Open-access Telessaúde e doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos: revisão de escopo

Resumo

Este estudo teve como objetivo mapear evidências científicas da utilização da telessaúde no gerenciamento de doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos. Trata-se de uma revisão de escopo conduzida conforme as diretrizes do Instituto Joanna Briggs e do PRISMA-ScR. A estratégia de busca foi aplicada nas bases Medline/PubMed, Embase, Scopus, CINAHL, Cochrane Library, Web of Science, BDENF, LILACS e SciELO e resultou em 772 estudos. Foram selecionados artigos disponíveis na íntegra, em inglês ou português, publicados entre 2019 e 2024. Após a triagem, 38 estudos foram incluídos e analisados. Os resultados revelaram benefícios como ampliação do acesso ao cuidado e monitoramento remoto de pacientes, mas também desafios relacionados à desigualdade no acesso a tecnologia e infraestrutura. Os estudos evidenciam a necessidade de ampliar a cobertura dos serviços de telessaúde e de investir no desenvolvimento de tecnologias de telemonitoramento mais acessíveis e eficazes.

Palavras-chave:
Telemedicina; Doença crônica; Estados Unidos; Brasil

Abstract

This study aimed to map scientific evidence on the use of telehealth in the management of chronic diseases in Brazil and the United States. It is a scoping review conducted following the Joanna Briggs Institute guidelines and the PRISMA-ScR. The search strategy was applied to the MEDLINE/PubMed, Embase, Scopus, CINAHL, Cochrane Library, Web of Science, BDENF, LILACS, and SciELO databases, yielding 772 studies. Articles available in full, in English or Brazilian Portuguese, and published from 2019 to 2024 were selected. After screening, 38 studies were included and analyzed. The results revealed benefits such as expanded access to care and remote patient monitoring, but also challenges related to unequal access to technology and infrastructure. The studies highlight the need to expand telehealth service coverage and invest in the development of more accessible and effective telemonitoring technologies.

Keywords:
Telemedicine; Chronic Disease; United States; Brazil

Resumen

Este estudio pretendió recopilar evidencia científica sobre el uso de la telesalud en el manejo de enfermedades crónicas en Brasil y Estados Unidos. Esta es una revisión del alcance según las pautas del Instituto Joanna Briggs y del PRISMA-ScR. La búsqueda se realizó en las bases de datos MEDLINE/PubMed, Embase, Scopus, CINAHL, Cochrane Library, Web of Science, BDENF, LILACS y SciELO, y dio como resultado 772 estudios. Se seleccionaron artículos disponibles en texto completo, en inglés o portugués, publicados entre 2019 y 2024. Tras la selección, se incluyeron 38 estudios para el análisis. Se observan ventajas como un mayor acceso a la atención y el monitoreo remoto de los pacientes, y también desafíos relacionados con el acceso desigual a la tecnología y la infraestructura. Es necesario ampliar la cobertura de los servicios de telesalud e invertir en el desarrollo de tecnologías de telemonitoreo más accesibles y eficaces.

Palabras clave:
Telemedicina; Enfermedad crónica; Estados Unidos; Brasil

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são definidas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) como condições de saúde que duram um ano ou mais, exigem acompanhamento médico contínuo e/ou limitam as atividades diárias 1. Entre essas doenças, destacam-se diabetes melito, doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e câncer, que representam algumas das principais causas de morbidade e mortalidade em nível global 2. Com o aumento da expectativa de vida e as transformações nos padrões de saúde populacional, a prevalência das DCNT continua a crescer. Estima-se que, até 2030, o custo econômico associado a essas doenças alcançará 47 trilhões de dólares mundialmente. Esse cenário impõe desafios significativos aos sistemas de saúde, que precisam desenvolver estratégias inovadoras para garantir cuidado contínuo, eficaz e acessível 3.

