Métodos de avaliação do olfato em pacientes vítimas de hemorragia subaracnóidea: revisão sistemática

Sandro Júnior Henrique Lima Hildo Rocha Cirne de Azevedo Filho Hilton Justino da Silva Sobre os autores

RESUMO

Objetivos:

Revisar de forma sistemática os métodos para avaliação do olfato em vítimas de hemorragia subaracnóidea aneurismática, e identificar as alterações encontradas com a utilização desses métodos.

Estratégia de pesquisa:

A pesquisa bibliográfica foi realizada na plataforma de busca PubMed e nas bases de dados Web of Science, Scopus, PsycINFO, CINAHL e ScienceDirect, tendo a busca de dados ocorrida em agosto e setembro de 2014.

Critérios de seleção:

Artigos originais publicados em qualquer língua que abordassem as alterações de olfato na hemorragia subaracnóidea aneurismática, com objetivo de avaliar essa função através de métodos específicos. Foram excluídos estudos de revisão; estudos de caso; capítulos de livro; editoriais e estudos que abordassem a hemorragia subaracnóidea não aneurismática.

Análise dos dados:

Foram consideradas como variáveis na análise dos dados: autor/ano, país, amostra/idade, tratamento, método utilizado, momento da avaliação do olfato e resultados.

Resultados:

A busca de artigos resultou em 1.763 artigos, desses, 9 artigos originais foram selecionados para esta revisão. Foi observado que todos os artigos foram desenvolvidos em países europeus e asiáticos e na avaliação do olfato utilizou-se desde testes padronizados e não padronizados a questionários, cujos objetivos variaram entre avaliar o olfato antes e/ou após o tratamento cirúrgico nessa população.

Conclusão:

Foi observada heterogeneidade nos métodos utilizados para avaliação do olfato na hemorragia subaracnóidea aneurismática, como também no momento selecionado para aplicação das avaliações. Além disso, os estudos evidenciaram a existência de déficit olfatório nos pacientes, e a relação entre o tratamento cirúrgico e a disfunção olfatória.

Descritores:
Olfato; Hemorragia Subaracnóidea; Aneurisma Intracraniano; Círculo Arterial do Cérebro.

ABSTRACT

Purpose:

To systematically review the methods for evaluation of smell in aneurysmal subarachnoid hemorrhage victims and to identify the changes found with the use of these methods.

Research strategy:

The literature search was performed in PubMed search platform and in the databases Web of Science, Scopus, PsycINFO, CINAHL, and ScienceDirect in August and September 2014.

Selection criteria:

Original articles published in any language, which addressed smell changes in aneurysmal subarachnoid hemorrhage and addressed to evaluate this function through specific methods were included. Review studies, case studies, book chapters, editorial, and studies that address the nonaneurysmal subarachnoid hemorrhage were excluded.

Data analysis:

The following variables were considered in data analysis: author/year, country, sample/age, treatment, method, the moment of smell evaluation, and results.

Results:

The search for articles resulted in 1,763 articles, of which, 9 original articles were selected for this review. It was observed that all articles were from European and Asian countries. Standardized and nonstandardized tests and questionnaires were used in olfactory assessment, and the goals ranged from assessing the smell before and/or after surgery in this population.

Conclusion:

Heterogeneity was observed in the methods used to evaluate the smell in aneurysmal subarachnoid hemorrhage and in the methods selected for application of evaluations. In addition, studies have demonstrated the existence of olfactory deficits in patients and the relationship between surgery and olfactory dysfunction.

Keywords:
Smell; Subarachnoid Hemorrhage; Intracranial Aneurysm; Circle of Willis.

INTRODUÇÃO

A hemorragia subaracnóidea (HSA) aneurismática é caracterizada como ruptura e extravasamento sanguíneo entre as membranas pia-máter e aracnoide11. Pulsinelli WA. Doenças vasculares cerebrais - princípios. In: Goldman L, Bennett JC. Cecil: tratado de medicina interna. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001. p. 2352-9.. Sua ocorrência acarreta em modificações abruptas no meio intracraniano em decorrência de fatores associados, como presença de hematoma, edema, vasoespasmo cerebral e hidrocefalia22. Clinchot DM, Kaplan P, Murray DM, Pease WS. Cerebral aneurysms and arteriovenous malformations: implications for rehabilitation. Arch Phys Med Rehabil. 1994;75(12):1342-51., o que faz da HSA aneurismática um evento clínico de grande importância.

