A pesca do tamoatá Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes: Callichthyidae) na ilha de Marajó

The fishery of tamoatá Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes: Callichthyidae) in the Marajó Island

Resumos

Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes, Callichthyidae) é um peixe de médio porte conhecido na Amazônia brasileira como tamoatá. Apresenta respiração acessória, o que permite ocupar as extensas áreas pantanosas da foz dos rios Amazonas e Orinoco. O tamoatá é o principal recurso pesqueiro da ilha de Marajó, sendo capturado principalmente nos campos alagados da bacia do rio Arari, no município de Santa Cruz do Arari (PA). Seu desembarque representa 6% do total no porto do Ver-o-Peso, em Belém (PA), o principal da Amazônia oriental. A pesca do tamoatá é marcadamente sazonal, ocorrendo na estação seca. De julho a agosto, é mais intensa no rio e lago Arari e de outubro a novembro, nos poços das fazendas, que são os últimos a secarem na região. A pesca é feita por pescadores locais, que vendem sua produção para as geleiras. Estas são embarcações de madeira, com urnas de gelo que levam a produção para ser comercializada nos principais portos urbanos, em especial o do Ver-o-Peso. A pesca é aqui descrita com base em observações de campo e entrevistas estruturadas com pescadores comerciais e fazendeiros da região. A frota de geleiras que desembarca o tamoatá em Belém é composta por 415 embarcações com capacidade de urna de até 27 t. As pescarias são realizadas, basicamente, por redes de emalhar de monofilamento e de cerco de multifilamento.

Pesca; Tamoatá; Hoplosternum littorale; Ilha de Marajó


Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes, Callichthyidae) is a middle size catfish, known in the Brazilian Amazon as 'tamoatá'. It uses an accessory air-breathing organ to live in the poor oxygen swamps of the mouth of Amazon and Orinoco rivers. The tamoatá is the main fishery resource of the Marajó Island and it is caught in the flooded savanna of the Arari River basin, near the Santa Cruz do Arari city, Pará State. The tamoatá landing in the port of Ver-o-Peso, in Belém, represents about 6% of the total fish landing. The tamoatá fishery is seasonal, occurring mainly in the dry season. The fishery occurs in the river and lake environments, during July and August, and moves to the pools in the farms, which are the last to be dried in the region, during October and November. People that live in the region also do the fishery, and they sell production to fishing boats sellers, called locally as 'geleiras'. Those boats are made of wood and carry the fish in iceboxes. The fishes are sold at the ports of important cities, in special the Ver-o-Peso port. The fishery activity is here described based on the interviews with fishermen and local inhabitants. Along the period of this study, were registered 415 boats carrying the tamoatá to Belém. The icebox capacities in the boats were until to 27 tons. The fishery gears used were gillnet and seine net.

Fishery; Tamoatá; Hoplosternum littorale; Marajó Island


ARTIGOS

A pesca do tamoatá Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes: Callichthyidae) na ilha de Marajó

The fishery of tamoatá Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes: Callichthyidae) in the Marajó Island

Adna Almeida de AlbuquerqueI; Ronaldo Borges BarthemII

IMuseu Paraense Emílio Goeldi. Coordenação de Zoologia. Belém, Pará, Brasil (adnaalbuquerque@yahoo.com.br)

IIMuseu Paraense Emílio Goeldi. Coordenação de Zoologia. Belém, Pará, Brasil (barthem@museu-goeldi.br)

RESUMO

Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes, Callichthyidae) é um peixe de médio porte conhecido na Amazônia brasileira como tamoatá. Apresenta respiração acessória, o que permite ocupar as extensas áreas pantanosas da foz dos rios Amazonas e Orinoco. O tamoatá é o principal recurso pesqueiro da ilha de Marajó, sendo capturado principalmente nos campos alagados da bacia do rio Arari, no município de Santa Cruz do Arari (PA). Seu desembarque representa 6% do total no porto do Ver-o-Peso, em Belém (PA), o principal da Amazônia oriental. A pesca do tamoatá é marcadamente sazonal, ocorrendo na estação seca. De julho a agosto, é mais intensa no rio e lago Arari e de outubro a novembro, nos poços das fazendas, que são os últimos a secarem na região. A pesca é feita por pescadores locais, que vendem sua produção para as geleiras. Estas são embarcações de madeira, com urnas de gelo que levam a produção para ser comercializada nos principais portos urbanos, em especial o do Ver-o-Peso. A pesca é aqui descrita com base em observações de campo e entrevistas estruturadas com pescadores comerciais e fazendeiros da região. A frota de geleiras que desembarca o tamoatá em Belém é composta por 415 embarcações com capacidade de urna de até 27 t. As pescarias são realizadas, basicamente, por redes de emalhar de monofilamento e de cerco de multifilamento.

