Notas sobre representação do corpo e cultura médica no Portugal moderno

Notes on representation of the body and medical culture in early modern Portugal

Notes concernant la représentation du corps et la culture médicale au Portugal moderne

Resumos

O artigo discute pressupostos e possibilidades de abordagem no estudo de representações do corpo em Portugal, nos inícios da época moderna. Seu principal objeto de análise são os modos como o corpo é representado na medicina, mas também trata de outras áreas do saber, como a filosofia e a literatura, com vistas a explorar paralelamente duas questões inter-relacionadas: a questão mais geral dos vínculos entre representações do corpo, ideias e processos históricos do seu contexto cultural; e o problema mais específico de como essas representações expressam conceitos e modos de pensar no universo médico. Esta proposta funda-se no entendimento de que a análise de imagens é particularmente reveladora das nuanças de influências intelectuais entre os pensadores do período.

representação do corpo; medicina; cultura; Portugal; época moderna


This article discusses presuppositions and approaches for a study on representations of the body in early modern Portugal. It focuses on medicine, but it also deals with other scholarly domains such as philosophy and literature. It addresses two related questions: the more general question of the links between representations of the body, ideas and historical processes in their cultural context; and the more particular problem of the way these representations express concepts and modes of thought in the medical milieu. This proposal is based on the premise that an enquiry into images used by thinkers illuminates the shaded spectrum of intellectual influences among them.

representation of the body; medicine; culture; Portugal; early modern period


L'article analyse les présupposés et les approches possibles pour l'étude des représentations du corps au Portugal, au début de l'époque moderne. Cette analyse porte sur les images du corps dans la médecine mais aborde également d'autres domaines du savoir comme la philosophie et la littérature afin de faire un parallèle entre deux questions qui sont reliées entre elles : la question plus générale des liens entre les représentations du corps et les idées et les processus historiques de leur contexte culturel ; et le problème pus spécifique à savoir comment les images et leurs représentations expriment les concepts et les manières de penser dans l'univers médical. Cette proposition part du principe que l'analyse des images est particulièrement révélatrice des nuances dues aux influences intellectuelles des penseurs de l'époque.

Représentation du corps; médecine; culture; Portugal; époque moderne


DOSSIÊ

Notas sobre representação do corpo e cultura médica no Portugal moderno1 1 O presente artigo foi escrito com base em pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq.

Notes on representation of the body and medical culture in early modern Portugal

Notes concernant la représentation du corps et la culture médicale au Portugal moderne

Lígia Bellini

Doutora em História. Professora do Departamento de História e Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia. Rua Aristides Novis, 197. Cep: 40210-730. Federação - Salvador - Bahia - Brasil ligiabellini@uol.com.br

RESUMO

O artigo discute pressupostos e possibilidades de abordagem no estudo de representações do corpo em Portugal, nos inícios da época moderna. Seu principal objeto de análise são os modos como o corpo é representado na medicina, mas também trata de outras áreas do saber, como a filosofia e a literatura, com vistas a explorar paralelamente duas questões inter-relacionadas: a questão mais geral dos vínculos entre representações do corpo, ideias e processos históricos do seu contexto cultural; e o problema mais específico de como essas representações expressam conceitos e modos de pensar no universo médico. Esta proposta funda-se no entendimento de que a análise de imagens é particularmente reveladora das nuanças de influências intelectuais entre os pensadores do período.

Palavras-chave: representação do corpo, medicina, cultura, Portugal, época moderna.

ABSTRACT

This article discusses presuppositions and approaches for a study on representations of the body in early modern Portugal. It focuses on medicine, but it also deals with other scholarly domains such as philosophy and literature. It addresses two related questions: the more general question of the links between representations of the body, ideas and historical processes in their cultural context; and the more particular problem of the way these representations express concepts and modes of thought in the medical milieu. This proposal is based on the premise that an enquiry into images used by thinkers illuminates the shaded spectrum of intellectual influences among them.

Key words: representation of the body, medicine, culture, Portugal, early modern period.

RESUMÉ

L'article analyse les présupposés et les approches possibles pour l'étude des représentations du corps au Portugal, au début de l'époque moderne. Cette analyse porte sur les images du corps dans la médecine mais aborde également d'autres domaines du savoir comme la philosophie et la littérature afin de faire un parallèle entre deux questions qui sont reliées entre elles : la question plus générale des liens entre les représentations du corps et les idées et les processus historiques de leur contexte culturel ; et le problème pus spécifique à savoir comment les images et leurs représentations expriment les concepts et les manières de penser dans l'univers médical. Cette proposition part du principe que l'analyse des images est particulièrement révélatrice des nuances dues aux influences intellectuelles des penseurs de l'époque.

Mots-clés: Représentation du corps, médecine, culture, Portugal, époque moderne.

Um estudo sobre concepções do corpo nos começos da época moderna pode ser feito a partir de uma variedade de fontes e perspectivas. A breve reflexão, feita neste artigo, sobre pressupostos e possibilidades de abordagem da investigação de representações do corpo em Portugal, no período, contempla, de forma limitada, material documental produzido em diferentes campos do saber, como a filosofia moral, a arte e a literatura. Mas seu foco principal são textos médicos. Minha proposta de pesquisa é explorar paralelamente duas questões inter-relacionadas: a questão mais geral dos vínculos entre representações do corpo, ideias e processos históricos do seu contexto cultural; e o problema mais específico de como essas representações expressam conceitos e modos de pensar da medicina. Uma das premissas desta proposta é de que a análise de imagens é particularmente reveladora das nuanças de influências intelectuais entre os pensadores do período. Através do estudo de imagens iconográficas e verbais do corpo, é possível construir um quadro das principais tendências no pensamento da elite intelectual portuguesa moderna, em particular no meio médico.