Possui uma alta taxa de mortalidade, que alcança os 40% nos afetados, além de ocorrência frequente de sequelas nos pacientes sobreviventes, dos quais cerca de um terço acaba apresentando algum tipo de distúrbio, seja motor, cognitivo ou mesmo comportamental33. Burgos RE, Diaz RC. Hemorragia subaracnoidea espontanea: diagnostico y tratamiento. Univ Med. 2002;43(4):260-5. 44. Machado FS, Akamine N. Hemorragia subaracnóidea. In: Knobel E. Terapia intensiva: neurologia. São Paulo: Atheneu; 2002. p. 123-36. 55. Mocco J, Komotar RJ, Lavine SD, Meyers PM, Connolly S, Solomon R. The natural history of unruptured intracranial aneurysms. Neurosurg Focus. 2004;17(5):E3..

Uma alteração que pode ser desencadeada com a ocorrência do extravasamento sanguíneo no espaço subaracnóideo é a disfunção olfatória, possivelmente pela proximidade anatômica do local da hemorragia com o sistema olfatório, estando sujeito a fatores associados à HSA aneurismática, como dano mecânico direto nos tecidos, processos inflamatórios, aumento de pressão intracraniana e isquemia regional cortical66. Crowley RW, Medel R, Kassell NF, Dumont AS. New insights into the causes and therapy of cerebral vasospasm following subaracnoided hemorrhage. Drug Discov Today. 2008;13(5-6):254-60. 77. Griz MFL. Relação entre déficit da olfação e hemorragia subaracnoidea aneurismática antes e após tratamento [doutorado]. Recife: Universidade Federal de Pernambuco; 2014..

Além disso, devido às suas características, o tratamento cirúrgico para HSA aneurismática também pode influenciar o olfato, nesse caso, as alterações nessa função podem surgir através do impacto da tração de tecidos cerebrais durante a exposição do sítio hemorrágico77. Griz MFL. Relação entre déficit da olfação e hemorragia subaracnoidea aneurismática antes e após tratamento [doutorado]. Recife: Universidade Federal de Pernambuco; 2014..

Considerando isso, diversos métodos de avaliação do olfato são descritos na literatura, e esses podem ter caráter qualitativo ou mesmo quantitativo de avaliação do sistema olfatório88. Moura RGF, Cunha DA, Gomes ACLG, Silva HJ. Instrumentos quantitativos para avaliação do olfato na população infantil: artigo de revisão. CoDAS. 2014;26(1):96-101.. É descrito também, que na verificação da integridade desse sistema, os testes utilizam meios que analisam os processos psicofísicos, eletrofisiológicos, psicofisiológicos, ligados à sensação olfatória, como também a análise de exames de imagem que definem a situação das estruturas ligadas ao olfato99. Doty RL. Olfaction in Parkinson's disease and related disorders. Neurobiol Dis. 2012;46(3):527-52..

No entanto, existe pouca descrição de como é feita a avaliação do olfato em pacientes vítimas de HSA aneurismática, e esse conhecimento, além de importante para identificar as características das alterações olfatórias oriundas dessa doença e suas modificações diante do tratamento cirúrgico, pode auxiliar na determinação e difusão de métodos a serem empregados na prática clínica para avaliação dessa função em pacientes neurológicos.

Sendo assim, o objetivo do presente estudo é revisar de forma sistemática os métodos para avaliação do olfato em pacientes vítimas de HSA aneurismática, e identificar as alterações encontradas com a utilização desses métodos.

