Open-access Conhecimento e valoração de conceitos bioéticos entre adolescentes

Resumo

Este artigo tem por objetivo identificar o conhecimento e a valorização dada por estudantes do ensino fundamental a conceitos bioéticos, como autonomia, justiça, respeito à vida humana, entre outros. Trata-se de estudo qualitativo com análise de conteúdo de dados coletados em discussões sobre a temática bioética com base em uma situação-problema comum a esses estudantes: gravidez na adolescência e aborto. Participaram da pesquisa 36 estudantes com idade entre 14 e 16 anos, 20 homens e 16 mulheres, de duas escolas. Os códigos identificados foram comuns aos dois grupos, sendo o tema principal “Realizar um aborto é certo ou errado?”. Também foram identificadas cinco categorias e 14 subcategorias. O conhecimento a respeito de conceitos bioéticos aplicados à prática foi limitado, e a utilização de princípios bioéticos como autonomia e beneficência tende a ser desconsiderada em circunstâncias nas quais adolescentes se veem confrontados com conceitos previamente arraigados.

Palavras-chave:
Adolescente; Bioética; Conhecimento; Desenvolvimento do adolescente; Gravidez na adolescência

Abstract

This article aims to identify the knowledge and the value attributed by middle school students to bioethical concepts such as autonomy, justice, and respect for human life, among others. This is a qualitative study using content analysis of data collected from discussions on bioethics based on a problem situation common to these students: teenage pregnancy and abortion. The study included 36 students aged 14 to 16 years, 20 males and 16 females, from two schools. The codes identified were common to both groups, with the main theme being: “Is having an abortion right or wrong?” Five categories and fourteen subcategories were also identified. Knowledge regarding the practical application of bioethical concepts was limited, and the use of bioethical principles such as autonomy and beneficence tends to be overlooked in situations where adolescents are confronted with previously ingrained beliefs.

Keywords:
Adolescent; Bioethics; Knowledge; Adolescent development; Pregnancy in adolescence

Resumen

Este artículo tiene como objetivo identificar el conocimiento y la valoración que los estudiantes de educación secundaria básica otorgan a conceptos bioéticos, como autonomía, justicia y respeto a la vida humana, entre otros. Se trata de un estudio cualitativo con análisis de contenido de datos recopilados en discusiones sobre la temática bioética, basadas en una situación-problema común a estos estudiantes: el embarazo en la adolescencia y el aborto. Participaron en la investigación 36 estudiantes de entre 14 y 16 años, 20 varones y 16 mujeres, de dos escuelas. Los códigos identificados fueron comunes a ambos grupos, siendo el tema principal: “¿realizar un aborto es correcto o incorrecto?”. También se identificaron 5 categorías y 14 subcategorías. El conocimiento sobre los conceptos bioéticos aplicados a la práctica fue limitado, y el uso de principios bioéticos como la autonomía y la beneficencia tiende a ser desestimado en circunstancias en las que los adolescentes se ven confrontados con conceptos previamente arraigados.

Palabras clave:
Adolescente; Bioética; Conocimiento; Desarrollo del adolescente; Embarazo en adolescencia

A bioética conceitualmente contempla pelo menos duas grandes perspectivas1)-(4. Uma delas é voltada principalmente para pesquisas com seres humanos, muitas vezes chamada de principialista, já que pode ser condensada nos quatro grandes princípios bioéticos: autonomia, beneficência, justiça e não maleficência3. Outra, mais ampla, pode ser chamada de bioética global, uma vez que pretende abranger, mais do que os seres humanos, os seres vivos, bem como relacioná-los com o meio ambiente em que estão inseridos, sem desprezar os conceitos dos princípios bioéticos5),(6.

A bioética global torna-se mais importante à medida que ações e relações humanas impactam a sociedade e o meio ambiente em que vivemos com consequências definitivas e progressivas, as quais têm se apresentado de forma mais evidente neste século6),(7. A bioética global não pretende negligenciar os princípios bioéticos, mas a eles somar outros aspectos igualmente importantes, como tolerância, dignidade e respeito à vida humana e animal, sustentabilidade, responsabilidade, relacionamento interpessoal, educação e capacitação para o desenvolvimento pleno da sociedade, entre outros6),(8),(9.

