RESUMO
Introdução: Embora o impacto prejudicial da hipertensão seja bem conhecido, a maioria dos estudos se concentra em populações de alto risco ou em pessoas mais velhas, deixando as evidências para adultos jovens, tradicionalmente considerados de baixo risco, limitadas. A conscientização e o controle da hipertensão são baixos entre os jovens, o que se torna preocupação significativa, uma vez que a pressão alta na juventude pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares na vida adulta.
Objetivo: Avaliar a pressão arterial dos alunos de medicina do primeiro ao oitavo períodos.
Método: Estudo transversal observacional, no qual foram entrevistados, de forma aleatória, 80 acadêmicos matriculados do primeiro ao oitavo períodos.
Resultados: 32,5% apresentaram pressão arterial alterada, sendo o sexo masculino fator de risco significativo para hipertensão, com homens tendo probabilidade 5,67 vezes maior de desenvolver hipertensão em comparação com mulheres (p = 0,001). O IMC também foi fator determinante, com indivíduos de índice mais elevado apresentando maior prevalência de pressão arterial alterada. Houve correlação negativa entre níveis de estresse e pressão sistólica (p = 0,019), indicando leve redução da pressão em estudantes mais estressados. Tabagismo e sono insatisfatório não apresentaram correlação significativa com a pressão arterial. Além disso, ao longo dos períodos acadêmicos, observou-se estabilidade nos valores sem variações significativas associadas ao avanço no curso, com exceção da pressão diastólica, que diminuiu nos períodos mais avançados (p = 0,025).
Conclusão: Ações preventivas devem ser adotadas para que haja mudança no estilo de vida mesmo em populações mais jovens para que, em longo prazo, essas mudanças resultem em menores incidência e prevalência de doenças cardiovasculares.
PALAVRAS-CHAVE:
Hipertensão arterial; Fatores de risco; Doenças cardiovasculares; Estudantes de medicina
ABSTRACT
Introduction: Although the harmful impact of hypertension is well known, most studies focus on high-risk populations or older people, leaving the evidence for young adults, traditionally considered low-risk, limited. Awareness and control of hypertension are low among young people, which becomes a significant concern since high blood pressure in youth can increase the risk of cardiovascular disease in adulthood.
Objective: To evaluate the blood pressure of medical students from the first to the eighth semesters.
Method: Cross-sectional observational study, in which 80 students enrolled from the first to the eighth semesters were randomly interviewed.
Results: 32.5% had altered blood pressure, with males being a significant risk factor for hypertension, with men being 5.67 times more likely to develop hypertension compared to women (p = 0.001). BMI was also a determining factor, with individuals with a higher index having a higher prevalence of altered blood pressure. There was a negative correlation between stress levels and systolic pressure (p = 0.019), indicating a slight reduction in blood pressure in more stressed students. Smoking and poor sleep did not show a significant correlation with blood pressure. In addition, throughout the academic periods, there was stability in the values without significant variations associated with progress in the course, with the exception of diastolic pressure, which decreased in the more advanced periods (p = 0.025).
Conclusion: Preventive actions should be adopted to change lifestyle even in younger populations so that, in the long term, these changes result in lower incidence and prevalence of cardiovascular diseases.
KEYWORDS:
Hypertension; Risk factors; Cardiovascular diseases; Medical students
INTRODUÇÃO
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o Global Report on hypertension: the race agains a silent killer, apresentando a hipertensão no mundo ou hipertensão arterial sistêmica (HAS)1. Esta é condição crônica que aumenta os riscos de mortalidade por doenças cardiovasculares, renais ou cerebrais, como o acidente vascular cerebral2-5, derrame, infarto, falência dos rins, entre outros e é caracterizada por altos níveis de pressão arterial (PA ≥ 140 x 90mmHg).6
Em termos epidemiológicos, a prevalência global da HAS é estimada em 1,28 bilhão de adultos, entre 30-79 anos, dos quais 46% desconhecem ter a condição, pois alguns são assintomáticos.1,7-9 No Brasil, de acordo com o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito telefônico (Vigitel) de 2023, o percentual da prevalência de HAS autorreferida, entre 2006 e 2023, aumentou de 22,6% para 24,3%.7 Esses dados preocupam quando se considera que grande parte dos indivíduos hipertensos não tem diagnóstico adequado ou não está sob tratamento, aumentando os riscos de complicações.
