região do vale do Taquari (∼17%), e não está distante da média observada para a cerâmica Guarani do Nordeste (∼13%, A. Machado, 2008) e da região central do Rio Grande do Sul (∼15%, Rogge, 1996).

Figura 9
Exemplos de pintura de Lagoa da Velhinha: (A) engobo branco e grafismos preto/vermelho; (B) engobo vermelho; (C) engobo branco com grafismo vermelho; (D) engobo branco com grafismo vermelho; (E) engobo branco com grafismo vermelho.

No extremo sul catarinense, é comum, em sítios Guarani, o uso de engobe vermelho, branco e vermelho sobre branco, além do predomínio da pintura de motivos geométricos vermelhos em vasilhas japepo e kambuchi (J. Santos et al., 2017). No sítio Lagoa da Velhinha, uma parte considerável da pintura é representada apenas por engobo com adição de pigmentação. Foram verificados o engobo vermelho em 11,6% das peças, o branco em 3,3%, o branco/vermelho em 0,8% e o preto em 0,3%.

A maioria dos grafismos consiste em linhas vermelhas (3,6%), brancas (0,1%), pretas (0,2%) e em associação entre branco e vermelho (0,1%) e preto e vermelho (0,2%) (Figura 11). Por exemplo, no oeste catarinense, Carbonera et al. (2017) reportam quantidade significativa de ferro (Fe) sobre pigmentos vermelhos, indicando o uso de argilas ricas em óxido de ferro para a obtenção dessa cor; e traços de potássio (K), zinco (Zn), rubídio (Rb), ítrio (Y) e zircônio (Zr) nos pigmentos brancos.

Em 40 fragmentos de cerâmica, ocorrem curiosas marcas de desgaste, similares entre si (Figura 10). Essas marcas, finos sulcos repetidos (cerca de 1 mm), foram realizadas após a fragmentação das peças, e não durante o uso da cerâmica enquanto vasilha inteira, como se depreende das marcas presentes nas superfícies fraturadas, configurando um desgaste por reuso. Esses fragmentos têm, na sua maioria, formato quadrado, retangular e triangular, com tamanho médio de 3 a 5 cm de comprimento, e espessura entre 0,5 e 2 cm. Enquanto os vestígios cerâmicos geralmente se concentram mais entre 20-30 cm e 30-40 cm, como se relatou acima, os fragmentos com essas marcas de desgaste se concentram nos níveis superiores, entre 10-20 cm (45%) e entre 20-30 cm (40%), quase não aparecendo no nível 30-40 cm (10%), onde as cerâmicas, em geral, seguem abundantes.

Figura 10
Marcas de reutilização de fragmentos cerâmicos do sítio Lagoa da Velhinha

Em síntese, o sítio Lagoa da Velhinha apresenta coleção cerâmica (n = 1.147) constituída totalmente por fragmentos, 76% dos quais foram recuperados entre 20 e 40 cm de profundidade. Seus atributos mostram congruência com o padrão técnico das ceramistas Guarani do litoral do sul do Brasil. O tempero é formado basicamente por areia, ou areia e chamote; como a areia aparece em todos os fragmentos, é possível que seja natural na argila. A técnica de manufatura principal é a roletada, identificada em mais de 70% dos fragmentos. A atmosfera de queima (inferida pela cor da pasta) foi bastante equilibrada entre redutora e oxidante, sendo que a pasta laranja homogênea foi a que mais apareceu. O tratamento de superfície mais representativo foi o engobo em ambas as faces, aparecendo em mais de 50% das peças, conferindo-lhes, em geral, um aspecto refinado. Ressalte-se que nem todo engobo considerado na avaliação de tratamento de superfície possui pigmentação (a pigmentação foi minoria), sendo que o principal critério utilizado para a avaliação de engobo como tratamento de superfície foi a espessura do banho de argila, e não a presença de tinta.

Apesar de haver pelo menos oito tipos de decoração plástica, as mais frequentes são o alisado (∼58%) e o corrugado (∼27%). Com relação à pintura, há pigmentação em ∼16% dos fragmentos (considerando engobos pigmentados e grafismos), observada nas cores branca, vermelha, preta e combinações entre branco e vermelho e vermelho e preto. O grafismo apareceu em apenas ∼4% dos fragmentos, com a maior parte da pigmentação observada no engobo (∼13%), em especial o engobo vermelho. A principal constatação que se pode fazer sobre a presença de pigmentação nessas vasilhas é que elas não foram feitas para serem usadas diretamente sobre o fogo (Noelli et al., 2018).

Bordas e paredes com tamanho suficiente para reconstrução morfológica foram bem representativas, permitindo a observação da variabilidade formal do conjunto, que consiste em panelas para cozinhar (japepo), tigela para comer (ña ’ ẽmbe), tigela para beber (kambuchi kaguava) e vaso para armazenar líquido (kambuchi). Conforme Brochado et al. (1990), os kambuchi são grandes vasos usualmente pintados e utilizados para guardar água e armazenar bebidas alcoólicas fermentadas. Alguns autores entendem que a presença de vasos grandes nos sítios Guarani, como o kambuchi, é variável no ‘kit doméstico’ – que também pode apresentar vasilhas marcadoras de processos de ensino-aprendizagem, como as miniaturas de vasilha, permitindo considerar se o local é uma aldeia mais duradoura ou um acampamento temporário (Rogge, 2005; Milheira, 2010; Milheira & J. Santos, 2020). Embora sejam conhecidos alguns exemplos da presença de cerâmica Jê intrusiva em sítios Guarani do litoral (Campos et al., 2023), neste sítio ela não foi detectada.

Figura 11
Acima, à esquerda e no centro, distribuição vertical dos vestígios cerâmicos e líticos resgatados no sítio Lagoa da Velhinha. Nos demais, frequência de tipos de tempero, cor da pasta, tipos de decoração plástica e variações de engobo com pigmentação identificados na cerâmica do sítio.

Por fim, as marcas de desgaste (reutilização) foram observadas em 40 fragmentos cerâmicos. Até o momento, não há notícias desse mesmo tipo de marcas para outros contextos Guarani. O mais parecido foi relatado por Kashimoto e Martins (2019) para sítios do Mato Grosso do Sul, onde os fragmentos apresentam marcas mais largas, sugestivas para o uso como calibradores ou polidores de madeiras, taquara ou ossos. Relatam, ainda, a presença de fragmentos utilizados como afiadores de lâminas polidas de machado. É digno de nota que as marcas lembram o desgaste feito por linhas de tear ou mesmo o uso em atividades de pesca, porém, pela ausência de comparações, não fomos capazes, no momento, de sugerir o uso exato dessas cerâmicas. Para o Lagoa da Velhinha, além do ineditismo do achado, destaca-se que a maior frequência foi observada nos níveis superiores da mancha preta e na porção imediatamente acima, sugerindo, ainda que preliminarmente, que esse tipo de tecnologia possa ter sido adotado ou se popularizou em um momento mais tardio da ocupação. Como se discute adiante, as datações para este sítio indicam que a ocupação se estendeu até o período colonial.

OS MATERIAIS LÍTICOS DO SÍTIO LAGOA DA VELHINHA

Foram recuperados 234 vestígios líticos no sítio Lagoa da Velhinha, coleção que exibe pouca variedade, mas que numericamente não é desprezível quando comparada com outros contextos Guarani. A matéria-prima mais frequente é o arenito, bastante friável (∼63%), seguido da calcedônia (∼30%). Rochas básicas aparecem de maneira discreta. Um pouco mais da metade é composta por resíduos de debitagem (∼57%), sobretudo fragmentos e lascas, com destaque também para as microlascas, todas em calcedônia (∼12%). Nesse material, a debitagem bipolar domina, com lascas pequenas, em geral sem córtex, indicando que o desbaste parece ter-se dado alhures. Lascamento unipolar em basalto é raro. Os instrumentos compõem ∼43% da coleção, e são representados basicamente por alisadores (com a superfície polida pelo uso) e afiadores (sem e com canaletas, sulcos em ‘U’ e em ‘V’) em blocos de arenito muito usados e fragmentados, esgotados, que respondem por 93% desse conjunto (Figura 12). Além deles, ocorrem: uma pequena mão-de-pilão de basalto, um quebra-coquinho de arenito, algumas poucas lascas de calcedônia e basalto com marcas de uso.