O termo corpo evoca uma pletora de significações. Designa a substância física de cada homem, animal ou outros entes da natureza. Com referência ao ser humano, remete ao papel da parte material como receptáculo do espírito, na bipolaridade corpo - alma. Sugere ainda a ideia de forma humana que, por sua vez, está associada aos conceitos de figura, configuração, perfil, representação, com marcada conotação visual. Remete à sexualidade, aos saberes e práticas de disciplinas como a medicina, a psicanálise, a ética. Relaciona-se também à ideia de organismo, conjunto orgânico de partes. Por fim, tem sido cada vez mais preeminente a concepção de corpo como uma construção da linguagem e de práticas culturais tornadas código na linguagem. O uso do termo, neste artigo, envolve, ao menos em parte, todas essas conotações, mas, sobretudo, a de forma humana, ou "fisicalidade da existência humana", como ela foi percebida por médicos, escritores e artistas (Gent; Llewellyn, 1990, p.1-2; Jordanova, 1989, p.13-14).

Considerar a medicina como "parte de um padrão cultural total" implica reconhecer que o sistema conceitual dessa área específica do saber é modelado pela cultura e que discursos médicos têm dimensões simbólicas.2 2 Em que pese o fato de essas questões terem sido extensivamente tratadas nas últimas três décadas, as discussões feitas por MacDonald (1983, citação traduzida, p. 62) e Jordanova (1983), as quais tratam de diferentes abordagens aos vínculos entre ciência e medicina, por um lado, e seu contexto cultural e social, por outro, continuam relevantes e elucidativas. Ver também Jordanova (1989, especialmente a introdução) e Webster (1976), trabalhos que evidenciam as potencialidades do estudo histórico da ciência e da medicina em relação com o universo social e cultural em que emergiram. Se se pode dizer que nenhuma área do conhecimento é inteiramente separada do seu ambiente cultural, isto é particularmente verdadeiro para a medicina, que envolve, ao mesmo tempo, procedimentos relativos à produção de conhecimento acadêmico e práticas profiláticas e curativas nas quais as relações humanas sempre ocuparam lugar central. Esse enfoque tem sua genealogia associada à visão de Foucault, notadamente nos seus primeiros trabalhos, a respeito da existência de "epistemes", modos de percepção ou princípios comuns à língua, ao saber e às práticas em geral, em determinado contexto histórico (Foucault, 1981). Mas ele também se relaciona com uma característica do domínio intelectual no período em questão. No século XVI, no qual uma série de mudanças que caracteriza o chamado Renascimento se propagou pela Europa, as disciplinas acadêmicas não estavam separadas umas das outras.3 3 O termo "disciplinas" é utilizado aqui mais de acordo com as categorias que fundamentavam a divisão entre campos de conhecimento da época, e não para sugerir os muito melhor definidos limites entre ramos do saber que emergem com a consolidação da modernidade. Apesar de diferenças quanto a ênfases, procedimentos e linguagem, essas disciplinas geralmente partilhavam ideias e conceitos como se todas fizessem parte do que se poderia chamar de um universo de discurso que incluía a ética, a religião, a filosofia e a história natural. Noções sobre o corpo humano, objeto que foi alvo de atenção especial na época, eram geralmente partilhadas por diferentes ramos do saber.4 4 Maclean (1987) apresenta um quadro bem documentado da transmissão de visões sobre a mulher entre a medicina, a teologia, a filosofia e o direito, durante o Renascimento.

A ideia de Renascimento é complexa. Em geral, como se sabe, o termo designa as transformações na arte, no conhecimento e na moralidade, inicialmente baseadas em modelos clássicos, que tiveram lugar primeiro na Itália no século XV e que, a partir dai, em diferentes medidas, se difundiram para o resto da Europa nos dois séculos seguintes. Conquanto a noção de Renascimento tenha derivado inicialmente da ideia de retomada da antiguidade clássica, ela também veio a designar mudanças mentais, políticas e econômicas típicas da época moderna - a exemplo da emergência de correntes associadas à observação empírica e à experimentação -, assim como o período histórico no qual essas inovações aconteceram (Ferguson, 2006; Hay, 1973; Abbagnano, 1973; Weisinger, 1973; Weiss, 1988). Em verdade, o emprego do termo para o propósito de periodização implica a ideia de mudança cultural. Em todos os seus significados, como observa Walter Pagel (1958, p.35-36), "o termo Renascimento é aplicável a um número tão grande de figuras históricas diversas que ele não indica nada mais que um vago, e, em última instância, cronológico, agrupamento de pessoas e ideias". Essa complexidade é amplificada pelo fato de as mudanças terem ocorrido em ritmos e direções distintos nos diferentes lugares. Na medicina, por exemplo, com exceção do ramo de anatomia em certos centros, os desenvolvimentos são geralmente difíceis de definir (Wear, French; Lonie, 1985).5 5 Para uma discussão de novas abordagens a fontes do Renascimento, da própria ideia de Renascimento e da relação entre as artes plásticas e outras áreas acadêmicas no período, ver Gent e Llewellyn (1990).

