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Impacto da adenotonsilectomia na emissão vocal em crianças

Spyros Cardoso Dimatos Luciano Rodrigues Neves Jéssica Monique Beltrame Renata Rangel Azevedo Shirley Shizue Nagata Pignatari Sobre os autores

ABSTRACT

INTRODUCTION:

Adenotonsillectomy is the most common surgery performed by otolaryngologists in pediatric age, and one of the most frequently asked questions about the postoperative period is whether there is a potential for change in vocal pattern of these children.

OBJECTIVE:

To evaluate the impact of adenotonsillectomy in the voice emission pattern of children with hypertrophy of palatine and pharyngeal tonsils.

METHODS:

This is a prospective study in which we carried out perceptual auditory assessments and acoustic analysis of 26 children with adenotonsillar hypertrophy at three time points: before surgery, one month and three months after surgery. The following acoustic parameters were estimated using the Praat software: fundamental frequency, jitter, shimmer, and harmonic-noise ratio.

RESULTS:

A statistically significant change was found between shimmer and harmonic-noise ratio during vowel /u/ production between the preoperative and 1st month postoperative time points. No significant differences were detected for acoustic parameters between preoperative analysis and that of the 3rd month post-operation.

CONCLUSION:

Transient changes in acoustic parameters occur in children with adenotonsillar hypertrophy submitted to adenotonsillectomy, progressing to normalization in the 3rd postoperative month.

Keywords:
Voice; Tonsillectomy; Adenoidectomy; Pharyngeal tonsil; Palatine tonsil

RESUMO

INTRODUÇÃO:

Adenotonsilectomia é o procedimento cirúrgico mais realizado pelos otorrinolaringologistas em pacientes pediátricos, e entre as dúvidas mais frequentes a respeito do pós-operatório, inclui-se a possibilidade de modificações no padrão vocal dessas crianças.

OBJETIVO:

Avaliar o impacto da adenotonsilectomia no padrão de emissão vocal de crianças com hipertrofia de tonsilas palatinas e faríngea.

MÉTODO:

Trata-se de estudo prospectivo, em que foram realizadas a avaliação perceptiva-auditiva e a análise acústica da voz de 26 crianças com hipertrofia adenotonsilar em três oportunidades: no pré-operatório e no 1° e 3° meses após o procedimento cirúrgico. Os parâmetros acústicos frequência fundamental, jitter, shimmer e proporção harmônico-ruído foram avaliados por meio do programa Praat.

RESULTADOS:

Houve uma alteração estatisticamente significante entre o shimmer e a proporção harmônico-ruído da emissão da vogal/u/entre o período pré-operatório e o 1° mês do pós-operatório. Não houve diferenças significantes dos parâmetros acústicos entre a análise pré-operatória e aquela realizada no 3° mês do pós-operatório.

CONCLUSÃO:

Crianças com hipertrofia adenotonsilar submetidas à adenotonsilectomia cursam com alterações transitórias dos parâmetros acústicos, evoluindo com a normalização dos mesmos no 3° mês do pós-operatório.

Palavras chave:
Voz; Tonsilectomia; Adenoidectomia; Tonsila faríngea; Tonsila palatina

Introdução

Basicamente, a voz é produto de três processos fisiológicos, a saber: fluxo aéreo expiratório constante, controlado pela musculatura torácica; produção do som glótico pela vibração das pregas vocais; e a modificação desse som com amplificação e abafamento das frequências sonoras decorrentes da ação das estruturas ressonantais faríngeas, orais e nasais (trato vocal).11. Imamura R, Tsuji DH, Sennes LU. Fisiologia da laringe. In: Pinho SMR, editor. Fundamentos em laringologia e voz. Rio de Janeiro: Revinter; 2006. p. 1-20.

Adenotonsilectomia é o procedimento cirúrgico mais realizado pelos otorrinolaringologistas, principalmente na população pediátrica. Dentre as perguntas mais frequentes acerca desse procedimento, existem dúvidas sobre as alterações no padrão vocal após a cirurgia e se as mesmas são temporárias ou definitivas.

De acordo com Mora et al., as tonsilas palatinas hipertróficas reduziriam o espaço aéreo da orofaringe, além de empurrar a língua para uma posição anteriorizada, ocasionando respiração oral, alteração da nasalidade e voz abafada.2 Também é referido que a hipertrofia adenoamigdaliana causaria obstrução da região nasofaríngea e diminuição da mobilidade da musculatura velofaríngea.22. Mora R, Crippa B, Dellepiane M, Jankowska B. Effects of adenotonsillectomy on speech spectrum in children. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2007;71:1299-304.