ESTRATÉGIA DE PESQUISA

A pesquisa bibliográfica foi realizada na plataforma de busca PubMed e nas bases de dados Web of Science, Scopus, PsycINFO, CINAHL e ScienceDirect, tendo a busca de dados ocorrida em agosto e setembro de 2014. Na pesquisa de artigos foram utilizados descritores - descritores em ciências da saúde (DeCS) e medical subject headings (MESH) - para recuperação de assuntos da literatura científica. Foram realizados os seguintes cruzamentos nas línguas inglesa, portuguesa e espanhola: olfato AND círculo arterial do cérebro; olfato AND hemorragia subaracnóidea; olfato AND aneurisma intracraniano; transtornos do olfato AND círculo arterial do cérebro; transtornos do olfato AND hemorragia subaracnóidea; transtornos do olfato AND aneurisma intracraniano.

A pesquisa foi realizada por dois pesquisadores, de forma independente e cega. Nos casos em que houve discordâncias o terceiro pesquisador foi consultado, com o objetivo de chegar a um consenso. Os pesquisadores seguiram um protocolo de busca elaborado antes da pesquisa

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

Os critérios de inclusão dos artigos na pesquisa foram: artigos originais publicados em qualquer língua que abordassem as alterações de olfato em pacientes vítimas de HSA aneurismática, com objetivo de avaliar essa função através de testes específicos.

Foram excluídos artigos originais que não referenciavam no título, no resumo ou no texto o assunto abordado nesta revisão; estudos de revisão; estudos de caso; capítulos de livro; editoriais e estudos que abordavam a HSA não aneurismática.

ANÁLISE DOS DADOS

A análise de dados obedeceu a um método de seleção convergente contendo três etapas.

Inicialmente foi feita a identificação dos artigos a partir da realização dos cruzamentos de descritores, e após isso foi realizado o primeiro processo de exclusão a partir da leitura dos títulos, seguindo os critérios de elegibilidade.

Em seguida foi feita a leitura dos resumos e exclusão subsequente dos artigos inadequados à pesquisa. Os artigos que restaram foram lidos na íntegra para seleção dos estudos para esta revisão.

As características metodológicas dos artigos foram analisadas de acordo com a presença de randomização, critérios de inclusão e exclusão, mascaramento, análise estatística e comparação estatística entre grupos nos estudos selecionados. Tais itens de avaliação foram baseados na escala Physitherapy Evidence Database (PEDro) (Quadro 1). É descrito na literatura que essa escala possui níveis moderados de confiabilidade entre avaliadores, com um coeficiente de correlação interclasse (ICC) de 0,68 e intervalo de confiança de 95% (IC95%) de 0,57-0,761010. Maher CG, Sherrington C, Herbert RD, Moseley AM, Elkins M. Reliability of the PEDro scale for rating quality of randomized controlled trials. Phys Ther. 2003;83(8):713-21..

Quadro 1:
Classificação metodológica dos artigos selecionados

Os resultados foram apresentados considerando as seguintes variáveis dos artigos selecionados: autor/ano, país, amostra/idade, tratamento, método utilizado (avaliação do olfato), momento da avaliação do olfato e resultados (Quadro 2).

Quadro 2:
Resultados dos estudos selecionados seguindo as variáveis analisadas

RESULTADOS

A busca de dados resultou em um total de 1.763 artigos. Na plataforma PubMed, cruzando-se os descritores, foram encontrados 30 artigos, na Web of Science foram encontrados 17 artigos, na base Scopus foram encontrados 66 artigos, na PsycINFO foi encontrado um artigo, na CINAHL foram encontrados 8 artigos e na ScienceDirect foram encontrados 1.641 artigos.

Considerando os critérios de inclusão e de exclusão adotados, e após a retirada dos estudos repetidos, apenas nove artigos foram incluídos e analisados nesta revisão sistemática (Figura 1).

Figura 1:
Fluxograma do número de artigos encontrados e selecionados após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão

Numa análise preliminar dos artigos foi possível identificar uma heterogeneidade metodológica que trouxe inviabilidade na aplicação de tratamento estatístico (metanálise). Apesar disso, puderam-se extrair conclusões relevantes através deste estudo.

