O ENSINO DA MÚSICA PARA CRIANÇAS EM ÁREA DE VULNERABILIDADE JUVENIL: UM ESTUDO DE CASO

The music teaching for children in a juvenile vulnerability area: a case study

Maria Eliza Mattosinho Bernardes Eliseu de Oliveira FilhoSobre os autores

RESUMO:

O objetivo deste estudo foi analisar as contradições no processo de mediação da música quando a finalidade do ensino é ampliar as possibilidades de acesso à cultura por parte de crianças moradoras em área de alta vulnerabilidade juvenil. O ensino da música fundamenta-se no enfoque histórico-cultural e tem cunho teórico-prático. As categorias de análise são: emoção-razão; equipe pedagógica; família-escola; e condições institucionais. A análise das contradições evidencia as condições concretas que proporcionam o bom desenvolvimento ou criam rupturas na atividade pedagógica.

Palavras-chave:
Mediação da cultura; Psicologia histórico-cultural; Ensino da música; Práxis pedagógica

ABSTRACT:

The purpose of this study is to analyze the contradictions in the process of music mediation when the purpose of teaching is to expand the possibilities of access to culture by children living in areas of high youth vulnerability. Music teaching is based on the historical-cultural approach and has a theoretical-practical approach. The categories of analysis are: emotion-reason; pedagogical team; family-school; institutional conditions. The analysis of the contradictions evidences the concrete conditions that provide the good development or create ruptures in the pedagogical activity.

Keywords:
Culture mediation; Historical-cultural psychology; Music teaching; Pedagogical praxis

INTRODUÇÃO

O presente estudo aborda a questão das contradições no processo de ensino da música, cuja finalidade é ampliar as possibilidades de acesso à cultura por parte de crianças moradoras da zona leste de São Paulo, no bairro Ermelino Matarazzo, considerada área de média e alta vulnerabilidade social. Trata-se de um bairro, segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (SÃO PAULO, 2010SÃO PAULO. Assembleia Legislativa. Índice paulista de vulnerabilidade social - IPVS versão 2010. São Paulo: SEDAE, 2010. Disponível em: <Disponível em: http://indices-ilp.al.sp.gov.br/view/pdf/ipvs/principais_resultados.pdf >. Acesso em: 27 maio 2018.
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), cuja maioria da população é da classe média baixa, com renda familiar de três salários-mínimos. Cerca de 20% dos domicílios são de responsabilidade das mulheres e 10% da população têm de 0 a 5 anos de idade. Segundo o levantamento realizado pela mesma instituição em 2007, a região tem índices altos de vulnerabilidade juvenil1 1 . O índice de vulnerabilidade juvenil teve início em 2002, para identificar espaços territoriais da cidade de São Paulo prioritários para a implementação de atividades culturais, no âmbito do projeto Fábricas de Cultura da Secretaria Estadual de Cultura, financiado pelo Bando Interamericano de Desenvolvimento (BID). Vários são os indicativos para definição do índice, mas são destacados: deficiências educacionais, mortes por homicídio e maternidade na adolescência (SÃO PAULO, 2007). .

Por sua vez, o Campus Leste da Universidade de São Paulo (USP), Capital, implantado em 2005 na mesma região, vem desenvolvendo a sua tripla função de pesquisa, ensino e extensão, promovendo intervenções na comunidade que integram a produção do conhecimento, a formação profissional e a ampliação de oportunidades de acesso à cultura e ao bem-estar social por parte da comunidade local.

O projeto de extensão Curso Livre de Música, contexto de análise neste estudo, é uma das intervenções de cunho educativo que integram a unidade educação-música (GONÇALVES, 2017GONÇALVES, A.C.A.B. Educação musical na perspectiva histórico-cultural de Vigotski: a unidade educação-música. 277 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade de Brasília, Brasília, 2017.) e expressam a tripla função da universidade pública, junto ao Programa de Cultura e Extensão da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) - USP Capital - Área Leste. Ao longo de dois anos (2015-2017) foram ministrados, no referido projeto de extensão, cursos de difusão sobre o ensino de música com os seguintes objetivos gerais: criar um espaço para a mediação da linguagem artística musical a partir de intervenções pedagógicas sobre o ensino de música que promovam o desenvolvimento das funções psíquicas superiores dos sujeitos em atividade; incentivar o interesse pela música como forma da produção humana elaborada historicamente; desenvolver a percepção musical e a sensibilidade artística de forma crítica e criativa por meio de aprendizagem teórico-prática; e habilitar os sujeitos às manifestações artísticas musicais.