A importância do corpo no período tem raízes sobretudo filosóficas e se relaciona com o crescimento da visão antropocêntrica da superioridade do homem em relação aos demais animais e objetos da natureza. No saber, ela se traduziu no papel central do homem e do corpo nas redes de correspondência geradas pelo pensamento analógico. Foucault, cujos trabalhos enfatizaram a centralidade do corpo humano como lócus no qual o poder de instituições biomédicas, psiquiátricas, legais e educacionais é exercido, se refere ao homem, no século XVI, como "o grande fulcro das proporções - o centro onde as relações vêm se apoiar e donde são novamente refletidas." (Foucault, 1981, p.31; Barkan, 1975).

Um estudo como o aqui proposto, que trata de Portugal nos inícios da época moderna, implica determinações relativas à escolha das balizas temporais. Se quisermos enfocar o período mais prolífico de atividade intelectual, mas também detectar mudanças nesse fenômeno, é praticamente inescapável circunscrever a análise ao século XVI. Um florescimento cultural associado à prosperidade decorrente das viagens de descobrimento e colonização ocorreu principalmente na primeira metade desse século. Na segunda metade, há um rápido declínio da sociedade portuguesa como um todo, culminando no domínio espanhol sobre Portugal (1580-1640). Centros e atividades intelectuais tenderam a acompanhar os desenvolvimentos políticos, sociais e culturais mais amplos. Esse processo parece estar relacionado com o esgotamento de um conjunto de fatores que tiveram importância central na esfera do saber erudito, em especial o patrocínio do rei (Bellini, 1999, 2001). Uma primeira consequência significativa dessa mudança é que o universo intelectual português não acompanhou as transformações em direção à preeminência da observação empírica, experimentação e quantificação que ocorreram em outros lugares da Europa, mormente no século XVII.

Dentro dos limites temporais acima indicados, noções de anatomia dos textos médicos afiguram-se como particularmente adequadas para uma reflexão sobre representações do corpo. Talvez mais do que qualquer outro ramo da medicina, a anatomia está ligada à ideia da formação de imagens do corpo. No período, foram publicados diversos tratados ilustrados de anatomia, dos quais o De humani corporis fabrica de Vesalio (1543) é o exemplo mais conhecido e repetidamente estudado na perspectiva das suas dimensões simbólicas (Choulant, 1962; Herrlinger, 1970; Saunders; O'Malley, 1950). A aproximação entre a história e a história da arte, desde as últimas décadas do século passado, resultou no crescimento do interesse dos historiadores em representações visuais do corpo (Alpers, 1977; Rotberg; Rabb, 1989, introdução; Gent; Llewellyn, 1990). Entre os estudos feitos, vários têm como fontes tratados de anatomia (Hodges, 1985; Jordanova, 1985; Schiebinger, 1986; Harcourt, 1987; Wilson, 1987; Sawday, 1990; Laqueur, 1990). Ilustrações anatômicas corporificam a relação entre a arte e a anatomia e, desse modo, são especialmente apropriadas para uma interpretação da medicina em relação a mitos, símbolos e crenças. Conquanto tais fontes privilegiadas não se encontrem em textos médicos portugueses do século XVI, apesar de os estudiosos portugueses conhecerem ao menos parte das obras que contêm ilustrações publicadas em outros países da Europa, a presente proposta inspirou-se em sugestões desses estudos quanto às possibilidades de enfocar o corpo, as formas pelas quais ele é constituído discursivamente e os vínculos entre representações do corpo e a cultura. Propor que ilustrações anatômicas são fontes particularmente adequadas para uma abordagem da medicina do ponto de vista da representação não implica que seja impossível relacionar artefatos verbais dos tratados médicos com seu ambiente cultural.

De um modo geral, os textos médicos eruditos portugueses do século XVI são comentários sobre questões recorrentes nas obras de autoridades do período, voltados, sobretudo, para a elucidação de conceitos galênicos, aristotélicos e hipocráticos. Eles discutem anatomia junto com teoria fisiológica e terapêutica. O modo como esses escritos se estruturam, ao tratar de tópicos variados e relativos a diferentes domínios, é revelador das influências no mundo intelectual português da época. No entanto, é importante notar que, ainda que esta breve referência aos tratados possa sugerir que seus autores formavam um grupo indiferenciado internamente, uma análise mais circunstanciada dos seus trabalhos evidencia um espectro de interesses e afiliações.

Os autores não são todos portugueses, dado que médicos estrangeiros, como o francês Pierre Brissot (1478-1522) e o espanhol Afonso Rodrigues de Guevara (datas não conhecidas), tiveram papel destacado na medicina em Portugal. Por outro lado, deixam de ser incluídos no conjunto de fontes os trabalhos de influentes médicos portugueses que estudaram e atuaram no exterior, mas não tiveram relevância significativa no saber médico no contexto aqui enfocado. Um exemplo é Amato Lusitano (1511-1568), que foi professor de anatomia na Universidade de Ferrara e trabalhou em outras cidades italianas e em Antuérpia (Jorge, 1914-1916, 1924). Mesmo que, no que concerne ao universo acadêmico, as fronteiras nacionais ainda estivessem pouco definidas na época, é importante utilizar como fontes trabalhos escritos, impressos ou, ao menos, parcialmente elaborados em Portugal, num estudo que procura examinar os vínculos do contexto médico com a cultura mais abrangente.