A questão da nasalidade não é a única evidência de alteração vocal após adenotonsilectomia, embora seja a mais estudada. Com a modificação do trato vocal, poderia haver alterações da qualidade vocal em decorrência de instabilidade fonatória, e essa instabilidade seria consequência de uma mudança no padrão vibratório das pregas vocais.22. Mora R, Crippa B, Dellepiane M, Jankowska B. Effects of adenotonsillectomy on speech spectrum in children. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2007;71:1299-304.,33. Salami A, Jankowska B, Dellepiane M, Crippa B, Mora R. The impact of tonsillectomy with or without adenoidectomy on speech and voice. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2008;72:1377-84.

No entanto, até o momento, poucos estudos avaliaram a emissão vocal após a adenotonsilectomia, sendo que a maior parte destes o fizeram utilizando somente medidas subjetivas (análise perceptiva-auditiva da voz).

O objetivo deste estudo foi verificar o impacto da adenotonsilectomia no padrão de emissão vocal de crianças com hipertrofia de tonsilas palatinas e faríngeas.

Método

Trata-se de um estudo prospectivo com intervenção cirúrgica e acompanhamento pós-operatório iniciado em janeiro de 2009 e finalizado em dezembro de 2009. Foram acompanhadas 26 crianças com idades entre 5 e 10 anos de idade, portadoras de hipertrofia de tonsilas palatinas e faríngea e com indicação prévia de adenotonsilectomia.

Este trabalho foi aprovado pelo CEP, de acordo com a Resolução 196/96, da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa - CONEP, que versa sobre as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos.

As crianças foram submetidas a avaliação otorrinolaringológica com o emprego de anamnese detalhada, exame físico minucioso e nasofibrolaringoscopia.

Os critérios de inclusão para a pesquisa foram: hipertrofia de tonsilas palatinas graus III ou IV, de acordo com a escala proposta por Brodsky44. Brodsky L, Poje CP. Tonsilite, tonsilectomia e adenoidectomia. In: Bailey BJ, Johnson JT, editors. Coleção Otorrinolaringologia - Cirurgia de Cabeça e Pescoço. 4a edição Rio de Janeiro: Editora Revinter; 2009. p. 149-65.; hipertrofia da tonsila faríngea com obstrução da região nasofaríngea superior a 70%, mediante visibilização direta com o emprego da nasofibroscopia e anuência dos representantes legais dos pacientes em participar da pesquisa, concordando com o método proposto, após a explicação detalhada do estudo e a assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE).

Foram excluídos da pesquisa os pacientes com disfonia ou alterações da emissão vocal, crianças na vigência de infecções das vias aéreas superiores ou inferiores, pacientes submetidos anteriormente a terapia fonoaudiológica, malformações craniofaciais ou síndromes neurológicas.

Todas as crianças foram submetidas a adenotonsilectomia pela mesma equipe médica, e sempre sob supervisão do presente pesquisador. A técnica cirúrgica empregada consistiu em adenotonsilectomia a frio, e a hemostasia foi realizada com pontos simples de fio cirúrgico absorvível (categute 2.0).

As gravações das emissões vocais foram realizadas em ambiente silencioso com o uso de microfone profissional Samson C03 (Samson Technologies, Estados Unidos), a uma distância de aproximadamente 5 cm da boca da criança, e o material adquirido foi editado no programa Sound Forge 8.0 (Sony, Japão), do qual foram extraídos os trechos de emissão das vogais sustentadas /a/, /i/ e /u/ e de fala encadeada (sequência automática e fala espontânea).

As emissões vocais dessas crianças foram gravadas em três situações, a saber:

  1. Momento (T0) - Período pré-operatório;

  2. Momento (T30) - Período de primeiro mês pós-operatório;

  3. Momento (T90) - Período de terceiro mês pós-operatório.

A avaliação perceptiva-auditiva da qualidade vocal (fala espontânea e sequência automática) foi realizada por três fonoaudiólogos experientes (estudo cego), sendo utilizada como parâmetro avaliador a escala analógico-visual (EAV) validada por Yamasaki et al.55. Yamasaki R, Leão SHS, Madazio G, Padovani M, Azevedo R, Behlau M. Correspondência entre a escala analógico-visual e a escala numérica na avaliação perceptivo-auditiva de vozes. In: XVI Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia. Campos de Jordão, São Paulo: Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia; 2008.