A intervenção no ensino da música teve apoio do programa de bolsas da USP, contando com o financiamento de quatro estudantes do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza, com conhecimento específico em música, que executavam ações de apoio ao professor de música, com supervisão pedagógica exercida pela docente responsável pelo projeto, compondo a equipe pedagógica. No processo de organização do ensino, foram realizados momentos de estudo coletivo, planejamento coletivo das ações pedagógicas e reuniões de reflexão sobre as ações coletivas realizadas nos cursos de difusão, contribuindo para a formação pedagógica dos monitores estudantes. As ações pedagógicas foram filmadas, fotografadas e registradas na forma de plano de trabalho, que fazem parte do banco de dados do Laboratório de Educação e Desenvolvimento Psicológico (LEDEP) da EACH, para o desenvolvimento de pesquisas.

As fundamentações teórico-metodológicas do projeto Curso Livre de Música são a psicologia histórico-cultural e a pedagogia histórico-crítica, entendidas como mediações que nos possibilitam compreender e explicar o real em movimento. Trata-se de campos de conhecimento que medeiam a organização e a análise dos processos educativos e do desenvolvimento humano a partir das relações sociais próprias da atividade humana, rumo à transformação das funções psíquicas superiores. Assim, a organização do ensino da música fundamenta-se nessa perspectiva histórica e dialética que compreende que os sujeitos em atividade promovem transformações na realidade externa e, consequentemente, se autotransformam (MARX, 1996MARX, K. O capital: crítica da economia política. 15. ed. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil , 1996. v. 1.; LUKÁCS, 2013LUKÁCS, G. Para a ontologia do ser social II. São Paulo: Boitempo, 2013. Disponível em: <Disponível em: https://gpect.files.wordpress.com/2016/12/ff130318ae9d9b74571de73bdc7d1509.pdf >. Acesso em: 26 abr. 2018.
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).

Numa dimensão ontológica, a finalidade do trabalho coletivo realizado no projeto assume características que Oliveira (1996OLIVEIRA, B. O trabalho educativo: reflexões sobre paradigmas e problemas do pensamento pedagógico brasileiro. Campinas: Autores Associados, 1996., p. 21) identifica como trabalho educativo, ao afirmar que “a educação concebida como atividade mediadora no seio da prática social global serve ao objetivo de ‘promover o homem’, isto é, tem o objetivo de possibilitar ao homem tornar-se cada vez mais um ser histórico-social consciente”. Trata-se da atuação direta e consciente da equipe pedagógica, movida pelos fins que promovam a genericidade da constituição humana, a partir da mediação dos processos educativos, em cada indivíduo singular, na constituição do ser em devir. O conceito trabalho “educativo”, inicialmente concebido por Saviani (2003SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica. 8. ed. Campinas: Autores Associados , 2003., p. 13), refere-se ao “ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens”. A partir dessa concepção de trabalho, enquanto atividade consciente e promotora do desenvolvimento humano, relaciona-se a atividade educativa com uma das teses da psicologia histórico-cultural sobre a relação entre ensino, aprendizagem e desenvolvimento psíquico.

No âmbito da psicologia histórico-cultural, pressupõe-se que as relações de ensino e aprendizagem podem vir a ser promotoras do desenvolvimento do psiquismo (VYGOTSKY, 1996VYGOTSKY, L.S. Obras escogidas. Madri: Machado Libros, 1996. v. 4.; 1999aVYGOTSKY, L.S. O desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes, 1999a.), no entanto considera-se não ser qualquer forma de organização do ensino que promove o desenvolvimento psíquico, mas apenas o ensino devidamente organizado, que pressupõe mediações do conhecimento para além ao desenvolvimento atual dos indivíduos. Assim, a organização das ações de ensino e de aprendizagem baseia-se na concepção de atividade pedagógica que, segundo Bernardes (2009BERNARDES, M.E.M. Ensino e aprendizagem como unidade dialética na atividade pedagógica. Psicologia Escolar e Educacional, v. 13, n. 2, p. 235-242, 2009.), é entendida como unidade dialética entre a atividade de ensino, própria do professor (MOURA, 1996MOURA, M.O. de. A atividade de ensino como unidade formadora. Bolema, Rio Claro, v. 12, p. 29-43, 1996.), e a atividade de estudo, própria dos estudantes (LEONTIEV, 1983LEONTIEV, A.N. Actividad, conciencia, personalidad. Havana: Pueblo y Educación, 1983.; DAVIDOV, 1988DAVIDOV, V.V. La enseñanza escolar y el desarrollo psíquico: investigación psicológica teórica y experimental. Moscou: Progresso, 1988.), pois ambas visam a um mesmo fim: a aprendizagem dos elementos da cultura e o desenvolvimento das funções psíquicas superiores dos sujeitos em atividade.

