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Open-access Comunicação de notícias difíceis no contexto brasileiro: revisão de escopo

Resumo

O objetivo deste estudo foi sumarizar os principais achados sobre comunicação de notícias difíceis no contexto da saúde brasileira. Utilizou-se o método de revisão de escopo, realizado por meio da análise de 14 estudos. A privacidade e a capacitação profissional voltada a esse tipo de atuação foram citadas como facilitadores do processo. Constatou-se que pacientes têm interesse em saber a verdade sobre sua condição e participar de decisões. Profissionais de saúde mostram cuidado com o vínculo e a objetividade da comunicação, evidenciando preocupação com a qualidade do processo, mas referem dificuldades, além de sentimentos de medo, culpa e receio das reações de pacientes e familiares. Essa realidade ressalta a necessidade de capacitação voltada ao tema desde a graduação, para promover uma comunicação adequada, com bom vínculo, respeitando a dignidade do paciente.

Comunicação em saúde; Relações médico-paciente; Relações enfermeiro-paciente

Abstract

The aim of this study was to summarize the main findings on the communication of difficult news in the Brazilian health context. The scoping review method was used to analyze 14 studies. Privacy and professional training were cited as facilitators of the process. It was found that patients are interested in knowing the truth about their condition and participating in decisions. Health professionals show care for the bond and objectivity of communication, demonstrating concern for the quality of the process, but report difficulties, as well as feelings of fear, guilt and anxiety about the reactions of patients and family members. This reality underscores the need for training on the subject from the undergraduate level to promote proper communication, with a good bond, respecting the patient dignity.

Health communication; Physician-patient relations; Nurse-patient relations

Resumen

El objetivo de este estudio fue detallar los principales hallazgos sobre la comunicación de noticias difíciles en el contexto sanitario brasileño. Se utilizó el método de revisión del alcance mediante el análisis de 14 estudios. Los elementos que facilitan el proceso fueron la privacidad y la formación profesional centrada en este proceso. Se encontró que los pacientes están interesados en conocer la verdad sobre su condición y participar en las decisiones. Los profesionales de la salud muestran atención con el vínculo y la objetividad de la comunicación, y se preocupan por la calidad del proceso, pero reportan dificultades, además de sentimientos de temor, culpa y miedo a las reacciones de los pacientes y sus familias. Esta realidad pone de manifiesto la necesidad de una formación en el tema desde la graduación para promover una comunicación adecuada, con un buen vínculo, respetando la dignidad del paciente.

Comunicación en salud; Relaciones médico-paciente; Relaciones enfermero-paciente

A comunicação realizada no contexto da saúde é fundamental para o bom funcionamento da relação entre profissionais, pacientes e familiares. Ela é um importante instrumento de trabalho e auxilia profissionais da saúde a transmitir informações relevantes. No ambiente hospitalar, devido aos desafios enfrentados por equipes, pacientes e familiares, a comunicação tem especificidades nas áreas de oncologia e cuidados paliativos 1-4.

Uma comunicação bem estruturada pode ajudar na boa relação profissional-paciente, influenciando na recuperação de doenças, na tomada de decisões e na adesão do paciente ao tratamento 5,6. É responsabilidade do médico dar ao paciente as informações necessárias a respeito de diagnóstico, prognóstico e possibilidades de terapia 7, considerando que problemas na comunicação podem ser psicologicamente prejudiciais ao paciente 8.

Em situações limítrofes de vida, como na oncologia e nos cuidados paliativos, a comunicação de notícias difíceis enfrenta muitas adversidades, como o medo da morte em pacientes e familiares 9 e o receio da equipe quanto à reação da família e do paciente 10, além de preocupações jurídicas relacionadas às tomadas de decisão 11. Comunicar uma notícia no contexto de saúde não costuma ser uma tarefa fácil para as pessoas envolvidas, principalmente no caso das notícias difíceis, que envolvem situações de prognóstico complicado ou terminalidade.

Considera-se notícia difícil a informação comunicada por profissionais da saúde que pode desestabilizar o bem-estar físico e psicológico do paciente, e limita suas escolhas sobre o futuro 12. Por se tratar de uma tarefa que exige treino e ambiente apropriado, muitos profissionais ainda têm dificuldades em realizá-la adequadamente 13. Alguns aspectos, como déficits na formação profissional, características pessoais e sentimentos negativos experienciados por profissionais ao comunicar uma notícia difícil em situações anteriores, podem interferir na transmissão de informações relevantes para o tratamento de pacientes 14.