A formação ou deformação da consciência bioética do indivíduo ocorre ao longo da vida, assim como ocorre na aquisição de outros conceitos. É na infância e adolescência que esses valores são inicialmente apresentados. Entre os diferentes cenários em que essa iniciação pode ocorrer, a escola constitui ambiente privilegiado, onde, poderíamos dizer, coloca-se a sociedade na cabeça dos indivíduos10, no sentido de que constitui oportunidade única de discutir e debater diferentes conceitos de forma protegida, lúdica e livre de interesses secundários9),(10)-(13.

Os estudantes pertencentes a um mesmo ano apresentam semelhanças no que diz respeito a idade, bem como a aspectos de conhecimento, e, embora sejam indivíduos diferentes, compartilham sentimentos e objetivos presentes e futuros14. Neste estudo, a proposta consistiu em investigar, por meio de pesquisa qualitativa, o conhecimento e o valor dado aos conceitos fundamentais da bioética por estudantes do ensino fundamental.

Método

Foi realizada abordagem qualitativa utilizando o método de análise de conteúdo15)-(17. Por meio dessa estratégia, valores e opiniões manifestas ou latentes foram extraídos das participações dos estudantes e depois codificados, abstraídos e categorizados em temas principais, categorias e subcategorias, sendo estes a base para identificar de que forma os participantes se manifestam em relação à temática discutida.

A discussão bioética foi motivada por uma atividade em sala de aula que consistia em uma situação-problema, especificamente gravidez na adolescência, comum à realidade desses estudantes. Após explicação e contextualização da situação proposta, foi solicitado que procurassem vivenciar a situação e que dissertassem sobre quais considerações e ações a mãe adolescente poderia ter, elaborando por fim respostas por escrito (Quadro 1).

Quadro 1
Situação apresentada

Seguiu-se uma discussão mediada pelo professor, a qual foi gravada e transcrita. Após uma semana, o tema foi reabordado, as respostas previamente redigidas foram rememoradas e nova discussão foi realizada, a qual também foi gravada e transcrita. Esse procedimento foi realizado em duas escolas diferentes, que, embora pertencentes ao mesmo município, estão inseridas em comunidades com diferenças importantes no que se refere ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A análise das discussões transcritas permitiu a identificação de expressões e palavras essenciais relacionadas à temática em discussão e, assim, a criação de categorias de acordo com diferenças e semelhanças encontradas. Após a identificação de categorias, realizada de forma independente por dois pesquisadores, as transcrições foram revisitadas três vezes, para que as categorias inicialmente identificadas fossem combinadas e desenvolvidas de modo a produzir a categorização final.

Buscou-se a fidedignidade dos achados pela aplicação de conceitos de credibilidade, confiabilidade, confirmação e possibilidade de transferência18),(19. Para tanto, foram utilizadas práticas como a revisão das categorias propostas pelos dois pesquisadores por um terceiro pesquisador, que não participou da categorização inicial e não sabia quais categorias pertenciam a cada escola. Para fins de confirmação, alguns trechos transcritos e as categorias geradas foram lidos pelo professor, na segunda abordagem, na intenção de observar a concordância ou não dos participantes quanto à manifestação inicial.

As transcrições foram realizadas de forma independente por dois pesquisadores, posteriormente comparadas e ajustadas. Havendo discordância, o terceiro pesquisador foi acionado. O processo de análise, portanto, evolui em passos: transcrição e apropriação do conteúdo, identificação de palavras-chave, categorização, desenvolvimento de tema, identificação de significados e desenvolvimento de modelo conceitual. O software MAXQDA foi utilizado como ferramenta para organizar o andamento dos processos referidos.

Resultados

O processo de coleta de dados resultou em 36 folhas com respostas por escrito e quatro discussões em grupo que corresponderam a cerca de quatro horas e 20 minutos, resultando em 37 páginas de transcrição. Participaram do processo 36 estudantes com idade entre 14 e 16 anos, 20 homens e 16 mulheres (Tabela 1).

Tabela 1
Características demográficas dos estudantes

O processo de análise temática foi realizado de forma independente para cada grupo de estudantes, escola A e escola B, separadamente. A avaliação inicial levou à identificação de um total de 78 códigos, dos quais 71 eram comuns aos dois grupos, cinco pertenciam apenas ao grupo A e dois apenas ao grupo B. Uma segunda análise levou a uma redução para 47 códigos após a identificação de códigos semelhantes, sendo todos estes comuns aos dois grupos.

As subsequentes revisões e agrupamentos conduziram finalmente à identificação de um tema principal, cinco categorias e 14 subcategorias (Tabela 2). O tema principal evidenciado foi: “Realizar um aborto é certo ou errado?”. Portanto, o tema principal, as categorias e subcategorias encontradas foram comuns aos dois grupos, ou seja, às duas escolas.

