Cadernos Nietzsche, Volume: 37, Issue: 1, Published: 2016
  • Editorial Editorial

    Lima, Márcio José Silveira; Lopes, Rogério Antônio
  • Descrição comparativa versus Fundamentação: o quinto capítulo de Para Além de Bem e Mal: "Contribuição à história natural da moral" Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Brusotti, Marco

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Para além de bem e mal, sobretudo o quinto livro, é um texto chave no que diz respeito ao programa nietzschiano de uma "história natural da moral". Em oposição ao projeto de fundamentação da moral que caracterizou a suposta ciência da moral até então, Nietzsche propõe ali, por um lado, um trabalho de reunião de material etnográfico e histórico, realizado a partir de uma análise comparativa das diversas morais, e, por outro, a elaboração de uma tipologia da moral capaz de nos revelar as configurações mais assíduas e recorrentes nos diversos sistemas morais. O que norteia esse programa de renovação da ciência da moral é a ideia de que é preciso retraduzir o homem de volta à natureza, de modo que as diversas configurações morais, heterogêneas e historicamente situadas, poderiam ser interpretadas psicologicamente: elas são uma semiótica dos afetos. Nesse sentido, aspectos psicológicos e histórico-naturais convergem em torno de um tema central: a moral do rebanho e os instintos que nela se expressam. A essa moral Nietzsche contrapõe seu problemático projeto de disciplinação e cultivo de um tipo superior.

    Abstract in English:

    Abstract Beyond Good and Evil, especially the Fifth Book, is a key text to access the Nietzschean program of a "natural history of morals". In contrast to the modern project of grounding morality, which has characterized the supposed "Science of Morals" and was advocated by the majority of the German moral philosophers until then, Nietzsche proposes here, on one hand, as the first and immediate task that of collecting ethnographic and historic materials through a comparative analysis of many morals; on the other hand, this first task should be done as a preparation for a typology of Morals, one which would give us "a clear idea of the recurring and more common forms of these living crystallizations". This renewing of the Science of Morals is guided by the idea of translating man back again into nature, so that these various moral crystallizations, composed from such a heterogeneous and historically situated material, could be psychologically classified and interpreted as a sign-language of emotions. In this sense, historical and psychological-natural aspects converge around a central theme: the herd moral and them main instincts expressed by it. To this moral, Nietzsche opposes his problematic project of disciplining and cultivating a superior type of man.
  • Ressentimento, poder e valor Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Reginster, Bernard

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Examino duas interpretações recentes do ressentimento - aquela que o vê como uma forma maliciosa de inveja e aquela que o vê como uma incitação para encontrar alguém que possa ser censurado pelo próprio sofrimento -, e ao mesmo tempo argumento que estas interpretações fracassam tanto na identificação do que seja o caráter distintivo do ressentimento quanto na tentativa de fornecer uma interpretação convincente do processo de reavaliação desencadeado por ele. Proponho que o ressentimento deve ser concebido como uma expressão da vontade de potência e procuro esboçar uma análise dessa motivação como um desejo por agência efetiva. Concluo mostrando como essa compreensão do ressentimento é particularmente apropriada ao contexto de desfazimento dos valores do agente.

    Abstract in English:

    Abstract I examine two recent accounts of ressentiment, respectively as a malicious form of envy and as the urge to find someone to blame for one's suffering, and argue that they fail either to identify the distinctive character of ressentiment or to give a persuasive account of the revaluation it motivates. I propose to conceive of ressentiment as an expression of will to power and proceed to outline an analysis of this motivation as a desire for effective agency. I conclude by showing how ressentiment so understood is especially apt to disrupt an agent's values.
  • Nietzsche e Paul Rée: Acerca da existência de impulsos altruístas Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Araldi, Clademir Luís

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Investigaremos a discordância entre Nietzsche e Paul Rée no que tange à existência de impulsos altruístas no ser humano. Paul Rée, em A origem dos sentimentos morais (der Ursprung der moralischen Empfindugen), afirma existirem no homem tanto impulsos egoístas quanto altruístas. A partir da teoria da evolução de Darwin, ele desenvolve uma psicologia moral evolucionista, enfatizando o caráter naturalista das atitudes altruístas. Analisaremos as críticas de Nietzsche ao modo altruísta de valorar, desde Humano, demasiado humano, tendo em vista a discussão que ele trava com Paul Rée acerca do estatuto do hábito, dos costumes e dos motivos das ações. O novo modo de considerar o prazer, especialmente na intensificação do sentimento de poder, marca uma nova orientação acerca da origem e desenvolvimento dos sentimentos morais, em que o egoísmo ocupa um lugar central.

