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Open-access Filosofia experimental e bioética experimental: uma estimativa

Resumo

Esta pesquisa busca investigar a denominada bioética experimental, examinando e denunciando carências e simplificações, por vezes injustificáveis, no corpus da bioética. São discriminados alguns temas: abertura à realidade como exigência filosófica; relevância dos dados e prioridade da concretude; interesse epistemológico marcado; vinculação à psicologia cognitiva, moral e social; proeminência da intuição como conceito e como função; aproximação à linguagem, à cultura e à estatística; compreensão e desenvolvimento de temas científicos pelas classes populares; sensibilidade contextual regional e ambiental; e relevância dos experimental thoughts como cenários hipotéticos incentivadores de discussão. Neste estudo, a função principal da razão é considerada sem desacreditar intuições, sentimentos ou emoções, e observa-se que as contradições, exceções e divergências, próprias da filosofia experimental e da bioética experimental, não devem ser interpretadas como falsidades ou incoerências, dado que integram a metodologia e a epistemologia próprias da experimentação.

Bioética; Filosofia; Psicologia; Intuição; Emoções; Consciência

Abstract

This research aims to investigate what is known as experimental bioethics, examining and denouncing the sometimes unjustifiable shortcomings and simplifications in the corpus of the field. Some themes are described: openness to reality as a philosophical requirement; relevance of data and priority of concreteness; marked epistemological interest; link to cognitive, moral and social psychology; prominence of intuition as a concept and as a function; approach to language, culture and statistics; understanding and development of scientific themes by the working classes; regional and environmental contextual sensitivity; and relevance of experimental thoughts as hypothetical scenarios that encourage discussion. In this study, the main function of reason is considered without discrediting intuition, feelings or emotions, and it is observed that the contradictions, exceptions and divergences typical of experimental philosophy and experimental bioethics should not be interpreted as falsehoods or inconsistencies, since they are part of the methodology and epistemology of experimentation.

Bioethics; Philosophy; Psychology; Intuition; Emotions; Conscience

Resumen

Esta investigación pretende aprofundar la denominada bioética experimental, que implementa el corpus de la bioética inicial, examinando algunas limitaciones y, principalmente, evidenciando sus principales características: abertura a la realidad como exigencia filosófica y científica de datos; objetividad; acentuado interés epistemológico; estrecha vinculación con la psicología cognitiva, moral y social; protagonismo de la intuición como concepto y como función; acercamiento al lenguaje, cultura y comprensión de temas científicos por parte de las clases populares; sensibilidad contextual, regional y ambiental; relevancia del pensamiento experimental y de escenarios hipotéticos, estimuladores de debates. Es valorizada la función principal de la razón sin desacreditar intuiciones, sentimientos y emociones para, finalmente, subliñar que contradicciones, excepciones y divergencias, propias de la filosofía experimental y bioética experimental, no deben interpretarse como falsedades o inconsistencias, pues integran la metodología y epistemología de la experimentación.

Bioética; Filosofía; Psicología; Intuición; Emociones; Conciencia

Origens

O termo “experimental” tem extraordinária relevância em sua origem, tanto que seria desnecessário evidenciá-lo devido a sua notoriedade na história da filosofia e da ciência. A denominada bioética experimental constitui exemplo do desenvolvimento e da aceitação da filosofia fundamentada na experiência e na observação.

A natureza e a física como fontes de conhecimento foram os primeiros grandes ímãs que atraíram admiração e reflexão do ser humano desde seu amanhecer, e têm sido objeto do saber desde então, inclusive de filósofos especulativos como Descartes e Kant. O cosmos veio se transformar na editio princeps da biblioteca universal. Assim pode ser entendida a physica aristotélica, focada no objeto não apenas enquanto móvel (física), mas também como ente (ontologia). A observação, a descrição interpretativa, o estudo dos fenômenos naturais e das teorias respectivas são os primórdios da filosofia natural, comentada e aprimorada nas faculdades medievais. Por essa razão, cabe confirmar a magistral qualificação dada por Francis Bacon à filosofia natural: a grande mãe das ciências 1. A física, também intitulada filosofia experimental, priorizou, no Renascimento, a observação, a busca de novos métodos de conhecimento e a interpretação de resultados.