Tabela 2
Categorias extraídas

Realizar um aborto é certo ou errado?

Este tema foi o pano de fundo da maioria das manifestações dos estudantes. Alguns inicialmente limitaram-se a considerar que a realização de aborto é simplesmente errada e deve ser encarada como crime, sendo a gestante encarada como criminosa, independentemente de qualquer discussão a respeito do contexto pessoal ou familiar associados à gravidez (“Aborto é crime!”, “Abortar é errado e ela terá que pagar por isto”). De forma igualmente descontextualizada, mas também aparentando convicção, outros manifestaram opinião diametralmente oposta, porém igualmente não refletida, considerando que a prática do aborto deve ser realizada sempre (“Sou a favor de todo tipo de aborto”, “Se ela quiser abortar, ninguém tem nada a ver com isso”).

Responsabilidade

A atribuição de responsabilidade à gestação adolescente foi diversas vezes mencionada, não apenas em relação à adolescente gestante, mas também a sua família, à escola e ao poder público. Em nenhum momento foi colocada a responsabilidade do pai como participante na geração da criança. De fato, para alguns, a responsabilidade real restará à mãe e a seu núcleo familiar: “Você [a gestante] tem que se responsabilizar pelo bebê”, “o filho é teu (…) agora você é que tem que criar”, “o filho é só da mãe”.

Orientação

Quanto à orientação, as falas reportam falta ou insuficiência de orientação sexual, imputando, em especial, à família dos adolescentes e, em menor medida, à comunidade, na figura da escola, crítica pois deveriam ter sido mais ativos na conscientização e educação sexual. Nesse aspecto, o pai aparece não como responsável, mas como vítima da ausência de orientação: “As pessoas deveriam ter orientação (…) Eu acho que compete muito aos pais”, “eu acho que este assunto deveria ser mais discutido nas escolas, nas famílias”, “tem um pouco na escola [orientação sexual], mas acho que é pouco”.

Leis

Foram recorrentes menções à legislação, assim como às leis “da igreja”. Não há dúvida entre os estudantes de que aborto é definitivamente errado e condenado do ponto de vista religioso. Quanto à legislação brasileira, os estudantes manifestaram a ideia simplificada de que aborto é crime, desconsiderando ou desconhecendo situações de aborto legal atuais.

Entre os estudantes que apoiaram e justificaram sua manifestação baseados nas leis “da igreja”, considerar a realização de aborto já constitui um pensamento errado, o qual deve ser combatido na sociedade: “se Deus me deu a oportunidade de ter um filho”, “isto é crime (…) ela vai ser presa”, “é um anjo (…) você está recusando um presente de Deus”, “seria errado, isto vai perseguir ela na mente”.

Opinião

A manifestação da opinião pessoal se deu, na maior parte das vezes, de forma emotiva e absolutista, frequentemente considerando o ponto de vista individual como única verdade possível. Ainda assim, alguns consideraram que o aprofundamento do tema bem como a existência de maior reflexão sobre o assunto poderiam levar a posicionamento diferente no futuro: “talvez com mais fatos eu mudaria (…) de ideia”.

A maioria tendeu a ter postura intransigente ao afirmar que não iria mudar de opinião, independentemente das circunstâncias e de seu posicionamento ser a favor ou contra o aborto. Quando se utilizou base religiosa, as manifestações se tornaram mais enérgicas e menos propensas a considerar opiniões diversas: “Eu não mudaria de ideia [em relação ao aborto]”, “o que eu penso é isto”.

Consequências

Quanto à percepção das consequências tanto da realização de aborto quanto do nascimento da criança, os estudantes dividiram-se novamente em polos antagônicos. Existem aqueles que consideram que haverá pouca ou nenhuma mudança, enquanto outros enxergam consequências em especial para a gestante e sua família e em alguma medida para a comunidade e para a criança que vai nascer: “ninguém vai ser afetado [abortando]”, “Abortando vai continuar a vida normal de sempre”, “eu abandonaria [a criança], “a minha mãe não me queria, ela se incomoda comigo”. Novamente, o futuro pai não foi mencionado.