Figura 12
A-D) Lâminas e lamelas em calcedônia; E-H) lascas de calcedônia exibindo marcas de uso.

Instrumentos comuns em contexto Guarani, como lâminas de machado e raspadores mais volumosos, não aparecem na coleção. A presença de microlascas indica retoque ou reavivamento, mas artefatos retocados estão ausentes. Chama a atenção a baixa presença de termóforos na coleção, visto que é comum nestes contextos o registro de seixos ou blocos fraturados por ação térmica, associados a estruturas de combustão. No caso da calcedônia, nota-se a intenção de produzir lascas finas e alongadas, já que as 71 lascas bipolares encontradas neste sítio exibem espessura média de apenas 0,4 cm. Observa-se a presença de ‘lamelas’ cujas partes distais exibem formatos puntiforme e lanceolado, como já observado em outro contexto Guarani (Milheira et al., 2013, p. 140). É provável que a debitagem bipolar presente neste material seja um indicador de que exiba, na fonte, dimensões reduzidas. Ao contrário do arenito Botucatu, abundante na região, a calcedônia é material alóctone na faixa litorânea (Costa, 2016, pp. 104-105). Mais para o interior, ao pé das serras (a cerca de 35-40 km de distância), onde os rios da região têm maior poder de transporte, ocorrem cascalheiras com rochas semelhantes, o que indica que este sítio integra um sistema de assentamento de circulação de tecnologia, que envolve a região litorânea e serrana, entre aldeias de distintos territórios.

A OCUPAÇÃO GUARANI NAS LAGOAS COSTEIRAS DOS ESTEVES, MÃE LUZIA E FAXINAL

As pesquisas arqueológicas realizadas no litoral do extremo sul catarinense documentam a presença de um número considerável de sítios arqueológicos de grupos Guarani. Para esse território, os trabalhos de Campos (2010b, 2014, 2015), Campos e Perin (2020, 2023), Lavina (1997-1998, 1999), Lino (2007), M. Santos et al. (2016, 2018) e J. Santos et al. (2017) apresentam um amplo levantamento regional e investigações intrassítio que, juntamente com o sítio deste artigo, servem de base para uma aproximação ao contexto arqueológico Guarani no ambiente litorâneo do entorno das lagoas Mãe Luzia, dos Esteves e Faxinal. Este cenário costeiro, com acesso a recursos diversificados da lagoa e das florestas circundantes, já foi ocupado por sambaquieiros e, mais recentemente, por grupos Jê do Sul. O horizonte mais recente consiste dos sítios associados aos grupos Guarani, assentados principalmente junto à borda interior das lagoas (J. Santos et al., 2017). A ocupação de ambientes lagunares é um padrão recorrente nas áreas imediatamente ao norte (Kneip et al., 2018; Milheira & DeBlasis, 2013) e ao sul (Wagner, 2009; Schmitz, 1996, 1998) do trecho lagunar aqui estudado.

A distribuição dos sítios Guarani conhecidos no ambiente lacustre das lagoas Mãe Luzia, dos Esteves e Faxinal permite identificar dois padrões de implantação em relação aos aspectos fisiográficos locais. O sítio Lagoa da Velhinha está instalado junto à ponta sul da Lagoa dos Esteves, assentado sobre depósitos eólicos pleistocênicos, extensas áreas um pouco mais elevadas da planície costeira, no revés das lagoas. Esse padrão de implantação se repete para cerca de uma dúzia de outros sítios Guarani conhecidos na área, sendo poucos aqueles localizados no setor entre a praia e as lagoas, uma faixa estreita onde foram registrados apenas quatro sítios sobre depósitos eólicos holocênicos e praiais, subatuais.

Um pouco mais ao sul do sítio Lagoa da Velhinha (a cerca de 500 m), existem outros dois sítios Guarani descritos por Campos et al. (2023), Ponta da Lagoa dos Esteves e Ponta da Lagoa Mãe Luzia, implantados sobre os mesmos depósitos eólicos pleistocênicos que ocorrem entre as duas lagoas. Dois outros sítios próximos também ocorrem mais a oeste, SC-ARA-03 e SC-ARA-04. Outro agrupamento ocorre na margem oeste da lagoa dos Esteves, com cinco sítios: SC-ARA-21, SC-ARA-22, SC-ARA-23, SC-ARA-24 e SC-ARA-27.

Nos sítios dessa região, são recorrentes cerâmicas diversificadas em termos de morfologia, tamanho e densidade, associadas a materiais líticos e algum vestígio zooarqueológico. A coleção do sítio Lagoa da Velhinha mostra grande coerência em relação às cerâmicas Guarani do litoral meridional brasileiro e mesmo com as indústrias do interior (Campos et al., 2023; Milheira et al., 2013; Schneider & N. Machado, 2020; Rogge, 2005). O conjunto morfológico compreende panelas para cozinhar (japepo), tigelas para comer (ña’ẽmbe), tigelas para beber (kambuchi kaguava) e grandes vasos pintados, os kambuchi, que, segundo as referências etnográficas, eram utilizados para guardar água e armazenar bebidas alcoólicas fermentadas, usadas especialmente durante as festas e beberragens (Brochado et al., 1990).

Outros sítios caracterizados como aldeias, aqueles identificados no município de Araranguá, a poucos quilômetros ao sul, apresentam a mesma morfologia em seu vasilhame, por vezes um tipo a mais ou a menos (J. Santos et al., 2017). Observa-se também a presença marcante de cerâmica com espessura maior do que 15 mm, característica que não está presente em sítios de ocupação mais efêmera, do tipo acampamento. No Lagoa da Velhinha, também foi identificada uma quantidade expressiva de vasilhas espessas ou muito espessas: 28% dos fragmentos têm entre 11 e 20 mm e 2,9% entre 21 e 30 mm; enquanto as cerâmicas mais comuns, usadas no dia a dia, costumam ter até 10 mm de espessura, eventualmente 15 mm; os fragmentos espessos indicam a presença de panelas e vasos grandes, especialmente aqueles utilizados para armazenamento de líquidos fermentados, do tipo kambuchi.

No sítio Lagoa da Velhinha, foram identificadas duas manchas de terra preta alinhadas e próximas entre si. Pelo menos dois trabalhos trazem dados sobre a densidade, o formato e o alinhamento dos conjuntos de manchas identificados em sítios Guarani do litoral sul de Santa Catarina. O levantamento de Milheira (2010) em Jaguaruna, área contígua ao norte do sítio Lagoa da Velhinha, registrou de uma até cinco manchas por sítio, com formas circulares, elípticas e irregulares. Segundo o autor, não se deve considerar que era o formato da planta baixa da casa, mas o resultado de fatores pós-deposicionais e do próprio tipo de colapso das estruturas (horizontal ou vertical) (Milheira, 2010). Características parecidas foram observadas em Araranguá (J. Santos et al., 2017), onde sítios com manchas únicas, em conjuntos de três ou de cinco, foram identificados. Em ambos os casos, as manchas aparecem alinhadas, em pares espelhados ou dispostas em espécie de semicírculo. Além das casas, estruturas variadas compunham a aldeia e deixavam registro na estratigrafia, por isso nem toda mancha preta deve ser interpretada da mesma forma. Mas, em geral, as manchas bem delimitadas e repletas de vestígios de uso doméstico e cotidiano (cerâmica, líticos e restos de fauna), como aquelas vistas para o sítio Lagoa da Velhinha, representam fundos de residência e documentam bem os espaços de aldeamento.

