Resumo
O termo sexless marriage refere-se à falta de atividade ou intimidade sexual em uma união conjugal por um ano. O tratamento de câncer de próstata pode ocasionar esse fenômeno, acarretando uma realidade na qual a falta de atividade sexual afeta o relacionamento conjugal. O objetivo desta revisão de literatura é investigar o impacto da doença na relação e redefinir o papel dessa parceria com novas estratégias para que a relação sexual não se restrinja ao genital. Consultaram-se as bases PubMed, SciELO e Google Scholar e sites de grande circulação, por meio dos descritores prostate cancer, relationship intimacy, partner, sexless marriage e treatment. Nota-se dependência do paciente em relação à parceira, afetando a autoestima dele, enquanto ela se sente responsável pelo sucesso do tratamento e carrega as angústias impostas pela doença. Acolher a parceira é oportunidade de incluir uma doença de múltiplos desdobramentos em um debate atual e ético.
Comportamento sexual; Acolhimento; Bioética; Equidade; Neoplasias da próstata
Abstract
The term sexless marriage refers to the lack of sexual activity or intimacy in a marital union for one year. Prostate cancer treatment can cause this phenomenon, leading to a reality in which the lack of sexual activity affects marriage. The objective of this literature review is to investigate the impact of the disease on the relationship and redefine the role of this partnership with new strategies, so that sexual relations are not restricted to the genitals. The PubMed, SciELO, and Google Scholar databases were consulted, as well as widely circulated websites, using the descriptors prostate cancer, relationship intimacy, partner, sexless marriage, and treatment. The patient’s dependence on his partner is noticeable, affecting his self-esteem, whereas she feels responsible for the success of the therapy and bears the anguish imposed by the disease. Welcoming the partner is an opportunity to include a disease with multiple consequences in a current and ethical debate.
Sexual behavior; User embracement; Bioethics; Equity; Prostatic neoplasms
Resumen
El término sexless marriage se refiere a la falta de actividad o intimidad sexual en una unión conyugal durante un año. El tratamiento del cáncer de próstata puede provocar este fenómeno, llevando a una realidad en la que la falta de actividad sexual afecta la relación conyugal. El objetivo de esta revisión de la literatura es investigar el impacto de la enfermedad en la relación y redefinir el papel de este vínculo con nuevas estrategias para que la relación sexual no se limite a lo genital. Se consultaron las bases de datos PubMed, SciELO y Google Scholar, y sitios web de amplia circulación, mediante los descriptores prostate cancer, relationship intimacy, partner, sexless marriage y treatment. Se nota la dependencia del paciente con relación a su pareja, lo que afecta su autoestima, mientras ella se siente responsable del éxito del tratamiento y carga con las angustias impuestas por la enfermedad. Acoger a la compañera es una oportunidad para incluir una enfermedad con múltiples repercusiones en un debate actual y ético.
Conducta sexual; Acogiemento; Bioética; Equidad; Neoplasias de la próstata
Desde a sua gênese, a bioética investiga todas as condições necessárias para a administração da vida humana responsável. Formula-se, de igual modo, a perspectiva de que a vida humana é mais importante do que a ciência. Sendo assim, tal área, pela importância que tem, acaba assumindo uma tríplice função: a) descrever e analisar conflitos; b) proscrever os comportamentos considerados reprováveis e prescrever aqueles considerados corretos; c) proteger todos os envolvidos em alguma questão e priorizar, quando for necessário, “o mais fraco” 1.
Esses pressupostos, principalmente o último, estão relacionados ao objeto deste artigo: o estudo da perspectiva da parceira no fenômeno denominado sexless marriage (casamento sem sexo) no decorrer do tratamento de câncer de próstata do parceiro. Trata-se de um termo da literatura médica dos Estados Unidos que designa o casamento em que o intercurso sexual ocorre menos de dez vezes por ano, por razão conhecida ou não.
Em 1992, o US National Health and Social Life Survey 2 relatou que 2% dos respondentes casados entre 18 e 59 anos não tiveram intimidade sexual no último ano e, comparativamente, entre aqueles com idade de 65 a 80 anos, 92% não tiveram. Dentre as causas para isso estão: exaustão, vida estressada e corrida; pós-operatório de cirurgia pélvica; trauma de bacia e de genital; inabilidade de alcançar o orgasmo; vaginismo; efeitos colaterais de medicações; drogadição; gravidez; doenças agudas ou crônicas; patologias endócrinas; princípios religiosos; transmissão de doença venérea; medo de engravidar; medo de ter herdeiros; perda de interesse por convivência próxima; casamento por conveniência; e, por fim, ser portador de câncer 2.
