Um pequeno guia ao pensamento, aos conceitos e à obra de Judith Butler

SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Louro, Guacira Lopes. 2012. Autêntica editora, Belo Horizonte

O livro aqui resenhado tem como objeto o pensamento de Judith Butler em relação ao campo da teoria queer. A obra dessa filósofa apresenta-se como um marco incontornável em diversos campos das humanidades a partir da última década do século XX, trazendo reflexões importantes, polêmicas e, muitas vezes, aparentemente inconclusas e herméticas. Judith Butler, professora de retórica e literatura comparada na Universidade da Califórnia em Berkeley, transita por diversas áreas (como a psicanálise, as teorias feministas, gays e lésbicas, e o pensamento pós-estruturalista) para problematizar a identidade, revelando-a provisória e em constante reconstrução.

Sara Salih é professora de inglês na Universidade de Kent em Canterbury. Tem interesses de pesquisa em literatura negra, feminina e caribenha a partir do século XVIII e em teoria pós-colonial. A autora assumiu, com esse livro, o desafio de apresentar os principais conceitos de Judith Butler aos leitores talvez intimidados pela escrita e pela erudição da filósofa. Contudo, Salih adverte que seu texto não pode ser entendido como um substituto à leitura dos livros de Butler. Deve antes ser lido como um resumo ou guia necessariamente aberto e sem definições nem resoluções permanentes.

Como um pequeno e inicial guia ao pensamento de Judith Butler, o livro traz diversas ferramentas que facilitam a apreensão dos conceitos, das referências e dos textos da filósofa pelos leitores. Algumas dessas ferramentas são quadros explicativos que ou resumem conceitos de autores influentes no pensamento da filósofa ou sumarizam cada capítulo ou seção. Ao final do texto, o leitor encontra uma lista completa e comentada dos livros, artigos e entrevistas de Butler (inclusive com indicações, feitas pela professora Guacira Lopes Louro, quem traduziu e anotou o livro, de quais possuem edições em português), bem como das principais obras com as quais a filósofa dialoga.

Uma vez que o livro pretende-se nada mais que um guia introdutório, a autora expõe os principais conceitos butlerianos ao mesmo tempo em que passeia pelas obras mais marcantes da filósofa. Para tanto, ela elege, não de forma arbitrária, um conceito central para cada obra a ser analisada, explicando cada uma a partir dele . Assim, o núcleo do livro resume o pensamento de Judith Butler sobre as ideias-chave (nome dado pela autora a essa seção do texto) de sujeito, gênero, sexo, linguagem e psique.

Ao longo da exposição desses conceitos, um problema central mostra-se de forma recorrente no pensamento da filósofa, qual seja, o da pretensa universalidade do sujeito. Ao lado de teóricas feministas como Monique Witting, Gayle Rubin e Eve Sedgwick, Butler desestabiliza o sujeito ao enredá-lo em estruturas de poder sexuadas e generificadas. A crítica dessas teóricas feministas à estabilidade do sujeito da mulher com o qual a teoria feminista trabalhara desde a década de 1960 deve muito às formulações de Michel Foucault sobre o poder, o sexo e a sexualidade. Os estudos de Foucault compuseram um profícuo quadro em que o sexo pode ser desnaturalizado, passando a ser investigado como entidade discursivamente construída ao longo da história.

Desde já, a desconstrução do sujeito empreendida por Judith Butler caracteriza-a como queer. Como o título nacional da obra já antecipa, o pensamento de Judith Butler está intimamente ligado à teoria queer e aos movimentos políticos que, desde os últimos anos da década de 1980, principalmente nos Estados Unidos, trabalharam para a ressignificação do termo. Como explica Guacira Lopes Louro (2004)LOURO, G. L. Um corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte, Autêntica editora, 2004., os teóricos desse campo constituem um agrupamento diverso e divergente em muitos pontos importantes, porém, com alguns compromissos amplos, tais como a fundamentação teórica no pensamento pós-estruturalista francês e o uso da desconstrução como método de crítica literária e intervenção social.