Para o litoral sul de Santa Catarina, a passagem de Jerónimo Rodrigues deixou algumas pistas de como se organizavam as aldeias Guarani remanescentes do século XVII. Ao percorrer a região de Laguna, ao norte do sítio Lagoa da Velhinha, o missionário descreveu a existência de quatro ou cinco aldeias que distavam cerca de uma légua e meia entre si (~6 km). Essas pequenas aldeias eram formadas por uma ou até cinco casas, nas quais viviam famílias extensas. Ao observar um contexto que já sofria há mais de um século com as consequências da pressão colonizadora europeia, o missionário relatou a desarticulação das grandes aldeias de Laguna com certa precisão:

E assim nos metemos na primeira casa da primeira aldeia, que segunda nem terceira e outra alguma tinha. E assim são cá todas as aldeias, de maneira que, a uma casa, chamam uma aldeia. E esta não tinha dentro em si mais de três moradores, ou para melhor dizer três casais com três ou quatro filhos

(Rodrigues, 1940, pp. 216-217).

Para o sítio Lagoa da Velhinha, duas datações radiocarbônicas foram produzidas. A mais antiga, 560 ± 30 AP (cal AD 1.393-1.449), coletada a 35 cm de profundidade, indica com segurança que a sua ocupação teve início ainda no período pré-colonial. A mais tardia, 410 ± 30 AP (cal AD 1.451-1.627), coletada a 25 cm de profundidade, demonstra que a aldeia esteve ativa no início do período colonial, com possibilidade de ter se estendido até o início do século XVII. A diferença de idade das amostras aponta que há boa preservação estratigráfica. As datas sugerem se tratar de uma ocupação de longa duração, uma aldeia que, considerando o limite inicial da data mais antiga e o final da data mais recente, pode ter sido ocupada (ou reocupada) por mais de dois séculos.

A presença Guarani registrada pelos cronistas do século XVII é confirmada também pelos dados cronológicos obtidos em outros sítios arqueológicos da região, como se pode observar na Tabela 2 e nas Figuras 13 e 14. A área do complexo lagunar da região de Laguna-Jaguaruna (Milheira & DeBlasis, 2013; Kozlowski et al., 2022) até o complexo estuarino do rio Araranguá junto às lagoas Mãe Luzia, dos Esteves e Faxinal, aqui examinadas (J. Santos et al., 2017) – e além, ao longo do litoral sul-riograndense –, é marcada por datações bastante recentes, como visto para os sítios Trovoada 1, Aldeia Mãe Luzia 1, Aldeia Mãe Luzia 3 e Aldeia Mirante da Lagoa (M. Santos et al., 2016; Campos et al., 2023; Milheira, 2010).

Tabela 2
Datações radiocarbônicas disponíveis para sítios Guarani no litoral sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul. Calibração realizada com o programa Oxcal v4.4.4 (Bronk Ramsey, 2021), utilizando a curva SHCal20, indicada para o hemisfério Sul (Hogg et al., 2020). Legendas: CRA = Conventional Radiocarbon Age (idade radiocarbônica convencional); cal AP = anos calibrados antes do presente; cal AD = calibrado em Anno Domini; * = data obtida a partir de amostra de concha marinha, calibrada a partir da curva de calibração Marine20, indicada para amostras marítimas.
Figura 13
Idades calibradas para sítios Guarani do litoral sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul. Calibração realizada com o programa Oxcal v4.4.4 (Bronk Ramsey, 2021), utilizando a curva SHCal20 indicada para o hemisfério Sul (Hogg et al., 2020; Heaton et al., 2020). Em cinza e vermelho, datas obtidas em amostras de carvão; em verde, data obtida em amostra de concha marinha; em vermelho, datas inéditas do sítio Lagoa da Velhinha.
Figura 14
Distribuição de idades calibradas para sítios Guarani do litoral sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul.

Para esses sítios, os intervalos calibrados colocam a possibilidade de terem sido ocupados até o início do século XVII ou além. Trovoada 1 (Capão da Canoa, no litoral norte do Rio Grande do Sul), por exemplo, o sítio mais tardio evidenciado no contexto, apresenta um intervalo cronológico que adentra o século XVIII. Caraterizado como um pequeno assentamento Guarani, talvez um paradeiro litorâneo, apresenta pouca cerâmica (duas centenas), alguns fragmentos intrusivos de cerâmica Taquara e um instrumental lítico pouco frequente, parecendo refletir bem os pequenos núcleos familiares remanescentes que resistiram após a desarticulação do modelo socioeconômico Guarani ativo à época do contato (Campos et al., 2023). Esses sítios tardios, pequenos e isolados, provavelmente se encontram dispersos em outros pontos da região.

No litoral sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul, ademais da presença dos sítios tardios que avançam ao século XVII e chegam próximo ao século XVIII, as datas se concentram fortemente em um intervalo de 300 anos (entre ∼1.350 e 1.650 AD), período que parece ser o mais intenso para a ocupação Guarani do litoral. Mais ou menos nesse mesmo período, também se observa um impressionante acréscimo de sítios ativos para os Guarani de todo o interior do sul do Brasil (Noelli, 2004; Bonomo et al., 2015; Schneider, 2019; Loponte et al., 2024), parecendo se constituir em um fenômeno de mobilidade de grande amplitude nessa área. Para o contexto litorâneo, é notável apontar que esse período massivo de ocupação Guarani guarda uma distância de alguns séculos em relação ao fim da era sambaquieira, não parecendo manter relação com o desaparecimento daquela sociedade. Há apenas uma data que permite sobrepor a chegada dos grupos ceramistas Guarani na costa atlântica com o limiar da ocupação sambaquieira (sítio Baixo Rio d’Una 1, datado de 910 ± 30), no entanto, a ocupação massiva Guarani teria ocorrido em torno de um século antes da colonização europeia.

Se o século XIV se define como um momento de expansão, as primeiras aldeias do litoral foram instaladas, muito provavelmente, antes desse período efervescente e bem marcado no contexto arqueológico. É hipótese corrente na arqueologia das terras baixas do Brasil meridional que a ocupação Guarani no Atlântico Sul se deu através da expansão no sentido sul-norte (Brochado, 1984, 2024), com avanços paralelos à linha de costa pelas planícies costeiras desde a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, até alcançar o litoral do Paraná. No modelo de Brochado (1984), refinado por Bonomo et al. (2015), a chegada Guarani na costa do Atlântico Sul teria acontecido por volta do ano 1.000, durante a segunda onda de expansão desses povos. Para essa fase inicial, contudo, poucos sítios são conhecidos.

Até o momento, apenas uma datação radiocarbônica segura foi reportada para essa fase mais antiga no litoral sul de Santa Catarina e norte do Rio Grande do Sul. O sítio Baixo Rio d’Una 1, no município de Imbituba, escavado e datado por Novasco et al. (2021), possui uma data recuada de 910 ± 30 AP (cal AD 1.048-1.266), obtida no interior de uma mancha de terra preta. Outros dois sítios também apresentam datas antigas para a região, mas elas devem ser consideradas com alguma reserva. O sítio Bassani 1, por exemplo, localizado em Capão da Canoa, litoral norte do Rio Grande do Sul, apresenta duas datas recuadas: 870 ± 100 (cal AD 1.020-1.386) e 1.070 ± 110 (cal AD 773-1.217). Nesse sítio, foram recuperados dois enterramentos primários acompanhados de vasilhas cerâmicas e um enterramento em urna. Mas, diferentemente do sítio Baixo Rio d’Una 1, não é unicomponencial, apresentando, junto dos vestígios e sepultamentos Guarani, uma pequena fração de cerâmica Jê superficial, fato que não permite o uso dessas datas de forma confiável para o contexto Guarani. O sítio ZPE, por sua vez, também localizado próximo a Imbituba, apresenta datas antigas, concentradas entre 700 e 1.000 anos atrás, que foram obtidas por termoluminescência (Lavina, 1999).