Durante a pandemia de covid-19, diante das restrições a atendimentos presenciais, a telessaúde ganhou ainda mais relevância, tornando-se uma das principais formas de prestação de cuidados. No Brasil, o uso da telessaúde apresenta marcos como a telemetria em missões espaciais, na década de 1960, a criação da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em 1989, e a formulação da Política Nacional de Informação e Informática em Saúde (PNIIS), em 2003. Iniciativas como o Programa Telessaúde Brasil, lançado em 2007, e a informatização das unidades básicas de saúde (UBS), em 2010, consolidaram sua integração ao sistema público de saúde. A pandemia impulsionou a regulamentação do setor pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a qual fortaleceu o papel da telessaúde no contexto nacional. Apesar dos avanços, persistem desafios à criação de um arcabouço legal robusto, à superação de resistências profissionais e à garantia da segurança da informação 4,5.

Nos Estados Unidos, cerca de 76% dos hospitais utilizam serviços de telessaúde para se conectar com pacientes. A tecnologia foi inicialmente desenvolvida pela National Aeronautics and Space Administration (Nasa) na década de 1960 para monitorar astronautas em missões espaciais, e em 1966 recebeu investimentos de 42 milhões de dólares. Atualmente, é muito aplicada em especialidades como neurologia, radiologia e psiquiatria, contribuindo para o aumento do acesso a cuidados especializados, especialmente em áreas rurais. Entretanto, ainda há barreiras à consolidação da telessaúde no sistema de saúde norte-americano, como questões de reembolso, licenciamento profissional entre estados, privacidade dos dados e necessidade de políticas públicas, infraestrutura e educação 6.

Diante do impacto crescente das doenças crônicas e da consolidação da telessaúde como alternativa viável para gerenciá-las, esta revisão de escopo teve como objetivo mapear as evidências científicas disponíveis sobre a utilização da telessaúde no manejo de doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos.

Método

Trata-se de revisão de escopo conduzida conforme as diretrizes do Instituto Joanna Briggs (JBI) 7 e do checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). Esse tipo de revisão tem como objetivo mapear os principais conceitos relacionados ao tema, identificar lacunas na literatura e sintetizar evidências de forma abrangente.

A pergunta de pesquisa foi elaborada com base na estratégia população-conceito-contexto (PCC), sendo a população composta por pessoas com doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos, o conceito relacionado à utilização da telessaúde para o gerenciamento dessas doenças, e o contexto geográfico limitado aos dois países mencionados. Assim, definiu-se a seguinte questão norteadora: quais são as evidências científicas sobre a eficácia e os desafios da utilização da telessaúde no gerenciamento de doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos?

Foram utilizados os seguintes critérios de inclusão: ano (2019-2024); idioma (português, inglês e espanhol); contexto (telessaúde e doenças crônicas); países (Brasil e Estados Unidos). Já os critérios de exclusão foram: estudos em fase de projeto ou sem resultados, literatura cinzenta e aqueles não acessíveis mesmo com o uso de acesso remoto institucional (VPN).

A busca foi realizada em julho de 2024 nas bases de dados PubMed/Medline, Embase, Scopus, CINAHL, Cochrane Library, Web of Science, LILACS, BDENF e SciELO. Foram utilizados descritores em português, inglês e espanhol, extraídos dos vocabulários DeCS e MeSH, combinados com os operadores booleanos “and” e “or”. As bases foram escolhidas por sua ampla cobertura das publicações em saúde. O protocolo da revisão e a estratégia de busca foram registrados na plataforma Open Science Framework (OSF), disponível pelo DOI 10.17605/OSF.IO/HK4EU.

A seleção dos estudos seguiu as etapas recomendadas pelo PRISMA-ScR: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão. Inicialmente, os resultados da busca foram exportados para uma planilha no Microsoft Excel, na qual duplicatas foram removidas. Em seguida, três revisores independentes analisaram os títulos e resumos com base nos critérios de inclusão. Os estudos potencialmente relevantes foram submetidos a leitura do resumo expandido, introdução e conclusão, e, por fim, os textos completos foram avaliados para inclusão final 8.

Os dados foram extraídos com instrumento adaptado do manual JBI, que contempla autor, país, periódico, título, objetivos, tipo de estudo, tipo de tecnologia utilizada, principais resultados, aplicabilidade clínica e limitações. As informações foram organizadas em tabelas e descritas de forma narrativa no corpo do artigo.