Atenção e empatia são componentes fundamentais que facilitam essa tarefa, pois auxiliam na formação de vínculo e melhoram o entendimento de aspectos pessoais de pacientes e familiares. Para isso, algumas técnicas verbais, como pedir um retorno do paciente, contribuem de forma positiva para uma boa comunicação 5,12. Outros aspectos podem facilitar uma comunicação eficaz e empática, tais como formação profissional consistente 2,15, espaço adequado 4,11, acolhimento 14,16 e apoio familiar 14-18.

Devido às dificuldades enfrentadas por profissionais da saúde durante a transmissão de informações a pacientes, protocolos como o Spikes 19 e o Breaks 20 foram desenvolvidos. Esses parâmetros são utilizados com o intuito de auxiliar e facilitar a comunicação de notícias difíceis de forma sistemática por meio da descrição de cada etapa do processo de comunicação proposto. Entretanto, fatores específicos da relação profissional-paciente, bem como diagnósticos específicos, podem influenciar uma situação particular, na qual, mesmo com protocolos, a comunicação pode ter déficits, como costuma ocorrer em situações de morte encefálica 11.

Por se tratar de um componente complexo, a comunicação não consiste apenas em troca de informações, pois envolve a cultura, expectativas, experiências e princípios individuais. No contexto da saúde, esses aspectos englobam todos os indivíduos envolvidos na comunicação: médicos, equipe multidisciplinar, pacientes e seus familiares 12.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) preconiza o atendimento integral ao paciente, destacando como direitos a autonomia, o conforto, condições de recuperação, atendimento por equipe multiprofissional e ampliação da qualidade de comunicação. Além disso, a Política Nacional de Humanização 21 oferece orientações sobre o cuidado com o paciente e propõe uma formação relacionada à tanatologia. Dessa forma, os profissionais poderiam se preparar para enfrentar situações de morte e o momento de comunicação de notícias difíceis da melhor forma possível, realizando até mesmo uma comunicação que prepare paciente e familiares para um momento de perda.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) 22 ressalta o despreparo dos profissionais da saúde na comunicação e suporte oferecido a pacientes diante de diagnósticos de doença em estágio avançado, o que prejudicaria a relação terapêutica e a recuperação desses pacientes. Assim, a valorização e a qualificação de profissionais são condições importantes para o desenvolvimento da qualidade de comunicação de notícias difíceis e o acolhimento prestado no ambiente hospitalar.

Portanto, é necessário identificar obstáculos e facilitadores da comunicação de notícias difíceis pela perspectiva das pessoas envolvidas, assim como estratégias adotadas e potenciais barreiras à transmissão de informações para uma comunicação adequada, o que ajudaria na adesão ao tratamento e na recuperação do paciente 1. Este estudo teve como objetivo sumarizar os principais achados e elaborar um panorama descritivo dos dados por meio de revisão bibliográfica sobre comunicação de notícias difíceis no contexto da saúde brasileira.

Método

Trata-se de revisão de literatura do tipo scoping review, utilizado comumente para apresentação ampla de evidências relativas a determinado assunto em ascensão 23. Esse tipo de revisão permite mapear conceitos-chave e identificar lacunas de uma área de pesquisa, reunindo tópicos emergentes no campo científico 24. Com esse método, pode-se identificar dificuldades e potenciais facilitadores para a comunicação de notícias difíceis.

Esta pesquisa seguiu os procedimentos recomendados pelo Instituto Joanna Briggs – definição de título, objetivos, definição de critérios de inclusão e exclusão, estratégias de busca, coleta de dados e exposição dos resultados 25 – e utilizou o protocolo Prisma na coleta, extração e seleção dos artigos 26. A princípio, foram feitas leituras exploratórias a respeito do tema “Comunicação de notícias difíceis no contexto da saúde”, que nortearam os descritores utilizados para a busca de artigos.

A busca em bancos de dados incluiu os operadores booleanos “and” e “or” para filtrar de maneira eficaz os resultados mais relevantes, e os descritores utilizados foram: “notícias and (saúde or difíceis)”; “más and notícias”; “news and (difficult or bad)”; “health and news”. Os dados coletados foram inseridos e sistematizados no software StArt 27 para elaboração do Prisma (Quadro 1).

