Editorial

EDITORIAL

Prezada leitora, prezado leitor

Iniciamos este número expressando nosso profundo pesar pelo falecimento, em 19 de setembro de 2006, da Professora Maria José Garcia Werebe, membro do Conselho Editorial de Cadernos de Pesquisa. Ela foi Professora Titular do Curso de Pedagogia da Universidade de São Paulo e teve ativa participação nos movimentos dessa instituição pela defesa da democracia nos anos 60. À época, responsável também pelo Setor de Orientação Educacional do Colégio de Aplicação da Universidade de São Paulo onde introduziu várias inovações, militou na defesa deste e na de seus alunos, quando as forças de repressão o invadiram e tomaram.

Educadora de expressão, formou várias gerações de alunos no Curso de Pedagogia da universidade, deixando neles marcas profundas quanto à importância da educação. Seu livro Grandezas e misérias do ensino no Brasil, publicado pela primeira vez na década de sessenta e muitas vezes reeditado, tornou-se referência básica para estudiosos e profissionais da área pelo amplo panorama que proporcionava dos problemas e desafios do sistema escolar brasileiro.

Tendo optado, por razões políticas, por deixar o Brasil, radicou-se na França, país em que continuou sua carreira de pesquisadora junto ao Conseil National de la Recherche Scientifique – CNRS. Mantinha, contudo, contato freqüente com sua terra, para onde vinha participar de encontros científicos, realizar palestras e lançar livros. Intelectual combativa, deixa uma herança inestimável: o entusiasmo pelo conhecimento e pela sua produção, e a adesão incondicional ao exercício da democracia.

Quanto ao Tema em Destaque desta edição: a Educação Infantil, o conjunto de artigos que o compõem foi organizado pela professora Zilma de Moraes Ramos de Oliveira, a quem cabem nossos agradecimentos.

O estudo de Lenira Haddad, realizado junto à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico e à Unesco em 2001, discute o novo paradigma proposto para as políticas de educação e cuidado infantil, com base na integração de serviços numa perspectiva sistêmica e amplamente compartilhada pela sociedade, tendo em conta aspectos relativos aos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Como parte do esforço para melhor qualificar o professor de educação infantil, o trabalho de Zilma de Moraes Ramos de Oliveira e colaboradoras busca entender o modo como são afetadas as relações desses profissionais no que refere à aprendizagem/identidade e teoria/prática em um curso de formação em serviço de nível médio.

Ana Beatriz Rocha Lima e Eliana Bhering procuram avaliar o impacto do ambiente criado no espaço de creches de determinado município catarinense, no que diz respeito ao comportamento e desenvolvimento de crianças pequenas e às ações e interações dos atores envolvidos no processo educativo, baseando-se nas discussões suscitadas pelo instrumento utilizado.

Moysés Kuhlmann Júnior e José Fernando Teles da Rocha analisam aspectos da educação de crianças de zero a seis anos no Asilo dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo desde fins do século XIX até 1950, distinguindo o atendimento dado aos bebês e às crianças de três a seis anos.

Entre os outros temas abordados pela revista é clara a preocupação com questões ligadas à metodologia de pesquisa em três artigos. O primeiro é o de Alice Casimiro Lopes, que analisa as relações entre o que ela caracteriza como universo macro ou micro nos estudos sobre currículo. O segundo, escrito por Alda Judith Alves-Mazzotti, examina as diferenças de concepção sobre a natureza dos estudos de caso, encontradas em dois dos principais autores de referência sobre o tema, e suas implicações quanto às possibilidades de generalização dos conhecimentos gerados por esse tipo de pesquisa para outros contextos. O terceiro, de Silvia Elizabeth Moraes reporta-se aos critérios que podem ser utilizados por orientadores de Trabalhos de Conclusão Curso de Licenciatura em Pedagogia, no julgamento de um tema de pesquisa e no seu desenvolvimento.

Apoiando-se em ampla revisão dos estudos sobre as reformas educativas dos anos 90, Nora Krawczyk e Vera Lúcia Vieira discutem a reconfiguração da gestão educacional em quatro países latino-americanos: Argentina, Brasil, Chile e México. Levando em consideração as especificidades históricas e os fatores culturais que interferem nas políticas educativas desses países, as autoras apontam aspectos que evidenciam a homogeneidade e a heterogeneidade das reformas na região.

Miriam Waidenfeld Chaves propõe-se a demonstrar como o desenvolvimentismo e a tradição pragmatista, que circulavam respectivamente no Instituto Superior de Estudos Brasileiros – Iseb – e no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – Inep –, dois órgãos do Ministério da Educação nos anos 50, interagiram nesse espaço contribuindo para fomentar um ideário que subsidiou a formulação e implementação de políticas de reconstrução nacional.

O artigo de Mary Julia Dietzsch encerra este número. Ele trata da cidade contemporânea e de suas relações com a educação, recuperando-a como um espaço polifônico em que coexistem diferentes grupos sociais. Faz brotarem imagens e palavras sobre São Paulo que a revelam como a "cidade imaginada" de pobres lavradores do Vale do Jequitinhonha; como a "cidade vista de longe" pelos meninos de rua da megalópole; como a "cidade desencantada" das crianças de escolas dos bairros de periferia, e como "cidade contestada" dos cantores de rap.

Bom proveito das leituras!

As Editoras

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Fev 2007
  • Data do Fascículo
    Dez 2006
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