O ENSINO DA MÚSICA: ENTRE A ALIENAÇÃO E A APROPRIAÇÃO DA CULTURA

O ensino da música no projeto Curso Livre de Música é considerado uma atividade que visa à objetivação do processo de mediação da cultura humana elaborada historicamente, entendida como a arte, a ciência, a filosofia e a política (HELLER, 2008HELLER, A. O cotidiano e a história. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.), e à promoção dos indivíduos integrados ao processo pedagógico. A não apropriação dos elementos da cultura humana torna os indivíduos alheios ao que historicamente fora produzido pelo conjunto dos homens. Trata-se do complexo processo histórico de alienação da produção material e não material (ALCÂNTARA, 2014ALCÂNTARA, N. Lukács: ontologia e alienação. São Paulo: Instituto Lukács, 2014.), que remonta aos primórdios da humanidade, porém se potencializa na modernidade a partir do movimento de fetichização da mercadoria (KONDER, 2009KONDER, L. Marxismo e alienação: contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.).

Na especificidade deste trabalho que aborda o ensino da música como uma das formas de mediação da produção humana elaborada historicamente, resgata-se a concepção de Lukács (2013LUKÁCS, G. Para a ontologia do ser social II. São Paulo: Boitempo, 2013. Disponível em: <Disponível em: https://gpect.files.wordpress.com/2016/12/ff130318ae9d9b74571de73bdc7d1509.pdf >. Acesso em: 26 abr. 2018.
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) de que a arte é o reflexo antropomorfizador da realidade. A arte, segundo Vygotsky (1999bVYGOTSKY, L.S. Psicologia da arte. São Paulo: Martins Fontes , 1999b.), é um instrumento social que medeia aspectos íntimos e pessoais de cada ser. A obra de arte, sem deixar de ser um registro da manifestação social que integra elementos da cultura historicamente elaborada, medeia aspectos da individualidade humana. A música, como uma modalidade de arte, objetiva-se nas práticas sociais possibilitando que os indivíduos expressem a racionalidade, o sentimento e a emoção, enquanto unidade do psiquismo (VYGOTSKY, 2004VYGOTSKY, L.S. Teoría de las emociones: estudio histórico-psicológico. Tradução de Judith Viaplana. Madri: Akal, 2004.).

Diante dessa compreensão de arte, a música é entendida pela equipe pedagógica do projeto como unidade dialética que integra as manifestações sócio-históricas e individuais, por meio dos processos educativos. Assim, o ensino da música foi organizado a partir do entendimento da concretude da produção musical, contemplando sua historicidade, socialidade, técnica e estética artística.

O ensino da música para crianças que moram em área de alta vulnerabilidade juvenil parte da necessidade de desenvolver a percepção sonora consciente, de reconhecer a música enquanto forma de expressão da racionalidade e sensibilidade humana, assim como da necessidade de ampliação do repertório artístico musical, sem deixar de reconhecer a importância de valorizar a música divulgada e produzida na cultura local. Dessa forma, o conteúdo de ensino da música é a unidade da produção artística musical nos seus aspectos técnicos e estéticos, sociais e históricos contemplados na organização da práxis musical enquanto atividade pedagógica.

