Percorrendo labirintos: trajetórias e desafios de estudantes de engenharias e licenciaturas

Traversing mazes: path and challenges of engineering and teaching degree students

Parcourir des labyrinthes: trajectoires et défis des étudiants en ingénierie et licences

Recorriendo laberintos: trayectorias y desafíos de estudiantes de ingenierías y licenciaturas

Lindamir Salete Casagrande Angela Maria Freire de Lima e Souza Sobre os autores

Resumo

O objetivo deste artigo é analisar trajetórias de estudantes de engenharias e licenciaturas na Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR - e na Universidade Federal da Bahia - UFBA -, considerando possíveis fatores relacionados ao gênero que impactem nesses percursos. A pesquisa foi realizada em duas etapas, sendo a primeira quantitativa e a segunda, na qual foi baseado este artigo, qualitativa, em que foram entrevistadas/os estudantes de Engenharia Mecânica e Civil e Licenciatura em Letras e Matemática das duas universidades. Com o estudo percebeu-se que há diferença nas trajetórias e desafios enfrentados por homens e mulheres que ousam adentrar em universos acadêmicos socialmente percebidos como reduto do sexo oposto. Mulheres na engenharia e homens nas licenciaturas são os mais expostos a preconceitos e discriminações.

Palavras chave:
Engenharia; Licenciatura; Homens; Mulheres

Abstract

This article analyzes the paths of engineering and teaching degree students at the Federal Technological University of Paraná - UTFPR - and at the Federal University of Bahia - UFBA - considering possible factors related to gender that impact these paths. The study was conducted in two stages, the first was quantitative and the second, in which this article was based, qualitative. Mechanical and civil engineering students as well as language and mathematics teaching students from the two universities were interviewed. The study showed that there are differences in the paths and challenges faced by men and women who dare to enter into academic environments socially perceived as the stronghold of the opposite sex. Women in engineering degrees and men in teaching degrees are the most exposed to prejudice and discrimination.

Keywords:
Engineering; Degrees; Men; Women

RÉSUMÉ

Cet article analyse des trajectoires d’étudiants en ingénierie et en licences d’enseignement à l’Universidade Federal do Paraná - UTFPR - et à l’Universidade Federal da Bahia - UFBA -, tenant compte des facteurs possiblement associés au genre qui ont de l´impact sur ces parcours. La recherche a été réalisée en deux étapes: la première, de nature quantitative, et la seconde, source de cet article, de nature qualitative, ou ont été interrogés des étudiants des cours d’Ingénierie Mécanique et Civile et de licence d’enseignement en Lettres et en Mathématiques des deux établissements ont été interrogés. L´étude montre des différences dans les trajectoires et défis rencontrés par les hommes et femmes qui osent acceder à des univers académiques socialement perçus comme des bastions du sexe opposé. Les femmes en ingénierie et hommes en licence d’enseignement sont souvent exposés à des préjugés et des discriminations.

Mots Clés:
Ingénierie; Licence; Hommes; Femmes

Resumen

El objetivo de este artículo es analizar trayectorias de estudiantes de ingenierías y licenciaturas en la Universidade Tecnológica Federal do Paraná -UTFPR- y en la Universidade Federal da Bahia -UFBA-, considerando posibles factores relacionados al género que impacten en estos recorridos. La investigación se llevó a cabo en dos etapas, siendo la primera cuantitativa y la segunda, en la que se basó este artículo, cualitativa; en ambas se entrevistaron estudiantes de Ingeniería Mecánica y Civil y de Licenciatura en Letras y Matemáticas de las dos universidades. Por medio del estudio es posible darse cuenta que hay diferencia en las trayectorias y desafíos enfrentados por hombres y mujeres que osan ingresar en universos académicos socialmente percibidos como reductos del sexo opuesto. Mujeres en ingeniería y hombres en licenciaturas son los más expuestos a prejuicios y discriminaciones.

Palabras Clave:
Ingeniería; Licenciatura; Hombres; Mujeres

Uma realidade que vem sendo discutida há décadas entre feminista s e estudiosas das relações de gênero na sociedade em geral, no mundo do trabalho e, mais recentemente, no campo da Ciência e Tecnologia é a persistência de hierarquias entre os gêneros no conhecimento, no trabalho, nas relações cotidianas, que aparecem, por exemplo, quando se estabelece socialmente que as profissões mais valorizadas social e financeiramente são destinadas predominantemente aos homens, ou quando as mulheres aumentam sua inserção em determinadas profissões e estas perdem seu status diante da sociedade, passando a ser menos valorizadas. No Brasil, estudos como os de Velho (2006VELHO, Lea. Apresentação. In: SANTOS, Lucy Woellner dos; ICHIKAWA, Elisa Yoshie; CARGANO, Doralice de Fátima. Ciência, tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: Iapar , 2006. p. 9-18.), Lombardi (2006aLOMBARDI, Maria Rosa. Engenheira & gerente: desafios enfrentados por mulheres em posições de comando na área tecnológica. Revista Tecnologia e Sociedade, Curitiba, n. 3, p. 63-86, 2006a., 2006bLOMBARDI, Maria Rosa. Engenheiras brasileiras: inserção e limites de gênero no campo profissional. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. 127, p. 173-202, 2006b.), Lima (2013LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na física. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 3, p. 883-903 set./dez. 2013.), Cabral (2006CABRAL, Carla Giovana. Pelas telas, pela janela: o conhecimento dialogicamente situado. Cadernos Pagu, Campinas, n. 27, p. 63-97, 2006.), Melo e Lastres (2006MELO, Hildete Pereira de; LASTRES, Helena M. M. Ciência e tecnologia numa perspectiva de gênero: o caso do CNPq. In: SANTOS, Lucy. W. et al. (Org.). Ciência, tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: Iapar, 2006.), dentre outros, sustentam a discussão sobre questões que associam o gênero à ciência e tecnologia, o que também ocorre em diferentes contextos, como mostram os trabalhos de Schiebinger (2014SCHIEBINGER, Londa. Expandindo o kit de ferramentas agnotológicas: métodos de análise de sexo e gênero. Revista Feminismos, Salvador, v. 2, n. 3, p. 85-102, set./dez. 2014.), Sedeño (2001SEDEÑO, Eulalia Pérez. Retóricas sexo/género. In: SEDEÑO, Eulalia Pérez; CORTIJO, Paloma Alcalá (Coord.). Ciencia y género. Madrid: Complutense, 2001. p. 417-434 (Philosophia Complutensia, 15).) e Maffía (2002MAFFIA, Diana. Crítica feminista à ciência. In: COSTA, Ana Alice A.; SARDENBERG, Cecilia Maria B. (Org.). Feminismo, ciência e tecnologia. Salvador: UFBA/FFCH, 2002.). Assim, o presente estudo se articula com outros no contexto brasileiro, no sentido de compreender como vem ocorrendo a participação feminina nos cursos universitários que levam a carreiras mais valorizadas socialmente, tais como as engenharias.

Com base nesse argumento pensamos a pesquisa aqui apresentada. Decidimos fazer um estudo comparativo entre as engenharias - profissões valorizadas socialmente e redutos masculinos - e as licenciaturas - carreiras cuja importância tem pouco reconhecimento, pelo menos no aspecto financeiro, por parte de governos e sociedade, e constituem redutos femininos. A inquietação acerca de como ocorria essa escolha e do motivo de tal diferenciação ainda permanecer foi fator motivador para a pesquisa. A escolha dos cursos se deu pelo fato de serem ofertados nos três campi aqui pesquisados e, no caso das engenharias, em função de a Mecânica ser um dos cursos com menor participação feminina e a Civil ter se constituído como a engenharia mais atrativa para as mulheres. Para as licenciaturas, optamos por um curso na área das exatas, a Matemática, que supostamente é uma disciplina masculina, e pelo curso de Letras, que está inserido na área da linguagem e, partindo do mesmo pressuposto, seria reduto feminino. Com a análise desses cursos, acreditamos poder contribuir para a construção de um panorama interessante acerca da participação masculina e feminina em áreas mais atrativas ou receptivas a um dos sexos do que ao outro.

A escolha das universidades se deu devido ao vínculo das pesquisadoras com as duas instituições, sendo que o fato de estarem localizadas em regiões brasileiras com culturas bastante distintas nos beneficiou e também estimulou na proposição desta pesquisa. A Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR - localiza-se na Região Sul do país, que foi colonizada por descendentes de europeus que trouxeram consigo sua cultura, seus modos de viver e de pensar. Já a Universidade Federal da Bahia - UFBA - está inserida no Nordeste brasileiro, com um campus situado em Salvador, a capital com maior incidência de negros no país, marcada fortemente pela cultura africana. Com base nisso, tentamos encontrar similaridades e contrastes sobre a participação masculina e feminina nas duas universidades, bem como identificar se a questão cultural interfere nessas escolhas.

Inicialmente pensamos em pesquisar os dois campi localizados nas capitais, porém, no decorrer do projeto, resolvemos incluir no estudo também o campus Pato Branco, da UTFPR, pois os cursos selecionados também são ofertados nessa cidade. Ao agregar à pesquisa esse campus, acrescentamos mais um cenário ao projeto, uma vez que o mesmo está encravado no sudoeste paranaense.

Assim iniciamos a pesquisa para o estágio pós-doutoral com a finalidade de analisar a participação feminina e masculina nos cursos de engenharia e licenciatura nas duas universidades selecionadas. Neste artigo trazemos uma parcela dos resultados desse estudo, estabelecendo como objetivo analisar as trajetórias de pessoas matriculadas nas engenharias e licenciaturas das duas universidades. Tentaremos evidenciar as dificuldades e facilidades que a vida acadêmica impõe a uns/umas e não a outros/as. Com isso esperamos contribuir para a compreensão dos motivos que levam os cursos de engenharia a terem baixo número de mulheres em seu corpo discente e, por consequência, docente.