Embora a maior parte dos textos médicos possa ser caracterizada como erudita, incluem-se também, entre as fontes, textos que provavelmente circulavam em outros meios, a exemplo da seção sobre medicina astrológica de um almanaque de grande circulação - o Reportorio dos tempos, de Valentim Fernandes, publicado pelo menos nove vezes de 1518 a 1573 - e o capítulo sobre anatomia de um tratado de cirurgia - Recopilação de cirurgia, de Antonio da Cruz, publicado pela primeira vez em 1601. O primeiro inclui as únicas representações visuais do corpo humano, publicadas no século XVI com o propósito de expor concepções médicas, encontradas nesta pesquisa. O segundo é a única discussão de noções de anatomia separadas de teoria fisiológica e terapêutica. Evidentemente, há diferenças marcantes entre essas obras, em especial o Reportorio dos tempos, e os demais escritos médicos. Entre outros aspectos, elas são escritas em português, ao invés de latim, e tratam centralmente de questões mais técnicas, relativas à medicina como um ofício, em vez de questões acadêmicas. Apesar disso, em certa medida, elas partilham com os tratados eruditos certos conceitos básicos, porém numa forma mais simplificada.

Fontes produzidas em outras áreas do saber que não a medicina adéquam-se a um estudo como o aqui proposto, por evidenciarem pressupostos comuns sobre o corpo e, muitas vezes, estarem bastante próximas a esta no que tange a princípios relativos à biologia humana. Esse é o caso de textos literários como o poema intitulado "Microcosmographia, e descripção do mundo pequeno, que é o homem", de André Falcão de Resende (escrito entre 1570 e 1599), e dos trabalhos Ropicapnefma (1532) e Dialogo sobre preceptos moraes (1540), de João de Barros. A "Microcosmographia", como sugere o título, consiste numa descrição genérica da anatomia humana, apresentada metaforicamente como uma viagem pelo interior do corpo.6 6 Para análises do poema, ver Pina (1942, 1946). As obras de João de Barros podem ser caracterizadas como diálogos alegóricos sobre filosofia moral, com forte influência de ideias humanistas. Esses textos sugerem uma variedade de questões relativas às percepções do corpo no período. Junto com a literatura médica, que também trata de temas de outras áreas acadêmicas, eles ilustram o processo de imbricação entre domínios característico da época, visto que contêm noções teóricas sobre o corpo advindas da medicina.

As características do conjunto de fontes brevemente referido neste artigo implicam que, de um modo geral, o saber acadêmico em Portugal no século XVI pode ser considerado como parte, ainda que com qualidades distintivas próprias, de um contexto intelectual mais amplo, que incluía todos os países europeus que recebiam e produziam livros impressos e manuscritos sobre os mais importantes campos do saber, na época - filosofia, teologia, direito, medicina e literatura. Maclean (1987, p.2) o definiu como situado "após o estabelecimento da imprensa como um meio de disseminação de textos e antes da consolidação de tradições intelectuais vernáculas e nacionais". Como se sabe, nesse contexto, uma herança cultural do ocidente medieval, cujo escopo e autoridade haviam sido grandemente ampliados e em certa medida transformados pela redescoberta de autores gregos e romanos, coexistia com um crescente leque de novos conhecimentos, resultantes de abordagens associadas à observação e à experimentação. Mudanças de maior alcance nesse quadro, decorrentes da preeminência dessa última tendência, ocorreram principalmente no século XVII.

Muito já foi escrito sobre em que medida as chamadas tradições mágica e científica interagiram entre si no Renascimento. As diferentes opiniões sobre esse tema variam desde a ideia de que o conhecimento oculto teve um papel positivo no desenvolvimento das novas ciências até a proposição de que as duas tradições meramente coexistiram e se desenvolveram independentemente uma da outra (Vickers, 1984, especialmente a introdução). A questão do desenvolvimento do método científico no Renascimento é de difícil apreensão, particularmente no que diz respeito à medicina (Randall, 1940; Kellett, 1961; Whigtman, 1964).

Seria um equívoco esperar trajetórias homólogas ao quadro de continuidade e mudança sucintamente apresentado acima, em todas as disciplinas acadêmicas em Portugal, no século XVI. Os diferentes matizes da relação delas com processos históricos específicos requerem um breve comentário aqui. Como um todo, a sociedade portuguesa foi fortemente marcada por seu envolvimento com as viagens marítimas, sem dúvida o fenômeno cultural mais importante no mundo luso, nos começos da época moderna. Em vista disso, não é possível desconsiderá-las na investigação de qualquer aspecto do contexto português do período. Grande parte dos processos, nesse contexto, dependia de diversos modos da empresa marítima e sofreu seu impacto. No que diz respeito ao universo acadêmico, pode-se afirmar que as viagens de descobrimento fomentaram duas tendências distintas. De um lado, elas geraram novos interesses intelectuais vinculados à observação e à quantificação nos ramos de engenharia naval, astronomia e estudo das plantas e drogas medicinais do Oriente. De outro, a prosperidade decorrente da expansão colonial criou condições favoráveis à recepção e circulação do saber renascentista, em especial do humanismo, entre os pensadores portugueses. Observa-se uma gama variada de atitudes no domínio do saber, desde a predominância de visões mais modernas, associadas à observação empírica, em atividades diretamente relacionadas às viagens marítimas, até abordagens mais dogmáticas de textos antigos, principalmente influenciadas pelo humanismo, mas também, em parte, pela tradição escolástica (Hooykaas, 1979). Na medicina, afora o ramo de estudos botânico-farmacológicos, o desenvolvimento da observação empírica deu-se apenas marginalmente. Isso é particularmente verdadeiro com relação à anatomia. Pode-se afirmar que, devido à recepção de ideias de outros países, a exemplo da Itália, da Espanha e da França, os autores médicos em Portugal conheciam, em certa medida, as novas abordagens. Entretanto, eles estavam muito mais próximos da tradição de comentário textual dominante no universo intelectual europeu da época.

