Apresentação

Apresentação

Este número reúne artigos decorrentes de produções acadêmicas em nível de mestrado ou doutorado que, fundamentalmente, apontam para o corpo como construção cultural. Privilegiando temas afins à Educação Física, como estudos históricos do corpo, práticas corporais esportivas e escolares, lazer e educação física escolar, esta proposta reúne diferentes abordagens teórico-metodológicas que consideram a cultura como um espaço de educação do corpo. Para tanto, um conceito de educação perpassa as análises empreendidas nestas produções. É uma compreensão ampliada de educação com o entendimento da "cultura como pedagogia", como propõe Tomaz Tadeu da Silva (2005),1 1 . Essa discussão encontra-se no capítulo "A pedagogia como cultura, a cultura como pedagogia", do livro Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo (2005). e que nos embala a problematizar, nos diferentes momentos históricos e nas diferentes instituições sociais, como fomos e somos ensinados a viver nossos corpos e suas marcas como possibilidades naturalizadas.

Pode parecer que tomar o corpo como significado no âmbito da cultura se constitua como um movimento que nega a sua materialidade biológica. Não é uma disputa, no significado estrito da palavra, uma lógica de um ou de outro. É uma posição política sobre o corpo que atravessa e constitui este número dos Cadernos Cedes. Denise Sant'Anna (2000) conceitua que "o corpo é algo que se adquire, se conquista, se constrói".2 2 . A autora elabora esta discussão em: SANT'ANNA, D.B. Descobrir o corpo: uma história sem fim. Educação & Realidade, Local, v. 25, n. 2, p. 49-58, jul.-dez. 2000. Em contínua modificação, podemos entender que as materialidades, a biologia e o contexto físico dos corpos são produções da cultura. Nesse sentido, esta produção visibiliza a necessidade, sobretudo na área da Educação Física, de contextualizar e compreender o corpo como cultural.

A organização deste número dá continuidade a uma proposta apresentada pelos Cadernos Cedes n. 48, intitulado "Corpo e educação", publicado em 1999, que, como Carmen Lúcia Soares apresenta, "pretende alimentar a necessária discussão do corpo em sua heterogeneidade e polissemia no âmbito da educação" (p. 6). Agora, pouco mais de dez anos passados, propõe-se aqui contextualizar e problematizar as discussões sobre corpo e educação, a partir de produções acadêmicas articuladas com a Educação Física.

Assim, este número reúne oito artigos escritos por pesquisadore(a)s ligado(a)s a diferentes instituições do Brasil: Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA), Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Centro Universitário Feevale (Canoas), Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Além destas, há a participação de uma pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), da Universidad Nacional de Córdoba, Argentina.

Dos artigos que compõem este caderno, o texto de José Geraldo Soares Damico busca identificar, analisar e compreender como mulheres jovens, alunas de escolas públicas, contemporaneamente, significam e vivenciam o cuidado com o corpo, sua relação com a alimentação e a busca constante pelo corpo magro e saudável.

Maria Simone Vione Schwengber discute a emergência de uma lógica de educação dos corpos que se intensifica a partir do século XVIII. Focando sua análise na revista Pais & Filhos, no período de 1968 a 2004, a autora aponta para a ideia da intensificação das práticas corporais como estratégias deste discurso de educação dos corpos, produzindo um corpo feminino grávido que se cuida, esportivo e sensual.

Para pensar o contexto da escola e da educação física escolar na produção dos corpos, o artigo de Carlos Fabre Miranda problematiza a relação dos esportes e, particularmente, do atletismo com o corpo. O autor aponta como o corpo foi configurado como instrumento para o ensino e, realizando uma crítica à referida abordagem, ainda indica sugestões de como podem ser trabalhados aspectos para além do saber técnico, na educação física escolar.

Priscila Gomes Dornelles questiona como o discurso biológico atravessa e constitui as justificativas enunciadas por professore(a)s para separar meninos e meninas nas aulas de Educação Física. Para isso, a autora coloca em suspensão os essencialismos e as naturalizações como mecanismos estabelecidos, numa tentativa de fixar o corpo como construto biológico - origem e explicação da divisão nesta disciplina escolar - , para marcá-lo como construção cultural.

Ainda no contexto da escola, Ileana Wenetz discute como acontecem negociações nas brincadeiras das crianças no recreio escolar. A autora argumenta, através de um estudo etnográfico, como significados de gênero são mobilizados e vivenciados nas práticas corporais pelas meninas e pelos meninos neste espaço escolar.

Considerando outros tempos e espaços na/para a educação do corpo na sociedade, o texto de André Luiz dos S. Silva problematiza os imperativos da beleza feminina a partir das contribuições da educação física e da eugenia, ao focar como os discursos dos intelectuais brasileiros Renato Kehl e Fernando de Azevedo se aproximam na produção do corpo feminino. O autor sinaliza a produção de uma moral das aparências como um efeito que tem, ainda hoje, seus atravessamentos nos corpos femininos.

Em articulação com a construção do corpo feminino, María Inés Landa propõe-se a discutir a conformação, a produção e a transformação do corpo do fitness. Assim, a pesquisadora busca, nas narrativas sociais, os processos pelos quais a performance se torna um conjunto de valores que caracterizam o sujeito como empresário dele mesmo - figura emblemática do novo capitalismo.

Lançando luz sobre a construção do corpo masculino, Claudio Nunes apresenta o contexto e a prática de strip tease em articulação com o conceito de educação para abordar o corpo como produto cultural e, ao mesmo tempo, como objeto de provocação, agrado e admiração. Além disso, filia-se às discussões de gênero e de sexualidade para problematizar a cena, os cuidados e o que é valorizado na conformação deste corpo e de suas atuações de masculinidade.

Esperamos que este dossiê se constitua como uma possibilidade de ampliar o olhar sobre o corpo na contemporaneidade. Uma ampliação que, de forma paradoxal, se fundamenta numa demarcação: o corpo é uma construção para além da sua biologia. Boa leitura!

ILEANA WENETZ

PRISCILA GOMES DORNELLES

(Organizadoras)

Notas

  • 1
    . Essa discussão encontra-se no capítulo "A pedagogia como cultura, a cultura como pedagogia", do livro
    Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo (2005).
  • 2
    . A autora elabora esta discussão em: SANT'ANNA, D.B. Descobrir o corpo: uma história sem fim.
    Educação & Realidade, Local, v. 25, n. 2, p. 49-58, jul.-dez. 2000.
  • 1 . Essa discussão encontra-se no capítulo "A pedagogia como cultura, a cultura como pedagogia", do livro Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo (2005). 2 . A autora elabora esta discussão em: SANT'ANNA, D.B. Descobrir o corpo: uma história sem fim. Educação & Realidade, Local, v. 25, n. 2, p. 49-58, jul.-dez. 2000.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      20 Dez 2012
    • Data do Fascículo
      Ago 2012
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