Datas em termoluminescência aplicadas em cerâmica Guarani têm apresentado, de forma repetida, resultados mais recuados quando equiparados com datações radiocarbônicas em contextos comparáveis9 (Soares, 1997; Rogge & Schmitz, 2009; Milheira, 2010; Schneider, 2019). A isso se soma o fato de que o autor das datas informou que não seguiu corretamente os protocolos de coleta das amostras cerâmicas, tendo exposto os fragmentos à luz, o que pode ter contribuído para sua contaminação.

Também deve ser tratada com cautela a datação em amostra de concha marinha (Donax hanleyanus) do sítio Olho d’Água 1, localizado em Jaguaruna, onde uma datação convencional feita em uma estrutura de combustão aponta idade de 920 ± 60 AP. Considerando o efeito reservatório marinho, quando calibrada, a data passa a situar-se entre os anos 1.424-1.743 cal AD ou 526 a 208 AP. Além disso, esse mesmo sítio tem uma datação feita em amostra de carvão com idade convencional de 570 ± 40 AP, cuja calibração sugere uma faixa temporal situada entre 1.322-1.450 cal AD ou os anos 629 a 500 AP. Enfim, em ambas as amostras, a calibração aponta uma ocupação entre os séculos XIV e XV.

Com a exclusão dos sítios Bassani 1, ZPE e a data em concha marinha do sítio Olho d’Água 1, o sítio Baixo Rio d’Una 1 é o único que apresenta uma datação antiga confiável para a região. Essa baixa representatividade não deve ser percebida como um problema, visto que a presença de poucas datas nos períodos mais antigos das ocupações regionais Guarani é comum. Nas áreas mais bem datadas do interior, como no médio rio Uruguai (Loponte et al., 2024) e no vale do Taquari (Schneider et al., 2017; Schneider, 2019), por exemplo, as datas mais antigas são muito escassas. Tudo indica que os primeiros assentamentos dos novos lugares acessados e ocupados eram demograficamente mais discretos; assim, a expectativa é de que não se encontrem datas recuadas com facilidade ou em grande número.

Neste sentido, os dados sugerem que o boom demográfico Guarani só parece ter acontecido a partir do século XIV, não só no litoral sul de Santa Catarina, mas de uma forma generalizada para todo o contexto Guarani na costa atlântica (Milheira 2010; Bonomo et al., 2015; Schneider, 2019; Loponte et al., 2025). É nessa fase efervescente que o modelo de enxameamento de Brochado (1984, 2024) fica claro no registro arqueológico (Schneider et al., 2017). Diferentemente das expectativas de que o crescimento demográfico teria acontecido de forma lenta e gradual, a grande maioria dos dados tem demonstrado, cada vez mais, que o crescimento acontece em saltos e foi intercalado por longos momentos de pausa (Corrêa, 2014; Bonomo et al., 2015; Schneider, 2019; Loponte et al., 2025). Essa interpretação é consonante com a proposta de Novasco et al. (2021), que consideram que o processo inicial se dá em torno de 400 anos antes da ocupação europeia, intensificando-se no limiar da colonização. Para a faixa litorânea que vai do Rio Grande do Sul até São Paulo, também é a partir dessa fase que a distribuição extensa de datações acontece, sugerindo, então, um crescimento rápido, provocado por pressão demográfica (Milheira, 2010). De fato, os dados arqueológicos e os relatos dos cronistas coloniais reportam grande quantidade de aldeias Guarani nas terras baixas interioranas na bacia platina, como também destacado acima, o que pode ter levado a deslocamentos regionalizados em direção ao litoral.

A semelhança da cultura material identificada nos sítios Guarani pesquisados no sul catarinense reflete o que deve ter sido a estabilidade social e econômica dessa população ao longo do período pré-contato. Junto com certa estabilidade ambiental nos últimos 700 anos, essa população teria usufruído de um cenário ideal para a replicação do modelo de aldeamento Guarani, formando tekohás10 e guaras nos ambientes lacustres da porção meridional do litoral catarinense, entre Imbituba e Torres.

O sítio Lagoa da Velhinha, assim como as aldeias circunvizinhas, estava estabelecido em planícies arenosas antigas, florestadas, junto às lagoas. No contexto social dos tempos pré-coloniais, provavelmente era uma aldeia conectada a outras unidades, como os sítios Ponta da Lagoa Mãe Luzia e Ponta da Lagoa dos Esteves, bem como outros próximos. Sua cultura material sugere fortemente que se tratava de um assentamento familiar mais duradouro, onde a vida social e as festas aconteciam. Após décadas de estabilidade, o contato com os colonos europeus implicou mudanças demográficas profundas, culminando na modificação do modelo territorial Guarani e na redução das dimensões e do contingente de aldeias.

Nesse cenário, muitos acampamentos e paradouros tardios apresentam características expressas na escassez de vestígios e nas próprias dimensões diminutas dos fundos de cabana, que parecem confirmar isso. Lagoa da Velhinha, muito provavelmente, também viveu esse momento de disruptura social, passando de uma aldeia duradoura, construída ainda no período pré-colonial, para um refúgio isolado em tempos coloniais. Assim como as demais aldeias da rede em que se insere, Lagoa da Velhinha apresenta um contexto repleto de materiais típicos de uso cotidiano, refugados no solo de maneira não planejada. Considerando que se trata de um padrão de formação do registro arqueológico Guarani de amplitude regional, entende-se que o abandono rápido dos assentamentos tenha sido resultado das ações de violência das bandeiras vicentistas e das ações missioneiras intensificadas entre os séculos XVI e XVII.

CONCLUSÕES

Os resultados apresentados trazem novas perspectivas sobre a presença Guarani no litoral sul catarinense. O sítio Lagoa da Velhinha, assim como muitos sítios Guarani da mesma área, começam a ser ocupados nos séculos XIV e XV, mantendo-se estáveis por décadas, como mostram os contextos em que se encontram os vestígios cerâmicos e os líticos analisados, caracterizados pelas manchas de terra preta antropogênica e pelas datações. Apesar de se tratar de uma ta pequena, foi duradoura e sugere consistentemente um padrão de separação ‘precoce’ das famílias, ao contrário das aldeias com grandes casas-longas e referências de grande quantidade de moradores. É necessária mais pesquisa para compreender se o tamanho reduzido das casas resulta de questões sociais; no momento, parece plausível que talvez resulte da estratégia de formar vários tekohás articulados em uma rede de tas.

Implantado junto à ponta sul da Lagoa dos Esteves, o sítio está assentado sobre depósitos eólicos pleistocênicos um pouco mais elevados em relação à planície costeira, próximo à linha de lagoas. Esse tipo de paisagem foi o preferido para a instalação das aldeias Guarani no costado interior das lagoas do Faxinal, dos Esteves e Mãe Luzia, sugerindo que o padrão de assentamento optava pelos locais mais secos e arejados da área então coberta por estratos arbóreos do bioma Mata Atlântica. Assim, o mesmo cenário desvelado para o Lagoa da Velhinha pode ser estendido para as dezenas de outras aldeias localizadas na vizinhança.