Caracterizando os sujeitos da pesquisa

A pesquisa, realizada em 2014, foi composta por duas etapas. A primeira, de cunho quantitativo, baseou-se nos dados oficiais das duas universidades pesquisadas. Para a segunda etapa, que teve enfoque qualitativo, nos valemos de um instrumento experimental, ao qual denominamos de “entrevista virtual”, enviado por e-mail a todos/as os/as estudantes dos cursos e campi selecionados. Tratava-se de um formulário contendo a apresentação da pesquisa e seus objetivos, um quadro para levantamento dos dados socioeconômicos dos/as participantes e cinco perguntas abertas, nas quais não havia nenhuma referência às questões de gênero, pois o objetivo era direcionar o mínimo possível as respostas. Com base nas respostas às perguntas iniciais, foram elaboradas outras para aprofundar a entrevista, agora direcionando para a questão de gênero, que era o foco da pesquisa.

A distribuição dos estudantes por sexo nos cursos e instituições selecionados para esta pesquisa é apresentada nas tabelas 1 e 2. Observase que as mulheres são a minoria nas engenharias pesquisadas, não chegando a 15% dos alunos da Engenharia Mecânica em todos os campi (Tabela 1). A participação feminina na Engenharia Civil é sensivelmente superior àquela verificada na Engenharia Mecânica, porém sempre abaixo da metade do total de estudantes do curso. O campus Pato Branco chama a atenção pelo fato de, na Engenharia Civil, os números relativos à participação masculina e feminina serem muito próximos, com as mulheres correspondendo a 48,3% do total de estudantes no final de 2013, mas é uma exceção. Os dados apresentados nesses cursos convergem com aqueles encontrados em outros estudos realizados em nível nacional (CARVALHO; CASAGRANDE, 2011CASAGRANDE, Lindamir Salete. Entre silenciamentos e invisibilidades: relações de gênero no cotidiano das aulas de matemática. 2011. 261 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2011.; CARVALHO, 2008CARVALHO, Marilia Gomes de. É possível transformar a minoria em eqüidade? SIMPÓSIO GÊNERO INDICADORES DA EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA, 6 e 7 de dezembro de 2007. Brasília, Anais... Brasília: Inep, 2008. v. 1, p. 109-138.; CASAGRANDE et al., 2004CASAGRANDE, Lindamir Salete; SCHWARTZ, Juliana; CARVALHO, Marilia Gomes de; LESZCZYNSKI, Sonia Ana. Mulher e ciência: pioneiras em ciência da natureza. Cadernos de Gênero e Tecnologia, Curitiba, ano 1, n. 1, p. 3-14, 2004.; LOMBARDI, 2006aLOMBARDI, Maria Rosa. Engenheira & gerente: desafios enfrentados por mulheres em posições de comando na área tecnológica. Revista Tecnologia e Sociedade, Curitiba, n. 3, p. 63-86, 2006a., 2006b; CABRAL, 2005CABRAL, Carla Giovana; BAZZO, Walter Antonio. As mulheres nas escolas de engenharia brasileiras: história, educação e futuro. Revista de Ensino de Engenharia, v. 24, n. 1, p. 3-9, 2005.; LIMA E SOUZA, 2011LIMA E SOUZA, Ângela Maria Freire de. Sobre gênero e ciência: tensões, avanços, desafios. In: LIMA E SOUZA, Ângela Maria Freire de; BONETTI, Alinne. Gênero, mulheres e feminismos. Salvador: Edufba, 2011. p. 15-28 (Bahianas).; SOBREIRA, 2006SOBREIRA, Josimeire de Lima. Estudantes de engenharia da UTFPR: uma abordagem de gênero. Curitiba. 2006. 117 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2006.; FARIAS, 2007FARIAS, Benedito Guilherme Falcão de. Gênero no mercado de trabalho: mulheres engenheiras. 2007. 102 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2007.; dentre outros).

Tabela 1:
Estudantes das engenharias, por curso e sexo, segundo instituição - 2013

No que se refere às licenciaturas (Tabela 2), observa-se que os números diferem em relação às engenharias. Em Letras, as mulheres são a maioria nos três campi pesquisados, configurando o curso como um reduto feminino. Em Matemática, observa-se que apenas o campus Pato Branco tem predominância feminina, enquanto nos demais prevalece a presença masculina. Embora a porcentagem de mulheres nesse curso seja superior àquelas encontradas nas engenharias, pode-se dizer que este se mantém como um curso masculino. Com base nesses dados poderíamos concluir que as mulheres são menos afeitas às ciências exatas, mas essa conclusão seria precipitada, uma vez que não considera a forma como esses números foram construídos. A maneira como se estimulam mais os meninos a desenvolverem habilidades de raciocínio, a participarem de brincadeiras mais ativas e criativas, a experimentarem mais e as meninas a se conterem, a desenvolverem habilidades relacionadas com o cuidado, com o afeto certamente interfere nesses números (VELHO, 2006VELHO, Lea. Apresentação. In: SANTOS, Lucy Woellner dos; ICHIKAWA, Elisa Yoshie; CARGANO, Doralice de Fátima. Ciência, tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: Iapar , 2006. p. 9-18.; CASAGRANDE, 2011CASAGRANDE, Lindamir Salete. Entre silenciamentos e invisibilidades: relações de gênero no cotidiano das aulas de matemática. 2011. 261 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2011.). Analisar exclusivamente a quantidade sem levar em conta os contextos social, histórico, financeiro, familiar e cultural é, no mínimo, irresponsável.

Tabela 2:
ESTUDANTES DAS LICENCIATURAS, POR CURSO E SEXO, SEGUNDO INSTITUIÇÃO – 2013

No total, 158 estudantes responderam à pesquisa, sendo 73 homens e 85 mulheres (Tabela 3). O campus Curitiba da UTFPR teve o maior número de respondentes (61), com a Engenharia Mecânica fornecendo o maior número de respostas (24). Na UFBA - Salvador e UTFPR campus Pato Branco, o curso com maior adesão foi de Engenharia Civil, com 19 e 16 respostas, respectivamente. A adesão feminina foi levemente superior quando se considera o total da pesquisa e inferior no que tange aos cursos de engenharia; entretanto, tendo em vista que as mulheres são a minoria dos/as discentes das engenharias, podemos concluir que elas foram significativamente mais aderentes à pesquisa do que os homens.

Tabela 3:
Participantes da pesquisa, por instituição e sexo, segundo curso - 2014

Ao compararmos os dados da Tabela 3 com aqueles apresentados na Tabela 4, percebemos que as mulheres, em números absolutos, são minoria entre os/as participantes da pesquisa nos dois cursos de engenharia das instituições pesquisadas, mas constituem a maioria quando se considera o percentual sobre o total de matriculadas em todos os campi. A razão para a maior aderência proporcional de meninas/moças/mulheres futuras engenheiras ao projeto não foi possível de identificar e também não era o objetivo da pesquisa. Entretanto, pode-se pensar que o tema proposto no projeto foi mais atraente para elas, talvez pelo fato de serem as que sofrem os impactos das desigualdades de gênero nas engenharias. Fato semelhante ocorre quando consideramos as licenciaturas. Apenas em Letras no campus Curitiba (Tabela 4) a participação percentual masculina foi superior à feminina.

Tabela 4:
Porcentagem dos participantes da pesquisa no total de alunos matriculados , por instituição e sexo, segundo curso

Percebe-se que o percentual de participantes nesta pesquisa em relação ao total de alunos matriculados é baixo, indicando que, do ponto de vista estatístico, a pesquisa não tem maior representatividade; porém, como o que nos interessava nessa etapa da pesquisa não era o quantitativo e sim o qualitativo, o que os/as participantes relataram, mesmo que se refira a apenas um/a participante, já aponta para certas representações que podem se concretizar em uma “parede” a mais no labirinto acadêmico e é significativo para uma análise global. Evidentemente os dados aqui apresentados não podem ser generalizados, mas revelam ideias e possíveis manifestações de assimetrias de gênero no campo simbólico, que podem representar verdadeiros labirintos que os/as participantes desta pesquisa precisam percorrer até conseguir sua titulação.

No quesito cor/raça/etnia dos/as participantes, os números da pesquisa apontam que a UTFPR apresenta em seu quadro uma maioria absoluta de brancos/as. Nas licenciaturas, apenas três estudantes se autodenominaram pardos/as e dois negros/as. Na UFBA a predominância nas licenciaturas foi de pardos (cinco homens e seis mulheres) e negros (quatro homens e seis mulheres). Apenas duas estudantes se autodenominaram brancas. Esse fato pode ser explicado quando se considera que a Bahia é o estado brasileiro com maior índice de negros/as e é o segundo em número de autodeclarados/as pardos/as em sua população, enquanto o Paraná tem em sua história a predominância de colonizadores de descendência europeia.

Porém, ao lançar o olhar para as engenharias, nos deparamos com um cenário instigante. O quadro de participantes da pesquisa da UTFPR não se alterou no quesito aqui analisado, ou seja, a UTFPR continua tendo um alunado predominantemente branco. Apenas dois homens e três mulheres se autodeclararam pardos/as e nenhum/a estudante de engenharia dos dois campi afirmou ser negro/a. Já no que se refere à UFBA, percebe-se uma mudança em relação às licenciaturas. Nos dois cursos de engenharia dessa universidade tivemos o seguinte panorama: oito estudantes brancos/as (sete homens e uma mulher); quatro negros/as (três homens e uma mulher); e 16 pardos (11 homens e cinco mulheres). Observa-se, portanto, que a quantidade de negros/as é inferior à de brancos nesses cursos, especialmente na Engenharia Civil, em que seis estudantes se declaram brancos (cinco homens e uma mulher), enquanto na Engenharia Mecânica dois estudantes fizeram essa mesma afirmação. Nos dois cursos a predominância foi de pardos (oito em cada curso). Com base nesses dados, podemos afirmar que cursos mais valorizados social e financeiramente apresentam maior incidência de discentes brancos. Qual a razão disso? Por que temos menos negros/as nesses cursos? São perguntas que permanecerão sem resposta neste estudo.