O termo queer é uma apropriação radical de uma palavra normalmente usada para insultar e ofender e que, ao ser apropriada, torna-se resistente a definições fáceis. A construção (ainda, e em constante, elaboração) do significado alternativo e positivo de queer se fez, a princípio, em um contexto específico das lutas dos movimentos gay, lésbico e feminista nos Estados Unidos e das reflexões dos correlatos grupos acadêmicos. Tal contexto pode ser resumido como as crises internas dos movimentos pautados pela política da identidade, a recepção do pós-estruturalismo por intelectuais feministas, gays e lésbicas e a epidemia do vírus HIV ao longo da década de 1980. Essa tensa mistura resultou em críticas radicais à possibilidade de identidades essencializadas de sexo e de gênero, abrindo espaço para uma categoria mais abrangente, elástica e atenta às práticas e aos grupos até então relegados a segundo plano.

A teórica feminista E. Sedgwick caracteriza o queer como indistinguível e instável, sendo essas características, conforme pontuam diversos autores, a fonte de seu poder crítico. Judith Butler argumenta que essa categoria levanta questões acerca do status de força e oposição, de estabilidade e variabilidade dentro do campo do gênero, que, segundo seu entender, como se verá a seguir, é performativo. Diante das crises dos movimentos identitários surgidos ao longo da década de 1970 (por exemplo, o movimento da liberação gay), o queer construiu-se como a ferramenta para uma problematização construtivista de qualquer termo alegadamente universal. Ao mesmo tempo, o queer apresentou-se como uma nova possibilidade de identidade, todavia sem pretensões de representar qualquer essência dos que o reivindicam. O queer, portanto, recusa a definição e a estabilidade, é transitivo, múltiplo e avesso à assimilação. Recusando-se a aceitar a existência do sujeito (ou de sujeitos femininos, gays e lésbicos) como pressuposto, a teoria queer pretende realizar a desconstrução dessa categoria, defendendo a instabilidade e a indeterminação de todas as identidades sexuadas e generificadas.

Segundo Sara Salih, Butler inicia sua discussão sobre o sujeito com o livro Subjects of Desire, publicado em 1987, fruto da sua dissertação defendida na Universidade de Yale em 1984. Nesse estudo sobre as interpretações do sujeito hegeliano feitas por filósofos franceses ao longo do século XX, a filósofa introduz algumas linhas de investigação que serão recorrentes em seus trabalhos futuros. Destaca-se aqui o interesse pelas formulações hegelianas sobre o sujeito, o desejo e o reconhecimento. Outra questão importante é se a formação da subjetividade dá-se apenas pela negação do Outro pelo Eu, em uma relação radical e constitutiva do sujeito com a alteridade.

Os conceitos de gênero e sexo em Butler consolidam sua desconstrução do sujeito e apresentam as possibilidades de subversão cogitadas pela filósofa. Ela trata desses conceitos em dois livros publicados no início dos anos 1990. São eles Gender Trouble: feminism and the subversion of Identity (1990, reeditado em 1999) e Bodies That Matter: on the discursive limits of "sex" (1993)1 1 O primeiro foi traduzido para o português por Renato Aguiar com o nome Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, publicado pela Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003. O segundo ainda não foi editado no Brasil, apenas sua introdução foi traduzida e publicada, com o título "Corpos que pesam: sob os limites discursivos do "sexo"", no livro O Corpo educado. Pedagogias da sexualidade, organizado por Guacira Lopes Louro, publicado pela Autêntica Editora, Belo Horizonte, 1999. , que são analisados por Sara Salih na seção de ideias-chave. O primeiro é considerado, pela autora, o trabalho mais importante e mais conhecido de Judith Butler. Seu tema central é a caracterização da identidade de sexo e de gênero como performativa.

Retomando a questão dos modos pelos quais a identidade, sobretudo a de gênero/sexual, é construída no e pelo discurso, Butler postula um sujeito como sempre em processo, que se constrói no discurso pelos atos que executa. Assim, a identidade de gênero é conceituada como uma sequência de atos sem ator ou autor preexistentes. A identidade, por exemplo, de mulher, é um devir, um construir sem origem ou fim. A identidade, portanto, está aberta a certas formas de intervenção e de ressignificação contínuas, porquanto seja uma prática discursiva.