Do ponto de vista regional, os dados analisados no Lagoa da Velhinha reforçam os modelos interpretativos que indicam que a ocupação Guarani no litoral sul-brasileiro se tornou massiva a partir dos séculos XIV e XV. Além disso, demonstram que o sítio foi abandonado, como outros sítios da região, no contexto colonial. Nesse período, as grandes e densas aldeias conectadas entre si por laços de aliança e parentesco diminuíram significativamente e, em algumas áreas, desapareceram, dando lugar a pequenos assentamentos, ao mesmo tempo que forçaram parte da população Guarani a mudar para onde estavam seus parentes e aliados nas bacias dos rios Uruguai e Antas, e nos ‘campos de Viamão’. O grande desafio é compreender as opções de quem ficou no litoral, resistiu ao colonialismo, especialmente com a presença eventual dos Tupiniquim, portugueses e seus descendentes que vinham para atacar os antigos territórios do Tape, do Uruguai e da Lagoa dos Patos, situados no atual Rio Grande do Sul. E, também, para perceber como se relacionaram com os ocupantes vicentinos que invadiram e fundaram Laguna na década de 1670.

AGRADECIMENTOS

Os autores são gratos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Bolsa de Pesquisa de Produtividade (PQ) concedida ao primeiro autor (processo nº 304070/2026-2 e 312543/2022-0). À Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), pela concessão da bolsa de mestrado à quinta autora (processo nº 984/2025). Ao CNPq, pela bolsa de pesquisa de pós-doutorado no exterior (PDE) concedida ao último autor (processos nº 201642/2025-5 e 403308/2024-0). À Arqueosul Arqueologia e Gestão do Patrimônio, pelo suporte ao desenvolvimento desta pesquisa. Agradecemos ainda aos pareceristas, cujas observações auxiliaram a construção do texto.

  • Campos, J. B., Perin, E. B., Schneider, F., Milheira, R., Pereira Dagostim, S. A., Santos, M. C. P., Noelli, F. S., & DeBlasis, P. A. D. (2026). Entre rios e lagoas: novos dados para o contexto Guarani do litoral sul catarinense a partir do sítio arqueológico Lagoa da Velhinha. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 21(2), e20250057. http://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2025-0057
  • PREPRINT
    Não foi publicado em repositório.
  • AVALIAÇÃO POR PARES
    Avaliação duplo-cega, fechada.
  • 1
    O estudo do sítio foi realizado no âmbito de um programa de gestão do patrimônio arqueológico na área de implantação do Condomínio Blue Lagoon, município de Balneário Rincão, Santa Catarina.
  • 2
    Denominado “Arqueologia entre rios: do Urussanga ao Mampituba (AERUM)”, ligado ao grupo de pesquisa “Arqueologia e gestão integrada do território”, certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com base na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), em Criciúma.
  • 3
    As datações radiocarbônicas apresentadas neste artigo são calibradas antes do presente (AP).
  • 4
    “. . . que S. M. envie um feitor seu que traga lavradores, porque não são necessários conquistadores, pois é gente forte, e se forem lastimados, logo se rebelarão. E é gente tão animosa que não deixarão nenhum homem com vida, porque são grandes frecheiros e trazem umas bolas [boleadeiras] que derrubam um homem armado, porque é gente de grande força”.
  • 5
    A documentação dos eixos (x-y) dos vestígios permitiu também obter modelos tridimensionais. Inicialmente, foi necessário obter a altitude geoidal dos vestígios arqueológicos documentados em campo com o nível topográfico e calculada a altitude de cada peça em planilha eletrônica. Utilizando o software ArcMap, criou-se um Triangular Irregular Network (TIN) e por intermédio do software ArcScene foi possível manipular o TIN e associar a nuvem de pontos à superfície tridimensional.
  • 6
    Os restos faunísticos consistem em fragmentos rarefeitos de ossos grandes de fauna terrestre, muito fragmentados e dispersos, por vezes queimados. Esses materiais não se conservam bem no solo ácido da região.
  • 7
    Em laboratório, os materiais foram higienizados a seco com escova de cerdas macias, suficiente para retirar o excesso de sujidade (basicamente areia seca), garantindo menor perda de informações para eventuais análises futuras (pigmentação, microvestígios botânicos, ácidos graxos etc.).
  • 8
    Apesar de se verificar os mesmos temperos para a cerâmica Guarani em diferentes contextos, combinações e preferências variam. No sítio Trovoada 1 (litoral norte do Rio Grande do Sul), por exemplo, os temperos majoritários são óxido de ferro e chamote, com areia em todos os fragmentos (Campos et al., 2023). De maneira geral, a mesma preferência (óxido de ferro e chamote) foi observada no vale do rio Taquari (Schneider & N. Machado, 2020). Entretanto, entre sítios da mesma região, observam-se variações peculiares, como o uso de fragmentos de quartzo e calcedônia como antiplástico.
  • 9
    Dois problemas são recorrentes na realização de termoluminescência em cerâmica: não levar em conta as dimensões do fragmento (comprimento, largura e espessura) e datar cerâmica com núcleo escuro. Núcleos escuros (muito comuns para a cerâmica Guarani) significam que a temperatura não foi suficiente para promover todas as alterações químicas no interior das paredes do vasilhame e ‘zerar’ a termoluminescência (Simões et al., 2002; Corrêa, 2017).
  • 10
    Conforme Noelli (1993, pp. 251-255), a organização social Guarani considera no primeiro nível uma família extensa, ou teýy; em segundo lugar, um conjunto de casas que abrigam as famílias extensas, uma aldeia ou tekohá; em terceiro nível, o conjunto de aldeias que estão inseridas em um território, região ou província, chamado guara.

DADOS DA PESQUISA

Os dados não foram depositados em repositório.