No que tange à renda familiar dos/as participantes, temos um quadro que aponta para uma elitização dos cursos de engenharia em relação aos de licenciatura. Na Engenharia Civil, a renda familiar da maioria dos/as estudantes curitibanos que participaram da pesquisa está acima de R$ 1.501 e, no caso dos patobranquenses, varia entre R$ 1.501 e R$ 5.000. As famílias dos estudantes de Salvador apresentam renda acima de R$ 5.000. Quanto à Engenharia Mecânica, a maioria das famílias dos/as estudantes de Curitiba e Salvador tem renda superior a R$ 5.000. Em Pato Branco a faixa de renda familiar predominante é entre R$ 1.501 e R$ 5.000. Ou seja, na amostra da Bahia, a predominância é de famílias com renda superior a R$ 5.000 nos dois cursos pesquisados, caracterizando famílias com condição financeira razoavelmente boa. Esses resultados levam ao questionamento dos motivos pelos quais estudantes oriundos de famílias com renda familiar inferior não estão matriculados/ as nesses cursos. Os dados apontam, portanto, para uma elitização dos cursos de engenharia nas duas universidades.

Já para as licenciaturas observa-se um quadro diferente. No curso de Letras a renda familiar varia de acordo com o campus. Em Curitiba a predominância é de estudantes de famílias com renda superior a R$ 1.500 e, em Pato Branco, entre R$ 500 e R$ 5.000. Em Salvador, a maioria das famílias dos/as estudantes de Letras sobrevive com renda inferior a R$ 1.500. No curso de Matemática, verificou-se uma similaridade entre os três campos, com a predominância de renda entre R$ 1.501 e R$ 5.000. Há uma nítida diferença de classe entre estudantes de Letras do Paraná e da Bahia, bem como entre estudantes de Letras e Engenharia, de modo especial na UFBA.

Proporcionalmente ao número de estudantes matriculados/as nas universidades pesquisadas, a adesão foi pequena, mas forneceu dados interessantes que permitiram traçar um perfil acerca das escolhas pelos cursos de engenharia e licenciatura, das dificuldades de acesso e permanência no meio universitário, dos preconceitos e discriminações sofridos pelos/as estudantes, das expectativas futuras, do impacto da maternidade e da paternidade na vida acadêmica e profissional, dentre outros aspectos importantes da vida acadêmica. Aqui apresentaremos alguns dados da pesquisa que proporcionam uma visão geral dos resultados.

A escolha dos cursos

Dos motivos mencionados pelos/as estudantes para a escolha do curso universitário, o mais apontado foi a vontade própria. A maioria afirmou que não houve interferência de outras pessoas para essa escolha, porém muitos/as indicaram que, após a opção ser feita, obtiveram o incentivo dos familiares. Fato importante a se destacar é que, entre esses familiares, foram indicados pais, irmãos, tios e primos; as mulheres das famílias raramente foram citadas, por ambos os sexos. Na fala de Bruno fica evidente a presença masculina entre as pessoas que influenciaram sua escolha. Nenhuma mulher foi citada. Pode-se imaginar que, quando ele fala em família, as mulheres estão inclusas, entretanto de forma oculta. Restou-nos a indagação dos motivos que levaram a esse silenciamento e invisibilidade das mulheres das famílias. Onde elas estavam? Por que não foram lembradas? Elas realmente não tiveram importância?

Quando perguntamos sobre a influência de familiares nas escolhas acadêmicas, tivemos respostas interessantes dos sujeitos da pesquisa. Bruno (Engenharia Mecânica, Pato Branco) mencionou: “Tio, e alguns primos (todos engenheiros) a família também apoiava a escolha pela engenharia”.

Já no relato de Agatha percebe-se com nitidez a influência do pai sobre sua escolha acadêmica. Entretanto, deve-se destacar que a estudante ofereceu uma certa resistência em afirmar categoricamente a interferência do pai, porém acabou reconhecendo que a opinião dele foi decisiva. Velho e Leon (1998VELHO, Lea; LEÓN, Elena. A construção social da produção científica por mulheres. Cadernos Pagu , Campinas, n. 10, p. 309-344, 1998.) apontam o pouco incentivo dos familiares como um fator de grande influência para a escassa presença feminina nas engenharias. Dessa forma, o pai de Agatha contrariou esse argumento ao incentivá-la a fazer essa escolha.

R: A principal influência que tive em minha família foi a do meu pai, pois este era um dos desejos dele, conversamos diversas vezes até o momento em que aceitei iniciar um curso da área de engenharia.

P: Você foi convencida por ele?

R: Acredito no poder de decisão através de nossas escolhas, mas sim, meu pai exerceu forte influência nessa escolha, pois quando aceitei cursar engenharia mecânica, eu estava cursando História há um ano e meio (quando manifestei meu interesse por história ele me disse “Eu não quero que você vá”, mas eu insisti e fui) claro meu pai me ajudava, mas sempre falava sobre outras opções na área de exatas até quando aceitei cursar engenharia mecânica (e sim, ele ficou muito feliz quanto aceitei a ideia de trocar de área). (Agatha, Engenharia Mecânica, Pato Branco) Diversas alunas dos cursos de engenharia dos três campi mencionaram que ouviram comentários de estranheza pela sua escolha, como se engenharia não fosse curso para elas. As pessoas pensam que “as mulheres não têm capacidade intelectual para engenharia” nos relata Julia Maria, estudante de Engenharia Civil de Curitiba. Comentários como “nossa, mas esse curso é muito difícil” (Ana, Engenharia Mecânica, Curitiba) são ouvidos apenas por mulheres das engenharias.

O depoimento de Maira é marcante, pois evidencia a ideia de que ela precisaria de ajuda para poder se manter no curso e posteriormente se inserir no mercado de trabalho e esse foi o foco das preocupações familiares. O que aparentemente era um cuidado familiar com o futuro de Maira, traz nas entrelinhas a ideia de que ela não seria capaz de enfrentar sozinha essa caminhada e, por ser mulher, precisaria de alguém que a ajudasse.

P: Teve alguém que te incentivou ou influenciou a escolher este curso?

R: Não, na verdade tentaram me influenciar a não fazer.

P: Por que te desestimularam? Quem o fez?

R: Por ser considerado o estereótipo de curso “masculino”, meu pai me desestimulou, e em geral minha família, por não ter ninguém nessa área que pudesse me ajudar, ou aconselhar. Mas quando decidi prestar vestibular para esse curso, tive apoio de todos. (Maira, Engenharia Civil, Salvador)

Também causa estranheza o fato de homens escolherem licenciatura em Matemática. No senso comum, para fazer Matemática a pessoa precisa ser inteligente e, se é inteligente, deveria cursar algo mais valorizado social e financeiramente como as engenharias. Esse argumento fica evidente no depoimento de Elias (Matemática, Salvador):

O que eu consigo depreender dos comentários que já ouvi é que, em geral, as pessoas consideram um aluno de licenciatura em Matemática uma pessoa inteligente, mas que, até por isso mesmo, deveria estar fazendo algum curso que desse mais retorno financeiro. A maioria não compreende o porquê de alguém resolver fazer um curso de Matemática, o qual, no entender delas, é um curso difícil e com pouco retorno financeiro, ou seja, um curso cujo custo/benefício é bastante ruim. Até agora, ninguém me chamou de maluco, mas fico com a sensação de que muitos me consideram um sujeito sem ambição, alienado, sem apego às questões materiais, opinião escondida em comentários como: “É... você gosta de estudar mesmo, né? Fazer um curso desse, só pra quem gosta mesmo...”

A opção de um homem pela licenciatura em Letras também causa espanto de modo especial nos campi da UTFPR, que tem tradição na área tecnológica. O próprio curso de Letras sofre preconceito, pois, para muitos, essa universidade não é o lugar dele. Alex evidencia em seu depoimento a estranheza que gera a escolha por Letras na UTFPR, porém destaca que, após sua insistência e entrada no curso, seus familiares passaram a admirá- -lo e demonstram orgulho de ter um futuro professor em sua família.

P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a fazer este curso?

R: Apenas os meus professores, aliás, meus pais queriam que eu fizesse um curso voltado para as exatas, já que a UTFPR traz muitas opções de engenharias...

P: São cursos bastante diferentes do que você escolheu. Como foi a reação deles quando você comunicou a decisão?