Quadro 1
Estratégias de busca com descritores e bancos de dados

Partiu-se do acrônimo PCC (população, contexto, conceito) 24 para definir a pergunta de pesquisa: o conceito-alvo foi a comunicação de notícias difíceis; a população estudada foram adultos e idosos; e o contexto é o da saúde. Com isso, tem-se a pergunta de pesquisa: “O que tem sido pesquisado e evidenciado sobre a comunicação de notícias difíceis no contexto da saúde?”.

Foram utilizados os seguintes critérios de inclusão: ano (2018 a 2023); idioma (português, inglês e espanhol); contexto (saúde); faixa etária (adultos e idosos). O critério de exclusão foi o texto não ser revisado por pares, o que inclui cartas ao editor, contextos organizacionais, livros ou capítulos de livro, resenhas, revisões de literatura, comentários, pontos de vista e editoriais. Também foram excluídos textos relacionados a más notícias sem relação com o contexto de saúde, como os veiculados pela imprensa, veículos de comunicação e áreas econômicas ou financeiras, bem como estudos realizados com discentes ou em contexto pediátrico.

As bases de dados escolhidas foram SciELO, LILACS e PePsic. A escolha justifica-se pela relevância multidisciplinar das duas primeiras plataformas, que abrangem os principais periódicos de psicologia e saúde publicados no Brasil. A PePsic é uma plataforma ibero-americana voltada exclusivamente para a área da psicologia.

Foram submetidas à análise bibliométrica 28 as seguintes informações: ano, instrumentos, tamanho da amostra, idade, gênero, tipo de estudo, contexto clínico e protocolos citados. Os principais resultados relacionados à pergunta de pesquisa foram submetidos à análise de conteúdo 29, sendo, portanto, analisados qualitativamente e organizados em quatro categorias: elementos facilitadores da comunicação, obstáculos da comunicação, preferências dos pacientes e estratégias adotadas por profissionais.

Resultados

As buscas resultaram em 748 artigos, dos quais 219 foram excluídos por duplicidade, restando 529, que tiveram seus resumos e títulos lidos. Após essa etapa, restaram 15 artigos, porém um desses não estava acessível integralmente, de forma que 14 artigos foram eleitos para o estudo (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma com etapas do Prisma

Análise bibliométrica

A maioria dos artigos é de 2018 (n=6), seguido por 2022 (n=3), 2020 (n=2), 2019 (n=2) e 2021 (n=1). Todos os artigos estavam em português (n=14) e cinco apresentaram também versão em inglês (n=5). Com relação à amostra, seis estudos abordaram pacientes, sete abordaram médicos e profissionais de saúde, e um abordou ambos.

A amostragem foi de 902 pacientes e 149 médicos, sendo o menor número composto por 30 enfermeiros e 20 profissionais gerais. Cinco artigos não informaram o gênero dos participantes e, nos outros nove, a maioria da amostra foi de pessoas do gênero feminino (76,05%). Três estudos não informaram a idade dos participantes e um informou o intervalo de idade, permitindo estimar-se a média a partir do ponto médio; a média de idade nos outros dez artigos foi de 44,2 anos. Os artigos tiveram como público-alvo profissionais (n=7), pacientes (n=6) e ambos (n=1) (Quadro 2).

Quadro 2
Informações dos artigos

A respeito do tipo de método, oito artigos utilizaram métodos qualitativos; quatro, métodos quantitativos; e dois artigos usaram ambos os métodos. A entrevista semidirigida foi o instrumento mais utilizado (n=9), seguida por questionário fechado (n=4) e questionário aberto (n=1). Dez artigos referiram protocolos em sua introdução, na discussão ou em ambos, sendo Spikes o protocolo mais citado (n=8). Quanto ao contexto clínico, cinco artigos foram feitos em oncologia, três em hospital geral, dois em atenção básica e dois em cuidados paliativos, seguidos por morte encefálica (n=1) e transplante de medula óssea (n=1). Todos os artigos abordaram aspectos psicológicos de pacientes ou membros da equipe.

