ESTRUTURA DO COMPONENTE ARBUSTIVO-ARBÓREO DE UM REMANESCENTE DE CAATINGA NO ESTADO DO CEARÁ, BRASIL.

STRUCTURE OF A SHRUB-TREE IN A FRAGMENT OF CAATINGA IN CEARÁ STATE, BRAZIL

Braulio Gomes de Lima Maria de Fatima Barbosa Coelho Sobre os autores

RESUMO

O Nordeste do Brasil tem a maior parte de seu território ocupado pela caatinga que se caracteriza por ser uma vegetação xerófita considerada por especialistas o bioma brasileiro mais sensível à interferência humana e às mudanças climáticas globais. Este trabalho teve como objetivo realizar a caracterização da composição florística e estrutura em um remanescente de caatinga localizado na Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) da Fazenda Trussú em Iguatú, Ceará. Foram estabelecidas 45 parcelas de 10x20 m e amostrados todos os indivíduos vivos e mortos com diâmetro do caule ao nível do solo > 3 cm e altura total > 1 m. A densidade estimada foi de 5.602 indivíduos ha-1 distribuídos em 52 espécies, 41 gêneros e 23 famílias. A área estudada apresenta diversidade do componente lenhoso semelhante ao encontrado em outras áreas da caatinga, com índice de diversidade Shannon de 2,19 nats/ind e a equitabilidade 0,50. As espécies Croton sonderianus, Combretum leprosum, Mimosa caesalpiniifolia e Mimosa tenuiflora apresentaram maior índice de valor de importância. A área de estudo esta bem preservada e em processo de recuperação.

Palavras chave:
Floresta estacional decidual tropical; Estrutura populacional; Fitossociologia; Unidade de conservação

ABSTRACT

The Northeast of Brazil is the largest part of its territory occupied by scrub which is characterized by being a xerophytic vegetation considered by experts the biome most sensitive to human interference and global climate change. This study aimed to characterize the floristic composition and structure in a remnant of savanna located in Reserva de Particular de Patrimonio Natural (RPPN) in the Farm Trussú in Iguatu Ceará. 45 plots were established and sampled 10x20 cm all living and dead individuals with a stem diameter at the ground level > 3 cm and total height of > 1 m. The estimated density was 5,602 individuals ha-1 representing 52 species, 41 genera and 23 families. The studied area featuring a variety of woody component similar to that found in other areas of savanna, with Shannon diversity index of 2.19 nats/ind and equitability 0.50. The speciesCroton sonderianus, Combretum leprosum, Mimosa caesalpiniifolia and Mimosa tenuiflora had greater importance value index. The study area is well preserved and recovery process.

Keywords:
Tropical deciduous forest; Population structure; Phytosociology; Conservation unit