R: Agora eles me apoiam, quando os amigos do meu pai vão lá em casa ele sempre comenta que eu curso Letras e serei professor, sinto que ele tem orgulho... (Alex, Letras, Pato Branco)

A maioria dos/as estudantes de engenharia apontou que um dos incentivadores a seguir essa carreira foi o fato de gostarem da área de exatas. O amor e aptidão pela Matemática e Física influenciaram e definiram a escolha. Nenhum/a estudante de engenharia afirmou não gostar das exatas. Embora estudos como o de Marcia Barbosa de Menezes e Ângela Maria Freire de Lima e Souza (2013MENEZES, Marcia Barbosa; LIMA E SOUZA, Ângela Maria Freire de. Escolhas marcadas pelo gênero - sobre o ingresso de jovens mulheres e homens nos cursos de graduação da área de exatas na UFBA. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES, 3., 2013, Salvador. Anais... Salvador: Uneb, 2013. Disponível em: <Disponível em: http://www.uneb.br/enlacandosexualidades/files/2013/06/Escolhasmarcadas-pelo-g%C3%AAnero-%E2%80%93-sobre-o-ingresso-de-jovens-mulheres-e-homens-nos-cursos-degradua%C3%A7%C3%A3o-da-%C3%A1rea-de-Exatas-na-UFBA.pdf >. Acesso em: 11 maio 2016.
http://www.uneb.br/enlacandosexualidades...
) e de Maria Rosa Lombardi (2006aLOMBARDI, Maria Rosa. Engenheira & gerente: desafios enfrentados por mulheres em posições de comando na área tecnológica. Revista Tecnologia e Sociedade, Curitiba, n. 3, p. 63-86, 2006a.) apontem que em determinados ambientes e contextos acadêmicos ainda permanece a crença de que as mulheres têm menos aptidão ou apreço por matemática, ou que as exatas não representam um espaço acolhedor para as mulheres, esse não foi o caso das participantes desta pesquisa. Assim, apesar de certos testes internacionais como o Pisa apresentarem como resultado menor desempenho das mulheres em Matemática, conforme afirmam Menezes e Lima e Souza (2013MENEZES, Marcia Barbosa; LIMA E SOUZA, Ângela Maria Freire de. Escolhas marcadas pelo gênero - sobre o ingresso de jovens mulheres e homens nos cursos de graduação da área de exatas na UFBA. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENLAÇANDO SEXUALIDADES, 3., 2013, Salvador. Anais... Salvador: Uneb, 2013. Disponível em: <Disponível em: http://www.uneb.br/enlacandosexualidades/files/2013/06/Escolhasmarcadas-pelo-g%C3%AAnero-%E2%80%93-sobre-o-ingresso-de-jovens-mulheres-e-homens-nos-cursos-degradua%C3%A7%C3%A3o-da-%C3%A1rea-de-Exatas-na-UFBA.pdf >. Acesso em: 11 maio 2016.
http://www.uneb.br/enlacandosexualidades...
, p. 4), com base no argumento de Fine (2010FINE, Cordelia. Delusions of gender: how our minds, society, and neurosexism create difference. New York: W.W. Norton, 2010.), “testes usados para medir as capacidades e habilidades matemáticas estão generificados” e, portanto, devem ser problematizados antes de tomar seus resultados como a expressão única da verdade. O “amor pelas exatas” fica evidente nos depoimentos tanto de homens quanto de mulheres, como no caso de Bruno e Fernanda. Ela agrega à sua fala o fato de a carreira de engenheira oferecer-lhe a expectativa de ter um futuro bom, com boa remuneração, ideia compartilhada com Maria. Já Bruno acrescenta o fato de gostar de máquinas como relevante para a sua escolha.

P: Quais os motivos/razões que levaram você a escolher este curso?

R: Facilidade com exatas, Paixão pelas máquinas e influência familiar. (Bruno, Engenharia Mecânica, Pato Branco)

R: Facilidade com área de exatas e expectativa de um futuro bom.

P: Teve alguém que te influenciou ou estimulou a ingressar neste curso?

R: Meus pais sempre me apoiaram e tive liberdade de escolher o curso que quisesse, mas ninguém me influenciou. Escolhi engenharia por gostar mesmo das matérias relacionadas e porque o curso tem grandes chances de me oferecer um futuro melhor. (Fernanda, Engenharia Civil, Salvador)

R: Interesse pela área, boa colocação no mercado, oportunidades de vagas disponíveis em boas empresas, boa remuneração. (Maria, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Helena e Lisandra apontam a curiosidade como um elemento importante nas suas escolhas pelos cursos de Engenharia Civil e Mecânica, respectivamente. Esses depoimentos remetem ao argumento de Velho (2006VELHO, Lea. Apresentação. In: SANTOS, Lucy Woellner dos; ICHIKAWA, Elisa Yoshie; CARGANO, Doralice de Fátima. Ciência, tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: Iapar , 2006. p. 9-18.) de que a socialização exerce importante papel nas escolhas profissionais de homens e mulheres. Cabe destacar que, segundo a autora, os meninos são mais estimulados a desenvolverem brincadeiras criativas desde sua infância. É importante encontrar essa característica em mulheres, o que indica que a socialização diferenciada não foi capaz de inibir a criatividade e a curiosidade dessas meninas/moças/mulheres.

R: Os principais motivos que me levaram a escolher o curso foram a afinidade com a área de exatas, principalmente matemática e física, além de que sou muito curiosa sobre como as coisas são feitas, o que me leva a ter muito interesse na construção de prédios, pontes, estradas, etc. (Helena, Engenharia Civil, Curitiba)

R: Escolhi cursar engenharia mecânica porque, além de gostar da área de exatas, eu sempre tive ânsia e curiosidade para entender como tudo funciona; e sempre gostei de criar/consertar coisas para mim e para as pessoas a minha volta. (Lisandra, Engenharia Mecânica, Salvador)

Por outro lado, entre os estudantes de Letras, apresentaram-se como fatores relevantes na escolha o prazer em ensinar e o gosto pela leitura e literatura.

Sempre gostei de literatura portuguesa e da língua inglesa, também pretendo ser professor. (Alex, Letras, Pato Branco)

Nenhum/a participante afirmou ter escolhido o curso por ser mais adequado a pessoas de seu sexo. Não foi possível perceber diferenças significativas entre os motivos que levaram homens e mulheres a optarem por um ou por outro curso. Sendo assim, na opinião dos/as participantes, o sexo não é definidor do curso que irão seguir.

Desafios da permanência

Ao serem questionados sobre as dificuldades e facilidades para a permanência na universidade, inicialmente os/as estudantes indicaram a questão de infraestrutura, o fato de a universidade ser gratuita, os professores (tanto de forma positiva quanto negativa), enfim, coisas mais relacionadas com o geral do que com o pessoal. Porém esse não era o objetivo da pesquisa. Então partimos para perguntas que abordavam as questões de gênero. Dentre as respostas surgiram as indicações de que o meio universitário pode ser cruel com os/as estudantes que fogem ao padrão do que é visto como normal. As mulheres que optaram por engenharia foram as que mais relataram ocorrência do que Pierre Bourdieu (1999BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.) denominou de violência simbólica no discurso de colegas, de professores e da sociedade como um todo.

Diversas questões atingem as mulheres que optam por engenharia. O depoimento de Amanda reúne uma série de barreiras que se impõem às futuras engenheiras e que não são enfrentadas pelos homens que fazem o mesmo curso. Nesse relato pode-se perceber o questionamento da sexualidade, da capacidade intelectual, da estética, do estar fora de lugar, bem como o surgimento do que Betina Stefanello Lima (2013LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na física. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 3, p. 883-903 set./dez. 2013.) denominou de “labirinto de cristal”. Trata-se de obstáculos não formais que dificultam a trajetória feminina nas ciências e no mercado de trabalho como um todo. Percebe-se que esses obstáculos passam a frequentar a vida das mulheres desde muito cedo e sem dúvidas interferem para a pouca presença de mulheres em carreiras reconhecidas social e financeiramente.

R: Porém, infelizmente ainda existe, já aconteceu comigo algumas vezes de uma pessoa perguntar que curso eu faço e quando eu falo que faço Engenharia Mecânica tenho como resposta: “Nossa é curso muito difícil”, como se uma mulher não fosse inteligente para fazer uma engenharia.

P: Como você se sente e reage a estes comentários?

R: Sinto-me decepcionada com a completa ignorância de algumas pessoas que acreditam que Eng. Mecânica só pode ser feita por homens e se sentem tão abismados quando uma mulher está fazendo o curso. (Ana, Engenharia Mecânica, Curitiba)

No depoimento de Ana, percebe-se que a capacidade intelectual das mulheres é questionada. O curso é difícil para ela, ou seja, ela não tem capacidade para frequentar esse curso. Tais argumentos evidenciam que, na opinião de muitas pessoas, uma mulher na Engenharia Mecânica é uma estranha no ninho, está fora de lugar. Em seu relato, fica evidente que Ana tem consciência dessas manifestações de preconceito e não se mostra passiva nesse processo, tendo forças para reagir. No entanto, ela mostra a decepção com essa ideia corrente numa parcela da população. Esse episódio remete ao argumento de Valerie Walkerdine (1995WALKERDINE, Valerie. O raciocínio em tempos pós-modernos. Educação & Realidade , Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 207-226, jul./dez. 1995.) quando a autora argumenta que as mulheres são acusadas de não pensarem e igualmente condenadas quando o fazem. Ana tem capacidade e vontade de cursar Engenharia Mecânica, porém, as críticas que recebe evidenciam que ela é condenada por ousar adentrar nesse universo que é, supostamente, destinado e adequado aos homens.

Os homens das licenciaturas, de modo especial no caso de Letras, também foram vítimas de preconceito e discriminação que dificultavam sua permanência nos cursos. A sexualidade e a capacidade desses homens são questionadas por estudantes de outros cursos. Os relatos de Dina e Lai evidenciam o questionamento sobre a sexualidade desses rapazes que adentram um universo onde as mulheres são predominantes.

P: Você acredita que há uma preocupação de que a sexualidade deles seja questionada pelo fato de estarem em um curso predominantemente feminino?

R: Sim, acredito. Dos poucos homens que tive contato no curso, já ouvi relatos de que, às vezes, as pessoas desconfiam da sexualidade só pelo fato de estarem cursando Letras.

P: Como você acha que eles se sentem?

R: Não sei responder por eles, mas acredito que para um homem heterossexual ter sua sexualidade colocada à prova não é agradável. (Dina, Letras, Salvador)

Além do quê, há a falácia de pensar que todo homem que faz Letras é homossexual. O que, ao meu ver, afasta possíveis interesses por parte de alguns rapazes por conta desse achismo. [...] tenho amigos que relatam que logo que ingressaram na faculdade deixaram claro que não eram gays, até como forma de socialização com as mulheres. (Lai, Letras, Salvador)

É importante frisar que esses fatos e comentários direcionados aos homens e às mulheres que ousam transgredir as normas e adentrar em universos que se apresentam como redutos do outro sexo se constituem em manifestações de violência simbólica e estiveram presentes nos depoimentos da maioria dos/as participantes. Lembramos que a violência simbólica nem sempre é percebida pelas vítimas. Concordamos com Pierre Bourdieu (1999BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999., p. 7) quando ele afirma que a violência simbólica

[...] é uma violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento.