Esse fato remete a uma primeira vertente de investigação a ser seguida num estudo de representações do corpo, a saber, a da sua relação com concepções originárias da antiguidade clássica e helenística, e do mundo islâmico. Como nota Wear (1985, p.127), "dada a natureza derivativa da medicina medieval e renascentista, o estudo de uma parte qualquer delas envolve inevitavelmente a reflexão sobre sua proveniência". As novas edições, os comentários e os índices de Platão, Aristóteles, Hipócrates e Galeno, produzidos pelos humanistas nos finais do século XV e no século XVI, permitiram aos pensadores do Renascimento recolher ideias dos textos originais e de traduções de boa qualidade, assim como de um grande número de comentários. Os médicos formados na universidade tinham também interesse em tópicos de natureza filosófica e literária, além de temas da medicina. A par disso, conforme sugerido anteriormente, não se deve esperar, na leitura dos seus trabalhos, afiliações bem definidas a abordagens específicas. Eles tendem a citar, de forma bastante livre, noções oriundas de várias fontes, muitas vezes procurando conciliar ideias discordantes. Por essas razões, nos seus textos e nas representações do corpo ai veiculadas, encontram-se influências de todas as principais correntes filosóficas e médicas do universo acadêmico europeu, inclusive combinações particulares criadas por tendências intelectuais do período, como o Neoplatonismo renascentista, e, apesar de não tão frequentemente quanto as outras, influências dos neoterici, os médicos afiliados às novas abordagens.

A identificação dessas influências e de sua um tanto eclética interpenetração é reveladora da atmosfera intelectual em Portugal no Renascimento, e de suas implicações quanto a modos de conceber o corpo. Outro aspecto distintivo do contexto português, quando o comparamos a outros centros, é a já citada ausência de ilustrações anatômicas e de referências à observação direta nas discussões sobre a anatomia humana. Por fim, pode-se ainda mencionar o influxo de fatores externos ao debate acadêmico nas transformações ocorridas no seu interior.

É relevante, aqui, explorar com um pouco mais detalhe alguns aspectos da proposta de abordagem deste trabalho e exemplos de sua aplicação.

A relação entre imagens verbais de textos médicos e seu ambiente cultural é tema do ensaio clássico de Owsei Temkin, intitulado "Metaphors of human biology" (1949). Temkin discute as mais conhecidas metáforas usadas para conceber e descrever o organismo humano desde a antiguidade, associando-as com os modos de pensar e o repertório de imagens do seu contexto. O trabalho evidencia como concepções da biologia humana, no universo das ciências naturais, são configuradas e expressas de acordo com as visões de mundo, as estruturas de pensamento e os sentimentos do seu tempo.

Michael Baxandall (1986) chama esse fundo comum de padrões, categorias e formas de pensar, usado por indivíduos e grupos para expressar ideias num determinado domínio cultural, de "equipamento mental". Ele investiga como estilos de pintura na Itália da Renascença se relacionam com práticas sociais como exercícios de meditação e pregação religiosa, o aprendizado da matemática direcionado para atividades mercantis e a dança. A visão é concebida como dependente de instrumentos mentais impregnados de categorias culturais. Para compreender estilos de pintura, Baxandall procura investigar o "olhar do período" ao qual essa forma de arte se dirigia, através da análise das mais importantes atividades sociais na Itália do Quattrocento, em especial atividades do grupo que patrocinava e centralmente consumia a pintura. Essa abordagem é adequada para um estudo de outros modos de representação além da pintura - imagens verbais, por exemplo. Nesse sentido, representações verbais do corpo podem ser consideradas como derivadas - e também constituintes - de um repertório de imagens e padrões de pensamento de um dado contexto cultural. Explorar imagens do corpo a partir dessa perspectiva implica abordá-las em relação a "fatores semânticos", apontados por L. Jonathan Cohen (1966, p.74-75) e outros autores como aspectos que afetam o uso de palavras e noções: "convenção e motivação [...] significado emotivo, sinonímia, polissemia [...] e, transcendendo as fronteiras da linguagem [...] a 'atmosfera' geral, aspirações culturais e quadro moral peculiar da época". Uma forma de pôr isso em prática é comparar os textos médicos entre si e com outros tipos de fontes do período, inclusive a literatura.7 7 Jordanova (1990) discute as implicações do enfoque de Baxandall para a história social da medicina, com ênfase na cultura visual.

Como as metáforas discutidas por Temkin, representações verbais do corpo em Portugal no século XVI são predominantemente construídas por meio de analogia, mecanismo pelo qual um objeto é explicado através da comparação com outro, ou assimilação a ele, em geral um objeto mais familiar ou melhor conhecido. Ao tratar dos riscos envolvidos nesse procedimento heurístico, Agnes Arber (1947, p.231) nota que as analogias formuladas pela mente humana têm uma tendência quase universal de apresentar relações abstratas, cuja compreensão nessa forma exigiria maior esforço mental, em termos de relações perceptíveis pelos sentidos, sendo a cognição realizada por meio da construção ou visualização de imagens. Isso implica certa familiaridade dos autores com os artefatos imagéticos por eles utilizados como padrão de comparação no argumento analógico. Nesse sentido, pode-se dizer que tais artefatos possuem dois tipos de significado. Eles tanto indicam como eram percebidos fenômenos comuns, que serviram como elemento de comparação no argumento, quanto expressam os modos de compreensão dos objetos e problemas explicados por meio da analogia. Crenças e conceitos estabelecidos também podiam servir como o termo mais familiar, ao qual os objetos eram assimilados no pensamento analógico. Um exemplo disso, no que diz respeito a noções da biologia humana na época, é a analogia entre as funções e a posição do cérebro e do fígado, por um lado, e o alto domínio do intelecto e a baixa esfera do mundo corruptível, respectivamente, por outro. O recurso a essa variante do tema do homem microcosmo para compreender aspectos do corpo sugere que, num contexto em que a observação empírica tinha um papel muito secundário, esses órgãos e suas funções eram mais facilmente explicados através da mediação de ideias filosóficas estabelecidas que por meio de um enfoque centrado na anatomia ou fisiologia.