Os fatores de risco para a HAS são divididos em modificáveis e não modificáveis. Entre os não modificáveis prevalecem a idade, o sexo e a predisposição genética. A hipertensão tende a se manifestar com maior frequência em pessoas com mais de 60 anos, e isso está associado a processos da senilidade como rigidez arterial, o que contribui para o aumento da pressão arterial.2 Em relação ao sexo, considera-se o masculino um fator de risco até a meia-idade, enquanto, após a menopausa, as mulheres apresentam prevalência semelhante ou até maior de hipertensão.10 A predisposição genética também desempenha papel importante, influenciando a susceptibilidade individual à elevação da pressão arterial (PA).11,12
Os fatores modificáveis - como alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e estresse - são determinantes na prevenção e no controle da HAS.1,13-18 Por exemplo, dieta rica em sódio e pobre em potássio, típica de populações urbanas, também está relacionada à maior prevalência de hipertensão.
Embora a HAS seja tradicionalmente associada a indivíduos mais velhos, como vimos, há aumento significativo de casos entre jovens e jovens adultos. Estudos demonstram que a prevalência de hipertensão tem crescido entre estudantes universitários, muitas vezes associados ao estresse acadêmico, padrões irregulares de sono, alimentação inadequada e sedentarismo.19-21
Diante desses dados, o presente estudo tem como objetivo apresentar os resultados da avaliação dos valores de PA em uma população de acadêmicos de Medicina, do primeiro e do oitavo períodos. Buscou-se conhecer a relação com hábitos de vida como dieta, sono, estresse, tabagismo, etilismo, atividade física, índice de massa corporal (IMC) e progressão dos valores entre os períodos acadêmicos abordados neste estudo.
MÉTODO
Estudo transversal observacional que incluiu 80 acadêmicos de medicina da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, Curitiba, PR, Brasil, e selecionados aleatoriamente entre o 1.º e 8.º períodos. Foram incluídos voluntários entre 18-40 anos, igualmente distribuídos entre os sexos. Estudantes fora da faixa etária ou não voluntários foram excluídos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (Parecer n.º 6.817.896), e todos os voluntários assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.
Aplicaram-se questionários validados: AUDIT-C (álcool), DQ-Q (dieta), Teste de Fagerström (tabagismo)22, PSQI (qualidade do sono)23, EPS-10 (estresse)24 e IPAQ (atividade física).25 Esses instrumentos possibilitaram a avaliação multidimensional de fatores de risco.
Aos entrevistados foi perguntado sobre prática de exercícios físicos de 90 min, consumo de álcool, café, alimentos ou cigarros nos últimos 30 min, ou se estavam com a bexiga cheia. Em caso de respostas positivas para esses fatores, os alunos foram avaliados em outra sessão, pois esses elementos poderiam afetar os valores da PA.
A PA foi aferida em sala reservada, após repouso de 10 min, com os participantes sentados e esfigmomanômetro eletrônico calibrado (OMRON HEM-7122).3,7 O manguito do esfigmomanômetro foi colocado cerca de 2-3 cm acima da fossa cubital, com a bolsa de borracha centralizada na artéria braquial. Caso houvesse falha na aferição via esfigmomanômetro eletrônico, o aneroide pôde substituí-lo seguindo critérios adequados para sua utilização.
Nesse caso, o manguito do esfigmomanômetro era colocado na mesma posição, com a bolsa de borracha centralizada na artéria braquial. Em seguida, o pulso radial era palpado e o manguito inflado até que o pulso desaparecesse, estimando assim a pressão arterial sistólica (PAS); depois, era desinflado rapidamente. O procedimento era semelhante, mas após 15-30 s, o estetoscópio era colocado na artéria braquial e o manguito inflado de 10 em 10 mmHg até ultrapassar de 20-30 mmHg acima da PAS estimada. Esta seria registrada quando o primeiro som se manifestasse (fase I de Korotkoff), e a pressão arterial diastólica (PAD) era registrada quando o som desaparecesse (fase V de Korotkoff) ou quando não houvesse mais sons audíveis (fase IV de Korotkoff).
Na avaliação, foram feitas três medições da PA em braços alternados, com intervalos de 2 min entre elas. Se e quando houvesse diferença maior que 4 mmHg entre as duas últimas medições da PAS e/ou PAD, novas medições eram feitas até obter diferenças menores. Se a média da PAS fosse igual ou superior a 140 mmHg e/ou a PAD fosse igual ou superior a 90 mmHg, eram realizadas mais duas avaliações em semanas diferentes, seguindo o mesmo procedimento. Caso os valores persistissem, os alunos seriam aconselhados a buscar especialista; e se a PAS fosse menor que 140 mmHg e a PAD menor que 90 mmHg, se considerariam os valores da PA aceitáveis e segunda avaliação não seria realizada.