Análise de conteúdo

Elementos facilitadores da comunicação

Todos os artigos abordaram aspectos facilitadores da comunicação de notícias difíceis (n=14), sendo os mais referidos a privacidade (n=8) e a formação profissional voltada a esse tipo de atuação (n=8). Sobre a privacidade, os estudos destacaram a importância de um ambiente adequado e privativo para a comunicação entre paciente e profissional 1,4,9,11,14,15,18,30, podendo até ser um espaço exclusivo para essa finalidade 11,15. Com relação à formação profissional, destacaram que ter contato com a comunicação de notícias difíceis na graduação ou em cursos posteriores facilitou a interação entre equipe e paciente 1,2,4,10,11,13,15,30, principalmente devido ao conhecimento de ferramentas que facilitam a abordagem do paciente e a comunicação de notícias em tais situações 11,13,14,30.

Com relação às estratégias, dez artigos mencionaram o uso de protocolos de comunicação, sendo o Spikes o mais usado (n=8) 2,4,9-11,14,15,18. Cinco dentre os artigos que citaram protocolos referiram vantagens do uso desses instrumentos, como redução da angústia e do medo dos profissionais ao comunicar uma notícia difícil 2,14,15, facilidade de adaptação dos protocolos de acordo com determinados contextos e necessidades 14 e possibilidade de ter uma forma organizada e didática de comunicar notícias difíceis 4,9,14,15. Um artigo ainda mencionou que os protocolos ajudam na adesão dos pacientes ao tratamento 9.

No entanto, dois artigos discutiram desvantagens do uso de protocolos na comunicação de notícias difíceis. Segundo esses estudos, os protocolos não contemplam a complexidade de alguns casos específicos no ambiente de saúde, como a morte encefálica 11, e suas regras ditas fixas podem não estar de acordo com a individualidade dos pacientes 1.

Acolhimento e vínculo, referidos em seis artigos, mostraram-se cruciais no estabelecimento de relações entre profissional e paciente, contribuindo para uma melhor comunicação 4,9,10,14,16,30. Além disso, quatro artigos mencionaram a importância de respeitar as emoções dos pacientes no estabelecimento de uma boa relação comunicativa 3,9,10,18. Segundo três artigos, a experiência profissional propicia a melhor comunicação de notícias difíceis, uma vez que os profissionais adquirem familiaridade com a melhor forma de comunicar de acordo com determinado contexto 3,4,11.

O apoio familiar foi mencionado em três artigos como facilitador na comunicação de notícias difíceis 10,17,18. Ainda, muitas vezes os pacientes desejam fazer perguntas relacionadas ao tratamento, suporte e mecanismos do sistema de saúde que fazem parte de seu processo de recuperação da doença, de forma que o conhecimento da rede de saúde também se mostrou um facilitador durante a comunicação 1,30. Apenas um artigo reiterou a importância da atuação multiprofissional para uma boa comunicação e relação com o paciente 30.

Obstáculos da comunicação

Treze artigos discutiram os obstáculos enfrentados por profissionais e pacientes durante a comunicação de notícias difíceis 1-4,9-11,14-18,30. Oito deles mencionaram características pessoais dos profissionais como obstáculos.

Sentimentos de medo e culpa experienciados por profissionais ao comunicar notícias difíceis impactam a comunicação de forma negativa. Assim, para evitar sentimentos ruins, muitos profissionais criam mecanismos de defesa, como tentar não demonstrar sentimentos aos pacientes ou não se afeiçoar a eles 1-4,14-16,30. Alguns pacientes chegaram a relatar falta de sensibilidade do profissional ao comunicar uma notícia difícil 3,10 e pouca confiança no profissional comunicador 2,10,14.

Isso se confirma ao observar que oito artigos discutiram o medo da reação de pacientes e seus familiares que os profissionais experienciam ao dar uma notícia difícil a respeito do diagnóstico 2,3,10,11,14,15,30. Essa dificuldade de comunicação também pode ser observada quando os profissionais precisam comunicar um diagnóstico difícil para pacientes jovens ou idosos 1,3,11,14.