Um caso particular relacionado com a discussão acima diz respeito ao uso de analogias manifestamente retiradas de outros textos, em especial tratados médicos e filosóficos antigos. Isso ilustra muito claramente a questão da complexa e mutável bagagem histórica e filosófica de ideias e artefatos linguísticos. Na análise desse tipo de imagem, é preciso considerar seu significado tanto para o autor antigo, que originalmente a formulou, quanto para o autor moderno, em cujo trabalho ela se encontra. Como observa Wear (1985, p.127-128), "uma ideia não se esvazia de sentido na Idade Média ou na Renascença meramente por ser derivada de outras fontes". Elementos de continuidade e mudança em relação às fontes originais e intermediárias devem ser considerados, além do lugar relativo ocupado por tais ideias em contextos argumentativos. Entretanto, é também necessário ter em mente que os textos portugueses do período têm fortes ligações com uma tradição de exegese e comentário que tende a sacralizar a linguagem e, desse modo, trata os textos como objetos a serem preservados, repetidos e interpretados. Por essa perspectiva, certas imagens que ocorrem nos textos do século XVI são menos significativas como imagens - isto é, artefatos retirados de um repertório social e cultural para elucidar a compreensão e a descrição de objetos - do que como evidência de uma tendência geral no universo do saber.

Geoffrey Lloyd (1966) discute os modos como a analogia foi usada por filósofos e autores médicos gregos na antiguidade para elucidar problemas de difícil compreensão, comparando-os com objetos ou fenômenos mais familiares, que podiam ser observados diretamente (sobre o uso de analogia na ciência, ver também Hesse, 1966). Antes de continuar explorando esse tema, é importante notar que os dois modos de argumentação analisados por Lloyd - oposição e analogia -, assim como outros tipos de argumento, encontram-se em textos portugueses do período. No que diz respeito ao primeiro, certas bipolaridades - a exemplo dos pares de qualidades, como quente e frio, úmido e seco, e direito e esquerdo - têm papel fundamental nos tipos de argumentação e explicação existentes nos tratados. Apesar disso, o foco desta pesquisa é o pensamento analógico, precisamente por sua tendência a recorrer a imagens, em especial imagens derivadas de aspectos da sociedade e da experiência humana em geral, na tentativa de explicar objetos difíceis de apreender e de descrever.

Entre as várias funções da analogia examinadas por Lloyd, está seu uso como método de descoberta e explicação no desenvolvimento da ciência na Grécia antiga. Em que pese não ser frutífero fazer-se uma reflexão sobre o pensamento analógico como mecanismo de descoberta em anatomia em Portugal, visto não haver evidências desse processo, é relevante explorar a questão do uso da analogia como modo de exposição. Lloyd propõe uma associação entre o desenvolvimento do método científico no pensamento grego e um uso crescentemente mais criterioso do argumento analógico. Ele sugere que o refinamento de certas relações lógicas - em particular as de similaridade e identidade, e os diferentes tipos de oposição - ocorreu simultaneamente com o crescimento de uma "demanda de demonstrabilidade" na Grécia, dos primeiros tempos até Aristóteles (Lloyd, 1966, especialmente Parte 3). Essa proposição é útil para uma análise do desenvolvimento de abordagens empírico-observacionais no saber renascentista. Uma conexão similar à proposta por Lloyd é postulada por Foucault (1981, p.80ss) com respeito à trajetória do pensamento ocidental nos inícios da época moderna. Foucault observa a emergência, no século XVII, de uma atitude crítica em relação à linguagem, que passou a ser tida como representação de coisas e fenômenos, ao invés de ser um signo natural deles. Um aspecto fundamental do desenvolvimento do pensamento científico é o reconhecimento de que o signo linguístico é arbitrário, não essencialmente envolvido com aquilo que ele marca, mas dependente de convenções da linguagem. Essa forma de ver é considerada como tendo substituído a tradição de comentário e a preeminência da semelhança ou da afinidade, o modo de pensar mais difundido no século XVI, fundado no pressuposto da existência de uma unidade substancial entre as palavras e as coisas.8 8 Vickers (1984, p.95-163) considera a relação entre linguagem e realidade como um elemento central na diferenciação entre processos cognitivos mágicos e científicos.