A escala analógico-visual (EAV) corresponde a uma linha de 100 mm, na qual o avaliador é orientado a marcar um ponto que represente a sensação experimentada no momento em relação à voz apresentada. Cada milímetro da escala corresponde a um grau de desvio, onde o extremo à esquerda representa ausência de alteração vocal e o extremo à direita o grau máximo de alteração. O valor de corte para discernir entre voz normal e voz alterada é 35,5 mm.55. Yamasaki R, Leão SHS, Madazio G, Padovani M, Azevedo R, Behlau M. Correspondência entre a escala analógico-visual e a escala numérica na avaliação perceptivo-auditiva de vozes. In: XVI Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia. Campos de Jordão, São Paulo: Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia; 2008.

A análise acústica computadorizada da voz foi utilizada na avaliação das vogais /a/, /i/ e /u/, com o emprego do programa Praat (Phonetic Sciences, University of Amsterdã, Holanda).66. Boersma P, Weenink D. Praat doing phonetics by computer. Amsterdam: University of Amsterdam; 2008, May. Available from: http://www.praat.org [cited 04.04.10].
http://www.praat.org...

Os parâmetros acústicos analisados foram:

  • Frequência fundamental (Fo) - corresponde ao número de ciclos glóticos por segundo, refletindo as características biomecânicas das pregas vocais e sua relação com a pressão subglótica;

  • Jitter (J) - variações ciclo a ciclo da frequência fundamental;

  • Shimmer (S) - medida que quantifica flutuações ciclo a ciclo na intensidade da excitação glótica; e

  • Proporção harmônico-ruído (PHR) - relação estabelecida entre o som produzido pela laringe e os ruídos que interferem na produção vocal.

Realizou-se a análise estatística comparando os dados pré-operatórios e pós-operatórios, sendo definido o valor de significância de 5% (p < 0,05), com o emprego dos seguintes testes:

• Teste de Friedman para cada variável, com o intuito de verificar possíveis diferenças entre os três momentos de observação;

• Teste de Wilcoxon ajustado pela correção de Bonferroni, para observar em quais momentos de observação diferem-se dos demais, quando comparados aos pares.

Resultados

Foram avaliadas 26 crianças com idades entre 5 e 10 anos (média = 7,15 anos), sendo 16 do gênero masculino e 10 do gênero feminino.

Avaliação perceptiva-auditiva da voz

Em relação à avaliação perceptiva-auditiva utilizando a escala analógico-visual (EVA), houve diferença estatisticamente significante entre os três momentos de observação (tabela 1).

Tabela 1
Avaliação perceptiva-auditiva (EVA)

Com a aplicação do teste de Wilcoxon ajustado pela correção de Bonferroni, constatou-se diferença estatisticamente significante entre a avaliação do primeiro mês de pós-operatório e aquela realizada no terceiro mês de pós-operatório (p = 0,005), e a tendência de que os momentos pré-operatórios e primeiro mês de pós-operatório sejam diferentes estatisticamente (tabela 2).

Tabela 2 Análise
da avaliação perceptiva-auditiva

Análise acústica computadorizada da voz

Vogal /a/

Em relação à vogal /a/, não houve diferença estatisticamente significante entre os parâmetros estudados (frequência fundamental, Jitter, Shimmer e proporção harmônico-ruído) nos três momentos de observação (tabelas 3 a 6).

Tabela 3
Frequência fundamental - Vogal /a/

Tabela 4
Jitter - Vogal /a/

Tabela 5
Shimmer - Vogal /a/

Tabela 6
Proporção harmônico-ruído - Vogal /a/

Vogal /i/

A análise da emissão da vogal sustentada /i/, nos três momentos de observação, mostrou diferença da frequência fundamental da voz entre o período pré-operatório e o terceiro mês de pós-operatório (tabelas 7 e 8).

Tabela 7
Frequência fundamental - Vogal /i/

Tabela 8
Análise da frequência fundamental (Fo) - Vogal /i/

Não foram identificadas alterações estatisticamente significantes nos demais parâmetros avaliados (Jitter, Shimmer, proporção harmônico-ruído) (tabelas 9 a 11).