Palavras-chave: Pesca. Tamoatá. Hoplosternum littorale. Ilha de Marajó.

ABSTRACT

Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes, Callichthyidae) is a middle size catfish, known in the Brazilian Amazon as 'tamoatá'. It uses an accessory air-breathing organ to live in the poor oxygen swamps of the mouth of Amazon and Orinoco rivers. The tamoatá is the main fishery resource of the Marajó Island and it is caught in the flooded savanna of the Arari River basin, near the Santa Cruz do Arari city, Pará State. The tamoatá landing in the port of Ver-o-Peso, in Belém, represents about 6% of the total fish landing. The tamoatá fishery is seasonal, occurring mainly in the dry season. The fishery occurs in the river and lake environments, during July and August, and moves to the pools in the farms, which are the last to be dried in the region, during October and November. People that live in the region also do the fishery, and they sell production to fishing boats sellers, called locally as 'geleiras'. Those boats are made of wood and carry the fish in iceboxes. The fishes are sold at the ports of important cities, in special the Ver-o-Peso port. The fishery activity is here described based on the interviews with fishermen and local inhabitants. Along the period of this study, were registered 415 boats carrying the tamoatá to Belém. The icebox capacities in the boats were until to 27 tons. The fishery gears used were gillnet and seine net.

Keywords: Fishery. Tamoatá. Hoplosternum littorale. Marajó Island.

INTRODUÇÃO

Hoplosternum littorale (Hancock, 1828) (Siluriformes, Callichthyidae) é um peixe de médio porte, coberto por placas dérmicas e conhecido na Amazônia brasileira como tamoatá. Apresenta respiração acessória que o torna apto a viver em áreas pantanosas pobres em oxigênio (Hostache & Mol, 1998; Brauner et al., 1999). O tamoatá é abundante nos campos alagados das desembocaduras dos rios Amazonas e Orinoco e representa um importante recurso pesqueiro para os pescadores destas regiões (Hostache & Mol, 1998; Barthem, 2004).

A ilha de Marajó (PA) é a principal área de pesca do tamoatá na região da foz amazônica, sendo este pescado explotado principalmente nos campos alagados que margeiam o rio e o lago Arari. A sua pesca é sazonal e ocorre, sobretudo, no período da seca, entre os meses de julho e dezembro (Almeida & Sprandel, 1998). O Ver-o-Peso, em Belém, no estado do Pará, é o principal porto de desembarque do tamoatá capturado na ilha de Marajó. Neste, o desembarque do tamoatá representa 6% do total, sendo o quinto pescado em volume de desembarque (Barthem, 2004). Além de suprir parte do mercado interno, o tamoatá já teve grande importância na exportação do estado do Pará, tendo o Suriname como seu principal importador (Tuma, 1978).

A pesca do tamoatá é manejada com base na implementação do período de defeso, que vai de 1o de janeiro a 30 de abril, atualmente estabelecido pela Instrução Normativa No. 43 do IBAMA (18/10/2005). No entanto, a carência de informação sobre esta pesca não permite inferir sobre o atual estado de explotação deste recurso e a eficiência do manejo que está sendo aplicado.

Os principais estudos que subsidiam a administração e o monitoramento dos estoques pesqueiros são baseados nos dados provenientes do desembarque da pesca comercial. A compreensão e a descrição desta atividade são, portanto, o primeiro passo para se conhecer a qualidade da informação a ser analisada. Com base nisto, o presente trabalho tem como objetivo caracterizar o processo de explotação do tamoatá na ilha de Marajó, caracterizando os aparelhos e as técnicas empregadas, as embarcações de pesca e a organização dos pescadores durante a pescaria.