Foi observado que, dos estudos analisados, nenhum apresentou como parte do método: alocação aleatória, sigilo na alocação e cegamento dos sujeitos da pesquisa, além disso, apenas parte deles, o equivalente a 55,5%, teve critérios de seleção preestabelecidos1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9.. Foi visto também que a maioria (77,7%) utilizou estatística na análise dos dados1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1616. Hiroaki F, Nobuyuki Y, Edgar NV, Akifumi S. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric ans basal interhemispheric approaches. 1995;38(2):325-28. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8.e apesar disso, por não ter sido pleno o rigor metodológico no desenvolvimento dos estudos, houve dificuldade na utilização de análise estatística de integração de resultados independentes.

Com base nos períodos de publicação, observou-se que poucos artigos abordaram o tema na década de 19901818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. 2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3., com o primeiro estudo no ano de 19901010. Maher CG, Sherrington C, Herbert RD, Moseley AM, Elkins M. Reliability of the PEDro scale for rating quality of randomized controlled trials. Phys Ther. 2003;83(8):713-21.. Dos estudos analisados, 66,6%1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8.foram publicados a partir do ano de 2007, evidenciando um período de 11 anos sem pesquisas. Nota-se que os três primeiros artigos produzidos1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. 2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3. investigaram as alterações do olfato após intervenção cirúrgica para HSA e aneurismas não rotos, demonstrando uma preocupação maior com as repercussões nessa função oriundas da microcirurgia.

Acredita-se que tal preocupação estava relacionada com a evolução das técnicas cirúrgicas, que inicialmente aconteceu nos anos de 1960 a 1970 com a descrição da craniotomia pterional2121. Yasargil MG, Fox JL, Ray MW. The operative approach to aneurysms of the anterior communicating artery. In: Krayenbül H, editor. Advances and technical standards in neurosurgery. 2nd ed. Wien: Springer-Verlag; 1975. p. 114-70.. Possivelmente, nesse período, com a maior utilização de cirurgias que envolviam diretamente o nervo olfatório, foram observados déficits na olfação que despertaram interesse por parte dos neurocirurgiões.

Apesar de tais indícios, foi verificado que 77,7%1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. 2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3. dos estudos selecionados tiveram a preocupação de investigar a situação olfatória dos pacientes após o tratamento, revelando um interesse bem maior no quadro funcional decorrente da cirurgia.

De acordo com o local de realização dos estudos, a maior parte deles se originou de países europeus1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5., e dois da Ásia1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8.. Além disso, a Turquia, considerada país euro-asiático, foi local de estudo de um dos artigos2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3..

Quatro artigos europeus se originaram da Holanda1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8., três deles1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8. foram realizados num hospital universitário da cidade de Utrecht, tornando-se um dos principais centros preocupados não só com a investigação da associação entre o olfato e os procedimentos cirúrgicos utilizados no tratamento de aneurismas rotos, mas também com as repercussões geradas nessa função pela própria HSA, pois foi nesse centro em que os únicos estudos que avaliaram o estado olfativo no pré e pós-tratamento foram realizados1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9..

Segundo os resultados do Global Burden of Disease, Injures and Risk Factors (GBD), países de baixa e média renda apresentaram, em 2010, taxas mais elevadas de incidência e mortalidade ligadas ao acidente vascular cerebral hemorrágico, que inclui a HSA2222. Krishnamurthi RV, Moran AE, Forouzanfar MH, Bennett DA, Mensah GA, Lawes CM, et al. The global burden of hemorrhagic stroke: a summary of findings from the GBD 2010 study. Glob Heart. 2014;9(1):101-6..

Apesar de mostrar que a preocupação com a doença aparenta ser mais elevada nesses países em desenvolvimento, possivelmente por existirem condições mais equilibradas na saúde dos países de alta renda, além de maiores recursos para pesquisa, esses acabam desenvolvendo mais estudos na área, como se observa nos artigos encontrados.

Outro fator relevante na presente revisão é que não foram encontrados estudos do continente americano, revelando um maior interesse de países europeus e asiáticos no desenvolvimento de estudos de avaliação das alterações no olfato, decorrentes da HSA aneurismática.