Discussão

A discussão da temática bioética entre adolescentes não é conteúdo programático, ou seja, não está claramente incluída entre os objetivos determinados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (20. Entretanto, não apenas os princípios e fundamentos da bioética, mas também conceitos de bioética ecológica ou global, estão claramente inseridos nos 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), e esses objetivos encontram-se entre as competências buscadas dentro dos PCN, de modo que se pode admitir que o desenvolvimento e a discussão bioética não apenas são importantes como devem ser fomentados entre adolescentes pela escola2),(6),(7),(21)-(23.

Observou-se em pesquisas anteriores que, além do conhecimento bioético, experiência prévia e prática argumentativa são habilidades que devem ser desenvolvidas para permitir que estudantes se expressem de forma mais adequada e exprimam seus respectivos pontos de vista de forma mais fidedigna4)-(24.

Nesta pesquisa, utilizou-se uma situação hipotética, “gravidez na adolescência”, comum à realidade dos estudantes participantes, a fim de introduzir e desenvolver a discussão de princípios de bioética intrínsecos à vida desses estudantes, ainda que em regra tais princípios não se mostrem claros e definidos quando aplicados na prática25),(26.

Da mesma forma, a prática do debate envolvendo questões morais, aspectos de autonomia, respeito e dignidade da vida humana, as quais muitas vezes implicam pontos de vista diferentes e até antagônicos, exige o desenvolvimento do diálogo e, em especial, da capacidade de ouvir e compreender o outro como um igual, ainda que com ideias opostas. Também o desenvolvimento da capacidade de debater constitui-se ferramenta essencial para a aplicação da bioética3),(6),(27),(28.

No Brasil, atualmente há elevado número de gestações não planejadas, ou até mesmo do que pode ser classificado como gestações indesejadas, as quais são mais prevalentes em mulheres mais jovens, com menor renda e menor escolaridade; logo, a ocorrência de gravidez na adolescência é prevalente nas regiões com os piores índices de desenvolvimento29)-(31.

Evidências apontam que famílias de menor renda tendem inicialmente a manifestar maior aceitação da gestação na adolescência, entretanto os maiores impactos tendem a ser sofridos pelas adolescentes dessas famílias, tanto no que se refere ao comprometimento do planejamento futuro, em especial educacional, quanto à manutenção da dependência financeira em relação à família32),(33.

Muitos estudantes não foram capazes de perceber ou mesmo não detêm o conhecimento a respeito das consequências advindas da situação. Alguns consideram-na normal, sem visualizar os prejuízos advindos dela, em especial para a mãe adolescente30),(32.

O que se propôs nesta abordagem não foi uma discussão a respeito da prática ou não do aborto, mas uma visão das possíveis e prováveis perspectivas dos adolescentes, futuros pais e principalmente mães, em um contexto de gestação indesejada.

Observou-se que, para alguns, a avaliação se deu de forma a considerar o aborto como possibilidade descartada, e a gestação como condição que deva ser levada ao nascimento sem nenhuma discussão, desconsiderando fatores de saúde para a mãe e para a futura criança. Nessa perspectiva, detecta-se pouca ou nenhuma valorização do conceito da autonomia da gestante, e mesmo a beneficência real envolvida na situação30),(33.

Independentemente da discussão a respeito da temática do aborto, buscou-se discutir as perspectivas acerca do impacto da vida da gestante/adolescente, e muitos estudantes não foram capazes de compreender isso, em parte por enxergar o tema como previamente definido, sem espaço para discussão, com base no princípio de que aborto não deve ser realizado em nenhuma circunstância34),(35.

Alguns, ao considerarem a opção pelo aborto, o fizeram dentro de sua perspectiva pessoal e, ao fazê-lo, agiram de forma também irrefletida, utilizando-se de conceitos preestabelecidos, com pouca ou nenhuma discussão a respeito de diferentes alternativas possíveis.

Por outro lado, parte dos estudantes considerou o aborto uma opção possível e interessante da perspectiva da gestante adolescente, menos por considerar que a gestante possa manifestar sua autonomia individual e mais por considerar a beneficência envolvida na situação não apenas para a mãe gestante, mas também para a família dela e mesmo para a futura criança.

Os estudantes distribuíram a responsabilidade pela gestação indesejada entre a gestante, os familiares desta, a escola e a comunidade, e chamou atenção a falta de menção ao pai como parte diretamente responsável. Esse fato corresponde à realidade observada, em que, nos casos de gestação adolescente, a mãe é mais prejudicada, seja com interrupção da formação escolar, obtenção de piores empregos, perda do convívio com seu grupo de amigos, pressão familiar, entre outros34)-(36.