MATERIAL E MÉTODOS

A pesca do tamoatá na ilha de Marajó foi investigada tomando como base as observações e informações obtidas em campo, acompanhando as pescarias e entrevistando pescadores comerciais, geleiros e fazendeiros das localidades da região de Santa Cruz do Arari, e os registros de desembarque da pesca comercial no porto do Ver-o-Peso, em Belém.

As observações de campo foram realizadas entre setembro e outubro de 2005, quando foram acompanhadas as pescarias artesanais em diversos trechos do rio e do lago Arari. As entrevistas estruturadas foram realizadas com auxílio de um formulário com perguntas abertas, que se concentravam no período e nas áreas de pesca preferenciais, na dimensão e procedência da embarcação, nos apetrechos e na técnica de pesca empregados, no número de pessoas envolvidas e na forma de comercialização.

A descrição da frota comercial foi baseada, principalmente, nos dados de desembarque da frota pesqueira artesanal do Marajó que desembarcou no porto do Ver-o-Peso, de junho de 1993 a julho de 1997 e de junho de 2000 a dezembro de 2004. Informações complementares foram obtidas por meio das entrevistas com pescadores comerciais e tripulantes de geleiras que atuam em Santa Cruz do Arari e Vila de Jenipapo, na ilha de Marajó.

RESULTADOS

Pesca do tamoatá na ilha de Marajó

Foram entrevistados 35 pescadores residentes no município de Santa Cruz do Arari, na Vila de Jenipapo e nos campos. Todos os pescadores eram do sexo masculino e 91% apresentaram idade entre 25 e 60 anos.

A Instrução Normativa No. 43 do IBAMA 18/10/2005) define que a pesca comercial nesta região é permitida de maio a dezembro. Apesar disso, os pescadores ali residentes pescam comercialmente um pouco mais tarde, de junho a dezembro, no período da seca. A safra, como é denominado o período de maior atividade pesqueira, varia de acordo com a chuva, sendo sua duração média de três a quatro meses. A pesca é mais favorável no lago e rio Arari no início da estação seca, de julho a agosto. A pesca nesses ambientes se torna problemática no fim da seca, pois os pescadores enfrentam o risco de ficar presos nos lagos e rios secos. A pesca entre outubro e novembro se dá nos lagos e campos que ficam no interior das propriedades rurais. Nestas situações, a pesca ocorre por iniciativa do proprietário ou quando os pescadores arrendam do mesmo, por tempo determinado, o direito de pescar nos poços, igarapés e lagos de sua propriedade. O valor do arrendamento é baseado na produção do pescado, cuja renda é dividida pela metade com o proprietário da fazenda. O proprietário também pode fornecer os equipamentos de trabalho e os barcos, se for necessário.

A pesca do tamoatá na região de Santa Cruz do Arari ocorre, principalmente, no lago Arari, nas fazendas em torno do lago e nos rios próximos ao lago, como Arari, Tartaruga e Anajás Mirim. A pesca é totalmente artesanal, sendo o mesmo equipamento utilizado em muitas ocasiões, tanto para a pesca de subsistência quanto para a pesca comercial.

Além dos equipamentos de pesca, os pescadores empregam canoas ou casco e varas para as pescarias comerciais, individuais ou em grupos, do tamoatá nos rios e lagos da região do alto Arari. A canoa é a embarcação principal e a maior delas mede aproximadamente 10 m de comprimento, 1,80 m de largura e 90 cm de profundidade, sendo motorizada ou à vela. Ela é utilizada no transporte das grandes redes e na condução do pescado do lago para as geleiras (Figura 1). As canoas menores são chamadas de casco e são movidas a remo por um ou dois pescadores. As varas são utilizadas para fixar as redes de emalhar no meio do lago.

Os apetrechos mais utilizados são redes de cerco e de emalhar, empregadas principalmente na pesca comercial. O uso da tarrafa também é muito difundido e é empregado basicamente para pesca de subsistência.