REFERÊNCIAS

  • Armenta, G. de. (1870). Carta al Dr. Juan Bernal Díaz de Lugo (carta datada de 1 de mayo de 1538). In G. de Mendieta, Historia eclesiástica indiana (pp. 553–555). Antigua Librería.
  • Bonomo, M., Angrizani, R. C., Apolinaire, E., & Noelli, F. S. (2015). A model for the Guarani expansion in the La Plata Basin and littoral zone of southern Brazil. Quaternary International, 356, 54-73. https://doi.org/10.1016/j.quaint.2014.10.050
    » https://doi.org/10.1016/j.quaint.2014.10.050
  • Brochado, J. J. J. P. (1980). Social ecology of the Marajoara Culture [Dissertação de mestrado, University of Illinois].
  • Brochado, J. J. J. P. (1984). An ecological model of the spread of pottery and agriculture into Eastern South America [Doctoral dissertation, University of Illinois at Urbana-Champaign].
  • Brochado, J. J. J. P., Monticelli, G., & Neumann, E. S. (1990). Analogia etnográfica na reconstrução gráfica das vasilhas Guarani arqueológicas. Veritas, 35(140), 727-743.
  • Brochado, J. J. J. P. (2024). Um modelo ecológico de difusão da cerâmica e da agricultura da América do Sul Tikibooks.
  • Bronk Ramsey, C. (2021). OxCal v.4.4.4 [software]. https://c14.arch.ox.ac.uk/oxcal.html
    » https://c14.arch.ox.ac.uk/oxcal.html
  • Caldarelli, S. B. (Org.). (2003). Parecer técnico acerca do valor do patrimônio cultural e natural da região situada entre a barra de Laguna, município de Laguna, e a barra do rio Araranguá, município de Araranguá, para fins de tombamento e de criação de uma unidade de conservação: relatório técnico Scientia Ambiental.
  • Campos, J. B. (2008). Salvamento arqueológico na jazida de argila na Linha Rovaris, Turvo-Santa Catarina: relatório final UNESC.
  • Campos, J. B. (2009). Salvamento arqueológico na jazida de argila de Taquaruçu, Ermo-Santa Catarina: relatório final UNESC.
  • Campos, J. B. (2010a). Programa de salvamento arqueológico na jazida de argila de Vila Maria, município de Nova Veneza-Santa Catarina: relatório final UNESC.
  • Campos, J. B. (2010b). O uso da terra e as ameaças ao patrimônio arqueológico na região litorânea dos municípios de Araranguá e Içara, sul de Santa Catarina [Dissertação de mestrado, Universidade do Extremo Sul Catarinense].
  • Campos, J. B. (2011). Programa de resgate arqueológico da jazida de argila Araçá, município de Nova Veneza-Santa Catarina: relatório final UNESC.
  • Campos, J. B., Ribeiro, L. S., Ricken, C., Rosa, R. C., Savi, C. N., & Zocche, J. J. (2012). As gravuras rupestres do projeto encostas da serra no sul do estado de Santa Catarina, Brasil. Arkeos: Perspectivas em Diálogo, (32), 121-132.
  • Campos, J. B., Santos, M. C. P., Rosa, R. C., Ricken, C., & Zocche, J. J. (2013). Arqueologia entre rios: do Urussanga ao Mampituba. Registros arqueológicos pré-históricos no extremo sul catarinense. Cadernos do LEPAARQ, 10(20), 9-39. https://doi.org/10.15210/lepaarq.v10i20.2127
    » https://doi.org/10.15210/lepaarq.v10i20.2127
  • Campos, J. B. (2014). Relatório final do Programa de Resgate Arqueológico da Jazida de Areia Eckert Campo Mãe Luzia, município de Araranguá, Santa Catarina, Brasil UNESC.
  • Campos, J. B. (2015). Arqueologia entre rios e a gestão integrada do território no extremo sul de Santa Catarina, Brasil [Tese de doutorado, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro].
  • Campos, J. B., & Perin, E. B. (2020). Relatório de avaliação de impacto ao patrimônio arqueológico na área de implantação do condomínio Blue Lagoon, município de Balneário Rincão, SC: relatório final Arqueosul.
  • Campos, J. B., & Perin, E. B. (2023). Programa de gestão ao patrimônio arqueológico na área do condomínio Blue Lagoon, município de Balneário Rincão, SC: relatório final Arqueosul.
  • Campos, J. B., DeBlasis, P. A. D., Perin, E. B., Schneider, F., Ferrasso, S., Araújo, A. L., . . . Dagostim, S. A. P. (2023). Muita comida, pouca gente: Perspectivas acerca dos sítios rasos do litoral norte do Rio Grande do Sul. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 18(2), e20220077. https://doi.org/10.1590/2178-2547-bgoeldi-2022-0077
    » https://doi.org/10.1590/2178-2547-bgoeldi-2022-0077
  • Carbonera, M., Appoloni, C. R., & Santos, G. H. (2017). Materiais pictóricos da cerâmica Guarani do alto Uruguai a partir de medidas de fluorescência de raios X. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, (28), 133-144. https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2017.116676
    » https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2017.116676
  • Corrêa, A. A. (2014). Pindorama de Mboîa e Îakaré: continuidade e mudança na trajetória das populações Tupi [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.71.2014.tde-17102014-154640
    » https://doi.org/10.11606/T.71.2014.tde-17102014-154640
  • Corrêa, A. A. (2017). Datações na bibliografia arqueológica brasileira a partir dos sítios Tupí. Cadernos do LEPAARQ, 14(27), 379-406. https://doi.org/10.15210/lepaarq.v14i27.9595
    » https://doi.org/10.15210/lepaarq.v14i27.9595
  • Costa, J. G. (2016). A relação entre matérias-primas e tecnologia lítica no território pré-histórico do Extremo Sul Catarinense, Brasil [Dissertação de mestrado, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro]. http://hdl.handle.net/10400.26/18064
    » http://hdl.handle.net/10400.26/18064
  • DeBlasis, P. A. D., Gaspar, M., & Kneip, A. (2021). Sambaquis from the southern Brazilian coast: Landscape building and enduring heterarchical societies throughout the Holocene. Land, 10(7), 757. https://doi.org/10.3390/land10070757
    » https://doi.org/10.3390/land10070757
  • DeBlasis, P. A. D., Kozlowski, H., Perin, E. B., Campos, J. B., Guimarães, G. M., & Farias, D. S. E. (2025). A ocupação da encosta da serra sul catarinense: encontros culturais no Holoceno tardio. Revista de Arqueologia, 38(1), 108-136. https://doi.org/10.24885/sab.v38i1.1217
    » https://doi.org/10.24885/sab.v38i1.1217
  • Farias, D. S. E. (2005). Distribuição e padrão de assentamento: proposta para os sítios da tradição Umbu na encosta de Santa Catarina [Tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul].
  • Farias, D. S. E., Kneip, A., Guimarães, G. M., Demathé, A., Atorre, T., & DeBlasis, P. A. D. (2016). Ecologias culturais na Mata Atlântica pré-colonial de Santa Catarina. In D. C. Cabral, & A. G. Bustamante (Orgs.), Metamorfoses florestais: culturas, ecologias e as transformações históricas da Mata Atlântica (pp. 124-148). Editora Prismas.
  • Fossari, T. (1991). Estudos ambientais a nível de inventário para a implantação da Rodovia Interpraias no Estado de Santa Catarina (São João do Sul - Laguna) Ambiental Consultoria e Planejamento Ltda.
  • Gaspar, M. (2000). Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro Jorge Zahar Editor.
  • Giannini, P. C. F., Villagran, X. S., Fornari, M., Nascimento Junior, D. R. do, Menezes, P. M. L., Tanaka, A. P. B., Assunção, D. C., DeBlasis, P., & Amaral, P. G. C. do. (2010). Interações entre evolução sedimentar e ocupação humana pré-histórica na costa centro-sul de Santa Catarina, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 5(1), 105-128. https://doi.org/10.1590/S1981-81222010000100008
    » https://doi.org/10.1590/S1981-81222010000100008
  • Heaton, T. J., Köhler, P., Butzin, M., Bard, E., Reimer, R. W., Austin, W. E. N., Bronk Ramsey, C., Grootes, P. M., Hughen, K. A., Kromer, B., Reimer, P. J., Adkins, J., Burke, A., Cook, M. S., Olsen, J., & Skinner, L. C. (2020). Marine20—The Marine radiocarbon age calibration curve (0–55,000 cal BP). Radiocarbon, 62(4), 779–820. https://doi.org/10.1017/RDC.2020.68
    » https://doi.org/10.1017/RDC.2020.68