Na oncologia, principalmente em casos de câncer da mama e tumores gênito-urinários, incluindo o de próstata, o conceito sexless marriage é bem conhecido, uma vez que o fenômeno causa sofrimento familiar, quer pelas mudanças físicas e psíquicas, quer pela ruptura de planos e de estilo de vida, o que é traduzido como perda de prazer e desesperança 3.
Ainda nesse contexto de oncologia e sexualidade feminina, há mitos sexuais errôneos, como: 1) o câncer genital pode passar para o outro através da relação sexual; 2) apenas mulheres jovens querem ter relação sexual; 3) após o aparecimento do câncer de mama ou de colo uterino, não se pode mais ter relação sexual; 4) a perda da mama ou do útero decreta o fim da vida sexual feminina; 5) a mama é associada à fertilidade; 6) portadoras de estoma urinário ou fecal não têm mais intimidade com o parceiro 4. Tudo isso dificulta o livre exercício da sexualidade em mulheres ditas experientes.
Para Simone de Beauvoir 5, “ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher”, pois a forma que a mulher assume na sociedade é elaborada pela civilização, sendo o feminino um produto intermediário entre o macho e o castrado. Atualmente, em função da exposição midiática, a beleza e a sexualidade são vistas como sinônimo de juventude, sendo valores a serem buscados em toda e qualquer etapa da vida.
Assim, a velhice se associa à degeneração do corpo, e as mulheres buscam apagar os sinais do tempo, almejando corpos com aparência cada vez mais jovem. Dessa forma, para Beauvoir 6, a mulher idosa perde seu lugar na sociedade, tornando-se um monstro que suscita repulsa e medo.
Serrão 7 aponta que, de acordo com a Orga- nização Mundial da Saúde (OMS), sexualidade compreende a necessidade de contato, ternura, intimidade, sentimentos, comportamentos e afetos. É uma necessidade do ser humano que se relaciona com outros aspectos da vida, que vai além do ato sexual em si. É também uma forma de as pessoas perceberem sua identidade, pois a intimidade e a proximidade dão sentido à vida dos indivíduos e ao estabelecimento de vínculos de segurança.
A sexualidade influencia pensamentos, erotismo, trocas e permeia a saúde mental e física dos envolvidos. A medicina hipocrática manteve o tema da sexualidade afastado de sua preocupação até meados do século XIX, pois a atividade era controlada por autoridades religiosas, morais, políticas e legais, de forma que os médicos atuavam tão somente em questões secundárias, tais como infecções sexualmente transmissíveis e no parto. Já no século XX, houve avanços na psicanálise e no campo da ciência do comportamento, sucedidos no pós-Segunda Guerra com o avanço da sexologia masculina e feminina.
Hoje, nos conflitos bioéticos relativos à sexualidade, fala-se muito de forma aberta da violência sexual e obstétrica, de anticoncepção, de portadores de HIV, da população LGBTQIA+ e da redesignação sexual; contudo a produção científica para o universo dos idosos, sobretudo referente ao público feminino, é mínima. Segundo Foucault 8, no século XX as mulheres ainda se sujeitavam fortemente a um “regime vitoriano”, no qual a sexualidade era reprimida, contida, muda e hipócrita.
As mulheres idosas sofrem com as mudanças da sexualidade de seu novo ciclo de vida, pois experimentaram durante muito tempo as relações de poder vigentes em décadas passadas. Nesse contexto, a conduta feminina foi domesticada sob um modelo patriarcal ao longo de toda a vida, no qual lidavam com desigualdades sexuais, sociais, familiares e trabalhistas 9.
Sobreviventes do câncer de próstata e suas companheiras devem ser informados sobre o antes e depois do tratamento e seus efeitos colaterais para pesar os riscos e benefícios. Isso fará um ajuste real, a fim de controlar expectativas futuras e dar suporte psicossocial para o casal 10.
Esta revisão foca justamente a importância de a parceira reconhecer seu papel ativo de proteção quando aparecerem as limitações sexuais impostas pelo tratamento. Dessa forma, o objetivo deste artigo é investigar o impacto da doença na relação marital, sobretudo na esfera sexual, e redefinir o papel da parceira com novas estratégias para que a relação sexual não se restrinja ao genital.