As redes de cerco são feitas de fios de náilon multifilamentar, chamados de 'fio de algodão', cuja panagem é tecida pelos próprios pescadores e seus familiares. As redes medem de 80 a 200 m de comprimento (conforme a largura do rio onde é empregada) e 3 m de altura. O tamanho da malha varia entre 25 a 40 mm entre nós opostos, dependendo da espécie alvo; para a pesca do tamoatá, a malha utilizada é de 25 a 35 mm entre nós opostos. Por sua vez, as redes de emalhar são feitas de fios de náilon monofilamentar, chamados de 'fibra de náilon', e apresentam comprimentos e malhas de tamanhos variados. Estas redes são empregadas tanto pelo modo passivo, como redes de espera, durante todo o ano, quanto pelo modo ativo, arrastada por dois pescadores em águas rasas, durante a seca (Tabela 1).

Os pescadores usam as redes de cerco de duas formas, denominadas de 'arrasto de lanço' e 'arrasto de encontro'. O arrasto de lanço é realizado principalmente durante a estação seca no rio Arari, em rios, furos e igarapés, quando as águas estão rasas o suficiente para que os pescadores arrastem as redes de dentro da água (Figura 2). Após a escolha do local, a rede é estendida de margem a margem por dois pescadores, um de cada lado do rio, bloqueando o canal para evitar a fuga dos peixes. Após a rede ser estendida, ela começa a ser arrastada vagarosamente. Um pouco mais adiante, três homens, dois dentro da água e um terceiro na canoa, se aproximam da rede fazendo a 'batição', quando batem varas compridas na água, feitas de bambu, madeira ou ferro, para espantar os peixes para a rede. Em seguida, uma das extremidades da rede é puxada para a margem do rio, onde a canoa aguarda a despesca. Os peixes capturados são retirados das redes com ajuda de vasilhames de plástico e acondicionados dentro das canoas grandes. A captura pode atingir até duas toneladas por arrasto, sendo a média de 600 a 700 kg, exigindo que a despesca seja feita por oito pescadores, em média. A produção e o pescado são sempre transportados para as geleiras por canoas movidas a motor.

O arrasto de encontro ou cacuri utiliza duas redes de cerco, uma de tamanho semelhante ao arrasto de lanço e a outra, denominada de cacuri, menor no comprimento, com 60 a 150 m, e no tamanho das malhas, de 25 a 35 mm entre nós opostos, mas com a mesma altura, 3 m. Como no arrasto de lanço, esta pesca é realizada em águas rasas no rio e no lago Arari, durante a estação seca, e envolve de oito a dez homens. Após a escolha do local, a rede maior é estendida de um lado por dois pescadores e, uns 200 m mais adiante, o cacuri é arrastado por outros dois pescadores ao encontro da primeira rede. Quando acontece o encontro, as duas redes se fecham, ficando a maior em torno do cacuri. A despesca também é feita numa canoa grande, como na pesca de lanço. Como a malha é pequena, esta pesca é menos seletiva e captura peixes menores. Quando utilizada em áreas abertas, como no lago Arari, é necessária a 'batição' de varas para que os peixes não escapem pelas laterais (Figura 3). Os pescadores e moradores da região acreditam que, atualmente, a maioria das pescarias está sendo realizada por arrasto de encontro (cacuri). Muitas vezes, o cacuri e a rede de cerco maior podem ser arrastados na mesma direção, para que, quando a segunda rede passar, ela possa capturar os peixes que se enterraram na lama.

As redes de emalhar são denominadas pelos moradores e pescadores da região de Santa Cruz do Arari como 'redes de fibra'. As panagens destas redes são adquiridas prontas, não havendo a necessidade de serem tecidas pelos pescadores, e estas podem ser utilizadas como rede de cerco ou de espera. Quando utilizadas como redes de cerco ou de arrasto, as redes de fibra comumente medem de 100 a 200 m de comprimento e 1,5 a 2 m de altura. As malhas mais utilizadas são de 30 a 35 mm entre nós adjacentes. As redes são empregadas na época seca em áreas de criadouro, como nos campos, igarapés, rios e lagos, quando a profundidade permite que a rede possa ser arrastada (Figura 4). O arrasto é geralmente feito pela manhã e envolve de dois a três pescadores. A distância que a rede é arrastada é maior no lago, de 400 a 500 m, do que no rio, aproximadamente 100 m, pois há maior facilidade de emalhar os peixes neste último. A despesca é feita em canoas pequenas de 6,5 m de comprimento.