A inovação, que deriva do adjetivo “novo” e é sinônimo de mudança e de aperfeiçoamento, foi chancelada por Kepler, Bacon e Galilei, entre outros. Newton, apresentado por Brockliss como o filósofo experimental de Cambridge 2, marcou novos rumos à filosofia natural com sua Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Uma expressão desse fervilhar de ideias nas Ilhas Britânicas foi a fundação da Philosophical Society e da Royal Society, em 1660, para discutir e aprofundar a nova, revolucionária e promissora área do conhecimento denominada filosofia experimental. Com o mesmo élan, foi inaugurado em Oxford, em 1683, o Ashmolean Museum, dedicado à pesquisa em física e química, hoje Museum of the History of Science. John Banks, professor independente e itinerante de filosofia natural e experimental newtoniana, publicou An Epitome of a Course of Lectures on Natural and Experimental Philosophy 3. Essa denominação continuou a ser usada nas faculdades de ciências no século XIX e ainda é empregada no século XX, como é o caso de Oxford. Assim, a experiência e a natureza humana são apresentadas como o fundamento ou a condição sine qua non do verdadeiro conhecimento, princípio relevante, porém controverso.

Hooke, êmulo de Newton, apresenta sua obra Micrographia como contribuição à reforma em filosofia 4, sendo ambos os autores exemplos desse processo de transformação. Por outro lado, Hume, referindo-se a Hooke e Sydenham, escreve: homens que caminharam com cuidado e firmeza, o único roteiro que conduz à verdadeira filosofia 5. A partir desse posicionamento, David Hume opõe-se à filosofia moral transmitida desde a antiguidade e professada nas cátedras do medievo; filosofia totalmente hipotética, mais dependente da invenção que da experiência (…) sem considerar a natureza humana da qual toda conclusão deve pender 6. Confirma esse princípio o título do seu treatise of human nature being an attempt to introduce the experimental method of reasoning into moral subjects. Trata-se de uma acentuada divergência com as éticas fundamentadas em princípios metafísicos, hipotéticos e imaginários. Hume aproxima-se sem rodeios da manifestação de seu predecessor, Newton, que afirma categoricamente:

Não tem sido possível por enquanto deduzir de fenômenos a razão dessas propriedades da gravidade, e não finjo hipóteses. Pois aquilo que não é deduzido a partir de fenômenos deve ser chamado de hipótese; e as hipóteses, sejam metafísicas ou físicas, ou baseadas em qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental. As proposições na filosofia experimental são deduzidas dos fenômenos e generalizadas pela indução 7.

A declaração é explícita e conclusiva, caracterizando a filosofia experimental da época, bem como o modo de ser de seu autor. Cabe reconhecer que, no transcurso da história, a filosofia e a ciência polemizam, dialogam, crescem, se aperfeiçoam e até somem.

Contemporaneidade

A filosofia experimental contemporânea constitui uma nova aproximação, uma “disciplina emergente” e um “relativo novo movimento” 8. Essas denominações visam distingui-la como corrente diferenciada de pensamento e de pesquisa, díspar da rígida dicotomia estabelecida entre o racionalismo e o empirismo iluminista dos séculos XVII e XVIII. É uma filosofia que usa dados e métodos empíricos para iniciar e aprofundar o debate filosófico. É uma filosofia plural, abrangente, resultado de evidências e de estudos quantitativos, que não procura uma verdade universal sobre os fenômenos e princípios. Não se trata de uma filosofia formulada desde uma poltrona 9, mas a partir da vida real, do dia a dia 10.

Esse interesse pela objetividade manifesta-se inclusive no esforço para a compreensão de questões dirigidas a pessoas de diferentes classes sociais, ampliando desse modo o horizonte filosófico e a responsabilidade individual. Das afirmações precedentes, segue-se o reconhecimento do caráter interdisciplinar da filosofia experimental gestada e gerida nas últimas décadas, bem como de alguns de seus diferenciais: abertura à realidade como exigência filosófica; relevância dos dados e prioridade da concretude; marcado interesse epistemológico; vinculação à psicologia cognitiva, moral e social; proeminência da intuição como conceito e como função; e aproximação da linguagem, cultura e compreensão de temas científicos pelas classes populares. Trata-se de um aporte significativo à pesquisa filosófica, auxiliado por novas disciplinas e métodos, que, por sua vez, influenciam e ampliam os horizontes da ética e da bioética.