Sobre o câncer de próstata
Segundo o Instituto Nacional de Câncer, o câncer de próstata é a segunda neoplasia mais comum no homem, com mais de 71 mil casos novos estimados por ano, perdendo apenas para o câncer de pele 11. Ressalta-se que o câncer de próstata não tem causa evitável, apresenta taxa de cura acima de 95% quando o diagnóstico é precoce e é uma doença fundamentalmente da terceira idade, embora possa acometer pacientes mais jovens.
Na maioria das vezes, a parceira também é idosa, com problemas da menopausa, tais como diminuição do desejo sexual, secura vaginal, dispareunia, incontinência urinária e fecal e comorbidades que diminuem o desejo e o ato sexual em si. Além disso, pela ótica ocidental, a mulher idosa é estigmatizada como ser assexual, sem quereres, desejos, sentires, fantasias nem expectativas 7.
O câncer prostático é investigado mediante história clínica, exame digital retal, dosagem do antígeno prostático específico (PSA) e, recentemente, pela realização de ressonância da próstata. Esses exames indicam a necessidade de realizar biópsia prostática para confirmar o diagnóstico de neoplasia maligna, que, conforme critérios clínico-laboratoriais e de imagem, classifica-se como localizada (inicial), localmente avançada (intermediária) e avançada (metastática).
Todas essas categorias têm tratamento, que pode ser curativo ou paliativo, exclusivo ou em conjunto: prostatectomia radical, radioterapia pélvica, crioterapia, braquiterapia, deprivação hormonal medicamentosa, orquiectomia bilateral, imunoterapia, uso de radiofármacos, watchful waiting ou vigilância ativa. Essas duas últimas modalidades consistem em acompanhamento do caso, sem tratamento. Toda a terapêutica é conduzida por urologistas, radiologistas, radiote- rapeutas, oncologistas, médicos nucleares, médicos paliativistas e da família, patologistas, anestesistas, psiquiatras, geriatras, psicólogos, sexólogos, fisioterapeutas e enfermeiros.
Nos casos iniciais e intermediários, o tratamento mais utilizado é a prostatectomia radical. Trata-se de uma técnica extirpativa do tumor, com a tentativa de preservar o feixe vásculo-nervoso em que estão inseridos os nervos erigentes, responsáveis diretos pelo mecanismo de ereção peniana. Apesar do esforço atual, com a realização de cirurgia robótica, a literatura relata que ainda há uma alta taxa de disfunção erétil total ou parcial imediatamente após o procedimento, embora haja alguma recuperação da função erétil entre 6 e 12 meses após a cirurgia.
Mesmo trabalhando muito próximo da próstata e dos seus envoltórios, para evitar danos nos nervos, a disfunção erétil ocorre em até 63% dos homens submetidos ao processo de extração da próstata pelo robô, segundo dados de Basourakos e colaboradores 12. Essa taxa varia conforme critérios de diagnóstico, extensão da doença, anatomia do paciente, experiência do cirurgião, função erétil pré-procedimento e comorbidades/medicações do paciente.
Outras complicações sérias do tratamento operatório são: incontinência urinária, estenose uretral, fístulas urinárias, encurtamento do pênis, perda da sensibilidade peniana e da temperatura da glande, climatúria, anejaculação e tortuosidade peniana. Contudo, ressalta-se que essas complicações possuem tratamento, mesmo que de forma parcial ou transitória.
Ainda na linha curativa, a radioterapia, procedimento que consiste na irradiação direcionada às células tumorais para matá-las, com aplicação pelo período de seis meses a dois anos, pode resultar em disfunção erétil a médio e longo prazo.
Nos casos avançados, com bloqueio hormonal da testosterona, há perda do desejo sexual e, em última análise, do mecanismo excitatório e de rigidez peniana, em função do quadro de hipogonadismo, com dosagem de testosterona baixa. Outros efeitos adversos são ganho de peso, alteração da libido e do comportamento, ginecomastia e distribuição de gordura com padrão feminino pelo corpo. Tudo isso desmotiva também a parceira, com consequências graves de desesperança no que a vida tem para oferecer 13.
Nesse contexto disruptivo, surge a questão da parceira, do parceiro ou dos múltiplos companheiros(as), a depender dos arranjos e das amplitudes familiares e sexuais. Como base, podemos partir dos dados apresentados por Worthington 14, que demonstram que somente nos Estados Unidos mais de 3 milhões de homens sobreviveram ao câncer de próstata e, consequentemente, sofrem os efeitos do tratamento. Soma-se a isso a estimativa de que 73% desses homens com idade entre 65 e 80 anos de idade são casados ou têm parceiras(os) 14.