Tabela 9
Jiitter - Vogal /i/

Tabela 10
Shimmer - Vogal /i/

Tabela 11
Proporção harmônico-ruído - Vogal /i/

Vogal /u/

Em relação à vogal /u/, não houve diferença estatisticamente significante nos parâmetros (frequência fundamental e Jitter) (tabelas 12 e 13).

Tabela 12
Frequência fundamental - Vogal /u/

Tabela 13
Jitter - Vogal /u/

Detectou-se diferença estatisticamente significante nas medidas do Shimmer e da proporção harmônico-ruído entre a gravação pré-operatória e aquela realizada no primeiro mês de pós-operatório (tabelas 14 a 17).

Tabela 14
Shimmer - Vogal /u/
Tabela 15
Proporção harmônico-ruído - Vogal /u/
Tabela 16
Análise do Shimmer (S) - Vogal /u/
Tabela 17
Análise da proporção harmônico-ruído (PHR) - Vogal /u/

Discussão

Define-se como trato vocal o conjunto de estruturas anatômicas localizadas acima da região glótica, que modificam o som produzido pelas vibrações das pregas vocais com o emprego do efeito físico de ressonância sonora.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995.

Esta ressonância é produto da configuração tridimensional do trato vocal, da tonicidade das suas paredes, das características do revestimento mucoso e suas propriedades viscoelásticas.88. Vieira MN, Rosa LLC. Avaliação acústica na prática fonoaudi- ológica. In: Pinho SMR, editor. Fundamentos em laringologia e voz. Rio de Janeiro: Revinter; 2006. p. 33-52.

Quaisquer mudanças nessas características terão impacto na propagação sonora e na definição dos formantes vocais. Por exemplo, as frequências que definem o primeiro formante podem variar de acordo com mudanças no posicionamento da mandíbula, enquanto que o segundo formante é influenciado pela posição da língua.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995. O terceiro formante está relacionado à ressonância da região acima das pregas vocais, formada pelos ventrículos laríngeos, pregas ariepiglóticas e pregas vestibulares; já o quarto e o quinto formantes são mais dependentes do comprimento do trato vocal do que da posição dos articuladores.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995.

Supõe-se que as alterações na anatomia do trato vocal oriundas de procedimentos cirúrgicos podem modificar as características vocais do indivíduo.

Mora et al. descreveram que tonsilas palatinas hipertróficas reduzem o espaço da orofaringe, anteriorizam a língua e causam hipernasalidade, respiração oral e voz abafada. Em seu estudo, foram avaliadas 40 crianças, com faixa etária variando de 4-14 anos, através de análise acústica antes e 30 dias após tratamento cirúrgico (adenotonsilectomia). Observou-se, no período pós-operatório, uma melhora estatisticamente significante de todos os parâmetros analisados: frequência fundamental, Jitter, Shimmer, relação harmônico-ruído, entre outros.22. Mora R, Crippa B, Dellepiane M, Jankowska B. Effects of adenotonsillectomy on speech spectrum in children. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2007;71:1299-304.

Para Salami et al., a remoção de tecido adenoidiano, por se tratar da retirada de uma estrutura que ocupa espaço, resultaria em alteração da anatomia nasofaríngea. De modo similar, tonsilas palatinas e faríngeas aumentadas podem obstruir o fluxo aéreo nasofaríngeo e influenciar a mobilidade do palato mole. Após analisarem acusticamente crianças no período pré-operatório e no primeiro mês após a adenotonsilectomia, encontraram melhora na qualidade vocal e em todos os parâmetros acústicos analisados.33. Salami A, Jankowska B, Dellepiane M, Crippa B, Mora R. The impact of tonsillectomy with or without adenoidectomy on speech and voice. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2008;72:1377-84.

Jarboe et al. estudaram o impacto da adenotonsilectomia em cantores profissionais. Retrospectivamente, os autores avaliaram, através de questionários respondidos por telefone, 23 pacientes no período pós-operatório tardio. Constataram que a maioria apresentou melhora da qualidade vocal após a cirurgia, e em apenas cinco pacientes houve um prejuízo da qualidade vocal no pós-operatório recente (1-4 meses), com recuperação posterior em todos os casos. Destacam que, apesar dos resultados encontrados neste estudo, a melhora na qualidade vocal não justifica a indicação de adenotonsilectomia.99. Jarboe JK, Zeitels SM, Elias B. Tonsillectomy and adenoidectomy in singers. J Voice. 2001;15:561-4.