Características pessoais dos pacientes foram mencionadas como obstáculo na comunicação em oito artigos, pois a forma como os pacientes recebem notícias difíceis, principalmente quando a primeira reação é negar o próprio diagnóstico, dificulta o processo de comunicação 1,2,4,9,14,15,17,30. Essa dificuldade pode ser observada também em alguns familiares do paciente, que podem não receber a notícia difícil de forma positiva. Eles acabam deixando seus sentimentos negativos afetarem o paciente, criando barreiras na comunicação e interferindo na relação do paciente com o profissional 2,4,11,14,15.

Déficits na formação profissional foram mencionados em seis artigos e muitos profissionais relataram que, durante sua graduação, o tema da comunicação de notícias difíceis não foi abordado, de modo que alguns deles aprenderam a comunicar notícias difíceis com a experiência adquirida na prática profissional 2-4,14,16,30. Os profissionais relataram alta demanda de pacientes e atividades no ambiente hospitalar como obstáculo para a comunicação em três artigos 4,14,30. A falta de experiência profissional foi mencionada em dois artigos como ponto positivo para os profissionais comunicarem notícias difíceis 15,30.

Em três trabalhos, mencionou-se como obstáculo na comunicação a falta de interesse dos profissionais em buscar saber qual o conhecimento prévio do paciente e características individuais que pudessem contribuir para a comunicação e amenizar a notícia difícil 9,16,18. Os pacientes relataram ser mais difícil aceitar o próprio diagnóstico quando ele é súbito e imprevisto 9,15 e quando os profissionais não cedem o espaço necessário para a escuta 9,16. Em dois artigos alguns pacientes reclamaram do excesso de informações passadas a eles 1,16, e a linguagem técnica utilizada pelos profissionais ao comunicar a notícia difícil também dificulta o entendimento 10, pois pacientes relataram não entender de forma clara o diagnóstico comunicado 16.

Preferências dos pacientes

As preferências dos pacientes foram discutidas em cinco artigos 9,10,13,16,18, dos quais um trabalhou apenas com idosos 13. Três deles relataram que os pacientes preferem saber a verdade sobre seu diagnóstico e tempo de vida limitado 9,13,18 e dois artigos mencionaram que os pacientes desejam participar diretamente das decisões médicas relacionadas à sua saúde 13,18.

Outros dois estudos referiram que os pacientes preferem que as notícias difíceis sejam comunicadas diretamente a eles. Os pacientes ainda declararam que se sentem mais seguros quando o profissional comunica a notícia difícil de forma que passe uma sensação de esperança, e que apreciam a disponibilidade de escuta dos profissionais ao comunicarem notícias difíceis 10,16.

Estratégias adotadas por profissionais

Onze artigos discutiram as estratégias adotadas por profissionais ao comunicar uma notícia difícil para pacientes 1-4,10,11,13-15,18,30. Oito enfatizaram a preocupação dos profissionais com a qualidade da comunicação e seis relataram que os profissionais buscam identificar o conhecimento prévio dos pacientes ou familiares e suas individualidades antes de dar uma notícia difícil 1,3,4,11,14,15. Seis artigos discutiram o tipo de comunicação utilizada e esclareceram que os profissionais observaram melhora da comunicação ao utilizar uma linguagem simples, objetiva e sincera 2-4,11,14,15.

Em quatro artigos, os profissionais argumentaram sobre tentativas de desenvolver vínculo com os pacientes com intuito de facilitar a comunicação 1,4,10,15, e três pesquisas discutiram a decisão dos profissionais de incluir familiares na comunicação 3,11,18. Em dois artigos, os profissionais defenderam que a comunicação se torna mais fácil quando a privacidade e as escolhas dos pacientes são respeitadas 13,15. Por fim, em um artigo, os profissionais mencionaram que a expressão corporal e algumas ações sutis ao comunicar uma notícia difícil podem facilitar a compreensão do paciente 15.

Discussão

Todos os estudos abordaram aspectos facilitadores da comunicação de notícias difíceis, com destaque para a privacidade e a necessidade de um ambiente adequado e privativo. Apesar de a comunicação de notícias difíceis abordar aspectos do adoecimento ou tratamento, as informações e tomadas de decisão envolvem muitas vezes questões pessoais, o que explica a ênfase na privacidade 1,30.

Um ambiente adequado é capaz de proporcionar segurança física e tranquilidade psicológica na relação profissional-paciente, facilitando a comunicação e reflexão sobre o diagnóstico, de forma que o paciente fique mais confortável em demonstrar seus sentimentos e seja mais participativo. Esses fatores podem ajudar no tratamento e na recuperação 31. Isso demonstra a necessidade de prover espaços específicos para a comunicação de notícias difíceis e conferências familiares, principalmente em setores caracterizados por situações limítrofes 11,15.