Bioética experimental

Conforme a exposição anterior, há de se reconhecer que a filosofia experimental contemporânea contribui para o desenvolvimento da filosofia moral, bem como da bioética. A bioética nunca foi considerada de significado e conteúdo únicos, entretanto é unificada por uma série de desafios que a transformam progressivamente em plural, dinâmica ou ethics in action 11. Convém observar, contudo, a concentração por longo período na ética relacionada com a vida e com a saúde. Não é novidade que algo está faltando 12 à filosofia moral e à bioética quando circunscritas a seu caráter teórico e normativo. Percebe-se a necessidade de interagir com outras disciplinas e de reconhecer que a carência de dados pode dificultar e impedir a formulação de um adequado juízo ou decisão. É fácil constatar as limitações de um estudo que prescinde de experiências cognitivas sensíveis, de particularismos, da percepção, do exíguo conhecimento de temas relacionados com a saúde e a ética por um setor da sociedade (folk) 13, de exceções a princípios científicos e a normas de conduta, bem como da necessária incorporação e interpretação de dados empíricos e estatísticos para o estudo e a discussão de um caso determinado.

Essas observações permitem afirmar a incompletude de uma análise especulativa e independente da realidade científica, pessoal e social 12 ou das condições materiais da moral. Esses são alguns traços da bioética empírica ocupada principalmente com a relevância da metodologia, da epistemologia e dos dados empíricos, bem como com a integração à bioética normativa e à formulação de conclusões úteis adequadamente justificadas ou, como afirmado recentemente, para pôr a ética no centro das decisões 14. É possível, contudo, dar um passo a mais, estudar o processo da tomada de decisões éticas sobre um ato concreto em um contexto determinado, função própria da bioética experimental.

Desse modo, a partir da bioética empírica, inicia-se uma nova fase da bioética, a bioética filosófica experimental ou, simplesmente, bioética experimental, em período de desenvolvimento, uma subdisciplina emergente 15. Cabe observar, porém, sem ânimo de menoscabar o prestígio de Ives, Dunn e Cribb, que a bioética experimental não é mencionada em Empirical Bioethics 16.

O caráter incipiente, expresso na reconhecida carência de uma ponderada demarcação de conteúdos, devido à novidade, à variedade e, ao mesmo tempo, à confluência de temas, dificulta uma definição consensuada. A bioética filosófica experimental ou bioética experimental diferencia-se pelo empenho em identificar e conhecer os processos neurológicos, psicológicos e cognitivos que contribuem para o enunciado de juízos morais relacionados nesse contexto com a vida e com a saúde. Alguns conceitos como metaética experimental e intuições metaéticas 17 foram preditivos.

Considerando parte dos estudos realizados 18, é notória a influência da neurociência, da psicologia moral, cognitiva e experimental, particularmente do protagonismo outorgado às intuições, às emoções 19, aos sentimentos e às crenças 20, como objeto de exame e de questionamento nas decisões e na formulação de juízos morais, que têm sua origem no próprio eu, sujeito da moralidade, verdadeiro eu ou personalidade moral, também caracterizada como consciência moral, conscience. O conceito, consciousness, consciência, com significado não relacionado à ética, é amplamente tratado no âmbito da neurociência por autores contemporâneos como Velmans 21, Seth 22 e Dennett 23, o que gera concepções de acentuado caráter científico e diferentes interpretações a partir de questões antropológicas, psicológicas, psiquiátricas, epistemológicas e metafísicas. Isso tudo confirma o posicionamento de Anscombe sobre a necessidade da psicologia para com a filosofia moral 24. Essa afirmação é ratificada e expressa na relevante obra coordenada por Vargas e Doris 25.

A seguir, serão tratadas as intuições, dado seu protagonismo na filosofia e na bioética experimental, bem como os experimentos de pensamento, thought experiments, por sua potencialidade cognitiva e experimental.

Intuições

Autores contemporâneos representantes da filosofia experimental, como Knobe, Machery, Nagel, Nichols e Weinberg, dão destaque às intuições como fontes de conhecimento e de evidência para teses filosóficas, à ampla gama de questões relacionadas com a ética e a bioética, bem como ao início da análise conceitual. Há uma diversidade de respostas sobre o que são e o que significam as intuições, de tal modo que não é exagero afirmar que se trata de um problema complexo, vinculado principalmente à psicologia cognitiva experimental e à ética.

A filosofia experimental contemporânea as classifica como pré-teoréticas, teoréticas, superficiais e robustas 9, às quais é possível acrescentar seu caráter criativo, empático, profissional e espiritual, conforme sua capacidade de produzir, sustentar ou justificar um conhecimento ou uma verdade. Merecem especial atenção as denominadas intuições epistêmicas. São comumente conhecidas como seemings, doxastic evidences, impulsional evidences e appearances 26, que podem ser entendidas como suposições referidas ao conhecimento ou à experimentação da verdade, revelando como as coisas se apresentam ou realmente são, frequentes na vida profissional e, nesse caso, nas áreas da pesquisa e da prática nas ciências da saúde.