Deve-se considerar ainda que, no caso de aborto como opção “terapêutica”, a decisão pelo uso ou recusa dessa opção se dá sob a perspectiva de decisão clínica envolvendo paciente “incapaz legalmente”; logo a participação dos pais ou responsáveis passa a ser fator dentro do processo decisório, em uma perspectiva dos direitos do adolescente37)-(40. É evidente que a gestação não é doença nem o aborto é tratamento, uma vez que tanto a gestação adolescente quanto o abortamento trazem riscos reais e, portanto, devem ser considerados com a devida atenção.

Nessa perspectiva, outro aspecto fundamental que deve ser considerado é a capacidade decisória do adolescente, seja para aceitar, seja para recusar um procedimento proposto. Esse propalado poder de escolha deve ser considerado dentro das reais perspectivas da capacidade decisória dessa adolescente e, assim, levar em conta as inerentes pressões familiares e da sociedade em que está inserida e que a capacidade de aceitação ou recusa pode não ser a mesma para todas as adolescentes de mesma idade37),(41)-(47.

A proposta aqui apresentada revela-se particularmente ainda mais oportuna, pois, muito mais do que o debate de um único tema, gravidez e aborto, o que se vislumbra é o fato de que o ensino e o desenvolvimento de competências bioéticas constituem ferramentas importantes no empoderamento do adolescente, com consequente crescimento de sua capacidade decisória baseada em conhecimentos, e não na opinião de terceiros37),(46),(48),(49.

Além dos princípios bioéticos que naturalmente estão envolvidos, estarão relacionados aspectos morais inerentes ao cotidiano das pessoas. O que o adolescente considera moralmente correto, em sua perspectiva pessoal, tem maior chance de ser aceito como solução aceitável ante o problema apresentado50),(51. Em outras palavras, a moral reflete a realidade prática da vida das pessoas. O que se pretende buscar com a bioética é a reflexão sobre as motivações dessas ações, suas consequências e implicações, não só na esfera pessoal, individual, mas também e principalmente em termos da sociedade e do meio ambiente em que as pessoas estão inseridas1),(52),(53.

Tal esforço mostrou-se claramente necessário nesse grupo de estudantes, em que se observou que, diante de uma situação comum e reconhecível, na qual existem caminhos opostos a serem seguidos, a maioria não se mostrou capaz de considerar como aceitável uma opinião diversa da sua e, ainda pior, não demonstrou interesse em conhecer os motivos que podem levar a escolhas diferentes, mas, ao contrário, procurou fortalecer seus próprios pontos de vista.

Considerações finais

Embora tenha limitações inerentes à metodologia utilizada e à quantidade de participantes, a pesquisa permitiu inferir claramente que o conhecimento a respeito de conceitos bioéticos aplicados à prática foi limitado e, principalmente, que a utilização de princípios bioéticos como autonomia e beneficência tende a ser desconsiderada em circunstâncias em que os adolescentes se veem confrontados com conceitos prévios que estão fortemente consolidados.

Também, o debate de ideias, parte fundamental do ensino e aprendizagem da temática bioética, sendo tão ou mais importante que a discussão dos princípios bioéticos, não ocorreu naturalmente, dada a tendência entre os adolescentes de buscar a concordância do outro pela imposição da própria opinião.

Não se pode avançar na discussão da autonomia, beneficência ou justiça sem estar aberto a perceber o mundo com os olhos do outro e sem ter a disposição para considerar que circunstâncias impostas pela vida em sociedade conduzem algumas pessoas a escolhas ruins, ou mesmo injustificadas, sob determinados aspectos.

A adolescência constitui momento especialmente frágil, porém também profícuo, em que o esforço no desenvolvimento de habilidades de tolerância, respeito à dignidade humana e capacidade de empatia ao próximo pode ser praticado e estimulado. Esses predicados, que são inerentes a uma convivência harmoniosa em sociedade e muitas vezes faltam ao mundo dos adultos, também estão fragilizados nesses adolescentes, fato que justifica nossos esforços em buscá-los.

Disponibilidade de dados:

Todos os dados utilizados ou gerados na pesquisa estão integralmente descritos e apresentados no corpo do artigo.

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    Aprovação CEP-CAAE 82615324.0.0000.5368

Editado por

  • Editora responsável:
    Dilza Teresinha Ambrós Ribeiro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Jul 2025
  • Revisado
    18 Dez 2025
  • Aceito
    26 Mar 2026
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