As redes de emalhar utilizadas de modo passivo medem de dois a cinco metros de altura e possuem malhas variando de 30 a 35 mm entre nós adjacentes (Figura 5). Seu comprimento mede de 100 a 200 m, mas quando são unidas como uma bateria de redes o comprimento varia de 600 a 1.500 m. As pescarias com rede de espera são realizadas tanto na seca quanto na cheia. Durante a seca, são mais utilizadas nos rios Anajás e Arari e, durante a cheia, no lago Arari. As pescarias são realizadas durante o dia e à noite sob quaisquer condições ambientais. No entanto, há uma preferência de se pescar durante as noites de lua nova, pois os pescadores acreditam que em noites claras os peixes sejam capazes de enxergar as redes. A despesca é realizada em canoas pequenas de 6,5 m de comprimento.

As tarrafas são redes circulares orladas de chumbos. As utilizadas nesta região possuem 4 m de diâmetro e possuem malhas de 25 a 30 mm entre nós opostos, podendo ser manufaturadas industrialmente ou pelos próprios pescadores. São utilizadas o ano inteiro, mas principalmente na estação seca. As espécies mais capturadas com a tarrafa são, além do tamoatá, a traíra (Hoplias malabaricus), os aracus (Anostomidae), o jeju (Erythrinidae) e o cachorro-de-padre (Auchenipteridae). As pescarias com tarrafa não possuem fins comercias, sendo realizadas somente para subsistência (Figura 6).

Produção do tamoatá na ilha de Marajó

A produção do tamoatá na ilha de Marajó é sazonal, tanto devido à peculiaridade do ambiente quanto pela legislação vigente. Mas há uma pesca de subsistência durante o período de chuvas. Os pescadores entrevistados na vila de Jenipapo afirmaram que a pesca é menos intensa quando os campos estão alagados, mas os que pescam neste período costumam salgar o pescado. Há uma notável variação na composição da produção de pescado capturado no rio e no lago Arari entre as estações seca e de alagação. Os peixes se dispersam nos campos alagados para a desova e, em virtude disso, há uma diminuição da produção, tanto em termos quantitativos como em qualitativos, sendo as espécies capturadas as de menor valor. Por outro lado, no período seco, com a diminuição no nível de água e a ocorrência da pós-desova, os peixes se concentram nos poços e canais secos.

Os pescadores e donos de geleira entrevistados relatam que a quantidade de peixe capturado na região diminui a cada ano que passa. Os pescadores da vila de Jenipapo estimam que há sete anos se capturava anualmente cerca de 300 t de tamoatá no lago Arari e, nos últimos anos, a produção caiu para 70 t anuais. Os moradores da região atribuem este fato a diversos fatores, que envolvem a secagem do lago Arari, a intensa criação de bubalinos e bovinos na região de Santa Cruz do Arari e a sobrepesca. A sobrepesca é atribuída ao fato da pesca de arrasto com cacuri usar a malha de 25 mm entre nós opostos, tendo como resultado o descarte de toneladas de peixes juvenis sem valor comercial.

Por outro lado, uma barragem entre a desembocadura do rio Arari e o lago Arari foi construída pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) na década de 1980, próxima à vila de Jenipapo. Esta teve o propósito de controlar as intensas secas que ocorrem eventualmente no lago Arari, impedindo que o lago seque e que todos os peixes escoem para o rio. Os moradores afirmam que agora, com a 'tapagem' (nome dado pelos moradores da região), consegue-se pescar no lago por mais tempo. Atualmente, a barragem é aberta no início da estação chuvosa, devido à piracema, e fechada na estação seca. Apesar disso, conforme os moradores locais, o peixe vem diminuindo cada vez mais nos rios e lagos.

Ainda conforme as informações de moradores e pescadores, geleiras de 15 t chegavam à vila de Jenipapo há alguns anos e hoje chegam, no máximo, geleiras de até 10 t. Os entrevistados dizem que a diminuição da produção de pescado reduziu a freqüência e o tamanho das geleiras que chegam à vila do Jenipapo.

Primeira venda: comércio entre pescadores e geleiras

O tamoatá é um dos peixes que apresenta alto valor na primeira venda, entre pescadores e geleiras (Tabela 2). As geleiras (Figura 7) transportam o tamoatá capturado na ilha de Marajó aos principais portos urbanos, sendo o Ver-o- Peso o principal. O município de Santa Cruz do Arari e a vila de Jenipapo são os destinos obrigatórios das geleiras que sobem o rio Arari, vindas de Belém, Abaetetuba, Ponta de Pedras e Cametá.