INTRODUÇÃO

A Caatinga apresenta uma das vegetações menos conhecida do Brasil, embora tenha sido reconhecida como uma das 37 grandes regiões naturais do planeta, conforme estudo coordenado pela "Conservation Internacional" (TABARELLI; SILVA, 2003TABARELLI, M.; SILVA, J.M.C. Áreas e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade da caatinga. In: LEAL, I.R.; TABARELLI, M.; SILVA, J.M.C. (Eds.). Ecologia e conservação da caatinga. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2003. p. 777-796.). Este desconhecimento segundo Giulietti et al., (2004GIULIETTI, A.M.; NETA, A.L.B.; CASTRO, A.A.J.F.; GAMARRA-ROJAS, C.F.L.; SAMPAIO, E.V.S.B; VIRGÍNIO, J.F.; QUEIROZ, L.P.; FIGUEIREDO, M.A.; RODAL, M.J.N.; BARBOSA, M.R.V.; HARLEY, R.M. Diagnóstico da vegetação nativa do bioma Caatinga. In: SILVA, J.M.C; TABARELLI, M.; FONSECA, M.T. (Orgs.). Biodiversidade da Caatinga: áreas e ações prioritárias para a conservação. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, p. 48-78, 2004.) é consequência de uma crença de que a caatinga possui diversidade muito baixa, sem espécies endêmicas e fortemente modificada pelas ações antrópicas. Aproximadamente 45% da vegetação original da caatinga já havia sido desmatada em 2009 (MMA, 2011)MMA. Ministério do Meio Ambiente. Monitoramento do Desmatamento nos Biomas Brasileiros por Satélite. Acordo de Cooperação Técnica MMA/IBAMA: Monitoramento do Bioma Caatinga 2008 a 2009, Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente. 2011, 46 p. Disponível em: <Disponível em: http://www.mma.gov.br/estruturas/sbf_chm_rbbio/_arquivos/relatorio_tecnico_caatinga_2008_2009_72.pdf > Acesso em: 15 set. 2015.
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e apenas 8,4% de seu território é protegido em unidades de conservação federais e estaduais, sendo apenas 1,4% dede proteção integral (HAUFF, 2010HAUFF, S.N. Representatividade dos ecossistemas da Caatinga nas Áreas Prioritárias e Unidades de Conservação. Relatório ao PNUD - PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO PROJETO BRA/00/021: Sustentabilidade e Repartição dos Benefícios da Biodiversidade. 2010. Disponível em: <Disponível em: http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&ved=0CCUQFjABahUKEwj4pZy-7JLIAhXDhJAKHQ3tC6k&url=http%3A%2F%2Fwww.mma.gov.br%2Fpublicacoes%2Fbiomas%2Fcategory%2F61-caatinga%3Fdownload%3D469%3Arepresentatividade-do-sistema-nacional-de-unidades-de-conservacao-na-caatinga&usg=AFQjCNELiDwdly1p5toG6udj-4UPpVciCg&sig2=T76uCfsliYt2HRqbGvMCUw > Acesso em: 15 Set. 2015.
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).

Nos últimos anos, o conhecimento da vegetação da caatinga tem sido ampliado em diversos trabalhos fitossociológicos e florísticos (BESSA et al., 2011BESSA, M.A.P.; MEDEIROS, J.F. Levantamento florístico e fitossociológico em fragmentos de caatinga no município de Taboleiro Grande-RN. Geotemas, Pau dos Ferros, v 1, n. 2, p. 69-83, 2011.; ARAÚJO et al., 2012ARAÚJO, B.A.; DANTAS NETO, J.; ALVES, A.S; ARAÚJO, P.A.A. Estrutura fitossociológica em uma área de caatinga no seridó paraibano. Revista Educação Agrícola Superior, Brasília, v. 27, n. 1, p. 25-29, 2012.; BARBOSA et al., 2012BARBOSA, M.D.; MARANGON, C.M.; FELICIANO, A.L.P.; FREIRE, F.J.; DUARTE, E.M.T. Florística e fitossociologia de espécies arbóreas e arbustivas em uma área de caatinga em Arcoverde, PE, Brasil. Revista Árvore, Viçosa, v.36, n.5, p.851-858, 2012.; GUEDES et al., 2012GUEDES, R.S.; ZANELLA, F.C.V.; COSTA JUNIOR, J.E.V.; SANTANA, G.M.; SILVA, J.A. Caracterização florístico-fitossociológica do componente lenhoso de um trecho de caatinga no semiárido paraibano. Revista Caatinga, Mossoró, v. 25, n. 2, p. 99-108, 2012.; CALIXTO Jr.; DRUMOND, 2014CALIXTO JÚNIOR, J.T.; DRUMOND, M.A. Estudo comparativo da estrutura fitossociológica de dois fragmentos de Caatinga em níveis diferentes de conservação. Pesquisa Florestal Brasileira, Colombo, v. 34, n. 80, p.345-355, 2014.). Nesses estudos verifica-se que a flora da depressão sertaneja (caatinga sensu stricto) é distinta da vegetação que ocorre nos maciços/serras espalhados pela depressão, onde há registro de formações florestais com diferentes níveis de caducifolia.