Considerando informações sobre a amostra e a faixa etária dos participantes, verifica-se que houve uma grande variação entre os artigos, com um mínimo de 131515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. e máximo de 315 participantes1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3.. Além de uma variação de idade de inclusão nos estudos de no mínimo 18 anos2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3. a um teto máximo de 91 anos1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3., mostrando heterogeneidade na realização das pesquisas. Acredita-se que tal variação esteja associada à seleção dos participantes, motivada também pela demanda de internações.

Outro aspecto que aponta para a definição da amostragem desses estudos é a incidência da HSA aneurismática, que mesmo sendo rara nas duas primeiras décadas de vida acomete uma larga faixa etária, aumentando a frequência até os 60 anos de idade2323. Inagawa T, Hirano A. Autopsy study of unruptured incidental intracranial aneurysms. Surg Neurol. 1990;34(6):361-5..

Observou-se também, nos artigos, que os tratamentos empregados para a HSA aneurismática foram diversificados. Essas informações mostram que os objetivos estabelecidos nos estudos foram modificados com a evolução das intervenções médicas, considerando o período de publicação, sendo que os primeiros artigos abordaram as craniotomias1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. e os mais atuais se propuseram a analisar o olfato também na embolização1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8., que é uma técnica mais recente2424. Conrad MD, Pelissou-Guyotat I, Morel C, Madarassy G, Schonauer C, Deruty R. Estudo comparativo entre aneurismas rotos tratados por cirurgia e por via endovascular. Arq Neuro-Psiquiatr. 2002;60(1):96-100..

Na avaliação do olfato foram utilizados desde testes padronizados e não padronizados a questionários subjetivos, como também associação entre os dois meios. Dos artigos, dois avaliaram a função olfatória por meio de questionários aplicados pessoalmente ou por telefone, aliados a escalas de impacto da alteração na qualidade de vida1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8..

Apesar de poder levantar informações importantes sobre a percepção funcional do paciente em relação ao olfato, os questionários empregados nesses estudos apresentam um caráter subjetivo e essa característica é potencializada pela maneira de aplicação dos mesmos. Além disso, a tradução dos resultados obtidos nesses instrumentos é feita de forma genérica, o que dificulta a reprodutividade dos achados.

No entanto, a importância dada à qualidade de vida, ligada ao déficit olfatório, é um aspecto positivo desses estudos, o que ressalta os efeitos causados pelo declínio funcional do olfato nessa população.

Em alguns artigos foram utilizadas inicialmente entrevistas para identificação dos pacientes com déficit olfatório, e posteriormente foram aplicados testes específicos1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8.. Essa estratégia aparenta ser negativa, pois pode mascarar as alterações mais sutis na função olfatória, não reveladas nas entrevistas.

Outros estudos usaram como meios de investigação do estado da função olfatória o Sniffin' Sticks Test (versão coreana)1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32., University of Pennsylvania Smell Identification Test (UPSIT)1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62., Sniffin' Sticks Test (validado na europa)1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6., Sniffin' Sticks Test batery1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9., olfatometria modificada (utilizando vapor de álcool feniletílico saturado)1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5., uso de essência de baunilha1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. e soluções de butanol2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3..

Foi possível verificar que 55,5% dos estudos utilizaram testes olfatórios padronizados1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5., em alguns casos com validação regional, revelando que a padronização do método é um critério que reforçou a escolha do tipo de teste de olfato nas pesquisas realizadas.

O teste olfatório mais utilizado foi o Sniffin' Sticks Test1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9., que se trata de uma bateria padronizada de avaliação do olfato, que usa canetas de feltro com odores distintos. Vale destacar que os resultados desse teste podem sofrer influências regionais. Diante disso, em dois artigos foram utilizadas versões desse teste validadas regionalmente1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6., o que sugere a existência de uma maior precisão nos resultados encontrados nesses estudos.