Nessa condição, a organização do ensino tem como ponto de partida a compreensão de atividade coletiva que integra os princípios do trabalho educativo. No âmbito da organização pedagógica, a coletividade de estudo (BERNARDES, 2012BERNARDES, M.E.M. Mediações simbólicas na atividade pedagógica: contribuições da teoria histórico-cultural para o ensino e aprendizagem. Curitiba: CRV, 2012.; FREIRE; BERNARDES, 2017FREIRE, S.B.; BERNARDES, M.E.M. A mediação do conhecimento teórico-filosófico na atividade pedagógica: um estudo sobre as possibilidades de superação das manifestações do fracasso escolar. Obutchénie: Revista de Didática e Psicologia Pedagógica, Uberlândia, v. 1, n. 2, p. 310-329, maio/ago. 2017. http://dx.doi.org/10.14393/OBv1n2a2017-4
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), composta pela equipe pedagógica, realizou ações para estudo teórico sobre o ensino da música, reflexões sobre as ações de ensino e aprendizagem realizadas no projeto de extensão, elaboração de estratégias lúdicas de ensino e desenvolvimento de material pedagógico para o ensino da teoria musical. No que se refere à mediação da música na práxis musical, foram ministradas aulas teórico-práticas de música e aulas de instrumentos musicais (piano e violão) de forma individual ou em dupla.

As ações pedagógicas assumem a forma de experimento didático (DAVIDOV, 1988DAVIDOV, V.V. La enseñanza escolar y el desarrollo psíquico: investigación psicológica teórica y experimental. Moscou: Progresso, 1988.). Participaram do projeto cerca de 15 crianças por semestre (em média), com idade entre 9 e 12 anos, de 2015 a 2017. A intencionalidade na organização do ensino da música perpassa a criação de vivências que possibilitam a percepção sonora e musical, o reconhecimento, a experimentação e a execução de instrumentos, a apropriação da especificidade da linguagem musical por meio da leitura e escrita e a apropriação dos aspectos históricos dos ritmos musicais e seus compositores.

Os modos de ação na práxis musical visam desenvolver a criatividade musical, criar um ambiente favorável para a aprendizagem musical por meio da ludicidade e do acesso à tecnologia, assim como despertar a autoestima, a disciplina, a sensibilidade, a socialização e a colaboração entre os participantes. As aulas ocorreram em um dos auditórios da EACH, com equipamento multimídia, piano elétrico, violão, lousa branca e cadeiras universitárias.

A ANÁLISE DAS CONTRADIÇÕES: O REAL EM MOVIMENTO

O processo de análise dos dados baseia-se no movimento do real capturado nas formas de filmagens e fotografias, relatórios de aulas elaborados pelos monitores, registros de reuniões pedagógicas e entrevistas com membros da equipe pedagógica. Os eixos de análise são identificados como: emoção e razão na atividade pedagógica; equipe de trabalho; relação família e escola; e condições institucionais.

Tais eixos de análise não podem ser entendidos como partes de um todo, pois compõem a totalidade do real em movimento (MARX, 1996MARX, K. O capital: crítica da economia política. 15. ed. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil , 1996. v. 1.). Identificam-se, na análise desses eixos, contradições que evidenciam as condições concretas da realidade, as quais propiciam importantes elementos para o bom desenvolvimento da atividade pedagógica ou criam rupturas no processo de ensino e aprendizagem.

Verifica-se, ao longo de todo o processo de intervenção pedagógica, a unidade emoção e razão, conforme indica Vygotsky (2004VYGOTSKY, L.S. Teoría de las emociones: estudio histórico-psicológico. Tradução de Judith Viaplana. Madri: Akal, 2004.), que se objetiva no ensino e na aprendizagem da música tanto nas ações realizadas pela equipe pedagógica quanto pelas crianças que participaram do projeto. A oportunidade de reunir pessoas com diferentes formações e idades gerou emoções diversas que uniram e/ou promoveram rompimentos nas relações sociais entre os participantes do coletivo de trabalho. Trata-se de movimento, conforme explica Heller (2008HELLER, A. O cotidiano e a história. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.), que se estabelece entre o estranhamento e a paixão a partir do que a vida cotidiana cria como possibilidade de acesso à produção artística.