  • Hogg, A., Heaton, T., Hua, Q., Palmer, J., Turney, C., Southon, J., Bayliss, A., Blackwell, P., Boswijk, G., Bronk Ramsey, C., Pearson, C., Petchey, F., Reimer, P., Reimer, R., & Wacker, L. (2020). SHCal20 Southern Hemisphere calibration, 0–55,000 years cal BP. Radiocarbon, 62(4), 759-778. https://doi.org/10.1017/RDC.2020.59
    » https://doi.org/10.1017/RDC.2020.59
  • Kashimoto, E. M., & Martins, G. R. (2019). Catálogo de artefatos cerâmicos arqueológicos de Mato Grosso do Sul (Série Cultura Material). Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul.
  • Kneip, A., Farias, D., & DeBlasis, P. A. D. (2018). Longa duração e territorialidade da ocupação sambaquieira na Laguna de Santa Marta, Santa Catarina. Revista de Arqueologia, 31(1), 25-51. https://doi.org/10.24885/sab.v31i1.526
    » https://doi.org/10.24885/sab.v31i1.526
  • Kozlowski, H., Kneip, A., & DeBlasis, P. A. D. (2022). Aspectos da ocupação Sambaquieira e Guarani na Lagoa de Imaruí, litoral sul de Santa Catarina. Revista de Arqueologia, 35(2), 63-84. https://doi.org/10.24885/sab.v35i2.994
    » https://doi.org/10.24885/sab.v35i2.994
  • La Salvia, F., & Brochado, J. P. (1989). Cerâmica Guarani Posenato Arte e Cultura.
  • Lavina, R. (1997-1998). Projeto de levantamento arqueológico Rodovia Interpraias: 1º e 2º relatórios parciais. Içara-Araranguá/SC IPAT/UNESC.
  • Lavina, R. (1999). Projeto de salvamento arqueológico da ZPE, Imbituba, SC: relatório final UNESC.
  • Lavina, R. (2000). Projeto de salvamento arqueológico da Rodovia Interpraias (trecho Morro dos Conventos a Lagoa dos Esteves, Araranguá-Içara, SC): relatório final UNESC.
  • Lavina, R. (2003). Sítios arqueológicos litorâneos. In S. B. Caldarelli (Org.), Parecer técnico acerca do valor do patrimônio cultural e natural da região situada entre a barra de Laguna, município de Laguna, e a barra do Rio Araranguá, município de Araranguá, para fins de tombamento e de criação de uma unidade de conservação: relatório técnico (pp. 107-142). Scientia Ambiental.
  • Lavina, R. (2005). Levantamento arqueológico da jazida Eckert: relatório final UNESC.
  • Lino, J. T., & Campos, J. B. (2003). Expedições arqueológicas do sul do estado de Santa Catarina. Revista de Ciências Humanas, 9(1), 17-34.
  • Lino, J. T. (2007). Arqueologia Guarani na bacia hidrográfica do rio Araranguá, Santa Catarina [Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. http://hdl.handle.net/10183/13387
    » http://hdl.handle.net/10183/13387
  • Loponte, D., Carbonera, M., & Radaeski, J. (2024). The Guaraní expansion in the Upper Uruguay River: chronology, colonization strategies, social impacts and environmental changes. Journal of Archaeological Science: Reports, (60), 104826. https://doi.org/10.1016/j.jasrep.2023.104826
    » https://doi.org/10.1016/j.jasrep.2023.104826
  • Loponte, D., Carbonera, M., Schneider, F., Gascue, A., Milheira, R. G., Santos, M. C. P., Campos, J. B., Cerezer, J., Lourdeau, A., Acosta, A., Bortolotto, N., Rogge, J., Machado, N. T., Ali, S., Pérez, M., Bandeira, D. da R., Muller, I., & Borger, J. (2025). The Guaraní expansion through the Lowlands of South America. Archaeological and Anthropological Sciences, 17(78). https://doi.org/10.1007/s12520-024-02158-3
    » https://doi.org/10.1007/s12520-024-02158-3
  • Machado, A. J. (2008). Avançar, adaptar e permanecer: a tradição tupiguarani no Médio Rio das Antas [Dissertação de mestrado, Universidade do Vale do Rio dos Sinos].
  • Mateus, A. P. (2017). Geologia e paleogeografia do sistema deposicional Laguna barreira IV na região das lagoas dos Esteves, do Faxina e Mãe Luzia, sul do estado de Santa Catarina [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina]. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/238647
    » https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/238647
  • Mello, A. D. (2005). Expedições: Santa Catarina na era dos descobrimentos geográficos. Exploração e conquista 1501-1542 (Vol. 1). Expressão.
  • Merencio, F. T., & DeBlasis, P. A. D. (2021). Análises de mobilidade no litoral sul de Santa Catarina entre 2000-500 cal AP. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, (36), 57-91. https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2021.162703
    » https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.2021.162703
  • Milheira, R. G. (2008). Território e estratégia de assentamento Guarani na planície sudoeste da Laguna dos Patos e Serra do Sudeste-RS [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].
  • Milheira, R. G. (2010). Arqueologia Guarani no litoral sul-catarinense: história e território [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.71.2010.tde-23082010-161634
    » https://doi.org/10.11606/T.71.2010.tde-23082010-161634
  • Milheira, R. G., & DeBlasis, P. A. D. (2013). Ocupação do território Guarani no litoral sul-catarinense. Cuadernos del Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano - Series Especiales, 4(1), 148-160.
  • Milheira, R. G., Farias, D. S. E., & Alves, L. (2013). Perfil tipológico da indústria cerâmica Guarani da região sul de Santa Catarina. Revista Tempos Acadêmicos, (11), 210-233.
  • Milheira, R. G., & Santos, J. (2020). Dos potes ao território: o desafio metodológico brochadiano em dois contextos Guarani. Revista Habitus, 18(2), 450-471. https://doi.org/10.18224/hab.v18i2.8334
    » https://doi.org/10.18224/hab.v18i2.8334
  • Montoya, A. R. (2011). Tesoro de la lengua guaraní CEPAG.
  • Neumann, M. A. (2008). Ñande Rekó: diferentes jeitos de ser Guarani [Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/15902
    » https://lume.ufrgs.br/handle/10183/15902
  • Noelli, F. S. (1993). Sem Tekohá não há Tekó: em busca de um modelo etnoarqueológico da aldeia e da subsistência Guarani e sua aplicação a uma área de domínio no delta do rio Jacuí, Rio Grande do Sul [Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul]. http://www.etnolinguistica.org/tese:noelli-1993
    » http://www.etnolinguistica.org/tese:noelli-1993
  • Noelli, F. S. (2000). A ocupação humana na região Sul do Brasil: Arqueologia, debates e perspectivas - 1872-2000. Revista USP, (44), 218-269. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i44p218-269
    » https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i44p218-269
  • Noelli, F. S. (2004). O mapa arqueológico dos povos Jê no sul do Brasil. In K. Tommasino, L. T. Mota, & F. S. Noelli (Eds.), Novas contribuições aos estudos interdisciplinares dos Kaingang (pp. 19-55). EDUEL.
  • Noelli, F. S., Milheira, R. G., & Wagner, G. P. (2014). Os sítios arqueológicos Guarani do litoral sul do Brasil, Uruguai e Argentina: registros até 2013. In R. G. Milheira, & G. P. Wagner (Orgs.), Arqueologia Guarani no litoral sul do Brasil (pp. 177-186). Appris.
  • Noelli, F. S., Brochado, J. J. J. P., & Corrêa, A. A. (2018). A linguagem da cerâmica Guaraní: sobre a persistência das práticas e materialidade (parte 1). Revista Brasileira de Linguística Antropológica, 10(2), 167-200. https://doi.org/10.26512/rbla.v10i2.20935
    » https://doi.org/10.26512/rbla.v10i2.20935
  • Noelli, F. S. (2022). Che rog pypia aje katu! A linguagem da casa-longa Guaraní no século XVII. Revista Tellus, 22(48), 193-226. https://doi.org/10.20435/tellus.v22i48.825
    » https://doi.org/10.20435/tellus.v22i48.825
  • Noelli, F. S., Votre, G. C., Santos, M. C. P., Pavei, D. D., & Campos, J., B. (2022). Ñande reko: os fundamentos do conhecimento ambiental tradicional guarani no Sul do Brasil. Vegetation History and Archaeobotany, 31, 187-203. https://doi.org/10.1007/s00334-021-00848-9
    » https://doi.org/10.1007/s00334-021-00848-9