Os pescadores da região estimam que, atualmente, cheguem à vila de Jenipapo, em média, dez geleiras por mês para comprar pescado. As geleiras já vêm abastecidas com gelo e 'rancho' (alimentação) para o período das pescarias. O gelo é trazido do local de origem da geleira ou de uma das cidades existentes ao longo do seu percurso, pois não existe fábrica de gelo em Jenipapo ou em Santa Cruz do Arari.

As geleiras não levam pescadores em sua tripulação. Os proprietários ou encarregados de geleiras trabalham com equipes de pescadores locais, residentes na vila de Jenipapo ou em Santa Cruz do Arari, onde um pescador chefe assume a função de organizar a equipe de pescadores. Este pescador chefe é, geralmente, o dono dos utensílios de pesca e contrata outros pescadores para formar as 'turmas de pesca'. Muitas vezes, os encarregados das geleiras fecham acordo com mais de um pescador chefe, dependendo da capacidade de sua urna e do sucesso dos pescadores nas pescarias.

As equipes de pescadores são encarregadas de pescar e levar a produção para ser vendida na geleira, que permanece ancorada. Após a venda, o pescado é acondicionado em gelo nas urnas ou caixas de isopor. As geleiras partem, em geral, quando completamente abastecidas. Apesar da maior parte da produção ser destinada a compradores fixos, há pescadores locais que possuem suas próprias embarcações e que levam o pescado para ser vendido diretamente nas cidades. Eventualmente, o pescado é transportado por barcos de passageiros, que fazem o trajeto de Santa Cruz do Arari e vila de Jenipapo para Belém. Caixas de isopor com 100 e 200 kg de tamoatá são embarcadas duas vezes por semana na época de safra. No entanto, esta produção é pequena quando comparada com a transportada pelas geleiras.

Uma parte da captura é dividida entre os pescadores para seu próprio consumo ou para ser vendida em sua comunidade. Quando o pescado é destinado à comunidade, acaba sendo vendido em 'cambadas' (reunião de várias espécies com um único valor de venda). Os pescadores estimam que a captura do tamoatá representa 90% da produção total no período da estação seca, na região de Santa Cruz do Arari.

Segunda venda: o desembarque do tamoatá no ver-o-peso

As estatísticas de desembarque pesqueiro neste porto estão disponíveis para os anos de 1994 a 1996 e 2001 a 2004. Neste período, foram registrados 1.308 desembarques de tamoatá capturados na ilha de Marajó. Cada desembarque representa o resultado da viagem de uma geleira à região do Marajó. O número médio de viagens à ilha de Marajó para trazer tamoatás foi de 191 por ano ou 16 mensais. O volume anual médio de tamoatás desembarcados desta região foi de 338 t. Os meses de agosto a dezembro foram os que apresentaram valores médios acima de 40 t mensais, sendo o mês de novembro o que apresentou o maior valor (70 t). A atividade é reduzida no período de defeso, mas não totalmente paralisada. A produção anual de tamoatá diminuiu em relação aos dois períodos de estudo. Os desembarques anuais nos anos de 1994-1996 apresentaram-se superiores a 400 t e os dos anos 2001- 2004, inferiores a 300 t (Tabela 3).

A frota que atuou no período investigado era composta por 415 embarcações, todas feitas de madeira e com urnas com capacidades que variaram de 0,5 a 27 t de gelo. Estas embarcações estão sediadas em 16 municípios dos estados do Pará e Amapá, sendo que as maiores frotas estão nos municípios da ilha de Marajó (54%), em Belém (26%) e Abaetetuba (8%) (Tabela 4). As maiores embarcações estão sediadas em Santa Cruz do Arari, Soure e Belém.