Em contrapartida, Chuma et al., em seu estudo prospectivo com 23 crianças que foram submetidas a análise acústica antes e três meses após o procedimento cirúrgico (adenotonsilectomia), chegaram à conclusão de que a remoção de tecido da orofaringe tem um mínimo impacto quantitativo e qualitativo (perceptivo) em diversos aspectos da função vocal.1010. Chuma AV, Cacace AT, Rosen R, Feustel P, Koltaii PJ. Effects of tonsillectomy and/or adenoidectomy on vocal function: laryngeal, supralaryngeal and perceptual characteristics. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 1999;47:1-9.

Subramanian et al. avaliaram os efeitos da tonsilectomia com ou sem adenoidectomia por meio da análise acústica de 20 pacientes. Realizaram o registro vocal no dia anterior ao procedimento e no primeiro mês de pós-operatório, verificando uma redução do Shimmer. Entretanto, os pacientes não foram submetidos a análise acústica em longo prazo, podendo tal achado corresponder à alteração transitória pós-cirúrgica. Diferentemente do presente estudo, os autores avaliaram, também, a nasalidade, e observaram sua redução após a intervenção cirúrgica.1111. Subramanian V. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 2009;135:966-9.

Kara et al. realizaram análise dos efeitos da cirurgia para remoção de tonsila faríngea na voz e na fala. Avaliaram 36 crianças com hipertrofia de tonsila faríngea antes e três meses após o procedimento cirúrgico. Observaram mudança significante na nasalidade e nos terceiro e quarto formantes. Similarmente ao presente estudo, não houve mudança de frequência fundamental, Shimmer e proporção harmônico-ruído. Os autores afirmam que a adenoidectomia pode afetar a ressonância vocal e a nasalidade, modificando a forma e o tamanho da nasofaringe e do trato respiratório superior.1212. Kara M, Ozturk K, Ozer B. Kulak Burun Bogaz Ihtis Derg. 2013;23:225-31.

Para Lundeborg et al., a qualidade vocal é afetada pela hipertrofia adenotonsilar, tanto na avaliação perceptiva quanto na análise acústica. Os autores estudaram o desfecho vocal de 67 crianças após adenotonsilectomia, e concluíram que pacientes com hipertrofia adenotonsilar têm hiponasalidade, pitch mais grave e medidas de perturbação mais elevadas quando comparados ao grupo controle e à avaliação pós-operatória. Entretanto, não houve mudança significante na frequência fundamental antes e após o procedimento cirúrgico, demonstrando a interferência do trato vocal na sensação psicoacústica da frequência.1313. Lundeborg I, Hultcrantz E, Ericsson E, McAllister A. J Voice. 2012;26:480-7.

Em nosso estudo, o grupo dos pacientes estudados foi composto por crianças portadoras de hipertrofia de tonsilas palatinas e faríngeas, com idades entre 5 e 10 anos de idade. Optou-se por excluir as crianças com idade inferior a 5 anos, pois elas poderiam ter dificuldades em cumprir as tarefas solicitadas, uma vez que o código oral ainda não está plenamente estabelecido. As crianças com idade superior a 10 anos não foram incluídas no estudo pela proximidade com a muda vocal, fato este que poderia interferir na análise dos resultados coletados.

Para adequada investigação do padrão vocal dessas crianças, optou-se por duas análises, a saber: análise perceptiva-auditiva e acústica da voz.

A análise perceptiva-auditiva da voz permite uma avaliação da percepção vocal sobre dois aspectos vocais: fonte glótica e filtro ressonantal.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995. Quando essa análise ocorre ao se observar a fala encadeada (contagem de números, narrar os meses do ano ou leitura de um texto pré-definido), ela é mais ampla e inclui, também, aspectos vocais ligados à articulação e à ressonância, sendo considerada por muitos autores o padrão ouro da avaliação vocal.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995. Essa forma de análise permite a caracterização da qualidade vocal e a quantificação do desvio fonatório a um dado estímulo. Por ser um fenômeno essencialmente auditivo e de caráter subjetivo, sua realização requer treinamento prévio e experiência dos avaliadores.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995.

Detectou-se que houve uma diferença estatisticamente significante entre a avaliação do primeiro mês de pós-operatório e aquela realizada no terceiro mês de pós-operatório, podendo-se afirmar, também, que existe uma tendência de os momentos pré-operatórios e o primeiro mês de pós-operatório serem diferentes. Esses achados suportam a hipótese de que a adenotonsilectomia seja responsável por modificações transitórias do padrão de emissão vocal, gerando uma instabilidade fonatória temporária, a qual se torna inexistente ao longo do período pós-operatório.