    Abstract in English:

    Abstract This article investigates the disagreement between Nietzsche and Paul Rée on the existence or not of altruistic drives in humans. Paul Rée, in The Origin of the Moral Feelings (Der Ursprung der moralischen Empfindugen), posits the existence of both egoistic and altruistic drives in human beings. From Darwin's theory of evolution, he develops an evolutionistic moral psychology, emphasizing the naturalistic character of altruistic attitudes. Nietzsche's critiques on the altruistic mode of valuing since Human, All Too Human will be analyzed, having in mind his discussion with Paul Rée on the status of habit, costumes and motives of action. The new way of considering pleasure, mainly in the intensification of the feeling of power, marks a new orientation on the origin and development of moral feelings, in which egoism has a central place.
  • Lutas por reconhecimento e vontade de poder: uma afinidade entre Hegel e Nietzsche? Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Constâncio, João

    Abstract in Portuguese:

    Resumo O artigo é uma tentativa de explorar a hipótese controversa de que possa haver uma profunda afinidade - até agora não identificada - entre a concepção de "luta por reconhecimento" [Kampf um Anerkennung] em Hegel e a concepção da dinâmica da "vontade de poder" [Wille zur Macht] em Nietzsche. Esta hipótese diz respeito ao modo como a luta e a dominação estão implícitas na noção hegeliana de reconhecimento, isto é: diz respeito à dinâmica intersubjetiva das formas falhadas de reconhecimento. A luta e a dominação (bem como a violência) são conceitos fundamentais na concepção do reconhecimento em Hegel - mas, ainda assim, conceitos meramente operacionais na obra de Hegel, enquanto em Nietzsche se tornam temáticos, porque o conceito de "poder" se torna temático. O que o artigo procura mostrar é que a hipótese nietzschiana da "vontade de poder" é relevante no debate contemporâneo sobre "reconhecimento e poder" porque permite uma descrição adequada das dinâmicas intersubjetivas em que o reconhecimento recíproco não é alcançado e o que subsiste nelas são relações de luta e dominação, ou seja, vontade de poder qua vontade de dominação. Mas isso só é assim porque a hipótese nietzschiana da "vontade de poder" implica uma "doutrina dos afetos" e, por isso, uma concepção de "poder" [Macht] em termos de "ação à distância", i.e. de influência intersubjetiva mediada por percepções, interpretações e perspectivas. Esta concepção de "poder" implica atribuir ao desejo e à vontade humanas uma natureza "recognitiva", e está longe de implicar a dissolução das relações de poder em processos transsubjetivos de dominação. Daí a afinidade entre Hegel e Nietzsche que o artigo procura evidenciar.

    Abstract in English:

    Abstract The article is an attempt to explore a controversial hypothesis, which can be stated like this: there is a deep affinity - hitherto largely unnoticed - between Hegel's conception of struggles for "recognition" [Anerkennung] and Nietzsche's conception of the dynamics of "will to power" [Wille zur Macht]. This hypothesis concerns the ways in which struggle and domination are implicitly involved in the Hegelian notion of recognition, that is: it concerns the intersubjective dynamics of failed-recognition. Struggle and domination (as well as violence) are crucial concepts in Hegel's whole conception of recognition - but they are for him operative concepts, whereas in Nietzsche they become thematic, because the concept of "power" becomes thematic. What the article tries to show is that the Nietzschean hypothesis of "will to power" is relevant for the contemporary debate on "recognition and power" because it enables an adequate description of the intersubjective dynamics in which reciprocal recognition is not achieved and relationships of struggle and domination persist, i.e., what persists is "will to power" qua will to domination. However, this is only so because the Nietzschean hypothesis of "will to power" entails a "doctrine of the affects", and hence a conception of "power" [Macht] in terms of "action at a distance", i.e., in terms of intersubjective influence mediated by perceptions, interpretations, and perspectives. This conception of "power" entails a "recognitive" conception of human desire and human will, and, therefore, it would be wrong to claim that Nietzsche's "will to power" involves the dissolution of power-relations in trans-subjective processes of domination. Hence the affinity between Hegel and Nietzsche which the article tries to evince.
  • Nietzsche e o Valor: Florescimento e Excelência Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Robertson, Simon

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Florescimento e excelência são dois ideais que ocupam um lugar central no perfeccionismo de Nietzsche. Este artigo procura oferecer uma interpretação original acerca do que está envolvido nestes termos, de como eles se diferenciam e se conectam, desenvolvendo assim um quadro axiológico que confira sentido a esse conjunto. Uma sugestão adicional é de que o modelo subjacente de valor que emerge a partir desta interpretação - com efeito, um modelo de uma vida boa - seja interessante e atrativo por si só, e que, portanto, possa ter um apelo filosófico mais amplo.