A contribuição científica dos trabalhos de Figueiredo (1983FIGUEIREDO, M.A. A região dos Inhamuns-CE no domínio das caatingas. Mossoró: Escola Superior de Agricultura de Mossoró, 1983. 34 p. ), realizados em áreas de carrasco e caatinga, de Araújo et al. (1998aARAÚJO, F.S.; SAMPAIO, E.V.S.B.; RODAL, M.J.N; FIGUEIREDO, M.A. Organização comunitária do componente lenhoso de três áreas de carrasco Novo Oriente-Ce., Revista Brasileira de Biologia São Carlos, v. 58, n. 1, p. 85-95, 1998a., 1998bARAÚJO, F.S.; SAMPAIO, E.V.S.B.; FIGUEIREDO, M.A.; RODAL, M.J.N.; FERNANDES, A.G. Composição florística da vegetação de carrasco, Novo Oriente, CE. Revista Brasileira de Botânica, São Paulo, v. 21, n. 2, p. 105-116, 1998b.), Araújo e Martins (1999)ARAÚJO, F.S.; MARTINS, F.R. Fisionomia e organização da vegetação do carrasco no planalto da Ibiapaba, Estado do Ceará. Acta Botânica Brasílica, Belo Horizonte, v. 13, n. 1, p. 1-13, 1999. e Araújo et al. (1999)ARAÚJO, F.S.; COSTA, R.C.; FIGUEIREDO, M.A.; NUNES, E.P. Vegetação e flora fanerogâmica da área Reserva de Serra das Almas, Ceará. In: ARAÚJO, F.S.; RODAL, M. J.N.; ARAÚJO, F.S.; MARTINS, F.R.; SHEPHERD, G.J. Variações estruturais e florísticas do carrasco no planalto da Ibiapaba, estado do Ceará. Revista Brasileira de Biologia, São Carlos, v. 59, n. 4, p. 663-678, 1999., em vegetação de carrasco, Lima et al. (2007LIMA, J.R; SAMPAIO, E.V.S.B.; RODAL, M.J.N.; ARAÚJO, F.S. Estrutura da floresta estacional decidual montana (mata seca) da RPPN Serra das Almas, Ceará., Revista Brasileira de Biociências Porto Alegre, v.5, supl.2, p.438-440, 2007.), em florestas montanas interioranas localizadas na unidade geossistêmica sedimentar e deLemos e Meguro (2010LEMOS, J.R.; MEGURO, M. Florística e fitogeografia da vegetação decidual da Estação Ecológica de Aiuaba, Ceará, Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 34-43, 2010. ), em uma área de caatinga da Estação Ecológia de Aiuaba, todos focando a florística e/ou fitossociologia de tipos de vegetação caducifólios presentes no estado do Ceará, demonstram a necessidade de trabalhos regionais considerando e/ou englobando principalmente o tipo de solo e substrato, aprofundando o conhecimento florístico de determinadas áreas de caatinga do nordeste brasileiro.

Neste trabalho o objetivo é caracterizar a estrutura da vegetação de uma área de caatinga conservada na Reserva Particular de Patrimônio Natural - RPPN da Fazenda Trussú em Iguatú, Ceará.

MATERIAL E MÉTODOS

Área de estudo

A pesquisa foi realizada no município de Iguatu, região Centro Sul do Estado do Ceará, com área territorial de 1.042,6 km2, altitude 213 m, a 400 km da capital Fortaleza. O relevo do município é constituído predominantemente, por extensas várzeas planas e a vegetação existente compõe-se de caatinga, em sua maioria arbustiva densa (IPLANCE, 2012IPLANCE. INSTITUTO DE PLANEJAMENTO DO CEARÁ. Perfil básico municipal. Fortaleza-CE, 2012. Disponível em: <Disponível em: http://www.ipece.ce.gov.br/publicacoes/perfil_basico/pbm-2012/Iguatu.pdf > Acesso em: 12 Abr. 2013.
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). Os solos mais bem representados no município de Iguatu são Neossolos, Argissolos, Planossolos, Vertissolos e Latossolos. O clima é tropical quente semiárido com estação chuvosa nos meses de janeiro a maio. A pluviometria média anual é de 807 mm, destacando-se o mês de abril como o mais chuvoso. As temperaturas médias anuais máxima e mínima são 32 oC e 26oC, respectivamente (IPLANCE, 2012).