Resultados

Foram encontrados 772 estudos, distribuídos nas seguintes bases de dados: Medline/PubMed (n=129), Embase (Elsevier) (n=77), Scopus (Elsevier) (n=318), CINAHL (EBSCO) (n=13), Cochrane Library (n=39), Web of Science (n=119), BDENF (n=16), Lilacs (n=57) e SciELO (n=4). O procedimento de busca e seleção dos estudos desta revisão está representado na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma de buscas, conforme recomendações, adaptado do PRISMA-ScR (Florianópolis/SC, Brasil, 2024)

Foram excluídos 26 estudos por duplicidade, restando 746, cujos títulos e resumos foram lidos. Após essa triagem, 638 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão, resultando em 108 artigos selecionados para leitura na íntegra. Destes, 47 foram excluídos por estarem fora do escopo do tema, 10 por não estarem disponíveis na íntegra, 1 por não abordar os dois países selecionados, 1 por se tratar de relatório descritivo, 2 por serem breves comunicações, 2 por serem artigos de opinião ou perspectiva, 3 por serem revisões narrativas e 4 por se tratarem de revisões integrativas, totalizando 38 artigos incluídos na revisão.

Os artigos selecionados foram salvos em formato PDF para análise completa. Durante a leitura na íntegra, foram considerados campo de estudo, resultados, discussão e conclusão de cada artigo.

Quanto à origem dos 38 estudos incluídos nesta revisão, 35 (92,10%) foram conduzidos nos EUA e apenas 3 (7,89%) no Brasil. Do total, 37 (97,36%) estudos estavam em inglês, e apenas 1 (2,63%) em português. Quanto ao ano de publicação, 3 (7,89%) foram publicados em 2019, 3 (7,89%) em 2020, 4 (10,52%) em 2021, 7 (18,42%) em 2022, 9 (23,68%) em 2023 e 12 (31,57%) em 2024. A descrição detalhada dos estudos encontra-se no Quadro 1.

Quadro 1
Caracterização dos estudos incluídos na revisão de escopo

Discussão

A implementação da telessaúde no manejo de doenças crônicas é reconhecidamente uma estratégia promissora, especialmente em contextos em que barreiras geográficas e sobrecarga do sistema de saúde dificultam o acesso a cuidados contínuos. No entanto, pela literatura analisada nesta revisão, evidencia-se significativa heterogeneidade entre os estudos, o que dificulta comparações diretas entre intervenções que combinam telemonitoramento, uso de dispositivos vestíveis e transmissão de dados em tempo real 12.

Apesar da estratégia de busca robusta, registrada na Open Science Framework (OSF) e aplicada em nove bases de dados, observou-se escassez de estudos brasileiros sobre o tema. A limitação não indica falhas metodológicas, mas uma lacuna real na produção científica nacional, viés que deve ser considerado na interpretação dos resultados e que evidencia a necessidade de fortalecer pesquisas no contexto brasileiro.

As tecnologias de telessaúde têm potencial de aumentar a eficiência e conveniência dos cuidados na medida em que elimina barreiras físicas 17, porém desafios importantes persistem. A idade avançada, por exemplo, ainda representa uma barreira: apenas 60% dos idosos nos EUA relataram usar a internet em 2018, e, destes, apenas 38,9% utilizam serviços de saúde eletrônicos, índices ainda distantes da meta do Healthy People 2030, de 87,3%. Além disso, a avaliação remota de capacidades funcionais, força e equilíbrio ainda é limitada em comparação aos métodos presenciais 22,34,46.

Por outro lado, pacientes com doenças crônicas tendem a ser mais proativos e monitorar indicadores de saúde e buscar informações on-line 36. Um estudo de caso-controle com pacientes com doença inflamatória intestinal (DII) atendidos pelo sistema de saúde de veteranos dos EUA demonstrou que o uso ampliado de teleconsultas reduziu hospitalizações em comparação ao atendimento presencial, resultado que indica o potencial da telessaúde no cuidado de DII. No entanto, os autores ressaltam a necessidade de novos estudos para definir a frequência ideal de consultas e identificar os perfis de pacientes mais beneficiados 37.