Segundo Sara Salih, a filósofa procura combater, em Gender Trouble, a chamada metafísica da substância, isto é, a crença difundida de que o sexo e o corpo são entidades materiais naturais e autoevidentes. Butler argumenta, ao contrário, que o gênero não é natural e que não há uma relação necessária entre o corpo de alguém e seu gênero. Todavia, ela também alerta que, mesmo não sendo natural, o gênero pode se apresentar como se o fosse, nos casos em que se cristaliza.

Uma vez que o sexo e o gênero podem apresentar-se como naturais, a tarefa de desfazer esse engano torna-se mais importante. Judith Butler procura fazê-lo por meio do que ela chama uma genealogia da ontologia de gênero2 2 A genealogia de Butler deve ser entendida no sentido foucaultiano, conforme expresso no artigo "Nietzsche, a genealogia e a história" do filósofo francês: "Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca de sua 'origem', negligenciando como inacessíveis todos os episódios da história, será, ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos começos, prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro; não ter pudor de ir procurá-las lá onde elas estão, escavando os bas-fond; deixar-lhes o tempo de elevar-se do labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob sua guarda" (Foucault, 1979:19). , em que ela investiga o sujeito como efeito das relações de poder. As identidades de gênero e de sexo acontecem no interior da lei, sendo por ela conformada. Observe-se, como Sara Salih faz várias vezes, que Butler trabalha com o modelo foucaultiano de poder, ou seja, como múltiplo, proliferativo e potencialmente subversivo a si mesmo. A liberdade de escolha individual no que concerne ao gênero e ao sexo é limitada, porém existe. A filósofa expõe essa liberdade como a possibilidade de interpretar as normas existentes de gênero, organizando-as de uma nova forma. Entendido dessa maneira, o gênero é um projeto tácito para renovar a história cultural do indivíduo segundo seus próprios termos; uma tarefa na qual ele está empenhado desde sempre. Porém, sempre com as limitações impostas pelos dispositivos discursivos de poder, uma vez que a filósofa postula que não há posição de liberdade para além do discurso.

Pode-se já entrever um dos conceitos mais marcantes do pensamento da filósofa, o gênero como performatividade. Se o gênero é um conjunto de atos repetidos no interior de um quadro regulatório altamente rígido, a identidade é constituída pelas próprias expressões que supostamente são seus resultados. A performatividade é um ato que faz surgir o que nomeia e constitui-se na e pela linguagem. Apropriando-se do modelo foucaultiano de inscrição, Butler estabelece toda identidade de gênero como uma forma de paródia produzida nas relações de poder. A lei é incorporada e, como consequência, são produzidos corpos que significam essa lei sobre o corpo e através do corpo. Logo, os gêneros são apenas efeitos de verdade.

O conceito de performatividade torna possíveis encenações de gênero que chamem atenção para o caráter construído de todas as identidades, sobretudo aquelas mais estáveis. Algumas dessas encenações são mais paródicas que outras, como o drag, que revela a natureza mimética de todas as identidades de gênero.

Sara Salih descreve alguns problemas com essa estratégia de subversão performática sugerida pela filósofa. Em primeiro lugar, a subversão e a agência individual são condicionadas, ou talvez determinadas, por discursos dos quais não se pode fugir. Nesse cenário, há atos subversivos possíveis? Em segundo lugar, como julgar quais atos performáticos são efetivamente desestabilizadores e subversivos? Butler não precisa qual tipo de paródia é subversiva, apenas aponta que a subversão acontece quando as normas de gênero que permitem a repetição e a progressiva cristalização da identidade são deslocadas.3 3 Em artigo publicado em 1993 no periódico GLQ: a journal for lesbian & gay studies, a filósofa detém-se no problema entre performatividade e queer, como teoria e como categoria identitária de gênero, portanto, em si mesma performativa. Ao reafirmar a não intencionalidade da perfomatividade (a não ser em estrito sentido fenomenológico), Butler aprofunda sua reflexão sobre as possibilidades de subversão da aparente naturalidade do sistema binário dos gêneros e da supostamente necessária heterossexualidade, afirmando que a positividade construída para o queer é um exemplo de subversão que acontece no próprio local de construção de sujeitos inferiorizados, espaço que foi reclamado por uma nova ordem de valores e uma nova afirmação política que nega tal inferioridade com o próprio termo da exclusão (Butler, 1993:17-32).