Neste estudo foi realizado o levantamento fitossociológico de 100 ha de caatinga preservada da Fazenda Trussu (6°19'46,5"S e 39°22'38,6''W), na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), que compreende 100 hectares de um remanescente de caatinga. O substrato da área é de embasamento cristalino, solo classificado como Neossolo Litólico, raso e pedregoso, com contato lítico dentro dos primeiros 50 cm, sendo normalmente associado ao afloramento de rochas, com sequência de horizontes A-C-R e A-R, (EMBRAPA, 2006EMBRAPA. SISTEMA BRASILEIRO DE CIÊNCIA DOS SOLOS- SiBCs. 2 ed. Rio de Janeiro, 2006. 306 p.).

Coleta e tratamento dos dados

O levantamento fitossociológico foi realizado no período de agosto 2007 a julho de 2010. Foram sorteadas 45 parcelas, por meio de marcação aleatória de coordenadas geográficas obtidas com o auxílio do software GPS TrackMaker(r) (FERREIRA Jr., 2010FERREIRA Jr., O. GPS TrackMaker(r) para Windows. Belo Horizonte-MG: Geo Studio Technology Ltd. 2010.), as quais foram transferidas para um aparelho GPS para a localização em campo.

No levantamento do componente lenhoso foi utilizado o método de estabilização da curva do coletor com o uso de parcelas com dimensões de 10 m x 20 m, método este comumente utilizado no nordeste do Brasil em estudos quantitativos de caatinga (RODAL et al., 2013RODAL, M.J.N.; SAMPAIO, E.V.S.B.; FIGUEIREDO, M.A. Manual sobre métodos de estudos florístico e fitossociológico: ecossistema caatinga. Brasília: SBB, 2013. 24p. Disponível em: <Disponível em: http://www.botanica.org.br/ebook > Acesso em: 12 nov. 2013.
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).

Como unidade amostral, foram considerados os indivíduos que se individualizaram ao nível do solo e que atendiam ao critério de inclusão, ou seja, altura total maior ou igual a 1 m e diâmetro do caule ao nível do solo maior ou igual a 3 cm. Em cada parcela foram medidas as alturas totais do caule e diâmetro do caule na base dos indivíduos de acordo com Rodal et al. (2013RODAL, M.J.N.; SAMPAIO, E.V.S.B.; FIGUEIREDO, M.A. Manual sobre métodos de estudos florístico e fitossociológico: ecossistema caatinga. Brasília: SBB, 2013. 24p. Disponível em: <Disponível em: http://www.botanica.org.br/ebook > Acesso em: 12 nov. 2013.
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). Para os testes de médias de diâmetro e altura foi utilizado o teste t de Student, α = 5% (SOKAL; ROHLF, 1995SOKAL, R.R.; ROHLF, F.J. Biometry, the principles and practice of statistics in biological research. 3 ed. New York: W. H. Freeman and Co., 1995. 887 p. ).

Com os dados quantitativos obtidos, foi analisada a estrutura de abundância e de tamanho, calculados os parâmetros relativos de densidade, frequência e dominância, o índice do valor de importância, e valor de cobertura relativa por espécie (RODAL et al., 2013RODAL, M.J.N.; SAMPAIO, E.V.S.B.; FIGUEIREDO, M.A. Manual sobre métodos de estudos florístico e fitossociológico: ecossistema caatinga. Brasília: SBB, 2013. 24p. Disponível em: <Disponível em: http://www.botanica.org.br/ebook > Acesso em: 12 nov. 2013.
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). Foram calculados os índices de diversidade de Shannon (H') e de equitabilidade de Pielou (EP).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A curva do coletor se estabilizou na vigésima quarta parcela, correspondente a 4.800 m2 por área (Figura 1). As 48 parcelas alocadas na área correspondem a quase um hectare (9.600 m2) e representam os 100 ha de embasamento cristalino, pois é provável que o estudo tenha coberto a grande maioria das espécies lenhosas existentes na área, durante os quatro anos de coleta.

Foram amostrados 2.689 indivíduos, o que significou uma densidade estimada de 5.602 indivíduos ha-1, sendo 2.130 (79,3%) indivíduos vivos e 559 (20,7%) mortos ainda em pé (Figura 2). A alta densidade encontrada equipara-se a encontrada por Pereira Junior et al., (2012)PEREIRA JÚNIOR, L.R.; ANDRADE, A.P.; ARAÚJO, K.D. Composição florística e fitossociológica de um fragmento de caatinga em Monteiro, PB. Revista Holos, Natal, v. 6, n. 28, p. 76-87, 2012. em fragmento da caatinga na Paraíba. Esse valor pode ser explicado como um reflexo da baixa ação antropogênica no decorrer dos últimos 70 anos, refletindo em uma maior conservação do remanescente florestal.