Apesar dessas evidências, barreiras estruturais e sociais limitam o uso da telessaúde. Observa-se menor acesso entre minorias étnicas, residentes de áreas rurais, idosos, pessoas com comorbidades, com baixa escolaridade, com insegurança alimentar e isoladas socialmente, enquanto indivíduos com maior poder socioeconômico demonstram maior usabilidade das tecnologias 11,15,34,44. Um exemplo é dado pela diferença entre os beneficiários dos sistemas Medicaid e Medicare nos EUA: apenas 49% dos pacientes do Medicaid realizaram ao menos uma consulta por telessaúde, com a menor adesão dando-se entre portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e insuficiência cardíaca, em contraste com pacientes diabéticos 4. Também foi observado que idosos com saúde debilitada, sem seguro privado e sem consultas com especialistas no último ano tinham menor probabilidade de utilizar a internet e serviços de telessaúde 34.

A infraestrutura tecnológica também contribui para as desigualdades. Um estudo conduzido na Louisiana destacou discrepâncias marcantes no uso da telessaúde entre áreas urbanas e rurais, o que reforça a influência do contexto socioespacial sobre a efetividade das intervenções digitais 44.

O uso de telessaúde no manejo da DPOC tem se mostrado promissor. O telemonitoramento pode contribuir para a melhora dos desfechos clínicos, fortalecer o vínculo entre paciente e profissional, reduzir a necessidade de consultas presenciais e proporcionar maior comodidade ao usuário 10. No entanto, os estudos ainda apresentam resultados conflitantes: enquanto algumas pesquisas apontam para redução nas taxas de hospitalização, outras não identificam diferenças significativas.

Um estudo com veteranos norte-americanos indicou, inclusive, aumento nas taxas de hospitalização e mortalidade entre pacientes com DPOC inseridos em programa de telessaúde domiciliar, porém trata-se de análise observacional baseada em dados administrativos, que pode conter viés de seleção e não permite inferência de causalidade 43. Em revisão sistemática sobre intervenções digitais para DPOC, foram identificados facilitadores (como redução de visitas presenciais e melhor gerenciamento da doença), mas também barreiras, como dados de baixa qualidade e aumento da carga de trabalho para os profissionais de saúde 10.

No controle do diabetes tipo II, a telessaúde tem se destacado por seu impacto nos níveis de hemoglobina glicada (HbA1c). Há evidências de que o número de consultas por telessaúde está inversamente relacionado à HbA1c, com resultados semelhantes aos observados em atendimentos presenciais 9,16. Estudos indicam redução significativa da HbA1c após seis meses de acompanhamento por telessaúde, embora não haja alterações sustentadas após 12 meses 12. Contudo, nem todos os achados são positivos. Um estudo de Mohr e colaboradores, também com veteranos norte-americanos, não encontrou associação entre uso da telessaúde e redução de hospitalizações em pacientes com diabetes tipo II 43, resultado que reforça a necessidade de avaliar cuidadosamente os modos de implementação e perfil dos pacientes para melhor aproveitar os recursos digitais. Adicionalmente, uma revisão sistemática voltada a intervenções móveis e on-line para diabetes e obesidade em adultos afro-americanos e hispânicos avaliou sete estudos randomizados controlados; os resultados indicam eficácia das intervenções por meio de dispositivos móveis na perda de peso, mas as evidências de controle glicêmico permanecem inconclusivas, o que ressalta a necessidade de mais estudos focados em populações minoritárias 23.

Os efeitos da telessaúde sobre a hipertensão arterial sistêmica (HAS) também são ambíguos. Em alguns estudos, não foram observadas diferenças significativas nos níveis de pressão arterial entre pacientes atendidos presencialmente e aqueles acompanhados virtualmente 12. No entanto, outro estudo revelou reduções na pressão sistólica e diastólica em pacientes hipertensos acompanhados por modelo virtual assíncrono, embora com viés de seleção, já que os participantes se voluntariaram para o estudo, o que pode indicar maior comprometimento e predisposição para mudanças no estilo de vida 16.

Entre populações específicas, destaca-se um estudo culturalmente adaptado com imigrantes asiáticos em Atlanta, Geórgia, que demonstrou melhoras no controle de pressão arterial, redução do peso corporal, adesão à medicação, prática de atividades físicas e controle alimentar. A telessaúde, nesse contexto, foi crucial para superar barreiras relacionadas a transporte, linguagem e inflexibilidade de horário, ou seja, mostrou-se uma ferramenta importante para lidar com desigualdades socioeconômicas e culturais 19.