Continuando a apresentar as várias críticas ao pensamento de Butler, Sara Salih comenta rapidamente as considerações de pensadores como Seyla Benhabib, John Hood Williams, Wendy Cealy Harrison e Jay Prosser. Em geral, eles criticam a despolitização que seria gerada pelo pensamento de Butler, que supostamente destrói o sujeito e reduz a luta política à esfera individual e particular, sem, tampouco, explicar exatamente como pode se dar essa forma de luta. Os autores reafirmam a necessidade de um sujeito, mesmo um sujeito fictício, para a luta política. Sara Salih nota, contudo, que muitos desses autores parecem reduzir o conceito de performatividade à performance teatral, o que prejudica o entendimento das palavras de Butler de que não há um sujeito por trás das identidades generificadas. Prosser, por outro lado, identifica problemas na leitura que a filósofa faz de Freud, acusando-a de fazer uma citação equivocada de O Ego e o Id, o que, no seu entender, acarretaria alguns erros no conceito de performatividade. Butler respondeu a algumas dessas críticas no prefácio da segunda edição de Gender Trouble, assumindo algumas omissões e incompletudes.

A autora segue sua viagem pelo pensamento e pelas obras de Butler ao expor as considerações da filósofa sobre a matéria do sexo. São retomados vários conceitos já trabalhados, revelando, novamente, as identidades sexuais como adotadas e assumidas à custa da exclusão brutal de identidades consideradas como marginais e não importantes no contexto da hegemonia heterossexual. Para teorizar o sexo e o corpo como práticas discursivas, Butler recorre a conceitos de vários pensadores, observando a construção do sexo na linguagem por meio da interpelação (Althusser), da performatividade (Austin), da significação (Freud e Lacan), da construção (Foucault) e da recitação (Derrida).

Após isso, Sara Salih resume os conceitos de Butler sobre os grandes temas da linguagem e da psique, ao mesmo em que expõe os principais pontos das obras Excitable Speech: a politics of the performative (1997) e The Psychic Life of Power: theories in Subjection (1997).

A autora mostra como Butler segue articulando conceitos de diversas matrizes para poder aprofundar sua questão principal, a desconstrução da universalidade do sujeito. A filósofa, abordando eventos recentes da história política dos Estados Unidos - como a ampla discussão sobre crimes de ódio (e o julgamento de alguns deles) e a política don't ask, don't tell das forças armadas estadunidenses para, pretensamente, coibir a homossexualidade entre seus membros -, problematiza a questão da linguagem. Ela questiona a responsabilidade de sujeitos discursivamente construídos sobre um discurso que em muito os ultrapassa. Finalmente, Sara Salih expõe o modo como Butler usa a psicanálise, Foucault e Althusser para discutir a relação do sujeito com o poder. Novamente a possibilidade de subversão é afirmada por meio de uma psique que existe numa relação ambivalente com as estruturas de poder.

Sem pretender uma conclusão, Sara Salih encerra sua viagem comentando o estado atual da obra de Butler em relação à produção recente da filósofa e das críticas recebidas por ela até o momento de publicação original do livro. A autora introduz o leitor aos múltiplos diálogos que cercam os conceitos trabalhados por Butler ao longo de sua vida acadêmica, procurando sempre dar voz a todas as partes envolvidas. Mesmo escrevendo a partir do ponto de vista de Butler, Sara Salih não deixa de apresentar as razões de críticos como Louis McNay, Jonathan Dollimore, Alan Sinfield, Vikki Bell, Barbara Epstein, Terry Lovell, Carrie Hull, Martha Nussbaum, entre outros, bem como algumas respostas dadas por Butler.