A maioria afirmou que isso não aconteceu com eles/as, ou que não tinha importância, que era levado na brincadeira, enfim, que era algo menor. Isso é perceptível nos depoimentos de Pedro e Amanda, sobre o questionamento da sexualidade pelo simples fato de terem escolhido um curso que é predominantemente frequentado por pessoas de outro sexo. Pedro menciona que isso é brincadeira. Essa é a desculpa dada pela maioria dos/as agressores/as flagrados/as em momentos de comentários preconceituosos. A frase tradicional é “Eu estava só brincando!”. É importante frisar que a brincadeira só acontece quando todos/as se divertem. Se a diversão de uns/umas causa a dor e o sofrimento de outros/as, isso não é brincadeira, é bullying, é violência (CASAGRANDE; TORTATO; CARVALHO, 2011CASAGRANDE, Lindamir Salete. Entre silenciamentos e invisibilidades: relações de gênero no cotidiano das aulas de matemática. 2011. 261 f. Tese (Doutorado em Tecnologia) - Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2011.). Se esses comentários não tivessem importância, dificilmente seriam relatados pelos/as participantes. Em seu relato, Amanda afirma que tais comentários não a incomodam. Aqui podemos estar nos deparando com o que Lima (2013LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na física. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 3, p. 883-903 set./dez. 2013.) denominou de a negação da dor. Afirmar que os comentários preconceituosos não a atingem pode ser um mecanismo de defesa, uma forma de sobreviver naquele ambiente hostil.

Até hoje, nada que seja algo levado a sério, até porque elas vêm de meus amigos, por exemplo: “as menininhas de civir”, “civil só tem menininhas”, até já ouvia antes de mudar de curso, mas sei que é tudo brincadeira, nada que se leve a sério. (Pedro, Engenharia Civil, Pato Branco)

R: Algumas, principalmente que mulher que faz civil é tudo lésbica, ou que é o curso com a maior concentração de mulher feia, por ser serviço de homem, ou que mulher deveria fazer arquitetura e desenhar casinha de boneca.

P: Como é ter a sexualidade questionada pelo simples fato de cursar Engenharia?

R: Não é algo que me incomoda, pois não dou ouvidos, mas acho uma brincadeira de mau gosto, pois é uma forma de preconceito. (Amanda, Engenharia Civil, Pato Branco)

O depoimento de Pedro apresenta outro dado importante. Ele é aluno de Engenharia Civil do campus Pato Branco da UTFPR. Lembramos que esse curso apresentava, em 2013, 48,3% de mulheres no quadro discente e recebeu dos demais estudantes da Universidade o apelido de curso de menininhas, ou seja, teve seu status reduzido pelo ingresso de mais mulheres e deixou de ser um curso adequado aos homens. Aqui fica evidente a distinção feita por Silvia Yannoulas (2011YANNOULAS, Silvia. Feminização ou feminilização? Apontamentos em torno de uma categoria. Temporalis, Brasília, DF, ano 11, n. 22, p. 271-292, jul./dez. 2011., p. 271) entre os termos feminilização e feminização. Para a autora, o aumento quantitativo de mulheres em determinada área denomina-se feminilização e o aspecto qualitativo “que alude às transformações de significado e valor social de uma profissão ou ocupação em decorrência de um aporte maior de mulheres nessa profissão ou ocupação” denomina-se feminização. Considerando a situação da Engenharia Civil em Pato Branco, é possível inferir que estamos diante de um caso de feminilização do curso, que pode ter sido percebida como feminização por estudantes daquele campus e, por consequência, acarretando a desvalorização do mesmo e a transformação em lugar impróprio para os rapazes/homens.

Outro fato a se destacar aparece no depoimento de Ricardo, ao comentar que o ingresso de mais mulheres no curso é visto com bons olhos pelos colegas. Porém, tal consideração não se deve à capacidade intelectual delas, ou ao fato de os jovens acreditarem que isso pode melhorar o curso, ou porque reconheçam que esse é um espaço de direito delas, mas sim porque percebem uma possibilidade de flerte ou de namoro com as colegas. Elas não são percebidas como estudantes de engenharias, como futuras engenheiras, mas sim como objeto para satisfazer as vontades e os desejos dos homens.

P: Essa valorização é feita por quem? Como ocorre?

R: Quando eu citei valorização, devia ter escrito entre aspas, pois não é uma valorização que vem de um esforço físico e mental, por mérito, e sim apenas um interesse de gênero. Por exemplo, como os cursos de Engenharia têm uma grande maioria de estudantes masculinos, a presença do feminino lá é vista muitas vezes como uma forma de interagir e se envolver fisicamente, como pra “pegar” ou “ficar”, infelizmente. Por esse motivo que, inicialmente, a presença de mulheres é festejada. Só ao longo do curso que isso é desconstruído. (Ricardo, Engenharia Civil, Salvador)

Outra forma de manifestação do preconceito com relação às mulheres que cursam engenharia diz respeito à aparência física. Esses comentários são explícitos, como mostra o depoimento de Estela, podendo- se perceber que há uma percepção equivocada do que é o curso de Engenharia Mecânica. A preocupação com a graxa, com os cabelos e unhas só se apresenta com relação às mulheres. Trata-se de comentários desnecessários e que servem para dizer, de forma disfarçada, que aquele não é um lugar para elas.

P: Você já ouviu alguma piada ou comentário desagradável com relação às mulheres na engenharia?

R: Das pessoas da Universidade, não. Mas de pessoas de fora, sim. Piadas do tipo: “Ah! Vai fazer Engenharia Mecânica?! Vai sujar as unhas de graxa, vai manchar o cabelo, vai crescer bigode...” (Estela, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Nos depoimentos de Maria e Estela evidencia-se uma percepção totalmente equivocada, preconceituosa e até maldosa sobre as futuras engenheiras. Dizer que o fato delas terem escolhido esses cursos que são social e culturalmente mais valorizados faz com que apareça bigode em suas faces é um comentário absurdo e constitui uma forma de tentar desmotivar essas mulheres, o que pode ter feito com que algumas tenham desistido da carreira. É importante frisar que os dados aqui apresentados foram fornecidos por pessoas que estão na universidade.

Não podemos esquecer que muitas pessoas abandonam o curso no meio do caminho. Segundo o depoimento de Melissa, esses comentários preconceituosos são uma das causas para esses abandonos.

P: Você em algum momento sentiu algum preconceito pelo fato de ser uma mulher na Mecânica?

R: Não, mas já ouvi comentários sobre outras garotas da Mecânica terem bigode ou algo do tipo, às vezes parece que a aparência da menina é o principal, e a dos homens, outros atributos vêm primeiro para “julgá-los”. Não sei se dá para generalizar dessa forma, mas em comparação com meu outro curso, parece que a aparência das meninas é bem determinante, já que elas são poucas. (Maria, Engenharia Mecânica, Curitiba)

R: Sim. Que são feias ou que são machos. Na verdade, as minhas colegas de curso são na sua grande maioria muito bonitas. Mas muitas de fato não se permitem serem muito femininas. Talvez para não parecerem fracas. (Murilo, Engenharia Mecânica, Salvador)

R: Já escutei muita pergunta ridícula quando eu digo que faço engenharia mecânica. E as que desistem depois de estar no curso normalmente é pelo preconceito sofrido dentro da faculdade, por alguns professores e colegas. (Melissa, Engenharia Mecânica, Pato Branco)

Trata-se de um foco excessivo sobre a aparência das mulheres, sobre a necessidade de se adequar a um padrão de beleza construído pelos meios sociais, pela mídia e imposto às mulheres. Esse fato causa dor e uma busca incessante para atingir um padrão de beleza que é exagerado. Segundo Gisele Flor (2010FLOR, Gisele. As revistas femininas e o imaginário do corpo perfeito. Revista CoMtempo, São Paulo, v. 2, ano 2, dez. 2010. Disponível em: <Disponível em: http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/ comtempo/article/viewFile/7493/6914 >. Acesso em: 2 jun. 2016.
http://www.revistas.univerciencia.org/in...
), os meios de comunicação são importantes ferramentas para a construção e propagação de um padrão de beleza que, na maioria das vezes, é inatingível. No caso das estudantes de engenharia, o desconforto proporcionado por comentários como os citados por Maria e Murilo constitui mais uma barreira do “labirinto de cristal”.

Por outro lado, quando as estudantes chegavam à universidade depois de ter feito algum tratamento nos cabelos ou cuidado das unhas, elas eram acusadas de estarem desperdiçando seu tempo com futilidades, em vez de estarem trabalhando e estudando. Esse fato transparece no depoimento de Lisandra.

Teve um dia que estava trabalhando na oficina do projeto que participo e que eu estava com cabelo pranchado e unhas pintadas e ouvi “Acho que você deveria estar trabalhando e não cuidando da beleza”. (Lisandra, Engenharia Mecânica, Salvador)

O depoimento de Lucas mostra que Walkerdine (1995WALKERDINE, Valerie. O raciocínio em tempos pós-modernos. Educação & Realidade , Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 207-226, jul./dez. 1995.) tinha razão em seu argumento de que as mulheres são condenadas quando pensam. O nerd que aparece no relato é utilizado de forma pejorativa, sendo uma maneira de dizer que aquelas meninas são estranhas, fogem do padrão de feminilidade. No que se refere à estética, podemos perceber que as estudantes de engenharia são acusadas de serem feias e condenadas quando cuidam de sua aparência.