    Abstract in English:

    Abstract Central to Nietzsche's perfectionism are two ideals: flourishing and excellence. This article offers an original account of what they each involve, including how they differ and connect, plus an axiological picture that makes sense of that. It also suggests that the underlying model of value which emerges--in effect, a model of a good life is interesting and attractive in its own right, and that it may therefore have wider philosophical appeal.
  • Nietzsche e a sociofisiologia do eu Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Siemens, Herman

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Este artigo examina as considerações de Nietzsche acerca das fontes sociais e históricas do eu como um contra-argumento à concepção liberal de indivíduo. Defendo que Nietzsche oferece não apenas uma crítica contundente à concepção associal e previamente individuada de pessoa, à qual se conecta a noção liberal de liberdade (compreendida como o direito individual de escolha de sua própria concepção de bem), como ainda um contra-conceito alternativo de pessoa e de soberania. Seus argumentos visam mostrar, em sua dimensão crítica, que o indivíduo ou pessoa é inseparável de seus objetivos ou valores, que são socialmente constituídos, e que nossa capacidade como indivíduos, especialmente para a agência soberana, é o produto de uma longa história e pré-história social. Em sua dimensão construtiva, encontramos em Nietzsche a contra alegação de que a manutenção e o cultivo de nossas capacidades (para reflexão e agência soberanas) são dependentes de relações de um antagonismo ponderado entre nós mesmos enquanto indivíduos, ou antes: como dividua. Esses argumentos serão desenvolvidos no que se segue em consonância com quatro principais linhas de pensamento: sobre as origens sociais e o caráter da (auto) consciência (§I); sobre a (pré) história e a constituição social de nossa capacidade como indivíduos soberanos [sovereign] (§II); sobre as origens sociais do fenômeno moral (como internalização de normas comuns) (§III); e sobre a destruição fisiológica do sujeito moral substancial, seguida da reconstrução fisiológica (§IV).

    Abstract in English:

    Abstract This essay examines Nietzsche's thought on the social and historical sources of the self as a counter-argument against the liberal concept of the individual. Nietzsche, it is argued, offers a powerful critique of the asocial, antecedently individuated concept of personhood, to which the liberal notion of freedom (the right to choose one's concept of the good) is attached, but also an alternative counter-concept of personhood and sovereignty. On the critical side are arguments to the effect that the individual or person is inseparable from its ends or values, which in turn are socially constituted, and that our capacities as individuals, especially for sovereign agency, are the product of a long social history and pre-history. On the positive side is the constructive counter-claim that the maintenance and cultivation of our capacities for productive, autonomous agency is dependent on relations of measured antagonism both between and within us as individuals, or rather: as dividua. These arguments are reconstructed along four main lines of thought: on the social origins and character of (self-)consciousness (§ I); on the (pre-)history and social constitution of our capacities as sovereign individuals (§ II); on the social origins of moral phenomena, understood as internalisations of communal norms (§ III); and Nietzsche's physiological destruction of the substantial moral subject, coupled with the physiological reconstruction of the subject as dividuum (§ IV).
  • Nossas virtudes: sobre o capítulo 7 de Para além de bem e mal Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Tongeren, Paul van

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Qual é a mensagem do sétimo capítulo de Para Além de Bem e Mal, intitulado 'Nossas Virtudes'? Inicialmente apresento uma análise da estrutura do capítulo (que parece ser o capítulo central da segunda metade do livro). Constata-se por meio desta análise que as seções 214 e 227 ocupam um lugar especial no capítulo. Uma análise detida destas duas seções sugere que neste capítulo o leitor é introduzido em uma condição tipicamente nietzschiana: o questionamento crítico da moralidade torna-se autorreferencial: aquele que questiona torna questionável o seu próprio questionamento. O mesmo procedimento adotado na seção 1 do primeiro capítulo em relação à filosofia e à vontade de verdade (tanto a vontade de verdade tradicional quanto a "nossa" própria) é adotado agora na segunda metade do livro em relação à "honestidade" ou "probidade" [Redlichkeit] e aplicado à moralidade (tanto a tradicional quanto a "nossa" virtude moral). O que no início parecia ser uma apresentação da virtude moral do espírito livre se revela agora como uma "autossupressão" da moralidade. Esta interpretação recebe uma elaboração e confirmação adicionais pela luz que ela permite lançar sobre as seções supostamente antifeministas que encerram o capítulo.