Com a expectativa da cura do câncer de próstata, o paciente com disfunção erétil ou incontinência urinária precisa contar muito mais com o apoio e a compreensão da parceira. Ferreira 15 revela que 60% dos homens que vão à primeira consulta da avaliação prostática são trazidos por terceiros e que a grande incentivadora a levar e acompanhar os desfechos é mulher (filhas, irmãs, esposas e parceiras). Na simbologia anedótica machista do “toque prostático”, o medo de ser invadido inicia na realização do exame digital retal e da biópsia prostática, continua na comunicação da má notícia do diagnóstico do câncer de próstata e persiste nas escolhas e nas sequelas de tratamento, uma verdadeira jornada oncológica.
Hoje, há questionários que visam investigar a parte sexual da mulher e poderiam ser explorados nesse assunto. O mais conhecido é o Female Sexual Function Index (FSFI), instrumento para aplicação em pesquisas de campo que avalia a força de cada domínio da resposta sexual (desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor) e converte a subjetividade da intimidade conjugal em dados objetivos, quantificáveis e analisáveis, com validação no Brasil 16.
O desvelamento da discussão sobre o prazer sexual da mulher visa sua satisfação sexual, relacionando-a, por conseguinte, com os princípios da bioética da autonomia e com a justiça. A sexualidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é um dos braços da qualidade de vida, o que a torna, para vários domínios, fundamental na existência humana 7. No Estudo da vida sexual do brasileiro, Abdo 17 afirma que as mulheres participantes consideram o sexo importante/importantíssimo para a harmonia sexual e que se sentem à vontade para falar de sexo, sem restrições.
O casal tem a expectativa de curar o câncer sem os danos causados pelo tratamento, como a disfunção erétil e a incontinência urinária, o que seria o “trifecta” – cura do paciente, manutenção da função erétil e manutenção da função miccional 18. Inclusive, as complicações são pouco esclarecidas pelo cirurgião ao casal no período anterior à cirurgia, gerando descontentamento e arrependimento depois.
O tratamento para disfunção erétil é feito por meio de drogas eretogênicas, aplicação de injeção de prostaglandina no pênis e implante de prótese peniana. Todavia, esses tratamentos prejudicam em parte o prazer da relação sexual conquistado em anos ou décadas, caracterizando uma sexualidade “biônica ou artificial”, segundo os pacientes 19.
A partir daí, a esposa ou parceira(o) passa a ser a companheira da doença e do adoecimento, não mais o objeto sexual. Mudanças na sexualidade após o câncer são associadas a autopunição, rejeição, tristeza, raiva, falta de vontade sexual e de comunicação 20.
Método
Trata-se de revisão integrativa da literatura realizada por meio de buscas nas seguintes fontes: PubMed, SciELO, plataforma de pesquisa Google Scholar e sites de grande circulação, abrangendo o período de 2000 a 2023. Os descritores utilizados na busca foram prostate cancer, relationship intimacy, partner, sexless marriage e treatment.
Foram incluídos textos completos em português, espanhol ou inglês com foco de investigação no fenômeno sexless marriage no contexto do câncer de próstata e relacionamento conjugal. Os critérios de exclusão foram: apresentar pouca ou nenhuma informação relevante ou relacionada ao tema, ou não expor subsídios adicionais aos outros dados selecionados. Entre os 100 estudos selecionados, 34 preencheram os critérios de inclusão, sendo um artigo da América Central. Nenhum estudo brasileiro foi selecionado.
Resultados e discussão
Guercio e Mehta 21 levantam o debate da percepção e da satisfação da parceira após a prostatectomia radical. Quando se trata do paciente operado, pontua-se que o suporte da parceira melhora a função sexual e a satisfação do casal. Também constatam falta da figura feminina em estudos sobre câncer de próstata e que a disfunção eréctil pode causar frustração, ansiedade e depressão, culminando em separação.
Boehmer e Babayan 22 abordam a mesma temática, mas partindo de um estudo de caso. Os autores investigaram a satisfação sexual da parceira em 21 casos, nos quais o câncer de próstata havia sido diagnosticado, porém antes do início do tratamento. Desses 21 casos, 13 parceiras foram ouvidas, separadamente, em entrevistas semiestruturadas com seus parceiros sobre as ameaças da disfunção erétil.