Justificando o quão queer Judith Butler é, a autora não oferece conclusões que fechem o pensamento da filósofa. Segundo a própria filósofa, ela se mantém ativa e dedicada a colocar os universais e as normas em crise. Se o queer é o estranho, o raro, o esquisito, o que não tem certeza de seu próprio sucesso, a aproximação ao pensamento de Judith Butler pelo leitor, permitida pelo livro de Sara Salih, pode ser feita sem pretensões a uma compreensão completa e acabada dos conceitos trabalhados. Não por qualquer demérito das autoras, ao contrário, porque elas não pretendem uma sistematização acabada de seus trabalhos dentro da teoria queer. Seguindo seu entendimento de que Butler constrói, conscientemente, uma rede teórica dialeticamente não resolvida, o pequeno guia de Sara Salih delineia um percurso possível para conhecer o pensamento, os conceitos e a obra em geral da filósofa. Um percurso que a autora, talvez refletindo uma irresolução e uma elasticidade queer em sua escrita, constrói de forma aberta e em cruzamento com outros textos não só de Butler, mas de diversos autores influentes na construção da teoria queer.

  • Resenha do livro SALIH, Sara. Judith Butler e a teoria queer. Tradução e notas: Guacira Lopes Louro. Belo Horizonte, Autêntica editora, 2012. Recebida para publicação em 26 de janeiro de 2013, aceita em 22 de abril de 2013. O texto foi produzido originalmente como atividade final da disciplina Produção e circulação do conhecimento histórico em periódicos científicos cursada no Programa de Pós-graduação em História da UFMG. Agradeço à professora Regina Horta Duarte, que ministrou a disciplina, e aos colegas pela leitura crítica das versões iniciais da resenha.
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    O primeiro foi traduzido para o português por Renato Aguiar com o nome Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, publicado pela Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2003. O segundo ainda não foi editado no Brasil, apenas sua introdução foi traduzida e publicada, com o título "Corpos que pesam: sob os limites discursivos do "sexo"", no livro O Corpo educado. Pedagogias da sexualidade, organizado por Guacira Lopes Louro, publicado pela Autêntica Editora, Belo Horizonte, 1999.
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    A genealogia de Butler deve ser entendida no sentido foucaultiano, conforme expresso no artigo "Nietzsche, a genealogia e a história" do filósofo francês: "Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimento não será, portanto, partir em busca de sua 'origem', negligenciando como inacessíveis todos os episódios da história, será, ao contrário, se demorar nas meticulosidades e nos acasos dos começos, prestar uma atenção escrupulosa à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o rosto do outro; não ter pudor de ir procurá-las lá onde elas estão, escavando os bas-fond; deixar-lhes o tempo de elevar-se do labirinto onde nenhuma verdade as manteve jamais sob sua guarda" (Foucault, 1979:19FOUCAULT, M. Nietzsche, a genealogia e a história. In: ______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1979, pp.15-37.).
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    Em artigo publicado em 1993 no periódico GLQ: a journal for lesbian & gay studies, a filósofa detém-se no problema entre performatividade e queer, como teoria e como categoria identitária de gênero, portanto, em si mesma performativa. Ao reafirmar a não intencionalidade da perfomatividade (a não ser em estrito sentido fenomenológico), Butler aprofunda sua reflexão sobre as possibilidades de subversão da aparente naturalidade do sistema binário dos gêneros e da supostamente necessária heterossexualidade, afirmando que a positividade construída para o queer é um exemplo de subversão que acontece no próprio local de construção de sujeitos inferiorizados, espaço que foi reclamado por uma nova ordem de valores e uma nova afirmação política que nega tal inferioridade com o próprio termo da exclusão (Butler, 1993:17-32BUTLER, J. Critically Queer. GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies 1, Durham, North Carolina, Estados Unidos, Duke University Press, 1993, pp.17-32.).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Dec 2014
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