Análise estatística
Os dados foram tabulados no Microsoft Excel e analisados no IBM SPSS Statistics v.29.0.0. Foram utilizadas estatística descritiva, teste t de Student para amostras independentes (dois grupos) ou o modelo de análise da variância (Anova) com um fator (mais de dois grupos). Para as análises univariada e multivariada, foram ajustados modelos de regressão logística. O teste de Wald foi usado para a análise da significância de cada variável e a medida de associação estimada foi a Odds Ratio (OR) com intervalos de confiança de 95% (IC95%). Considerou-se significância estatística p < 0,05.
RESULTADO
O estudo avaliou 80 estudantes, sendo selecionados dez voluntários por período acadêmico contemplado na pesquisa (primeiro ao oitavo períodos). A amostra apresentou idade média de 21,6 anos (DP = 3,6), com distribuição equitativa entre sexos. O IMC médio foi de 22,3 kg/m² (DP = 2,5). A pressão sistólica média foi de 119,7 mmHg e a diastólica de 77,8 mmHg.
Dos 80 estudantes, 32,5% apresentaram pressão arterial alterada. Destes, 21,3% foram classificados como pré-hipertensos, 8,8% em estágio 1 e 2,5% em estágio 2. O sexo masculino apresentou associação significativa com pressão arterial alterada (OR = 5,7; p = 0,001), assim como IMC elevado (OR = 3,61; p = 0,047).
Quanto aos hábitos de vida, 12,5% relataram tabagismo, com diferentes níveis de dependência. Embora 50% dos fumantes apresentassem pressão arterial alterada, a análise não encontrou correlação estatisticamente significativa entre tabagismo e hipertensão.
O consumo de álcool foi de baixo risco em 56,3% da amostra e de risco aumentado ou alto em outros 22,5%. Os estudantes classificados como de alto ou muito alto risco em relação ao consumo de álcool apresentaram prevalência de 44,4% atrelados à pressão arterial alterada, em comparação com 29% dos estudantes de baixo ou médio risco aumentado.
Em relação à qualidade do sono, aproximadamente metade (48,8%) indicou sono insatisfatório. A análise revelou que estudantes com sono insatisfatório apresentaram prevalência ligeiramente maior de pressão arterial alterada (33,3%) em comparação aos estudantes com sono satisfatório (31,7%). No entanto, essa diferença não foi estatisticamente significativa (p = 0,877), o que pode ser explicado pela relativa homogeneidade dos resultados de pressão arterial e sono nessa amostra. Além disso, os participantes que relataram sono insatisfatório apresentaram níveis de estresse ligeiramente mais altos, o que pode indicar correlação indireta entre sono, estresse e PA.
Em relação à atividade física, 92,5% foram classificados como ativos ou muito ativos. Estes apresentaram menor prevalência de valores alterados da pressão arterial em comparação com aqueles menos ativos.
Quanto à relação entre a aferição dos valores de PA e o sexo, os homens apresentaram probabilidade 5,67 vezes maior de desenvolver hipertensão em comparação com as mulheres (p = 0,001). Enquanto 50% dos homens apresentaram PA alterada, apenas 15% das mulheres apresentaram valores alterados, o que reflete diferença significativa entre os sexos.
Com base nos escores obtidos a partir dos questionários aplicados nas entrevistas, a variável estresse apresentou média de 16,3 pontos, com desvio-padrão de 5,9, sendo a mediana 16, com variação entre 5-32 pontos. Houve correlação negativa entre o estresse e a pressão sistólica (r = -0,26, p = 0,019), indicando que estudantes com níveis mais altos de estresse apresentaram discreta diminuição da pressão sistólica. Níveis de estresse moderados foram observados em 61,3% da amostra.
Quanto à dieta, a média foi de 9,5 pontos com desvio-padrão de 2,7, mediana de 10, sendo os valores observados variaram entre 1-15 pontos. Cerca de 45% dos participantes indicaram consumir dieta abaixo da recomendação da OMS. Embora não tenha sido encontrada associação estatisticamente significativa entre dieta e pressão arterial, estudantes com dietas inadequadas apresentaram maior tendência a desenvolver hipertensão.
Ao longo dos períodos acadêmicos, a pressão arterial foi monitorada, e os dados demonstraram que a pressão sistólica se manteve estável ao longo dos períodos (p = 0,583), e os valores de pressão diastólica apresentaram queda nos períodos mais avançados (p = 0,025, Tabela).