Com base nessas ideias, é possível procurar estabelecer uma vinculação entre os diferentes usos do argumento analógico pelos autores em Portugal e as gradações relativas ao desenvolvimento de uma atenção maior quanto à observação empírica na medicina. Num extremo, encontra-se Antonio Luiz (†1565), cujas obras são as mais ricas em imagens e pensamento analógico, e que pode ser considerado o mais distante da observação empírica e da prática médica, entre os doutores estudados. Noutro extremo, está Afonso Rodrigues de Guevara, que faz uso da analogia de forma mais limitada e diferente, em natureza, que Luiz. Esse último, possivelmente sob influência da ênfase humanista em retórica, parece considerar as qualidades literárias de artefatos linguísticos como mais importantes que o seu potencial heurístico e ilustrativo, de um ponto de vista mais científico. Ao invés de ter como objetivo central explicar objetos e fenômenos, suas imagens parecem ser, em grande medida, ornamentos de estilo. Não parece ser o caso de Guevara, que recorre à analogia principalmente para elucidar funções ou descrever a forma de partes do corpo por meio de comparação com objetos similares, tendendo a abandonar a comparação tão logo cessem as similaridades. Seu uso do procedimento analógico pode ser exemplificado pela afirmação, fundada em Galeno, de que as fibras externas dos músculos intercostais se cruzam como a letra grega X; ou a comparação, também com base em Galeno, entre processos digestivos no estômago e no fígado e a fermentação do vinho (Guevara, 1559, respectivamente p.88, 93, 254). Nesses e noutros exemplos, Guevara não segue propondo correspondências entre os objetos comparados. Parece menos preocupado com os atributos poéticos de artefatos linguísticos do que com suas qualidades explanatórias. Tudo indica que Guevara era o mais independente, em relação aos textos das autoridades, entre os autores médicos em Portugal, no século XVI.

Muitas vezes, a análise de imagens indica afiliações diversas das explicitamente declaradas pelos autores, que, em geral, se diziam partidários dos princípios de revisão textual e conceitual preconizados pelo humanismo renascentista, ou da corrente de observação empírica emergente no século XVI, as duas correntes consideradas mais avançadas no Renascimento. Predominava, no meio intelectual, uma visão negativa do pensamento escolástico e do saber medieval de uma forma geral. Mas, quando se focalizam as imagens por eles utilizadas para se referirem a aspectos da anatomia humana, observa-se a influência do pensamento da Idade Média, seja quanto a certas noções, seja na tendência à síntese escolástica, procurando abarcar de forma acrítica tudo o que já havia sido dito sobre determinado assunto, incluindo ideias conflitantes.

Imagens políticas do coração e do cérebro constituem um exemplo do processo acima. Elas aparecem principalmente em relação à disputa entre as opiniões de Galeno e Aristóteles no que concerne às funções e à importância desses órgãos no corpo, uma das controvérsias centrais na medicina desde meados do século XIII. Era comum considerar-se que, junto com outras diferenças quanto a aspectos da fisiologia humana, tal disputa distinguia os "médicos" dos "filósofos" (Siraisi, 1990, p.80-81, 107). Os doutores portugueses eram, em geral, partidários da concepção galênica, contra Aristóteles, de que o cérebro era o centro dos sentidos e do movimento e, num certo sentido, o órgão mais importante no corpo. Associado a isso, endossavam a ideia platônica e galênica de que o cérebro, o coração e o fígado eram, respectivamente, sedes das potências racional, "espiritiva" e apetitiva da alma, assim como das faculdades psíquica, vital e natural. No entanto, quando se examinam representações do coração e do cérebro nos seus escritos, há certa inconsistência entre elas e o quadro brevemente apresentado acima. O coração é mais frequentemente caracterizado utilizando-se imagens que sugerem posições de governo que o cérebro. Também, aquele é discutido mais extensivamente que este.

Além disto, observam-se tentativas de reconciliar as visões de Galeno e Aristóteles a propósito do domínio sobre o movimento e os sentidos. Essa solução, que era comum na medicina nos finais da Idade Média, consistia na introdução de "uma hierarquia conceitual na qual o coração governava o cérebro num sentido último ou num sentido filosófico e o cérebro governava o sistema nervoso diretamente." (Siraisi, 1990, p.81-82). Por exemplo, Antonio Luiz, no tratado De re medica opera (1540, fol.67v.), refere-se ao cérebro como um filho que, já tendo recebido a herança do pai (a quem o coração é comparado), não mais depende das decisões paternas no que diz respeito ao que foi herdado; ou um chefe militar que, tendo assumido o comando de um exército de acordo com determinações do seu rei (que corresponde ao coração na analogia), não mais necessita das suas ordens. Luiz conclui que o cérebro ocupa o lugar mais importante no corpo, mas essa importância é regida pelo coração, como no caso de alguém que substitui o governante, e então governa de acordo com o que foi determinado por seu predecessor.

O coração é representado como um rei diversas vezes, nos textos médicos portugueses. Noutra passagem de De re medica opera (1540, fol.59v.), opondo-se à visão de Aristóteles de que o coração é o último órgão a morrer, Luiz compara o coração a um rei no comando de um exército. A sobrevivência ou derrota do rei numa batalha é tão importante para o exército como o coração é importante com respeito à vida ou à morte do corpo. Se o coração-rei sobreviver, o corpo se manterá vivo; se morrer, o resto do corpo morrerá.

Antonio da Cruz também faz analogia do coração com um rei para ilustrar o domínio e a localização do órgão no corpo. Na Recopilaçam de cirurgia (1688, p.32), Cruz afirma que "O coração he a principal parte das de dentro do peito, o qual é principio da vida, & assim como Rey, está no meio do peito [...]". No poema "Microcosmographia, e Descripção do Mundo Pequeno, que é o Homem", de André Falcão de Resende, o coração é referido como uma figura de grande autoridade e dignidade, governando a todos no "edifício" ao qual o corpo humano é comparado. O coração é o primeiro órgão que o protagonista do poema escolhe encontrar na sua viagem pelo interior do corpo humano. Funções de governo do cérebro também são referidas, mas remetendo à imagem do filósofo, expressando concepção platônica cara aos humanistas.