O componente lenhoso da área está representado por 52 espécies, 41 gêneros e 23 famílias, e os parâmetros fitossociológicos relativos de dominância, densidade e freqüência, o índice de valor de cobertura e o índice de valor de importância encontram-se na Tabela 1.

TABELA 1
Parâmetros fitossociológicos das espécies representadas no componente lenhoso amostradas na RPPN da Fazenda Trussu, Iguatu-CE.

As espécies Croton sonderianus, Combretum leprosum, Mimosa caesalpiniifolia e Mimosa tenuiflora apresentaram densidades relativas maiores que 5%, contribuindo com 76,7% do total de indivíduos (Tabela 1). Croton sonderianus contribuiu com 39,8% do total de indivíduos amostrados, seguido por Combretum leprosum com 20,8%. A maioria (83% das espécies) contribuiu com menos de 1% da densidade relativa. Destas a maioria é lenhosa, com algumas espécies endêmicas e, portanto, mais estudos devem ser conduzidos nas diferentes áreas de caatinga do Ceará.

Croton sonderianus apresentou a maior dominância relativa (33,0%), seguido da Mimosa caesalpiniifolia (15,7%) e Combretum leprosum (12,3%). Esta última, apesar de apresentar maiores densidade e frequência relativas que Mimosa caesalpiniifolia, perde na dominância devido sua característica de apresentar indivíduos com menor diâmetro em relação a esta.

Quanto ao índice de valor de importância (IVI) verificou-se que mais da metade (58,9%) concentrou-se em apenas quatro (7,7% do total amostrado) espécies:Croton sonderianus, Combretum leprosum, Mimosa caesalpiniifoliae Mimosa tenuiflora. Essas espécies conjuntamente comPoincianella bracteosa, Cordia trichotoma, Myracrodruon urundeuva, Piptadenia stipulacea e Combretum glaucocarpum representam somam 76,7% do IVI de todas as espécies amostradas (23,8% do total amostrado) (Figura 3).

As famílias Fabaceae, Euphorbiaceae e Combretaceae representam 81,9% do IVI total da área amostrada. Pereira Junior et al. (2012) e Trovão et al. (2010) analisando a composição florística de uma vegetação no semiárido paraibano, também constataram uma maior abundância das famílias Fabaceae e Euphorbiaceae.

Segundo Pereira et al., (2001PEREIRA, I.M.; ANDRADE, L.A.; COSTA, J.R.M.; DIAS, J.M. Regeneração natural em um remanescente de caatinga sob diferentes níveis de perturbação, no agreste paraibano., Acta Botânica Brasílica Feira de Santana, v. 15, n. 3, p.289-450, 2001. ), C. sonderianus é uma espécie pioneira típica da caatinga, invasora de ambientes antropizados, que tende a dominar os primeiros estágios de sucessão. Este fato, associado ao alto valor de importância de outras espécies de recomposição, indica que a vegetação encontra-se em processo de recuperação. Nota-se ainda que a área em estudo está bem conservada, pois não foram encontradas as espéciesCommiphora leptophloeos e Capparis flexuosa, indicativas segundo Araújo et al., (2012ARAÚJO, B.A.; DANTAS NETO, J.; ALVES, A.S; ARAÚJO, P.A.A. Estrutura fitossociológica em uma área de caatinga no seridó paraibano. Revista Educação Agrícola Superior, Brasília, v. 27, n. 1, p. 25-29, 2012.) de área degradada.