Para as crianças participantes do projeto, o processo de ampliação do repertório musical por meio do acesso à raiz histórica dos estilos musicais mais ouvidos na comunidade local e a outros estilos musicais de origem nacional ou internacional gerou condutas que expressam a negação do novo, talvez por não se reconhecerem como integradas à produção musical mais ampla. Entre a paixão e o estranhamento da música mediada nas aulas teórico-práticas, evidencia-se que os motivos eficazes (LEONTIEV, 1983LEONTIEV, A.N. Actividad, conciencia, personalidad. Havana: Pueblo y Educación, 1983.) que levam as crianças à aprendizagem da música vinculam-se à necessidade de aprender um instrumento para vir a ser um profissional da música e ao desejo de participar de situações musicais no contexto familiar ou de outros grupos sociais. Um fato que evidencia o motivo eficaz na atividade de estudo da música é quando se questiona uma das crianças sobre o que a faz permanecer no projeto e a mesma responde: “A música…!”. Essa fala é de extrema importância na análise dos dados, pois nesse momento, na organização do ensino, estavam sendo integradas ações lúdicas para vincular ritmos e movimentos corporais com pernas de pau. As diversas estratégias de ensino são concebidas como importantes no processo pedagógico, porém compreende-se não serem suficientes para gerar motivos para a permanência das crianças no projeto. As crianças que permaneceram no projeto ao longo do período em análise justificam que aprender música é o principal motivo. Um dos aspectos mais agudos que promoveu a evasão das crianças vincula-se à percepção de que o projeto transcende as ações de lazer no período do contraturno escolar, mas configura-se como ações de estudo da música. O fato de as crianças não terem instrumentos musicais para estudo em casa ou na escola e de terem projetos de lazer esportivo no mesmo horário do ensino da música contribuiu para a não permanência de várias crianças no projeto.

O trabalho realizado pela equipe pedagógica visou à organização coletiva do ensino, fato que promoveu vivências que integraram emoção e racionalidade, assim como promoveram forte aproximação entre os participantes da equipe por terem motivos para aprender a ensinar e ensinar música às crianças da comunidade local. Ao mesmo tempo, e de forma contraditória, a continuidade do trabalho coletivo pela equipe pedagógica compromete-se por disputas e divergências entre seus participantes, que levaram à fragilidade das relações interpessoais. Em diversos momentos ocorreram disputas de poder (BOURDIEU, 1989BOURDIEU, P. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.), seja no campo das argumentações teóricas, seja no campo da execução de funções sociais na organização do projeto. Outro aspecto a ser contemplado na análise é a rotatividade dos monitores por serem bolsistas, não sendo garantida a continuidade no trabalho coletivo. Constata-se também que o vínculo de trabalho voluntário com o professor de música não garante a continuidade do processo pedagógico.

Quanto à relação família e escola, foram vivenciados, com alguns casos pontuais, momentos de aproximações com pais, mães e irmãos que traziam as crianças e participaram como ouvintes nas aulas de música. Os familiares que participavam do processo pedagógico incentivaram as crianças para o estudo da música, assim como queriam aprender música, o que não se objetivou devido às características do projeto. No entanto, o contato com a maioria dos familiares foi estabelecido de forma breve e pontual pelas redes sociais através dos monitores. Nos momentos em que os familiares foram chamados para o diálogo com a equipe pedagógica, o contato foi inviabilizado pelas relações de trabalho dos pais ou outros motivos não identificados.

No que se refere às condições institucionais, valoriza-se a oportunidade de abertura dos espaços da universidade para a realização do projeto, disponibilizando equipamentos audiovisuais, piano elétrico e acústico, auditórios, segurança, bolsas de apoio a estudantes para atuarem como monitores e apoio de secretaria. Entende-se que a abertura do espaço físico da universidade para as crianças da comunidade local é de fundamental importância para que elas possam ter a oportunidade de vivenciar momentos de aproximação com o modo de produção do conhecimento e de o reconhecerem como possível no seu cotidiano. De forma contraditória, tais vivências encontram barreiras não materiais que provocam estranhamentos no convívio com as pessoas que frequentam e trabalham no campus e na rotina das próprias crianças participantes do projeto. Um exemplo dessa análise manifesta-se na rotina de segurança do campus que, em alguns momentos, barrou o acesso de crianças com estigmas de exclusão social, quando não acompanhadas pelos monitores ou familiares. O estranhamento do espaço físico da universidade por parte das próprias crianças acirra-se a partir de rotinas que não foram possíveis de serem cumpridas por elas, como estarem sempre munidas de documentos pessoais (RG) para acessarem o campus. Outro aspecto a ser analisado é a burocracia no setor público, que dificulta e inviabiliza a execução de ações necessárias para o desenvolvimento do projeto, como a compra de instrumentos musicais e o subsídio de diárias para colaboradores sem vínculo oficial com a universidade.