Outra evidência da centralidade do coração, numa fonte diversa dos tratados médicos, é o desenho de Francisco de Holanda, intitulado "A criação de Adão do pó da terra". Nele, o criador é representado dando vida ao primeiro homem, na forma de raios partindo da sua boca e mãos e dirigindo-se a partes do corpo de Adão. Um feixe de raios liga a boca de Deus ao coração de Adão, um enorme coração, o único órgão interno mostrado no seu corpo (reproduzido em Deswarte, 1987, fig.18). A imagem possivelmente representa a noção neoplatônica do amor como o motivo pelo qual Deus difunde sua essência no mundo e que, inversamente, faz com que suas criaturas procurem reunir-se a ele (Panofsky, 1972, p.141). Entretanto, observando-se a forma como Adão é representado recebendo a vida, é difícil não relacioná-la com as ideias aqui exploradas.

O rei representa o princípio de governo, um significado evidentemente expresso nas imagens examinadas acima. Dessa forma, as representações do coração como um rei podem ter sido um meio pelo qual afiliações ao escolasticismo aristotélico foram expressas num contexto em que os autores almejavam ser reconhecidos como seguidores de conceitos genuinamente galênicos. Como nota Maclean (1987, p.90), "estratégias linguísticas podem servir para resolver contradições e deslocamentos no pensamento; podem também atuar nele como forças conservadoras". É significativo que tais representações ocorram principalmente nos textos dos autores mais expostos às ideias de Aristóteles. De re medica opera, de Antonio Luiz, foi escrita nas primeiras décadas do século XVI. Luiz ensinou as doutrinas de Aristóteles na Universidade de Coimbra (1547-1548).9 9 É relevante notar que Luiz também ensinou Galeno (1547-1550) numa das chamadas cadeiras menores de medicina, em Coimbra (Rocha Brito, 1937, p.5-15; Silva Dias, 1988, p.43-44). A Recopilaçam de cirurgia funda-se extensivamente em conhecimento médico medieval (Bellini, 2001, III).

Como foi dito anteriormente, os exemplos apresentados são apenas ilustrações das potencialidades das vertentes de análise discutidas neste artigo. Para finalizar estas notas, é próprio retornar à proposta geral apresentada no início, concluindo que o estudo de representações do corpo permite compreender quais eram os principais pressupostos a seu respeito, que doutrinas informavam tais pressupostos e como eles se associam a circunstâncias culturais. A investigação possibilita construir um quadro matizado das afiliações ao Humanismo renascentista, ao Neoplatonismo, à escolástica aristotélica e mesmo à tendência empírica que começa a desenvolver-se no período. A relação dos pensadores portugueses com sistemas médicos e filosóficos é mais complexa que a sua caracterização simplesmente como adeptos do Galenismo poderia levar a crer. Além disso, as ideias sobre o corpo por eles formuladas podem ser adequadamente designadas como culturais, dado que expressam atitudes intelectuais, categorias e crenças do seu contexto, e seu escopo se estende além do domínio da medicina.

Recebido para publicação em novembro de 2010

Aceito em fevereiro de 2011

Lígia Bellini - Doutora em História. Professora do Departamento de História e Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia. Autora de A coisa obscura: mulher, sodomia e Inquisição no Brasil colonial (São Paulo: Brasiliense, 1989) e diversos artigos sobre história da cultura do mundo luso-brasileiro no período moderno; Co-organizou Formas de Crer. Ensaios de história religiosa do mundo luso-afro-brasileiro, séculos XIV-XXI (Salvador: EDUFBA/Corrupio, 2006) e Tecendo histórias: espaço, política e identidade (Salvador: EDUFBA, 2009).

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  • 1
    O presente artigo foi escrito com base em pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq.
  • 2
    Em que pese o fato de essas questões terem sido extensivamente tratadas nas últimas três décadas, as discussões feitas por MacDonald (1983, citação traduzida, p. 62) e Jordanova (1983), as quais tratam de diferentes abordagens aos vínculos entre ciência e medicina, por um lado, e seu contexto cultural e social, por outro, continuam relevantes e elucidativas. Ver também Jordanova (1989, especialmente a introdução) e Webster (1976), trabalhos que evidenciam as potencialidades do estudo histórico da ciência e da medicina em relação com o universo social e cultural em que emergiram.
  • 3
    O termo "disciplinas" é utilizado aqui mais de acordo com as categorias que fundamentavam a divisão entre campos de conhecimento da época, e não para sugerir os muito melhor definidos limites entre ramos do saber que emergem com a consolidação da modernidade.
  • 4
    Maclean (1987) apresenta um quadro bem documentado da transmissão de visões sobre a mulher entre a medicina, a teologia, a filosofia e o direito, durante o Renascimento.
  • 5
    Para uma discussão de novas abordagens a fontes do Renascimento, da própria ideia de Renascimento e da relação entre as artes plásticas e outras áreas acadêmicas no período, ver Gent e Llewellyn (1990).
  • 6
    Para análises do poema, ver Pina (1942, 1946).
  • 7
    Jordanova (1990) discute as implicações do enfoque de Baxandall para a história social da medicina, com ênfase na cultura visual.
  • 8
    Vickers (1984, p.95-163) considera a relação entre linguagem e realidade como um elemento central na diferenciação entre processos cognitivos mágicos e científicos.
  • 9
    É relevante notar que Luiz também ensinou Galeno (1547-1550) numa das chamadas cadeiras menores de medicina, em Coimbra (Rocha Brito, 1937, p.5-15; Silva Dias, 1988, p.43-44).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Out 2011
  • Data do Fascículo
    Abr 2011

Histórico

  • Recebido
    Nov 2010
  • Aceito
    Fev 2011
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