Desse modo, cabe afirmar que as intuições são experiências ou impressões subjetivas, imediatas, independentes do raciocínio e da análise, acompanhadas por emoções e por crenças que podem transformar-se em intuições morais. Sob uma perspectiva psicológica experiencial, os juízos morais são intuitivos, não gerados pela aplicação deliberada de regras ou mandatos, mas por juízos afins a outras áreas cognitivas e temáticas, dependentes de atividade mental não definida e por enquanto de difícil introspecção, o que dificulta seu reconhecimento como estritos juízos morais e, em consequência, sua compreensível aproximação com o ceticismo e o relativismo.

Prescindindo da longa e densa produção sobre o inatismo e o intuicionismo na história da filosofia, que dificulta a possibilidade de fundamentar normas e princípios, uma atenção especial merece ser dada neste âmbito às intuições morais do público não especialista (folk) e a saber como a gente pensa 27, conhece e interpreta conceitos, atitudes e posicionamentos referentes à moralidade, em casos específicos. Esse destaque outorgado ao saber popular revela a importância concedida por essa corrente filosófica à classe social não ilustrada, à moralidade ou à eticidade real ou prática.

Cabe afirmar, portanto, que a bioética é sensível ao contexto, context sensitive 28. Desse modo, resulta incontestável o princípio que considera o contexto social, cultural ou econômico como fator que permeia e influi no pensar e no agir. É contestável, contudo, o princípio que apresenta a transformação ou mudança social como destruidora das previamente citadas estabilidade e universalidade dos conceitos morais 29. Essa possibilidade de apreciar e julgar um mesmo caso de modo diferente, variante conhecida como indexical moral relativism 28, ou a possibilidade de mudar e flexibilizar os juízos morais quando referidos a contextos específicos ou situações complexas merecem ser sempre examinadas e ponderadas para um adequado juízo ético.

Vale considerar, portanto, que a bioética filosófica experimental não exclui particularidades, exceções; o reflective equilibrium, que inclui o exercício da razão, não implica a omissão das intuições conforme Rawls 30. Uma das características dessa nova versão da filosofia moral consiste na crença ou afirmação da existência de propriedades ou capacidades inatas que alguns autores defendem, postulando uma universal moral grammar, derivada da linguística de Chomsky 31, inata e complementada pela experiência da capacidade moral, o eu moral, condicionada pelo desenvolvimento ontogenético e filogenético 32.

Essas assertivas permitem, porém, questionar a exclusividade e a origem desses princípios. Como coadunar as intuições morais de sujeitos diferentes sobre o mesmo tema, devidas à própria e característica individualidade, com as intuições marcadas pelo desenvolvimento cultural através do tempo e da história? Resulta evidente que confirmar apenas uma das afirmações precedentes não anula nem exclui necessariamente a outra, dado que é inegável a contribuição de ambas no desempenho cotidiano. Esses posicionamentos reconhecem, ainda assim, a presença e o influxo das intuições.

Contudo, autores como Pinker e Crisp discordam acerca da primazia das intuições e emoções nas decisões morais. Pinker declara abertamente que a racionalidade deveria ser o luminar para tudo o que pensamos e fazemos 33. Sem querer interpretar como afirmação contraditória, dado que não o é, Crisp afirma que a moralidade funciona pelas emoções e que, embora possam ter conteúdo cognitivo, são paixões, e nas diversas áreas da filosofia é correto que argumentos não devem ser avaliados à luz da emoção, mas da calma reflexão racional 34. Importante observar, conforme o significado dado pelo autor, que a moralidade é considerada aqui em seu significado amplo, comum ou popular, para, neste caso, diferenciá-la da ética, com significado estrito, acadêmico e ponderado.

Sobre o uso e o reconhecimento do valor da racionalidade, é possível conferir pela experiência cotidiana a impossibilidade do diálogo sobre uma questão específica quando as intuições são aceitas como critério de verdade; é possível reconhecer, contudo, a possibilidade de justificativas para dar maior ou menor importância a determinada intuição como facilitadora de um juízo moral, o que não refuta a definição de pessoa como ser de natureza racional, livre e igual. Essas afirmações, porém, não contradizem sua relevância na epistemologia, na pesquisa, na ciência nem nas situações específicas do exercício profissional de tomada de decisões em casos conflitivos ou contrários ao que se poderia considerar uma norma geral ou uma prática comumente aceita.