Em um dos artigos analisados foi utilizado o UPSIT1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62., que é um teste de olfato de grande aceitação, sendo também considerado o mais utilizado, principalmente por sua acurácia e praticidade na aplicação2525. Doty RL, Shaman P, Dann M. Development of the University of Pennsylvania Smell Identification Test: a standardized microencapsulated test of olfactory function. Physiol Behav. 1984;32(3):489-502. 2626. Doy RL, Newhouse MG, Azzalina JD. Internal consistency and short-term test-retest reliability of the University of Pennsylvania Identification Smell Test. Chem Senses. 1985;10(3):297-300.. O UPSIT possui quatro livretos, cada um contendo dez estímulos olfatórios microencapsulados, que são liberados quando sua superfície é riscada. A marcação das respostas é realizada por meio de quatro alternativas de múltipla escolha, sendo três delas representadas por odores distrativos, e uma alternativa contendo a resposta correta correspondente ao odor cheirado.

Diante das características desse teste, as respostas também podem sofrer influências das regiões onde ele é aplicado, o que justifica as inúmeras validações feitas para países diferentes. Apesar disso, no estudo analisado1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62., não foi informado se houve adequação nesse sentido.

Com base nisso, observa-se a importância cada vez mais clara do ajuste regional ao qual os testes olfatórios padronizados devem ser submetidos para garantir a confiabilidade de seus resultados, o que foi visto em apenas dois estudos desta revisão1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6..

A olfatometria também foi descrita em um dos estudos analisados1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5., e por ter a capacidade de fornecer resultados quantitativos da olfação, surge como um meio relevante, que necessita de maior investigação para identificar melhor a efetividade de seu uso na avaliação dessa função.

O momento de aplicação da avaliação do olfato variou consideravelmente entre os artigos, de 72 horas após a hemorragia1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. até 7,5 anos médios após a cirurgia1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3.. Esse período variou dessa forma principalmente por causa dos métodos utilizados nos estudos, que apresentaram uma heterogeneidade acentuada. Dois dos estudos apresentaram caráter retrospectivo1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3., outro foi observacional transversal1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9., enquanto três não informaram ao certo o momento da aplicação da avaliação1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8..

Um percentual de 44,4% dos estudos avaliou os pacientes através de um modelo longitudinal de investigação1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8., o que pode refletir a necessidade de observar alterações olfatórias duradouras decorrentes da hemorragia e da intervenção cirúrgica.

Esse fato deve-se à recuperação do nervo olfatório após uma lesão, que pode ocorrer mesmo depois de cinco anos do trauma. Acredita-se que alterações permanentes são aquelas presentes após 35 meses ou mais1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3..

Em relação aos resultados dos estudos, em todos foram identificados sujeitos com algum déficit no olfato após a HSA ou depois do tratamento cirúrgico. Nos estudos em que o tratamento empregado nos participantes foi craniotomia, através de diferentes acessos, houve associação entre disfunção olfatória com o lado da operação e a manipulação anatômica de regiões adjacentes ao nervo olfatório, para acesso ao sítio hemorrágico1111. Park J, Lee SH, Kang DH, Kim JS. Olfactory dysfunction after ipsilateral and contralateral pterional approaches for cerebral aneurysms. Neurosurgery. 2009;65(4):727-32. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5. 1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. 2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3..

Foi sugerido pelos autores que o surgimento das alterações de olfato na microcirurgia esteja relacionado a lesões mecânicas causadas ao nervo olfatório, durante as retrações teciduais para exposição da artéria rompida1919. Fujiwara H, Yasui N, Nathal-Vera E, Suzuki A. Anosmia after anterior communicating artery aneurysm surgery: comparison between the anterior interhemispheric and basal interhemispheric approaches. Neurosurgery. 1996;38(2):325-8. 2020. Aydin IH, Kadioğlu HH, Tüzün Y, Kayaoğlu CR, Takçi E, Oztürk M. Postoperative anosmia after anterior communicating artery aneurysms surgery by the pterional approach. Minim Invasive Neurosurg. 1996;39(3):71-3.. É dito também que mesmo pressões mínimas na retração do lobo frontal podem levar a alterações temporárias ou permanentes no olfato.

Nos estudos em que houve comparação entre os tratamentos através de craniotomias e embolização, apesar de ter sido observada maior incidência de alteração olfatória nos pacientes tratados por microcirurgia, houve presença de déficit no olfato mesmo após a embolização endovascular1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3., o que foi visto também no estudo que se propôs a avaliar essa função unicamente após a embolização1717. Bor AS, Niemansburg SL, Wermer MJ, Rinkel GJ. Anosmia after coiling of ruptured aneurysms: prevalence, prognosis, and risk factors. Stroke. 2009;40(6):2226-8..