Tais eixos de análise evidenciam o conjunto das condições concretas que definiram os limites e as possibilidades para a realização do ensino de música para crianças moradoras em área de alta vulnerabilidade juvenil enquanto curso de difusão na USP Capital - Campus Leste.

NOVOS CAMINHOS, NOVOS DESAFIOS...

O conjunto das condições concretas que delimitou a atividade coletiva no projeto Curso Livre de Música, ao mesmo tempo em que criou oportunidades para a mediação da música e promoção do desenvolvimento de todos os envolvidos na atividade pedagógica, também agudizou as rupturas no movimento coletivo de ensino e aprendizagem.

Na análise coletiva dos dados realizada pela equipe pedagógica, visando à superação das condições concretas, definiu-se que (temporariamente) a continuidade do projeto ocorreria fora do campus da universidade, em espaços oficiais de cuidados à criança e ao adolescente na comunidade local, cujos profissionais mantêm contato formal com as famílias e acompanham diariamente o processo de escolarização e a evolução das crianças e jovens. Sobre a inserção dos participantes no campus da universidade, considera-se a necessidade de maior abertura do espaço público e a elaboração de planejamento de ações sistematizadas para o seu recebimento visando à superação das barreiras materiais e não materiais de exclusão social.

Identifica-se também a necessidade de mudanças nas condições que subsidiam a execução do ensino de música, envolvendo apoio financeiro para compra de materiais de estudo da música, condições para permanência da equipe de trabalho e local adequado para a execução do processo pedagógico. Trata-se da luta por condições dignas para o trabalho educativo no campo da música e da extensão universitária, que se integram de forma dialética à pesquisa e ao ensino, quando a finalidade é a mediação da cultura musical e a superação das possibilidades e limites criados pela vida cotidiana. Trata-se da necessidade de reconhecimento e valorização de ações de extensão universitária para que superem a dimensão assistencialista e que as ações se constituam enquanto unidade, como produção de conhecimento e formação profissional em trabalho na universidade pública.

Entende-se que a análise das contradições no projeto de extensão anuncia novas necessidades e possibilidades para a objetivação do trabalho coletivo sobre o ensino de música para as crianças moradoras da comunidade ao redor da USP Capital - Área Leste, ao mesmo tempo em que evidencia barreiras institucionais advindas do modo de organização do espaço público que deveria ser voltado integralmente para a promoção humana, independente do contexto social e dos participantes que a integram.

Considera-se que o processo educativo que cria condições para a emancipação humana perpassa a organização de ações objetivas que visam à superação das condições que perpetuam a manutenção e reprodução das mediações culturais na vida cotidiana. No caso deste estudo, trata-se da necessidade da (re)organização e objetivação de ações pedagógicas que medeiem a cultura artística musical, assim como do espaço físico e político que crie possibilidades para a superação da reprodução da cotidianidade. Essa é uma das missões da universidade pública.

REFERÊNCIAS

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NOTAS

  • 1
    . O índice de vulnerabilidade juvenil teve início em 2002, para identificar espaços territoriais da cidade de São Paulo prioritários para a implementação de atividades culturais, no âmbito do projeto Fábricas de Cultura da Secretaria Estadual de Cultura, financiado pelo Bando Interamericano de Desenvolvimento (BID). Vários são os indicativos para definição do índice, mas são destacados: deficiências educacionais, mortes por homicídio e maternidade na adolescência (SÃO PAULO, 2007SÃO PAULO. Secretaria de Economia e Planejamento. Índice de vulnerabilidade juvenil IVJ: evolução do índice de vulnerabilidade juvenil 2000/2005. São Paulo: SEDAE , 2007. Disponível em: <Disponível em: http://produtos.seade.gov.br/produtos/ivj/ivj_2000_05.pdf >. Acesso em: 27 maio 2018.
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    ).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Maio 2019
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2019

Histórico

  • Recebido
    24 Ago 2018
  • Aceito
    11 Dez 2018
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