As intuições, portanto, podem ser entendidas como experiências psíquicas que incentivam e complementam a ética normativa e, em consequência, o crédito dos sujeitos ou autores implicados, cientistas, profissionais das mais diversas áreas, incluídas as da saúde, bem como o avanço da pesquisa, do estudo de casos, de dilemas e das decisões do dia a dia.

Thought experiments

Devido a seu caráter versátil, as intuições são suscetíveis a experimentos diversos. Um exemplo específico são os thought experiments, resultado imaginativo da combinação de intuições e de emoções para determinado fim. Trata-se de cenários hipotéticos incentivadores do diálogo, da discussão e do estudo perante casos ou problemas teóricos ou práticos conflitivos e controversos não limitados a uma análise, descrição ou comentário simplificado, mas a uma, nem sempre fácil, razoada solução ou desfecho.

Os thought experiments estão presentes tanto nas ciências como na filosofia. Popper utiliza imaginary experiment como synonim of thought experiments em seus estudos sobre quantum theory 35. Nozick, por sua vez, usa o exemplo da Experience machine 36 para afirmar seu caráter multidisciplinar, explicar a diferença entre feeling e doing e examinar os valores humanos além das experiências sensíveis. O denominado microscópio de Heisenberg, pretende esclarecer imprecisões do princípio em quantum mechanisms 37.

Do mesmo modo, o conceito de thought experiments ocupa-se de dilemas éticos relacionados com intuições, crenças e princípios, que podem ser considerados integrantes da filosofia da mente, da psicologia cognitiva, experimental e particularmente da ética, quer dizer, sensíveis ou influentes nas decisões morais e respectiva avaliação. Por sua vez, um de seus objetivos metodológicos é promover e avaliar atitudes e opiniões morais diversas. Devido a seu caráter de filosofia experimental, os casos específicos, de modo particular os dados, são recomendáveis para a formulação de um juízo moral adequado. Portanto, regras, normas e princípios permitem pautar a conduta; contudo, é necessária a respectiva adequação a um caso ou situação determinada não contemplada na regra ou norma geral que, porém, é considerada aceitável e justa. Convém observar que a discussão sobre casos fictícios e polêmicos pode incentivar o estudo e o questionamento do normativismo.

Entre a variedade de thought experiments relacionados com a ética, alguns merecem ser destacados de uma longa lista, como: a tábua de Carnéades 38, sobre a identidade pessoal; Fenelon e o palácio em chamas 39, sobre deontologismo e utilitarismo; e, de modo especial, os exemplos apresentados por Foot amplamente conhecidos como “the trolley problem”, “the push dilema” ou “the foot dilema”. A série, dados seu uso e ampla referência, é também conhecida com o neologismo trolleylogy 40. Vale a pena observar o sutil esclarecimento da autora ao afirmar não querer ofender ninguém 41, dada a inerente diversidade de pareceres, devida às diferenças entre os princípios éticos arguidos. Reflexões sobre prós e contras do utilitarismo são apresentadas por Williams no caso também fictício “George e Jim” 42. Simples, compreensível e didático é o caso apresentado por Singer, “the pond43, que promove uma reflexão e discussão sobre filantropia e solidariedade. Merece ser citada pela relação com a inteligência artificial, de indiscutível atualidade, “Chinese room”. Essa narrativa denuncia a manipulação sintática de dados, no caso caracteres chineses, carentes de considerações semânticas, o que implica, conforme a argumentação de Searle 44, a falta de verdadeiro conhecimento e de consciência, supostamente concedida a uma pretendida máquina processadora (inteligente).

Considerações finais

Resulta inquestionável a contribuição da filosofia experimental nos âmbitos do pensar, do conhecer e do agir das ciências especulativas e práticas, neste caso das ciências da vida. Trata-se de um novo ciclo que confirma a relevância dos métodos de “observação” e de “experimentação”, às vezes questionados, possivelmente incômodos, para as ciências exclusivamente especulativas, um tanto alheias às mudanças e aos avanços da ciência. Intuições, dados e experimentos integram sua metodologia e são indiscutíveis no desenvolvimento e no progresso do saber, com forte impacto na sociedade.