A área estudada apresenta diversidade no conjunto florístico e componente lenhoso, com índice de diversidade Shannon de 2,19 e de equitabilidade de Pielou de 0,50. Estes índices são semelhantes aos encontrados por Barbosa et al., (2012BARBOSA, M.D.; MARANGON, C.M.; FELICIANO, A.L.P.; FREIRE, F.J.; DUARTE, E.M.T. Florística e fitossociologia de espécies arbóreas e arbustivas em uma área de caatinga em Arcoverde, PE, Brasil. Revista Árvore, Viçosa, v.36, n.5, p.851-858, 2012.) em uma área de caatinga em Arcoverde, Pernambuco.Guedes et al. (2012GUEDES, R.S.; ZANELLA, F.C.V.; COSTA JUNIOR, J.E.V.; SANTANA, G.M.; SILVA, J.A. Caracterização florístico-fitossociológica do componente lenhoso de um trecho de caatinga no semiárido paraibano. Revista Caatinga, Mossoró, v. 25, n. 2, p. 99-108, 2012.) encontraram em uma área do Seridó da Paraiba o índice de Shannon (2,54) que foi considerado médio e a equabilidade de Pielou (0,82) que indicou heterogeneidade florística do componente arbustivo-arbóreo.

Das espécies com 5 ou mais indivíduos, duas (Anadenanthera colubrina var. cebil e Myracrodruon urundeuva) apresentaram diâmetro médio maior que 15 cm, ou seja, maior área média basal. No entanto, no que se refere ao diâmetro máximo unitário, amostrou-se espécies com diâmetros acima de 30 cm, como Anadenanthera colubrina var. cebil (47,7 cm), Mimosa caesalpiniifolia (36,9 cm), Croton sonderianus (36,6 cm), Myracrodruon urundeuva (33,4 cm) e Amburana cearensis (30,3 cm). A distribuição de frequência diamétrica destaca elevada proporção de indivíduos (58,5%) com diâmetro inferior a 6,0 cm e 22,1% com diâmetro entre 6,0 cm e 8,9 cm (Figura 4), fato possivelmente proporcionado pela elevada densidade doCroton sonderianus e Combretum leprosum.

Quanto à altura total verificou-se que 22 espécies (42,3% do total) apresentaram indivíduos com alturas superiores a 6 m (28,7% do total de indivíduos). Este grupo de espécies apresentou indivíduos com alturas bem superiores à média geral (5,2 m) dos elementos arbóreos que compõem a área. As espécies Anadenanthera colubrina e Myracrodruon urundeuva, apresentaram alturas próximas a 12 m. No entanto, a distribuição de frequência das alturas dos indivíduos arbóreos indica maior concentração (51,9%) entre 4,0 a 6,9 m (Figura 5). Estes resultados são semelhantes aos encontrados por Pereira Junior et al., (2012) que verificaram predominância dos indivíduos na classe de altura de 4,1 a 6 m e o diâmetro 3 a 6 cm.

As alturas e os diâmetros médios e máximos foram 5,2 e 12,0 m e 6,7 e 47,7 cm, sugerindo ser uma área de caatinga cuja maioria dos indivíduos concentra-se no estrato superior a 5 m de altura, destacando-se um grupo de espécies emergentes (Tabela 2). Lemos e Meguro (2010LEMOS, J.R.; MEGURO, M. Florística e fitogeografia da vegetação decidual da Estação Ecológica de Aiuaba, Ceará, Nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 34-43, 2010. ) encontraram alturas e diâmetros médios e máximos de 4,51 e 13,0 cm e 7,3 e 44,9 cm, muito semelhante ao presente estudo.

TABELA 2
Número de indivíduos por espécie (componente lenhoso) nas parcelas amostradas e por hectare, variação de altura e diâmetro por espécie na Fazenda Trussu, Iguatu-CE. (s = Desvio padrão)

CONCLUSÕES

A área estudada apresenta diversidade média no conjunto florístico e componente lenhoso próxima à de outras áreas de caatinga, com índice de diversidade de 2,19 e equitabilidade de 0,50. As espécies Croton sonderianus, Combretum leprosum, Mimosa caesalpiniifolia e Mimosa tenuiflora apresentaram maior IVI. A área de estudo esta bem preservada e em processo de recuperação. O significativo número de espécies vegetais lenhosas com baixa densidade relativa na área estudada indica que são necessários mais estudos na caatinga do estado do Ceará.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Oct-Dec 2015

Histórico

  • Recebido
    12 Dez 2014
  • Aceito
    01 Dez 2015
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