Com base nisso, os autores comentam a existência de outros fatores que podem desencadear a alteração no olfato, além dos danos mecânicos diretos ao nervo olfatório durante a cirurgia. Esses seriam: contato entre o sangue extravasado, durante a hemorragia, e o nervo, aumento da pressão intracraniana no momento da ruptura do aneurisma, isquemias nas regiões corticais envolvidas com o processamento da informação olfatória, como também a ocorrência de vasoespasmo cerebral, que pode comprometer o fluxo sanguíneo nas estruturas relacionadas ao olfato1212. Martin GE, Junqué C, Juncadella M, Gabarrós A, de Miquel MA, Rubio F. Olfactory dysfunction after subarachnoid hemorrhage caused by ruptured aneurysms of the anterior communicating artery. Clinical article. J Neurosurg. 2009;111(5):958-62. 1414. Wermer MJ, Donswijk M, Greebe P, Verweij BH, Rinkel GJ. Anosmia after aneurysmal subarachnoid hemorrhage. Neurosurgery. 2007;61(5):918-22; discussion 922-3..

Os resultados dos estudos também demonstraram as diferenças no rastreio da alteração de olfato diante de avaliações subjetivas e testes propriamente ditos, nos quais se observa maior número de casos de alterações durante a aplicação dos testes, sejam eles padronizados ou não1313. Moman MR, Verweij BH, Buwalda J, Rinkel GJ. Anosmia after endovascular and open surgical treatment of intracranial aneurysms. J Neurosurg. 2009;110(3):482-6. 1515. De Vries J, Menovsky T, Ingels K. Evaluation of olfactory nerve function after aneurysmal subarachnoid hemorrhage and clip occlusion. J Neurosurg. 2007;107(6):1126-9. 1818. Eriksen KD, Bøge-Rasmussen T, Kruse-Larsen C. Anosmia following operation for cerebral aneurysms in the anterior circulation. J Neurosurg. 1990;72(6):864-5.. Essa diferença mostra a importância da preocupação com a seleção dos métodos de avaliação da função olfatória, em que alternativas subjetivas devem ser utilizadas como um complemento a avaliação, a fim de evitar resultados falso-negativos.

Considerando os resultados encontrados nos estudos analisados, verifica-se a necessidade de pesquisas que proponham avaliar a função olfatória antes e após o tratamento cirúrgico para HSA aneurismática, a fim de esclarecer melhor a influência tanto do extravasamento sanguíneo como da intervenção cirúrgica no desencadeamento de alterações na função olfatória. Além disso, é importante a utilização de recursos de investigação padronizados, para que as respostas sejam mais seguras e possibilitem uma maior reprodutividade dos achados.

CONCLUSÃO

A partir desta revisão foi possível verificar, na avaliação do olfato em pacientes vítimas de HSA, que os estudos utilizaram desde testes padronizados e não padronizados a meios subjetivos de rastreio da alteração, trazendo possivelmente menor precisão nos resultados obtidos devido à heterogeneidade metodológica. Além disso, o momento de aplicação das avaliações variou consideravelmente nos artigos vistos, o que implica em dificuldade na compreensão dos fatores desencadeantes das alterações olfatórias encontradas nessa doença.

Os estudos mostraram evidências da existência de déficit na função de olfato nesses pacientes, como também a relação entre o tratamento cirúrgico e o desencadeamento da disfunção olfatória. Apesar dessa constatação, os resultados dos artigos analisados não esclarecem de forma minuciosa o real prejuízo da hemorragia e da intervenção cirúrgica na gênese da alteração funcional.

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    Trabalho realizado no Programa de Pós-graduação em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento, Universidade Federal de Pernambuco - UFPE - Recife (PE), Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Fev 2016

Histórico

  • Recebido
    26 Jan 2015
  • Aceito
    08 Jun 2015
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