Os temas relevantes da bioética podem parecer excluídos ou ignorados, porém os acréscimos da bioética experimental são imprescindíveis para sua correta e necessária compreensão, dado seu caráter epistêmico e metodológico. Por esse motivo, é possível afirmar que nem a filosofia experimental nem a bioética experimental são disruptivas, pois apresentam aspectos epistêmicos esquecidos ou aparentemente irrelevantes, contudo complementares. Não é uma nova epistemologia à margem do dualismo cartesiano, mas um empreendimento multidisciplinar que diferencia dados, individualidade e experimentação para uma teoria e prática aplicadas à saúde ou a uma bioética mais acurada.

A título de esclarecimento, cabem as observações sobre intuição, razão e consciência. O conceito de intuição utilizado tem significado epistêmico diverso, diferente do significado usado por autores eminentes no decurso da história. Cabe, entretanto, a análise atenta, pois o termo às vezes também é empregado para disfarçar a ignorância. Do mesmo modo, é possível afirmar que o intuicionismo ético e epistemológico carece geralmente de fundamento para asseverar um conceito, juízo ou ação, próprio das éticas não cognitivistas.

Defende-se, porém, a intuição como fonte de conhecimento. Trata-se, nesse caso, de intuições epistêmicas que facilitam as crenças racionais. Desse modo, surgem consequentemente réplicas e questões. As intuições como indicadoras de verdade ou as intuições como seeming estão ligadas à razão? A crença, identificada a uma intuição, constitui uma crença verdadeira? As respostas são inevitavelmente diferentes. Não obstante esses questionamentos, as intuições são objeto de estudo e de discussão na epistemologia e na ética contemporâneas e são polêmica e parcialmente aceitas. É reconhecida e mantida sua influência pela bioética experimental no dia a dia como atividade mental e até como faculdade, bem como origem de decisões.

Perante a diversidade já relatada, convém reconhecer a sólida e inegável função exercida pela razão. Os juízos morais, quando sólidos ou robustos, em uma palavra, verdadeiros, procedem da razão, não obstante podem ser incentivados e acompanhados por intuições, crenças, sentimentos e emoções. É um risco, contudo, postergar o conceito e o exercício da razão tanto na bioética teórica como na prática, caso contrário é aproximar-se da confusão e do equívoco. Resulta problemático pensar em uma racionalidade pura, geradora de juízos de caráter universal, próprios de uma metaética cognitiva, que difere das de caráter não cognitivista, emotivista, prescricionista e subjetivista, proclives ao ceticismo e ao relativismo pela relevância outorgada às intuições, às emoções, aos sentimentos e até à moral luck. A reconhecida primazia da razão na moralidade não implica, porém, o desabono de sentimentos, de emoções e da sorte ou azar.

É preciso também se aperceber de que, sem sentimento moral como condição subjetiva da moralidade, não haveria moralidade. Desse modo, a razão moral e o sentimento moral, reconhecidos como consciência, orientam e tendem prioritariamente para o bem pessoal (realização, bem-estar) e para o bem comum (justiça e solidariedade) como algoritmo insubstituível e que leva à realização pessoal, que prioriza o próprio melhoramento moral como compromisso ineludível, também reconhecido na contemporaneidade como ética integral ou da integralidade.

A especificidade e a singularidade de casos facilitam o surgimento de exceções de normas e de princípios consensuados como o reconhecido casuísmo, comum no exercício das ciências da saúde e do direito, propiciando sem artifícios a prática correta e pontual da equidade, e, por outro lado, de modo diferente, embora não contraditório, essas particularidades podem promover atitudes ou posicionamentos relativistas e céticos, proclives à indiferença, à dúvida e à inibição da responsabilidade, bem como passíveis de atonia axiológica.

Algumas das contradições, exceções, princípios opostos e divergências aparentes ou manifestas caracterizam a filosofia experimental e a bioética experimental e não devem ser interpretadas como erros, falsidades ou incoerências, pois integram a metodologia e a epistemologia próprias da experimentação.

Finalmente, é preciso salientar e reconhecer a validade da integração dos métodos empíricos e experimentais, das intuições, dos sentimentos, das emoções, dos dados estatísticos sociais e culturais, das aportações da psicologia cognitiva, moral e experimental à bioética em seu significado mais abrangente, confirmando desse modo seu caráter interdisciplinar que visa a qualidade da pesquisa, a eficiência e a responsabilidade no exercício das ciências da vida, em especial, da saúde.

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Editado por

  • Editora responsável
    – Dilza Teresinha Ambrós Ribeiro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    1 Jul 2024
  • Revisado
    13 Jan 2025
  • Aceito
    4 Fev 2025
  • Corrigido
    01 Ago 2025
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