As mulheres responderam às questões sobre a disfunção erétil, enfatizando as outras dimensões do relacionamento e ainda demonstraram preocupação com a saúde do parceiro. Isso mostra que entendem a relação intrínseca construída entre identidade masculina e potência sexual, uma vez que, pelo modelo hegemônico da masculinidade, o homem foi criado desde criança (...) a ser o agente ou o “penetrador” 23.
Nessa mesma linha, o estudo de Palácios e colaboradores 24 abrange um grupo um pouco maior de pacientes submetidos a cirurgia, radioterapia e uso de hormônio – e suas respectivas parceiras –, totalizando 253 homens e 174 parceiras. As parceiras relataram altos níveis de ansiedade, tendo em vista o tratamento e as consequentes mudanças no relacionamento, e metade delas relatou dificuldades em lidar com esse novo modelo de enfrentamento da sexualidade. Já no que se refere à incontinência urinária, 61,1% alegam não ter dificuldade em lidar com a situação, mas apontam que os cuidados que o paciente requer, como trocar a fralda, influenciaram sua relação amorosa.
Palácios e colaboradores 25 preconizam que as parceiras não querem colocar pressão na sexualidade do esposo, no sentido de ter dificuldade de lidar com os efeitos colaterais sexuais do tratamento oncológico. Os médicos também não ajudam nessa questão, pois fazem poucas perguntas sobre a vida sexual do casal na anamnese. Os autores propõem que as condutas sejam guiadas por sexólogos e psicólogos especializados em sexologia.
Passando para uma dimensão longitudinal do problema, ressalta-se o estudo de Ramsey e colaboradores 26, que investigam os efeitos do tratamento no relacionamento e na vida cotidiana dos pacientes seis meses após a cirurgia e, em seguida, doze meses depois dela. A pesquisa destaca que, dos 88 casais que fizeram parte do estudo seis meses após o procedimento, 12% indicaram os impactos do tratamento como muito negativos em sua relação sexual. Já a partir do 12º mês, essa porcentagem subiu para 29%, o que revela que os impactos pioram com o passar do tempo.
No que se refere aos homens que fazem sexo com homens (HSH), estudos como o de Martin-Tuite e Shindel 27 e o de Manne e colaboradores 28 demonstram que muitos HSH que lidam com as sequelas do câncer de próstata desenvolveram estratégias para continuar com suas práticas sexuais, como aumentar a proximidade, ter maior apreço à vida, reconhecer qualidades positivas e boas práticas de vida saudável. Assim, afastam o foco do falo, o que pode ser uma oportunidade de aprendizagem para os demais homens na mesma situação.
Quanto à população LGBTQIA+, há as mulheres transgêneros, conhecidas como “mulheres com próstata”, pois na mudança de gênero por meio da cirurgia de redesignação sexual não é feita a remoção da próstata. Apesar do risco de câncer de próstata ser baixo, as mulheres trans devem saber: 1) falta de ciência do médico sobre o fato de uma paciente registrada como mulher ter próstata; 2) sua dosagem de PSA pode estar alterada em função do uso de hormônio feminino, por exemplo o estrógeno; e 3) os sintomas do câncer de próstata podem ser ausentes ou confundidos com os sintomas da cirurgia reconstrutiva 29. A tendência é de aumento dessa população, e os(as) parceiros(as) também sofrerão do fenômeno sexless marriage.
Aproximando o debate da América Latina, o texto de Berríos e Rivero Vergne 30, de Porto Rico, apresenta o olhar de dez parceiras de sobreviventes do câncer de próstata, referindo a percepção da mulher enquanto “guardiã da saúde”. Consideradas como cuidadoras primárias de seus parceiros, as mulheres se envolvem de forma ativa no processo de tratamento, velando desde a dor até os cuidados com o asseio pessoal 30. Dessa forma, a necessidade que o paciente passa a ter da parceira aumenta de forma relevante, o que afeta sua autoestima e faz a parceira se sentir responsável pelo êxito do tratamento, carregando também, por consequência, as angústias da doença.
Olhar bioético
O papel social da mulher é historicamente construído a partir de um olhar predominantemente sexista masculino, de forma que ela foi relegada a um lugar de cuidado. A esse contexto preconceituoso, somam-se os dados levantados pela Sociedade Brasileira de Mastologia, que apontam que 70% das pacientes que lidam com o câncer de mama são abandonadas por seus parceiros quando atingem um alto grau de debilidade físico-emocional 3.
