Uma breve retrospectiva do ano de 2025 nos mostra um mundo em convulsão. No planeta Terra, aldeia global em que habita o ser humano, evidenciam-se os riscos de sua autodestruição. Guerras, incêndios, inundações; crise ambiental, mudança climática; relativização e afronta aos princípios éticos… A mídia em geral – rádios e televisões, jornais e periódicos, plataformas e websites – veicula um volume extraordinário de mensagens, dando-nos a conhecer acontecimentos que se tornam notícias simultâneas e impactam as relações de todas as ordens – sociais, econômicas, geopolíticas, profissionais, etc. – ao redor do mundo. O mundo pensado, concebido e transformado pelo agir humano deixa-nos entrever natureza e cultura em intrínseca tensão. Na diversidade de pontos de vista, evidenciam-se conhecimentos e crenças em confronto, posições e interpretações em conflito, narrativas e valores em acirradas disputas.
Em épocas de uma inaudita revolução técnico-científica, a Inteligência Artificial (IA) emerge não só como um instrumento criado pelo homem, mas se impõe sub-reptícia ou escancaradamente como potência organizadora e orientadora da vida humana, permeando cada gesto e regendo cada aspecto do cotidiano das pessoas; imiscuindo-se em todos os tipos de interações; capturando registros, identificação, comunicação, contabilidade, etc.; dinamizando processos como a marketização, a uberização, a monetização da vida. Em todas as esferas de vida social, intensificam-se as lutas de poder enquanto se constata uma constante violação dos direitos humanos e a crescente desigualdade nas condições de vida das pessoas, apesar dos incansáveis clamores e das proclamações, tantas vezes estéreis, por justiça social (Dubet, 2008, 2020; Gentili, 2009; Gomes, 2012).
O acelerado desenvolvimento tecnológico provoca profundas mudanças nas condições de vida, nas relações sociais, no psiquismo humano, impondo formas de ação, reação e submissão dos indivíduos ao sistema neoliberal de produção (Dardot; Laval, 2016, 2017; Laval, 2019) enquanto viabiliza a disseminação instantânea e indiscriminada de informações – ao tornar amplamente acessível a divulgação de qualquer conhecimento ou fake news, ao possibilitar a rapidez de operações e procedimentos, alterando e, muitas vezes, dispensando formas de trabalho intelectual como a memória e o cálculo.
A função da escola e o papel do professor mostram-se, assim, ameaçados e de menor valia diante do alastramento e da consolidação das Big Techs, que concentram o capital; detêm o poder; impõem a lógica; ditam as regras e comandam as formas de produção, gestão e consumo das informações e do conhecimento produzido.
Neste cenário, a educação formal exibe enorme complexidade, marcada que está, por usos e abusos das novas tecnologias, propostas e implementação da plataformização do ensino, novas formas de colonialismo digital, por uma decorrente precarização das condições de ensino no cotidiano escolar (Gonsales, 2022; Meireles; Adão, 2025; Zuin; Dalbosco, 2025).
Desse modo, torna-se premente analisar seus impactos e problematizar as formas de sua utilização na busca de se compreender as profundas transformações das práticas sociais e, ainda, colocar em perspectiva as condições históricas e sociais de produção da tecnologia, do conhecimento e da própria vida humana.
Se essas transformações afetam a vivência cotidiana das pessoas e tornam-se sensíveis e perceptíveis no nível micro das relações humanas, suas repercussões e seus efeitos no trabalho docente, na instituição escolar, nos modos de aprender e de pensar das crianças e dos jovens demandam especial atenção e configuram um novo campo de investigação.
É nesse sentido que os Cadernos Cedes, um periódico historicamente comprometido com a educação, em seus múltiplos aspectos e contextos, vêm contribuindo com a divulgação de pesquisas teóricas, estudos empíricos, análises e reflexões sobre as práticas em realização no cotidiano das escolas e em outros espaços educacionais, trazendo para o debate dilemas e contradições que atravessam a definição e a implementação de políticas, a profissão docente, as relações de ensino, as formas de atuação de professores e educadores em exercício e em formação.
Publicado no decorrer de 2025, o volume 45 dos Cadernos Cedes apresentou três dossiês com temáticas de grande relevância e atualidade. O primeiro dossiê colocou em foco as Novas facetas da desfiguração do trabalho docente, discutindo, no conjunto de 11 artigos, questões relacionadas à formação para o magistério e à degradação das condições de trabalho docente, face à acelerada expansão da educação digital. O segundo dossiê enfocou as Políticas de Educação Especial, problematizando as políticas educacionais e os projetos de escola, bem como a escolarização de estudantes da educação especial e a formação docente. Em seus 11 artigos, predominam as análises críticas da realidade social, com base no materialismo histórico e dialético. Por fim, o terceiro dossiê abordou a Privatização da educação, analisando situações e condições diversas no Brasil e no exterior. Os dez artigos que compõem a coletânea buscaram dar visibilidade às disputas pelos fundos públicos, pelos princípios da educação como direito humano fundamental e pelas propostas de formação humana em um contexto marcado pelo neoliberalismo.