O contato prévio com temas de comunicação de notícias por meio de disciplinas e cursos de formação também foi destacado como um importante facilitador no momento da comunicação. Um dos grandes problemas relacionados à comunicação de notícias difíceis, que interfere na qualidade da transmissão de informações, é a carência de experiência e formação apropriada sobre o tema. Muitos profissionais têm problemas ao comunicar uma notícia devido à falta de habilidades e treinamento adequado.

Esse déficit na formação é encontrado principalmente na graduação desses profissionais, pois o tema da comunicação de notícias difíceis ainda é pouco explorado e discutido nos cursos de saúde, incluindo enfermagem e medicina 32,33. Esse cenário evidencia a necessidade de abordar temas ligados a intervenções em crise e comunicação de notícias difíceis nas matrizes curriculares dos cursos de saúde, para que os profissionais da área estejam aptos para abordar pacientes e familiares de maneira eficaz e humanizada nesses contextos.

Os protocolos de comunicação foram citados por sua importância em reduzir a angústia e o medo dos profissionais durante a comunicação de notícias difíceis 14 e pelo auxílio à adesão ao tratamento 9. Entretanto, também se destacaram seus limites quanto a situações específicas, como as complicações da morte encefálica, assim como sua falha em contemplar todas as individualidades e características específicas dos pacientes 1,11. As referidas vantagens demonstram o papel dos protocolos de comunicação como organizadores do processo, porém as limitações e dificuldades evidenciam a necessidade de treinamento contínuo, para que se possa compreender os princípios de atuação e formas de flexibilização adaptadas a cada contexto.

O acolhimento, o vínculo e o respeito às emoções dos pacientes foram citados como as principais condutas facilitadoras da comunicação. Esses elementos se relacionam com a escuta qualificada, uma ferramenta importante para a humanização das práticas na promoção de saúde 1,34.

Para que o vínculo e o compromisso profissional-paciente sejam alcançados durante o processo de acolhimento, é preciso escutar o paciente com atenção. Além das palavras, deve-se atentar a gestos e expressões, que podem dizer muito sobre os sentimentos do paciente. Dessa forma, a equipe profissional tem mais facilidade em identificar a complexidade e individualidade das demandas e necessidades trazidas pelos pacientes 1,34.

Isso reforça a importância de uma formação humanizada para os profissionais de saúde, a fim de que sejam capazes de acolher pacientes em suas dificuldades. Projetos governamentais, como a Política Nacional de Humanização, têm entre seus pilares o protagonismo, a corresponsabilidade e a autonomia dos sujeitos e coletivos. Isso demanda a adequada comunicação das notícias para que usuários e familiares possam tomar decisões mais adequadas e se engajar em seus processos de saúde-doença e tratamento 21.

Apesar de alguns artigos alegarem interferência da família na comunicação como um obstáculo 4,11, os familiares são importantes no processo de comunicação de uma notícia difícil. A presença de alguém da família no momento do diagnóstico pode ter efeito amenizador, e o paciente pode sentir-se mais confortável na presença de alguém que faz parte de seu convívio e entende suas necessidades, podendo até fornecer-lhe suporte emocional 35. Isso torna imperativa a atenção de profissionais de saúde para a família, procurando incluí-la nos processos de comunicação e tomada de decisão, além de encaminhar para equipes de psicologia, quando necessário.

A maioria dos artigos citou obstáculos, desta- cando as características pessoais dos profissionais que precisam comunicar uma notícia difícil. Sentimentos como medo e culpa culminam na evitação da comunicação ou em uma comunicação fria e rápida, sem prestar a devida atenção às necessidades do paciente, o que acontece, principalmente, com pacientes mais jovens ou idosos 11,14.

Além disso, a qualidade da comunicação é afetada pela precariedade das condições de trabalho. A irregularidade constante de infraestrutura e recursos no contexto da saúde pública dificulta a ação dos profissionais e, com a falta de investimento no aumento das equipes de saúde e baixos incentivos salariais, o trabalho se torna exaustivo e desorganizado, o que pode dificultar a realização de ações humanizadas 36.