Tais fatos revelam que a mulher cuida, mas, em contrapartida, não é cuidada. Por isso, o exercício da conjugalidade é uma das formas de vivenciar a sexualidade, com conhecimento profundo do próprio corpo e da parceira. Com isso, pode-se definir a própria existência conjugal, suas características e seus limites de forma peculiar 3.
É necessário amenizar o sofrimento do paciente, mas, sobretudo, inserir nos cuidados a esposa, que permanece ao lado do marido, uma vez que é estruturalmente posta na função de cuidadora. Assim, o câncer de próstata é considerado pela literatura especializada nos Estado Unidos como doença do relacionamento (relationship illness), porque a companheira faz parte da recuperação da neoplasia maligna, mitigando os efeitos colaterais do tratamento. Além disso, esposas reportam mais sofrimento emocional no diagnóstico do câncer de próstata do que os próprios maridos 31.
Dessa forma, considerando os princípios consagrados da bioética (beneficência, não maleficência, justiça e autonomia), é preciso alcançar uma percepção integral ético-humanística e justa do paciente com câncer de próstata e, sobretudo, o estabelecimento de suas relações com sua parceira.
O homem brasileiro, inserido na cultura latino-americana da virilidade e do falocentrismo, torna o interesse pelos prazeres, desejos e saberes sexuais da parceira uma perspectiva bastante remota. Assim, constrói-se o esquema: ereção = macho = viril = homem exitoso = desejado pelas mulheres = admirado por todos os homens = pobres os que falham, como sustentam Kaplan e Sapetti 32.
A bioética serve de suporte na relação entre médico, paciente e demais envolvidos, prezando sempre por uma relação democrática e deliberativa, contando com a participação não somente do profissional, mas de todos os envolvidos nesse elo, para escolher a melhor alternativa de intervenção 33. Destaca-se, então, o princípio da autonomia, que diz respeito ao direito do paciente de se autogovernar e a necessidade de envolver a parceira, uma vez que ela também é profundamente afetada por essas escolhas.
Ressalta-se uma alternativa aplicada também aos casos iniciais de câncer de próstata que ocorre sobretudo em países nórdicos, na qual se opta por não fazer o tratamento. Trata-se da aplicação do método watchful waiting, uma observação de alto nível, ou seja, não se faz tratamento invasivo, como indicado na fase inicial da doença, pois se sabe que o câncer de próstata, na maioria das vezes, não acarreta a morte do paciente 34.
Já na active surveillance, ou vigilância ativa, são realizados vários exames anuais e, em qualquer momento em que houver piora dos parâmetros da doença, o paciente pode passar por tratamento invasivo. Portanto, instintivamente, não tratar pode significar a preservação sexual e da imagem corporal masculina.
O princípio da beneficência, intrinsecamente relacionado ao da não maleficência, igualmente toca o objeto desta revisão porque visa a cura de neoplasia de curso imprevisível. Adicionalmente, o princípio da justiça lida com o conceito de equidade, visando construir relações igualitárias, mesmo em relações e situações de desigualdade, buscando equilíbrio entre os pares.
Em um primeiro olhar, o princípio da justiça pode parecer estritamente vinculado à oferta e ao acesso à saúde, mas, de forma mais aprofundada, atinge o ponto-chave da questão, pois vai além do paciente, uma vez que a parceira também sofre as consequências do tratamento. Ela também deve visar seu bem-estar e sua felicidade, vivendo um relacionamento diádico mais prazeroso e com ganhos compartilhados.
Considerações finais
Os trabalhos selecionados demonstram que o tema tem sido tratado em pesquisas no exterior, no entanto a discussão ainda se encontra rasa no Brasil. Acolher a parceira é oportunidade de incluir uma doença de múltiplos desdobramentos em um debate atual e ético, trazendo como subsídios os princípios bioéticos da autonomia, justiça, não maleficência e beneficência, tanto para o paciente operado quanto para sua esposa.
Entende-se que o homem que perdeu parte da sua sexualidade, que não tem a função erétil plena e cuja função de penetração é razoável, em certo nível, é enxergado como estando em uma rede de proteção. Por outro lado, a ciência ainda não enxerga a esposa desse paciente. Dessa forma, esta pesquisa se justifica por investigar o impacto da doença na relação marital e, sobretudo, na esfera sexual, redefinindo o papel da parceira com novas estratégias para não manter a relação sexual presa ao genital.
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