A pandemia de covid-19 acelerou a adoção da telessaúde em diversos países devido ao medo do contágio e aos atrasos nos cuidados médicos, que levaram muitos pacientes a evitar ou adiar o tratamento. A telessaúde emergiu como solução viável, valorizada pela conveniência e acessibilidade, embora alguns pacientes tenham relatado insatisfação devido à ausência de contato presencial e às limitações na realização de exames físicos 31. Nos Estados Unidos, estudos mostraram que o uso da telessaúde foi mais frequente entre indivíduos com maior nível socioeconômico, dado que evidencia as disparidades no acesso a essa tecnologia e a necessidade de políticas voltadas à inclusão de populações vulneráveis 15.

Apesar das vantagens, o acesso desigual à tecnologia digital e o grau de familiaridade com seu uso continuam sendo barreiras importantes, especialmente para adultos mais velhos 32,39. Fatores como idade, acesso à internet e atitudes diante da pandemia influenciaram significativamente o uso da telessaúde, com desafios particulares observados entre pacientes afro-americanos com doenças crônicas. Esses dados reforçam a importância de estratégias que promovam inclusão digital, como a expansão da internet sem fio e a capacitação para o uso de tecnologias em saúde 45.

Dados indicam que o uso da telessaúde aumentou substancialmente durante a pandemia: em 2022, 39,3% dos adultos nos EUA utilizaram essa tecnologia, em sua maioria por recomendação médica e conveniência 29,41. A maior parte das consultas virtuais deveu-se a doenças agudas e crônicas, com crescimento expressivo da saúde comportamental, especialmente em áreas rurais 18,44. Em muitos casos, a telessaúde representou a única alternativa viável para pacientes que enfrentam dificuldades de acesso geográfico, como os residentes em regiões remotas 28,30. Nesse contexto, também se observou aumento do uso entre pacientes com transtornos por uso de substâncias, que tradicionalmente enfrentam barreiras adicionais para acessar cuidados médicos. Ainda assim, a telessaúde não foi suficiente para eliminar as disparidades de acesso, o que indica a necessidade de estratégias específicas para garantir o engajamento contínuo desses pacientes 38.

No Brasil, o impacto da pandemia também foi expressivo. Em São Paulo, por exemplo, 95,7% dos municípios relataram interrupções em serviços de saúde, sobretudo no cuidado às doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), fato que contribuiu para o aumento das taxas de mortalidade e letalidade. Nesse cenário, a telessaúde foi vista como alternativa para mitigar os efeitos da crise sanitária, por possibilitar a continuidade do acompanhamento clínico mesmo com as restrições de mobilidade 35. Além disso, houve crescimento no uso de tecnologias móveis para a saúde. Entre 2017 e 2019, o número de indivíduos com doenças crônicas que utilizaram aplicativos de saúde aumentou de forma significativa, chegando a 59,8%, o que sugere avanço na autogestão da saúde por meio de recursos digitais 27.

A utilização de aplicativos de saúde também tem sido influenciada por determinantes sociais. Um estudo de 2024, focado em adultos obesos nos EUA, revelou que fatores como idade, estado civil, escolaridade e etnia afetam diretamente a adesão a esses aplicativos. Indivíduos com maior escolaridade têm mais chance de utilizá-los, o que acentua as desigualdades no acesso à saúde digital. O estudo destaca, portanto, a urgência de ações que promovam a alfabetização digital e a equidade no uso dessas tecnologias, sobretudo entre grupos mais vulneráveis 42.

O uso de aplicativos de saúde tem ganhado destaque no manejo de condições específicas, como lúpus eritematoso sistêmico (LES). Contudo, uma revisão sistemática revelou que a maioria dos aplicativos voltados para essa condição apresenta funcionalidades limitadas e baixa qualidade. As principais ferramentas disponíveis envolvem educação, monitoramento de sintomas e apoio comunitário on-line. A carência de estudos robustos que avaliem a eficácia desses aplicativos reforça a necessidade de desenvolvimento de soluções centradas no usuário, com colaboração entre profissionais de saúde, pacientes e desenvolvedores 25.