Ao abrirmos o volume 46 no ano de 2026, temos em fase de publicação os artigos de um dossiê que tematiza a Justiça juvenil e a socioeducação, colocando em pauta problemas bastante sensíveis que tendem a se tornar, muitas vezes, invisíveis em meio ao predomínio das discussões das altas tecnologias. Ao analisar uma diversidade de condições de vida de adolescentes e jovens em situação de alta vulnerabilidade social, os artigos argumentam sobre a necessidade de proposição e implementação de políticas públicas enquanto comentam sobre projetos que lutam pelo acesso aos direitos básicos e que desenvolvem, com esses jovens, ações que minimizam os riscos e resguardam a dignidade humana (Fonseca; Coppi, 2026).
Em fase de preparação, o 2º dossiê do volume 46 entretece três focos de estudos e análises de grande relevância no atual contexto educacional: o ensino médio, o empreendedorismo e a plataformização do trabalho. Admitindo que o trabalho é uma das dimensões constitutivas da experiência juvenil, o dossiê vai problematizar e discutir as múltiplas relações entre educação escolar e trabalho, apontando para as expressivas transformações econômicas, sociais e políticas que têm produzido alterações nas formas de vida em nível global. Ao trazer para o debate a temática dos Jovens e desigualdades interseccionadas, os artigos examinam as atuais condições de reconfiguração do trabalho e do capital, que não se reduzem a alterações de ordem tecnológica, mas se caracterizam pela intensa flexibilização, precariedade e redução de direitos historicamente construídos (Corrochano, no prelo).
Outras propostas encontram-se em análise pelo Comitê Editorial e uma delas, ainda a definir, comporá o 3º dossiê que integra o volume 46.
Vale destacar a dedicação e o trabalho que vem sendo realizado pelas(os) docentes que participam do Comitê Editorial em todas as etapas do processo, desde a sugestão de temas e a análise inicial das propostas até o acompanhamento da produção editorial e a publicação dos dossiês temáticos. A expectativa é de que este trabalho continue a repercutir positivamente no campo da educação, contribuindo para o mapeamento, a elucidação e o adensamento de questões cruciais que atravessam as diversas formas de (atu)ação no enfrentamento das condições e contradições dos tempos contemporâneos.
Agradecimentos
Não se aplica.
-
Declaração de uso de ferramentas de inteligência artificial
Não se aplica.
-
Financiamento
Não se aplica.
Disponibilidade de dados de pesquisa
Todos os dados são apresentados no artigo.
Referências
- CORROCHANO, M. C. Apresentação. Jovens e desigualdades interseccionadas: ensino médio, empreendedorismo e plataformização do trabalho. Cadernos Cedes, Campinas, v. 46, no prelo.
- DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
- DARDOT, P.; LAVAL, C. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. São Paulo: Boitempo, 2017.
- DUBET, F. O que é uma escola justa? São Paulo: Cortez, 2008.
- DUBET, F. O tempo das paixões tristes São Paulo: Vestígio, 2020.
-
FONSECA, D. C.; COPPI, S. F. C. Apresentação. Justiça juvenil e a socioeducação: fundamentos e práticas na contemporaneidade. Cadernos Cedes, Campinas, v. 46, e302227, 2026. https://doi.org/10.1590/cc302227
» https://doi.org/10.1590/cc302227 -
GENTILI, P. O direito à educação e as dinâmicas de exclusão na América Latina. Educação & Sociedade, Campinas, v. 30, n. 109, p. 1.059-1.079, 2009. https://doi.org/10.1590/S0101-73302009000400007
» https://doi.org/10.1590/S0101-73302009000400007 -
GOMES, N. L. Desigualdades e diversidade na educação. Educação e Sociedade, Campinas, v. 33, n. 120, p. 687-693, 2012. https://doi.org/10.1590/S0101-73302012000300002
» https://doi.org/10.1590/S0101-73302012000300002 - GONSALES, P. Inteligência além da artificial: educar para o pensar complexo. São Paulo: Z Edições, 2022.
- LAVAL, C. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. São Paulo: Boitempo, 2019.
-
MEIRELES, J.; ADÃO, F. S. P. Plataformização da educação em tempos de colonialismo digital: reconfigurações da relação professor-estudante. Educação e Sociedade, Campinas, v. 46, e296486, p. 1-18, 2025. https://doi.org/10.1590/es.296486
» https://doi.org/10.1590/es.296486 -
ZUIN, A. A. S.; DALBOSCO, C. A. Apresentação. Dossiê Inteligência Artificial, Ética e Educação. Educação e Sociedade, v. 46, p. 1-5, 2025. https://doi.org/10.1590/es.301731
» https://doi.org/10.1590/es.301731