DISCUSSÃO
A prevalência de 32,5% de PA alterada é superior ao esperado para a faixa etária, indicando impacto dos fatores acadêmicos e comportamentais. Esse resultado está em consonância com estudos nacionais e internacionais que relatam taxas entre 20-35% entre universitários.14,19,26
O sexo masculino foi fator significativamente associado10, corroborando pesquisas que apontam maior prevalência de HAS em homens jovens devido à menor proteção hormonal e maior exposição a comportamentos de risco, como álcool e tabaco. O IMC elevado também mostrou forte associação17,18, reforçando evidências de que o excesso de peso é determinante para a elevação da pressão arterial mesmo em idades precoces.
Limitações das variáveis como sono ruim, dieta inadequada e estresse13,16,27 não tenham apresentado associação estatística significativa nesta amostra, sua frequência elevada sugere papel relevante em médio e longo prazos. É provável que o tamanho da amostra tenha limitado a detecção de associações adicionais. A alta proporção de estudantes com sono insatisfatório e estresse moderado ou alto destaca a importância de políticas institucionais voltadas ao bem-estar acadêmico. A literatura indica que intervenções em qualidade de sono, redução de estresse e promoção de atividade física são eficazes em reduzir níveis pressóricos em jovens.28-31 Estudos longitudinais demonstram que níveis pressóricos elevados em jovens estão associados a maior risco de desfechos cardiovasculares futuros.21,28,30,32
CONCLUSÃO
Apesar de a maior parte das variáveis exploradas referentes a fatores de risco modificáveis não terem apresentado significância estatística com os valores alterados de PA, conclui-se que atrelado a eles também não houve correlação estatisticamente significativa entre a progressão dos períodos acadêmicos e a pressão arterial alterada entre os estudantes de medicina, o que sugere que o avanço no curso, entre o primeiro e oitavo períodos, não foi fator determinante para o aumento da pressão arterial. No entanto, foi evidenciada associação positiva entre variáveis como IMC e sexo e alterações dos valores de pressão arterial, reforçando a importância do controle de peso como medida preventiva para hipertensão. Além disso, outros fatores de risco, como o consumo de álcool e a prática de atividade física, mostraram tendências relevantes, destacando a necessidade de maior atenção à saúde cardiovascular entre a população jovem e seus hábitos de vida durante a vida acadêmica e posterior ao período de formação. Esses achados ressaltam a importância de intervenções preventivas desde o início da vida acadêmica, visando reduzir o impacto de fatores de risco modificáveis e promover hábitos de vida saudáveis.
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Como citar este artigo
Haggi Neto H, Miyawaki LN, Mariani OM, Dias LM, Araujo GD, Scremin IG, Lerut B, Kubrusly LF. Hipertensão arterial em jovens universitários: análise de fatores de risco em acadêmicos de medicina. BioSCIENCE. 2026;84:e00012. https://doi.org/10.55684/2026.84.pt.e00012
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Mensagem Central
A hipertensão arterial constitui o principal fator de risco modificável para morbimortalidade cardiovascular global, embora sua investigação em adultos jovens ainda seja limitada. Em estudo transversal com acadêmicos de medicina, observou-se elevada prevalência de níveis pressóricos alterados (32,5%), com associação significativa com sexo masculino e índice de massa corporal elevado. Os achados evidenciam que alterações pressóricas já estão presentes em população jovem, tradicionalmente considerada de baixo risco, reforçando a necessidade de vigilância precoce.
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Perspectiva
A presença expressiva de pressão arterial alterada em estudantes de medicina sugere que fatores de risco cardiovasculares podem estar subestimados em populações jovens. A associação com sexo masculino e IMC elevado reforça o papel de fatores modificáveis na gênese da hipertensão precoce. Ainda que variáveis como estresse, tabagismo e qualidade do sono não tenham demonstrado correlação significativa, os resultados sustentam a importância de estratégias preventivas e intervenções em estilo de vida desde a juventude, com potencial impacto na redução futura da incidência de doenças cardiovasculares.
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Financiamento:
Nenhum
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Disponibilidade de dados:
Dados disponíveis junto ao autor correspondente, mediante solicitação fundamentada
Editado por
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Editor Associado:
Thelma Larocca Skare https://orcid.org/0000-0002-7699-3542
Dados disponíveis junto ao autor correspondente, mediante solicitação fundamentada