  • Noelli, F. S. (2025). Não há colonialismo sem tekoába: uma arqueologia das relações e da materialidade entre Tupiniquim e Portugueses na Capitania de São Vicente, Brasil (1502-1700) [Tese de doutorado, Universidade de Lisboa]. http://hdl.handle.net/10400.5/101400
    » http://hdl.handle.net/10400.5/101400
  • Novasco, R. V., Mello, A. B., Cerezer, J. F., Schwengber, V. L., Mafioletti, L., Torquato, T. V., & Santos, J. (2021). Apontamentos sobre a ocupação Guarani no litoral sul de Santa Catarina: o caso do sítio arqueológico Baixo Rio D’Una 1. Pesquisas. Antropologia, (76), 129-142. https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/076/076-003.pdf
    » https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/076/076-003.pdf
  • Oviedo y Valdés, G. F. (1852 [1557]). Historia general y natural de las Indias, islas y tierra-firme del Mar Océano (Vol. 2, tomo primero de la segunda parte). Imprenta de la Real Academia de la Historia.
  • Rice, P. M. (1987). Pottery analysis: a sourcebook (2. ed.). The University of Chicago Press.
  • Rizzardo, F. M., & Rogge, J. H. (2013). Estudo sobre a individualidade da mulher indígena na produção de vasilhas cerâmicas da tradição Guarani. Revista Memorare, (1), 86-94. https://doi.org/10.19177/memorare.v1e1201386-94
    » https://doi.org/10.19177/memorare.v1e1201386-94
  • Rodrigues, J. (1940). A missão dos carijós (1605–1607). In S. Leite (Org.), Novas cartas jesuíticas (De Nóbrega a Vieira) Companhia Editora Nacional.
  • Rogge, J. H. (1996). Adaptação na floresta subtropical: a tradição tupiguarani no Médio Rio Jacuí e no Rio Pardo (Documentos, 6). Instituto Anchietano de Pesquisa/UNISINOS. https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/documentos/documentos06.pdf
    » https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/documentos/documentos06.pdf
  • Rogge, J. H. (2005). Fenômenos de fronteira: um estudo das situações de contato entre os portadores das tradições cerâmicas pré-históricas no Rio Grande do Sul. Pesquisas. Antropologia, (62), 9-119.
  • Rogge, J. H., & Schmitz, P. I. (2009). Pesquisas arqueológicas em São Marcos, RS. Pesquisas. Antropologia, (67), 23-132. https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/067/Rogge%20e%20Schmitz.pdf
    » https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/067/Rogge%20e%20Schmitz.pdf
  • Rohr, J. A. (1982). Pesquisas arqueológicas no município catarinense de Urussanga. Anais do Museu de Antropologia da UFSC, 11-14(12-15), 48-59.
  • Santa Cruz, A. (1918 [1542]). Islario general de todas las islas del Mundo Imprenta del Patronato de Huérfanos de Intendencia y Patronato Militares.
  • Santos, M. C. P., Costa, J. G., & Campos, J. B. (2015). Escolhas de matérias-primas rochosas por grupos pré-históricos caçadores-coletores na microbacia do Rio da Pedra, Jacinto Machado/Santa Catarina. Cadernos do LEPAARQ, 12(23), 22-42. https://doi.org/10.15210/lepaarq.v12i23.3634
    » https://doi.org/10.15210/lepaarq.v12i23.3634
  • Santos, M. C. P., Pavei, D. D., & Campos, J. B. (2016). Arqueologia entre rios: do Urussanga ao Mampituba. Paleoambiente, cultura material e ocupação humana na paisagem litorânea do extremo sul catarinense entre 3.500-200 anos AP. Revista Cadernos do CEOM, 29(45), 64-86. https://doi.org/10.22562/2016.45.03
    » https://doi.org/10.22562/2016.45.03
  • Santos, J., Milheira, R. G., & Campos, J. B. (2017). Entre rios, dunas, lagoas e o mar: arqueologia guarani no litoral sul de Santa Catarina. Revista de Arqueologia, 30(1), 28-55. https://doi.org/10.24885/sab.v30i1.501
    » https://doi.org/10.24885/sab.v30i1.501
  • Santos, M. C. P., Pavei, D. D., & Campos, J. B. (2018). Sambaqui Lagoa dos Freitas, Santa Catarina: Estratigrafia, antiguidade, arqueofauna e cultura material. Revista Memorare, 5(1), 157-196. https://doi.org/10.19177/memorare.v5e12018156-195
    » https://doi.org/10.19177/memorare.v5e12018156-195
  • Schmitz, P. I. (1996). Acampamentos litorâneos em Içara, SC: um exercício em padrão de assentamento. Clio. Arqueologia, (11), 99-118.
  • Schmitz, P. I. (1998). Continuidade e mudança no litoral de Santa Catarina. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, (8), 25-31. https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.1998.109519
    » https://doi.org/10.11606/issn.2448-1750.revmae.1998.109519
  • Schmitz, P. I., Rosa, A. O., Izidoro, J. M., Haubert, F., Krever, M. L. B., Bitencourt, A. L. V., . . . Beber, M. V. (1999). Içara: um jazigo mortuário no litoral de Santa Catarina, Pesquisas. Antropologia, (55), 1-164. https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/055.pdf
    » https://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/antropologia/volumes/055.pdf
  • Schmitz, P. I., & Sandrin, C. (2009). O sítio Lagoa dos Índios e o povoamento Guarani da planície costeira do Rio Grande do Sul. In P. I. Schmitz (Ed.), Arqueologia do Rio Grande do Sul (Documentos, 11, pp. 89-134). Instituto Anchietano de Pesquisas.
  • Schneider, F., Wolf, S., Kreutz, M. R., & Machado, N. T. G. (2017). Tempo e espaço Guarani: um estudo acerca da ocupação, cronologia e dinâmica de movimentação pré-colonial na Bacia do Rio Taquari/Antas, Rio Grande do Sul, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 12(1), 31-56. https://doi.org/10.1590/1981.81222017000100003
    » https://doi.org/10.1590/1981.81222017000100003
  • Schneider, F. (2019). Poder, transformação e permanência: a dinâmica de ocupação Guarani na Bacia do Rio Taquari-Antas, Rio Grande do Sul, Brasil [Tese de doutorado, Universidade do Vale do Taquari]. http://hdl.handle.net/10737/2613
    » http://hdl.handle.net/10737/2613
  • Schneider, F., & Machado, N. T. G. (2020). Organização regional dos assentamentos Guarani: uma proposta interpretativa a partir da cerâmica arqueológica. Habitus, 18(2), 393-419. https://doi.org/10.18224/hab.v18i2.8642
    » https://doi.org/10.18224/hab.v18i2.8642
  • Silverman, B. W. (1986). Density estimation for statistics and data analysis Chapman and Hall.
  • Simões, A. P. A., Kunzli, R., Moraes, J. C. S., Arantes Neto, M. S., & Yukimitu, K. (2002). Um estudo das temperaturas de queima de cerâmicas e suas consequências na datação arqueológica. In Anais do XV Congresso Brasileiro de Engenharia e Ciência dos Materiais (pp. 480-484). Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
  • Soares, A. L. R. (1997). Guarani, organização social e arqueologia EDIPUCRS.
  • Stuckenrath, R., & Mielke, J. E. (1970). Smithsonian Institution Radiocarbon Measurements VI. Radiocarbon, 12(1), 193-204. http://dx.doi.org/10.1017/S0033822200036286
    » https://doi.org/10.1017/S0033822200036286
  • Viana, W. C., Back, M., Campos, J. B., Cerezer, J. F., & Zocche, J. J. (2017). ‘Terra-preta’ em sítios arqueológicos no litoral sul de Santa Catarina, Brasil: o caso dos sítios Olho D’Água I e Escola Isolada Lagoa dos Esteves. Interciencia, 42(8), 522-528. https://www.redalyc.org/pdf/339/33952871007.pdf
    » https://www.redalyc.org/pdf/339/33952871007.pdf
  • Vizcaya, J. S. (1946 [1552]). Carta escrita da costa do Brasil. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo, (46), 309-311.
  • Wagner, G. P. (2009). Sambaquis da barreira da Itapeva: uma perspectiva geoarqueológica [Tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul]. https://hdl.handle.net/10923/3866
    » https://hdl.handle.net/10923/3866

Editado por

  • Responsabilidade editorial:
    Jorge Eremites de Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Jul 2025
  • Aceito
    05 Fev 2026
location_on
MCTI/Museu Paraense Emílio Goeldi Coordenação de Pesquisa e Pós-Graduação, Av. Perimetral. 1901 - Terra Firme, 66077-830 - Belém - PA, Tel.: (55 91) 3075-6186 - Belém - PA - Brazil
E-mail: boletim.humanas@museu-goeldi.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro