Jovens feministas do Rio de Janeiro: trajetórias, pautas e relações intergeracionais

Young feminists of Rio de Janeiro: life stories, agendas and intergenerational relationships

Resumos

Ao longo de sua história, o feminismo contou com a participação de várias gerações juvenis, mas só recentemente as jovens passaram a reivindicar reconhecimento, espaços e discussões específicas de juventude dentro do movimento, assim como foi feito pelas feministas negras e lésbicas em décadas anteriores. A partir das trajetórias de quatro jovens feministas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, este trabalho pretende colaborar para a compreensão de como as jovens têm se aproximado, se inserido e se percebido no movimento.

Juventude; Feminismo; Participação Juvenil


Throughout its history feminism was supported by many young generations, but only very recently young women began to claim knowledge, and opened discussions in specific areas within the youth movement, as black and lesbian feminists have done in previous decades. Starting from the life stories of four young feminists in the Rio de Janeiro Metropolitan Area, this paper aims to contribute to the understanding of how young people have approached, inserted, and seen them selves within the movement.

Youth; Feminism; Youth Participation


DOSSIÊ: FEMINISMOS JOVENS

Jovens feministas do Rio de Janeiro: trajetórias, pautas e relações intergeracionais* * Recebido para publicação em fevereiro de 2011, aceito em abril. As análises aqui apresentadas fazem parte da dissertação "Jovens Feministas: um estudo sobre a participação juvenil no feminismo do Rio de Janeiro", defendida em maio de 2009, que buscou compreender como se constitui essa identidade e analisar sua inserção contemporânea no movimento feminista da mesma região, a partir da observação de atividades organizadas ou com ampla participação do movimento, análise de alguns de seus documentos e entrevistas semi-estruturadas com quatro jovens e duas adultas militantes feministas. A dissertação na íntegra está disponível em http://www.uff.br/pos_educacao/joomla/images/ stories/Teses/julia%20zaneti.pdf

Young feminists of Rio de Janeiro: life stories, agendas and intergenerational relationships

Julia Paiva Zanetti

Cientista social, mestre em Educação, pesquisadora do Observatório Jovem/ UFF e integrante do Fórum Cone Sul de Mulheres Jovens Políticas – Espaço Brasil, E-mail: jupzanetti@yahoo.com.br

RESUMO

Ao longo de sua história, o feminismo contou com a participação de várias gerações juvenis, mas só recentemente as jovens passaram a reivindicar reconhecimento, espaços e discussões específicas de juventude dentro do movimento, assim como foi feito pelas feministas negras e lésbicas em décadas anteriores. A partir das trajetórias de quatro jovens feministas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, este trabalho pretende colaborar para a compreensão de como as jovens têm se aproximado, se inserido e se percebido no movimento.

Palavras-chave: Juventude, Feminismo, Participação Juvenil.

ABSTRACT

Throughout its history feminism was supported by many young generations, but only very recently young women began to claim knowledge, and opened discussions in specific areas within the youth movement, as black and lesbian feminists have done in previous decades. Starting from the life stories of four young feminists in the Rio de Janeiro Metropolitan Area, this paper aims to contribute to the understanding of how young people have approached, inserted, and seen them selves within the movement.

Key Words: Youth, Feminism, Youth Participation.

O presente trabalho, desenvolvido no contexto das preocupações e investigações sobre a juventude no Brasil, pretende colaborar para a compreensão de um novo momento do feminismo no país, em que jovens mulheres, a exemplo do que aconteceu com outros grupos, tais como, as mulheres negras e lésbicas, reivindicam o reconhecimento de suas especificidades pelas diferentes correntes do movimento.

A década de 1960 foi um período de efervescência de diferentes movimentos sociais, inclusive aqueles em defesa dos direitos dos grupos chamados de "minorias", marcados pelas discussões sobre políticas de identidades, dentre elas a questão da mulher. Nesse contexto, as lutas feministas possibilitaram mudanças nas condições de vida de muitas cidadãs, e também de vários cidadãos, demonstrando a opressão sofrida pelas mulheres, questionando os papéis sociais atribuídos ao feminino e ao masculino e legitimando-se enquanto movimento social.

Internamente, entretanto, percebeu-se que as experiências que vinham sendo validadas e generalizadas eram aquelas das mulheres brancas, de classe média e heterossexuais. Assim, por pressão das mulheres fora desse perfil, iniciou-se um processo que Biondi (2000) denomina "colocar hífens", ou seja, uma tentativa de afirmação de outras identidades, anteriormente, não visíveis ou reconhecidas dentro do movimento. Desse modo, muitas mulheres passaram, então, a identificar-se como "feminista-negra", "feminista-lésbica", "feminista-proletária". Essa iniciativa representou a introdução de novas questões e a legitimação de identidades que precisavam ser contempladas dentro do movimento.

No Brasil, esse processo inicia-se nos anos de 1980 e intensifica-se na década seguinte, em especial com as mulheres negras e lésbicas. E, assim como aconteceu em boa parte da América Latina, estimular o reconhecimento da diferença e do conflito na prática política do movimento, reconhecer o exercício do poder no seu interior e admiti-lo como recurso de transformação se tornaram novos desafios para o feminismo (Lamas, 2000).

Embora muitas jovens participassem, ou talvez por representarem boa parte das militantes, naquele momento não havia o reconhecimento da identidade "feminista-jovem" e sequer havia essa demanda. Então, até a última década não era possível se falar nessa múltipla identidade, pois, de acordo com Melucci (2004:44), é difícil falar de identidade de um grupo (ou indivíduo), se não há "delimitação desse sujeito em relação aos outros, a capacidade de reconhecer-se e ser reconhecido e continuidade do sujeito, independentemente das variações no tempo e das adaptações" ao ambiente.

Cabe lembrar que, no Brasil, as questões referentes à condição juvenil adquiriram maior relevância somente nos últimos dez anos, o que contribuiu para que os debates sobre juventude ganhassem visibilidade envolvendo diversos atores e arenas públicas e se revertessem em políticas públicas voltadas especificamente para esse segmento. Esse maior reconhecimento e legitimação na cena pública vêm demandando formas de participação ligadas ao exercício de uma cidadania especificamente juvenil, na qual os(as) jovens começaram a se reconhecer e a pressionar para serem reconhecidos(as) pela sociedade com seus direitos e interesses específicos. Certamente, esse novo contexto contribuiu para o empoderamento e valorização da identidade juvenil também no interior dos movimentos sociais.

Diferentes estudos sobre juventude (Abramo e Branco, 2005; IBASE e PÓLIS, 2006) têm destacado as diversas formas de viver a juventude. Essa experiência se apresenta de maneira muito distinta de acordo com o gênero, a raça, a classe, a orientação sexual, o local de moradia e a região do Brasil, entre outros recortes que interferem cotidianamente nas possibilidades de inserção social desses sujeitos.

Como categoria analítica, a juventude passou por várias definições ao longo de sua história, ora focando a faixa etária, ora elementos físicos e comportamentais, delimitando construções que associavam os(as) jovens à preparação para a vida adulta, a problemas sociais ou ao papel de agentes de transformação social. No Brasil, somente a partir de meados da década de 1990, jovens começam a ser vistos como sujeitos de direitos, com necessidades, potencialidades e demandas singulares (Abramo e León, 2005).

Assim, no campo das políticas públicas, destaca-se em 2005, o lançamento da Política Nacional de Juventude, formada pela criação do ProJovem – Programa de Inclusão de Jovens; da Secretaria e do Conselho Nacional de Juventude; e em abril de 2008, a realização da I Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude.

Nos últimos anos houve também um incremento da produção teórica sobre o tema da juventude, caracterizado, por exemplo, pela constituição de grupos de pesquisa por todo o país e pela realização de inúmeras investigações, tais como: Perfil da Juventude Brasileira (Projeto Juventude/ Instituto Cidadania, 2003), Juventude Brasileira e Democracia (Ibase e Polis, 2004); bem como a realização de eventos como o Simpósio Internacional sobre a Juventude Brasileira, que em 2010 teve sua IV edição.

Outro indicador desse crescimento é a comparação entre a pesquisa Juventude e Escolarização (Sposito, 2002), que registrou 387 trabalhos acadêmicos (teses e dissertações) na área de Educação e Juventude, no período de 1980 a 1998; e sua nova fase, publicada em 2009, em O Estado da Arte sobre juventude na pós-graduação brasileira: Educação, Ciências Sociais e Serviço Social (1999-2006), que identificou no banco de teses e dissertações da CAPES 1.427 trabalhos sobre o tema nas áreas citadas no título, sendo 971 da Educação. Nota-se que, mesmo que a série temporal da primeira pesquisa seja maior do que a mais recente, houve nesta um aumento substancial no número de produções voltadas para o tema.

Segundo Castro (2004:298), e como o verificado no levantamento realizado para esta pesquisa, "no feminismo ainda é tema de pouco investimento o das culturas juvenis, e nestas o das identidades femininas jovens".

Weller (2005:203) também registra que:

...esses estudos e pesquisas [sobre juventude] apresentam uma diversidade de enfoques teóricos nos quais a perspectiva de gênero e a compreensão de juventude como uma categoria que possui dois sexos, bem como distintas origens étnico-raciais e de classe, permanecem muitas vezes ausentes ou não são desenvolvidas com o devido rigor teórico-metodológico.

Assim constata-se que são poucos os trabalhos dedicados às jovens mulheres, menos freqüentes ainda parecem ser os estudos que vão além de alguns aspectos relacionados à sexualidade. Por exemplo, na II fase do Estado da Arte sobre juventude citado acima, boa parte dos trabalhos analisados abordavam questões como educação sexual, parentalidade, DSTs/AIDS, sexualidades.

As jovens entrevistadas

Para esta investigação foram entrevistadas quatro jovens feministas com atuação no Rio de Janeiro. Para melhor compreender o percurso até o feminismo, todas foram convidadas a contar um pouco sobre suas vidas de modo que fosse possível acumular elementos de análise sobre suas trajetórias de jovens e militantes.

Alexandra1 1 Com fins de preservar a identidade das entrevistadas, os nomes aqui utilizados são fictícios e foram escolhidos em homenagem a mulheres que são referências do feminismo internacional: Alexandra Kollontai, Angela Davis, Betty Friedan, Olympe de Gouges. tinha 26 anos e era militante da Marcha Mundial das Mulheres na época da entrevista. Convidada a declarar seu pertencimento racial e sua orientação sexual, identificou-se como bissexual e parda. Formada em História, foi trabalhar em uma ONG que discutia políticas econômicas alternativas, em um projeto de formação voltado para mulheres, e no período da entrevista trabalhava como assessora de uma central sindical.

Betty era militante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), tinha 28 anos, se declarou afrodescendente e heterossexual, morava sozinha. Desejava cursar Filosofia, mas fez faculdade de Direito, por pressão da família. Durante a faculdade fez estágio em uma favela através de uma ONG, trabalhou em ONGs voltadas para os direitos humanos e feministas e, no período da entrevista, estava em projetos voltados para lideranças comunitárias sobre gênero, em ONGs e no governo estadual.

Olympe estava em um período de crise em relação à sua militância na Marcha Mundial das Mulheres, tinha 22 anos, identificava-se como negra e heterossexual. Enquanto cursava magistério no ensino médio trabalhou como professora, babá dos(as) sobrinhos(as) e do irmão, ajudante da mãe em faxinas e panfleteira. Depois de alguns anos sem estudar, frequentou um pré-vestibular comunitário. No período da entrevista cursava o primeiro ano da faculdade de Letras em uma universidade federal e trabalhava havia alguns anos em uma ONG feminista.

Angela tinha 25 anos, declarou-se negra e heterossexual e fazia parte de um coletivo de mulheres negras formado por ativistas de diversas áreas, que se propunha a produzir materiais para ampliar o alcance dos saberes produzidos pelos movimentos sociais junto a outras mulheres. Durante a faculdade de Comunicação fez vários estágios, a maior parte voltada para a questão racial. Quando foi entrevistada era consultora de uma ONG que desenvolve projetos voltados para juventude negra e faz outros trabalhos pontuais.

As jovens entrevistadas encontravam-se entre os 22 e os 28 anos. Todas trabalhavam e/ou já haviam trabalhado em ONGs, sendo que Olympe conheceu a ONG em que trabalhava participando das oficinas desenvolvidas por esta na escola onde estudava. Nenhuma delas tinha filho ou filha, nem quando provocadas a se imaginarem daqui a dez anos fizeram referência ao tema ou a casamento. Olympe, a única a quem foi feita uma pergunta diretamente sobre isso, respondeu que não pretendia tê-los(as). Todas pareciam estar mais voltadas naquele momento para a vida de militância e/ou profissional, ainda que com perspectivas diferentes.

Em pergunta aberta sobre cor/raça, Angela e Olympe apresentaram-se como negras, utilizando nomenclatura com grande teor político, adotada a partir da década de 1970 pelo movimento negro. Em outros momentos da conversa, ambas voltaram a fazer referências a esse pertencimento. A primeira tinha uma militância voltada para a questão racial, à qual se declara sensível desde a adolescência, apesar de só ter começado a militar efetivamente em 2005. A discussão racial inclusive era muito mais presente e elaborada na sua fala do que o feminismo, até porque essa era uma aproximação bastante recente e realizada através do feminismo negro. A segunda, apesar de não ter uma militância racial específica, relata "eu tenho problema pra essa sociedade, porque eu sou preta".

Registra-se a diferença entre a presença da questão racial nas entrevistas de Olympe e Angela em relação àquelas das outras duas jovens, que só abordaram o tema em resposta ao pedido de auto-classificação. Para Olympe e Angela as marcas identificáveis de pertencimento são aparentes, ambas possuem a pele mais escura e cabelos mais crespos.

Já Betty se identifica como afro-descendente, pois seus avós maternos eram negros, e Alexandra se diz parda, "porque no Brasil todo mundo é meio pardo", expressando a noção adotada pelo senso comum pautada na ideia de miscigenação. Apesar disso, mostram-se conscientes das desigualdades raciais demonstrando que tais temáticas se entrecruzam. Por exemplo, Alexandra conclui "mas não sofro opressão étnico racial, obviamente".

Trajetória ativista e o ingresso no movimento feminista

Perguntada sobre como começou a participar de algum tipo de grupo, Alexandra lembra que foi se envolvendo com problemas da universidade, onde acabou se aproximando do movimento estudantil, até que na campanha eleitoral de 2002 resolveu filiar-se ao PT e no ano seguinte à tendência interna Democracia Socialista (DS).

Quanto à aproximação ao movimento feminista, a mesma jovem relatou sua prévia sensibilidade à causa narrando um episódio de sua vida escolar e citando o recorte de gênero que várias vezes fez nos seus trabalhos acadêmicos. Como primeira aproximação com o movimento, registra o contato que teve com a Marcha Mundial das Mulheres no Fórum Social Mundial de 2002, em Porto Alegre, onde a barraca desta articulação chamou sua atenção. No entanto, foi só após um segundo contato, na edição 2003 do mesmo Fórum, que, no retorno ao Rio de Janeiro, ela começou a participar efetivamente, ou seja, na mesma época em que estava entrando para a DS.

Já Olympe identifica como primeiro espaço organizado de que participou as oficinas realizadas na sua escola pelo Núcleo de Juventude da ONG em trabalhava na época da entrevista, do qual se tornou multiplicadora e, posteriormente membro da equipe. Através do mesmo Núcleo, começou a participar de atividades mais amplas como aquelas de uma rede de organizações e movimentos de juventude e do movimento feminista. Ao longo desse percurso, lembrou ela, seu entendimento e engajamento foram crescendo.

Perguntada sobre "como virou uma feminista", Olympe resume destacando alguns episódios da sua vida:

As oportunidades que você tem, onde você se insere, o que te toca. A minha vida inteira foi porrada (sic) porque eu era mulher, cara. Era porrada (sic) de pai batendo em mãe, de pai batendo na gente, pai não deixando a gente namorar, porque achava que tinha cinco mulheres e não uma só, porque as outras eram filhas, depois estupro, depois aborto. Caralho (sic), o problema é com mulher.

Outro fator apontado pela jovem como determinante para seu engajamento no movimento foi a situação vivida pela sua mãe em casa, ela relata:

por toda situação que nós vivemos em casa, por toda imobilidade dela, por "n" motivos, por conta dos filhos, por condição financeira, por falta de formação escolar, por se manter numa situação, de aturar, de acreditar que aquele era o papel dela, de abrir mão da sua felicidade pra dar uma falsa felicidade, que para ela seria para os filhos e para o marido.

Em outro momento, Olympe lembra que o feminismo a ajudou a compreender sua mãe.

Angela, apesar de sempre ter buscado estágios voltados para a questão racial, considerava que não estava organizada em nenhum movimento até 2005. Durante seu último estágio, numa ONG do Rio de Janeiro, teve mais informações sobre movimentos sociais, atuação política, fundamentou conceitualmente sua identidade racial, conheceu lideranças do movimento negro e como esse se constituía no Rio e no país.

Foi também através dessa instituição que ela teve seu primeiro contato com o feminismo: começou a interessar-se quando foi fazer a cobertura jornalística de uma atividade do Fórum Nacional de Mulheres Negras, em São Paulo. Fazendo um outro trabalho sobre uma campanha das Católicas pelo Direito de Decidir, entrevistou algumas pessoas e teve contato com "esse outro lado mais global do feminismo".

Mas Angela relata que só começou a assumir a identidade feminista, a incorporar esses conceitos e essas práticas no seu cotidiano, quando participou da capacitação das Jovens Feministas de São Paulo, onde conheceu jovens de outros estados, que tinham essa discussão mais sistematizada.

Já Betty relata que desde o segundo grau fazia trabalhos voluntários em favelas e que participou de projetos pontuais em ONGs de direitos humanos. Entre eles, fez uma consultoria como advogada em projeto voltado para jovens mulheres e homens do hip hop que tinha como proposta construir um CD sobre direitos sexuais e direitos reprodutivos, promovido por uma ONG feminista, vinculada à Articulação de Mulheres Brasileiras, através da qual se aproxima mais das questões de gênero.

A mesma entrevistada atuou em outro projeto da mesma instituição, dirigido a professoras de primeiro e segundo graus de escolas públicas do interior do estado do Rio de Janeiro, mas "a ficha caiu" somente trabalhando na construção de outro CD, desta vez sobre violência contra mulher. Segundo ela:

as histórias que eu ouvi eram muito comoventes, de luta das mulheres e do trabalho delas com a questão da violência, e as letras de músicas que saíram desse projeto, as letras assim são verdadeiros relatos de vida, relatos de discriminação e preconceito que as mulheres sofrem.

A mesma jovem afirma ter percebido naquele momento que sua trajetória era marcada pelo feminismo, desde a época em que trabalhou em favela, porque ela já havia desenvolvido uma identidade em defesa dos direitos das mulheres. A partir de então, Betty relata, "eu comecei a buscar esses feminismos que eram diferentes do feminismo que me vendiam, daquela coisa de mulher queimando o sutiã e tudo isso".

O contraponto em relação à mãe, definida por Betty como "extremamente dominadora", também foi um aspecto que ela cita ter sido muito forte na sua identificação com o feminismo, através do qual diz ter aprendido a ter um pensamento crítico, a se posicionar e a confrontar, seguindo no sentido oposto ao que lhe fora ensinado em casa. Em diversos momentos ao longo da entrevista, a jovem faz referência a sua mãe: impedindo de fazer a faculdade de Filosofia desejada, pressionando para fazer um "estágio normal", ou seja, um estágio em uma empresa, no discurso de aceitação de uma relação amorosa que Betty considerava doentia, e que ao se aproximar do feminismo passa a identificar como machista, entre outros.

As falas das jovens evidenciam o papel das ONGs na aproximação e formação dessas novas militantes ao movimento, uma vez que apenas Alexandra se aproximou dele de outra forma, através da militância no movimento estudantil e partidário, embora depois também tenha trabalhado em um projeto voltado para mulheres de uma ONG.

Merece destaque, igualmente, a constatação de que nenhuma entrevistada chegou diretamente ao feminismo: passaram antes por outros movimentos, tais como o estudantil, o negro, de direitos humanos e por um projeto implementado por uma ONG feminista, mas onde esse viés não estava explícito. Essa constatação, associada ao fato de elas não deixarem seu movimento de origem para militar no feminismo, indica ainda que as jovens, assim como as adultas, estão vinculadas a diferentes redes e filiações, o que favorece a circulação de informações e, em alguma medida, também o contato com outras causas e lutas.

Possivelmente, essa aproximação através de outras formas de organização seja reflexo da imagem que elas tinham do movimento antes de conhecê-lo, quando compartilhavam alguns dos estigmas associados ao feminismo pelo senso comum. Por exemplo, Angela achava que as feministas eram "um monte de mulheres malucas, que não gostam de homem, que querem ser homens"; Betty também assume que "via com todos os estigmas que todo mundo vê, que as feministas eram todas lésbicas, que queriam ser homens", sua primeira surpresa foi ver uma ONG feminista desenvolvendo um projeto para homens e mulheres, no caso, o CD sobre direitos sexuais e direitos reprodutivos.

Perguntadas se o feminismo mudou algo na vida delas, Betty citou o desenvolvimento de um pensamento crítico e o fato de com as feministas ter aprendido a confrontar, diferente do tipo calada e comportada pregado por sua mãe; Angela referiu-se à necessidade de se posicionar e ter argumentação para desconstruir valores e práticas machistas; Alexandra se sentia mais forte e tranquila para entrar nas discussões. Olympe falou da mudança no seu posicionamento em relação à sociedade, relatou que suas amigas diziam que ela estava sempre pronta para fazer um discurso, o que justificou revelando que o tempo todo se sentia instigada pela formação que teve, porém destacava que tudo isso tem que estar associado à mudança das práticas cotidianas, o que, segundo ela, era o principal motivo das suas crises.

Enfim, todas faziam referência a um fortalecimento político no feminismo, processo que em princípio poderia ter acontecido em outros espaços de militância, por exemplo, nos seus grupos de origem. Essas respostas provocam uma nova questão, que não foi feita nessa investigação: que lugar essas jovens ocupavam nos outros movimentos/instituições pelos quais passaram?

Também nos relacionamentos foram indicadas mudanças a partir da aproximação ao feminismo. Conforme afirma Betty, "muda meus relacionamentos afetivos, sem dúvida muda muito. (...) Rola um certo medo nos homens, assim de namorar uma feminista". Outro exemplo é apresentado por Alexandra, quando relata que "na questão da minha identidade sexual, veio muito com a coisa do feminismo. A minha liberdade do amor livre, de sair, de fazer o que você queria, independente".

Além dessas, foram apresentadas outras mudanças nas suas vidas que são atribuídas por elas à experiência feminista. Olympe cita o fato de ser a primeira pessoa da sua família a entrar na universidade; quando falava desse desejo em casa era considerada "a sonhadora" – situação que pode ser melhor compreendida considerando os eixos de subordinação de gênero, raça e classe a que a jovem está sujeita e que exercem influência sobre seus projetos futuros.

Betty fala de uma maior possibilidade de tomar decisões e cita como exemplos a escolha de morar sozinha e do trabalho que deseja, no caso "alguma coisa [trabalho] relacionada aos direitos da mulher, por conta do feminismo". Já Alexandra faz referência à mudança na divisão das tarefas domésticas com seu irmão e o "ser mais libertária comigo", dando como exemplo o desprendimento em relação à moda.

Pautas e espaços específicos?

Das quatro entrevistadas, apenas Alexandra demonstrou não identificação como jovem feminista e não reconhecimento da necessidade de pautas e espaços específicos. Ela assumiu que questões como autonomia econômica, mercantilização do corpo e da vida das mulheres ou aborto "são mais acentuadas na juventude", mas não conseguia ver nada que fosse exclusivo da juventude, posição defendida também pela Marcha Mundial das Mulheres, articulação da qual fazia parte.

As outras jovens entrevistadas concordavam com a necessidade de espaços específicos dentro do movimento, o que foi justificado de diversas formas: poder falar entre iguais (Angela), abrir espaço para novas mentalidades (Betty), potencializar a participação da juventude (Olympe).

Embora não seja um consenso, observando o movimento é possível identificar que em todo o país vêm sendo formados inúmeros núcleos de juventude vinculados a instituições feministas2 2 Nesse caso é possível que a disponibilidade de recursos da cooperação internacional para ações voltadas para juventude também tenha influenciado. , coletivos estaduais, redes regionais e nacionais de jovens feministas, o que revela que essa tem sido uma estratégia freqüentemente utilizada. Aparentemente, esse caminho também tem sido adotado pelas jovens mulheres que atuam em movimentos juvenis, mas nesse contexto tentando superar as discriminações de gênero, como acontece, por exemplo, no hip hop (Souza, 2006). A prática de criação de espaços específicos de mulheres foi muito utilizada pelas feministas há algumas décadas, o que pode ser verificado nos partidos políticos com seus setoriais de mulheres, lá também como estratégia de fortalecimento (Teixeira, 1991).

Ao falar de pautas específicas, Olympe citou: 1) a violência sexual que, segundo ela, atingia mais as jovens e não recebia do movimento a devida importância; 2) a abordagem governamental de questões como gravidez na adolescência e aborto, em que se dirigem às jovens como inconscientes e descuidadas, como se só quisessem saber de bagunça; 3) o fato de estarem mais sujeitas ao "assédio na rua" e aos assédios moral e sexual no trabalho. Convidada a identificar as pautas que considerava prioritárias, Olympe listou: políticas de saúde que atendam às especificidades desse segmento, acesso e permanência à educação e acesso e garantia de trabalho digno.

Ainda sobre as pautas específicas, Betty lembrou que o recorte geracional não fazia parte das reivindicações feministas:

Tem a coisa que a gente traz que é a própria questão geracional, que não fazia parte das discussões, das questões das feministas mais antigas. Eu acho que elas deviam pautar inclusive pra elas a questão geracional, de serem mais velhas e tudo. Então, isso não era uma pauta, isso não vinha nas Conferências, nenhuma, nem nas Conferências de Direitos Humanos e nas de Mulheres, a questão geracional nunca era trazida, como é o tratamento pras jovens, a própria questão dos direitos sexuais e reprodutivos era muito pensada sem pensar nas jovens.

No caso das Conferências de Mulheres, algumas mudanças se fazem notar, o que se pode verificar comparando o I Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM) com o II Plano, resultados da I e II Conferências Nacionais de Políticas para as Mulheres (2004 e 2008), respectivamente.

Conforme analisa Silva (2009), a referência à juventude no I PNPM "é somente um traço formal do texto e não implica uma proposição substantiva de políticas para este segmento, visto que não aparece de forma significativa". Já quando se refere ao II PNPM, a autora destaca que "todos os eixos temáticos especificam ações direcionadas a elas, com o argumento de que a lógica das desigualdades geracionais afeta as mulheres em todas as dimensões de suas vidas". Além disso, a segunda versão do documento apresenta um capítulo específico denominado Enfrentamento das desigualdades geracionais que atingem as mulheres, com especial atenção às jovens e idosas.

Esses dois documentos foram produzidos por coletivos muito mais amplos do que o movimento feminista, mas são bastante representativos da organização e das conquistas já obtidas pelas articulações políticas construídas pelas jovens feministas.

À Angela, que por várias vezes reiterou a necessidade de um recorte racial dentro do segmento em foco neste estudo, foi perguntado primeiro sobre as pautas específicas das jovens negras, ao que respondeu que:

(...) a gente discute as bandeiras do movimento de mulheres negras, a questão do acesso à saúde; o aborto, pois quem sofre mais a questão dos abortos ilegais são as mulheres negras, sobretudo as jovens negras; então acaba sendo focada nessa área da saúde; aí se discute a questão da desigualdade de renda, o acesso ao mercado de trabalho. Então são mais as pautas que tangem às mulheres negras e a gente acaba fazendo esse recorte geracional.

Provocada a identificar quais seriam as questões prioritárias das jovens negras na compreensão dela, foram escolhidos o aborto, a violência e o mercado de trabalho. Ampliando para as jovens em geral, Angela vê coincidência entre as pautas das jovens negras com as demais jovens, mas com ressalvas em relação ao ingresso no mercado de trabalho, sobre o qual faz uma breve análise com recorte racial:

Eu acho que aborto e violência acabam sendo as prioridades das jovens também. Agora sobre mercado de trabalho, as brancas defendem isso numa outra perspectiva, sobre melhores salários, melhores oportunidades. Nós discutimos abrir vagas para a gente, porque a gente ainda não chegou lá. Elas de alguma forma estão lá, mas estão ganhando menos ou num escalão inferior. A gente ainda não está lá, não consegue nem entrar. É o mesmo temário, mas a abordagem é outra.

Em outro momento, Angela também destaca a importância das jovens assumirem discussões como o turismo sexual, que na avaliação dela não recebe a devida atenção das organizações das feministas adultas.

Enfim, as pautas apresentadas indicam que mais do que novas questões, muitas vezes o que as jovens feministas reivindicam é o recorte geracional de pautas já existentes, assim como mais atenção a temas cujo impacto maior se dá na juventude, como a violência e o turismo sexuais. Nesse contexto, destaca-se a legalização do aborto, que já havia sido eleita a pauta prioritária no I Encontro Nacional de Jovens Feministas (ENJF)3 3 O I ENJF aconteceu em março de 2008, no Ceará, contou com a participação de mais de 100 jovens feministas de vários estados do país e teve como grupos impulsionadores: Bahia - Coletivo de Jovens Feministas do Ceat6363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363CEN - Coletivo de Entidades Negras, Coletivo Feminista Marias, Coletivo Loreta Valadares – UBM; Ceará - Centro de Estudos Aplicados de Juventude, Coletivo de Jovens Feministas do Ceará, Instituto da Juventude Contemporânea/IJC, Liberdade de Amor entre Mulheres no Ceará/LAMCE; Espírito Santo - Ana Lúcia Rezende – jovem feminista autônoma; Pernambuco - Jovens Negras Feministas de Pernambuco; São Paulo - Jovens Feministas de São Paulo, Fala Preta, Negras Jovens Feministas, Ceert – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, Articulação Política de Juventudes Negras. O evento possibilitou uma reflexão sobre a condição da jovem mulher e suas principais demandas em cada região, a articulação dessa identidade com outras identidades, principalmente racial e de orientação sexual, a discussão sobre políticas públicas para jovens mulheres e dele resultou a criação oficial da Articulação Brasileira de Jovens Feministas (ABJF). e que foi o único item citado por todas as jovens entrevistadas e, diretamente, por uma das adultas.

Ser jovem no movimento feminista

É curioso notar que as quatro jovens do Rio de Janeiro não citam as relações intra-movimento como prioritárias, embora Olympe, ao longo da entrevista, tenha se referido algumas vezes a essa questão. Essa ausência apresenta algumas questões para reflexão, uma vez que foi uma das principais questões das jovens no 10º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe. A questão também está presente na "Carta de Princípios da Articulação Brasileira de Jovens Feministas", elaborada no I ENJF, que várias vezes explicita seu caráter "não adultocêntrico", seu compromisso com "a eliminação das desigualdades geracionais" e o combate às "opressões geracionais".

Talvez a questão geracional não se apresentasse como prioridade entre as entrevistadas pelo fato das jovens feministas do Rio de Janeiro ainda não terem se constituído como um sujeito coletivo dentro do movimento local, com exceção de alguns episódios pontuais.4 4 Por exemplo, no processo da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, as jovens feministas da cidade do Rio de Janeiro se articularam em prol de uma representação juvenil para as conferências estadual e nacional. Esse caminho interpretativo pode ser reforçado considerando que Olympe, a única a fazer várias referências à questão, é também a única a participar de um grupo específico de jovens feministas, com reuniões e atividades sistemáticas.

Ela cita como exemplo a experiência de coordenar, junto com outra jovem, um ônibus de mulheres a caminho de um evento organizado por diversos movimentos sociais em Brasília. Havia outros sete ônibus e todos(as) os(as) passageiros(as) passaram pelos mesmos problemas, como banheiros entupidos e comida estragada, questões que estavam além do alcance da coordenação de um dos ônibus. Na volta, várias mulheres foram à ONG onde Olympe trabalhava reclamar porque colocaram duas jovens naquela função.

Alexandra foi a única a negar a existência de conflitos intergeracionais no movimento e a necessidade de coletivos de jovens feministas; além disso, considera um avanço a Marcha "ter reaglutinado todo mundo numa coisa só", em oposição à suposta fragmentação e enfraquecimento do movimento causado pela afirmação das múltiplas identidades. Nas suas palavras,

é importante a nossa participação, das mais jovens junto com as mais velhas, a troca e o que sai de resposta cultural através disso, em forma de manifestação, seja em esquete, seja em batucada.

Nesta última afirmação, encontramos um ponto de contato entre Alexandra e Olympe, e também com Rosa5 5 Rosa é uma feminista adulta, que foi responsável pela Secretaria Estadual da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro por vários anos e quando entrevistada era coordenadora de uma ONG, a mesma em que Olympe trabalhava. , isto é, a percepção de que um papel das jovens no feminismo era aquele de promover novas formas de expressão, de preferência animadas, coloridas e ousadas, tais como a batucada, o esquete, o estêncil, o lambe-lambe ou a pichação crítica.

No entanto, Olympe esclarece:

(...) quando a gente vai tentar fazer alguma coisa pra estar no espaço, pra você batucar, pra você colocar energia, pra você pular, beleza, é isso, as jovens são legais pra isso. Agora pra coordenar o ato, pra ter espaço no microfone, pra qualquer outra ação, que seja estar de frente, a gente vai sendo podada, mesmo quando você já está há muito tempo.

As falas dessas duas jovens entrevistadas fazem lembrar Bourdieu (1983:120), segundo o qual os conflitos "são evitados durante o tempo em que os velhos conseguem regular o tempo de ascensão dos mais novos". Ou seja, é possível supor que a primeira não identifique os conflitos intergeracionais por não vivê-los, uma vez que parecia atuar, sem maiores questionamentos, dentro do limite que lhe foi dado pelas feministas adultas6 6 A expressão "feminista adulta" é corrente no movimento e demarca o processo de diferenciação em relação às jovens feministas, no qual estas se reconhecem e reivindicam seu reconhecimento. , diferente de Olympe, que não está satisfeita com esse lugar, embora também identifique a batucada como "uma forma de aglutinar novas jovens".

A associação entre participação das jovens e novas formas de expressão do movimento esteve presente também na fala de Rosa, segundo a qual, as jovens representavam cerca de 40% das participantes da Marcha Mundial das Mulheres no estado do Rio de Janeiro. Quando perguntada sobre quais ações do movimento poderiam ter incentivado a aproximação das jovens, ela afirma:

Eu acho que é a tal batucada da Marcha que atrai as jovens, é a parte lúdica, a parte que tem música, que tem não sei o que... atrai as jovens. Quando a gente vai fazer uma manifestação, que a gente leva as latas, é mais fácil as jovens se aproximar do que só no discurso. Então, acho que são ações, de chamar, coloridas, de festa, não sei que... atrai as jovens. Agora, se o movimento ficar só naquilo, elas vão pra outra coisa.

Respondendo à mesma questão, Olympe, em um primeiro momento, identifica a batucada, as oficinas em escolas, a ida às comunidades com hip hop como iniciativas das feministas visando aproximar jovens, estratégias que vêm sendo utilizadas por vários grupos de jovens feministas em todo o país. Quando perguntada se era isso que havia atraído as primeiras jovens dessa nova geração ou se isso já era consequência da presença delas, a entrevistada reconsidera, dizendo acreditar que era consequência. Segundo ela, as primeiras jovens dessa geração chegaram ao movimento por outros caminhos, principalmente através do contato pessoal com alguma feminista (mãe, professora ou alguma amiga) ou do contato com o ideário feminista.

Sobre como é ser jovem no movimento feminista, Olympe afirma:

Na verdade, tem duas questões. Se você é jovem e recém-chegada ou se você é jovem e já tá batida. A diferença começa por aí. Se você é jovem e recém-chegada, você é tirada, 'ah, tá falando besteira', não te dão muito ouvido, 'mal chegou já está querendo cantar de galo'. E se você é jovem, mas está militando há muito tempo, você ainda recebe umas podadas, mas com mais sutilezas.

Essa afirmação nos remete a uma pergunta frequente quando se discute a participação juvenil em diferentes movimentos sociais: o "problema" é ser jovem ou ser recém-chegada ao movimento?

Muito jovem ou muito nova de movimento?

Aparentemente, os conflitos se agravam na medida em que as jovens acumulam à sua condição geracional o fato de, muitas vezes, serem recém-chegadas ao movimento, portanto, sem qualquer atributo que lhes permita uma parcela na divisão do poder. Segundo Bourdieu (1983), é disso que se trata a divisão entre jovens e adultos. Porém, observando as jovens feministas é possível perceber que a maioria é oriunda de outros espaços de ativismo, tais como ONGs, movimentos estudantis, partidos políticos, pastorais de juventude, movimento negro, entre outras organizações em que essas jovens já tinham alguma experiência acumulada, portanto não são tão inexperientes.

O mesmo autor afirma, ainda, que os conflitos intergeracionais são evitados enquanto os mais velhos conseguem regular o tempo de ascensão dos mais novos. No caso do feminismo, talvez parte desses conflitos seja devida ao não reconhecimento pelas adultas dessa vivência prévia, o que possivelmente gera um descompasso de expectativas em relação a esse "tempo de ascensão".

Nesse sentido, a experiência de Betty pode ser elucidativa. Ela declarou sempre ter tido uma boa relação com as feministas mais velhas, que tinham uma ação para com ela de "passar o bastão", o que se concretizava muitas vezes através da indicação para representá-las em eventos. E isso não deixou de causar estranhamento, conforme relatou a entrevistada, principalmente em espaços onde ela não era conhecida, pois "em geral, quando você vai lá, num evento, num congresso, estão todas lá, aquelas feministas consagradas, em geral, mais velhas, catedráticas, é difícil você ver uma jovem numa mesa dessas".

Para melhor compreender o lugar diferente ocupado por essa jovem, faz-se necessário reconstituir seu percurso até o feminismo. Betty, a mais velha das entrevistadas, 28 anos, se aproximou do feminismo através de uma consultoria para um projeto de uma organização não governamental feminista, na qualidade de advogada e militante no campo dos direitos humanos. Dessa forma, mesmo sendo identificada como jovem pelas feministas adultas, ela era reconhecida por sua experiência profissional, possibilitando outro tipo de relação, o que parecia não acontecer em relação às demais jovens entrevistadas.

Por outro lado, Betty lembra também que:

A gente vê muitas jovens feministas que se sentem usadas pelas feministas mais velhas. Como é que o feminismo usa a juventude, né? Às vezes dão pra gente sempre o mesmo papel. "Ah! Elas são jovens, então bota elas pra puxar uma passeata, elas são mais animadas, bota elas lá na frente, elas vão batendo panela". Sempre aquelas coisas que elas já estão cansadas de fazer.