A análise acústica da voz desperta maior interesse, por apresentar medidas objetivas e independentes do observador-avaliador. De acordo com Vieira et al., essas medidas podem auxiliar no monitoramento terapêutico, colaborando diretamente ao verificar a efetividade de uma estratégia ou de uma abordagem terapêutica proposta. Ainda segundos os autores, os registros e medidas acústicas podem amparar a defesa do médico ou do fonoaudiólogo em disputas judiciais, onde há o questionamento da eficácia do resultado de tratamentos vocais.88. Vieira MN, Rosa LLC. Avaliação acústica na prática fonoaudi- ológica. In: Pinho SMR, editor. Fundamentos em laringologia e voz. Rio de Janeiro: Revinter; 2006. p. 33-52.

No presente estudo, utilizamos as vogais /a/, /i/ e /u/ para a realização da análise acústica computadorizada, e os dados coletados foram a frequência fundamental, o Jitter, o Shimmer e a proporção harmônico-ruído (PHR).

A opção por essas três vogais decorreu do fato de as mesmas formarem os vértices do polígono definido por Behlau et al.77. Behlau M, Pontes P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo: Lovise; 1995., que representa as médias das frequências dos dois primeiros formantes das vogais orais do português brasileiro.

A vogal /a/ é oral, central, baixa e aberta. A vogal /i/ é oral, anterior, alta, fechada e não arredondada, e a vogal /u/ tem como características ser oral, posterior, alta, fechada e arredondada.

Ao analisar os dados obtidos, encontrou-se apenas diferença estatística do Shimmer e da proporção harmônico-ruído da vogal /u/ entre a avaliação pré-operatória e o primeiro mês de pós-operatório. Contudo, esta modificação demonstrou-se aparentemente transitória, já que não houve diferença estatística entre a avaliação pré-operatória e aquela realizada no terceiro mês de pós-operatório.

Por se tratar de uma vogal posterior, a emissão do /u/ demonstrou ser mais afetada pela modificação da anatomia decorrente da remoção do tecido adenotonsilar no período pós-operatório de um mês, fato esse compensado posteriormente, no período pós-operatório mais prolongado.

Da mesma maneira, a única diferença estatisticamente significante detectada na emissão sustentada da vogal /i/ decorreu da observação da frequência fundamental entre o período pré-operatório e o terceiro mês de pós-operatório.

Os resultados aqui apresentados demonstram concordância parcial com os resultados citados nos estudos que avaliaram os efeitos da adenotonsilectomia no primeiro mês de pós-operatório, os quais encontraram diferenças significantes em todos os parâmetros (frequência fundamental, Jitter, Shimmer e proporção harmônico-ruído).22. Mora R, Crippa B, Dellepiane M, Jankowska B. Effects of adenotonsillectomy on speech spectrum in children. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2007;71:1299-304.,33. Salami A, Jankowska B, Dellepiane M, Crippa B, Mora R. The impact of tonsillectomy with or without adenoidectomy on speech and voice. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2008;72:1377-84. Talvez variações metodológicas e da padronização da amostra a ser estudada possam justificar essa variação nos dados. No entanto, esses estudos não fizeram uma avaliação em médio prazo dessas crianças (tempo = 3 meses).

Os resultados do presente estudo fornecem subsídios para concluirmos que crianças com hipertrofia de tonsilas palatinas e faríngeas submetidas a adenotonsilectomia cursam com alterações transitórias da qualidade vocal e dos parâmetros acústicos, evoluindo com o retorno aos padrões pré-operatórios 90 dias após o procedimento cirúrgico.

Conclusão

Crianças com hipertrofia adenotonsilar submetidas a adenotonsilectomia cursam com alterações transitórias dos parâmetros acústicos, evoluindo com a normalização dos mesmos no terceiro mês de pós-operatório.

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  • Como citar este artigo: Dimatos SC, Neves LR, Beltrame JM, Azevedo RR, Pignatari SSN. Impact of adenotonsillectomy on vocal emission in children. Braz J Otorhinolaryngol. 2016;82:151-8.
  • ☆ ☆
    Instituição: Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Mar-Apr 2016

Histórico

  • Recebido
    08 Set 2014
  • Aceito
    01 Fev 2015
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