Costumo ouvir o tipo de piada que apenas mulheres muito “nerds” ou feias são as que fazem engenharia e que se forem bonitas, costumam ir para a área de saúde. (Lucas, Engenharia Civil, Salvador)

Os comentários desagradáveis vêm, na maioria das vezes, de colegas de turma ou estudantes de outros cursos, porém, alguns professores contribuem para que a trajetória das mulheres na engenharia seja dificultada e às vezes até impedida. O depoimento de Almeida mostra essa situação. Se o comportamento dos colegas já é difícil de ser enfrentado, pode-se imaginar o peso do preconceito quando este vem de um professor, responsável pela avaliação da disciplina, a qual muitas vezes é subjetiva.

R: Sim, já ouvi de um professor em sala de aula, “engenharia mecânica é pra homem”.

P: Como você acha que as mulheres se sentem em um curso com tantos homens a sua volta?

R: Acho que se sentem desafiadas, por serem minorias e se dedicam mais que os homens. (Almeida, Engenharia Mecânica, Salvador)

A possibilidade de estágio ou bolsa de iniciação científica também é limitada por conta do preconceito de alguns/mas professores/as. Os depoimentos de Mariana e Aline evidenciam esse fato. Sabe-se que o estágio e a iniciação científica são importantes etapas na formação dos/as futuros/as profissionais. Quando essas atividades são negadas a uma parcela do quadro discente pelo simples fato de o/a responsável pela seleção preferir pessoas de determinado sexo, não se está proporcionando as mesmas oportunidades de crescimento a todos/as os/as estudantes.

Acredito que ainda existe muito preconceito dos professores do sexo masculino em relação às mulheres que fazem o curso, além disso, algumas vagas de estágio são direcionadas somente ao sexo masculino. Portanto, as bolsas dentro da faculdade assim como as de estágio são mais restritas para as mulheres, dificultando nossa permanência no curso e nossa inserção no mercado de trabalho. (Mariana, Engenharia Civil, Curitiba)

R: Sim! Na hora de arrumar estágios, pois várias vagas são apenas para homens. E as piadas machistas dos próprios professores são bem ofensivas.

P: Os professores fazem piadas de que tipo? Como você reage a estas piadas?

R: “Lugar de mulher é atrás do fogão” ou “Até a mulher consegue!”. Eu fico revoltada, mas não falo nada, afinal, infelizmente, esses tipos de professores são muito parciais na hora da correção de provas. (Aline, Engenharia Civil, Curitiba)

Uma frase a se destacar na fala do professor reproduzida por Aline é “Até a mulher consegue”. Pode-se interpretar que, na opinião do professor, se até um ser inferior, com menos capacidade intelectual e motora consegue fazer, um homem, ser superior, tem que conseguir. A frase manifesta uma depreciação das capacidades e habilidades femininas mesmo quando a intenção é chamar a atenção de um homem por não ter conseguido desempenhar uma tarefa.

No relato de Ana fica evidente que a preferência por estudantes de determinado sexo para estágio ou iniciação científica pouco tem a ver com o trabalho a ser desenvolvido. Percebe-se em seu depoimento que o professor, mesmo preferindo um homem, acabou contratando-a e ela deu conta do trabalho. Ou seja, não havia a necessidade de ser um homem, era apenas um pré-conceito, uma suposição. Porém essas suposições se apresentam como obstáculos que limitam a trajetória feminina e não são colocados para os homens. Cabe destacar que Ana havia sido vítima de uma situação de desrespeito numa tentativa anterior de conseguir um estágio, por isso ela fala em duas experiências.

Na entrevista o professor foi muito educado, não me menosprezou como o primeiro, mas disse que precisava de um homem porque o projeto de IC necessitava da preparação de corpos de prova na área de fabricação e ele achava que iria ser muito puxado para uma mulher. Ele me dispensou e disse que se ele não encontrasse um homem ele me enviava um e-mail. Por fim, no dia seguinte o professor me mandou um e-mail e eu fui aceita para participar do projeto. Eu ainda continuo trabalhando com esse professor. Foram duas experiências que passei que demostram que ainda existe essa mentalidade de a mulher ser fraca e que não vai conseguir fazer as mesmas atividades feitas pelos homens. (Ana, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Outra forma de demonstrar preconceito por parte de professores aparece no depoimento de Nikole. O tratamento diferenciado dispensado por professores às mulheres nas engenharias pode, numa análise preliminar, ser considerado uma forma de incentivá-las a permanecer no curso, porém, na percepção dessas alunas, trata-se de uma maneira de dizer que elas são menos capazes e por isso precisam de um tratamento diferenciado, de uma ajuda extra para conseguir se manter no universo acadêmico. O depoimento de Maria permite que se faça a leitura de que essa presteza pode indicar, além do que citamos anteriormente, um interesse que não seja só acadêmico, e até assédio sexual.

P: Mecânica é um curso com predominância de homens. Como é para uma mulher se manter neste curso com tantos homens a volta?

R: Sempre tive mais amigos do que amigas, então o choque não é muito grande. No entanto, sem dúvida alguma o machismo ainda predomina neste meio, não apenas pela parte dos colegas, mas pelos próprios professores que chegam até a pegar mais leve com as mulheres. Eu encaro isto como um insulto as minhas capacidades! (Nikole, Engenharia Mecânica, Curitiba)

R: Eu acho que sim, mas já ouvi falar de professores que são mais prestativos com alunas. (Maria, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Podemos perceber que as mulheres foram as principais vítimas da violência simbólica praticada por colegas e professores e que elas tinham consciência disso, reagindo quando esta vinha dos colegas, mas se calando quando o autor era o professor. Esse silenciamento não significava submissão ou aceitação do fato como normal, mas sim uma estratégia para poder concluir o curso. Porém, cabe ressaltar que essas dificuldades impostas às mulheres e aos homens que ousam atravessar a fronteira e ingressar em cursos que supostamente são destinados a pessoas do outro sexo são desnecessárias e prejudicam a vida acadêmica e o desenvolvimento da sociedade como um todo.

Expectativas futuras

Quando questionados/as acerca de como se viam daqui a dez anos, a maioria se mostrou bastante otimista. Salientamos que se entende por expectativa profissional o “processo contínuo, fruto de sua pertinência a um grupo social em que concretiza as relações de produção de si mesmo e da realidade na qual se insere” (MACÊDO; ALBERTO; ARAUJO, 2012MACÊDO, Orlando Júnior Viana; ALBERTO, Maria de Fátima Pereira; ARAUJO, Anísio José da Silva. Formação profissional e futuro: expectativas dos adolescentes aprendizes. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 29, p. 779-787, 2012. Suplemento., p. 781). Dessa forma, entende-se que as expectativas dos/as participantes foram construídas com base no meio em que estão inseridos e naquilo que a sociedade espera de cada um/a. Pode-se inferir que o sucesso profissional depende da capacidade de cada um, do esforço e dedicação pessoal, porém, não se pode deixar de considerar a influência do meio, da socialização, dos estímulos ofertados a cada um/a. Alguns/mas estudantes das engenharias manifestaram a expectativa de estar bem empregado e com boa remuneração, como se pode perceber nos depoimentos de Murilo, Amanda e Nina.

Trabalhando para uma multinacional, com bom salário, com casa e carro próprios. (Murilo, Engenharia Mecânica, Salvador)

Num trabalho que faça sentido em termos de utilidade e visão social, situação estável financeira e casada com filhos. (Nina, Engenharia Civil, Pato Branco)

Uma carreira definida, com trabalho que eu goste que me traga realização, que gere estabilidade e uma condição financeira confortável convivendo com uma vida pessoal tranquila, família, filhos... (Amanda, Engenharia Civil, Curitiba)

Outros/as estudantes pretendem conciliar a vida pessoal com a maternidade e/ou paternidade. Esse desejo foi manifestado tanto por homens quanto por mulheres, como demonstram os depoimentos a seguir.

Formada, seguindo minha carreira profissional, com filhos e bem- -sucedida financeiramente. (Estela, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Trabalhando. Ganhando bem. De preferência em algum órgão público federal. Casado e com filhos. (Du, Engenharia Civil, Pato Branco)

O desejo de ser dono/a do próprio negócio também apareceu nas expectativas dos/as futuros/as engenheiros/as.

Espero estar empregado, com carteira assinada com devido título de engenheiro, fazendo uma boa economia para abrir uma empresa de consultoria na área de projetos. (Bruno, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Me vejo trabalhando em alguma indústria de meu interesse, com uma renda razoável, porém planejando meus primeiros passos para obter meu negócio próprio. (Alice, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Outro fator que apareceu nos depoimentos dos/as participantes foi o desejo de continuar estudando. O mestrado e o doutorado apareceram entre as expectativas de Du e Danilo.

Fazer pós-graduação ou um mestrado em conjunto com o trabalho. (Du, Engenharia Civil, Pato Branco)

Embora ainda não saiba em qual área me especializar, certamente depois de formado tentarei o mestrado, isto é, se as condições financeiras me permitirem. (Danilo, Engenharia Civil, Salvador)

No que se refere aos/às estudantes das licenciaturas, as expectativas são mais modestas. Uma parcela significativa dos/as participantes afirmou desejar ministrar aulas no ensino público, o que é compreensível, pois os cursos são de formação de professores/as.

Me vejo em uma sala de aula, trabalhando com aquilo que amo e sendo bem-sucedida em minha vida pessoal e profissional. (Dre, Letras, Curitiba)

Dando aula em escolas públicas. (Pedro, Letras, Curitiba)

Daqui a dez anos, pretendo ter concluído a graduação e talvez um mestrado em matemática. Pretendo dar aulas para alunos carentes, numa ONG ou em alguma instituição sem fins lucrativos. Não pretendo ganhar dinheiro como professor de matemática. Se o objetivo fosse ganhar dinheiro, com certeza estaria fazendo engenharia, não licenciatura em matemática. (Elias, Matemática, Salvador)

Porém a intenção de atuar no ensino superior também se fez presente, como se percebe nos depoimentos de Julia e Ana.