Bourdieu (1983) afirma que para saber como se recortam as gerações é preciso reconhecer as leis específicas do funcionamento do campo em questão. Tratando-se de feminismo no Rio de Janeiro, talvez os espaços de demarcação das gerações sejam a batucada feminista ou formas de expressão afins, como lugares destinados às jovens, e as funções de coordenação de atividades ou representação política, como lugares destinados às adultas.

Angela, que se declara jovem feminista negra, considera importante a afirmação identitária, mas acredita que:

(...) quando as jovens surgem com esse debate de jovens feministas, elas querem detonar com um monte de conceitos que as adultas construíram em anos de luta. Foram anos ralando pra garantir uma tranquilidade para as mulheres, brancas e negras, pra agora chegar um monte de jovens e dizer que esses conceitos não servem, que estão ultrapassados, que estão equivocadas. Aí, surgem com um monte de esquizofrenia sobre adultocentrismo, sobre não sei que mais, um monte de coisas que não se sustentam, um monte de argumentos que não se sustentam. Tudo bem, tem um monte de lideranças por aí que não se renovam, que estão defasadas, que acham que não tem que ler mais nenhum livro, não têm que se atualizar na discussão que está em voga. E aí, vem uma jovem e quer tomar o lugar delas porque acha que ela não serve mais, acha que o movimento de jovens feministas tem que se sobrepor ao próprio movimento feminista e eu acho que não é assim, cada uma no seu quadrado.

Sobre as relações intergeracionais entre feministas negras ela destaca: "é uma relação mais sadia, porque a gente não tá numa 'vibe' de disputar espaço com elas, porque nossa concepção filosófica é outra, é a partir de uma matriz africana, de respeito ao mais velho".

Essa opinião de Angela, entretanto, não necessariamente representava aquela das jovens feministas negras organizadas em âmbito nacional. Outras possibilidades podem ser sugeridas analisando a Carta das Negras Jovens Feministas - Rumo ao I Encontro Nacional de Jovens Feministas, na qual afirmam:

Saudamos as Jovens Feministas pela coragem e determinação em assumir a luta de combate ao racismo, ao sexismo a lesbofobia e o adultocentrismo como princípios e valores intransgredíveis a ser perseguido por todas as gerações.

Outro documento interessante a ser considerado é a Carta de Princípios da Articulação Brasileira de Jovens Feministas (ABJF), construído e aprovado no mesmo encontro, com participação de várias feministas negras do Rio de Janeiro e de todo o país, no qual por várias vezes é reafirmado o caráter não adultocêntrico e compromisso com o combate às desigualdades e opressões geracionais.

Angela conclui defendendo uma relação entre jovens e adultas feministas em que fique "cada uma no seu quadrado", o que pode indicar uma adesão ao que Bourdieu (2004) denomina "jogo dos recém-chegados". Este consiste, quase sempre, em romper com certas convenções em vigor, mas dentro dos limites da conveniência, sem colocar em questão as regras do jogo e o próprio jogo.

Por outro lado, Angela lembrou também as dificuldades das jovens em se afirmar no movimento. Elas, muitas vezes, precisam mostrar a que vieram para ter o mínimo de credibilidade para assumir determinados lugares, de preferência aqueles permitidos pelas lideranças adultas do movimento. Por exemplo, segundo ela, uma jovem pode ser considerada muito nova para ocupar uma determinada posição dentro do movimento, mas em outros espaços, em que a participação juvenil é valorizada, a mesma jovem se torna boa o suficiente para representar o movimento.

A mesma entrevistada afirma ainda que:

...em momentos específicos você serve, mas pra outros momentos você não serve. (...) A gente tem hoje algumas jovens que já conseguiram chegar em alguns espaços e dialogar com as adultas, com muita dificuldade e resistência, mas conseguiram; e também com essa compreensão, de que não é qualquer jovem que conseguiu chegar lá. E tem ainda aquela coisa, pode vir uma jovem, mas que venha a "fulana".

Um aspecto da luta das jovens feministas que Angela valoriza é o fato de assumirem algumas questões que, na sua avaliação, as organizações das feministas adultas não deram a devida importância, citando como exemplo o turismo sexual, que afeta diretamente o segmento juvenil. Ela acrescenta ainda que há "uma apropriação dessas organizações do tema de juventude sem nenhum debate".

As situações apresentadas acima voltam a indicar as bases em que muitas vezes as relações intergeracionais são estabelecidas dentro do movimento: as jovens se sentem reconhecidas e valorizadas na medida em que aceitam os limites impostos pelas mais velhas (Bourdieu, 1983), assim como percebem que a discussão sobre juventude parece ser incorporada na medida em que seja conveniente às adultas.

Apesar dos conflitos que possam existir, é interessante notar que as quatro jovens se referem a algumas feministas adultas com grande admiração, em alguns casos reconhecendo nelas sua referência de feminismo. Dentre elas, Olympe e Betty citam outras jovens feministas que também ocupam esse lugar.

Por sua vez, as opiniões das feministas adultas indicam relações intergeracionais bem menos conflituosas do que aquelas narradas por parte das jovens. Tanto Simone[7] 7 Simone é uma feminista adulta autônoma, que foi secretária estadual da Marcha Mundial das Mulheres e, quando entrevistada, era uma das três representantes do Rio de Janeiro no Comitê Político Nacional e a única da Região Sudeste na Coordenação Nacional de Articulação de Mulheres Brasileiras. quanto Rosa se remetem a suas experiências enquanto jovens militantes, ao responder sobre essas relações.

Simone lembra:

Está melhor do que na minha época, disso não tenha dúvida. Até porque é politicamente incorreto falar hoje: "Quem é você? Você nasceu ontem, sabe o que de sexualidade?", como eu cansei de ouvir. "Não tem nem sexualidade resolvida e vem falar da sexualidade das mulheres". Isso, hoje, uma jovem feminista não escuta mais dentro de um fórum feminista, mas tem outros problemas, como por exemplo, serem utilizadas como tarefeiras.

A mesma entrevistada destaca que as jovens "trazem um ingrediente diferenciado, elas mexem com conceitos", ao que cita como exemplo a discussão da participação dos homens e a questão da prostituição, temas em que existe muita discordância entre jovens e adultas, tanto de abordagem, quanto da importância dada.