Questões relacionadas à privacidade e segurança também são centrais no contexto da telessaúde. Estudos mostram que pacientes que optam por consultas por áudio demonstram maior preocupação com privacidade do que aqueles que utilizam vídeo, já que o formato impede a visualização do ambiente do paciente e aumenta a sensação de sigilo. Ainda assim, a proteção de dados médicos deve ser prioridade e exige protocolos rigorosos que assegurem confidencialidade e segurança nas transmissões 25,40.

Do ponto de vista econômico, o monitoramento remoto de pacientes mostra-se promissor. Uma revisão sistemática de 2023 que avaliou a abordagem no tratamento de doenças cardiovasculares concluiu que ela pode ser custo-efetiva a longo prazo, apesar de implicar custos iniciais com equipamentos, suprimentos e capacitação de pessoal. A redução nas hospitalizações e no uso de serviços presenciais representa economia significativa para os sistemas de saúde, mas são necessários mais estudos para avaliar de forma abrangente sua viabilidade econômica 33. Além de reduzir custos logísticos e com internações, a telessaúde pode ampliar o acesso a cuidados especializados, especialmente em regiões desassistidas 10,13,18,24,26.

No Brasil, as DCNT representam aproximadamente 75% das despesas do Sistema Único de Saúde (SUS) e estão relacionadas a cerca de 72% dos óbitos. Apesar do potencial da telessaúde na redução dos custos e na melhora da qualidade do atendimento, observa-se escassez de iniciativas públicas para sua implementação, o que contrasta com o crescente interesse do setor privado. A adoção do telemonitoramento no SUS poderia diminuir a demanda por atendimentos presenciais, reduzir custos com transporte e afastamentos laborais, além de ampliar o acesso a cuidados contínuos e equitativos 13.

Nesse sentido, destaca-se a atuação do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que, em parceria com o Ministério da Saúde e por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), desenvolveu entre 2018 e 2021 três projetos voltados à telessaúde: o Projeto Brasil Redes, o Regula Mais Brasil Colaborativo e o Teleconsulta Diabetes. Esses projetos demonstram que a colaboração entre o setor público e hospitais de referência pode impulsionar o desenvolvimento de soluções inovadoras e sustentáveis em telessaúde no país 24.

Outro desafio relevante está na padronização de protocolos de coleta e monitoramento de dados. O programa LINKED-HEARTS, focado em populações carentes, representa um exemplo de abordagem multifacetada na medida em que integra suporte comunitário-clínico e monitoramento remoto de pressão arterial e glicemia via aplicativo, com o objetivo de reduzir disparidades no cuidado à hipertensão e ao diabetes 20. De forma complementar, um estudo em andamento está acompanhando 120 pacientes com esclerose múltipla por 24 meses a fim de comparar modalidades presenciais e por telessaúde. Os resultados devem contribuir com evidências sobre eficácia, custo-efetividade e satisfação dos pacientes e podem influenciar o cuidado de outras condições crônicas que exigem abordagens multidisciplinares 26.

Considerações finais

Conforme os resultados desta pesquisa, a telessaúde apresenta significativo potencial no manejo de doenças crônicas no Brasil e nos Estados Unidos, com benefícios como maior acesso a serviços de saúde, especialmente para pacientes em áreas rurais ou com barreiras socioeconômicas; melhora na gestão de doenças crônicas; redução de custos com transporte, tempo de espera e hospitalizações; e maior conveniência para pacientes e profissionais. No entanto, persistem desafios importantes, como desigualdades no acesso à tecnologia e à alfabetização digital; necessidade de desenvolvimento de tecnologias mais acessíveis e avançadas para telemonitoramento; e garantia de segurança e privacidade dos dados dos pacientes. Além disso, destaca-se a escassez de estudos sobre o uso da telessaúde no Brasil, como evidencia o fato de que apenas três dos 38 artigos selecionados abordavam sua aplicação no sistema de saúde brasileiro. Conclui-se que a telessaúde apresenta grande potencial transformador no cuidado à saúde, especialmente no manejo de doenças crônicas, mas há desafios a serem superados para alcançar benefícios de forma equitativa e sustentável.

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Editado por

  • Editora responsável:
    Dilza Teresinha Ambrós Ribeiro

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Nov 2024
  • Revisado
    4 Jun 2025
  • Aceito
    14 Jul 2025
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