Doutora em matemática e ensinando na UFBA. (Julia, Matemática, Salvador)

Como professora universitária. (Ana, Letras, Pato Branco)

Pode-se perceber, por meio dos depoimentos, que o magistério se apresenta como uma profissão prazerosa, uma realização pessoal e profissional. O fato de os relatos mostrarem que esses/as estudantes pretendem seguir a carreira do magistério pode ser indicador de que a escolha do curso foi por vocação e não por falta de oportunidade de ingressar em outro curso supostamente mais valorizado.

Outras oportunidades, como um bom emprego são bem-vindas, mas meus objetivos são dois: ser professor de uma boa Universidade e funcionário - aprovado por concurso - em uma grande empresa. (Danilo, Engenharia Civil, Salvador)

O magistério também apareceu como expectativa de atuação profissional para estudantes de engenharia. Danilo manifestou esse desejo de forma explícita. Para ele, a possibilidade de atuar como professor numa universidade se constitui no sonho de futuro.

As expectativas de futuro não divergem entre homens e mulheres. Encontramos depoimentos masculinos e femininos indicando a mesma intenção. Porém, Beto aponta que as oportunidades de crescimento e desenvolvimento profissional podem ser diferentes para homens e mulheres devido à maternidade. Seu relato evidencia o que se espera de uma mulher: que ela abra mão da carreira para cuidar da família. Estudo recente intitulado Life and leadership after HBS (Vida e liderança após Harvard Business School), desenvolvido nos Estados Unidos, indicou que não são os filhos que impedem as mulheres de ter uma carreira. Com o desenvolvimento do estudo,

[...] veio a constatação de que as mulheres sentiam-se pressionadas pelos seus parceiros, pelas instituições onde trabalham e pela sociedade como um todo, a assumir a educação dos filhos e as obrigações do lar, para que os seus companheiros possam se dedicar à carreira. (SABOYA , 2015SABOYA, Livia. Filhos não impedem que as mulheres tenham uma carreira. São os maridos. No Pátio, 19 nov. 2015. Disponível em: <Disponível em: http://www.nopatio.com.br/comportamento_2/filhos-naoimpedem-que-as-mulheres-tenham-uma-carreira-sao-os-maridos >. Acesso em: 20 out. 2015.
http://www.nopatio.com.br/comportamento_...
, grifo da autora)

P: Você acredita que suas colegas mulheres terão as mesmas condições de inserção no mercado de trabalho que os colegas homens? É difícil dizer que sim e também que não, apesar de algumas delas terem alta capacidade de conseguirem o que querem. No futuro, provavelmente, elas optarão por ter filhos e isso tomará um grande espaço na vida delas. E quando vier a opção trabalho ou filho, aposto que todas optarão por cuidar da família. (Beto, Engenharia Civil, Curitiba)

As primeiras respostas dos/as participantes foram predominantemente nos âmbitos estudantil e profissional. Quando questionados/as se pretendiam se casar e ter filhos/as, a maioria afirmou que sim, mas não logo. Queriam se estabilizar financeira e profissionalmente antes de constituir família. Algumas jovens demonstraram que a maternidade não é o objetivo, pelo menos por enquanto. Os depoimentos de Lisandra e Aline Rosa evidenciam esse fato. Elas destacam que há pessoas que concordam com elas e outras que acham que com o tempo elas mudarão de ideia.

P: Você pretende se casar e ter filhos?

R: Por enquanto, não pretendo casar e nem ter filhos.

P: Você já falou sobre este pensamento com alguém? Se sim, como reagiram?

R: Sim, já falei a outras pessoas que por enquanto não pretendo casar e nem ter filhos. A reação da maioria das pessoas é de susto, elas costumam dizer a mim: “Uma hora você vai mudar de ideia”, “mulher sempre quer ser mãe” ou “o sonho das mulheres é casar e ter filhos”. Essa maioria normalmente são pessoas religiosas e/ou do interior ou que tiveram uma educação antiga. Quando digo educação antiga eu penso naquela educação em que a menina é criada em torno do “Você vai crescer, casar e ter filhos.” As outras pessoas que não estão nessa maioria, simplesmente respeitam meu pensamento e há outras que coadunam com o mesmo Pensamen o. (Lisandra, Engenharia Mecânica, Salvador)

P: Você pensa em se casar e ter filhos?

R: Casar sim, ter filhos não.

P: Como a sua família e amigos reagem quando você diz que não pretende ter filhos?

R: Alguns acham normal e apoiam, outros criticam, mas não influenciam na minha decisão. (Aline Rosa, Matemática, Salvador)

Maternidade e paternidade e sua influência na vida acadêmica e profissional

Perguntamos ainda qual era a percepção dos/as participantes sobre a interferência da maternidade e da paternidade na vida acadêmica e profissional. A maioria respondeu que tal interferência existia, mas era mais intensa na vida das mulheres. Essa percepção converge para o argumento de Marilia Pinto de Carvalho (1999CARVALHO, Marilia Pinto de. No coração da sala de aula: gênero e trabalho docente nas séries iniciais. São Paulo: Xamã, 1999.) quando a autora afirma que o cuidado de um modo geral é visto como função feminina. Esse cuidado se estende para a atenção às necessidades da prole. Segundo Dias e Aquino (2006DIAS, Acácia Batista; AQUINO, Estela M. L. Maternidade e paternidade na adolescência: algumas constatações em três cidades do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 7, p. 1447-1458, 2006., p. 1454), “Cuidar de filho continua socialmente sendo uma questão feminina, permanecendo uma naturalização da maternidade e um estranhamento da paternidade”. Dessa forma, a maternidade tem maior influência na vida das mulheres do que a paternidade na vida dos homens. A maioria dos/as participantes reconhece que a paternidade interfere na vida acadêmica/profissional dos homens, mas não impede sua continuidade. Danilo ressalta que a maioria dos seus professores não tinha filhos.

P: Você acredita que a paternidade interfere na progressão acadêmica e profissional dos homens?

R: Penso que sim. Inclusive é engraçado notar que a maioria dos professores que tive, ou melhor, todos aqueles de quem posso me lembrar, que estavam envolvidos em programas de doutorado eram solteiros ou casados, mas sem filhos. (Danilo, Engenharia Civil, Salvador)

Por outro lado, Murilo e Clarissa acreditam que a paternidade não interfere na progressão acadêmica ou profissional dos homens. O fato de alguns colegas que foram pais durante o curso universitário terem conseguido manter o ritmo de estudos contribuiu para a formação dessa ideia.

P: Você acredita que a paternidade interfere na progressão acadêmica e profissional dos homens?

R: Sinceramente, não. Vi muitos colegas que tiveram filhos continuar a vida profissional tranquilamente. (Murilo, Engenharia Mecânica, Salvador)

R: Não. Pelo menos não percebo isso. Os homens geralmente são livres da obrigação de cuidar da criança. (Clarissa, Letras, Curitiba)

Em seu relato, Alexandre De Large demonstra a dificuldade de fechar uma opinião que possa ser generalizada. Percebe-se que alguns rapazes conseguem continuar seus estudos com o advento da paternidade e outros precisam diminuir o ritmo para assumir suas novas responsabilidades. Também sabe-se que nem todos os pais assumem a paternidade de forma intensa e responsável. Para esses, nada muda no meio acadêmico e profissional.

É difícil generalizar, mas acredito que o ter um filho demanda muito tempo. Isso pode deixar a pessoa cansada e diminuir sua produtividade nos primeiros meses de vida da criança. Após isso penso que não há grande efeito. (Alexandre De Large, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Elias, por sua vez, acredita que a interferência depende da postura de cada um. Seu depoimento demonstra a percepção de que, para assumir a paternidade de modo responsável, há a necessidade de mudança em alguns hábitos pessoais.

Isso depende muito da realidade de cada pessoa. De modo geral, acredito que realmente ocorra alguma interferência, mas muito menos do que a maternidade. De qualquer modo, acredito que para ser um pai de verdade é preciso abrir mão de algumas coisas, para que se tenha condições de acompanhar adequadamente o crescimento e a educação dos filhos. Uns podem abrir mão do futebol; outros, da cervejinha com os amigos; outros, talvez até da progressão acadêmica e profissional. Se a esposa também tem uma carreira profissional, o homem tem de assumir mais responsabilidade para ajudá-la na criação dos filhos, dividir tarefas com ela. Se ela se dedica ao lar, o marido pode assumir um pouco menos de responsabilidades e se dedicar mais à carreira. Enfim, isso depende muito da realidade de cada um. (Elias, Matemática, Salvador)

Ana indica que, embora haja interferência da paternidade na vida dos homens, ela é menor do que a da maternidade para as mulheres. Em estudo sobre o impacto da maternidade e paternidade na vida de adolescente, Dias e Aquino (2006DIAS, Acácia Batista; AQUINO, Estela M. L. Maternidade e paternidade na adolescência: algumas constatações em três cidades do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 7, p. 1447-1458, 2006., p. 1454) concluem que “são as moças que mais interrompem os estudos nessa fase em que o bebê demanda cuidados”, o que confirma o argumento aqui apresentado. Já Lisandra tem a percepção de que a paternidade não interfere na progressão dos homens. Para ela, a pressão social para que os homens sejam os provedores de suas famílias faz com que eles não assumam a responsabilidade pelo cuidado com a família e os/as filhos/as. Em seu relato transparece a ideia de que a mulher pode e deve assumir a dupla jornada, atuando como profissional sem esquecer do cuidado com os afazeres domésticos.

P: A paternidade tem o mesmo impacto na vida dos homens?

R: Não tão diretamente como na vida da mulher. (Ana, Letras, Pato Branco)

P: Você acredita que a paternidade tem o mesmo impacto na vida dos homens?