As estatísticas sobre comercialização de tamoatá no mercado do Ver-o-Peso são referentes aos períodos de julho de 1994 a dezembro de 1996 e de junho de 2000 a dezembro de 2003. O preço do tamoatá vendido ao consumidor no mercado do Ver-o-Peso, nestes períodos, variou de R$ 0,50, em novembro e dezembro de 1994 e em novembro de 2000, a R$ 4,00, em abril de 2001, setembro de 2002 e novembro de 2003. O valor total anual do tamoatá comercializado no Ver-o-Peso foi estimado multiplicando o preço médio mensal aplicado ao consumidor pelo total mensal desembarcado. Estas estimativas indicam que o valor do tamoatá do Marajó desembarcado no Ver-o-Peso alcançou cifras anuais entre R$ 310 mil, em 2003, e R$ 1.103 mil, em 1996. Considerando o montante médio obtido com a venda mensal do tamoatá nos dois períodos de estudo, 1994-1996 e 2000-2003, constatou-se que estes valores caíram de R$ 78 mil, no primeiro período, para R$ 45 mil, no segundo. Esta perda de valor não foi decorrente de seu valor unitário, tendo em vista que o seu preço médio aumentou, no período, de R$ 1,15 para R$ 2,65, e sim devido à queda na produção (Tabela 5).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A importância comercial do tamoatá já foi maior no passado, quando havia exportação deste pescado para outros países, principalmente Suriname (Pinto, 1956; Tuma, 1978; Isaac & Barthem, 1995). Atualmente, o tamoatá não está mais sendo exportado. O valor de sua produção no porto do Ver-o-Peso também foi reduzido, quando é comparado o montante médio obtido com a venda mensal do tamoatá entre 1994-1996 e entre 2000-2003.

As geleiras continuam sendo o principal meio de se escoar a produção do interior do Marajó, como ocorria na década de 1950 (Pinto, 1956). Porém, hoje em dia, o transporte é realizado eventualmente tanto por barcos de passageiros que fazem o trajeto de Santa Cruz do Arari e vila de Jenipapo para Belém, como por embarcações dos pescadores locais. A frota de geleiras que visitou esta região nos períodos de estudo era composta por mais de 400 embarcações. A produção de tamoatá média destas embarcações foi de 305 t anuais e 2 t por cada viagem ao interior da ilha de Marajó.

A forma de se comercializar o pescado foi recentemente modificada. Antes, era realizada principalmente através de um consignatário, que comprava a produção dos pescadores e vendia, em seguida, para as geleiras (Almeida & Sprandel, 1998). A figura do consignatário não existe mais, sendo o pescado vendido pelo pescador diretamente às geleiras.

Houve, também, modificações nas técnicas de pesca desde a década de 1950, quando as pescarias realizadas na região do rio Arari eram baseadas, principalmente, na tarrafa, no curral, na camboa e no cacuri (Pinto, 1956). Atualmente, a pesca do tamoatá é mais especializada, feita, sobretudo, com redes de cerco, denominadas de arrasto de lanço, e encontro ou cacuri. A captura média de cada arrasto é de 600 a 700 kg, podendo alcançar até duas toneladas, e o pescado é sempre transportado para as geleiras por canoas movidas a motor.

A pesca do tamoatá na ilha do Marajó passou por transformações que a tornou mais especializada e economicamente importante. Conflitos locais foram reduzidos com a organização dos pescadores, que passaram a atuar em equipes e a negociar diretamente com os encarregados das geleiras ou proprietários das fazendas. A economia gerada anualmente por esta atividade já chegou a ultrapassar um milhão de reais em 1996 e diminuiu para menos da metade em 2003. A sustentabilidade desta atividade sofre com a ameaça da sobrepesca e com a modificação dos habitats devido à intervenção humana. A pesca tem sido manejada com a implantação de um período de defeso, que reduz a pressão pesqueira quando as espécies estão se reproduzindo. Apesar do defeso não ser totalmente obedecido, pois há desembarques de tamoatá durante todo o ano, este tipo de pesca apresenta características que facilitam a sua implantação, pois é concentrado na atividade de poucas embarcações. No entanto, o maior desafio está na conservação dos habitats aquáticos do interior da ilha, que sustentam não somente os recursos pesqueiros explotados pela pesca comercial, como também uma grande variedade de espécies nativas de plantas e animais. Desse modo, o futuro econômico desta atividade dependerá tanto da capacidade de se gerenciar a explotação comercial do tamoatá como também de se conservar os principais ambientes aquáticos do interior da ilha do Marajó.

Recebido: 16/08/2007

Aprovado: 13/11/2008

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Ago 2010
  • Data do Fascículo
    Dez 2008
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