    Abstract in English:

    Abstract What is Nietzsche's message in the seventh chapter of Beyond Good and Evil: 'our virtues'? First an analysis of the structure of the chapter (which itself seems to be the central chapter of the second half of the whole book) is presented. From that analysis sections 214 and 227 appear to be of special importance. An analysis of mainly these two sections suggests that in this chapter the reader is being introduced into a typical Nietzschean condition: the critical questioning of morality is being made self-referential: the questioner makes his own questioning questionable. What Nietzsche did in section 1 of the first chapter with regard to philosophy and the will to truth (the traditional will to truth one as well as 'our' own), is now, in the second half of the book repeated with regard to 'honesty' or 'probity' [Redlichkeit] and so applied to morality (again: traditional, as well 'our' moral virtue). What in the beginning looks like being a presentation of the free spirit's moral virtue, turns out to be a 'self-liquidation' of morality. The interpretation is elaborated and confirmed by the clarifying light it sheds on the allegedly anti-feminist texts in the last part of the chapter.
  • Nietzsche e "Hitler" Dossiê "nietzsche E As Tradições Morais"

    Nehamas, Alexander

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Este artigo trata dos limites do imoralismo de Nietzsche, tomando como fio condutor a figura do heroi do mal. Defende-se a tese de que há um limite para esse imoralismo, na medida em que algumas questões devem permanecer na esfera de um tratamento moral, no sentido ligeiramente pejorativo que o termo recebeu entre os críticos da moralidade.

    Abstract in English:

    Abstract This article deals with the limits of Nietzsche´s immoralism, taking as a central thread the figure of the hero of the evil. It defends the thesis that there is a limit to this immoralism, since some questions must remain in the sphere of the moral treatment, in the lightly pejorative sense given to the term among the critics of the morality.
  • Nietzsche entre a Pólis Grega e o Terceiro Reich Alemão Varia

    Julião, José Nicolao

    Abstract in Portuguese:

    Resumo O objetivo deste ensaio é o de analisar a interpretação que Nietzsche faz da política grega antiga e as suas implicações na crítica que ele remete à cultura moderna. Críticas essas que, muita das vezes, comprometem a sua filosofia com formas de pensamentos protofacistas. Para tal tarefa, privilegiamos, sobretudo, os estudos de juventude, nos quais, o filósofo trata da política entre os gregos, mas sem negligenciar passagens, em textos, de outras fases, quando forem relevantes para a nossa análise.

    Abstract in English:

    Abstract The object of this assay is to analyze the interpretation that Nietzsche makes of the politics old Greek and its implications in the critical one that it sends to the modern culture. Critical these that, much of the times, compromise its philosophy with forms of fascist thoughts. For such task, we privilege, over all, the young studies, in which, the philosopher deals with the politics between the Greeks, but without neglecting tickets, in texts, of other phases, when they will be excellent for ours analyzes.
  • Lessing, um espírito livre. Sobre o aforismo 103 de O Andarilho e sua Sombra Varia

    Chaves, Ernani

    Abstract in Portuguese:

    Resumo Este artigo tem como objetivo analisar o aforismo 103 de O Andarilho e sua sombra, intitulado "Lessing", com a finalidade de mostrar a confrontação de Nietzsche com o pensamento do grande ensaísta, poeta e dramaturgo, considerado o criador do teatro moderno alemão. Esta confrontação tem como ponto de partida no aforismo acima referido a questão do "estilo", o que dá a oportunidade para refletirmos acerca desta questão em Nietzsche, neste momento importante de sua obra, momento de viragem, como sabemos, em especial a partir de três outros "personagens" importantes para a discussão deste tema: Schopenhauer, Wagner e a cultura francesa.

    Abstract in English:

    Abstract This article aims to analyze the aphorism 103 of The wanderer and his shadow, entitled "Lessing", in order to show the confrontation of Nietzsche with the thought of the great essayist, poet and playwright, considered the creator of modern German theater. This confrontation has as its starting point at the aphorism referred above the question of "style", which gives the opportunity to reflect about this question in Nietzsche, in this important moment of his work, turning point, as we know, especially from three other important "characters" to the discussion of this subject: Schopenhauer, Wagner and the French culture.
  • MARTON, Scarlett. (org.) Nietzsche em chave hispânica. (São Paulo, Edições Loyola, 2015) Resenha

    Moya, Gloria Luque
Grupo de Estudos Nietzsche Rodovia Porto Seguro - Eunápolis/BA BR367 km10, 45810-000 Porto Seguro - Bahia - Brasil, Tel.: (55 73) 3616 - 3380 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: cadernosnietzsche@ufsb.edu.br