R: No geral acredito que não, normalmente os homens acham que a responsabilidade de cuidar da família é das mulheres e a responsabilidade dele é trabalhar para sustentar a família, o que faz com que ele tenha aversão de dividir a responsabilidade de tomar conta dos filhos mesmo que, por exemplo, a mulher trabalhe como ele ou tenha que viajar a negócios. (Lisandra, Engenharia Mecânica, Salvador)

Segundo Velho (2006VELHO, Lea. Apresentação. In: SANTOS, Lucy Woellner dos; ICHIKAWA, Elisa Yoshie; CARGANO, Doralice de Fátima. Ciência, tecnologia e gênero: desvelando o feminino na construção do conhecimento. Londrina: Iapar , 2006. p. 9-18.), a socialização tem papel importante na construção das expectativas futuras das meninas/moças/mulheres. Ana apresenta diferenças nas preocupações de homens e mulheres com relação aos/às filhos/as. Na concepção dela, eles se preocupam com o prover e elas com o cuidar.

P: A maternidade tem o mesmo impacto na vida das mulheres?

R: Acredito que a maternidade seja uma responsabilidade bem maior que a paternidade. Juridicamente podem até ser coisas equivalentes, mas, na prática, no dia a dia, creio que a maternidade cobra um preço muito mais alto que a paternidade. Evidentemente, esses ônus, maternidade e paternidade, vêm sempre acompanhados de um bônus. E cada um deles (ônus e bônus) tem valor diferente para cada pessoa. A felicidade que o nascimento de um filho pode trazer à vida de uma pessoa pode ser algo tão intenso e marcante que ela se torne muito mais produtiva, mais criativa e passe a apresentar outros atributos antes ausentes, tendo isso o efeito de impulsionar sua carreira, em vez de estacioná-la ou retraí-la. Mas, concluindo, de forma geral, acredito que as mulheres não apenas sejam mais impactadas pela maternidade do que os homens pela paternidade, como acredito também que elas se predispõem e aceitam pagar esse preço muito mais do que os homens costumam concordar em fazê-lo. (Elias, Matemática, Salvador)

P: Por que você acha que tem esta diferença?

R: Mulheres se mostram mais preocupadas e cuidadosas com os filhos, pois carregam a obrigação pelo zelo das crianças mais do que os homens. Estes estão mais voltados para a vida profissional, preocupando-se com questões financeiras por exemplo. (Ana, Letras, Pato Branco)

Alexandre De Large afirma que os impactos da maternidade são maiores no primeiro ano da criança, período que requer mais dedicação das mães. Ele aponta que muitas empresas têm restrições a contratar mulheres com filhos/as e isso dificulta sua inserção no mercado de trabalho.

P: E a maternidade tem o mesmo impacto na vida das mulheres?

R: Nas mulheres há grande impacto, e muitas empresas não querem que suas funcionárias engravidem, pois para essas é um gasto a mais. Mas, como nos homens, acredito que os efeitos da maternidade se restringem quase exclusivamente na gravidez e no primeiro ano de vida da criança. Após isso não me parece que o desempenho profissional seja afetado pela criança. Mesmo em termos de contratação de novos funcionários não percebo a diferenciação entre ter ou não filhos. (Alexandre De Large, Engenharia Mecânica, Curitiba)

Danilo traz em seu depoimento a reflexão sobre seu caso familiar, em que, mesmo com a maternidade, sua mãe continuou estudando e o pai não e analisa as possibilidades da trajetória dela.

P: A maternidade tem o mesmo impacto na vida das mulheres?

R: Não acredito que tenha o mesmo impacto, pois penso que para as mães ele é maior. Apesar disso, tenho um exemplo interessante em casa, minha mãe concluiu a sua primeira graduação quando eu tinha cerca de 8 anos de idade (ela estudava à noite e trabalhava durante o dia), e agora partiu para a sua segunda graduação, ao passo que meu pai nunca foi além do segundo grau! Então podemos ter duas conclusões para este fato: sem filho ela teria dado voos muito mais altos, ou que, apesar de tê-lo, conseguiu cumprir seus projetos acadêmicos. (Danilo, Engenharia Civil, Salvador)

Para Lisandra, uma menina/moça/mulher com suporte familiar e/ou financeiro para a criação da criança tem os impactos diminuídos em sua vida acadêmica e profissional. Concorda-se com o argumento de Dias e Aquino (2006DIAS, Acácia Batista; AQUINO, Estela M. L. Maternidade e paternidade na adolescência: algumas constatações em três cidades do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 7, p. 1447-1458, 2006., p. 1456) de que “A rede de solidariedade e cooperação que se estabelece para ajudar a adolescente mãe é composta, na sua maioria, por mulheres” e, de modo especial, pela avó materna. Com base no argumento de Lisandra, as mulheres com situação familiar e financeira mais precária sofreriam maior impacto da maternidade em sua progressão acadêmica e profissional. Aparece aqui também um recorte de classe no que se refere à questão da maternidade.

P: Você acredita que a maternidade interfere na progressão acadêmica e profissional das mulheres?

R: Acredito que sim, mas acredito que em alguns casos interfere mais ou interfere menos. Uma mulher que tem um filho e que pode deixar na casa da família ou que divide responsabilidade com o marido ou que tem condições financeiras boas para deixar o filho em uma creche ou com um profissional que cuide de seu bebê terá mais facilidade do que aquela mãe que a responsabilidade é “jogada” totalmente para ela. (Lisandra, Engenharia Mecânica, Salvador)

Ana nos faz refletir que, nos dias atuais, o compartilhamento da responsabilidade com a criação dos/as filhos/as e o cuidado com o lar é a forma mais viável de manter a saúde familiar, com possibilidade de homens e mulheres crescerem profissionalmente e assegurarem um futuro digno para seus/suas filhos/as.

P: Nos dias de hoje a mulher está muito presente no mercado de trabalho. O homem não teria que assumir sua parte nas atividades do lar, inclusive no cuidado com os filhos? Com certeza. O homem também tem o dever de ajudar. Essa posição de homem fora e mulher em casa foi historicamente bem alimentada por uma sociedade preconceituosa. Aos poucos esses valores são desarraigados, mas acredito que a situação com o cuidado dos filhos permanece voltada para o lado da mulher. (Ana, Letras, Pato Branco)

Podemos perceber que tanto rapazes quanto moças entendiam que um filho ou filha submete a mulher a uma carga maior de reponsabilidade e dificulta sua dedicação à carreira acadêmica e profissional.

Convém salientar que a maioria dos/as participantes afirmou não ser casada e nem ter filhos. Nas engenharias não encontramos nenhuma mulher com filhos e apenas dois homens já eram pais. Nas licenciaturas, essa situação se mostrou mais presente, de modo especial entre as mulheres.

Considerações finais

O estudo aqui apresentado traça um breve panorama acerca da trajetória dos/as estudantes no meio universitário, apontando obstáculos e desafios colocados para uns/umas e não para outros/as. Os depoimentos demonstram que o meio acadêmico está permeado do que Bourdieu (1999BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.) denominou de violência simbólica. Uma violência que se manifesta de forma sutil e que muitas vezes sequer é percebida como tal. Cabe destacar que a maioria dos/as participantes percebe as situações como violentas, mas reagem de modo diferente, dependendo da fonte. Quando a manifestação de preconceito parte dos/s colegas, a reação é imediata, porém, quando esta parte de um professor, há limitações pelo temor de represálias. Cabe destacar que tal comportamento desses profissionais da educação é deplorável. Agir de forma preconceituosa dificulta e às vezes impossibilita a permanência de modo especial das mulheres nas engenharias. Nenhum/a estudante de licenciatura fez esse relato.

Os dados apontam ainda que tanto homens quanto mulheres percebem as barreiras que são impostas a quem ousa fugir do padrão socialmente construído para cada um dos sexos. Verificou-se que os/as participantes desta pesquisa são politizados, havendo muitos homens e mulheres feministas. Talvez os/as machistas não tenham visto o projeto como interessante e, por isso, não responderam à pesquisa.

Evidencia-se, ainda, a necessidade de ações que diminuam a incidência de violência simbólica no meio universitário, envolvendo toda a comunidade universitária, uma vez que o preconceito e a discriminação partem tanto do corpo docente como do discente.

Na percepção dos/as participantes a maternidade e a paternidade têm interferência na vida acadêmica e profissional de homens e mulheres, entretanto os impactos na vida das mulheres são mais intensos e duradouros. Os/as depoentes percebem essas dificuldades e também as possibilidades de enfrentá-las. O apoio familiar constitui uma opção para que as universitárias que engravidam possam se manter no curso, porém, fica evidente que essa trajetória se tornará mais demorada do que para o pai da criança.

Podemos perceber que há mais semelhanças do que contrastes entre as trajetórias das mulheres no ambiente universitário das duas universidades aqui pesquisadas. Aspectos culturais que marcam os contextos das universidades e campi aqui pesquisados demonstraram pouco impacto no percorrer dos labirintos acadêmicos. As manifestações de preconceito e de discriminação não diferiram entre os campi.

Nota-se que a trajetória de meninas/moças/mulheres se torna mais pesada do que a dos meninos/moços/homens. A elas são impostos obstáculos muitas vezes imperceptíveis, mas que dificultam a trajetória no meio acadêmico e a inserção posterior no mercado de trabalho. É o que Betina Stefanello Lima (2013LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajetórias das cientistas na física. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 3, p. 883-903 set./dez. 2013.) denomina de “labirinto de cristal”. A autora argumenta que, diferentemente do “teto de cristal” que se apresenta apenas no topo das carreiras, o labirinto acompanha as mulheres durante toda sua trajetória acadêmica e profissional. O preconceito sobre a capacidade feminina nas engenharias se apresenta como “paredes” desse labirinto, obrigando as mulheres a percorrer um caminho mais longo e com mais barreiras para se aproximar do sucesso. As meninas/moças/mulheres passam sua vida acadêmica percorrendo labirintos e buscando saídas para situações que lhes são impostas de forma desnecessária e injusta.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Mar 2017

Histórico

  • Recebido
    Nov 2015
  • Aceito
    Set 2016
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