Ainda sobre o mesmo tema, Rosa começa sua resposta de forma contraditória:

Eu acho [risos] que é tranquila, é tranquila. Não sei, porque, por exemplo, é tranquila e, ao mesmo tempo, conflituosa, porque às vezes, no meu caso, eu já fui uma menina militante, então eu vejo uma militante jovem, e fico sempre pensando: será que eu era desse jeito? Mas é muito chato! Entendeu? Porque tem esse conflito, porque as jovens querem tudo pra ontem, não é pra pensar, para não sei o que... Jovem é tipo: quem sabe faz a hora não espera acontecer, então eu acho que esse espírito de fazer agora, de ser voluntarista, de ir, de fazer a pichação, não querer saber se vai ser presa. Então, eu acho que isso é legal. Por outro lado, eu acho que a juventude de hoje traz elementos muito importantes pra geração anterior, seja com a tecnologia, com as maneiras que elas têm de se comunicar. Porque eu acho que o movimento perderia muito se não tivesse as jovens, porque a maneira de se comunicar hoje é outra, não é a das mulheres, "as feministas" do passado, a gente manda uma carta pra chamar alguém, um convite; elas põem no blog, no MSN e espalham em uma hora aquilo que a gente vai levar dias. Então eu acho que, na reunião, essa coisa é tranquila. Agora, eu acho que a troca de experiência também é legal.

A fala de Rosa é marcada pela questão "tempo". A urgência das jovens que "querem tudo pra ontem", o que vem associado, aparentemente de forma positiva, a certa inconsequência: "não querer saber se vai ser presa"; e a rapidez e eficiência do uso da tecnologia na comunicação do movimento.

Ainda é interessante nas falas de Rosa e de Simone o reconhecimento de que as jovens também são sujeitos de direitos e que têm caminhado no sentido de uma maior organização social e da garantia dos mesmos, o que repercute dentro do movimento. Nesse sentido, destaca-se a fala de Simone acerca do quanto é diferente a relação das adultas com as jovens de hoje em comparação a quando ela entrou no movimento, mesmo que, algumas vezes, seja apenas porque atualmente é considerada politicamente incorreta uma fala que desqualifique a participação juvenil. Sua conclusão de que as jovens ainda eram "utilizadas como tarefeiras" sugere que o cuidado identificado no discurso ainda não se efetivou nas práticas.

Para seguir refletindo

Para finalizar, gostaria de recuperar alguns dos principais aspectos levantados neste artigo. As jovens entrevistadas admitem os preconceitos que tinham em relação ao feminismo, relatam experiências de participação em ONGs e/ou movimentos, através dos quais se aproximaram do movimento feminista e nos quais ainda transitam. Elas percebem mudanças na sua vida a partir da militância feminista, mas também chegam dando novas expressões ao movimento e apresentando diferentes formas de participação, de lidar com as múltiplas identidades, de se relacionar com as feministas adultas. Parte dessa diversidade pode ser encontrada entre as jovens entrevistadas.

Há quem não identifique conflitos intergeracionais dentro do movimento e rejeite a afirmação das múltiplas identidades no feminismo. Há também quem, apesar de reconhecer os conflitos, pareça ocupar o lugar de herdeiras do movimento, adotando atitude conciliatória em relação às adultas, o que revela a consonância, por ambas as partes, com uma concepção da juventude como um período preparatório para a vida adulta. Por fim, há ainda quem problematize a inserção juvenil no feminismo, questione e se organize a partir da identidade de jovem feminista.

Diante da escassez de produção científica sobre jovens mulheres, e dos raros estudos sobre jovens feministas, os dados e análises iniciados nesta investigação convidam tanto a um aprofundamento da reflexão sobre a múltipla identidade jovem feminista, sua articulação com outras identidades e seu impacto nas pautas e espaços do movimento, quanto a mais pesquisas sobre o panorama das relações de poder no movimento, a dimensão que isso tem para a permanência das novas gerações e para a continuidade do feminismo em sua luta histórica pela autonomia das mulheres, em toda a sua diversidade.

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  • *
    Recebido para publicação em fevereiro de 2011, aceito em abril. As análises aqui apresentadas fazem parte da dissertação "Jovens Feministas: um estudo sobre a participação juvenil no feminismo do Rio de Janeiro", defendida em maio de 2009, que buscou compreender como se constitui essa identidade e analisar sua inserção contemporânea no movimento feminista da mesma região, a partir da observação de atividades organizadas ou com ampla participação do movimento, análise de alguns de seus documentos e entrevistas semi-estruturadas com quatro jovens e duas adultas militantes feministas. A dissertação na íntegra está disponível em
  • 1
    Com fins de preservar a identidade das entrevistadas, os nomes aqui utilizados são fictícios e foram escolhidos em homenagem a mulheres que são referências do feminismo internacional: Alexandra Kollontai, Angela Davis, Betty Friedan, Olympe de Gouges.
  • 2
    Nesse caso é possível que a disponibilidade de recursos da cooperação internacional para ações voltadas para juventude também tenha influenciado.
  • 3
    O I ENJF aconteceu em março de 2008, no Ceará, contou com a participação de mais de 100 jovens feministas de vários estados do país e teve como grupos impulsionadores: Bahia - Coletivo de Jovens Feministas do Ceat6363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363636363CEN - Coletivo de Entidades Negras, Coletivo Feminista Marias, Coletivo Loreta Valadares – UBM; Ceará - Centro de Estudos Aplicados de Juventude, Coletivo de Jovens Feministas do Ceará, Instituto da Juventude Contemporânea/IJC, Liberdade de Amor entre Mulheres no Ceará/LAMCE; Espírito Santo - Ana Lúcia Rezende – jovem feminista autônoma; Pernambuco - Jovens Negras Feministas de Pernambuco; São Paulo - Jovens Feministas de São Paulo, Fala Preta, Negras Jovens Feministas, Ceert – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, Articulação Política de Juventudes Negras. O evento possibilitou uma reflexão sobre a condição da jovem mulher e suas principais demandas em cada região, a articulação dessa identidade com outras identidades, principalmente racial e de orientação sexual, a discussão sobre políticas públicas para jovens mulheres e dele resultou a criação oficial da Articulação Brasileira de Jovens Feministas (ABJF).
  • 4
    Por exemplo, no processo da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, as jovens feministas da cidade do Rio de Janeiro se articularam em prol de uma representação juvenil para as conferências estadual e nacional.
  • 5
    Rosa é uma feminista adulta, que foi responsável pela Secretaria Estadual da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro por vários anos e quando entrevistada era coordenadora de uma ONG, a mesma em que Olympe trabalhava.
  • 6
    A expressão "feminista adulta" é corrente no movimento e demarca o processo de diferenciação em relação às jovens feministas, no qual estas se reconhecem e reivindicam seu reconhecimento.
  • 7
    Simone é uma feminista adulta autônoma, que foi secretária estadual da Marcha Mundial das Mulheres e, quando entrevistada, era uma das três representantes do Rio de Janeiro no Comitê Político Nacional e a única da Região Sudeste na Coordenação Nacional de Articulação de Mulheres Brasileiras.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Maio 2011
  • Data do Fascículo
    Jun 2011
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