Junto a isso, profissionais de saúde constantemente precisam lidar com situações estressantes e limítrofes no ambiente hospitalar devido à alta demanda de pacientes e atividades. Assim, a humanização da atenção e da comunicação exige cuidados também com a equipe de saúde. É necessário, portanto, uma quantidade suficiente de profissionais, para não os sobrecarregar, e uma atenção maior a sua saúde mental 14,30.

O momento da comunicação é delicado, pois a notícia pode trazer diversas mudanças para a vida do paciente, e o medo da reação dos pacientes que os profissionais sentem ao comunicar uma notícia difícil foi outro obstáculo relevante referido na maior parte dos artigos. O diagnóstico pode causar sentimentos de raiva, medo, ansiedade e tristeza expressos pelo paciente ao se deparar com todas as implicações do tratamento, dos sintomas e das possíveis limitações em sua vida 37. Dessa forma, é preciso que o profissional de saúde esteja preparado não só para o manejo clínico da enfermidade, como também para lidar com as possíveis reações dos pacientes e até mesmo com a possibilidade de morte iminente ante um diagnóstico 35.

Foi destacada a preferência dos pacientes em saber da verdade a respeito do diagnóstico e o desejo de participar das decisões tomadas por médicos 9,18. Esse desejo se alinha às diretrizes do SUS e os reforça, uma vez que a autonomia em saúde é preconizada como um direito do paciente 21. A verdade precisa estar à disposição dos pacientes de maneira empática e respeitosa, para que eles possam participar do planejamento e das decisões relacionadas a seu diagnóstico e tratamento.

Entre as principais estratégias adotadas por médicos e enfermeiros no momento da comunicação de uma notícia difícil, destacaram-se a tentativa de entender as individualidades dos pacientes e seu conhecimento prévio do diagnóstico, e o desenvolvimento de vínculo. Essas duas estratégias são adequadas e promovem um bom vínculo terapêutico 34, e se relacionam com os facilitadores da comunicação. Por fim, a maior parte dos artigos que discutiram estratégias referiu que os profissionais se preocupam com a qualidade da comunicação 3,30, o que endossa a importância e viabilidade de treinamento voltado para a comunicação de notícias difíceis.

Considerações finais

Durante a comunicação de notícias difíceis a pacientes e familiares, o profissional enfrenta diferentes obstáculos, como sentimentos de culpa e medo, preocupações com as reações do paciente e, muitas vezes, falta de experiência e familiaridade com o tema. Os protocolos de comunicação podem auxiliar nessa tarefa, sendo instrumentos importantes que organizam o processo passo a passo e facilitam a transmissão de informações. No entanto, esses protocolos podem não contemplar a complexidade de situações de saúde encontradas no ambiente hospitalar, demandando treinamento para adaptá-los aos mais variados contextos.

Um ambiente adequado e acolhimento foram descritos como os principais facilitadores da comunicação de notícias difíceis. Esses elementos proporcionam o conforto e a privacidade necessários para que o paciente possa receber a notícia de forma mais apropriada. Além disso, uma boa formação profissional, tanto na graduação quanto por meio de cursos que abordem o tema da comunicação, é essencial para que a notícia difícil seja comunicada de maneira humanizada, respeitando a participação e autonomia dos pacientes nas decisões relacionadas a diagnóstico e tratamento.

Quanto aos limites deste trabalho, destaca-se a possibilidade de exclusão de artigos que não tenham contemplado os critérios de seleção. Adicionalmente, esta pesquisa se limitou ao Brasil, entendendo seus resultados como válidos apenas para o contexto brasileiro. Esse cuidado foi necessário principalmente pelas diferenças culturais e jurídicas que impactam diretamente o processo de comunicação de notícias difíceis em cada país.

Espera-se que este trabalho contribua para a ampliação do debate acerca da comunicação de notícias difíceis e auxilie futuras pesquisas sobre o tema. A comunicação de notícias difíceis exige coragem, empatia e compaixão por pacientes e familiares. Por meio do cuidado e treinamento dos profissionais de saúde, é possível promover autonomia e acolhimento, que podem ser essenciais para o bem-estar e a adequada adesão terapêutica.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Mar 2024

  • 30 Set 2024
  • Aceito
    8 Out 2024
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